Confessionário
22 Capítulo 22
POV Zelena
Eu estava em frente ao grande espelho do quarto, vestida apenas com a minha lingerie preta. Robin saíra cedo para ir ao acampamento, e eu aproveitei para medir a dimensão do veneno em meu corpo. Horripilante era a palavra mais adequada no momento. O veneno estava correndo pelo meu corpo, de modo que meu tronco tinha se tornado um emaranhado de manchas negras, que estavam começando a subir pelos meus membros.
Por mais que eu tentasse, era impossível me desfazer do mal. O mal estava dentro de mim, em cada partícula, em cada átomo, a cada respiração que minhas células realizavam. Eu era, querendo ou não, a Senhora das Trevas agora. Não havia o que ser feito. Mesmo se eu não fizesse nada, o mal ainda corria pelas minhas artérias. Ou seja, a cada segundo, o Punho de Arquimedes batia incessante no meu peito, criando uma espécie de contagem regressiva. Olhei pelo reflexo do espelho, e vi Abigail olhando para mim com curiosidade.
“Algum problema, Abigail?”
“Não...” Ela entrou no quarto, tímida. Não parecia mais a garota que criou um furacão na sala de estar e fez os móveis girarem como sacolas plásticas ao vento. “O que a senhora tem, tia Zelena?”
“Eu estou doente.”
“E é grave?”
“Sim, Abigail.” Caminhei até o guarda-roupa e peguei um vestido, colocando-o em seguida. “Se eu não encontrar um remédio, vou morrer muito em breve.”
“Eu posso ajudar.”
Levantei os olhos com interesse. “Pode?”
“Sim.” Balançou a cabeça e me encarou, mas não sorriu. “Mas com duas condições.”
Ah Abigail. Tão ingênua!
Eu sabia que qualquer coisa que ela pedisse não seria relativo à cura de um veneno tão poderoso. Eu poderia ter tudo, menos a salvação deste mal. Sorri com os pensamentos maldosos em minha mente, enquanto sentia-os pulsando nos meus ombros. Um lembrete oportuno do veneno de Arquimedes correndo pela minha musculatura. “E o que você quer, pequena Abby?”
“Primeiro, você não pode me impedir de ver a Regina. Nunca.”
Crianças são crianças. Mesmo com todo este poder.
“Tudo bem. E qual a outra?”
“Quero que devolva as memórias de Roland.”
Roland. Essa já era uma condição um pouco mais complicada. Eu sabia do risco. Roland poderia falar. Mas ao mesmo tempo, se eu estivesse curada, poderia facilmente envolver ele e Abby, e seduzi-los. Eu precisava da amizade deles e faria tudo que fosse possível para conseguir. De qualquer modo, eu dependia da magia dela.
“Roland!” Gritei e Abigail afastou-se, observando-me em silêncio. Assim que o menino atravessou a porta, eu o envolvi numa nuvem de fumaça verde, e assim, as lembranças roubadas lhe abraçaram de volta, adentrando sua mente e coração com delicadeza enquanto ele repousava em um sono tranquilo e ininterrupto. “Pronto.”
Abigail caminhou até ele em silêncio, e pousou a mão sobre sua testa. Não sei como, mas ela possuía essa estranha habilidade de sentir o que meu poder havia feito ou desfeito. Ela assegurou-se que eu fiz o que prometera o e caminhou até mim. Estendeu sua mão para a frente com a palma aberta e esperou até que eu esticasse a minha e colocasse sobre a dela, como um high-five.
Abby fechou os olhos, e eu vi seus cabelos loiros flutuando pelo ar, mas não me movi. Eu podia sentir o poder intenso adentrando meu corpo através da ligação entre os nossos corpos. Engoli em seco, e mantive nossas mãos encostadas, enquanto a luz do quarto piscava e os móveis vibravam moderadamente. De novo não. Por favor. Parecendo ter escutado minhas preces internas, Abby retirou a mão da minha e se afastou, cansada. “Você vai ficar bem, tia Zelena.” Disse ela, retirando-se do quarto meio cambaleante.
Levantei-me com rapidez e caminhei até o espelho. Levantei o vestido e não acreditei no que estava vendo. Não havia sinal nenhum do veneno. Meu corpo estava novamente intacto. Respirei fundo, minhas irises assumindo seu tom verde esmeralda novamente enquanto eu voltava a ser a verdadeira Senhora das Trevas. Um sorriso brotou em meus lábios. Um sorriso largo, vitorioso.
Eu estou de volta, queridos.
