Confessionário
39 Capítulo 39
Notas iniciais
Regina acordou pensativa. Muitas coisas lhe congestionavam a mente. Ela estava prestes a se casar com o Rei. Tornar-se madrasta de Branca de Neve. Tomar posse de um cargo pelo qual não nutria nenhum interesse, representar uma posição sobre a qual não possuía nenhum apreço. Nada daquilo lhe parecia valido. Nada pelo qual ela almejaria se entregar.
Mas que opções ela tinha? Cora a mataria antes que ela pensasse em desistir. Para sua mãe, era a realização de um sonho, era alcançar o mais elevado patamar de superioridade. Era sua expectativa de vida para Regina desde que essa era apenas um recém-nascido em seus braços. Ela queria ser mãe de uma rainha. Faria de tudo, absolutamente tudo a seu alcance, para realizar seu desejo.
Levantou-se da cama, e caminhou até a penteadeira. De frente para o espelho, observou seu rosto e suspirou, entristecida. Era o pior dia da sua vida. Seu peito ardia e pesava, como se fosse um fardo aguentar a carga sobre seus ombros delicados. A morte lhe parecia adorável a esse ponto. Lembrou-se do gentil desconhecido que conhecera na taverna. Sorriu. Ele era um homem engraçado, bonito, doce. Não o conhecia muito bem. Ele deixara claro que tomara muitas decisões erradas e que não estava contente com elas. O sorriso alargou-se quando ela se lembrou que Tinkerbell lhe dissera que ele era sua alma gêmea. O que aquela fada ridícula sabia de amor verdadeiro?
Diga que vai me esquecer assim que acordar amanhã cedo e eu lhe deixarei ir.
Era uma missão impossível e ela sabia. A presença dele, a maneira como ele encarava o fundo dos seus sonhos com confiança e ousadia – ele parecia ler sua síntese, parecia conhecer letra por letra do seu histórico. Como se a conhecesse de outras vidas, de outros mundos, como se tivesse um manual de instruções específico. Robin não levara um segundo sequer para destruir as muralhas emocionais que Regina construíra ao seu redor. Com seu sorriso faceiro e seus trejeitos despreocupados, ele a tinha levado na conversa. Simples, comum, descomplicado.
Ela pegou a escova e pôs-se a escovar as madeixas escuras. Que destino os dois poderiam ter juntos? Sorrindo, ela mordeu o lábio inferior e balançou a cabeça negativamente. Não deveria sequer pensar em ter um futuro com ele. Sabia que não podia. Não era o que lhe haviam reservado. Não era o que havia sido escolhido para ela. Mas sabia que Robin cuidaria dela. Lembrou-se da mão dele em sua cintura, protegendo-a enquanto entravam pela taverna. Do olhar dele ao rapaz que trouxera as bebidas. Eram detalhes, e embora a maioria das pessoas considerasse como trivial ou simplesmente involuntário, ela sabia que ali revelava-se muito sobre ele e sua maneira de ser.
“No que você tanto pensa, Regina?”
Ela encarou o reflexo do espelho e avistou Cora.
“Nada.”
“Por que está sorrindo? Finalmente aceitou que esta é a melhor coisa que já nos aconteceu?” Disse ela caminhando até estar atrás da cadeira onde a filha estava sentada. Regina revirou os olhos antes de responder, batendo a escova contra a penteadeira e levantando-se de sopetão.
“Eu já disse que não quero casar com ele! Eu não quero ser Rainha!”
“Não se trata do que você quer! O que você sabe sobre a vida, menina estúpida?” Com um movimento simples, ela imobilizou Regina com magia. Pacientemente, caminhou até ela. Uma vez parada à sua frente, levantou o olhar e encontrou o olhar furioso de Regina. “Escute bem, Regina. Não faça nenhuma estupidez porque eu não terei paciência com você. Custou muito caro para eu conseguir que o rei se interessasse por você. Não vai ser você que vai colocar tudo a perder agora.”
“Mas...”
“Mas o que?” A voz de Cora era firme e cruel. Ela se aproximou ainda mais da jovem. “Não me venha com ‘mas’. Você vai casar com ele. Você vai ser madrasta daquela adorável criança. Você se tornará Rainha. Faça conforme eu estou mandando e tudo vai dar certo.”
“Eu odeio você. Eu preferia estar morta a viver essa vida que você está escolhendo por mim.”
“Você vai ter o que prefere se interferir nos meus planos.”
