POV REGINA

Já estava anoitecendo quando voltei para casa. Robin relutara bastante em deixar-me, mas ambos sabíamos que teríamos dias longos pela frente. Não era nem um pouco fácil abandonar uma vida e recomeçar outra, principalmente tendo tantas vidas envolvidas. Não se tratava apenas do fim de um matrimônio. Era algo extenuante e complicado, que envolvia crianças e envolvia nossa identidade como pessoas perante toda uma cidade.

Minha casa estava em completo e absoluto silêncio. Respirei fundo, pensando em Thomas. Será que cansara de me esperar e havia se retirado? Fechei a porta, e girei o trinco. Eu havia deixado muito trabalho a ser feito, e precisava reorganizar minhas coisas. Estava desleixada com respeito à minha função de prefeita e isto era inadmissível.

Caminhei até a cozinha, com borboletas batendo suas delicadas asas na boca do meu estomago. Era assim que eu me sentia a respeito de Robin. Apaixonada em um nível que me fazia sentir ridícula, como se eu tivesse apenas doze anos de idade e meu colega de classe tivesse me enviado um recadinho dizendo você é linda.

Na cozinha, abri a geladeira e pensei no que eu poderia beber a essa altura. Já estava começando a anoitecer e eu passaria a noite ali, sozinha, cozinhando meus pensamentos férteis e sobrecarregados. Alcancei uma garrafa de Antinori Solaia 1999, um dos meus vinhos favoritos. A noite seria longa e solitária, e eu estava sozinha em meu escritório, certo? Um vinho era a companhia ideal.

Peguei uma das taças e caminhei descansada até a sala espaçosa e recém-decorada. Posicionando-me na minha cadeira, eu sentia que havia retornado ao meu trono particular. A minha intocável e prazerosa posição de poder. Não era grande coisa, eu admito. Mas era mais do que o suficiente para me conceder, nem que fosse erroneamente, a sensação de poder e controle.

Preenchi a taça com cuidado e fixei meus olhos na papelada.

Olhei no relógio medieval preso à parede e constatei que era muito tarde. Não sei como, mas eu havia bebido quase todo o vinho. Minha cabeça começara a pesar, um movimento circular involuntário. Era hora de acabar o que estava fazendo e ir dormir. Eu estava sem condições de trabalhar. Seria muito se eu tivesse capacidade de subir as escadas de acesso ao meu quarto.

Mas minha campainha tocou.

Era bem tarde para qualquer visita, a menos que fosse Robin ou Thomas.

Resignada, coloquei meus saltos novamente. Merda! Seria horrível caminhar neles nesse estado, mas que opção eu tinha? Me fingir de morta e esperar quem quer que fosse se cansar e ir embora? Resolvi optar pela sensatez e caminhei cambaleante até a porta, destrancando-a com rapidez.

“Zelena? ” Minha voz deve ter soado surpresa demais. Mas era assim que eu me encontrava. Surpresa. Demais. Zelena sorriu, e sem pedir permissão, entrou em minha casa. Minha cabeça dava voltas e mais voltas, enquanto meus pensamentos estavam lentos e descompassados. Por que ela estava aqui? Fechei a porta e observei a belíssima mulher à minha frente. Ela me fitava com seus olhos verdes esmeralda, como que esperando que eu lhe fizesse uma cortesia. Relutantemente, sorri. “Posso lhe oferecer alguma coisa?”

“Um drinque viria a calhar.” Respondeu ela, sorridente.

Arrastei-me até o bar que ficava no canto da recepção. “Uísque?” Questionei, ainda de costas para ela. Uma sirene ecoava impiedosa em meus ouvidos. Zelena estava no meu hall de entrada. O que me intrigava era descobrir porquê.

“Sim, dois dedos com fundo de café.”

