Confessionário
40 Capítulo 40
Ele pisava com cuidado na vegetação úmida sob os seus pés, tentando não causar nenhum barulho desnecessário com o movimento das suas botas pesadas. Sozinho naquela clareira com um arco e algumas flechas, Robin não se sentia oficialmente no controle da situação. Era um plano arriscado e por que não, ridículo. Mas era o que ele tinha em mãos.
“Rumpelstiltskin.” Chamou ele, olhando em volta enquanto os pássaros piavam despreocupados com o mundo à sua volta. Ele adorava o cheiro da relva das árvores, o som da água caindo em alguma queda natural ao seu redor, a melodia das aves que se empoleiravam por cima das altíssimas copas das arvores.
“A quem devo a honra?”
Ele virou-se lentamente e observou a criatura pitoresca sentada em um tronco caído, observando-o. Sua pele tinha as características da pele de um crocodilo, embora houvesse um brilho diferente, cintilante que trazia certo glamour sobre ele. Seus olhos de réptil capturaram os olhos azuis do arqueiro.
“Eu preciso da sua ajuda.”
A gargalhada cômica do feiticeiro preencheu o espaço entre eles. Rumpelstiltskin levantou-se e balançando os dedos no ar começou a sorrir. “O que te faz pensar que eu irei te ajudar?”
“Eu tenho informações do futuro.”
Robin sentiu os olhos gélidos do feiticeiro sobre ele. Como se estudasse suas reações, como se houvesse uma magia capaz de tornar legível as suas palavras intenções e pensamentos. Ele sabia que não, mas a sensação estava bem ali. “A viagem no tempo é proibida, queridinho. Quer me convencer de que já esteve lá?”
“Eu estive lá. E eu posso provar.”
“Prove.” Demandou a criatura, mas Robin encarou-a com o cenho franzido.
“Não de graça. Temos um acordo ou não?”
O risinho de Rumpel ecoou nos ouvidos do arqueiro. “Veja só...” Começou ele, balançando os dedos no ar como se fosse um ato coreografado. “Eu preciso de alguma confirmação. Não vou aceitar um acordo se não sei o que você tem para me oferecer. Eu tenho essa cara de legal, mas é apenas ilusão de ótica.”
Robin apertou o arco com ainda mais força, enrolando os dedos ao redor da madeira esculpida à mão. “Eu sei sobre a maldição que quer lançar e nos levar para um mundo sem magia onde você acha que encontrará Baelfire.”
Através de um movimento incrivelmente rápido, Rumpel aproximou-se do arqueiro, colocando a ponteira da flecha em seu pescoço. “Quem é você? O que sabe sobre Bae?”
“É um bom menino, que vai se tornar um homem bom.” Robin tentava falar lentamente, já que o homem à sua frente não diminuía a pressão da flecha em seu jugular e ele temia machucar-se. “Eu estive no futuro, eu fui amigo dele e da Belle.” Os olhos do feiticeiro demonstraram um brilho leve que logo dissipou-se em uma nuvem de desconfiança. “Eu sei o seu plano e já aviso que vai dar errado, ele não está onde você acha. Ele foi levado para a Terra do Nunca.”
“Eu não acredito em você, mas se acreditasse, me pergunto porque você arqueiro de coisa nenhuma, me contaria isso. Qual seu preço, camponês? Por que ajudar o temível Senhor das Trevas?”
Rumpelstiltskin desconfiava da história. Em seus anos de magia negra e estudos das diversas portabilidades entre mundos, das maldições e artifícios mágicos que poderiam ser uteis em algum momento, nunca houvera uma explicação para aquele homem ter realmente viajado por um portal do tempo. Mas ele sabia coisas que eram inexplicáveis, coisas que o feiticeiro sequer havia pronunciado até então, ideias calculadas friamente em sua mente imersa em psicopatia.
“Por que você quer usar uma pessoa para lançar a maldição e eu não quero esse destino para ela.”
A gargalhada dele ecoou pelo matagal. “Regina. Você está apaixonado por ela?”
