Confessionário
34 Capítulo 34
Notas iniciais
Eu corria enquanto as memórias atravessavam a minha mente da mesma maneira que as lágrimas atravessavam a minha face. Quando a cortina de luz me atingiu, fui arrebentado pelas lembranças esmagadoras. Zelena estava na floresta com os meus filhos e eu precisava encontrá-los. Depois eu teria tempo para encontrar Regina.
“Você a viu?”
Eu corria mais do que os tendões entrelaçados aos músculos das minhas pernas permitiam. Tudo doía, mas o que me doía mais não era a dor física. Era ter consciência de tudo que eu havia perdido. Ter, finalmente, consciência de que eu estava todo esse tempo tentando reviver o casamento com a mulher que destruiu o meu verdadeiro casamento. A mulher que vez após vez me separou do meu único amor.
“Aquela garota que apareceu na porta do bar.”
Eu quebrava os galhos das arvores pelo caminho, correndo feito uma caça desesperada pelo alívio da perseguição. Os galhos arranhavam a pele do meu antebraço, mas eu pouco me importava.
“Quem diria que o ladrão tem honra?”
O único alicerce que eu possuía eram as memórias de Regina, que estavam voltando a minha consciência de maneira condensada, como se fossem ondas quebrantadas contra uma grande pedra. Eu estava certo de que ela provavelmente estaria me procurando. Mas como ela mesma havia me dito, nossos filhos vêm primeiro. E eu precisava salvá-los da mão daquela bruxa asquerosa. Eu pensava em todo tipo de carinho e devoção que dediquei a ela, sentindo náuseas e me arrependendo de ter sido tão cego. Minha pobre Regina, testemunhando um casamento forjado feito para acabar com a sua felicidade...
"Ou talvez ela goste muito de você."
Meu telefone tocou e desajeitadamente tirei ele do bolso. Faltavam apenas algumas milhas, eu estava bem perto do lago. “Robin.” Eu não reconheci a voz de imediato. Mas sabia que não era Regina. Quem mais poderia estar me ligando agora? “É a Mary.”
“Pode falar, Branca.” Respondi, ofegante.
“Onde você está? Por que está correndo?”
“Zelena está com os meus filhos na casa do lago. Podem estar em perigo.”
“Robin, você precisa voltar para a cidade.” A voz dela tinha um tom estranho, que eu não consegui identificar porque estava preocupado demais correndo contra o tempo. “Robin, o assunto é sério.”
“Agora eu não posso. Preciso chegar na casa do lago primeiro, depois eu volto.”
“Robin, onde está a Regina?”
“Eu não sei... Como eu disse, a primeira coisa que eu quero é tirar meus filhos do alcance da Bruxa Má do Oeste.”
“Robin, o que quer que você esteja planejando, não faça isso, não cometa nenhuma besteira...”
O celular caiu no chão e eu o deixei para trás. Branca de Neve era uma das melhores pessoas que eu já conhecera. Uma das mais bondosas, altruístas e generosas de todos os reinos. Mas naquele momento, ela não conseguiria entender a urgência da minha busca. A urgência que me dominava, obrigando-me a encontrar meus filhos o quanto antes e me certificar de que estavam bem.
Ao longe da colina, avistei o chalé.
“Nós não temos nada em comum. Isso não pode e nem deve acontecer. Pertencemos a mundos diferentes.”
Meu tórax ardia pela respiração acelerada e seca, os pulmões doloridos com a dilatação forçada devido ao excessivo esforço físico. Parei por alguns instantes, as mãos nos joelhos e o tronco todo dobrado. Eu encarava o chão, respirando de maneira ruidosamente e seca, uma inalação de ar estafante e precária. Eu estava quase lá. Alcei o arco e coloquei a flecha na mira. Eu estava perto o suficiente. Caminhei devagar, analisando cada movimento aleatório. Nada. O local estava no completo silêncio. Avancei para perto do imóvel com cautela, com medo de que qualquer movimento meu anunciasse a minha presença e colocasse tudo a perder.
“Quando você foi atacado, ela passou a noite toda aqui, vigiando você.”
