Confissões de Laly
3 1. A Formatura (Laly)
Guaratuba, 30 de novembro de 1991.
Era cedo até para os galos cantarem, mas eu já estava disposta, atitude atípica para quem cochilou pouco mais de duas horas repassando todos os protocolos de uma data especial. A minha formatura na escola. O fim digno de um ciclo em minha breve e movimentada vida.
A cerimônia ecumênica para os formandos contou com a participação em peso dos familiares de todos os veteranos e as poltronas reservadas aos meus pais eram as únicas vazias no auditório inteiro, como se naqueles dezoito anos de vida eu estivesse à deriva, vivendo apenas da fé que nutria em mim mesma e em dias melhores.
Não surpreendia em nada que eu saísse ainda no escuro com a barriga vazia e mochila pesada nas costas em direção à casa de Nilton, uma vez que combinamos de seguirmos todos juntos para a escola a fim de participarmos da solenidade referente à colação de grau e do Show de Talentos cujos números passavam pelo rigor da inspeção de todas as autoridades religiosas de nossa escola, tão católica quanto o próprio Vaticano.
Edílson e Eleonora Moraes sempre estariam ocupados para qualquer coisa que envolvesse o meu nome. A rejeição declarada era o meu ingrediente secreto para nunca perder a força. Haveria apenas uma saída para alguém como eu com muitos sonhos no coração e poucos recursos. O sacrifício.
Ter menos do que os outros sempre nos incita a promover uma infinidade de questionamentos. Vem de dentro a vontade de tomar posse daquela caneta de tinta invisível que determina os nossos destinos e dar um desfecho melhor para o meu. A esse gesto chamam de livre arbítrio. As decisões sem dúvida são.
Naquele sábado o canudo com o meu diploma do Ensino Médio (2º grau para os mais antigos) seria a prova cabal de que uma parte do percurso fora cumprida.
Apesar de o meu discurso de oradora da turma estar escrito e revisado, sentada de pernas cruzadas na areia macia da praia, tinha a leve impressão de que faltava a emoção que o tornaria real. Eu não falava mais do que o óbvio, do que esperavam de mim naquelas conjecturas. Eu não podia fazer menos do que o melhor.
O trajeto até a casa de Nilton dava vinte minutos se eu caminhasse devagar. Eu tinha certeza de que o meu melhor amigo que acordava cedo mesmo nos fins de semana estava em frente ao espelho do guarda-roupa provando os paletós emprestados do pai, sem saber se forjar, inexperiente até mesmo para dar um nó convincente na gravata e parecer o adulto que em breve seria. O futuro engenheiro agrônomo.
Fui recebida por Iury e estando em um ambiente híbrido, retribuí as mesuras com muito respeito.
Iury e eu havíamos tido outra discussão e estávamos sem conversar havia alguns dias, reunindo-nos apenas por motivos profissionais. Sempre que brigávamos, Nilton e Naira ficavam na posição de incerteza se deviam ou não tomar partido das questões. Eles próprios não podiam fazer muita coisa por nós, nunca haviam se relacionado com ninguém e eram tímidos à beça.
Nilton, apesar de retraído, sempre manifestava claramente a posição da concórdia, acreditando em acordos de paz, que pelo amor uma luta nunca é em vão. Naira era um enigma vivo e o seu humor diário a grande incógnita. Eu já estava acostumada com a rabugice dela em função da convivência.
Iury e eu estávamos sozinhos e evitávamos um contato visual mais aprofundado porque não nos cabiam observações. Existia um inimigo invisível se interpondo entre nós. O orgulho. E ele quando tomava a caneta da nossa história escrevia um capítulo horrendo atrás do outro.
Era um daqueles dias.
— Ô Nilton, até parece que vai se casar! — reclamou o Iury, que também não podia dizer que estava à vontade usando uma das três camisas que reservava para ir à igreja aos domingos.
— Já vou! — respondeu a voz abafada de Nilton, que alguns minutos depois saiu do quarto vestindo um paletó que era duas vezes maior do que ele.
