Confissões de Laly
7 5. O despertar da serpente
Laly off/terceira pessoa on
No dia seguinte ao noivado, Mayra e D. Emília abriram o salão de beleza responsável pelo sustento da família e a menina, intrigada pela aparente tranquilidade ostentada por Laly durante a festa de noivado, dividiu confidências com a mãe:
— Mãe, eu não gosto de ser leva e traz, mas acho que a Laly não está contente. — Mayra varria o piso de cimento polido do salão, do jeito que a mãe gostava que fosse feito.
— A Laly, apesar de muito sincera, também é muito reservada. — observou Emília, empilhando as revistas no lugarzinho de sempre: — Quem não gostaria de se casar com o filho do futuro prefeito, Mayra? O Gustavo Figueira Antares é um partidão. Quisera eu que uma das minhas filhas fosse noiva de um rapagão desses com futuro, um cavalheiro…
— Sou muito mais o Nilton — contrariou Mayra. — Ele também é um partidão e a Naira finge que não vê. E tem outra coisa, mãezinha, não foi ele que lá no passado abandonou a Lalinha? Que bicho o mordeu?
Emília checava as cadeiras, os secadores de cabelo, as embalagens de spray, as tomadas e extensões, enquanto discorria com a filha:
— Às vezes a gente demora a se apaixonar, Mayra. As pessoas se comportam de jeitos diferentes, mas demoram a descobrir o que é gostar de verdade. Um dia, quando você crescer, minha pequena, vai entender muitas coisas que parecem confusas agora. Talvez esse amorzinho que a Laly teve pelo Gustavo também ficou mal-resolvido e se eles se reencontraram deve ser para se entenderem e ficarem juntos.
— Tudo bem, entendo essa parte, mas eles precisavam se casar tão rápido assim? Só falta daqui a pouco a Lalinha desistir de ir para a faculdade e ter um bebê.
— O que a Laly sentia pelo Gustavo quando era menina era paixão e paixão passa, minha filha. Paixão é coisa de momento, capricho, cisma com a impossibilidade. O amor, não. Ele permanece. Agora que a poeira baixou e a Lalinha está crescida, descobrirá se o que sente pelo Gustavo é amor ou era só uma paixão pueril.
— Mesmo assim, acho que 18 anos é muito jovem para subir no altar e decidir a vida. Se fosse depois dos 25, eu até acharia legal… embora eu já tenha me conformado de que nunca me casarei.
— O que é seu está guardado, filhota.
— Deve estar bem guardado, mas tão guardado que eu não acho mesmo.
Lalinha chegou para trabalhar normalmente no horário de sempre. O sorriso tentava transparecer doçura e naturalidade, no entanto, os olhos de jabuticaba denunciavam as lágrimas da noite anterior.
— Bom dia. — Lalinha cumprimentou as amigas.
— Hoje a agenda está cheia, menina. Espero que não se importe em passar do horário. — brincou Emília na tentativa de descontrair o ambiente.
— Melhor ainda, D. Emília. Quero ocupar a cabeça e ser útil.
— E o noivado, menina? Quando você vai revelar as fotos para a gente ver? Todo mundo A-DO-RO-U teu vestido.
— Já vi melhores! — disse Laly sem qualquer interesse naquela conversa.
— Ah, não, Lalinha! Você só pode estar brincando. — intrometeu-se Mayra. — O Figueira Antares deve ter gastado uma fortuna para mandar fazer o vestido.
— Vocês sabem que eu não ligo para o preço de nada.
— Talvez devesse. — alfinetou Emília. — Mulher atrás do Gustavo é o que não falta.
Mayra revirou os olhos. Tão pouco do amor sabia, mas uma certeza a acompanhava: o verdadeiro amor juntava os corações no propósito de partilhar uma felicidade genuína e pura, sem relação com apetrechos caros e ostentação. Podia até ser a criança para quem pouco davam atenção, no entanto, jurava a si mesma não se casar se não fosse por amor.
☮
Era o primeiro dia em muitos anos que Milene Moraes acordou bem-humorada. Mais cedo, o pai fora trabalhar assobiando uma melodia feliz porque ela tomara o desjejum na mesa da cozinha. Ela abriu as portas do amplo guarda-roupas, tirou uma fotografia do bolso do vestido branco de laise com detalhes florais e encaixou-a por entre um santuário de imagens de Iury coladas com fita adesiva, até, por fim, decidir-se por um espaço vazio.
O bom humor da garota estava devidamente explicado: não havia a menor chance de Iury e Laly reatarem, como antigamente. Daquela vez não era boato do corredor de escola, desmentido pelo próprio casal aos beijinhos na lanchonete do Seu Joel. Gustavo Figueira Antares em pessoa convidou-a para ser dama do casal no mês seguinte.