Sorri, assumindo o quanto seu gosto era refinado. Virei-me e entreguei o drinque em suas mãos. Minha visão estava vagamente comprometida, criando nuances embaçadas ao redor dela. Engoli em seco e beberiquei mais um pouco do uísque. Eu ia acabar apagando. “Aconteceu algo que eu precise saber?” Fui direto ao ponto. Eu estava bebendo uísque por cima do vinho caríssimo e sabia que em pouco tempo, estaria incomunicável. Precisava entender o que ela fazia ali e resolver qualquer que fosse o impasse.

“Acho que precisamos conversar.”

“Acho que nós já conversamos uma vez, e não foi exatamente uma conversa amigável.” Lembrei-a.

“Isso foi antes do meu marido chegar em casa com o seu perfume alastrado em seu corpo e nas suas roupas, Regina.” Encarei-a, mas ela me encarava sem nenhuma expressão. Não parecia furiosa. Não parecia sentir-se traída, machucada ou magoada. Era assustadora a maneira como ela sorria em repleta tranquilidade.

“Zelena, eu acho que vocês devem conversar antes de me cobrar algo.”

“Eu vejo a maneira como vocês se olham.” Meu coração estava acelerado, embora eu estivesse simplesmente despreparada para respirar. Zelena estava me dizendo que sabia de tudo? “E eu entendo.”

“Entende?”

“Nós não temos memórias um do outro. Eu não sei o que me levou a casar com o Robin, e ao mesmo tempo, ele não sabe em que momento veio a se apaixonar por mim. Nossa história foi condenada por causa da maldição... Essa maldição... Nos separou de uma maneira irreparável, como se estivesse criando uma muralha no meio do nosso casamento.” Ela bebeu mais alguns goles e eu notei, com dificuldade, seu semblante se transformando numa careta de tristeza e descontentamento. “Ele não consegue derrubar esse obstáculo entre nós, por mais que tente. Robin está apaixonado por você, Regina – mesmo que continue mentindo para si mesmo.”

Engoli em seco, meus lábios entreabertos enquanto eu a encarava. Eu não me sentia bem para ter aquela conversa. Meu estomago estava se contorcendo, minhas entranhas pareciam estar fervilhando. “E eu acho...” Ela continuou, encarando-me atentamente. “Que você está apaixonada por ele também.”

“Zelena.”

“Não, me escute. Eu não quero que Robin fique comigo por obrigação, por causa de um contrato, por causa de um casamento do qual nenhum dos dois se lembra. Se eu pedisse a ele que deixasse seu coração o guiar, acha que ele me escolheria?” Os olhos dela tinham um brilho triste. “Não. Ele escolheria você, Regina.” Ela terminou de beber o drinque e me entregou o copo. Eu continuava ainda sem reação, com meus pensamentos zunindo em minha mente numa tentativa bem-sucedida de me enlouquecer. “Eu não vou ficar no caminho de vocês. Robin merece ser feliz, assim como você.”

“Zelena, eu...” Eu não sabia o que dizer. Não sabia como agir. Ninguém era preparado para ter esse tipo de conversa. Se havia uma etiqueta apropriada para esse momento, eu a desconhecia. Eu tinha bebido mais do que estava acostumada e minha cabeça doía um pouco, adicionando o fato de eu apresentar dificuldades para continuar em pé e olhá-la nos olhos.

“Eu sei.” Concluiu a ruiva. Ela me encarou nos olhos por alguns segundos, e se aproximou, invadindo o que eu talvez pudesse chamar de espaço pessoal. “Você deveria ir deitar-se, Regina. Parece péssima.” Delicadamente, ela colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha, em um gesto de doçura e eu imediatamente me senti culpada por ter arruinado o final feliz dela. “Durma bem e não se preocupe. Eu darei um jeito em tudo. Vou colocar um ponto final em nossas histórias.”

Ainda confusa com as suas palavras, guiei-a até a porta e assim que ela se foi, subi cambaleante para o meu quarto. Eu realmente precisava descansar. Talvez, após uma noite decente de sono, eu conseguisse entender o que acabara de acontecer. Talvez, após uma noite de sono, eu acreditasse que aquela conversa não tinha sido tão estranha quanto parecia ser.



