POV REGINA

“Henry!” Gritei, assim que avistei a casa. “Abby!” Minha voz soava tão alta quanto desesperada, e era exatamente assim que eu me encontrava. “Roland! Onde estão vocês?” Meu coração batia acelerado, batidas fortes e ensurdecedoras. Eu tentava respirar mas estava um pouco agitada demais para isso.

Subi as escadas do belíssimo chalé e entrei, sem ao menos bater. Poderia estar acontecendo qualquer coisa. Zelena inclusive já poderia ter matado os três. Zelena poderia estar torturando-os, e eu me sentia infinitamente culpada por qualquer coisa que acontecesse a eles.

Mas assim que cheguei a sala de estar, fiquei surpresa. A situação era completamente diferente de qualquer coisa que eu imaginava. Zelena estava em pé diante da lareira, enquanto Abby e Roland brincavam no chão, desenhando. Henry estava deitado no sofá, mexendo no celular.

“Regina!” Gritou Abby, correndo na minha direção. Beijei-a, mantendo os olhos em Zelena. Afaguei os cabelos de Roland, beijando enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas. Temia que essa fosse a última vez que eu os veria. Que essa fosse a despedida que eu tanto desejaria adiar. Zelena não olhava na minha direção, como que ignorando completamente a minha existência e a minha permanência ali.

“Henry, você leva o Roland e a Abby para brincar no lago?” Pediu ela, sem olhar para ele. Henry levantou-se e sorriu para mim, fazendo meu coração partir-se em dezenas de pedaços. “Claro, tia Zelena.” Respondeu ele, e eu assisti enquanto eles se levantavam, animados com a possibilidade de brincarem na água. Roland tinha um sorriso belíssimo nos lábios, um que eu tentava desesperadamente memorizar.

Eles desapareceram pela porta em questão de minutos. Eu estava em pé diante dela, e lentamente, Zelena virou-se, me encarando pela primeira vez desde que eu havia entrado na casa. “Olá, Regina.” Sorriu, diabolicamente, como se estivesse satisfeita de me ter ali. Eu a odiava. Definitivamente. Zelena tirara Robin dos meus braços mais de uma vez, e agora mantinha meus filhos como reféns de seu plano maluco e perigoso. Usando um vestido justo ao corpo, verde musgo ressaltado por camadas de cristais e um par de saltos altos, ela era a imagem do mal revestida por uma capa de perfeição.

Eu a encarava com ódio. “Ah, eu sei que você já sabe de tudo – pode desfazer essa careta de ódio.” A voz dela ecoava dentro de mim como uma lembrança ruim. Como ela podia saber? “Mas não se preocupe. Eu dei um jeito no culpado por isso. Ele não será mais um problema.”

“O que você fez com o Thomas?”

“O mesmo que fiz com Gold e Belle. Dei um jeito nele. Mas que desperdício! Um exemplar de homem tão desejável...” Riu, e eu dei um passo para a frente, gerando uma chama ardente na mão esquerda.

“Se não quer que um dos seus filhinhos morra, vai apagar essa chama agora.”

Eu paralisei perante a ameaça. Eu sabia que não podia arriscar a vida deles. Não sem ter um plano. E naquele momento, eu não tinha nenhum. Não ainda. Senti uma dor no meu peito. Thomas... Thomas estava morto e eu nunca mais teria a chance de me desculpar. De dizer que eu o amava, embora não tanto quanto eu amava Robin. Nossa história morrera com ele, completamente mal resolvida. Lágrimas tímidas escorreram pelo canto dos meus olhos, e eu as limpei.

“Não chore, queridinha. Thomas não me deu outra opção. Ele achou que viria aqui e me derrotaria como ele fez em Oz, mas ele não se deu conta de que eu sou a Senhora das Trevas agora. Ele não era mais páreo para mim. Mas eu juro, ele não sentiu nada. Ou quase nada.” A maneira como ela ria, deliciada pela morte dele me dava nojo.

“O que você quer, Zelena?”

“Thomas realmente se apaixonou por você. Mas que besteira não? Um homem tão poderoso. Tão cheio de potencial. Correndo atrás de... você.” Ela não fazia questão de omitir seu desprezo, mas eu pouco me importava. Minha mente tentava desesperadamente achar uma saída para aquela situação. Uma em que todos saíssem seguros e vivos. “Como Robin. Um homem tão bonito, um homem de beijos tão quentes e com aquele corpo, desejando você. Como eu disse, desperdício.”