— Belo visual, amigão. — caçoou Iury.
— Ainda bem que eu não sou o orador. — concluiu Nilton.
— Pode crer que a Naira vai perceber a lapela cor de rosa... — brinquei, cutucando Nilton e ajeitando o topete do cabelo com gel.
Iury observou os gracejos sem se pronunciar.
— Você acha que a Naira olha para mim? — perguntou Nilton.
— Você ainda tem tempo de convencê-la a ficar. — lembrei.
— Só não sei se esse paletó do tio defunto ajuda. — satirizou Iury e em retaliação eu lhe lancei um olhar furioso que o fez recuar. — Para quem é, está mais do que bom.
Era hora de partirmos para o salão da D. Emília para buscarmos a Naira.
O trio caminhava pelas calçadas de paralelepípedos. Era dia de feira no nosso bairro e consequentemente quem nos conhecia se punha a cumprimentar. As barracas estavam montadas e além das constantes reclamações dos fregueses com relação aos preços altíssimos e da inflação que não dava trégua aos pobres bolsos, os feirantes cantavam alegres.
O salão de beleza da D. Emília geralmente abria cedo no sábado sem hora para fechar. Aquele era o meu dia de folga em função da formatura. Em consequência disso o estabelecimento ficaria nas mãos de uma cabeleireira de confiança porque a dona jamais perderia a colação de grau da filha mais velha.
— Hoje minhas clientes que me desculpem, mas estou de folga. Não é todo dia que minha menina se forma... — D. Emília varria o chão do salão por superstição, levando a sujeira e os maus fluidos para fora, quando nos reconheceu chegando e ordenou que entrássemos:
— Fiquem à vontade! — disse a dona do salão.
— Oi, Lalinha! — cumprimentou Mayra, a irmã mais nova da Naira, que estava dividindo o espelho e o spray de cabelo com a Grazielle, que era sua amiga inseparável desde que a garotinha mudou-se para Guaratuba.
— Naira ainda não está pronta? — inquiriu D. Emília.
Iury e Nilton estavam sentados no sofá marrom de couro olhando para aquela pilha de revistas no braço de madeira que tocava a parede. Nenhum assunto que os interessasse.
— Naira! — chamou Mayra. — Vai vir ou não?
Naira demorou mais alguns minutos até se apresentar para nós como se estivesse indo à igreja, desviando o olhar de Nilton.
— Por favor, né, Naira? — ralhou a progenitora de Naira.
— O que é agora, mãe? — redarguiu Naira, impaciente, como toda garota introvertida que não gosta de muvuca e receberia o canudo com o diploma de formatura bem longe da plateia.
— No dia mais importante da sua vida você sai de qualquer jeito. Não pensa que hoje, mais do que nunca, você deveria estar bonita, bem arrumada?
— Fotos são para a vida toda, gostando ou não. — reiterou Grazielle, terminando de passar batom.
— Por que implicam tanto comigo? — reagiu Naira. — Falam que querem meu bem, mas não sabem respeitar.
— É um desperdício que uma moça tão bonita simplesmente não tenha um pingo de ânimo para participar da própria formatura.
— Concordo, dona Emília. — assentiu Nilton, que ao ver Naira sempre ficava com as mãos suadas, as pernas trêmulas e a típica ansiedade de um tímido apaixonado. Quem já teve um amor platônico por um amigo sabe do que estou falando.
Naira relutou as tentativas de produzirem-na para aparentar ser uma formanda feliz.
Após tantos anos era praticamente impossível não sentir uma pontinha de tristeza, afinal, meus professores e colegas foram minha segunda família e ao lado deles compartilhei conhecimento, sentimentos, lições importantes que iam além do bê-á-bá ministrado em sala de aula. Ir embora era cortar o cordão umbilical pela segunda vez. Sensação de missão cumprida, ao mesmo tempo em que remetia a dor de concluir que chegou ao fim uma fase da minha vida e mesmo que viessem outras melhores, aquela, com certeza, deixou saudades.
