Nos foi proposta uma excursão até a floresta negra, onde supostamente estaria Glinda, uma bruxa boa que nos ajudaria a vencer Zelena. Eu não estava completamente convencido, de modo que deixei Roland no castelo. Regina me explicara que o castelo estava protegido por um feitiço poderoso e que nem mesmo Zelena poderia ultrapassá-lo e isso me deixou menos preocupado.

Regina estava à frente de nós, ao lado de David e Branca. Ela estava tão bela como de costume, mas os cabelos estavam soltos e isso era novidade para mim. Ela conseguia ficar ainda mais bonita.

Minha curiosidade a respeito das pessoas a quem eu acompanhava era tremenda. Até onde eu me lembrava, Regina desejava a morte de Branca de Neve. Todos no reino sabiam disso. E agora, veja bem, Branca de Neve parecia ser a melhor amiga ou única amiga da Rainha. Era enlouquecedor. Eu almejava conhecer o passado da mulher que agora ocupava não somente meu cotidiano, como também o cotidiano dos meus sonhos.

Paramos a beira de um rio para descansarmos. Revisei meus equipamentos e decidi dar uma volta para conhecer o território. Estava caminhando por entre as árvores quando ouvi vozes familiares. Eu quis continuar caminhando e ignorar as vozes. Mas era esse efeito que ela tinha em mim. Regina era um ímã e por mais que eu quisesse me afastar, era sugado para perto. Cada vez mais perto.

"O que você achou do nosso novo companheiro?"

"Robin?"

"Não. Rei Leopoldo. Claro que é o Robin."

Identifiquei rapidamente a voz de Regina e de Branca. Me mantive por trás de uma árvore, sob a sombra do tronco.

"Ele é bonito, não?"

Branca de Neve me acha bonito. Não sei se fico feliz ou acanhado.

"Ele tem cheiro de floresta."

"Mas você gosta dele."

"Cuide da sua vida, Branca de Neve." Tive vontade de rir. "Ele é apenas um homem. Não meu príncipe encantado."

"Apenas um homem cuja barraca você visitou essa manhã."

"Você está me seguindo, sua insolente?"

"O que está acontecendo entre vocês, Regina? E não me diga que não é nada, porque você contou a ele sobre Henry e você nunca fala disso para ninguém."

Houve um silêncio aterrorizante depois disso. Me esforcei para não me debruçar e olhar para a expressão facial dela.

"Branca..." O sussurro dela arrepiou minha espinha.

"Meu Deus! Eu sabia! Você gosta do Robin! Eu sabia! Vocês vão fazer um par tão bonito!"

"Acorda, Branca de Neve. Está achando que eu sou alguma princesa destinada a encontrar sua cara metade após algum acontecimento dramático e depois ter dúzias de filhos? Eu sou a Rainha. Ele é Robin Hood, o príncipe dos ladrões. Nós não temos nada em comum. Isso não pode e nem deve acontecer. Pertencemos a mundos diferentes."

"Regina, isso é besteira..."

"Chega. Esse assunto está encerrado. Vá descansar, esse bebê precisa de cuidado."

Contrariado, me afastei sem fazer nenhum som. Regina me rejeitara. No fundo, eu entendia o que ela sentia. Era o mesmo que eu, na maioria das vezes. Mas ouvir essas palavras saindo da boca dela era pior. Doía infinitamente mais. Eu sabia que ia me machucar, claro que sabia. Mas não imaginei que seria tão rápido.

Anoiteceu, e Roland estava com Regina. Não queria vê-la, não depois de ouvir aquela conversa. Meu plano era me distanciar até que não sentisse mais nada. No entanto, era a única mulher com a qual Roland sentia-se à vontade e eu não queria tirar lhe essa oportunidade.

Subi até o pátio e a avistei, sentada ao redor da fonte com meu filho ao seu lado, e ele contava algo empolgadíssimo, a mão aberta no ar. Me aproximei com um semblante sério.

"Hora de ir para a barraca, Roland."

"Ah, Papa! Mais um pouquinho?"

"A Rainha precisa de descanso, meu filho. Venha."

Regina me encarava, confusa. "Robin, se quiser eu o levo até sua barraca depois."

"Não quero incomoda-la, Rainha."

Ela mordeu o lábio inferior e me lembrei que ela não tinha ideia de que eu havia escutado sua conversa. Para ela, eu estava agindo completamente diferente de uma hora para a outra. Como um idiota. Um completo idiota. Bom, era isso que eu era de qualquer modo, não? Um idiota que não era bom o suficiente para ela. Roland veio até mim hesitante. Eu o peguei no colo e ela caminhou até nós, beijando a testa dele com cuidado. Ela me encarou com aqueles brilhantes olhos de cor marrom.