Eu rolava de uma moita para outra e daí para trás de alguma pedra. Mas nada acontecia. Nenhum barulho, nenhum movimento dentro da casa. Comecei a achar que tudo aquilo era demasiadamente estranho, para uma casa com duas crianças. Eu não ouvia suas vozes. Eu não ouvia suas risadas ou, ao menos, seus choros. Graças a Deus não ouvia seus gritos. Algo dentro do meu peito estalou como uma rolha sendo arrancada de uma bebida e eu corri.
“Eu não quero machucar ninguém, Robin.”
Pulei todo e qualquer obstáculo e corri como se minha vida dependesse da velocidade que minhas pernas conseguissem alcançar. Mas eu sabia, que não era a minha vida que dependia disso. Eram outras vidas, muito mais preciosas para mim do que a minha. Subi as escadas de acesso e sem pensar duas vezes, chutei o trinco com força, destruindo a porta.
“Roland!” Gritei. “Abby!”
Fiquei parado próximo à porta, com a flecha arrebitada no arco, a linha do arco completamente tensionada. Um tiro certeiro pronto a ser atirado. Ouvi barulhos vindo de um dos cômodos e fiquei preparado para acertar quem quer que fosse. Mas meu coração parou quando Abby apareceu, com os olhos fundos e tristes de quem estava chorando, e coberta de sangue. Até seus cabelos loiros estavam mergulhados em sangue, que gotejava por todo canto.
“Abby.” Sussurrei e ela se jogou nos meus braços, me abraçando enquanto eu chorava de alívio por vê-la, viva. Tentei identificar a fonte do sangramento, preocupado e ansioso. “Você está ferida? De onde está saindo tanto sangue?”
“Esse sangue não é meu, pai.”
Um pensamento horripilante fez com que todos os pelos do meu corpo se eriçassem. Roland. “Onde está seu irmão? Aconteceu alguma coisa com ele, ele que está sangrando?” Quem quer que fosse a pessoa, era sangue demais. Corri para dentro do cômodo de onde Abby havia saído.
Roland levantou-se e correu na minha direção. Abracei meu filho, mas não me lembro disso. Meus olhos estavam fixos nela. Regina tinha um buraco no peito. Regina estava inconsciente numa poça de sangue gigantesca. Alguém sobreviveria a uma perda tão significativa de sangue?
Meu coração batia tão depressa que parecia rasgar minha carne. Corri até ela e a puxei para mim. Regina estava gelada. Não. Não, não, não. Eu não vou passar por isso de novo. Eu estava chorando, berrando, gritando enquanto afagava seus cabelos úmidos. Ajoelhado na poça do sangue dela, eu gritava seu nome na esperança de que tudo aquilo fosse apenas uma brincadeira de mal gosto. Por favor, meu amor, não faça isso comigo. Por favor. Regina, eu me lembro, eu me lembro de tudo. Acorda, por favor.
“Regina, por favor....” Eu beijava seu rosto, sujando-a e me sujando de sangue. “Não faz isso comigo, por favor, por favor...” Lembrei-me do momento em que a tirei do esquife, e a sujei de sangue antes de acordá-la da maldição. Que doloroso paralelo! Naquele momento, eu estava lhe trazendo à vida, e agora ela estava adormecida na morte.
“Não tanto quanto eu amo você, Robin.”
Beijei seus lábios, gélidos e roxos. Regina Mills estava morta em meus braços. A mulher que eu amo, novamente, morta. “Não me deixe, por favor.” Eu não havia sido capaz de protegê-la. Minhas memórias se misturavam à minha dor, meu sofrimento sobrepujado a cada abraço que eu dava em seu corpo inanimado, encaixando-a no meu colo, alisando seus cabelos de um jeito que eu jamais conseguirei fazer novamente. “Não, não, não....”
Eu estava perdendo a mulher da minha vida para a morte, pela segunda vez.
“Eu te amo. E sei que vai me encontrar.”
