Ela andava bem rápido para quem estava usando um vestido pesado e cheio de parafernálias. Robin precisou correr para alcança-la.

“Você anda rápido.” Resmungou ele.

Ela não se deu ao trabalho de olhar para ele. Estava concentrada nas luzes que vira. Possivelmente uma casa. Ou celeiro. “Ou você que é devagar demais.”

Ele não respondeu. A noite começava a cair, as primeiras estrelas desapontando no céu acinzentado. Observava as constelações, e perguntava-se o que estaria acontecendo com seus amigos, o que teria acontecido com Cora, com o Rei, e com Zelena. Não sabia até onde seu plano daria certo, mas o fato de Cora não os ter assassinado ainda era um ótimo sinal.

“Posso perguntar uma coisa?”

“Nós ainda não conseguimos abrigo, Regina.”

Ela fitou o homem ao seu lado. “Idiota.”

“Pode me xingar.” Respondeu ele, com um sorriso no rosto. “Mas o combinado não foi esse.”

“Grande porcaria este combinado.”

“O que houve com a princesa? Ela some quando anoitece e você incorpora o espírito do mal humor?”

Regina cruzou o caminho na frente dele, de modo que Robin trombou com o cavalo. Ela cruzou o gramado, e não se importou em lhe perguntar nada. Eles andaram até o enorme galpão de madeira. Depois de uma breve inspeção, ela constatou que era só o galpão. Não havia nenhuma outra construção a uma distância razoável. Quando Robin chegou à porta, observou-a parada ao lado com a corda de Bartolomeu nas mãos.

“Não entrou por quê?”

“Eu não sei quebrar cadeados. Tenho cara de quem roubava as coisas dos outros? Esse é o seu departamento.”

Ele encarou-a com uma das sobrancelhas levantadas. Ela ergueu as mãos, estupefata. “O que foi? Não foi uma ofensa, você mesmo disse que era um ladrão!”

Robin balançou a cabeça e retirou uma das lanças de dentro do colete, batendo-a contra a pequena estrutura metálica e quebrando o cadeado. “Você é insuportável.”

“Eu sei.”

Regina entregou as rédeas do cavalo para ele e entrou no celeiro. Havia uma iluminação fraca vinda de lanternas escurecidas pelo tempo, mas era suficiente. Robin entrou logo atrás dela, e puxou o cavalo até um dos cantos onde havia uma caixa de feno. Seria suficiente para ele dormir ali.

“Me empresta aquela lança, por favor.” Ele encarou-a, confuso com o pedido. O que ela estava planejando?

“Eu não vou te matar, não vou me matar, não vou matar o cavalo, não vou me machucar, sim eu sei manusear.”

Contrariado, Robin entregou a lança para ela e assistiu enquanto ela desapareceu entre algumas pilhas de feno. Ele fuçou nos armários e então encontrou um frasco de querosene. Sem nenhuma dificuldade, amontou alguns fardos de maneira segura e conseguiu reproduzir uma fogueira pequena. Seria o suficiente para eles.

Estava agachado aquecendo as palmas de suas mãos quando ela ressurgiu, o vestido agora na altura dos joelhos era justo e simples. Ela havia cortado a parte mais pesada, mas segurava o tecido em suas mãos. Caminhou até ele e entregou a lança. Robin tentou não fitar as pernas descobertas, embora parecesse uma tarefa impossível de se cumprir. “Pronto. Ganhei um vestido mais versátil e um cobertor para passar a noite.”

“Você daria uma ótima artesã.”

“E você um palhaço da corte.”

Ela estava ajeitando-se sobre um fardo maior quando sorriu para ele. Enrolada no resto do vestido cortado, ela ajeitou-se ali como se fosse um leito e o fitou. “Vamos conversar. Eu tenho muitas dúvidas.”

Ele recostou-se a algumas caixas de madeira, sentado no chão. “Eu sei.” Um olhar de curiosidade cruzou com um olhar de confiança dele. Era contraditório o quanto eles se repeliam. Mas de certo modo, Regina sentia que precisava saber. Ela tamborilou os dedos em seu colo e ele sorriu. “Pergunte.”

“O que aconteceu com o seu amigo? Ele morreu?”

“Eu resgatei o Matthew da prisão naquele mesmo dia.”

Ela ponderou sobre a resposta. Daí continuou. “Como você sabia que eu ia beber aquele negócio horrendo que me enviou?”

Ele sorriu, as covinhas formando-se no canto da boca. Ela achou adorável. “Eu não sabia. Eu tinha fé em você, só isso. Deixei a minha única chance e a vida do meu amigo nas suas mãos.”

“Não deveria ter confiado em mim. Ele poderia ter morrido, e eu poderia ter jogado a poção fora.”

“Mas não o fez. Pelo contrário, você bebeu a poção.”

Ela sorriu. “Aquilo doeu muito! Eu cheguei a achar que você estava me matando.”

“Desculpe.” O olhar dele era tão sério e profundo que ela sentia que logo ele perfuraria seu crânio. “Eu precisava ganhar tempo. Uma dor temporária pareceu uma boa saída... talvez eu só não tenha dosado corretamente.”