“Quando essa matança vai acabar, Zelena? Quando isso vai parar?” Perguntei. Eu estava cansada de trazer miséria à vida de todos ao meu redor. Cansada das mortes. Cansada de estar sempre com medo do que viria a seguir, cansada de ter que lutar para ser feliz por apenas instantes. Era claro que uma de nós teria que morrer para que esse inferno acabasse. E matar Zelena não me traria felicidade. Matar Zelena só me tornaria alguém exatamente como ela. Se eu tivesse que ceder a minha vida para protege-los, eu o faria. Filhos vem primeiro, e os três eram exatamente isso para mim, tão meus filhos como se tivessem sido gerados em meus ovários.

“Eu já lhe disse isso. Com a sua morte.”

“Se é esse o seu preço, vá em frente. Mate-me.” Abri os braços, encarando-a. Mas Zelena apenas sorriu, observando-me.

“Você é muito boba. Assim é fácil demais. Primeiro, você tem que sofrer. Primeiro eu quero que você deseje estar morta.” Ela caminhou até estar ao meu lado, e rodopiou ao meu redor, observando minhas reações. “Eu quero que você morra sem honra nenhuma, quero que deixe somente ódio, somente despeito.”

“Por que? Por que quer continuar com isso? Eu já lhe disse que sinto muito pelo seu passado. Assumo que não foi fácil, nem agradável. Mas você não conheceu Cora como eu conheci. Minha mãe machucou você, mas também me machucou. Nós duas fomos vítimas da ambição de nossa mãe, e me culpar por tudo não vai lhe trazer felicidade, Zelena. Vai apenas deixar um buraco vazio que jamais voltará a ser preenchido. Toda essa matança e o sangue em suas mãos só vai trazer mais ódio e escuridão para a sua vida, impedindo-a de encontrar seu final feliz.”

“O que você sabe sobre o meu final feliz?” Sibilou Zelena, encarando-me. Seus olhos faiscavam de ódio e fúria. Ela gargalhou, como uma lunática psicótica e caminhou até uma das cômodas aqui presentes. Abriu a gaveta e pegou algo, ignorando-me novamente. Quando ela retornou, meu coração voltou a bater aceleradamente. Zelena tinha um coração pulsante em suas mãos. Um coração jovem e pulsante, puro em sua concepção vermelho-sangue. “Traga as crianças para dentro da casa, Henry.” Ordenou ela ao coração e eu senti lágrimas escorrendo dos meus olhos, contra a minha vontade. Ela tinha o coração do meu filho em suas mãos.

Fiquei paralisada, observando quando Zelena colocou o casaco e o coração no bolso do casaco. Ela não ia soltá-lo por nada, sabendo que eu faria tudo para colocar as mãos nele. Abby e Roland entraram sorrindo, sujos e um pouco molhados.

“Chamou a gente, tia Zê?” Perguntou Abby, completamente inocente a respeito do perigo que a cercava. Eu me sentia impotente. Meu coração latejava a cada segundo, e eu percebia que não havia como aquela situação acabar bem. Qualquer que fosse o caminho, alguém se machucava.

“Sim, quero que se sentem. Não é pra sair do lugar. Nós vamos brincar de uma coisa.”

“Zelena, por favor.” Pedi, temendo o rumo daquela conversa. Mas ela não se importava. Caminhou até mim e entregou o punhal com o qual havia assassinado Belle. O Punho de Arquimedes. Ela olhou nos meus olhos com uma diversão doentia e sussurrou no meu ouvido, enquanto acariciava meus cabelos. “Não tente nenhuma gracinha, ou eu vou esmagar o coração do seu querido filhinho.”

“Zelena.” Minha voz estava trêmula. Eu estava encurralada por ela, sem nenhuma voz, sem autonomia. Eu já estava rezando para que ela me assassinasse. Por favor, mate-me. Eu não quero assistir isso.

“Você vai enfiar esse punhal no coraçãozinho da nossa querida Abigail. Agora.”

“Não.” Eu havia começado a chorar. “Eu não vou fazer isso, Zelena.”

