Confissões de Laly
27 Capítulo 24 - Aulas de surfe
Envenenar garotas estava definitivamente fora de jogada. Milene Moraes ainda era uma iniciante e precisava ir com mais calma se quisesse fazer maldades dignas de serem registradas em um thriller, sem deixar pontas soltas. Haveria outro meio mais inteligente de se aproximar de Iury e ela se olhava no espelho sabendo disso. Estava desabrochando e as formas de seu corpo chamavam bastante atenção. Associando esse fato ao verão, a ideia brilhante apareceu e não foi negada.
― Papai… — Milene cumprimentou o pai antes de sentar-se à mesa para tomar café-da-manhã.
― Fala, meu docinho de coco. Precisa de alguma coisa?
― Quero aprender a surfar.
― Surfar é muito perigoso, Milene.
— Não acho — discordou a jovem, passando margarina no pão. — Você sempre me aconselha a praticar alguma atividade física e o surfe me parece muito apropriado.
— Você nunca gostou de ir à praia!
— Eu não gostava, agora eu gosto! Estou animada para começar as aulas de surfe quanto antes.
― Posso te dar uma prancha de surfe no Natal e contratar um professor particular após as festas de fim de ano…
Foi assim com o curso de desenho, o teatro e o piano. Amado Moraes fazia todas as vontades de sua musa em fase de crescimento, nunca queria cair nos conceitos dela e enquanto pudesse evitar que um garoto os separasse, concentraria todas as forças para Milene ser eternamente sua menininha.
― Não quero esperar até o ano que vem ― protestou Milene.
― São só alguns dias, Mili. Por que a pressa?
― Conheço um instrutor maravilhoso e eu não sei se ele vai ficar muito tempo por aqui. Todo mundo diz que ele é o melhor no que faz, papai. O que custa, hein? Você sabe não dou à mínima para aquelas palhaçadas de Natal, ceia, presentinho e blá-blá-blá.
Quando atingia o objetivo escondido por trás do repentino interesse, Milene geralmente se fartava das sugeridas atividades alegando “saber mais do que os outros”. Não seria diferente com o surfe de Iury.
☮
Duas horas depois, Milene ostentava uma prancha de surfe razoavelmente cara e procurava avidamente o ponto onde Iury costumava treinar, encontrando-o para fazer parecer que tudo rondava ao acaso.
― Você nunca vem à praia, Milene. ― Iury surpreendeu-se com a aparição de Milene em um lugar o qual a garota nunca frequentava.
― Não tenho companhia. ― explicou a garota.
― E as meninas?
― Continuam magoadas pelo incidente do bolo. Lamentável, não acha?
― Olha Milene, eu não tenho mais nada a tratar com a Lalinha e também não quero ter nenhuma informação sobre ela. Já basta todos os problemas dos últimos tempos. Não tenho cabeça para mais encrencas. Que a Laly seja bem feliz com o mauricinho lá que vou cuidar é da minha vida…
― Não vim para falar dela. ― esclareceu Milene.
― Mas…
― Lamento muito, muito mesmo o que aconteceu. Não o julgo, Iury. Saiba que se você precisar de um ombro amigo pode me procurar. Laly infelizmente tem como passatempo magoar as pessoas que a amam, mas eu não sou ela e não quero que você transfira a mágoa para a minha pessoa. Não é justo comigo!
Milene Moraes insistiu que queria aprender as noções básicas do surfe e o escolheu para ser seu instrutor por ter uma grande confiança nele. A retórica convencia Iury da lisonja, palavras cuidadosamente escolhidas para consumarem o propósito, alimentando o ego de quem era menosprezado pelos candidatos a sogros.
― Ô Milene, você é um doce!
― Você faria isso por mim? ― inquiriu Milene.
― Se você estiver disposta a aprender… ― Iury deu de ombros, tímido.
― Serei uma ótima aluna. Aprendo bastante rápido.
Milene fez aulas de natação no passado e dominava os princípios mais básicos. Fingir dificuldade para equilibrar-se na prancha não passava de um pretexto datado para ser tocada por ele, era questão de tempo para bradar vitória.
― Você não vai levar a mal o que vou falar?
― Não, Milene. Pode falar.
― Iury, se algum dia eu me apaixonar por alguém, quero que ele seja como você.
― Bobagem…
― Bobagem? ― murmurou a garota, ardilosa. ― Bobagem fez a Laly em te destratar desse jeito.
― É a vida… ― Iury deixou escapar um sorriso triste.
― Não vamos falar disso. Não quero falar de nada que o chateie e o entristeça.
A menina inocente se deslumbrou com o selinho roubado.
― Ai Iury, eu não acredito que fiz isso! ― Milene tampou o rosto com as mãos.
― Um dia teria de acontecer. ― concordou Iury, nem um pouco desagradado com a ideia de beijar Milene, supondo que havia chegado o momento em que a garotinha apaixonada sempre sonhou: ser beijada pela primeira vez.
