Confissões de Laly

25 Capítulo 22 - O envenenamento - parte 5


Notas iniciais
Se você tem gatilhos em relação àquele palavrão que começa com “e” e termina com “o” e aquele outro que começa com “s”, pode pular essa parte se não se sentir confortável, tudo bem? Preferi classificar a novela como +18 porque ela tem cenas que podem ser inadequadas a alguns públicos e, como autora, meu dever é sinalizar isso para proporcionar uma leitura mais proveitosa.

O circo estava armado e os leões sedentos de fazer justiça com as próprias mãos acompanhavam aquele escarcéu, peritos criminais de sofá, graduados na Universidade Mundial dos Achismos, despejando um lamaçal de hipocrisia, a exemplo de Iury e Aimée, que assistiam à transmissão na televisão da família Gallardo.

― Acho merecido que essa menininha passe uns bons anos na cadeia. ― murmurou Aimée.

— Vai nada — retrucou Iury. — Quando ela alcançar a maioridade, já terá cumprido a pena.

— Nossa justiça é uma piada. Cumpre um pouco da pena, se comporta bem e sai da cadeia como se nada tivesse acontecido. Queria ver se aqui funcionasse a prisão perpétua e a pena de morte, acabaria toda essa palhaçada.

― Parece até coisa armada. ― Iury pensou em voz alta, intrigado, pensando que se tratasse de homônimas. ― Conheço a Grazi há tanto tempo e nunca a vi nem mesmo gritar.

― Essas daí são as piores.

― É tão difícil de acreditar. Minha ficha ainda não caiu. Conheço uma Grazielle Rodrigues e tudo bate: a aparência, a idade…

― É bom que você acredite. As provas estão todas contra ela. Se ela for inocente ― hipótese já descartada ―, vai ser bem difícil provar com um país inteiro a condenando.

Iury só então associou a carta que o separou de Laly ao incidente do bolo envenenado.

― Queira Deus que eu esteja errado. ― pensou ele, horrorizado.


Gabriel se recusou a assistir à prisão de Grazielle. Inebriado pelo trauma da negação ou simplesmente contestando as pistas que a imprensa bradava como se fossem verdades e incontestáveis, não conseguia se contagiar pela onda de ódio que tomou conta de Guaratuba.

― Será que meu amor é cego ou a justiça finge que não vê? Oh, Deus, como eu queria que houvesse um modo de Grazi ser inocente, ainda que sonhar com isso seja inteiramente em vão… Como eu queria que ela não tivesse culpa nenhuma de nada…


Grazielle, a aluna exemplar, amante dos animais e sempre conhecida pelo temperamento pacato, estava misturada às piores e mais perigosas criminosas do estado, perdendo a paciência com as provocações das outras garotas que sendo mais fortes e repletas de malícia, poderiam facilmente liquidá-la.

Grazielle Rodrigues detestava brigas, não utilizava a violência para solucionar problemas, entretanto, Milene Moraes havia despertado nela uma ira tão grande que, quando uma das detentas a ridicularizou por conta do cabelo, instintivamente partiu para o ataque como forma de se impor, se defender. Certamente, não era um bom começo para quem queria provar sua inocência.

Por conta da briga que teve, foi mandada para a solitária, sem direito a refeições ou mesmo ao banheiro. A escuridão era sua única certeza dentro daquele cubículo imundo que remetia ao gelo profundo de um túmulo, do fim subentendido, das injustiças que fenecem sem direito a um habeas corpus.

Perdeu o respeito da cidade, o amor de Gabriel, a amizade de Mayra, o emprego na Sociedade Protetora dos Animais, viu a mãe ser presa inocentemente e perdeu a liberdade. Não se importava mais com o que pudesse vir. O pior já lhe havia acometido.


Para não ouvir as notícias na televisão, Gabriel Gallardo não saía do quarto, não estava se alimentando direito e evitava qualquer contato para não ter que se pronunciar sobre o caso.

Gilberto se preocupava com a reação do filho caçula:

― Alguém tem que conversar com o Gabriel.

― Eu tentei conversar com ele, pai. Eu tentei, mas ele recusa visitas. ― admitiu Aimée, acuada diante da introversão de Gabriel.

― Eu também acho que os veículos de comunicação estão pegando um pouco pesado com a menina e, de certa forma, meio que convencendo o povo a acreditar que a Grazielle é o mal do mundo, culpada pela Guerra Fria, pela hiperinflação, pela miséria no mundo, pela poluição do meio ambiente — desabafou Fernanda.

— Já não espero nada desse jornalismo que manipula resultados de pesquisas e edita debates para favorecer marajás disfarçados de prodígios. — concordou Gilberto.