“Este é o meu preço.”
“E o que eu ganho com isso?”
Robin sorriu, encarando o ser pitoresco à sua frente e ao mesmo tempo, respirando profundamente depois de muito tempo. Confiava em suas concepções. Confiava em seu plano. Ele possuía uma vantagem acima de qualquer um ali e iria usá-la da melhor maneira possível. “Eu tenho um plano que pode beneficiar a ambos. Temos um acordo ou não?”
“Temos um acordo. Se você ousar trapacear, matarei você, sua família, seus amigos, seus vizinhos e quem mais você conhecer. Vou matar todos eles antes para você assistir. Estamos entendidos?”
Robin encarou-o com um sorriso malicioso nos lábios.
“E não se esqueça, querido. Toda a mágica vem com um preço.”
Robin encarou-o por alguns segundos, o olhar fixo nele, o maxilar rígido, a respiração perceptível pela maneira como a jugular aparecia vez por outra sob a pele do pescoço. “Eu estou disposto a pagar o que for por ela.”
Rumpel encarou-o com deboche no olhar. “O amor é uma fraqueza, queridinho.”
“Assim como o poder.” Rebateu.
“Certo. Você me pegou. Agora me conte: qual é o engenhoso plano? ”
As criadas ajeitavam cuidadosamente a cauda do vestido longo e ostensivo que ela usava. Dobravam o tecido com cuidado, os dedos delicados contornavam a textura do vestido, a costura manual delicadamente trabalhada de modo que ele trouxesse ao espectador uma sensação de um movimento calmo e leve como o voar de uma pluma. Era um vestido formidável, exceto talvez por um único motivo – Regina não queria se casar.
Ela olhou pela janela e observou o sol começando a se pôr. Ainda estava ensolarado, mas podia-se ver uma mudança sutil na maneira como as luzes espalhavam-se pelo céu, criando um espectro laranja e rosa salmão. “Está bom assim.” Disse ela, e as criadas imediatamente pararam suas atividades, afastando-se. “Podem ir, eu gostaria de ficar sozinha.”
Quando elas fecharam a porta atrás de si, Regina finalmente conseguiu respirar. Audivelmente. Suas emoções mais viscerais rasgando-a por dentro, a raiva, a dor, o inconformismo queimando como um vulcão em processo de erupção. Odiava-se por ter salvo a maldita Branca de Neve. Era tudo culpa dela. Ela, somente ela. A maldita fofoqueira linguaruda.
Não! Ela balançou a cabeça, tentando limpar sua mente daqueles pensamentos. Ela não era essa pessoa! Ela não desejava a morte de uma criança! Regina respirou fundo, pensando em como aquela situação a estava moldando. Temia o que o casamento com um homem como Leopold faria com ela. Tinha medo do que isso significaria. Se tornaria uma mulher amarga, cheia de motivações cruéis e vis? Ou uma mulher fracassada e destruída sem nenhuma luz para viver? Nenhuma perspectiva lhe parecia agradável, e esse era o pior dos pesadelos.
Estava caminhando na direção da porta quando uma flecha atravessou seu quarto e fincou-se na porta, por cima do trinco, impedindo-a de sair ou de outras pessoas entrarem no quarto. Quando Regina virou-se para trás, assustada por notar que não estava sozinha, observou um homem de cabelos castanho claro e olhos verdes, vestido com um colete de couro e uma calça gasta. Suas botas lembravam-na de Robin Hood.
“Quem é você?” Perguntou ela, sem demonstrar nenhum nervosismo.
“Por favor, princesa. Não grite.”
“Vou gritar se não me disser quem é e o que quer.”
“Robin me enviou.” A voz dele soava baixa, como se ele estivesse tentando sussurrar – embora seu tom de voz estivesse bastante alto para um sussurro.