“Não vai?” A voz dela estava carregada de raiva. “Vamos ver se não vai.” Zelena apertou o coração de Henry, ainda em seu bolso. Observei assustado ele dar um grito agudo, caindo no chão. Corri até ele, derrubando o punhal no chão.

“Henry! Henry!” Meu desespero estremecia-me por inteira. Abracei-o, enquanto chorava observando o garoto se contorcer de dor a cada aperto mais profundo que Zelena dava em seu pequeno coração. “Por favor, Zelena! Por favor! Não são eles que você quer, sou eu. Deixe-os em paz!”

“Não, minha querida. Não posso deixá-los em paz. Por culpa sua. Porque eles são a sua felicidade e eu quero tirar as suas chances de ser feliz. Você é a culpada, Regina! Você matou seu próprio filho!”

Meu coração parou quando Henry parou de se debater. Henry parou de respirar. Levantei os olhos e vi apenas as cinzas escorrendo pelos dedos dela, as sobras do coração esmagado. Henry. Eu tremia, enquanto deslizava minha mão para a nuca dele, puxando-o para mim, as lágrimas escorrendo agora sem controle, enquanto eu puxava seu pequeno corpo para o meu corpo, abraçando-o. Henry estava morto.

Uma dor profunda e assustadoramente aguda atacava todo o meu corpo. Meu filho estava morto. Meu filho morreu sem sequer se lembrar quem sou eu. Que eu sou sua mãe, que eu lhe amo mais do que tudo, lhe amo mais do que minha vida, mais do que qualquer título, qualquer riqueza, qualquer magia. Que eu teria dado minha vida em troca da sua. Que eu o mantive a salvo por tanto tempo, protegendo-o do perigo de estar ao meu lado – e que me arrependia disso. Agora estava acabado, nós nunca mais passaríamos nenhum tempo juntos.

Eu chorava, o som rouco ecoando direto da minha traqueia, alavancado por soluços. “Henry meu amor...” Eu beijava seu rosto, acariciando-o. “Me perdoe, me perdoe por ter não ter salvo você... Me perdoe por não ter dito que eu te amo, que eu sou sua mãe, e que tenho orgulho de você....” Beijei sua testa, apertando seu rosto inerte contra o meu. “Perdoe sua mãe por não ter sido capaz de salvar você.”

Eu o ergui, ainda em lágrimas e o coloquei no sofá. Debrucei-me e beijei sua testa. “Eu te amo, Henry Daniel Mills. E vou fazer a coisa certa, por você.”

Assim que me endireitei, eu me sentia completamente miserável. Eu não queria estar viva. Zelena cumprira suas palavras. Eu desejava a morte, mais do que tudo. Zelena me encarava com um sorriso maldoso nos lábios. “Agora você está pronta para fazer o que eu mandei?” Em suas mãos, havia outro coração. Ela apontou para Roland e eu havia entendido o recado. Roland era o próximo, caso eu não fizesse o que ela estava mandando. Caso eu não matasse Abigail.

“Mais do que tudo.” Respondi, carregada de ódio, de dor e pesar. Henry estava morto e não havia nada que eu poderia fazer a não ser acabar com aquilo. Abaixei-me e peguei o punhal. Era pesado e parecia encaixar-se perfeitamente no meu punho. Caminhei até Abby, que observava tudo com os olhos assustados. Ela segurou em minha mão, confiando em mim. Caminhei até o meio da sala de estar, colocando à minha frente e me ajoelhei à sua frente, bloqueando a visão de Zelena.

“Abby...” Eu estava chorando, e eu acho que nunca havia chorado tanto em minha vida. Eu sabia que acabava ali. Eu havia sido feliz. Eu tivera Robin, nem que tivesse sido apenas por um dia e uma noite. Eu tivera filhos, eu tivera o amor incondicional deles. Eu era a heroína que havia prometido ao Henry. “Eu quero que me perdoe por ter que fazer isso.” Abby engoliu em seco e eu sabia que ela estava prestes a chorar, mas ela balançou a cabeça, afirmativamente. Empunhei a adaga e em um movimento certeiro, golpeei meu próprio tórax, mirando no meu coração. Forcei o punhal com as duas mãos, apertando-o ainda mais contra o meu peito, enquanto eu sentia uma dor que eu não conhecia. Uma cortina de luz rebentou-se do interior do meu tórax para fora, desaparecendo no horizonte. Eu havia quebrado a maldição. Eu tinha realizado um sacrifício de amor verdadeiro. Todos teriam suas memórias de volta e finalmente, descobririam a verdade sobre o que havia acontecido. Eu não morreria em vão. Um sorriso ousou atravessar meus lábios secos.

