Confissões de Laly

15 13. Dias difíceis


Notas iniciais
Abrindo exceção de postar capítulo novo só porque é finalzinho de ano e esses dias entre o natal e o ano-novo são meio chatinhos, pelo menos eu acho... Espero que gostem. =)

Laly off/Terceira pessoa on

Mayra não se conformou tão facilmente com a desculpa esfarrapada de Gustavo. Agora tinha a compreensão de que a melhor amiga estava em apuros, sofrendo muito, associando finalmente àquele casamento ao fim de todos os sonhos de Laly, a uma obrigação eterna, a estar sob o jugo de um homem dominador, grosseiro, perverso, capaz das maiores atrocidades para jamais ser contrariado.

Não era à toa que chorava. Nunca ninguém havia lhe batido na vida, nem quando cometeu as mais grandiosas travessuras foi repreendida com cintadas e bofetadas, mas aquele bruto teve coragem de esbofeteá-la e jogá-la no chão como se fosse uma sacola de lixo.

Emília reconheceu a pequena garota aos prantos em frente ao salão e envolveu-a em um caloroso abraço para aplacar os soluços dela.

— Conta pra mamãe o que aconteceu! — Emília encaminhou a filha para dentro da cozinha de casa.

— Mãe, o Gustavo é um monstro. — confessou Mayra, detalhando o que se passou na casa de Lalinha, sem tirar uma vírgula, precisando da ajuda da mãe para beber a água com açúcar e se recompor.

— E esse desgraçado teve a petulância de machucar você? Ele que espere... Ele que espere... Eu vou ter uma conversinha bem séria com ele...

Mayra, tão boa de garfo, nem sequer conseguiu jantar, apenar de imaginar tudo o que a melhor amiga passaria nas mãos daquele crápula sem modos se o casamento não fosse impedido, mas tudo conspirava para aquela união nefasta dar certo. Os preparativos da festa iam de vento em popa, o vestido de noiva com as medidas exatas de Lalinha estava sendo costurado pelo melhor estilista do país que fazia questão de trabalhar em pleno final de ano para não atrasar a obra.

Naira preocupou-se com a falta de apetite da irmã e em função do que Emília contou-lhe em particular, horrorizou-se.

— Gustavo terá de prestar contas com Deus algum dia.

— Fazer isso com a Mayra, uma menina tão doce, meiga, inocente... E você sabe, a May não mente. — murmurou D. Emília, chateada pela filha caçula que se recolheu mais cedo por não sentir ânimo nem para ver televisão.

— Por que Laly não procura ajuda?

— Com a cidade inteira comprada pelo Gustavo, difícil é encontrar alguém que acredite na verdade.

— Mas Deus conhece a verdade, mãe. Deus conhece o interior de nós todos. Nada se esconde dos olhos do Pai. Cedo ou tarde a justiça divina se faz. Se a justiça dos homens falha, a de Deus não.

Todas as noites, antes de se recolher para dormir, Naira costumava dobrar os joelhos sobre o tapete de orações, olhar com ternura para o relicário que fora um dos últimos presentes do pai e na penumbra de várias velas acesas, comunicava-se com Deus, esperando sempre que a meditação lhe trouxesse paz e as providências fossem favoráveis na medida do possível.

Muitas vezes Naira Sanches intercedia por causas de terceiros apenas pelo bem estar que lhe dava dedicar seus minutos com o Criador para tudo que não viesse de seu egoísmo, porém era tão difícil desassociar da mente a imagem de Mayra banhada em lágrimas. Era a sua irmã mais nova, o seu bebê. Ninguém tinha o direito de machuca-la, nem mesmo o filho do prefeito, aquele de quem preferia manter distância.

Mayra fez o desjejum em silêncio, mas ninguém objetou. Antes de voltar para trabalhar, foi aproveitar a praia vazia, sem se dar conta de que Nilton estava exatamente ao lado dela.

— Pensando, minha pequenininha?

— Oi Nilton... A Naira já foi pra igreja...