Regina estava de costas para mim, perto do trailer. Caminhei em sua direção, anunciando minha presença. “Estou começando a acreditar que você está me evitando.” Entretanto, ela começou a andar, me deixando um passo atrás. Eu a acompanhei. Aquilo estava indo longe demais, e era desgastante para mim vê-la fugindo desta maneira.
“Sem nenhum sucesso, pelo jeito.” Resmungou ela, enfiando as mãos nos bolsos do casaco e mantendo os olhos no horizonte, longe de qualquer ângulo onde nossos olhares pudessem se encontrar.
“Acho que eu nunca deveria ter correspondido ao seu beijo.” Continuei caminhando atrás dela, apesar de não ter nenhuma resposta.
“Não é por isso que estou evitando você, Robin.”
Corri na frente dela e a obriguei a parar, ficando em seu caminho. “Então qual é a razão? Por que você não consegue sequer olhar em meus olhos?”
“Robin, eu não sei como te dizer isso!”
“Você pode me dizer qualquer coisa, Regina.”
“Robin, eu não posso lidar com o que eu sinto por você. Não agora. Não desse jeito.” Ela me encarou com seus olhos intimidadores. “Quanto mais eu penso em você, mais eu sinto que estou voltando ao meu passado, voltando a ser ela, a Rainha Má. Eu não quero desejar a morte da sua esposa para que eu possa ficar com você. Eu não quero ter que destruir a sua família para construir a minha. Isso seria voltar à um passado que eu quero esquecer. Não é assim que finais felizes são feitos. Eu não vou destruir ninguém para ser feliz.”
Olhei em seus olhos, e as palavras me deixaram. Eu não sabia o que dizer pois as palavras dela tinham plena coerência, independente do que eu tentasse argumentar. “Regina.” Arfei, tentando respirar e falar ao mesmo tempo. “Eu não sei o que fazer.”
“Eu sei. Eu preciso esquecer você, e você precisa achar um modo de se apaixonar pela sua esposa novamente. É o melhor para mim, o melhor para você e para seus filhos nesse momento.”
Regina passou por mim e seguiu seu caminho para dentro da floresta. Eu não a segui. Nada que eu dissesse faria alguma diferença. Ela estava certa e eu não tinha o que dizer. Sentia muito orgulho por ela ter se tornado um ser humano tão bonito. Um ser humano que preza a felicidade do outro. Eu amo Regina com tanto afinco que me é exaustivo descrever. Quase tão exaustivo quanto sentir.
Quando cheguei em casa, ouvi uma gargalhada de Roland. Andei até a sala e peguei Zelena fazendo cócegas em sua barriga, enquanto Abby sorria encantada com a cena. Havia muito tempo desde que eu não os via tão felizes. As últimas semanas tinham sido horríveis para todos nós e aparentemente, a punhalada de Belle havia silenciado a bruxa, obrigando-a a se manter nas sombras para que pudesse sobreviver.
Encostei-me ali no batente e observei Abby caminhando até Zelena. Ela mostrava algo em seu desenho, e Zelena falava com confiança sobre algo, mantendo a atenção da pequena garotinha. Eu estava um tanto impressionado com a facilidade com que elas haviam se entendido depois de todo o episódio de Abigail.
“Posso saber o que as mocinhas tanto cochicham?” Interrompi e ambas sorriram para mim. Abby correu na minha direção e pulou em meus braços. Segurei-a contra mim em um abraço apertado e ela sussurrou alguma coisa que eu não entendi. “Não entendi nada.” Confessei e ela semicerrou os olhos por alguns instantes.
“Falei que estava com saudades, pai.”
Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu nunca achei que Abby me reconheceria dessa maneira. As vezes, ela é uma criança bem reservada e solitária, e até mesmo fria. Sei que não é uma escolha dela. Ela perdeu seus pais bem cedo e teve que se virar sozinha por bastante tempo e é exatamente por isso que não forço seus sentimentos nem suas escolhas. “Também senti sua falta, loira aguada.”
Sentei-me no chão, ao lado de Zelena. Ela me olhou com curiosidade mas não disse nada, e Roland enfiou-se entre nós enquanto algum programa bobo se desenrolava na televisão. Zelena acariciava os cabelos de Roland enquanto mantinha os olhos fixos no televisor brilhante.
“O que temos para o jantar hoje?”
“Não temos nada porque você esqueceu de comprar os mantimentos que pedi. Reparei nisso assim que você entrou com as mãos abanando.” Alertou minha esposa com um sorriso de compaixão nos lábios. Puta merda, eu havia mesmo esquecido. Bati minha mão na testa, indignado.
“Não acredito que esqueci! Você tinha feito uma lista!”
“Tudo bem, Robin... Eu posso dar um jeito. Deve ter alguma coisa na despensa.”
“Abby, Roland, peguem seus casacos. Vamos jantar na Granny’s.”