Se eu não tivesse lhe acordado da maldição, Regina estaria viva. A culpa fora toda minha. Eu lhe guiei por esse caminho. Um caminho sem volta. Um caminho cujo fim era triste e sangrento. “Fica comigo, não me abandona assim...” Minha boca roçava na dela, e eu me recusava a aceitar que não existia mais traço de vida no belo corpo da minha esposa. Não, não é assim que acaba. Não é assim que tudo acaba. Tem algo errado.
“Para um homem bom como você estar aqui, é porque ama esta mulher mais do que a própria vida."
Eu chorava de um jeito que jamais havia me permitido chorar antes. Abigail e Roland choravam também, acariciando o pequeno corpo da amada prefeita. Tudo estava perdido. Eu a tinha perdido. A morte parecia convidativa. Mas eu tinha meus filhos, e eu precisaria ficar do lado deles. Eles estavam presenciando a morte dela e o meu surto. Engoli o choro, sentindo o meu tórax arder. Meu corpo todo ardia. Ardia de dor, de desespero.
Regina estava morta.
Acho que meu emocional estava em choque, em um profundo e calamitoso choque. Abigail disse algo, mas eu não conseguia escutar. Eu não ouvia mais nada. Tudo que eu ouvia eram as gargalhadas de Regina enquanto brincava com Roland, na floresta encantada. Tudo que eu ouvia era a sua voz, seus votos de casamento ecoando na minha cabeça como uma oração silenciosa. Prometo estar ao seu lado em todos os momentos, de vida ou de morte, independente de reino, independente de feitiços e maldições. Regina cumprira seus votos. Ela esteve ao meu lado. Esteve ao meu lado, apoiando um casamento que a machucava. Estava ao meu lado sabendo que jamais teria como ficar comigo.
Prometo-lhe fazer o meu melhor para nossa família. Não era isso que ela estava fazendo? Regina estava morta e meus filhos estavam vivos, e eu não precisava perguntar para saber que ela havia dado a vida por eles. Zelena jamais conseguiria acertar o coração de Regina, a menos que essa o permitisse. Por que, Regina? Por que teve que acabar assim?
Nem a morte conseguirá fazer com que eu deixe de amar você.”
Voltei a soluçar, meus braços em volta de sua cintura fina e meu rosto enterrado em seu pescoço. A pele dela arrepiava a minha, e eu chorava, rejeitando a realidade, rejeitando o fato de tê-la perdido, de tê-la abandonado, de não ter sido capaz de salvá-la. Regina dera sua vida pela família, pelos filhos, por tudo que ela sempre acreditara.
“Não deixe a Regina escapar. É meu último pedido ao meu melhor amigo e pelo qual eu serei grata até depois da morte.”
Eu não havia sido sequer digno de realizar o último pedido de Belle. Beijei Regina, sussurrando contra seu rosto enquanto a acariciava. “Eu me senti incompleto todo esse tempo, sem saber que a peça que faltava no meu quebra-cabeça estava na minha frente o tempo todo, Regina. Sempre foi você, sempre será.” Meu polegar deslizou pela sua têmpora. “Não importa o tempo, distância, a vida que nos separe. Eu vou encontrar você. Se for nessa vida, vai ser na próxima. Eu jamais desistirei de você.” Beijei sua boca. “Como eu disse para você no nosso casamento, onde quer que os caminhos nos levem, seja na vitória, seja na derrota — eu estarei ao seu lado.”
Eu estava abraçado ao corpo dela quando ouvi passos e vozes. Branca de Neve foi a primeira a entrar, e eu vi o terror e o medo em seus olhos. Ela olhou para mim e quando ela voltou seus olhos para Regina, seus joelhos cederam e ela caiu no chão, em lágrimas.
“Não!” Ela gritava, em meio ao choro descontrolado. “Não, Regina! Não! Você não!”
“Henry!” Emma gritava, abraçado ao corpo inanimado do garoto. Eu sequer o tinha visto ali. Killian a abraçava. Killian! Killian estava vivo novamente. Em meio aos gritos e choros incessantes, aos soluços descontrolados, eu ergui meus olhos e me deparei com um par de armas apontada para a minha cabeça.