— Está pensativa.

Nilton reconheceu nos grandes e expressivos olhos de jabuticaba de Mayra que ela não estava bem.

— Algum problema?

— Não sei se ajudaria muito contar.

— Talvez eu não possa ajudar efetivamente, mas se está preocupando a minha pequena, certamente, é algo importante.

— Bobeira minha. Acordei desanimada hoje.

— Por quê? Não confia em mim?

— Claro que confio, mas é que... Bem... Você e a Naira ainda estão no 0X0?

— Ainda. — assentiu Nilton, desanimado também.

— Quando é que você vai tomar a iniciativa de se declarar a ela?

— E levar um fora?

— Eu no lugar da Naira iria adorar receber uma declaração de amor, fique você sabendo. As meninas não têm bola de cristal.

— Você sabe que a sua irmã é uma criatura complicada.

— Não tão complicada que não se dobre com umas palavras doces, Nilton. Mas você também tem que tomar a iniciativa. A Naira é meio lenta.

— A Naira é tão beata que deve achar que beijo na boca é pecado. — cismou Nilton, o que arrancou enfim um sorriso de Naira.

— Isso porque ela ainda não experimentou. Quero ver se ela não muda de ideia...

Milene detestava animais. O cheiro, os grunhidos, pelos longos ou curtos, patas, asas, barbatanas, não se comovia nem com o filhote de olhar mais doce do mundo. No aniversário de oito anos ganhou de presente um lindo cachorrinho Maltês que possuía lindos olhos negros e parecia um pequeno algodão de patinhas curtas e língua rosada.

Amado acreditava que por ser uma garotinha responsável e muito solitária, o animal de estimação a ajudaria no processo de socialização, uma vez que não tinha amigos na escola e vivia conversando com as paredes, rindo sozinha e tocando compulsivamente nas partes íntimas.

Milene não tinha um pingo de paciência com o animalzinho e não era incomum chutá-lo, puxar o rabinho, deixa-lo sem comida, colocar as mãos fechadas no focinho dele ameaçando sufoca-lo para que parasse de chorar, dentre outras atrocidades. Diante do pai, porém, mostrava uma devoção enorme pelo cão, dando a ele o nome de Coração.

Numa manhã qualquer Amado encontrou Coração morto no banheiro e prostrou-se, bem que tentou fazer respiração boca-a-boca, telefonou às pressas para o veterinário, tudo para não ter que informar à doce Milene que seu amado mascote havia falecido. Seria um baque muito grande para aquela menina que desde cedo já precisava lidar com o peso da perda, porém não poderia esconder a verdade dela para sempre.

— Não, papai! — Milene chorou copiosamente sentada no colo do pai. — É mentira que o Coração morreu! Ele era meu amiguinho, meu único amiguinho no mundo! Deus é muito mau! Levou embora o meu amigo.

Amado sofreu a perda de Coração por não ter meios de consolar Milene, mas mal sabia o homem que a própria criança afogou o animal no vaso sanitário, sentindo um prazer singular em ver o pobre filhote lutando para respirar, debatendo as pequenas patinhas em busca de conter a vida que se esvaía.

Definitivamente, Milene não se entrosava com animais, por isso mesmo detestava quando precisava fazer trabalhos em grupo na casa de Grazielle porque não suportava o cheiro característico dos gatos e nem a mania da garota de conversar com eles como se fossem humanos, tudo aquilo irritava sobremaneira a prima de Laly que achava a vida da colega um verdadeiro desperdício, porém fazia parte de seus planos fingir que suportava aquelas bolas de pelo para ter a atenção daquela filantropa sem graça.

— Nossa, Grazi, que linda! — exclamou Milene. — Tudo isso é pro Biel?

— Biel faz com que eu me sinta linda e especial. — respondeu Grazielle, corando, sentindo-se analisada milímetro a milímetro por Milene.

