Confissões de Laly

6 4. O Noivado (Laly)


Tem cicatrizes que grudam na memória e redefinem completamente o coração de uma pessoa.

Terceira pessoa OFF/Laly ON

Guaratuba, 1º de dezembro de 1991.

Pouparia detalhes, se possível. Pularia para qualquer dia em que pudesse me esquecer, mesmo que brevemente, da fatícia noite de 30 de novembro. Se fim de ano era sinônimo de renovação e esperança, para mim era indiferente.

Despertei lentamente, como quem demora a se situar no tempo, num ponto opaco, incerto, subjetivo. Concluí que todas aquelas horas de sono foram insuficientes. Parecia apenas um sonho ruim, mas não era. O monstro estava mais perto do que eu imaginava. Podia vê-lo sentado no sofá da sala, com as pernas cruzadas, tomando conta do ambiente. A voz cantada era a melodia macabra a ecoar no subconsciente nas noites em que apenas a solidão me fazia companhia.

Meu silêncio não era por acaso. Gustavo Figueira Antares gostava de ser o centro das atenções e em suas histórias era sempre o grandiosíssimo herói. Meu pai bajulava o rapaz, comprava cada um daqueles superlativos hiperbólicos, acreditava nas tais “boas intenções” e Eleonora, minha madrasta, fitava-o como se o próprio fosse uma estrela de cinema.

― Estou me formando como o orador da turma ― gabou-se Gustavo.

― O que te traz para esse fim de mundo? ― quis saber Edílson. ― Um homem do seu quilate não vai ter como crescer vivendo aqui.

Gustavo abanou a cabeça. A falsa modéstia também era uma característica forte nele, quando convinha, claro.

― É muita generosidade sua, seu Edílson. Pode ser que a metrópole seja um bom lugar e ofereça grandes oportunidades, no entanto, tudo que amo está aqui.

Edílson fitou Gustavo, como quem tentava entender uma sentença indecifrável. Se fosse Iury a visitá-lo, os comentários seriam mais ácidos, a postura corporal denotaria o incômodo com a presença do outro e minha madrasta o chamaria pelas costas de vagabundo, pé-rapado, arrogante, arranjando apelidos. Gustavo era o deus, o doutor, o sonho de toda mulher.

― Isso é maravilhoso, Gustavo! ― Eleonora exultou.

― Laly é meu incentivo maior para ingressar na carreira política e fazer história em Guaratuba. — narrou Gustavo com uma entonação convicta. — Papai está muito ansioso para voltar à prefeitura no próximo ano, mas nosso trabalho começa agora. Eu, por minha vez, pretendo lançar-me candidato a deputado estadual em 94, portanto, quero encontrar uma boa esposa, formar uma família e prosseguir o legado de meu pai para cuidar da nossa cidade no futuro, fazer dela uma grande potência.

— Com esse porte você pode até ser presidente e mostrar que não somos uma republiqueta de bananas. — bradou Edílson, empolgadíssimo. — Dou a maior força se um dia você quiser se candidatar à presidência. Você vai chegar lá! O meu voto e o da Eleonora você já tem.

Gustavo deu uma risadinha, achando a maior graça dos devaneios de meu pobre e iludido pai:

— Eu ainda direi a todo mundo que o presidente tomou café na minha casa. Vou dizer com muito orgulho! Espere só até a Lalinha saber disso, que poderá ser a primeira-dama do nosso país!

Edílson nunca ria na minha frente, nunca me contou uma piada engraçada, nunca me chamou por um apelido carinhoso e só faltava ter um ataque histérico de gargalhadas diante do “genro”.

Dei-me conta de que o pesadelo se estenderia por muito tempo quando o maligno olhar de Gustavo contemplou-me. Vestia-me humildemente, com um vestido de chita, nada muito chamativo, se comparado com as vestimentas de grifes que Dandara Figueira Antares tinha.

― Bom dia.

― Bom dia, futura esposa! ― Gustavo beijou-me a testa: ― Espero que tenha descansado a beleza, pois hoje à tarde oficializaremos o nosso noivado.

― Noivado? Eu nem… (aceitei).

Eleonora não poderia estar mais feliz porque eu iria embora em breve, iludida de tornar-se uma Figueira Antares por tabela.

― Sabe como é a Lalinha, né? Toda vaidosa. ― emendou Eleonora, encarnando o papel de madrasta amiga.

― Se o problema for o vestido, não se incomode. Peguei suas medidas e a costureira da família fez um vestido lindíssimo, combinando com sua beleza e delicadeza. Só esperamos que não tenha engordado, não é mesmo? ― Gustavo forçou uma risada e meus pais riram junto. Como todo almofadinha acostumado a ser reverenciado, pensava deter todas as virtudes. Era péssimo humorista, sádico, beijava mal e não aceitava ser contrariado.

O que Laly Antunes Moraes representava para ele se não mais uma conquista bem-sucedida?

Sabia ele que eu não contaria a ninguém o que houve entre nós naquela controversa noite.

― Não estamos atrasados para a missa? ― estraguei a cena fotográfica.

― Os santos estão mais felizes do que nunca, pois em breve nós nos casaremos, Lalinha. Muito em breve. Aproveite essas horas para ficar linda porque quero apresentá-la a algumas pessoas que ouvem tanto falar de você, que desejam conhecê-la, saber quem é a dona de meu coração.