“Robin? Ele está aqui?” Seus olhos brilharam e ela sorriu, involuntariamente. Por mais que não o conhecesse, gostara dele. Mas a felicidade mostrou-se passageira, pois o brilho em seu rosto desapareceu quase que instantaneamente. Não queria Robin ali. Não queria que ele a visse se casando com o Rei. Não queria vê-lo pois era melhor fingir que jamais haviam se conhecido.
“Ele não veio. Mas pediu-me para lhe trazer uma coisa.”
O homem vasculhou o pequeno alforje de couro que trazia atado ao corpo, e rapidamente tirou um vidrinho escuro com uma espécie de liquido denso. Ele estendeu a mão, oferecendo-o a ela, e afastando-se logo em seguida, como uma espécie quase religiosa de respeito ao espaço pessoal.
“O que é isso?”
“Ele não me disse, princesa. Ele só me pediu para dizer à senhora que precisa confiar nele. Disse para a senhora beber pouco antes da cerimônia.”
Ela sorriu, encarando o vidro em suas mãos e depois voltando sua atenção ao estranho em seu quarto. “Você acha que eu sou idiota, não é mesmo? Vem aqui, me dá um veneno qualquer e diz que foi o Robin. Eu não vou beber isso, nem agora nem nunca.”
O homem sorriu abertamente, encarando-a com diversão.
“Você está achando engraçado?” Ela virou-se para a porta. “Guardas!” Gritou ela, e foi atendida rapidamente. Os cavaleiros entraram no quarto e seguraram o homem. “Levem esse louco para o calabouço.” Ele continuava sorrindo, e isso a incomodou.
“Por que continua rindo, seu insano?”
“Porque Robin disse que você reagiria assim.” Regina encarou-o confusa. O que estava acontecendo? Ela não conseguia decidir se acreditava nele realmente ou não. Não sabia o que pensar sobre Robin, sobre aquela proposta, sobre o quanto tudo aquilo não fazia sentido algum. “E ele disse que era para você confiar nele como confiou em Tinkerbell.”
“O que? Como ele sabe disso?”
“Eu não sei, princesa. Eu só estou passando as palavras dele.”
Regina deixou que os cavaleiros o levassem. Não os impediu, mesmo por que estava completamente aturdida com as palavras dele. Persuadida por seus próprios sentimentos e inseguranças de modo que as mentiras e verdades se misturavam e ela não saberia dizer o que era real e o que não era. No que poderia confiar e no que não poderia. Ela nunca havia contado a ele sobre Tinkerbell. Tinha absoluta certeza disto. Regina virou-se e observou o corredor vazio, por onde os cavaleiros haviam arrastado o estranho invasor.
Apertando os dedos ao redor da pequena garrafa, ela respirou fundo e começou a caminhar para fora do quarto. Estava se aproximando o momento.
Matthew ouviu o som metálico e abaixou-se rapidamente.
“Não vou explodir a cela, infeliz. Levante-se.”
Ele sorriu quando conseguiu identificar Robin. Havia escurecido, e ele não tinha mais noção de quanto tempo estivera ali e o que estava acontecendo pelo reino. Robin bateu alguma coisa contra o trinco do grande cadeado e este cedeu. “Vamos sair daqui.” Sussurrou ele, colocando os dedos sobre os lábios.
Caminharam pelas laterais do castelo, sob as sombras dos muros envelhecidos. Atrás de uma árvore do extenso jardim, afastaram algumas pedras e saíram, emaranhando-se por dentro da floresta escura. “Meu Deus, já escureceu!” Comentou Matthew, assombrado. Levou apenas um curto período de tempo para que ele interligasse seus pensamentos, e ele imediatamente socasse o braço do loiro.
“Robin!”
“O que deu em você?” Reclamou o outro, massageando o local onde levara a pancada. “Bateu a cabeça na cela?”
“Ela se casou?”
Robin sorriu e mesmo na escuridão, o jovem conseguiu ver o contorno de seus dentes brancos abertos de maneira sorridente. “Ela seguiu o plano.”
“Como você sabia que ela ia aceitar? Ela não parecia ter acreditado em uma palavra minha, ela mandou direto para o calabouço...”
