Confissões de Laly
26 Capítulo 23 - Fios soltos/Férias em Curitiba 4 (Laly)
Notas iniciais
Concluída a maratona de provas, tudo o que eu queria era descansar até o Natal, com justa razão. Os vestibulandos não me deixam mentir.
Nada como assistir um pouco de televisão com seus primos queridos, preparar um balde de pipoca e relaxar. Isso tudo seria possível se não fosse por um boletim extraordinário que roubou a cena e o meu apetite também antes do jantar. Tia Conceição adorava a novela das sete e nós jantávamos ouvindo o bom e velho Vinte Horas.
Envenenamento em Guaratuba. Mais impressionante: Grazielle estava sendo presa. Não era uma Grazielle qualquer, o sobrenome Rodrigues poderia ser apenas coincidência, mas eu não estava delirando. A minha amiga Grazi estava detida e, segundo as informações que chegavam, por envenenar Fernanda, Mayra e Milene.
Quem acompanhava a transmissão pela televisão imaginava Grazielle Rodrigues como uma psicopata inescrupulosa que preparou um bolo de chocolate para matar as supostas inimigas, isso se Fernanda e Mayra não tivessem passado mal logo após ingerirem a massa. Se as meninas não tivessem sido encaminhadas ao pronto-socorro e submetidas a uma lavagem estomacal, sabe-se lá o que poderia ter acontecido. Mas não aconteceu.
Milene não ingeriu o bolo e argumentava ter sido ameaçada pela suposta algoz. Minha prima não gostava de doces, sendo uma das poucas crianças que conheci que não gostava de chocolate, nem chiclete, nem as famosas balas de banana que tanto faziam sucesso entre os turistas que vinham e voltavam de Paranaguá com pacotes delas.
Aimée não consumiu o bolo porque estava passeando, Gabriel também. Grazielle se virava bem na cozinha, porque nem sempre podia contar com a ajuda da mãe, enquanto Mayra amava cozinhar. No entanto, se Grazielle e Milene eram grandes amigas e, para todo efeito, Mayra também, por que diabos esse envenenamento desfocava a atenção da economia e da política?
Eu estava confusa demais para raciocinar com alguma franqueza.
Quem conhecia Grazielle desde sempre sabia que os fatos não conferiam e realmente eu até julguei estar alucinada, ainda que todos ao meu redor tentassem me mostrar a “verdade”.
Telefonei à Milene para checar se tudo estava bem. Chorando muito, ela me confirmou a tentativa de homicídio, detalhando todos os planos malévolos da ex-amiga.
― Você podia ter morrido. Por que Grazielle fez isso?
― Ela queria matar você, a Mayra, as irmãs do Gabriel e a mim…
― Credo, mas por quê?
― Não sei! ― Milene esganiçava confessando a contragosto o que houve durante a minha ausência.
― Ninguém sai querendo matar ninguém sem explicação. Tô pensando em voltar para aí. Quero te apoiar, ficar aí do teu lado, Mili. Você deve estar precisando muito de carinho e companhia.
― Não volta não, Lalinha. Vou ficar bem. ― Milene recompôs-se de imediato, recusando a minha presença, a minha ajuda.
― Tem certeza?
― Tô bem, Laly. Vá aproveitar suas férias…
Como se fosse possível sorrir e me divertir tendo consciência de que o mundo de pessoas próximas estava desmoronando e meu temperamento questionador colocou em xeque a tendenciosa cobertura da mídia.
Havia muitos fios soltos na história. Estavam todos cegos para não perceber. Mesmo estando extremamente cansada por conta do vestibular, não consegui dormir pensando em Grazielle e nesse caso tão estranho de envenenamento.
O destaque do noticiário matinal exaltava um nauseante sensacionalismo.