— A Grazielle pode até ser inocentada, mas nada mais será como antes; muita gente ainda vai continuar acreditando que ela envenenou todo mundo ― concluiu Fernanda.

— Você acredita na inocência daquela bandida? — gritou Aimée.

— Na Milene é que não! — respondeu Fernanda, que desceu as escadas injuriada com a facilidade de Aimée em ser manipulada.

Naira não estava acostumada com as borboletas no estômago. Na rodoviária esperava os ônibus chegarem. Só o fato de saber que Nilton estava em um deles era suficiente para deixá-la mais ansiosa do que já se encontrava naturalmente. Queria lutar contra os próprios instintos, punir-se por um desejo tão natural, mas, ao mesmo tempo, ele era um dos seus melhores amigos e de qualquer maneira seria justo esperá-lo, mostrar que o considerava uma pessoa importante em sua vida. Por esse lado, não podia crer que amar fosse pecado.

Nilton desceu do ônibus, era sempre bom voltar para casa. Melhor ainda foi reconhecer Naira o esperando em meio àquele formigueiro humano que era a rodoviária em tempos de férias. A emoção dele foi tão grande que quase pisou em falso, mas era um daqueles instantes em que sorrir fazia mais sentido do que pensar profundamente. Por alguns momentos sentiu vontade de chorar.

Naira estava ali. Por ele.

Ela podia ser muito tímida e enigmática na maioria do tempo, mas era capaz de reservar grandes surpresas aos incrédulos.

Eles se aproximaram fisicamente e se abraçam com força.

― Naira! Você por aqui!

Quem acabou chorando foi ela.

Nilton, preocupado, passou as mãos no rosto de Naira, sentindo que daquela vez era permitido tocá-la, abraçá-la, acomodar os soluços dela, oferecer todo o amparo que gostaria, todo amor do mundo para acalmá-la:

― Que bom que você voltou, Nilton! ― exclamou Naira, tentando se recompor como se demonstrar suas emoções a colocasse num estado de inferioridade perante ele que desejava escutar mais coisas, mas para um dia eram surpresas demais.

― É tão bom te ver de volta, Naira. ― Nilton colocou Naira em seus braços. ― Não precisa ter medo de mim.

Naira abriu um sorriso tímido. O coração disparava como nunca.

Nilton olhou fundo nos olhos dela e jurou a si que se não fosse naquela hora, poderia não ser nunca mais.

Os lábios de Naira e Nilton foram se aproximando bem devagarinho e se tocaram de estalo. Ela ainda poderia fugir, mas não conseguiu. Simplesmente não.

Naira estava amedrontada com o primeiro beijo de língua, mas se saiu bem para quem nunca tinha sequer treinado no espelho porque Nilton, mesmo dividindo a inexperiência com ela, mantinha a calma.




Mais tarde, Nilton contou tudo a Iury.

― Ah, para, Nilton…

― Juro que a beijei, Iury. ― Nilton suspirou apaixonadamente: ― Ela é delicada e dá um beijinho que tão doce que até parece que meus lábios ficaram com um pouco desse mel.

― No começo eu também curtia beijar na boca, mas daqui a uns tempos a santinha não vai querer só beijo… Você está disposto a apagar o fogo dela?

― Deixa de ser chato, Iury. ― retrucou Nilton. ― Mulher não é só um pedaço de carne, não.

― Eu é que não sei como consegui namorar três anos sem dar uma descarregada…

― Vê se toma cuidado com esse negócio de coito interrompido porque uma hora falha, a Aimée engravida e aí quero só ver se você vai se casar com ela.

Iury bateu três vezes na tábua da escrivaninha com o punho fechado.

— Ela que se ferre! Eu não caso nem arrastado! Mas agora tenho um assunto muito sério a tratar com você.

― Você nunca foi de fofocar…

Nilton não conseguia encontrar veracidade nas palavras de Iury porque aquela narrativa parecia ter sido extraída de um roteiro de novela mexicana.

― Grazi? Meu Deus… A Grazi? Tem certeza?

― O caso repercutiu tanto que a TV só está falando nisso dia e noite.

― Nunca vi Grazielle dizer que odiava ninguém.

― Eu também não.

― Será que não armaram uma arapuca para cima da Grazielle?

― Quem atentaria contra ela?

― Sei lá… Sou péssimo em dar palpites…

Iury lembrou-se novamente do bilhete incriminador que chegou às mãos de Laly e sentiu um arrepio horrível tocar-lhe a espinha dorsal.

― Queira Deus que eu esteja errado!