“Eu a conheço. E confio nela.”
“Você confiou minha vida.”
“E você está aqui, comigo, caminhando na floresta. O que isso lhe diz?”
“Diz que eu deveria escolher amigos menos loucos.” Ele ri e Robin passa o braço ao redor do pescoço dele, batendo a outra mão em seu tórax.
“Você pode procurar amigos melhores depois. Temos pouco tempo para concluir nosso plano.”
Flashback on
“Pelo poder aquisitivo a mim concedido, damos início a celebração real do nobre arranjo marital entre o querido rei Leopold August Terceiro com a princesa Regina Louise Mills.”
Regina estava ajoelhada em frente ao membro do alto clero, ciente dos milhares de pessoas que a observavam naquele minuto. O vestido apertavas suas costelas, o véu dificultava-lhe a respiração. Ao menos o véu bloqueava seu rosto, não de maneira muito eficaz, mas amenizava a sensação de completa nudez que ela sentia perante a presença de sua mãe.
Cora, localizada à esquerda de sua filha, certificava-se de que absolutamente nada saísse do planejado. Regina quase conseguia ouvir a respiração da mãe sobre a sua orelha. O controle que a matriarca exercia era mais do que abusivo ou opressor, era uma completa pressão sobre o funcionamento da princesa, impedindo-a de respirar, de pensar, de viver.
“É de supra importância que ambos conheçam suas responsabilidades como líderes, como a realeza de um reino próspero, e que saibam realizar suas funções de acordo com as diversas funcionalidades de uma família modelo que guiará todas as outras na direção da prosperidade e felicidade...”
Regina estava tentando entender aquele discurso que ela própria havia considerado como patético e mesquinho quando a pequena pontada de dor atingiu seu estômago. Era como uma pontada firme e profunda, como se um objeto pontiagudo houvesse sido empurrado contra a sua carne. Ela cambaleou um pouco, apoiando a mão sobre o apoio de seus braços, e isso chamou a atenção do Rei ao seu lado. “Você está bem?”
“É apenas uma tontura.” Resmungou ela, e tentou concentrar-se nas palavras que eram ditas. Ela respirou fundo.
“Cabe à princesa exercer sua função como previsora da linhagem real, considerando seu papel importante em manter a realeza e a nobreza em seus devidos canais. Como portadora da doçura e tato de um reino, deve comprometer-se em cuidar dos projetos de humanidade, adotando o cuidado como outro como objetivo principal em sua vida, acima de seus próprios objetivos como esposa, e futura mãe.”
Esposa. Futura mãe.
Aquelas palavras atravessaram a mente dela com rapidez, gerando um rebuliço mental que a fez estremecer. Ela sentiu outra pontada em seu estômago. Respirou fundo, mas a dor não passou. O que estava acontecendo? Outra pontada se fez presente. A dor era dilacerante. Pontadas igualmente dolorosas e agudas passaram a multiplicar-se e a dor era tanta que Regina passou a lutar contra o véu, arrancando-o de si mesma desesperadamente. Ela havia confiado nele. Que estupidez, ela pensava agora. Ele estava matando-a. Tropeçando em seu próprio vestido, ela caiu de joelhos enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto e a dor aumentava a cada respiração. Robin a tinha traído e ela ia morrer.
“O que você pensa que está fazendo, Regina?” Gritou Cora, mas Leopold afastou-a e segurou Regina pela nuca.
“Ela está com dores, Cora. Você deve ajudá-la.”
Os gritos de Regina começaram a ficar cada vez mais agudos, até que ela simplesmente desmaiou nos braços dele. Cora aproximou-se dela e percebeu que algo havia caído da sua mão.
Uma garrafa vazia.
A morena abriu a rolha, e cheirou o vidro, identificando o aroma que ficara no utensílio mesmo depois de esvaziado. “Ela foi enfeitiçada.”
Leopold encarou-a por alguns segundos. “Vou pedir que os guardas a levem para o quarto. O casamento será adiado para amanhã.”
Flashback off
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