Ela testemunhou o filho do futuro prefeito de Guaratuba colocando-se de joelhos diante da pretendida e discursando antes de colocar o anel de noivado, da salva de palmas dos convidados que sucedeu aquele beijo de mentirinha, levando mais tempo para deixar de aplaudir porque nem sequer podia esconder o sorriso. Para o senso comum, a priminha mais nova estava orgulhosa da sua ídola, seguiria os passos dela, mal continha a emoção.
Laly era carta fora da jogada.
Aquela era a sua chance se soubesse aproveitá-la porque era óbvio que Iury Saciotti jamais perdoaria Laly por ser trocado pelo grande e indestrutível Gustavo Figueira Antares. Procuraria um ombro amigo, alguém com quem pudesse desabafar suas mágoas e Milene nem precisava ser um gênio para concordar que fingir empatia e paciência a faria uma “doce ouvinte” na percepção dele, ampliando as chances de ser a substituta da prima. Seria capaz de fingir acreditar em Deus, nas estrelas e nas runas.
— Você me tratou como se eu fosse uma mosca-morta, não é, Lalinha?
Milene revirou as gavetas da escrivaninha em busca de outra foto e uma tesoura:
— Que dó de você, princesinha. Dó? Até parece que tenho dó de você, Lalinha. Quero mais é que você se estrepe nas mãos do mauricinho, com a condição de que deixe o meu caminho livre.
Milene cortou Laly da foto com prazer, colando no mural do guarda-roupa apenas a metade em que aparecia orgulhosa de si mesma, satisfeita porque o destino finalmente parecia conspirar a seu favor.
☮
Gabriel e Grazielle, desde que se conheceram, nunca mais deixaram de se encontrar:
— Oi! — Grazielle acenou timidamente. Não tinha ideia de como agir depois da primeira ficada, de quem devia tomar a iniciativa de conversar. Mayra, apesar da boa vontade, não poderia ajudá-la nesse sentido porque tinha menos entendimento de garotos do que ela própria, mas parecia que o destino estava se encarregando da burocracia, facilitando o que seria um impedimento.
— Oi… — retribuiu um Gabriel com as bochechas enrubescidas, detalhe notado pela irmã do meio e mais ainda por Aimée:
— Quem é essa? — indagou Aimée, curiosa.
— Namoradinha do Biel — respondeu Fernanda. — Nosso irmãozinho já está namorando.
— E eu nem mesmo uma paquera. — reclamou Aimée, com certo ciúme do irmão mais novo.
— Ai Aimée, sai para lá. Vai ser chata e amarga assim bem longe de mim. — censurou Fernanda, irritada.
— Fala isso porque a rapaziada vive mexendo com você.
— Tenho outros objetivos na vida — Fernanda bebericou sua água de coco. — Primeiro a carreira, depois paquera.
— Que carreira?
— Você é idiota ou se faz? Sou uma futura Miss Brasil.
— Você? Miss? Miss Brasil? Impossível!
— Só se for para você, para mim, não.
— Oi, garotas! — Gabriel deu a mão a Grazielle, que correspondeu de imediato: — Quero lhes apresentar minha amiga.
— Que amiga o quê, Biel. Conta outra! — interrompeu Fernanda. — Fala logo que ela é sua namorada e acaba logo com o drama. O que tem de errado?
— Namorada?
Gabriel olhou impressionado para Grazielle, que sorriu:
— Somos namorados?
— Depende mais de você do que de mim… — esclareceu ele, bem gostando da ideia de ser namorado dela.
Gabriel e Grazielle deram um beijo tímido sendo ovacionados pelas garotas que entoaram um coro:
— Biel está namorando, Biel está namorando.
☮
Grazielle tinha o costume fazer caminhadas pouco antes de ir para o trabalho. Apesar de estar de férias, continuava cuidando dos animais da Sociedade Protetora dos Animais e devorando livros. O altruísmo que seu falecido pai esbanjava e a mãe fazia questão de diariamente avivar, à tristeza não se entregar jamais, mesmo que nem todos os dias fossem ensolarados e as marés propícias para surfar.
O que mais encantou Grazielle ao transferir-se para Guaratuba foi o fato de estar próxima da praia, onde encontrou paz e consolo ao sentar-se na areia, fitar o mar, contemplar beleza, imensidão e poesia; esquecer-se do mundo e burburinhos ao redor. Um encontro diário com Deus, com o pai que entre os bons descansava (essa teoria a confortava quando a saudade falava mais alto que a realidade) e consigo mesma, com os sonhos de amor que nasciam destinados à imortalidade.
Compenetrada em seus pensamentos, Grazielle olhou para trás e encontrou Milene, que acenou e senta a seu lado. A primeira estranhou a conduta da amiga, sempre antissocial e anti-praia, antissolar, odiadora número 1 do verão.
