Confessionário
41 Capítulo 41
Regina acordou com um leve desconforto, provocado pela claridade que a acometia gradativamente. Tentou abrir os olhos, mas estes estranharam a súbita claridade; segundos depois sentiu-se melhor adaptada e abriu os olhos. Estava sozinha. Ajeitou-se na cama, e ouviu ruídos. Com alguma dificuldade, percebeu que os ruídos eram na verdade a voz de sua mãe, num tom baixo o suficiente para deixa-la curiosa. Cora Mills não sussurrava. Era difícil até mesmo ter uma conversa em tom normal com ela.
“Alguém vai pagar caro se não descobrirem quem entregou isso a ela.”
“Mas...”
“Mas nada. Descubra quem é o responsável. Ou vou punir você.”
A porta do quarto abriu-se logo em seguida, e Cora adentrou o local sorrindo. “Querida! Como está?”
“O que aconteceu comigo ontem?”
“Eu que lhe pergunto, Regina. Quem lhe entregou aquela poção?” Os olhos predadores de sua mãe a fiscalizavam em busca de algum relance de confirmação. Mas ela sabia que não podia falar nada. O rapaz morreria e possivelmente Robin também.
“Que poção?”
“Quando desmaiou ontem, havia uma garrafa em sua mão.”
“Eu... Eu não me lembro.”
Cora a observou por alguns segundos, possivelmente decidindo se ela estava mentindo ou não. “Tudo bem. Bom, temos aproximadamente três horas até o casamento. Vá arrumar-se. Será um longo dia.”
Regina observou enquanto a mãe saía e esperou que ela fechasse as portas atrás de si para demonstrar alguma reação. Respirou fundo, sentindo um nó formar-se em sua traqueia. Levantou-se e caminhou até a grande janela em seu quarto; muitas pessoas adentravam os portões do palácio, encantadas pela perspectiva de uma festa de casamento real. Ela sentia uma imensa vontade de chorar, uma angústia misturada ao desespero de estar cada vez mais perto do pior momento de toda a sua vida.
Não sabia o que Robin estava planejando, mas no fundo torcia para que ele tivesse mesmo um plano e que fosse bom o suficiente para funcionar. Ele era, naquele momento, sua única esperança.
Robin vestiu as botas e olhou pela fresta da porta. Não tinha certeza do seu futuro. Lembrava-se das palavras de Pandora. Lembrava-se de que quando a beijasse, esqueceria tudo – exatamente tudo – sobre o seu percurso até ali e isso o assustava. Tinha medo de voltar a ser o idiota que era e estragar sua chance de um final feliz. Esse medo o assombrava a cada segundo.
“Está pronto?” Questionou Luke, enquanto o observava. Luke segurava o arco com força e Robin olhou com carinho para as flechas com a qual o havia presenteado. O garoto deveria ter pouco mais de dezessete anos – e já era um órfão refugiado entre eles.
“Sim.” Respondeu, apertando o colete de couro contra o corpo. “Quando eu me for, Luke, quero que cuide bem dos meus homens. Por favor, peço como um favor de amigo e companheiro. Eu nunca fui um líder decente para eles, eu nunca fui um membro decente desse grupo. Mas eu prezo pela segurança deles.”
“Eu farei isso.”
Robin observou-o saindo. Perguntava-se se estava fazendo a coisa certa. Se havia a remota chance de seu plano realizar-se. Abigail havia lhe dito que tudo que ele precisava era acreditar. Ele precisava se apegar a isso. Ouviu um barulho e lembrou-se de que não estava sozinho naquele local. Observou a convidada escondida por baixo de uma capa preta e ela olhou para ele.
“Você tem certeza do que está fazendo?” Perguntou ela.
“Absoluta.”
“Você não me parece muito confiante. Não me leve a mal.”
Ele encarou-a, com seus pensamentos embaralhados pelas diversas viagens no tempo. Depois de um tempo constrangedor de silêncio, ele sorriu com o canto dos lábios. “Eu não tenho experiência nesse tipo de operação.”