Acordei com uma dor de cabeça terrível, e quando lhes digo terrível, não deve ser classificado como uma figura de linguagem. Terrível simplesmente só pode significar terrível, no sentido mais puro, bruto e objetivo da palavra. Abri os olhos com dificuldade, pois uma fresta de luz solar me atingia as írises.

Levantei-me, e senti a musculatura da minha lombar tensionando de cansaço. Caminhei ainda que me arrastando até o banheiro. Levanto a cabeça, mas em vez do reflexo da minha face mergulhada em ressaca e maquiagem do dia anterior, vejo um envelope preso ao espelho. Retiro-o com cuidado e volto para a cama, sentando-me e abrindo o envelope. Identifico uma carta e um pequeno frasco com um líquido verde dentro. Rapidamente identifico a letra de Thomas e meu estomago se contrai, indicando o começo de uma dor futura.

“Querida Regina.


Peço desculpas por não me despedir apropriadamente. A verdade é que, veja bem, eu não saberia me despedir de você. Não vou embora porque quero. Vou porque percebi que não sou páreo para a luta que eu estava tentando travar. Eu fui atrás de você, no cofre. Mas você não precisava de mim. Na verdade, adormecida nos braços do homem que um dia eu odiei, eu percebi uma paz e uma tranquilidade em seu rosto – uma que você nunca demonstrou quando estava comigo.

Não se sinta culpada, por favor. Eu menti para você, fiz coisas muito erradas, e não fui exatamente o homem que você merecia. Mas antes de desaparecer por completo, eu quero consertar as coisas. Você é a mulher mais completa, e apaixonante que eu já conheci, e eu já percorri muitos reinos, muitos mundos. Sua unicidade é o que a torna ainda mais preciosa. Eu sinto muito se nossos caminhos não podem mais ser entrelaçados, minha querida Rainha. Mas saiba, que de onde quer que eu a observe, estarei admirando-a e zelando pela sua felicidade. Eu quero que seja feliz, e é só por isso que aceito a derrota. Robin é o homem certo para você e depois dessa carta, eu tenho certeza que entenderá o porquê das minhas palavras. Ele é o seu destinado. Ele é o escolhido.

Eu tenho dois pedidos a você, não como o homem que mentiu a você ou como o homem que a deixou sem olhar em seus olhos, selando um término através de uma carta de papel – mas como o homem que a ama, o homem que a amou o suficiente para aceitar que seu coração não me pertence. O homem que errou, e que finalmente, quer fazer as coisas certas.

Primeiro, mantenha Abby a salvo. A qualquer custo. Regina, eu não posso lhe dizer muitas coisas. Há forças superiores a nós por aí e você sabe disso. Abigail é mais importante do que imaginamos e eu temo pela segurança de todos nós se algo lhe acontecer.

Segundo e mais importante, há uma poção que eu deixei no envelope. Eu preciso que confie em mim. Preciso que beba. Não se pergunte como, onde ou por que. Não pense muitos nas consequências, nos riscos, nas possibilidades e hipóteses. Pela última vez, doce Regina, atenda um pedido meu. Beba.

Beba, porque você precisa se lembrar. É de suma importância que você se lembre, de tudo.

Do seu eterno admirador,

Thomas.”

Lágrimas escorriam dos meus olhos enquanto eu olhava para o frasco reluzente. Thomas havia partido. Eu o magoara, e eu jamais teria a oportunidade de lhe pedir desculpas por toda essa situação, por ele ter descoberto de uma maneira tão dolorosa. Eu não iria recusar seu último pedido. Se Thomas havia me pedido isso, com tanta urgência – havia um motivo, e eu confiava nele.

Rosqueei a tampa do frasco, retirando-a e bebi seu conteúdo em apenas um gole. Um choque se apoderou do meu corpo e eu me senti paralisada.

“É ‘Vossa Majestade’ e eu estou muito bem, obrigada.”

“Um simples ‘obrigada’ seria suficiente.”

“Mas você pode encontrar outra razão, Regina. Todos nós temos uma segunda chance. Só precisa abrir seus olhos para ver.”