— Você por aqui, Mili?
— Por que o espanto?
— Pensei que não gostasse de praia. — murmurou Grazielle.
— Pensou errado.
Milene sorriu e pediu licença para se sentar ao lado de Grazielle:
— Pensando em quê? Na morte da bezerra?
— Nada de mais. — Grazielle tentou disfarçar a alegria.
— Posso lhe fazer uma pergunta?
— À vontade.
— Partindo de uma lógica simples, você não seria a pessoa mais indicada para me falar sobre garotos, mas não custa nada tentar. — Milene limpou a garganta para prosseguir: — Como todos estão carecas de saber, Iury está livre e Laly, noiva. Você acha que ele vai querer namorar alguém? Sabe, para fazer ciúmes na Laly?
— O Iury? Nem sonha, Milene! O Iury só tem olhos para a Lalinha. Qualquer um sabe disso.
Estalando os dedos, a feição de Milene se alterou em questão de segundos.
— Em que mundo você vive, criatura? Não existe mais Iury e Laly. Não está sabendo, não? No domingo ela noivou com o Figueira Antares. Acho que isso só pode significar uma coisa: o caminho está livre.
— Oficialmente, sim, mas não sei se um namoro de três anos se esquece num dia só.
— E quem é você para falar de namoro? Nunca vi ninguém olhando para você!
— Você não é tão sabe-tudo assim.
— Cachorro não conta, tá, Grazi?
— De qualquer forma, a Laly é sua prima e te considera pra caramba. Roubar o namorado dela é um jogo muito desleal.
— Roubar o quê, sua tapada? O Iury não é mais namorado dela.
— Pode até ser que o Iury não seja mais namorado da Laly, mas mesmo assim, em lealdade ao amor que a Lalinha tem por você, é uma traição e tanto você ficar com o namorado dela tendo tantos outros garotos no mundo para você se interessar.
— Ex-namorado. — frisou uma Milene provocativa.
— Mesmo assim…
— Que se exploda esse negócio de ex. O fato é um só e não entende quem não quer: Iury e Laly não estão mais juntos. Ele não é mais namorado dela. Ele é livre. Ou o quê? Mesmo casada com o Figueira Antares vai querer ter todo mundo nas mãos, é?
— Dá um tempo ao rapaz, Milene. Término de namoro é muito complicado.
— Como se você soubesse alguma coisa de relacionamentos.
— Posso não saber, mas qualquer um que termina um relacionamento longo precisa de um tempo sozinho, Milene. Respeite. Iury precisa de um tempo para colocar as ideias em dia, se acalmar, aos poucos esquecer a Lalinha. Não vá com muita sede ao pote para não se ferir.
— Já esperei três anos por ele e não vou esperar nem mais uma semana. Assim que ele voltar de Floripa já vou colocar meus planos em ação e quero sua ajuda porque sei que a sonsa da May é fiel escudeira da Lalinha, além de ser uma pé frio bocuda que pode colocar tudo a perder e isso EU não irei suportar. Já tenho que aturar a mala sem alça da Laly querendo bancar a boazinha e não tenho mais paciência para hipocrisia.
— E no que eu vou te ajudar? — espantou-se Grazielle.
A conversa foi interrompida com a chegada de Gabriel porque Grazielle se levantou, os jovens se cumprimentaram com um selinho e Milene virou o rosto para disfarçar a inveja.
— Oi, amor! Quem é ela?
— Milene… — respondeu Grazielle, sob o olhar atento de Milene. Os olhos de víbora. — Minha colega de escola.
Gabriel acenou educadamente para Milene e deu as mãos para Grazielle, que se despediu “prometendo conversar com mais calma outro dia”, uma afronta, considerando que a prima de Laly não tinha nem um pouco de tranquilidade.
— O mundo está mesmo perdido. — ironizou Milene. — Até o espantalho desencalhou. Só me falta a anta da Mayra encontrar algum Zé Mané. Aí é o fim do mundo. E eu, tão linda desse jeito, passo despercebida para o Iury. Ora! Por enquanto. Apenas por enquanto. Um dia o bonitinho vai cair de quatro por mim e eu vou esfregar nas fuças daquele espantalho imbecil quem se deu melhor…
Milene moveria céus e terra para estar nos braços de Iury, pois planejava revelar a identidade do namorado na festa de casamento da prima, para ofuscar o momento da noiva. Ainda convinha sustentar a imagem de menina doce, pura e inocente, manter a proximidade para colher informações privilegiadas, abusar da adulação, modular as palavras adequadas. Quem se atravessasse no caminho dela pagaria caríssimo. Calculista nata, haveria de vencer, nem que fosse pelo cansaço.
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