Confessionário
2 Capítulo 2
Floresta Encantada – Passado.
Estávamos atravessando a floresta quando ouvimos aquele barulho novamente. Um grito agudo, vazado – algo horrivelmente perturbador. Eram sons comuns, exceto pelos gritos femininos. Bati com as cordas no meu cavalo e corri na direção dos gritos.
Uma criatura horrenda atacava duas mulheres.
“Abaixem-se!” Gritei, já tirando o arco do ombro e colocando uma flecha sobre ele. Puxei a cerda e acertei a criatura no ombro, que voou para longe imediatamente.
Elas estavam caídas no chão quando me aproximei.
“Senhoras.” Cumprimentei, estendendo a mão para que se levantassem. Merda. Aquela era a Rainha má, a temível Regina. Seu punho estava arranhado, e o tecido da manga estava rasgado. “Está machucada.”
“É ‘Vossa Majestade’ e eu estou muito bem, obrigada.” Sibilou ela, me encarando por alguns segundos antes de voltar a olhar para o chão.
Típico comportamento esnobe da realeza.
“Um simples ‘obrigada’ seria suficiente.”
“Não pedimos a sua ajuda.”
Meu Deus tinha como essa mulher ser mais insolente?
“Eu estou agradecida pela ajuda.” Cortou a outra mulher, segurando a minha mão e levantando-se delicadamente. Era bonita, tinha olhos doces e um cabelo comprido, que caíam sobre o casaco branco que ela vestia. Seu rosto me era familiar...
“Robin, Robin de Locksley.” Me identifiquei. Apontei para os rapazes que começavam a se aproximar. “E esses são alguns dos meus homens.”
“Sou a Branca de Neve.”
“Finalmente nos conhecemos pessoalmente.” Sorri para ela. “Houve um tempo em que ambos éramos foragidos procurados.”
“Se é mesmo a Branca de Neve, o que está fazendo com ela?” Perguntou John. Regina encarou-o aborrecida. Ela era belíssima pessoalmente, era difícil não reparar.
“Ela? Mostre algum respeito.” Ela o olhou de cima a baixo com desprezo. “Ou controle o que coloca no prato.”
E lá se ia a admiração. Tão bonita, mas tão... petulante.
“Terá que perdoar o pequeno John. Mas antes de você lançar essa maldição, passamos maus bocados fugindo dos seus cavaleiros negros.”
“Tenho certeza que fizeram por merecer.” Rebateu ela. “O que diabos era aquilo que me atacou?”
Olhei para as árvores.
“Não tenho idéia. Nunca vi um bicho daqueles antes.”
Aquele som gutural ecoou de algum lugar e Branca virou-se e começou a caminhar.
“Vamos por aqui. Precisamos alertar os outros.”
Eu estava bem atrás da multidão que caminhava para o castelo da Regina. Depois de ter reencontrado Belle e Baelfire, já me sentia em casa novamente. Há muitos anos não me sentia confortável assim. A morte de Marian havia me tirado muito das boas coisas da vida. Ouvi o som agudo daquela criatura. Baelfire gritou e a única coisa que consegui pensar foi em Roland. Ele estava na frente da multidão.
Empurrei algumas pessoas na pressa, e gritei por ele, enquanto tentava correr até onde ele estava.
Mas a coisa mais doce aconteceu. A Rainha transformou a criatura em um ursinho de pelúcia e assim que peguei meu menino nos braços, ela se aproximou de nós com um sorriso genuíno no rosto.
“Agora ele não está mais tão assustador, e você ganhou um novo brinquedo.”
“Obrigado.” Eu disse a ela, mas sabia que nenhuma palavra seria suficiente para agradecer e para me desculpar por tê-la julgado mal. Ela estava mesmo mudada. Em outra época, seria difícil imaginar a Rainha salvando outra pessoa a não ser ela mesma.
Roland abraçou o urso, e eu sorri para ela novamente.
Abraçado ao meu filho, acompanhei a conversa entre eles. Supostamente, quem estava ocupando o castelo era a Bruxa Má do oeste ou do leste. Eu não fazia ideia de quem essa pessoa poderia ser, mas pelo tom de voz deles era óbvio que ela não era uma de nós. Ouvi Regina e Branca argumentando sobre algo.
“Esse é um trabalho para apenas uma pessoa.”
“Regina.” Branca parecia genuinamente preocupada com ela. “Ela tem macacos voadores, e sabe-se lá o quê mais.”
“Não me importo se pirulitos saltitantes estão defendendo-a. Eu posso derrubar o escudo sozinha, e é isso o que eu farei.”
Branca era inteligente o bastante para não confrontá-la.
Observei-a se distanciando, mas um pensamento me deixava impaciente. Ela tinha acabado de salvar a vida do meu filho. Como eu poderia deixa-la entrar no castelo sozinha? Ou na floresta? Não era justo, nem correto. Eu precisava fazer alguma coisa para ajuda-la.
Já havia escurecido.
Para uma mulher, Regina era bastante forte. Já tinha caminhado o suficiente para deixar um homem saudável cansado. Eu a observei enquanto levantava uma pedra imensa com a ajuda de seus poderes. Quando ela arremessou a pedra para longe, nossos olhares se cruzaram.
“Ah não.” Resmungou ela.
Caminhei até ela com a tocha acesa em minha mão esquerda.
“Não o que?”
“Você não vai.”
“Acompanhar você? Acredito que vou.” Passei por ela e continuei andando. “Eu posso ajudar.”
“Eu não pedi por ajuda.”
“Isso não quer dizer que não vai precisar.” Me aproximei dela. O fogo da tocha iluminou-nos e eu pude ver aquele rosto. Belíssimo, porém mortal. Ela me encarava com os olhos cheios de raiva. “Aquele macaco voador não estava atrás do meu filho. Ele estava indo atrás de você.”
“O que te fez pensar isso?”
“Essa floresta é a minha casa. Já vi muitos caçadores e como eles perseguem suas caças. E estou dizendo: aquela besta alada estava atrás de você. Roland apenas ficou no caminho dele.”
“Ou seja?”
“É a segunda vez que é atacada. A Bruxa Má quer você morta.”
Ela me olhou de soslaio, a indiferença esvaindo de cada célula do seu corpo.
“E daí? Acha que você pode impedi-la de me machucar?”
“Talvez sim, talvez não. Mas irei tentar. Apesar de ambos não gostarmos, eu estou em dívida com você.” Respondi, e tornei a chutar a terra com a ponta da minha bota.
“Por quê?”
“Mesmo que aquela besta alada não quisesse meu filho, poderia tê-lo machucado. Você salvou a vida dele.”
Ela me olhou de uma maneira quase meiga. Ela me olhou de cima à baixo e sorriu para mim e eu quase gostei dela. Quase.
“Quem diria que o ladrão tem honra?”
“Quem diria que a Rainha Má tem uma queda por crianças?” Rebati.
Ela respirou fundo após quebrar o nosso contato visual.
“Não fique no meu caminho.”
Balancei a cabeça, assentindo.
“Eu nem sonharia com isso.”
Ela deu alguns passos à minha frente, e eu a segui.
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