— Que patética! O garoto está mentindo e ela está caindo feito patinho. Que idiota! — pensou Milene, sabendo exatamente o que falar. — Que maravilha, amiga. É tão bom saber disso, mas claro, eu não gosto de ser estraga prazeres, longe disso... Está mesmo apaixonada?

— Como nunca estive antes, ou melhor, nunca me apaixonei antes.

— E estão namorando?

— Sim. Estão sendo os dias mais felizes da minha vida e eu adoraria que isso durasse pra sempre.

— Só eu não tenho sorte mesmo no amor.

— Talvez o dia em que você parar de invejar a Lalinha e começar a valorizar a sua vida, vai encontrar um garoto legal igual ao Biel.

Milene a encarou com desdém.

— Só quero o seu bem, amiga. Não quero vê-la sofrer.

— Eu lamento o mau gosto do Iury, estou no meu pleno direito. Ele arrasta corrente por uma garota que não tem dó nem piedade de pisar nele. Eu sou muito melhor do que a Laly. Sou loira, tenho olhos azuis, não tomo sol para preservar minha pele alva, sou enxadrista, detesto essas porcarias de lambada, poperô, essas músicas chatas que viram temas de romance chinfrim, tiro as notas mais altas, minha inteligência é acima da média. Qualquer cara daria a vida para encontrar alguém como eu e um cara que tem a sorte de ser amado por alguém como eu prefere uma...

— Uma... o quê?

Milene deu de ombros.

— Uma ordinária.

— É ingratidão, Mili. A Laly te tem como uma irmã.

— Sem sentimentalismos, por gentileza. — Milene abanou a mão direita, protegendo-se do sol. — Então, é assim? Laly é a pobrezinha sofredora e eu sou a megera?

— Não é essa a questão. — retorquiu Grazielle. — A Laly tem por você a estima que teria por uma irmã de sangue. Ela não te vê como inimiga, tampouco entende por que você está sempre infeliz. Você tem a beleza que o senso comum admira, mas de nada adianta tê-la se o caráter não corresponde às expectativas? Eu ainda estou entrando no mundo dos relacionamentos, estou no começo de um namoro, e sim, namoro um menino bonito dentro dos padrões, mas o que eu mais gosto é de poder conversar com ele sobre qualquer assunto, sobre como ele me deixa à vontade para eu ser quem eu sou. Por que você insiste no Iury se tantos outros caras, como você própria insiste, dariam a vida para encontrar uma garota com todos os predicados que você tanto se gaba de ter?

— Vocês superestimam a Laly. Ela não é bonita, pelo menos eu não vejo nada demais nela. Ela é comum, como ela tem um monte por aí. O frisson todo se deve ao fato de ela ser vulgar. Não me conformo que dois homens como Iury e Gustavo tenham se deslumbrado por uma sujeitinha que nem tem onde cair morta. Ela age como se fosse indestrutível, independente, quando tudo não passa de fachada: tenho certeza de que enrolou o pobre Iury durante todo esse tempo e depois deu esse golpe tão baixo assumindo noivado com o Gustavo.

Grazielle acreditava fazer mau juízo da amiga quando refletia sobre algumas condutas desta, mas ao escutá-la tão claramente difamando Laly, não teve mais dúvidas.

— Eu vou morrer e não vou me conformar...

— Você não se dá conta do quanto sofre muito por viver corroída pela inveja, Milene. Você quer tudo que não te pertence. Você pensa que será feliz quando tiver o Iury em seus braços, mas está se enganando porque se conseguir e ele não for nada disso que você pensa, vai se machucar mais e um dia vai se arrepender por ter desperdiçado tanto tempo da sua juventude por causa de alguém que não merecia.

— Você fala sem pensar, Grazielle.