Nilton se comoveu tanto com o fato de saber que Mayra quase morreu que ao ver um bichinho de pelúcia na floricultura onde comprou um buquê de rosas-brancas para Naira, não pensou duas vezes.

― É para mim? ― perguntou Mayra, impressionada com o gesto de carinho daquele que tinha chances reais de ser seu cunhado se Naira não retrocedesse.

― Sim. ― Nilton balançou a cabeça, chamando a amiga para um abraço. ― Para você olhar para ele quando se sentir triste e se lembrar de que sou seu amigo e sempre vou estar aqui por você.

Mayra nunca mais deixou de dormir com aquele ursinho o qual batizou de Anjinho. Ele tinha o cheiro de Nilton.



Fernanda pintava as unhas no quarto, com o aparelho de som ligado, procurando espantar um pouco daquele clima fúnebre que contaminou Guaratuba. Ainda era fosse bastante difícil ser alheia ao caso quando se era uma das vítimas da maldade alheia, que por muito pouco não lhe custou à vida.

Por algum motivo, Fernanda não odiava Grazielle. Alguma coisa na fala dela não lhe convencia de que fosse a verdadeira autora do crime. Ainda que todos estivessem comprando fielmente àquela ideia, não era o suficiente para esclarecê-la.

Um flashback em sépia na mente de Fernanda reviveu os instantes em que Milene visitou a casa dos Gallardo com o recipiente em mãos. Ela era uma testemunha-chave e vinha relutando para depor porque, ao contrário de Milene, não lhe agradava estar sob os holofotes dos noticiários policiais, muito menos acolher a ideia de justiça com as próprias mãos.

Nada enojava mais Fernanda do que ver as entrevistas de Milene. As crises histéricas de choro, a entonação dissimulada, o ódio que ela fez as pessoas desenvolverem por Grazielle Rodrigues.

O depoimento surpreendente de Fernanda dividiu as opiniões dos investigadores que colhiam o maior número possível de informações para encerrarem o caso quanto antes. Pela linha de raciocínio do delegado responsável, se Milene era uma criminosa em potencial, passava muito bem por mocinha indefesa e conseguia conquistar a simpatia de todos os adultos graças ao carisma que fazia todos caírem aos seus pés. Ela estava acima de qualquer suspeita, mas em uma investigação tão séria quanto àquela, até que as evidências a inocentassem, todos podiam ser mocinhos e vilões.

Milene foi invitada a depor novamente e negou todas as informações fornecidas por Fernanda Gallardo, admitindo, sim, que pediu a ajuda de Grazielle para preparar o bolo, argumentando, porém, que confundiu os frascos do veneno com o granulado colorido, uma vez que os peritos confirmaram a semelhança entre os dois. Ainda assim, a hesitação da garota no segundo depoimento levantava dúvidas quanto à veracidade do relato anterior, pois as incoerências eram grandes e em vários momentos a prima de Laly demonstrou agitação, incômodo, fugiu de perguntas, deixando várias lacunas que permitiam aos especialistas discorrerem.

Em função das declarações feitas pelas novas testemunhas, não havia indícios que justificassem a (injusta) prisão de D. Sabrina Rodrigues e da menina Grazielle. A soltura delas não atrapalhava o andamento dos trabalhos e nem colocava vidas humanas em risco.

O noticiário local daquela noite dedicou mais da metade de uma edição de vinte e cinco minutos para o caso do envenenamento, com direito a opiniões de vários criminalistas em relação ao depoimento de Fernanda e as contradições apontadas por eles na fala de Milene.




Na manhã seguinte, Sabrina e Grazielle voltaram à liberdade e a mesma cidade que depredou a residência delas e as difamou foi aquela que pintou os muros e paredes, angariou doações para reconstruir os vidros quebrados, tudo para recebê-las com honrarias de heroínas.

O caso seria arquivado por falta de provas para acusar Milene Moraes de envenenamento, mas os moradores ainda comentariam o incidente por baixo dos panos e nunca se contentariam com a versão dos investigadores apresentadas numa coletiva de imprensa exibida ao vivo na televisão com a divisão de tela para mostrar a chegada de Grazielle e Sabrina a Guaratuba.

Na rua onde as mulheres moravam, uma multidão as aguardava, mas não para linchá-las. Milene era uma dessas pessoas. Fazendo de conta que estava magoada por julgar mal a índole da amiga, pediu ao pai para comprar um cachorrinho de pelúcia a fim de presentear Grazielle.

― Milene é mesmo uma menina de ouro. Caráter igual e coração tão puro não há. — exultou Amado, afagando a cabeça da filha.

― Obrigada, papai!