"Porque estamos ouvindo esse homem? Ele é um ladrão. É claro que não devemos confiar nele. O que ele está fazendo aqui ainda?"

"O que eu estou fazendo aqui é mantendo o seu traseiro a salvo."

"Parece que Roland gostou de você."

"Eu estou sempre pensando no Henry."

"Ele tem cheiro de floresta."

"Mas você gosta dele."

"Eu não quero que você morra."

"Você sabe o porquê, Regina. Você é uma Rainha. Eu sou Robin Hood, o príncipe dos ladrões. Nós não temos nada em comum. Isso não pode e nem deve acontecer. Pertencemos a mundos diferentes."

Ficar longe de você vai me machucar mais do que qualquer outra coisa, Regina.”

“Não tanto quanto eu amo você, Robin.”

“Eu te amo. E sei que vai me encontrar.”

“Me desculpe pela demora. Amar você dá muito trabalho para um mero mortal como eu. Mas eu faria tudo novamente por você, Regina. Eu te amo mais do que a minha própria vida.”

“Regina… Hoje, eu lhe entrego meu coração. Aceito você como minha amada esposa, e prometo, que serei compreensivo, fiel, colocando a felicidade da nossa família sempre em primeiro lugar.”

Meu peito ardia e eu chorava incessantemente. Minha voz havia sido soterrada por todas as memórias, pelos escombros da vida que havia sido retirada de mim.

“Sendo assim, pelos poderes a mim concedidos pela Rainha, eu vos declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.”

Meu corpo todo estremecia, sobrecarregado pelas memórias que me chicoteavam. Eu não conseguia respirar. Eu era casada com Robin... Eu era como uma mãe para Roland, éramos felizes, o destino não havia nos sacaneado. O destino não, mas... Zelena. Imediatamente, as lembranças da noite anterior me atingiram como pedras.

“Durma bem e não se preocupe. Eu darei um jeito em tudo. Vou colocar um ponto final em nossas histórias.”

Ela não ia permitir que Robin e eu ficássemos juntos. Então...

De repente, tudo fazia sentido.

Disquei o número de Robin, minhas mãos trêmulas e meu coração batendo assustadoramente. Senti um baque quando ouvi sua voz, agora reforçada por milhares de lembranças. “Regina?” Perguntou, preocupado.

“Onde está a Zelena, Robin?”

“Zelena levou as crianças para a cabana no lago. Ela pediu para passar um tempinho com eles antes de darmos a entrada na papelada do divórcio. Acabou, Regina.” A voz dele era de felicidade e alívio, e eu me segurava para não chorar. Não, meu amor. Não tinha acabado. “Nós podemos ficar juntos agora!”

“Robin, a Zelena está lá sozinha?”

Eu queria contar a ele a verdade. Queria lhe dizer o que tínhamos passado juntos. Queria lhe contar sobre como a nossa relação começou difícil. Sobre como eu o afastei, como ele me afastou de volta, e como acabamos voltando um para os braços dos outros. Queria lhe contar sobre o amor que ele devotara a mim, lutando contra criaturas medonhas e mitológicas, quebrando feitiços e atravessando reinos, simplesmente para me resgatar. Queria dizer que tínhamos nos casado, e que ele proferira os mais belos votos de casamento de toda a história da raça humana. Mas não havia tempo. Cada segundo que eu passasse tentando explicar a ele, cada segundo que passava era um segundo em que eu poderia perder um dos meus filhos. Zelena já havia mostrado do que era capaz. Zelena matara Gold e Belle, e não pensaria duas vezes em matar uma das crianças se isso me causasse a mínima das dores. “Ela pediu para o Henry ajudá-la a cuidar das crianças.”

Henry.

Zelena tinha Henry, Roland e Abigail em suas mãos. E eu sabia o que ela queria. Ela me queria morta. Eu queria Robin mais do que a minha própria vida, mas como eu havia lhe dito, nossos filhos vêm primeiro.

Eu fiz minha escolha.

Me perdoe, Robin.