Confessionário
5 Capítulo 5
Eu estava sentado sobre a pequena mureta que circulava a fonte, quando Branca de Neve se aproximou de mim. Ela tinha um olhar doce e puro, que não parecia com o de Regina. Não que Regina não fosse uma boa pessoa. Ela era. Mas seus olhos eram como de uma fera trancafiada. Eram intensos e suntuosos.
"O que aconteceu aqui antes de entrarmos?"
"Nada." Menti descaradamente porque a verdade tinha a face da mentira. Eu e a Rainha nos beijamos? Quem compraria tamanha estupidez?
"Eu não lhe conheço muito bem, senhor Hood. Mas conheço Regina. Algo aconteceu para ela estar tão inquieta."
"Nada que tenha a ver comigo. Eu sequer cheguei a ver a bruxa. Regina me manteve preso aqui no quarto."
Branca assentiu, concordando em silêncio. Ela sentou-se ao meu lado, e juntos permanecemos em silêncio. Gostava dela. Realmente, era revigorante estar próximo de tamanha realeza. O diferencial que Branca de Neve possuía era sua maneira de demonstrar nobreza, não através de luxuosas vestes ou jóias de ouro, mas através de sua alma, tão enriquecida quanto.
"Ela tem sofrido muito por causa do filho."
"Henry."
Os olhos dela me fitaram surpresos. "Como você sabe disso?"
"Ela me contou."
"Regina lhe contou sobre o filho?" A incredulidade em sua voz era palpável e me perguntei se não havia falado demais. Provavelmente Regina não era uma pessoa muito aberta e tinha aberto uma exceção no meu caso. A minha dúvida era: por quê eu?
"Talvez ela precisasse falar e eu estivesse por perto."
"Ou talvez ela goste muito de você." Respondeu a morena, novamente me olhando de cima à baixo, numa análise minuciosa.
"Branca, Robin! Estão lhe chamando para uma reunião no grande salão. A Rainha os aguarda."
Sorri para ela, e ambos nos levantamos para seguir o jovem mensageiro castelo adentro.
"Invadir o castelo do Rumpel? Essa é a ideia? Meu nome é Zangado, não Burro."
"Belle, você foi prisioneira lá e escapou."
A voz dela me deixava contrariado.
"Eu fugi sim. Mas invadir? Não faço ideia."
"Eu já invadi o castelo dele uma vez. Sei como fazer." Minha fala impressionou o grupo, de modo que todos fixaram a atenção em mim.
"Quem é tolo o suficiente para invadir o castelo do Rumpelstiltskin?"
"Um homem em dificuldades." Confessei.
"Porque estamos ouvindo esse homem? Ele é um ladrão. É claro que não devemos confiar nele. O que ele está fazendo aqui ainda?"
Regina estava me desafiando de uma maneira que eu só via duas saídas: ou a beijava na frente de todos ou devolvia na mesma moeda.
"O que eu estou fazendo aqui é mantendo o seu traseiro a salvo."
Branca me olhou, surpresa e Regina cravou furiosos olhos nos meus. Ela me odiava. Queria com certeza arrancar meu coração e fazer um colar com ele. Por via das dúvidas, ignorei o perigo e continuei. "O castelo está repleto de armadilhas mortais mas não é impenetrável."
"Não são mais mortais do que a minha mágica." Rebateu ela, não satisfeita por ser ignorada.
"São, se você não souber de onde vem."
"Talvez eu prefira correr o risco."
"Você sim, mas nós não." Interrompeu Branca. "Ele vem conosco."
Um sorriso de vitória cruzou meus lábios, imponente. Eu a encarei de volta, e podia jurar que por um segundo, tive até medo da maneira como Regina me olhava. Parecia uma mistura desigual de asco, raiva e um ódio mortífero.
Sinto muito, majestade. Mas terá que me engolir.
A visita ao castelo não havia sido realmente grande coisa. O traste do Rumpelstiltskin estava sobre algum feitiço ou confusão mental. Nada do que ele dizia parecia fazer sentido. Trancafiado em uma jaula e trabalhando sem parar naquela roca de fiar ouro, quase me deu pena. Quase. Mas ele era o Senhor das Trevas e isso não havia mudado.
No caminho de volta, estávamos em silêncio pensando no que havia acontecido. As peças levavam à Bruxa Boa do Sul, quem quer que fosse essa. Muitas coisas das quais eles falavam eu não entendia. Procurei por ela e a notei logo atrás, entre os últimos da multidão. Deixei que as pessoas passassem por mim, e em alguns minutos estava caminhando ao lado dela.
Regina me encarou por alguns segundos, a máscara incorruptível da nobreza imperial novamente em sua face.
"O que você quer, ladrão?"
"Eu disse que queria alguma coisa, vossa majestade?"
"Onde está Roland?"
"Seguro, no castelo."
"Pensei que não confiasse na minha magia."
Ela olhava para a frente, então quando olhei para ela, pude admirar seu belíssimo rosto. "Eu confio na magia, mas em você..."