“Gina.” Percebi que Abby começou a chorar. Tentei me levantar mas cambaleei e caí de joelhos no chão.

“Não!” Gritava Zelena, furiosa. “O que foi que você fez Regina?” Ela berrava, ensandecida. “Não era assim que era eu tinha planejado, sua maldita! Você estragou tudo! Esse era pra ser o meu final feliz!” Eu deitei no chão, tentando rastejar mas a dor se alastrava por todas as minhas células. Eu sabia que o veneno do punhal estava agora espalhando-se pelo meu corpo. Zelena virou-me, chutando o meu estomago. Ela agachou-se de cócoras e me encarou ali, deitada no chão com as lágrimas sendo a única reação do meu corpo. “Você é uma burra, Regina. Uma burra egoísta. Você... Você estragou tudo! Eu espero que morra como a burra idiota que é.” Ela apertou o punhal contra o meu peito e eu arfei, já sem forças. “Isso, sinta essa dor. Essa é a dor que você merece, sempre mereceu. Finalmente se deu ao trabalho de pagar.” Ela girou a lâmina dentro do meu peito e eu senti que ia morrer naquele momento, tamanha a dor que ardia furiosa por baixo da minha pele. Abby chorava baixinho e eu engolia saliva, esperando apenas o momento em que a morte viria ao meu encontro. Zelena puxou o punhal, e eu senti que todo o sangue do meu corpo ia esvair-se. “Com licença, mas esse punhal é meu e eu vou levá-lo.”

No minuto seguinte, ela havia desaparecido em uma nuvem de fumaça verde. Eu estava sentindo um frio insuportável. Meu corpo estava enfraquecido, e eu tremia. Abigail chorava e eu a abracei. Roland veio até nós, não entendendo muito bem o que estava acontecendo. Cada um deles deitou em um dos meus braços, me abraçando. Eu sentia a poça de sangue aumentando ao meu redor, mas me esforçava em não prestar atenção nisso.

Senti os dedinhos delicados de Roland acariciando meu rosto, enquanto Abigail agarrava-se ao meu corpo, chorando. “Gina, por favor... Não morre. Por favor.” A voz dela falhava e estremecia, e eu abracei ambos, com o pouco de força que me restava. Minha consciência estava meio nublada, como se estivesse se desligando aos poucos. “Eu amo você, Abby.” Beijei o topo de seus cabelos, agora manchados pelo meu sangue. Segurei as mãos pequenas de Roland, que fazia carinho em meu rosto e as beijei. “Eu também te amo, RoRo.”

Fechei os olhos.

Robin e eu caminhávamos na praia, sorrindo. O pôr do sol à nossa direita, Roland e Abby correndo à nossa frente. Ele se debruçou e beijou meu pescoço. Eu o abracei, enfiando meus dedos em seus cabelos lisos e o puxando para mim, roubando seus lábios doces e beijando-os com carinho. “Você é o meu amor, e a minha vida, você é cada linha, cada palavra, é o meu tudo.” Sussurrou ele, acariciando minha bochecha.

Roland pulou no meu colo e me encheu de beijos, sorrindo. “Você é a melhor mamãe do mundo todo.” Dizia ele enquanto bagunçava meus cabelos.

“O cabelo dela tá uma bagunça agora, Roland.” Censurou Abby, sorrindo. Ela me olhava com doçura nos olhos, com a costumeira admiração. Eu me sentia feliz, completa. Eu tinha tudo o que queria, eu... Ops. Faltava alguém, faltava...

“Vocês nem para me esperar!” Olhei para o lado e encontrei Henry vestido com uma bermuda e carregando alguns picolés. “Eu comprei para todo mundo porque sou muito legal, não porque vocês merecem.” Ele parecia incrivelmente feliz e saudável, sorrindo enquanto entregava o sorvete para os pequenos. Ele se debruçou e beijou minha bochecha. “Esse é o seu, mãe.”

Então era assim que um final feliz parecia. Era essa a sensação.

Senti um calor incomum no peito, exatamente onde meu sangue era derramado sem reservas.

Suspirei pela última vez e finalmente adormeci.