“Afaste-se do corpo, Robin.” A voz de David era firme. Mas o que estava acontecendo? De repente, notei que Emma e Branca de Neve me olhavam da mesma maneira. O que era aquilo? Eles estavam com medo?
“O que está acontecendo?” Perguntei, confuso. Emma havia desaparecido com o corpo de Regina usando magia. Ela me encarava com fúria. Ela estava achando que eu tinha algo a ver com a morte do garoto?
“Não faça isso pior do que já é, Robin.” Pediu Branca, com a voz chorosa.
Leroy e Killian estavam logo atrás dela, e me encaravam da mesma maneira acusatória. “Vire-se de costas e coloque as mãos atrás da cabeça.” Orientou Emma.
“Vocês só podem estar de brincadeira comigo!” Gritei, irritado. Mas David empunhou a arma, mirando-a no meio dos meus olhos. Eu não tinha como fugir deles. Virei-me, a contragosto e coloquei as armas na nuca. Emma veio rapidamente e puxou meu braço, algemando-me. Quando consegui dar meia volta e voltar a encará-los, eu respirava pesadamente. O que estava acontecendo com a minha vida? Eu me sentia no pesadelo mais psicótico e mais humilhante de todos. “Eu posso saber porque estou sendo preso?”
“Pela morte de Thomas Diggs e possivelmente, pela morte de Regina Mills.”
“E pela de Henry.” Sibilou Emma.
“Eu não matei ninguém! O que está acontecendo com vocês? Parece que não me conhecem!! Eu jamais machucaria a Regina, jamais!”
“Robin...” David tentou parecer solidário, embora eu soubesse o que ele estava realmente pensando. “Havia uma carta da Regina endereçada a você, no lixo da casa dela. Manchada de sangue. Uma carta onde ela pedia que você a deixasse em paz, que deixasse ela recomeçar a vida dela com Thomas.”
“Ela nunca me escreveu nenhuma carta.”
“O corpo dele estava na sua garagem, enrolado em uma lona azul Robin. Suas digitais estão no corpo, na carta e tenho certeza que na Regina toda também.”
Foi daí que eu percebi. Eu não tinha como sair daquela situação. Era o jogo de Zelena. Ela os manipularia até que eu fosse o culpado. Até que eu estivesse tão morto quanto Regina. Ergui os olhos, marejados e encarei Branca de Neve. O olhar dela estava carregado de pesar e tão assustado quanto o meu. No fundo, ela sabia que não havia sido eu. Eu jamais teria feito algo assim.
Mas David e Emma são a polícia e a polícia trabalha com evidências.
Todas as evidências irão apontar para mim.
Belo plano o seu, querida Zelena.
Funcionou perfeitamente.
“Vocês não percebem? Isso é tudo culpa da Zelena! Zelena que matou o Thomas! Zelena que matou seu filho e a Regina! Ela está manipulando vocês.”
“Zelena estava conosco o tempo todo, Robin. Ela só desapareceu depois que a maldição foi quebrada. Por razões óbvias.” Respondeu David, me encarando com fúria. “Você agiu sozinho e deve lidar com isso sozinho. Entregue a arma do crime e podemos negociar a sua pena.”
“Eu não tenho arma de crime nenhum.” Desabafei, derrotado. “Eu não cometi crime nenhum.”
“Negar é a pior escolha.” Sibilou Emma.
“É a minha única resposta.”
“Todas as evidências, pistas, materiais de campo, tudo incrimina você Robin. Por que continuar negando?”
“Eu não matei ninguém.”
“Tudo bem. Veremos o que o júri dirá.” Terminou o xerife, me puxando para fora da casa. Passei por Abby e Roland, que seguravam nas mãos de Branca. Pedi a ela que cuidasse deles e ela assentiu afirmativamente com a cabeça. Mas não olhei nos olhos das minhas crianças. Não queria ver qual era o sentimento em seus olhos. Não queria presenciar o momento em que perdiam a fé em mim.
A maldição havia sido quebrada, mas eu não tinha motivos para celebrar.
Eu estava prestes a perder a vida.
E a minha salvação dependia de alguém que me odiava.
De alguém que fingira ser minha esposa por meses e meses.
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