“E o que leva você a acreditar que dará certo?”
“Por que eu sei algo que a minha oponente não sabe. Eu estou a um passo à frente dela.”
Robin caminhou até a pequena mesa de madeira e colocou a espada em seu coldre, sob o olhar da mulher. As outras duas lanças de cabo curto colocou dentro do colete. “Devo me preocupar com tanto armamento? ”
“Não.” Resumiu ele.
“Dá para ver a faca na sua bota esquerda. Precisa esconder melhor isso.” Alertou ela, observando-o.
Ele devolveu o olhar, surpreso e então agachou-se, arrumando o tecido ao redor da bota gasta. Uma vez em pé, bateu as mãos na calça. “Vamos, está na hora do show.”
Robin aguardou enquanto ela saía na sua frente e fechou a porta atrás de si. Respirou fundo, guardando uma memória bonita da última vez que estaria ali.
Regina já estava na entrada, pronta para entrar no saguão. Seu vestido apertado havia sido lavado e acolchoado, de modo que parecia ainda mais apertado contra seu corpo delicado. Suas diversas caudas pesavam, assim como a sua cabeça. Robin não fizera nada por ela. Robin não a salvaria daquele casamento. Também, o que ela esperava? Que um cara que só viu uma vez na vida viesse resgatá-la apaixonadamente? Possivelmente, ele estava rindo dela em algum bar mofado nas periferias do reino.
Mordeu o lábio inferior e olhou pela fresta pequena. Havia milhares de pessoas ali.
“Você está maravilhosa, Regina.”
Aquela voz! Ela virou-se assustada e deparou-se com Robin. Encarou-a confusa, como que se perguntando obviamente o que ele fazia ali. Se Cora o visse, ele seria um homem morto. Vestia um colete de couro grosso que o deixava muito bonito.
“O que faz aqui?”
“Eu vim ajudar você.”
“Robin...” Suspirou ela, entristecida. “Não se envolva. Minha mãe vai matar você, nós já falamos sobre isso. Eu vou me casar em minutos. Você não pode impedir. Vai fazer o que? Me colocar no seu cavalo e fugir?”
“Você acabou com o meu plano.” Resmungou ele e ela riu, surpreendendo-se pelo fato de ele conseguir fazer-lhe rir apesar de toda aquela situação trágica.
“É sério. Vá embora. Minha mãe virá aqui a qualquer momento.”
Robin aproximou-se dela mas parou a uma distância que lhe desse segurança. Seus olhos se cruzaram e ele sorriu, encarando-a profundamente. “Eu nunca vi nada mais bonito na face da terra do que você neste vestido.” Ele parecia hipnotizado. Alguns segundos depois, ele pareceu sair do transe e tornou a encará-la. “Você confia em mim?”
“Robin, eu...” Ela estava insegura e seu coração batia aceleradamente, ciente do quão perigosa era aquela aproximação. Do quão perigoso era para ele estar ali conversando com ela, incitando-a a fugir de Cora. Ela tinha medo, muito medo.
“Responda à pergunta, Regina. Você confia em mim?”
“Eu mal conheço você.”
Ele sorriu, encarando-a com carinho. “Boa garota. Mas se você quiser escapar, vai ter que confiar em mim. Você pode tentar fazer isso?”
Foi a vez de ela sorrir, encarando aquele rosto bonito. “Robin, você não é páreo para ela. Ou para os cavaleiros de Leopold. É um contra uma multidão.”
“E quem disse que eu estou sozinho? Eu tenho exatamente a ajuda que preciso.”
Regina encarava-o em dúvida, mas ele parecia confiante. Ou então era um idiota sorridente, ela não saberia distinguir muito bem. O nervosismo a estremecia por completo e a deixava completamente travada. Ela sequer conseguia pensar com clareza.
“Tudo bem. E qual é o seu plano?”
Em frente ao membro do alto clero, um religioso severo com uma expressão de completo desprezo, Regina sentia sua sanidade se desintegrando. Ele recitava o mesmo discurso do dia anterior, aquelas palavras rebuscadas e completamente profanas, doutrinas que eles mesmo não eram hábeis de seguir. Mas ela não estava prestando atenção. Tentava respirar de modo que nem sua mãe nem o Rei notassem seu nervosismo.