Eles correram escada acima, em busca de suas roupas. Percebi que Zelena me encarava, e encarei-a de volta. “O que foi? Não quer jantar lá?” Ela me encarou por mais algum tempo, e me puxou para ela, selando nossos lábios por não mais que alguns segundos. Assim que nos afastamos, ela acariciou meu rosto com carinho.
“Obrigada por ter nos dado essa chance.”
Balancei a cabeça sorrindo e observei-a se levantar e caminhar até a cozinha, pegando sua jaqueta. Escutei a correria no andar de cima e me levantei também, já procurando a chave do carro.
Quando estacionei do outro lado da rua e vi o carro de Regina a poucos metros, senti meu coração disparar. Eu estava ciente de que Zelena estava ao meu lado, com os meus filhos. Mas eu não conseguia domar meu próprio coração. Eu não conseguia tomar as rédeas do que sentia por aquela mulher inflexível.
Atravessamos a rua em segurança. A mão pequena de Abby contrastava contra a minha, um toque suave e macio contra a aspereza do trabalho braçal. “Sua mão tem umas cascas duras, pai.”
“Chama-se calos. É de trabalhar muito.”
Roland estava no colo de Zelena, e nós subimos as escadas da Granny’s em dois segundos, entrando na lanchonete logo em seguida. Rapidamente achamos uma mesa vazia e nos sentamos. Coloquei Abby em seu lugar e acomodei os outros dois. Olhei em volta e percebi que a lanchonete estava bem movimentada, mas o som das conversas estava bem mais alto que o som ambiente que saía das caixas acopladas. Caminhei até o balcão e peguei uma cerveja que estava sobre o mármore branco.
“Ei, essa cerveja é minha.” Uma mão segurou no bocal da minha cerveja e eu me virei para encarar a dona de sua voz. A loira de cabelos lisos me encarava com um semblante de surpresa e desapontamento. Sua boca pequena estava marcada por um batom vermelho e um pouco de blush lhe trouxera leveza e vida. Como era mesmo o nome dela?
“Robin...” Ela engoliu em seco com os olhos fixos em mim. “O que faz aqui?”
“Vim jantar.” Sorri e devolvi sua cerveja. Ela usava um vestido verde curto e pude ver o quão bonita ela era. “E você, Tinkerbell?”
“Eu estou com uma amiga.”
Olhei por cima dela e a vi. No fundo da lanchonete, estava Regina. Seu corpo estava demarcado por um tecido vermelho rigorosamente justo e leal às suas curvas. O vestido acabava um palmo acima de seus joelhos e possuía um decote generoso nas costas, indo até a base de sua coluna. Calçada em seus habituais saltos altos e com o cabelo preso em um penteado elegante, ela sorria para o homem à sua frente enquanto ele tocava sua cintura com delicadeza.
Humbert Graham.
Eu ouvira diversas histórias sobre ambos. Muito se falava sobre o caso da prefeita com o xerife. Mas eu nunca dera muita atenção, pelo menos não até aquele momento. Não até ver como ele a tocava, como seus olhos vasculhavam o corpo dela com um desejo tão insaciável quanto o meu. Regina deslizou a mão pelos ombros dele e deixou que seu braço contornasse o pescoço dele, buscando apoio. Tinkerbell juntou-se à eles, e me olhou, incerta. Regina seguiu o olhar da fada sorrindo, mas seu sorriso desfaleceu em seus lábios quando ela olhou nos meus olhos.
“Robin.” Desviei meus olhos de Regina e encarei minha esposa, que sorria para mim. “Já pediu?”
“Ainda não. Você pede, eu vou conversar um pouco com as crianças.”
Caminhei até a mesa, e dei uma última olhada para os fundos da lanchonete. Regina ainda me encarava, com um misto de aflições posicionado sobre o seu belo rosto.
Observei pelo canto do olho quando Regina entrou pelas portas do fundo, na direção do banheiro. Graham e ela haviam bebido o suficiente, assim como Tinkerbell. Eu já tinha perdido a vez de quantas vezes Graham puxara Regina contra o seu corpo e sussurrara algo em sua orelha que a fazia sorrir maliciosamente. Naquele momento, eu gostaria muito de quebrar a mandíbula dele. Mas eu não podia.
“Volto já.” Garanti, saindo da mesa onde minha família estava e passando pelas portas que davam acesso ao fundo da lanchonete e consequentemente, aos banheiros.
Regina estava voltando do banheiro quando me viu, e ela parou instantaneamente. “Eu disse para você que era melhor ficarmos longe um do outro, Robin.” Ela respirou fundo e tentei memorizar quão bonita ela estava sob aquela luz. “Você precisa ficar longe de mim. Precisa se apaixonar por Zelena novamente.”