"Boa noite, Robin."

"Boa noite, majestade." Respondi seco e dei meia volta, afastando-me dela.

Se eu me sinto culpado? Sim. Me distanciar dela tinha se tornado o meu fardo pessoal. Eu podia sentir os olhos dela sobre mim o tempo todo, porém eu sou orgulhoso demais para retribuir. Desvio o olhar, volto a atenção para os meus instrumentos, converso com outras pessoas. Farei o que for preciso para mantê-la longe de mim.

"Belas flechas. São pontas banhadas no ouro?"

Levantei os olhos e avistei David. O príncipe tinha uma aparência nobre e apresentável. A face da realeza. Ouvira muitas histórias sobre sua bravura e de certo modo, ser o pai do filho de Branca de Neve fazia com que gostassemos dele imediatamente.

"Sim, são flechas banhadas em ouro."

"Posso perguntar onde conseguiu?"

"Foram presentes da Rainha."

David sorriu enquanto olhava para as flechas. "Ela deve gostar muito de você."

"Ou ela queria me manter longe do resto do ouro em seu castelo."

Algo começava a me intrigar. Estaria Regina abrindo tantas exceções a meu respeito?

"Se ela achasse que você é um perigo, você já estaria morto. Regina é bem direta nesse ponto."

Levantei os olhos e encarei o homem ao meu lado. Por que não? Eu já tinha levado um fora mesmo...

"Qual a história dela, se me permite perguntar? Ela sempre foi a temível Rainha? Como vocês todos ficaram 'amigos'?"

David sentou-se sobre um tronco de árvore, e eu me sentei no chão. Ele puxou a espada e começou a afiar seu gume enquanto falava.

"Regina era uma princesa, filha de um bruxa muito poderosa e cruel. Cora matou a mãe da Branca de Neve para que Regina se casasse com o pai dela e se tornasse rainha. Mas Regina tinha um namorado, e queria fugir com ele. Aí Cora matou o rapaz na frente da filha e obrigou-a a casar com o Rei Leopoldo. Quando Leopoldo morreu, Regina tomou o trono e finalmente tornou-se Rainha. Mas a rejeição do povo e a predileção das massas por Branca de Neve a transformaram na Rainha Má que todos nós conhecemos. Não vou defende-la mas tenho que admitir que Regina sofreu bastante. Ela não se tornou má sem motivo."

Era uma história muito triste. Eu engoli em seco, e ele chacoalhou a cabeça antes de colocar a espada de volta ao coldre.

"Qualquer que seja seu interesse nela, peço que reconsidere. Ela não precisa ter o coração partido novamente e nós não precisamos dela com sangue nos olhos de novo."

Alguém chamou por David, que acenou com a cabeça antes de caminhar para longe de mim. Talvez fosse melhor assim. Regina merecia um homem à sua altura, um homem que eu jamais conseguiria ser.

Regina estava sentada sobre um banco de madeira, enquanto pensava nos últimos encontros com Robin. Ela não entendia o que havia acontecido com ele. Pareciam estar em sintonia em um momento, mas repeliam-se no outro.

Ela olhava para as estrelas com um semblante triste. O que importava? Ela não ia ser feliz de qualquer jeito. Não era seu destino. Ela havia desperdiçado sua chance quando duvidou daquela fada estúpida e da sua teoria de amor verdadeiro. Um estranho no bar era a sua alma gêmea? Quem acredita nessas coisas?

Ela tivera sorte de não engravidar de Leopoldo. Sua vida estaria arruinada, assim como a vida dessa pobre criança. Sua mente a levou para Henry. Seu filho. Um garoto com o coração mais belo que ela já havia visto, o único que sempre depositara fé nela. Seu verdadeiro amor. O único que sentiria falta dela, se pudesse. Mas ele não podia. Não podia porque Regina presenteara Emma Swan e seu querido filho com novas vidas, novas histórias, novas memórias, e um futuro brilhante. Eles seriam felizes. Havia sido de longe a decisão mais difícil e o sacrifício mais penoso que Regina já fizera. Mas ela estava orgulhosa de si mesmo. Ela destruíra a si mesmo para garantir a felicidade do amor da sua vida, e não se arrependia de maneira nenhuma.

Henry seria feliz. Era só isso que importava.

Robin havia desistido dela? Ou ela havia desistido de si mesma? Se Henry estivesse ali, discordaria da atitude dela. 'Você vai deixar mais uma pessoa especial ir embora por conta do seu orgulho, mãe?'. Ela podia imaginar a voz dele fazendo essa pergunta e sorriu. Seus olhos encheram de lágrimas. Como ela sentia falta dele...