― Tensão. ― pontuava o apresentador com expressões falsamente imparciais. ― A primeira noite de Grazielle Rodrigues, acusada de tentar assassinar três jovens no litoral paranaense, foi marcada pela violência…
Eu conhecia Grazielle Rodrigues como a palma da minha mão. Ela cresceu frequentando a casa de Milene, o salão de D. Emília, a minha casa também.
Grazi, como sempre foi conhecida, nasceu em Guarulhos, São Paulo, chegando a Guaratuba quando tinha pouco mais de nove anos já trazendo na bagagem uma triste história de vida. O pai, um biólogo de futuro promissor, foi rendido por dois bandidos quando voltava para casa.
Além do Fiat 147, queriam raptar a pequena Grazielle; visando proteger a única filha, o homem entrou num duelo corporal com um dos quadrilheiros, sendo baleado pelo outro, morrendo no local do crime, deixando a menininha órfã. Traumatizada, D. Sabrina voltou para a casa dos pais para recomeçar longe da violência urbana que lhe custou o “feliz para sempre”.
Grazielle era apaixonada por animais, mostrando que seguiria os passos do amado pai. Gostava muito de gatos, porém só teve a chance de adotar um quando a avó faleceu vítima de um infarto. Paralelamente aos estudos, sentia-se lisonjeada por resgatar animais perdidos e devolvê-los aos donos ou negociar adoções, alegrar crianças que perdiam seus cachorrinhos e gatinhos. Limpava as gaiolas, alimentava os bichinhos, recebia as pessoas, comprava mantimentos e produtos de limpeza com a mesada que a mãe oferecia. Com isso, prosseguia com os sonhos daquele que se foi antes de cumpri-los, deixando linhas pela metade e uma saudade que nem mil velas dedicadas curam.
Grazielle não era a envenenadora sem piedade que os repórteres narravam mediante reportagens tendenciosas e sensacionalistas, valendo destruir reputações por pontos a mais no ibope, por um reconhecimento não merecido, porque estavam colhendo informações de cunho calunioso para terem pauta, estando longe de ser um processo limpo, digno.
Minha amiguinha não passava de uma criança para ser tão duramente execrada e humilhada. Não conseguia curtir minhas férias sabendo que a sociedade estava fazendo o julgamento precipitado de uma inocente.
Grazielle poderia ser algoz do crime e se fosse comprovado deveria pagar pelo que fez.
E se não fosse? E se essa jovem realmente fosse inocente? Como provaria? Como isso afetaria o resto de sua vida?
Possivelmente, se a lentidão da justiça não nos decepcionasse, Grazielle e Sabrina poderiam ser indenizadas pelo Estado pelos prejuízos materiais e morais, mas quem as ressarciria pelo trauma emocional de serem detidas, espancadas, humilhadas e difamadas perante uma nação toda?
Convicções à parte, dinheiro não compra de volta a fé perdida.
Chorei compulsivamente ao ver o humilde lar de D. Sabrina ser saqueado e depredado por vândalos, filhos da mãe que, fazendo justiça com as próprias mãos, crentes de subirem nos conceitos de Deus e da sociedade, entoando gritos de guerra, pichando palavras de baixo calão, difamando a imagem das suspeitas. Se nem o Ministério Público havia oferecido uma denúncia formal e a investigação estava em andamento, quem eram aqueles calhordas na ordem do dia para absolver e condenar?
Na percepção deles de “justiça”, não se ouvia o outro lado da história, paus, pedras e porretes davam o decreto final. Com a cobertura ostensiva e tendenciosa da imprensa, todos os princípios do bom jornalismo eram escanteados em troca de mais aparelhos sintonizados.
Sabrina era uma jovem viúva que trabalhava em dois empregos para manter a casa alugada em que vivia com a única filha. Bibi, como nós carinhosamente a chamávamos, era moderna, descolada e o que tinha de linda tinha de ajuizada e honesta. Jamais havia ensinado maus valores à Grazielle e disso eu tinha certeza.
