Confessionário
3 Capítulo 3
Eu segurava a tocha à nossa frente, enquanto deixava minha mão na base da coluna dela. Caminhávamos por uma caverna escura, e meu medo era deixar que algo acontecesse à Rainha. Eu teria sérios problemas em me explicar depois.
“Para onde estamos indo?” Questionei. Não que eu realmente me importasse, mas o silêncio era perturbador.
“Há um fogo no pátio do castelo que aumenta o poder da Bruxa Má. Enquanto ele estiver queimando, mantém o escudo ativado.”
“Precisamos simplesmente apaga-lo.” Conclui.
“Eu preciso simplesmente apaga-lo.” Respondeu ela, com a voz intensa e sexy enfatizando o ‘eu’ enquanto olhava nos meus olhos. “Você precisa ficar fora do meu caminho.”
Antes que eu pudesse continuar caminhando, ela colocou o braço na altura do meu abdômen, impedindo-me de andar. Notei que ela havia parado também. Havia uma serie de placas no chão, formando uma espécie de território quadriculado.
“Pise entre as placas.” Orientou ela.
“Bela surpresa.” Resmunguei.
Tudo que eu queria agora era passar por um campo minado.
“Foi feito para manter pessoas como você longe.”
“Pessoas como eu?” Ela estava tentando me ofender?
“Ladrões.”
“Ah sim claro. Mas não somos todos maus, sabia?”
“Não quando insistem em dizer que roubam dos ricos para dar aos pobres. Eu já fiz muitas coisas ruins na minha vida, mas pelo menos eu as admito.”
Essa mulher começara a me irritar profundamente. Por que mesmo vim ajuda-la?
“Eu também já cometi meus erros.” Respondi, encarando-a de maneira irritadiça. “Espero que não tenha me deixado acompanha-la apenas para cair em uma dessas armadilhas.”
Ela me escutava atentamente.
“Roland já perdeu a mãe. Eu odiaria se ele perdesse o pai também.”
“Então deveria ter ficado com os outros.” Sussurrou ela, e um sorriso assustadoramente diabólico nasceu em seus lábios.
Comecei a questionar se tinha sido uma boa ideia ir até ali. Não poderia voltar sem ela, e provavelmente morreria – ela conhecia aquele caminho bem melhor do que ele. Ele agira pelo seu código de conduta, e se havia algo de que não se arrependia, era do código. Qualquer que fosse a motivação por trás daquele belíssimo rosto, ele teria que aceitar e não iria fugir. Ela era a Rainha, mas não era Deus.
“Então...” Ela continuou caminhando, e eu me mantive no seu encalço. “A mãe do Roland... O que houve com ela?”
“Depois que nosso filho nasceu, eu...” A lembrança me causava formigamentos ruins. “A coloquei em perigo durante um trabalho. Foi minha culpa.” Respirei fundo, mas não tive culhões para encará-la novamente. “Como eu disse, eu também tenho meus erros.”
Regina parou novamente, me fazendo quase trombar com ela.
“Não é possível.” Argumentou ela.
À nossa frente, havia uma entrada.
“O que?”
“Aquela porta está aberta!”
“Você não deixou aberta?”
“Eu a selei com magia de sangue.” Disse ela, balançando a cabeça negativamente de um lado para o outro. “Eu sou a única que poderia abri-la.”
“Claramente não é.” Respondi, afastando-me gradativamente para explorar o local. “Parece que a Bruxa Má é uma adversária formidável.”
Passamos pela entrada, e entramos em uma sala enorme. Regina estava na minha frente, e ela caminhou sem olhar para mim, aproximando-se de um túmulo centralizado naquele ambiente.
“O que era esse lugar, exatamente?”
“Uma cripta, não é obvio?”
Eu já sabia que era uma cripta, majestade.
“Sim, eu entendi essa parte. Mas para quem foi feita? Deve ter sido alguém muito importante, afinal, você a selou com magia de sangue.”
“Era da minha mãe.” Respondeu ela, me fazendo morder a língua em arrependimento.
Ela estava debruçada sobre o túmulo e eu podia sentir sua dor de longe. Quem diria que a Rainha Má era humana e pasmem, tinha sentimentos.
“Como você, eu perdi muitas pessoas que amava. Mais do que eu gosto de admitir.”
“Incluindo uma criança?”
Eu precisava saber. Estava me corroendo.
Ela me olhou por cima do ombro, claramente ofendida.
“O que você sabe sobre isso?”
“Eu vi o jeito que tirou Roland do caminho da fera. Você tem o toque de uma mãe.”
Ela deu a volta no túmulo, ficando de frente para mim.
“Eu tenho.”
“Ele não está aqui conosco. O que aconteceu?”
“Ele não está morto, se é o que você está pensando.”
“Ele só está...” Ela deslizou a palma da mão pelo mármore do túmulo. Seu semblante era dolorosamente triste. “Ele está perdido para mim. Para sempre.”
Eu não queria que ela morresse. Por algum motivo ridículo, eu comecei a me afeiçoar a ela. Apesar da arrogância, apesar da falta de compaixão, do humor ácido e perigoso, Regina tinha coração – e não qualquer coração, mas um bem machucado. Era quase justificável todo o caos que ela proporcionara por anos. Ela estava sofrendo.
“Se essa Bruxa Má é capaz de quebrar um feitiço de sangue” Comecei incerto, com medo de que Regina lançasse uma bola de fogo na minha cara. “Não seria de bom tom reconsiderar o plano?”
“Eu não ligo para o quão poderosa essa megera ridícula seja.” A voz de Regina carregava uma raiva quase palpável. “Eu preciso continuar com esse plano.”