“Ganhar tempo para o quê?”

“Eu tinha que trazer alguém para o casamento. E essa pessoa morava em um reino um pouco longe. Eu tive que fazer um acordo para conseguir isso.”

Regina levou apenas alguns segundos para ligar os pontos. Sabia de quem ele estava falando.

“Quem era aquela mulher? A que nos ajudou a fugir?”

“Aquela era Zelena.”

“E quem é ela? Ela é uma feiticeira, uma bruxa... Robin, ela conseguiu deter a minha mãe. Eu nunca vi ninguém fazer aquilo.”

Robin encarou-a por alguns segundos. Era ali que começava a verdade. E ele se encontrava na difícil missão de contar a verdade, sem contar a verdade. “Ela é sua irmã.”

Regina gargalhou. Forte, estridente, divertidamente. Ela só parou de rir quando seus olhos cruzaram com os de Robin, e ela percebeu que ele não estava rindo. Ele não estava falando sério, estava?

“Regina...” Tentou ele, percebendo o olhar dela.

“Como assim minha irmã?”

“Cora nunca lhe disse, mas ela teve outra filha. Você não é filha única. Nunca foi. Ela abandonou Zelena em outro reino e deixou-a para trás, concentrando os instintos maternos em você apenas. Possivelmente, é por isso que sua mãe não é párea para os poderes de Zelena. Porque eles vieram dela.”

Regina permaneceu em silêncio, fitando-o. Se aquilo era verdade, se aquela mulher era sua irmã – então o que ela havia feito? Ela deveria odiar Regina, não a ajudar a fugir. Regina a deixara para trás, e ela própria sabia o quanto Cora poderia ser horrível.

“E por que ela me ajudaria, Robin? Quer dizer... enquanto ela levava uma vida sem os pais, totalmente sozinha no mundo, Cora fazia de tudo para eu me tornar uma rainha, um membro de realeza. Ela deveria me odiar.” Ela fitou os próprios pés. Seu semblante havia mudado. Havia algo ali, uma dor sufocada, uma preocupação velada. Algo que ela não admitiria nem em um milhão de anos, mas que era essencialmente transparente para quem quisesse ver. “Robin, o que foi que eu fiz? Eu deixei ela para trás. E a Cora, a Cora vai...”

“Regina.” Ele chamou sua atenção e ela imediatamente olhou para ele. “Zelena concordou com o plano. Ela quer a coroa que você dispensou. A essa hora, ela deve ter se casado com o rei. Ou deve ter tomado a coroa dele, não sei. Sua irmã não é uma vilã mas também não é essa princesa desamparada e sensível que você está pensando. Ela ajudou você a fugir porque isso também tornava seu final feliz possível.”

“Mas isso é loucura.”

“Mas ela é louca. Acredite em mim, eu sei disso. Zelena é louca. Não se preocupe. É mais provável que sua mãe sofra nas mãos dela do que o contrário.” Regina encarou-o em silêncio. Seu rosto estava completamente sem reação, de modo que Robin fitou-a de maneira doce mas percebeu que algo estava errado. “O que foi?”

“Quem é você?”

“Como assim quem sou eu?”

Ela respirou fundo. “Robin... Seja honesto comigo. Como você sabe dessas coisas? Quer dizer, sempre que converso com você, sinto que você me conhece bem mais do que eu te conheço, é como se você me conhecesse há anos, e agora percebo que você sabe mais da minha família do que eu mesma. O que me faz pensar quem é você, e o que você realmente quer.”

Por algum tempo, Robin encarou o chão abaixo de seus pés. O silêncio instalou-se entre eles. Ele se levantou, ainda em silêncio até que finalmente, seus olhares se encontraram e permaneceram ali, entrelaçados – o olhar suave de uma princesa, o olhar intenso de um homem perturbado por seus pensamentos.

“Eu sou quem eu disse que sou, Regina. Robin de Locksley. Já fui um ladrão. Hoje não sou mais. Sim, eu sei muitas coisas sobre você, e eu não posso explicar isso para você agora. Você me perguntou quem sou eu, e eu vou dizer quem sou eu neste exato momento. Nesse momento eu sou o homem que deixou tudo o que tinha para trás – amigos, casa, uma vida – para dar a você a oportunidade de ter uma vida de verdade.” Os olhos dela se arregalaram. “E eu não quero absolutamente nada em troca, não se preocupe. A minha única intenção aqui é manter você segura. Você não precisa gostar de mim, você não precisa ser amigável ou simpática se não quiser. Mas estamos juntos nessa, e só temos um ao outro. Sei que não sou a companhia que sempre sonhou e você está certa, você não sabe nada sobre quem sou eu. Mas você precisa confiar em mim ou pelo menos tentar.”

Ela ficou em silêncio enquanto ele saía do celeiro. Atordoada, ela deitou a cabeça no fardo em que estava deitada e meditou nas palavras dele até que o sono a arrebatou.