Grazielle não matava nem mesmo insetos. Valorizava a vida. Nunca foi vista se envolvendo em brigas, odiava a violência que levou o seu pai. Nunca faltou com o respeito com os mais velhos, sempre temeu a Deus e o amou acima de todas as coisas. Alguma peça naquele tabuleiro não se encaixava. Não queria acusar Milene porque temia cometer uma grande injustiça. Nunca me passou pela cabeça que ela fosse capaz de cometer de tamanha monstruosidade.
Sonhava, sim, em ser jornalista, no entanto, queria escolher um ramo que tivesse mais a ver com minha personalidade. Pensava em ser crítica musical, literária ou de moda. Do setor policial, caía fora. Odiava quando o telejornal insistia em cobrir crimes bárbaros e esquecia o resto do mundo como se o Brasil se resumisse ao local do crime, a delegacia e ao IML. Odiava mais ainda os urubus que, mesmo sem ter estado no local do crime, acusavam sem evidências e queriam a todo custo fazer justiça com as próprias mãos.
Às vezes pensava se queria mesmo passar no vestibular, se era esse o meu destino. Talvez eu pudesse ser boa em outra coisa, escolher outra profissão menos cruel. Bastava uma lexicalidade para construir ou destruir alguém.
Será que eu tinha esse poder?
― Que bobagem, Lalinha. Você fica se preocupando com coisas demais. Relaxa! ― aconselhava Daniela, para quem a única utilidade da televisão era ver desenhos animados, novelas e os videoclipes naquele canal que recentemente tinha sido lançado na tevê aberta e contava com VJS interagindo com o público, os tops musicais e programas de diferentes estilos. Daniela adorava dance music e Everton, o namorado, heavy metal.
Não sei se eu poderia sentar e relaxar assim tão facilmente. Só o fiz quando o caso foi encerrado, apesar dos milhares de fios soltos que deixaram o público boquiaberto. Tão logo veio à tona o desaparecimento de um importante político de Guaratuba que, por assim dizer, “ofuscou” o envenenamento das meninas e chamou mais a atenção da imprensa, até porque se tratava de um antigo e histórico inimigo de Jordano Figueira Antares.
A mesma mídia que execrou Grazielle cobriu a soltura da jovem como se a própria carregasse consigo, além da liberdade, a taça do Tetracampeonato (estávamos no final de 1991 ― caso alguém queira me corrigir) e tivesse sido a autora do gol que deu o título à seleção.
― Antes de sair julgando os outros, que pelo menos tenha provas. Agora é tarde para reparar o erro…
― Você vai ser uma jornalista bem polêmica. Fala o que pensa, não se deixa manipular e não leva desaforo para casa. ― Dorminhoco comentou olhando para os meus seios marcados numa blusa vermelha.
― Meu problema por vezes é ser sincera demais. Acabo ganhando alguns inimigos por isso.
― E muitos admiradores. ― Fuinha deu uma piscadela tentando confortar todas as minhas divagações em grupo, meus questionamentos que nunca tinham respostas.
― Mais inimigos que admiradores. ― reforcei, sem dar trela para cantadas forçadas, fossem de Fuinha ou do príncipe da Inglaterra.
Diferentemente da rotina da minha cidade onde acordava cedo e me deitava bem tarde, em Curitiba era possível dar-me ao luxo de despertar às nove da manhã para assistir aos desenhos animados na sala, junto a Daniela e Túlio e sair com Dorminhoco, Fuinha, Everton e uma galerinha simpática.
Fomos ao Parque Barigui jogar vôlei uma centena de vezes, cansamos de dançar nas discotecas da vida e mais do que nunca o Natal se aproximava. Com ele também o fim das férias e o recomeço da tortura.
Se minha vida fosse uma novela, estaria na fase onde o vilão só adormeceu e a qualquer momento vai abrir as garras da mocinha novamente, apesar de fugir do estigma de santinha e perfeitinha. Aliás, odeio diminutivos.
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