“Você está bem?” Sussurrou o homem ao seu lado em seu traje mais caro, a coroa dourada brilhando em sua cabeça.
Ela balançou a cabeça afirmativamente e respondeu sem olhar para ele. “Está tudo bem.”
“Então não respire como uma doida.”
Ela engoliu em seco. Seu olhar cruzou com o de Robin, que a observava de longe. Ele estava um pouco atrás do altar, entre duas colunas, de modo que ela conseguia vê-lo, mas as outras pessoas não. Regina ainda não havia decidido o que sentia a respeito dele. Havia se precipitado ao imaginar uma louca história de amor pois até aquele momento, ele era um homem legal com a qual ela conversara em uma taverna. Mas não negaria como ele a incomodava. Havia algo na maneira que ele falava com ela, algo na maneira com a qual ele a olhava.... Havia algo ali. Um sentimento, como se ele soubesse muito mais dela do que ela mesma sabia. Como ele poderia ter tanto sentimento por uma estranha?
Ele colocou o dedo indicador sobre os lábios e balançou a cabeça. Regina observou pela visão periférica que a mãe continuava ali à sua esquerda, observando tudo de maneira extremamente sorridente. Me desculpe, mãe. É uma pena ter que acabar assim, pensou.
Houve um silvo, e então uma fumaça escura e densa começou a tomar conta do saguão todo. Não demorou pouco mais que segundos para que todos os convidados estivessem em um completo apagão, uma escuridão quase absoluta. Regina sentiu uma mão sobre a sua, dedos entrelaçando-se aos seus e teve a certeza que só poderia ser ele. Não teve tempo para dúvidas. Seguiu-o no meio daquela fumaça, ouvindo os gritos de sua mãe distanciando-se.
Correndo por um corredor estreito, eles saíram em uma das portas laterais para o jardim. Robin correu até um cavalo que estava amarrado em uma árvore. “Um cavalo? Esse é o seu plano?” Gritou ela, assustada. “Meu Deus, Robin! Nós vamos morrer aqui!”
Ele correu até ela, colocando a mão sobre os seus lábios.” Nós vamos morrer se você continuar gritando.” Ela o encarou, surpresa com o toque e ele rapidamente a soltou. Robin subiu no cavalo, e estendeu a mão para que ele subisse também. Ele gentilmente guiou as mãos dela de modo que ela o abraçasse com força. “Não tenha vergonha. Segure bastante firme ou vamos cair.”
A gritaria estava diminuindo. Robin deu comando ao animal que começou a correr por cima da decoração do jardim. A cavalaria começara a sair correndo de dentro do castelo. “A princesa está fugindo! Peguem-na!” Alguns deles corriam, e Regina observou que outros homens os atrapalhavam, lutando contra eles.
“São seus amigos?”
“É a família que eu tenho.”
Regina agarrou-o e ele cruzou o jardim todo, passando pelo grande pátio. Mas antes de chegar no portão de entrada, o cavalo instantaneamente se paralisou e os dois foram arremessados contra o chão. Robin sentiu a pancada, mas fitou a distância até o portão. Era pouca. Daria tempo se eles conseguissem correr. Ele buscou por Regina, e viu que ela estava completamente paralisada observando algo. Robin virou-se para trás e entendeu o olhar aterrorizado dela. Cora.
“Sua garotinha idiota. O que pensa que está fazendo? Acha que vou deixá-la sair com esse projetinho de ladrão? Você não aprende, não é Regina? Uma morte não foi suficiente? Daniel não foi suficiente?”
“Não!” Gritou ela. “Deixe ele ir. Eu me caso com o Rei. Eu faço o que você quiser. Já basta uma morte por minha causa, mãe.”