“Eu sei.”
“Então o que veio fazer aqui?” Eu podia ver em seus olhos a luta que acontecia em seu corpo. A mente brigando com o coração. A razão lutando contra a emoção.
“Eu... eu não sei, Regina.” Eu realmente não sabia. Não tinha ideia do que estava fazendo. Regina se aproximou e eu recuei, até que encostei na porta que dava acesso ao restaurante. Em um movimento involuntário, girei o trinco fazendo um barulho familiar.
“Robin...” Suspirou ela, e eu podia sentir o cansaço em cada uma de suas sílabas.
“Eu estou tentando, Regina. Eu juro a você que estou tentando. Mas por mais que eu me concentre no meu papel como marido e pai, meu coração continua me arrastando na sua direção.”
“Robin... você precisa ficar com ela.”
“Porque é a coisa certa a ser feita.” Presumi, com um sorriso sarcástico no rosto.
“Não, porque ela é a sua esposa.” O rosto de Regina transparecia todo o sofrimento que aquela situação lhe causava e eu simplesmente não sabia o que dizer. Eu odiava ser o motivo que trazia tristeza ao seu belo rosto, quando eu sabia que há cinco minutos ela estava rindo nos braços do caçador. “Porque eu estou tentando seguir em frente, estou tentando te esquecer e ficar aqui trancada com você não está ajudando.”
“É com ele que você vai me esquecer? Graham?”
“Robin...” Suspirou ela. Eu não sei se foi a essência, ou o lamurio do meu nome saindo daqueles lábios entreabertos. Eu não tinha certeza sobre o que eu estava pensando. Mas eu soube, assim que puxei Regina para mim e a joguei contra a porta, que era disso que eu precisava, tanto quanto ela. Nossas bocas se encaixaram, famintas. Eu entrelacei meus dedos nos dedos dela e os prensei contra a porta, mantendo a pequena mulher aprisionada entre a porta e o meu desejo ardente. Sua língua lambuzava a minha com fome, alimentando-se do meu gosto, me chupando e eu respondia a sua altura, forçando minha coxa entre as pernas dela e apertando meu corpo contra ela. Sentia seu pequeno tronco ondulando contra a minha perna, enquanto eu inclinava a cabeça e aprofundava ainda mais aquele beijo estimulante.
Deixei minhas mãos deslizar pelo corpo moreno, e meus dedos encontraram sua carne quando a acariciei por cima do decote em suas costas. Eu adorava a maciez da sua pele, a maneira como a ponta dos meus dedos escorregava pela carne, massageando-a com um tesão incandescente. Senti as mãos de Regina em meus cabelos, apertando-me contra a sua boca e continuei beijando-a como se pudesse chupá-la toda através dos beijos. Os lábios dela eram macios e saborosos ao se esfregarem contra os meus. Ouvi seu gemido gostoso quando apertei suas nádegas contra mim e a fiz sentir a rigidez de meu desejo por ela, mas assim que deslizei os dedos pela sua coxa e comecei a subir a bainha do vestido, Regina me empurrou para longe.
“Não, Robin! Não.” Começou ela, embora sem convicção nenhuma. Ofegante, ela me encarou. “Eu disse que isso não deveria acontecer novamente. Essas... demonstrações gratuitas de algo que eu não posso ter totalmente, de algo que não me pertence... Isso é tortura, Robin.”
“Regina, ver você todos os dias e saber dos seus conflitos internos também é torturante.” Comentei, destrancando a porta com um movimento. Não me atrevi a olhar nos olhos dela. “Saber que você me quer, mas que está demonstrando respeito pelo meu casamento, também é torturante.” Eu puxei seu braço mas ela não se virou, de modo que eu debrucei apenas alguns centímetros para ficar exatamente na altura dos ouvidos dela. “E saber que existe a possibilidade de você deixar o caçador tocar em você para que você consiga esquecer o que eu te faço sentir...” Beijei a base de seu pescoço e a soltei. “É a tortura mais desumana de todas.”
Caminhei na direção do banheiro, deixando Regina para trás. Ouvi a porta se abrindo e fechando, confirmando que ela havia voltado à sua rodinha de amigos. Olhei para o espelho do banheiro, fitando meu reflexo por alguns segundos. Eu estava duro. Excitado. Soquei o espelho, que se estilhaçou em muitos pedaços e derrubei todos os utensílios que estavam ao lado da pia no chão. Raiva tomava conta de mim, enquanto o ar vinha como golpes contra o meu tórax exaltado, dificultando a respiração.
O que você está fazendo comigo, Regina Mills?
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