Fernanda e Mayra não se convenceram com o encerramento do caso e queriam se retratar com Grazielle, ainda que ela estivesse no direito de não querer mais manter contato com ninguém.

― Nem sempre o bem triunfa. Olha ela ali… Que cínica desgraçada… Se eu pudesse, a puxava pelos cabelos e a fazia confessar tudo… ― esbravejou Fernanda, indignada.

― Ela vai ter o que merece.

― O problema é que às vezes a justiça demora muito para ser feita.

― Diante desse caso, minha conclusão é a seguinte: a justiça não só tarda como falha. ― ironizou Aimée.

― Vê se fica bem de olho no Iury porque a envenenadora é louquinha por ele. ― Fernanda alertou a irmã.

― Ela que mande um olharzinho malicioso para ver se não a coloco em seu lugar. Comigo o buraco é mais embaixo.

Quando Grazielle reconheceu Gabriel na multidão segurando uma rosa-vermelha, seus olhos se encheram de lágrimas.

Como podia ser amar tanto alguém daquele jeito?E mais do que isso: esse sentimento continuar inabalável mesmo depois de tudo que aconteceu?

Os olhos de Gabriel se encharcaram ao ver Grazielle. Eles pararam de frente para o outro e se abraçaram como se tivessem passado dez anos separados.

Gabriel olhou bem dentro dos olhos da amada e ela podia sentir o quanto as lágrimas que eles não faziam questão de esconder eram realmente sinceras.

― Você continua com muita raiva de mim? ― perguntou Grazielle.

— Como eu poderia sentir raiva se você não me deu motivos para isso?

Grazielle abraçou Gabriel com força e ele a pediu perdão por ter se deixado contaminar pelo clima de desconfiança e ódio que marcou aquela semana:

― Como nós ficamos? ― Gabriel, brincando com os cachos do cabelo de Grazielle, quis saber.

― Como sempre estivemos. ― respondeu ela, sorridente.


Na sexta série, Mayra se apaixonou pelo professor de geografia com quem chegou a ter uma inocente amizade, até porque o mestre em questão já era casado e a via como filha, amiga, alguém a quem tinha grande afeto e confiança, mas nada superior a isso. Esdras Paes, o nome dele, um exímio mestre que nunca flertou com nenhuma aluna e sempre foi muito ético em classe, tratando a todos os alunos com respeito e dedicando atenção àqueles que apresentavam dificuldades na disciplina e fora dela.

Era o caso de Milene Moraes. A garotinha de doze anos não tinha um comportamento muito comum. Esdras percebeu que a aluna em questão demonstrava algumas atitudes que o fizeram crer piamente que ela sofresse abusos por parte do pai. No entanto, intrometer-se na vida dela foi um erro que o condenou, pois quando Milene foi inquirida acerca de supostas relações, acusou o professor de tê-la assediado.

Estourou um grande escândalo no colégio pela acusação de estupro a uma vulnerável. As opiniões dividiram-se. A versão da acusação foi aceita sem contestações e todos desejavam que houvesse punição para aquele ato atroz. Milene Moraes sempre foi conhecida pelas dificuldades de adaptação e socialização com os outros colegas. Alguns pedagogos, apesar de não externarem, consideravam-na extremamente arrogante, mas acreditavam que o comportamento esquivo tinha ligação intrínseca com o suicídio de Silvana Moraes, logo temiam que a criança repetisse as atitudes da mãe.

Esdras negou qualquer envolvimento com Milene Moraes em todos os depoimentos. Entretanto, os exames de corpo de delito indicaram o rompimento do hímen de Milene — poderia ter sido por qualquer outra razão, até mesmo naturalmente.

As circunstâncias desfavoreceram qualquer chance daquele homem provar a própria inocência. Antes de ser preso sentiu o peso da condenação popular, os julgamentos e as represálias concernentes. Desistiu da batalha antes de qualquer veredicto. O caso só não foi parar na mídia porque a coordenadoria do colégio não quis expor a instituição, enquanto o verdadeiro abusador se passava facilmente por “pai herói”.

Notas finais
Gostaria de saber como vocês reagiriam se estivessem no lugar da Grazielle, enfrentando uma grande injustiça, o peso do julgamento popular e fossem expostos como ela foi. Vocês aceitariam desculpas/perdão de quem comprou os boatos como verdadeiros e tentaria seguir como se nada tivesse acontecido ou se afastariam de certos “amigos”? Milene ainda vai aprontar muito, então continuem acompanhando CL para ver aquela que vocês amam odiar. Para finalizar, meus mais sinceros agradecimentos. A gente se vê no próximo capítulo, um forte abraço e até lá. ♥