“Deveria ter pensado nisso antes.” Sibilou Cora, encarando Robin com um semblante de profundo ódio. Ela ergueu a mão no ar e começou a aproximar-se deles. Regina engoliu em seco. Mas no exato momento em que sua mãe arremessou seu poder contra Robin, alguém entrou na frente. Regina não conseguia ver quem era. Tudo que conseguia ver era uma capa preta. Cora arremessou mais uma bola de fogo, mas quem quer que fosse, conseguia eliminar a magia no ar sem qualquer esforço. Com um movimento, Regina percebeu que Cora estava imobilizada.
“Quem é você?” Perguntou sua mãe. Regina podia perceber pela expressão no rosto dela o quanto ela estava assustada por ter sido derrotada. Regina sequer acreditava que existisse alguém mais poderoso que Cora.
“Vamos, Regina!” Gritou Robin e ela saiu do seu transe, observando que ele havia montado no cavalo novamente. Regina levantou-se desajeitadamente e então observou quando a pessoa se virou para trás, e encarou-a. Era uma mulher linda, olhos azuis, muito azuis e um cabelo ruivo brilhante cacheado. Seu rosto era lindo, encantadoramente lindo. “Vá logo. Não vou segurá-la por muito tempo.”
Robin sentiu os braços da morena apertados ao redor da sua cintura e cavalgou sem olhou para trás. Correu, como se a sua vida dependesse daquilo – e de certo modo, dependia. Regina olhou para trás apenas a tempo de ver a belíssima estranha derrubando a capa negra no chão e erguendo as mãos para o céu. No segundo seguinte, uma cerca viva de espinhos cresceu ao redor de todo o castelo, aprisionando todos ali e permitindo que Robin e Regina fugissem em segurança.
O pobre animal já dava sinais de completa exaustão, de modo que Robin resolvera parar. Eles estavam bem longe do reino de Leopold, e começava a anoitecer, de modo que eles precisavam de algum abrigo para a noite. Eles caminharam até a beira de um lago. Ela observou-o enquanto ele cuidadosamente levou o animal até a água, deixando-o beber e jogando um pouco de água sobre o lombo cansado. Assim que esse parecia devidamente satisfeito, Robin o puxou até uma arvore próxima, amarrando-o ali.
Ele levantou o olhar e percebeu que ela o encarava. Sorriu, porém, o sorriso dissipou-se rápido. Caminhou até onde ela estava, sentando-se ao seu lado. “Você está bem?”
Ela sorriu, o semblante cansado. “Sim. Mas tenho muitas perguntas.”
“Eu sei que tem. Podemos só procurar um abrigo primeiro? Eu respondo tudo.
Regina balançou a cabeça afirmativamente. “Vou apenas deixar Bartolomeu descansar um pouco e continuamos. Há luzes à frente, é possível que encontremos alguma casa.”
“Seu cavalo chama Bartolomeu? ”
“Sim, você não gosta?”
“Poderia ser pior. É meio bonitinho, até.” Brincou ela e percebeu que Robin sorriu. Ele estava completamente relaxado e confortável na presença dela e aquilo continuava martelando seus pensamentos feito uma bigorna sem direção.
“Você vai ficar com essa roupa?” Perguntou, apontando para o vestido de noiva.
“Você quer que eu fique nua por acaso?” Apesar de ter respondido de uma maneira rude e completamente ignorante, ela não pode evitar sorrir quando percebeu que ele ponderou sobre a resposta. Ele não havia falado nada, mas o sorriso safado lhe dissera muita coisa. Por isso, ela gargalhou. “Nem pense nisso, carpinteiro. Não é o para o seu bico.”
“Eu não disse nada.”
“E nem ouse dizer. Aliás, acho que o Bartolomeu pode ir trotando. É só a gente não subir nele.” Ela levantou-se com certa dificuldade, mas não pediu ajuda. Caminhou até a arvore, acariciou a fronte do cavalo, descendo num esfregão amigável pelo chanfro do animal. Ele percebeu que seu equino gostava dela. Regina desatou o nó e trouxe o cavalo, passando por ele sem dizer uma palavra e voltando para a estrada.
Robin sorriu, certo de que estava se apaixonando por ela pela terceira vez.
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