― Isso significa algo? ― perguntou Milene, encarnando perfeitamente a postura de uma menina inocente que nunca havia sido beijada e guardava todo o seu amor para aquele que até então nunca pensou que pudesse vê-la com outros olhos que não fossem os de um zeloso irmão.
― Para você, sim, não?
― Isso significa que você gosta de mim, certo?
Iury aquiesceu sorridente, certo de que nada magoaria mais Lalinha do que vê-lo nos braços de Milene. Se assim fosse, não tinha nenhum remorso de usar a garota para vingar o coração partido.
― Ela só resolveu namorar você porque leu meu diário e descobriu que eu te amava. Ela e o Gustavo já estavam de noivado marcado havia muito tempo e eu sabia, mas ela sempre recorreu a muitas ameaças para eu nunca contar e Gus também… ― dramatizou Milene.
― Que perversos!
― De que adianta? Sei que agora você namora a tal Aimée Gallardo, que é mais velha, bonita, sensual, simpática e para você eu não passo de uma fedelha sem importância.
― Não é verdade, Milene!
Iury acariciou o rosto de Milene e enxugou as lágrimas dela com as pontas dos dedos.
― Não é verdade… Você ainda não se deu conta do quanto é linda, honesta, delicada, pura, sonhadora E eu prometo que serei o namorado mais feliz do mundo se você me disser sim, isto é, se ainda gosta de mim.
― Você acha mesmo que sou especial?
― Não tenho dúvidas!
Milene Moraes foi para casa sentindo-se a garota mais feliz do mundo, enquanto Iury continuou na praia pensando em todos aqueles acontecimentos estranhos das últimas semanas, procurando fazer uma associação da Laly com quem namorou por três anos e aquela descrita por Milene.
Ser enganado arranhava ainda mais o seu orgulho ferido.
― Se ela nunca gostou de mim, então todos aqueles poemas eram mentirinhas… Eu era só um tapa-buraco enquanto o Gustavo não voltava para cá? Quem sempre gostou de mim foi a Milene, a doce e inocente Milene… Como eu nunca percebi que ela é tão bonita, meiga, simpática? O mundo realmente dá voltas…
☮
Nilton convidou Mayra e Naira para passearem com ele, que custeou os sorvetes delas com a maior satisfação. Eles se sentaram em um dos bancos de madeira da praça central da cidade, longe das praias. A movimentação de turistas já era bem maior se comparada com o mês anterior.
Apesar de algumas inseguranças, Nilton Lopes estava confiante de que seria aprovado no vestibular.
― O resultado do vestibular sairá no fim do próximo mês e se eu passar quero convidar vocês duas para o churrasco que o meu pai vai promover para comemorar…
― Eu já estou convidada para o churrasco. ― Mayra, sentada ao meio do casal, aproveitava para estudar discretamente as feições da irmã diante de Nilton. ― Você e a Lalinha farão a festa juntos.
― Isso se o figurão lá deixar. ― lembrou Nilton.
― Se for da vontade de Deus, você entrará na faculdade de qualquer jeito. Sob a vontade de Deus ninguém interfere… ― pronunciou-se Naira.
A conversa dos amigos foi interrompida por um fato no mínimo estranho e inacreditável. Não se tratava de nenhum ÓVNI sobrevoando os céus de Guaratuba ou um meteorito que caiu a alguns metros dali.
Iury e Milene caminhavam de mãos dadas, cheios de mesuras, como se fossem um casal apaixonado de longas datas.
― Gente, eu estou louco ou Iury está caminhando de mãos dadas com Milene? ― comentou Nilton, atônito.
― Não há nem chance, Nilton! Iury ainda ama Lalinha e está com Aimée. ― garantiu Mayra.
― Então veja com seus próprios olhos. Estou louco ou o quê? Pois tenho certeza de que essa menina é Milene.
― E é ela! ― admitiu Naira, fazendo o sinal-da-cruz com as mãos. ― Indecente!
Mayra, desamparada e confusa, seguiu até em casa, onde abriu a porta e segurou um pouco o trinco até recobrar o fôlego. Angustiada, resolveu se aconselhar com Emília, que estava fechando o salão.
― O que houve, Mayra? Está pálida! Até parece que viu um fantasma.
― Vi coisa pior!
― Tudo bem, May? O que houve? ― Emília ofereceu um copo de água gelada para a filha.
― Estou chocada.
― Por que não desabafa?
― Mãe, o que você faria se uma amiga sua ficasse com um namorado seu? ― Mayra perguntou.
― Bom, querida, se ela sabe que você ama seu namorado, não faria isso. Pelo menos é o que penso… Algum problema, pinguinho?
― Sim e não…
― Está apaixonada pelo Gabriel?