Gustavo poderia formar um trisal com meu pai e Eleonora, pois eles estavam completamente encantados pelos cifrões que receberiam.

E Iury? Como o encontraria e diria que de alguma forma muito demoníaca meus pais foram manipulados, subornados e permitiram que um monstro oficializasse noivado comigo?

Tomei um banho mais longo só para poder chorar a vontade e berrar de ódio, companheiro dali para frente, capaz de fazer com que uma garota tranquila perca a compostura.

O ódio, sim, pode ser mais forte que o amor. Ambivalente. Inconsequente. Sádico. Traidor. Amor e ódio podem ter a mesma cor. Reza a lenda que seja o vermelho. Coração ferido a punhaladas, cartões rasgados, desejos negados.

Já disse que não tenho vocação para escrever finais felizes?

O vestido rosa-chá que usaria na ocasião estava em cima da minha cama. De cetim com anáguas, marcado na cintura, ajustando-se harmoniosamente às formas de meu corpo. Um par de sapatos também estava à minha disposição. Senti-me indigna quando tratada como princesa porque não era uma.

Eu aplaudiria o fim da minha vida.

― Laly, Laly!

Aquele gritinho só podia ser de Mayra, que vinha me ver e insistentemente pedia para eu convencer Naira a não ir para o convento:

― Oi, Laly! Você está maravilhosa!

― Ah, obrigada.

― Você não vem? Todo mundo está lá fora te esperando.

― Eu… Eu já vou… Tô… Tô só…

― Está pensando no Iury, né?

― Claro que não!

― Todo mundo sabe que vocês se amam.

― Agora estou noiva do Gustavo, Iury já faz parte do passado.

― Tão nova e já tem que decidir o futuro? Casar, ter filhos agora?

― Sim.

― Ah, Laly! Não acredito que até você vai cair nessa!

Eu era a inspiração dela. Crescemos juntas e tínhamos muitos aspectos em comum. Mayra sabia do desejo de ir embora da cidade, cursar uma faculdade e só depois de me consolidar na carreira cogitava a ideia de casamento. Iury Saciotti era o único com quem desejava trocar alianças.

Gustavo até o dia anterior era um capítulo tenebroso da minha pré-adolescência, uma experiência que eu evitava ao máximo evocar nas recordações. Mal sabia eu que se iniciaria um verdadeiro tormento em minha vida, pois desde então aquele rapaz passou a me perseguir alegando estar apaixonado. Louvei triplamente a Deus quando foi estudar em Curitiba e parecia ter me esquecido. Rezei para ele encontrar uma namorada na universidade e nunca mais pensasse em mim.

― Infelizmente nem sempre todos os sonhos são possíveis, sabe Mayra. Às vezes, por mais que haja otimismo, só ele não basta.

― Essa não é a Lalinha que eu conheço.

― Essa era uma parte de mim que você não conhecia. Às vezes a gente pode se enganar.

― Não importa… Eu… Eu só vim mesmo era para desejar felicidades à noiva… E espero que você seja uma ótima mãe para os seus filhos…

Eleonora, ansiosa pelo momento em que Gustavo colocaria o anel de noivado em minha mão direita, abriu a porta de meu quarto para me apressar:

― Está atrasada, Lalinha. ― assentiu Eleonora, cínica. ― Preparando-se para o noivado?

― Já estamos indo. ― segurei a mão de Mayra. ― Já estamos indo!

― Que ótimo! Gus está ansioso.

Gustavo tentou me agradar comprando os discos com minhas músicas favoritas, preparando o Bufê sabendo de todos os meus pratos preferidos e a cidade inteira marcava presença no evento. Fotógrafos da imprensa local se aglomeravam para conseguir uma foto do mais novo casal da cidade.

― Faço questão de dizer que a Lalinha é a mulher da minha vida. É com Lalinha que quero me casar, ter meus filhos e viver até o último dia de minha vida.

― Como você está linda, Lalinha. ― Milene me abraçou. ― Que vestido fantástico! E como cai bem no seu corpo, te deixando mais atraente do que já é, o que com certeza deixa o noivinho enciumado.

Milene Moraes era desprovida de vaidade, apesar de ser naturalmente bonita. Seu sorriso, talvez, foi o que salvou aquela tarde de máscaras e infinitos rótulos.

― Linda é você, priminha. Deveria abdicar dessas jardineiras sem forma e aderir à moda dos vestidos. Asseguro o quanto os meninos adorariam a iniciativa.

― Iury e você se separaram, não é mesmo? ― Milene me respondeu com uma pergunta incisiva.

― Lalinha, Lalinha! ― Papai me puxou pelo braço porque Gustavo estava me chamando.

― Outra hora a gente se fala… ― avisei, sem ânimo algum.

Aquele anel de brilhantes representava uma algema. Enquanto meu pai chorava de emoção, a tempestade interior da autora caía em silêncio e era amparada pelo travesseiro, que também abafava os urros de ódio e decepção que continha diante de todos.

Ser Laly já era difícil e mais trabalhoso ainda seria dar vida a alguém que eu não era porque até se cogita fingir sentimentos, mas mentir a si é uma arte.

Notas finais
:(