— A verdade machuca, mas é melhor que seja assim. Eu não me sentiria nem um pouco confortável em deitar a cabeça no travesseiro se me pudesse a mentir a meus amigos, especialmente você. — Grazielle fitou Milene nos olhos sem que a amiga pudesse desviar a atenção: — Eu, por exemplo, sempre toquei minha vida sem me importar com o que os meninos acham. Eu sei que eles prefeririam uma garota como você, com a beleza padrão, porque nessa fase os meninos só enxergam as aparências. Eu pensava que nunca encontraria ninguém que pudesse gostar de mim, mas Deus mandou o Biel para me provar que eu estava errada e que quem gosta da gente, gosta pelo que a gente é.

— Tem certeza de que ele é tudo isso?

— É muito mais do que eu podia imaginar. Nunca em minha vida me senti tão feliz.

— Não fale alto: a inveja tem sono leve.

— Esconder a felicidade por medo da inveja? Quem perderia tempo me invejando?

— Quem muito diz ser sua amiga, mas anda afastada... venhamos e convenhamos, a Mayra é feinha, sem graça, parece que parou de crescer com uns 10 anos de idade e me soa forçada... ela pode fingir que está feliz na sua frente, mas experimente contar à ela sobre o seu namoro... conte alguns dias para ele acabar...

— Quisera eu ter um coração puro como a da May. Infelizmente os meninos são idiotas e querem garotas como você, que só se sustentam com a casca, mas espero que exista um, pelo menos um, que destoe, que seja diferente, que enxergue com o coração.

Milene não conteve o riso malicioso.

— Quem se amarra em beleza interior é arquiteto. A aparência conta MUITOS pontos. Felizmente, a aparência não é o problema.

— Tudo bem você não gostar da Laly, mas reflita se vale a pena se empenhar tanto para magoá-la. Ela não merece.

— Eu, se fosse você, ficaria com o olho bem aberto em relação à May, a doce May... — arremedou Milene. — A doce May pode te colocar em maus lençóis. Se você ama o Gabriel como diz que ama, tome cuidado. Amiga mulher é traiçoeira... mas é namoro firme ou ele está te enrolando?

— Eu já conheço o Seu Gilberto, o pai dele. Um senhor muito simpático, bem paizão, muito caloroso. O Gabriel e as meninas não têm mais mãe, ela morreu de câncer tem mais ou menos um ano e meio, então o Seu Gilberto pediu para se transferir de Caçador para Guaratuba e recomeçar a vida com os filhos.

Milene revirava os olhos, mas as informações até então banais poderiam ser de grande valia em algum momento. Grazielle era um mal necessário.

— A Fernanda e a May ficaram bem próximas. A Fer, como todo mundo a chama, está paquerando o filho do pastor novo que se mudou para cá, sempre prepara coisas gostosas para comer e a gente fica ouvindo música, vendo televisão...

— Biel tem outra irmã, não tem? — investigou Milene que era obrigada a cumprir a parte chata do plano porque ainda não era uma vilã a exemplo do Gustavo Figueira Antares que tinha seus capangas para cumprirem toda a burocracia irritante. Tudo dependia dela. Da ideia a ação. Do êxito ao fracasso.

— Qual é o seu interesse na vida da Aimée?

— Ele tem ou não tem outra irmã? — insistiu Milene, aborrecida.

— Se eu fosse você esquecia o Iury para o seu próprio bem. — advertiu Grazielle, sentada no sofá. — Não falo isso para chateá-la, mas é para evitar que se magoe. Iury não te vê como mulher.

Grazielle, confiando que Milene pudesse ser uma menina ajuizada, contou-lhe que gostava muito de visitar a família Gallardo porque o Sr. Gilberto era um pai afetuoso e liberal e as cunhadas eram adoráveis, especialmente Aimée que vivia sorrindo à toa por estar namorando firme com Iury, preparando verdadeiros banquetes para satisfazer aos exigentes estômagos de todos.

A revelação de Grazielle não poderia ser mais oportuna para desencadear grandes ideias em Milene. Era questão de tempo para Aimée estar fora da jogada.

Notas finais
Nem preciso dizer, né? Se essa novela bombasse a ponto de o pessoal comentar no Twitter, que hashtag vocês usariam para falar da Milene?