Ela continuou a caminhar para dentro do castelo. A cada segundo, esse plano era ainda mais perigoso. Mas que opção eu tinha?
Regina abriu duas longas e elegantes portas. Ela estava claramente familiarizada com aquele lugar.
“Seja útil. Fique de guarda.”
Revirei os olhos. Eu poderia argumentar contra essa ofensa, mas era perda de tempo. Fechei a porta enquanto Regina fuçava em alguma caixa. Eu não tinha a mínima ideia do que ela estava planejando.
Mas algo ali me era familiar, e uma sensação horrível de desconfiança se alojou em meu peito.
“O que é isso?” Indaguei.
“Nada que seja da sua conta.” Sibilou ela.
A Rainha Má estava de volta. Ou então nunca havia nos deixado. De um jeito ou de outro, eu conhecia muitas mortes e muitas histórias sobre a crueldade, tirania e maldade que a moldava. Não ia deixa-la colocar tudo a perder. Não mesmo. Estiquei a mão e peguei uma flecha, posicionando-a no meu arco e colocando-a sobre a minha mira.
“Não vou perguntar de novo. O que é isso?”
“Como se atreve a me ameaçar dentro do meu próprio castelo?” Exigiu ela, sua voz incorporando um tom nobre e vingativo.
Ela ergueu a mão e apertou o ar. Minha traqueia seguiu seu movimento, de maneira que o ar tornou-se rarefeito. Eu mal conseguia respirar. Senti minha cabeça doendo, e meu peito começou a arder.
“Mesmo que me enforque até a morte.” Consegui falar com dificuldade. Havia pouco espaço para o ar passar. “Essa flecha ainda vai sair do meu arco, e eu nunca errei nenhum alvo. Agora me responda que tipo de poção é essa que está fazendo.”
Imaginei que aquele seria meu fim, e eu poderia ter morrido de jeitos bem piores. Entretanto, Regina soltou-me de sua magia.
“É uma maldição do sono.”
Ela voltou a mexer na bancada, ignorando-me.
“Do mesmo tipo que você usou na Branca de Neve?”
“Aquele feitiço foi feito pela Malévola. Eu finalmente aprendi a fazê-lo sozinha.”
“Um feitiço? Foi por isso que voltou ao castelo?”
“Ingredientes como esse são difíceis de encontrar. Especialmente se você tem a Branca de Neve respirando no seu pescoço a cada segundo do dia.”
“Esse é o seu plano? Usar isso na Bruxa Má?”
Ela sequer me olhava.
“Na Bruxa Má?” Um riso seco escapou de seus lábios. “Eu não me importo com ela.”
Observei quando ela deslizou a mão pelo frasco e o líquido tomou uma cor lilás.
“Então planeja usar essa poção em quem?”
“Não se preocupe.” O olhar dela era congelante na minha direção. “Em ninguém que você sentirá falta. Em ninguém que qualquer pessoa sentiria falta.”
Assim que a vi colocando o ultimo toque e vi a maneira entristecida que ela se olhava no espelho, eu entendi do que se tratava. Eu era um imbecil. Como não notara aquilo antes?
“Isso é sobre o seu filho, não é?”
Eu não podia assistir aquilo.
“Não posso permitir que faça isso.”
“O bom é que você não pode me impedir.” Respondeu ela, e com um movimento das mãos, lançou algum tipo de magia que me impedia de tirar os pés do lugar. Eu estava preso, e ia assistir enquanto ela lançava uma terrível maldição em si mesma.
“Eu sei como você se sente, Regina.”
Eu não podia assisti-la fazendo aquilo. Eu precisava fazer qualquer coisa.
“Eu duvido muito disso.”
“Quando eu perdi minha esposa, achei que não tinha mais razões para seguir em frente. Mas eu encontrei uma. Meu filho.”
“É nisso em que eu e você somos diferentes.” Respondeu ela, com a voz calma e serena. “Eu já perdi o Henry. Eu já perdi a única coisa com a qual me importo.”
Não! Eu não posso permitir que ela faça isso!
“Mas você pode encontrar outra razão, Regina. Todos nós temos uma segunda chance. Só precisa abrir seus olhos para ver.”
“Uma pena que meus olhos estarão fechados.”
Eu me sentia o mais impotente de todos os homens. Não era capaz de impedir uma bela mulher de dormir na morte para fugir de sua dor. Eu era um fracasso.
“Então é isso?” Mudei de tática. “Vai simplesmente desistir?”
“Esse não é o fim. É um intervalo. Essa maldição pode ser quebrada.” Ela sorriu, e eu admirei aquele sorriso puro. “Pelo verdadeiro amor da minha vida.” O sorriso aumentou em seus lábios. “A única razão pela qual eu desejaria acordar.” Os olhos dela estavam marejados e eu quis desesperadamente abraça-la e aninhar seu corpo pequeno contra os meus braços. “Meu filho, Henry.”
Faça alguma coisa. A mulher vai cair em sono mórbido.
“Regina, isso é um erro. Me escute.”
“Não se preocupe, manterei minha palavra. Vou quebrar o feitiço de proteção e Branca de Neve e o Príncipe Encantado poderão ser líderes vitoriosos e saltitantes.”
Faça alguma coisa! Faça. Alguma. Coisa.
“E depois disso... depois eu irei dormir.”
Regina afastou-se de mim, e desapareceu por uma das portas. Preso ao chão por sua magia, eu não sabia o que fazer e não saberia o que dizer quando me encontrassem ali. A belíssima Rainha Regina estaria deitada no sono profundo da maldição porque o lendário Robin Hood não fora capaz de impedir.
Ela me transformara em uma piada.
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