"Está dizendo que não sou confiável?" Perguntou ela, rindo. Os lábios formavam uma curva uniforme quando ela sorria, num sorriso contagiante e expressivo. Ela era linda demais e eu estava me excedendo na admiração.
"Deve me perdoar, milady mas a sua fama lhe precede."
"Eu lhe entendo. Ladrão."
Sorri para mim mesmo, tentando absorver as provocações. Ela era tentadora. "Obrigada. Rainha Má." Ela trocou um olhar rápido comigo e voltou sua atenção para a frente. "Como se sente sabendo que está numa guerra contra a própria irmã? Não é estranho?"
"Não é exatamente estranho. Eu não a conhecia e ainda não conheço. O fato de ela me querer morta não nos aproxima como parentes."
"Branca me disse que você está sofrendo por causa do Henry."
Ela arregalou os olhos e sua boca semi abriu por alguns segundos. Em seguida ela limpou a garganta e sorriu polidamente. "Branca de Neve fala demais. Sempre falou. Mas esse assunto não é do seu interesse, ladrão. Esqueça isso."
"Eu não sei qual o seu problema, Regina." Parecia que eu tinha chamado a atenção dela. "Não há nada de mais em sentir a falta de um filho. Seja você rainha ou uma ladra, ou uma princesa, ou uma camponesa. Sentimentos são iguais para todos. As dores são iguais para todos. Ninguém está lhe julgando por isso. Isso só te torna humana."
Talvez eu tivesse sido duro demais. Com medo de ter atravessado algum limite e talvez para me preservar vivo, me distanciei dela e voltei para a frente da multidão. Ela seguiu meus movimentos com os olhos e por algum tempo, mesmo estando de costas para ela, podia sentir seus olhos em mim.
Era cedo na manhã e eu estava voltando da ronda matinal ao redor do castelo. Os perigos provenientes da Bruxa Má do Oeste eram reais e assustadores, qualquer cuidado era definitivamente pouco. Eu estava passando pelo saguão à caminho das barracas quando ouvi a gargalhada do meu filho.
Roland é uma razão enorme para se viver. Meu menino é tão vivaz, tão engraçado, e tão pequeno. Suas ações de cavalheirismo e cuidado com o próximo, mesmo numa idade tão jovem, me enchem de orgulho. Se Marian estivesse viva, também estaria muito orgulhosa dele.
Puxei a cortina da barraca, mas não me deparei com a cena que esperava. Meu filho estava deitado sobre o colo dela, e ela lhe fazia cócegas, sorrindo para ele de maneira igualmente genuína. Eles estavam felizes juntos. Eu sequer me lembrava da última vez que o vi rindo dessa maneira. Roland parecia realmente íntimo dela, a vontade com sua presença e Regina tinha tanto carinho no olhar quando olhava para ele que eu não ousaria chamá-la de Rainha Má novamente.
"Papa!" Roland me denunciou, rolando do colo dela e correndo na minha direção. Ela levantou o olhar e sorriu.
"Não queria atrapalhar."
"Não atrapalhou." Respondeu ela. Achei que quando me notasse, ela levantaria e iria embora imediatamente. Mas ela continuou ali, e eu por algum motivo não queria que ela fosse embora. Regina estava me viciando com a sua presença.
"Parece que Roland gostou de você."
Roland sorriu e sentou no chão, entretendo-se com uma folha e um giz colorido.
"Ele é um menino muito especial. Parabéns." Eu podia sentir a delicadeza e carinho em cada sílaba. Tive vontade de beijar aqueles lábios novamente.
"Está pensando no Henry?"
"Eu estou sempre pensando no Henry."
Queria abraça-la mas isso seria abusar da sorte. Já era sorte demais eu estar ali, ao lado dela, em sua barraca. Regina era uma mulher complexa mas quanto mais eu a conhecia, mais interessado eu ficava. Mais tempo eu queria passar com ela. Eu estava cometendo um erro, e sabia disso. Mas desistir dela parecia abominável.
"Não se preocupe, eu sei guardar segredo. Melhor do que a Branca de Neve."
Ela riu e eu tentei memorizar aquele som maravilhoso. Ela poderia passar o dia todo rindo, eu ia adorar. No entanto, ela se levantou e eu, por impulso, me levantei também.
"Obrigada pela oferta." Ela deu mais um passo para perto, e deslizou sua mão sobre o meu rosto. Fechei os olhos por um momento, aproveitando aquela sensação quente. Ainda com os olhos fechados, senti o hálito dela próximo à minha orelha. "Mas sinto que com você não preciso ter segredos."
Senti os lábios quentes na minha bochecha, plantando um beijo delicado e carinhoso. O cheiro dela invadia meu olfato e me deixava elétrico.
Quando tornei a abrir meus olhos, ela estava beijando o topo da cabeça do meu filho, acariciando seu cabelo liso.
No minuto seguinte, ela havia ido embora.
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