Notas iniciais
Só tenho que agradecer por cada comentário, menção no twitter e link colado no whatsapp. Vocês me incentivam a escrever mais e mais. ♥

A minha fé, nas densas trevas, resplandece mais viva.
(Mahatma Gandhi)



“Robin!”

Um grito desesperado me acordou. Abri os olhos com uma dor absurda apoderando-se de mim. Eu estava na cabana. Como eu fui parar ali? A última lembrança que eu tinha era da nuvem densa de Zelena.

À minha frente, Branca de Neve, David e Leroy me encaravam.

“Robin, onde está a Regina?”

Olhei para o meu braço esquerdo. Estava enrolado com um faixa enorme de pano e senti a presença de uma chapa de ferro por baixo dela. Meu braço estava fraturado. Ótimo. Minha cabeça estava latejando tanto.

“Robin!”

Levantei os olhos e me deparei com uma Branca de Neve apreensiva, quase desesperada. Ela estivera chorando e sua voz estava trêmula e assustada. Ela sabia o que tinha acontecido. Só precisava que eu verbalizasse.

“Zelena está com ela.”

Branca começou a chorar e saiu do quarto. Eu me senti mal por ela. Sabíamos o que isso significava.

“Como isso aconteceu?”

“Regina nos levou para a beira do lago e Zelena aproveitou a oportunidade. Era uma emboscada. Estávamos sozinhos na montanha.”

“Que ideia foi essa, Robin? Saírem de dentro da proteção do castelo? Sozinhos?”

“A ideia não foi minha, Nolan.” Respondi com rispidez. Eu já tinha problemas demais para lidar com a petulância dele. “Regina fez essa escolha. Isso poderia ter acontecido aqui, não muda nada. Ela quase pegou Regina no terraço, com todos nós a alguns metros de distância apenas.”

“Regina é inteligente, ela vai pensar em algo. Ela não se tornou Rainha por nada.”

“Sobre isso...”

“Tem mais?” Questionou Leroy.

Encarei os dois homens com certa tristeza. “Regina não está consciente.”

“O que quer dizer com isso? Ela está viva, não é Robin?” David parecia preocupado.

“Ela está sob a maldição do sono.”

David me encarou inexpressivo e Leroy parecia prestes a desmaiar.

“Regina está sobre o encantamento da maldição do sono?”

“Está.”

“E por que não a beijou de uma vez?”

“Talvez porque alguém estivesse me segurando com tanta força que fraturou um dos meus ossos, quem sabe?”

Observei Leroy encarar o príncipe, e suprimi um sorriso pela insinuação que ele fizera.

“Zelena é muito poderosa, David. Robin não tinha chances contra ela, não sozinho.”

David pareceu racionalizar a respeito, com os olhos fixos em mim. “E o que faremos agora? Não podemos deixar Regina nas mãos dela.”

“Eu vou resolver isso.” Respondi, me levantando da cama. Peguei meus pertences na mesa ao lado da cama. Eles pareciam não entender o que eu ia fazer. Talvez achassem que eu estivesse louco.

“Vai fazer o que? Ir atrás dela com um braço quebrado? A esmo? Sem ter a mínima ideia de para onde Zelena a levou?”

Coloquei a bolsa e o arco sobre o ombro livre e caminhei até estar frente a frente com o loiro. “Sim, é exatamente o que eu vou fazer. E ninguém, nem mesmo essa espada em seu coldre vai me impedir.”

David me encarou por alguns minutos, mas ele percebeu que eu não recuaria um centímetro. Observei-o suspirar profundamente enquanto seus ombros caíam relaxados, indicando derrota.

“Você não precisa ir sozinho, Hood. Vamos escalar alguns homens.”

“Eu estava sozinho quando perdi Regina, e estarei sozinho quando recuperá-la.”

David se afastou e eu me dirigi para a saída. Era um feito tão honroso quanto estúpido. Eu ainda não estava em condições. Meu corpo todo estava dolorido. Minha cabeça latejava. Meu braço estava quebrado. Mas eu sou um homem de honra. De acordos limpos. Eu não a protegi quando ela precisou, o mínimo que poderia fazer agora era resgatá-la.

“Boa sorte irmão.”

Acenei para Leroy e saí sem dizer mais nenhuma palavra.



Eu não sabia há quanto tempo estava andando. O sol estava escaldante, torrando toda e qualquer forma de vida que se atrevia a ficar sob ele. Nos meus ombros, eu carregava alguma sorte de mantimentos, mas eu pressenti que não durariam mais do que alguns dias. Eu não conheço muitas rezas. Mas naquele momento, eu estava rezando qualquer coisa para que Regina continuasse viva e para que de alguma forma, eu encontrasse o caminho certo. Eu desci pela encosta de uma montanha, e tudo que havia era um matagal ralo e corroído pelo sol abrasador. Caminhar não é um problema. Já caminhei por dias e dias em busca de riquezas menos importantes. Regina era o diamante mais precioso, o ouro mais maciço, o tesouro mais cobiçado. Eu arrastaria meus joelhos nos pedregulhos cortantes de um riacho por ela. E o faria sorrindo.