Com outro movimento, Cora soltou-a. Despreparada, Regina caiu de joelhos no chão. Lágrimas tímidas deslizaram pelo seu rosto e ela as limpou imediatamente.
“Pelo amor de Deus, aja como uma adulta. Pare de chorar.”
Regina continuou ajoelhada até que sua mãe deixou o quarto. Ela olhou em volta e sentiu uma imensa vontade de gritar. Sentia-se escrava de sua própria vida. Levantou-se e caminhou cambaleante até a torre que dava acesso ao grande pátio. Observou as pessoas de todo o reino adentrando o castelo, sorridentes, felizes para as festividades do casamento.
Mal elas sabiam que era na verdade uma história de terror.
“Você vai ao casamento real?”
Robin estava olhando pela janela do casebre, distraído. Seu semblante não era dos melhores e por isso, a maioria dos homens ali evitara trocar qualquer palavra com ele. Ele sentiu uma toalha sendo jogada contra ele e olhou de volta fingindo estar bravo.
“O que foi?”
“Perguntei se você vai ao casamento real.”
“Não.” Resmungou ele e voltou sua atenção para a janela.
“Não? Uma oportunidade dessa é rara, Robin. Comer e beber do melhor do castelo sem se preocupar com os guardas! Você é louco de perder isso!”
Robin encostou a cabeça no batente e respirou fundo. Ele não tinha como explicar o quanto aquilo era dificil para ele. Ele não poderia dizer a eles tudo que ele havia passado. Não havia modos de narrar a jornada que atravessara por ela, não havia como explicar quão dificil foi para ele vê-la feliz com outro homem, como havia sido pertubador vê-la morta e agora saber que ela se casaria com outro. Ele morreria novamente por ela, se fosse necessário.
“Eu não posso vê-la se casando com outro.”
Matthew caminhou até ele e bateu em seu ombro de modo amigável. “Robin, de quem você está falando?”
“Da garota, Mat. A garota da taverna.”
Levou apenas alguns segundos para que o rapaz de cabelos loiros e encaracolados conectasse as informações. “Puta merda, Robin! Era a princesa? A garota linda com você ontem? Você tem problemas? Levou ela naquela espelunca nojenta!”
Robin não respondeu. Ele encarou o amigo por alguns segundos e voltou a recostar a cabeça no batente atrás dele, fixando sua atenção em qualquer ponto desinteressante lá fora. Matthew o observou por alguns segundos. “Você está apaixonado por ela, cara?”
“Sim.”
“Você é um idiota. Tanta mulher por aí e foi se apaixonar pela princesa prometida ao Rei?”
“Sim.”
“Você é mesmo um idiota.” Robin riu e Matthew agachou-se ao lado dele. “E o que vai fazer?”
“Eu não vou ao casamento.”
“Só isso?” Mat soltou uma risada sarcástica. “E o que aconteceu com o Robin que eu conheço? Você não se apaixona. Mas acima de tudo, você nunca – nunca mesmo – desiste de algo por que parece impossível.”
“Mas eu nunca me importei com ninguém também, Mat. Com ela, eu me importo. Me importo que algo possa lhe acontecer.” Matthew o fitou, boquiaberto. Robin o fitou, sem entender sua reação. “O que que foi agora, imbecil?”
“Você se importando com alguém além de si mesmo... Como essa mulher te mudou em tão pouco tempo? Quer dizer, Robin... Olhe para você! Apaixonado. Preocupado. Eu nem te reconheço.”
“E isso é ruim?”
Um sorriso alargou-se nos lábios do loiro. “Não, mate. Uma mulher capaz de transformar um babaca em um homem em tão pouco tempo merece qualquer sacrifício. Nós vamos te ajudar. Qual é o plano?”
Robin fitou o loiro por alguns segundos. Depois de analisar suas opções, ele respirou fundo e questionou. “Certo. Você acha que é possível?”
“Pelo amor de Deus, Robin! Nós já roubamos tesouros incalculáveis. Já roubamos fortunas imensuráveis. Dos maiores castelos, das piores masmorras, dos mais temíveis calabouços. Nós temos capacidade de roubar uma princesa.”
Robin sorriu e abraçou Matthew. “Não sei como lhe agradecer por isso, Mat.”
“Não precisa. Até porque a maioria deles não vai fazer por você. Eles só querem arrumar confusão. Vamos. Temos um novo bando para formar.”
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