― Ah, credo, mãe! Não. Claro que não…
Mayra, abalada, confidenciou a Emília o incidente que aturdiu Nilton alguns minutos antes.
― Será que conto a Laly quando ela voltar de viagem? ― Mayra pedia conselhos à mãe.
― Não sei, querida. Isso é muito complicado! ― refletiu Emília.
― A Laly sempre foi tão boa com ela. Queria eu ter uma prima tão legal como a Lalinha.
― Às vezes as pessoas que mais amamos são as que mais nos decepcionam.
― Ela vem e diz que não gosta da Lalinha, que a Laly roubou o Iury dela e aparece namorando o rapaz logo quando a Lalinha está na maior fossa por causa dele. Todo mundo sabe que eles ainda se gostam, mas são orgulhosos e ainda tem a questão do Gustavo…
― Laly agora é uma mulher comprometida e cabe somente a ela decidir se se casará com o Gustavo ou não. Além disso, você sabe melhor do que eu que a gente não deve atravessar o caminho do Gustavo e de qualquer membro daquela família abjeta.
— Queria ajudar a Laly, mas não sei como…
— Você pode rezar por ela, May. — Emília trouxe a filha para o seu colo.
― Mãezinha, posso te perguntar uma coisa?
― Pode, pinguinho. O que é?
― Eu sou muito feia?
― Por que pergunta isso?
― Acho que sou muito feia.
— De onde você tirou que é feia?
— Todas as minhas amigas têm namorado, menos eu.
Grazielle e Mayra eram muito chegadas antes de Gabriel se mudar para Guaratuba. Fernanda, quando podia ficar com Mário, dispensava a companhia de qualquer outra pessoa, Lalinha se casaria dentro de dois meses; Naira era a criatura mais enigmática da face da Terra.
― Ainda não chegou sua vez, minha criança. Assim como Naira viverá seu momento, você também terá sua vez, mas tudo no seu tempo, Mayra.
― Não acha que está demorando muito?
― Deus não se atrasa, apenas capricha nos detalhes.
☮
Conversando com Nilton, Naira perdeu a missa das 20h e estava desesperada por ser o dia da novena.
― Naira, Deus sabe que você é uma boa pessoa. Por que não aproveita esse pôr-do-sol tão lindo? Não vê o quanto Deus é maravilhoso, o quanto se inspirou para que pudéssemos ver todas essas coisas lindas que Ele criou?
― Tem razão…
― Olhe para este céu, para o mar e se permita sentir um pouco dessa paz, de fazer silêncio. Olhe para você. Tão linda, desenhada perfeitamente. Deus em cada traço te fez uma princesa, uma linda princesa. Linda por dentro e por fora. Seu nome é como uma canção para os meus lábios e a sonoridade me encanta. Falar de você sempre faz com que meus olhos ostentem um brilho diferente o qual todos perguntam há anos e eu desconverso.
Naira abaixou a cabeça, encabulada.
― Já tem tantos anos que quero fazer isso e não posso.
― Porque está contaminado pela lascívia de Milene! ― acusou Naira.
― Que bobagem, Naira. Eu não tenho más intenções com você e nunca terei. Eu apenas te amo.
― Você… Você me ama?
Se Nilton pensasse um pouco mais, talvez não tivesse coragem de declarar todo seu amor à Naira.
― Você nunca percebeu que faço qualquer coisa para estar perto de você? No quanto te quero bem e me adequo ao seu jeito religioso de viver, aceitando suas convicções porque meu amor por você sabe respeitar seu temperamento, suas vontades. Naira, eu te AMO. Eu te amo e tenho chorado, chorado muito. Choro porque talvez nunca venha saber o que é ter você de verdade numa distância muito mais próxima do que a que estamos. Entende, meu bem? Estou segurando suas mãos, permutando energias contigo, mas não sei se por algum momento sente o mesmo que eu…
― Não posso trair minhas convicções. No fim do verão me internarei em um convento. ― pensou uma Naira aflita, disfarçando o coração que batia apressado e os lábios que desejavam tocar os de Nilton outra vez.
― Naira, meu bem. Se quiser dizer algo, nem que apenas um não, manifeste-se agora. Existe algo que você queira dizer?
― Bem…
― Naira, sou eu. ― insistiu Nilton, meigo. ― Não há o que temer.
― Nilton… ― iniciou Naira, sem saber o que dizer a ele.
― Eu não sou um cafajeste. Não quero brincar. Se tiver algo a dizer, não tenha medo de se permitir sentir…
Chorando, Mayra chupava um picolé de limão e observava Nilton inclinar o tronco para beijar Naira. Queria repudiar aquele desejo de ser beijada, afastar aqueles pensamentos e não passar horas confabulando mil hipóteses para se conformar com a solidão. Queria arrancar aquele amor que agora ardia em seu peito juvenil, aquele amor impossível, improvável, fadado a ser somente seu.
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