Iury estava se sacrificando muito para estudar em Santa Catarina e provavelmente se não passasse naquele vestibular, sairia atrás de um emprego para fazer cursinho e aproveitar todas as horas vagas para se dedicar às apostilas.
Nilton iria deixar o conforto de casa, tanto que de vez em quando viajava para se informar acerca de boas pensões em Curitiba, fazendo o percurso até o campus de que seria aluno se aprovado, ansioso para se virar sozinho no começo contando com a ajuda dos pais, mas pensando adiante, em quando seria enfim "dono do próprio nariz".
Naira ainda estava determinada a tornar-se freira. Era menina de poucas palavras, mas quando falava de sua suposta vocação não parava mais, feria o coração do Nilton, seu maior admirador no mundo todo, que não se conformava de perdê-la para a Igreja. Ela estava decidida a conviver com as irmãs e conhecer todo o funcionamento da vida pastoral, pois uma das exigências feitas além da própria virgindade era o segundo grau completo. Partindo desse princípio, nada a impedia de seguir o que dizia ser um chamado.
Nossa singela formatura foi um show de talentos o qual nossa turma ganhou e como homenagem recebemos nossos diplomas e medalhas de honra ao mérito. Levei noites para redigir um discurso digno de formatura, daquela plateia que voltava seus olhos para aquela jovem que subia alguns degraus e recebia o microfone do padre Alberto, o nosso então diretor.
Os pais de Iury estavam sentados mais ao fundo do anfiteatro, D. Emília acompanhou as formaturas de Mayra (Ensino Fundamental) e Naira, junto comigo. Os pais de Nilton compraram um filme de 36 poses para registrar a conquista do filho caçula. Edílson e Eleonora nem sequer se lembraram de fingir que se importavam com a minha vida estudantil, nem sequer devem ter aberto os envelopes em que guardei os convites.
Ganhava medalhas de honra ao mérito em todos os bimestres e meu pai nunca se importava. Se eu aparentasse estar com dificuldades, diria que herdei o "gênio ruim" de minha mãe. Sempre gostei muito de ser parecida com Ingrid. Meus parentes costumavam me dizer que era idêntica a ela. Soava como elogio.
Desde muito menina imaginava o fim do Ensino Médio como minha fuga. Pretendia estudar em Curitiba e lutar para ser jornalista. Apesar de ser extremamente apaixonada por Iury, casamento não estava no script da protagonista e isso não me tornava menos mulher que as outras.
Eu não consegui continuar aquele discurso. Sentia-me um fracasso diante de todos os meus colegas. Todos, mesmo com os recorrentes problemas enfrentados, tinham alguém torcendo por eles naquela plateia. Eu não tinha ninguém por mim. Ninguém mesmo.
Eu tinha todos os motivos para chorar e tentava sorrir, com o pouco que eu tinha, sorrindo para mim mesma, sempre. Sorrindo para não ser taxada de covarde, para que a vida me retribuísse a gentileza — se somos um reflexo do que fazemos e sentimos —, mas não deu para continuar.
― Você devia saber que seu pai não viria, Lalinha. ― Iury inutilmente tentou me consolar, um bom pretexto para fazer às pazes comigo.
― Pensei que viria... Todos os pais vieram... ― respondi, ainda chorando.
― Não deixa isso arruinar seu dia, Laly. Não é todo dia que a gente se forma.
Nilton, contente, estava dançando até sem melodia:
― Experimenta um pão de queijo, Lalinha. Esse é o banquete dos deuses.
O inocente trocadilho de Nilton foi mal visto por Naira.
― Bem... Está uma delícia... ― Ele corrigiu-se imediatamente.
A comissão de formatura batalhou durante o ano inteiro para que a festa fosse possível. Vendemos rifas, brigadeiros, bolos, salgados, sofremos com o reajuste periódico no preço dos alimentos, à margem das remarcações diárias, porém garantimos o evento e naquele dia muitos de nós choramos. O cordão umbilical que nos prendia na adolescência era imperceptivelmente cortado. Viveríamos, a partir dali, o que corriqueiramente chamam de "resto da vida".
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