Uma das melhores coisas em se viajar sozinho é se ter tempo e silêncio externo suficiente para nos fazer pensar. E uma das piores coisas em se viajar sozinho é ter tempo demais para refletir. Há uma passagem bíblica que diz que Moisés, na tentativa vã de fazer com que Ramsés libertasse o povo hebreu, jogou seu bastão no chão e o transformou em uma serpente. Então, os magos egípcios, para não aceitarem sua inferioridade, lançaram seus presságios e repetiram seu feito. Mas o Deus dos hebreus tinha um ponto a provar, e a serpente de Moisés passou a devorar as serpentes egípcias. Não, eu não estou desidratado ainda. O que isso significa? Pensamentos são como os bastões. Você os deixa livres, eles viram serpentes e um pensamento devora o outro que devora o outro e de repente você estará enlouquecido e furioso porque não consegue calar as vozes dentro da sua própria mente.

Toda vez que fito o horizonte à minha frente, e vejo montanhas e caminhos intermináveis e me dou conta de que eu não faço ideia de para onde estou caminhando, eu me sinto quase desesperado. Mas imagens deles, imagens de Roland no colo de Regina, o som das gargalhadas dela, o sorriso dela, a maneira como eles se olhavam com admiração e amor faz com que tudo valha a pena. Eu sei, não sei porquê, mas sei que eu vou encontrá-la. Não importa o tempo que demorar, os desafios a serem enfrentados, as lutas que terei que travar. Eu vou trazê-la para casa.

Um estrondo distante chama a minha atenção. Veio da floresta a algumas milhas. Seguir o que com certeza é um perigo potencial é uma boa ideia? Quando olho para trás, não há mais castelo, não há mais reino nenhum. Eu estou sozinho, não faço ideia onde. Mas aperto a alça da minha bolsa e caminho apressadamente, porque já faz horas que estou caminhando e pode entardecer a qualquer momento. Ficar sob o relento e abrir um precedente de vulnerabilidade a qualquer que seja o demônio que percorra essas terras não é o que estou planejando para esta noite.

Vejo uma pedra e me sento, estou exausto. Talvez eu não tenha pensado no fato que passara uma semana inconsciente e que acordei e embarquei numa jornada tão estafante. Eu nunca penso nos fatos, e Regina sempre me cobrou por isso. Sorrio. As lembranças de Regina são como uma brisa gélida nessa terra árida, como água no deserto. Deixo minha cabeça pender para a frente e fito o chão sob os meus pés. Terra vermelha, seca e morta. Minhas botas estão encardidas, mas não me importo. Minha cabeça dói e eu sinto uma pequena tontura. Eu não cheguei até aqui para morrer sem lutar. Sento no chão e sinto a tontura aumentar. Lentamente, tudo ao meu redor começa a rotacionar em sentido horário. Lentamente. Meu estômago apresenta os primeiros sinais de enjoo. Eu não vou morrer. Não aqui. O pensamento faz com que o gosto de bile chegue às minhas amídalas. Eu vou encontrar Regina. Sinto o reflexo involuntário da minha garganta e vomito alguma coisa, mas tento corajosamente me levantar. Eu não vou acabar aqui. Eu preciso continuar. Meus joelhos cedem e meus cotovelos estão fincados na terra, e a última coisa que me lembro antes da escuridão me abraçar com ternura é de olhar para a terra e sussurrar o nome da mulher que amo.



Minha pele está dura. Eu possivelmente estou sujo e queimado. Não faço ideia de quanto tempo passei apagado. Minha garganta está seca e já anoiteceu e eu estou perambulando na penumbra. Caminho com dificuldade, mas continuo meu caminho. Por pior que seja, estou vivo. Estou no lucro.

Cerca de uma hora depois, acredito eu, chego às primeiras arvores. Escuto o que parece ser o silvo de uma flauta. Acho que as alucinações estão começando. Meu corpo arde, consequência do tempo que passei desacordado sob o sol abrasivo. Não conheço esse lugar, e é difícil encontrar um local a ser considerado seguro. Dormir na verdade é uma atitude insegura, mas ainda me sinto bem fraco. Olho para a copa das arvores. É isso. Vou dormir na arvore. Visão privilegiada e fora do radar de gatunos.

Com certa dificuldade, atinjo uma altura adequada. Passo a corda em torno do galho e a amarro firmemente em meu corpo, mantendo-me seguro contra um tronco grosso e maciço de uma sequoia. Não vou cair. É suficiente até a manhã.

Deitado sobre o galho, deixo a iluminação noturna invadir meus olhos. No céu, estrelas luminosas piscam. A lua está imponente sobre elas, grande e cheia e me faz pensar na pessoa pela qual embarquei nessa aventura. Me pergunto se ela estará bem. Eu sei que está viva. Algo queima em meu peito como uma chama precisa e consistente, um constante lembrete de que ela está esperando por mim em algum lugar. Eu posso senti-la comigo, mesmo sem saber onde ela está. Me arrependo de muitas coisas. Me arrependo de não tê-la amado da maneira que deveria. Me arrependo por não ter me dado conta de quão perigoso era nos distanciar do castelo. Me arrependo de não ter defendido Regina como um homem. Muitos arrependimentos me cercam agora. Mas se há algo do que não em arrependo, é de estar aqui e agora. Foi com esse pensamento que adormeci novamente.



“Olhe para aquele imbecil.” Sibilou Zelena, observando Robin amarrado ao galho através do espelho mágico. Ela olhou por cima do ombro e avistou Regina deitada delicadamente sobre uma esquife de gelo e vidro, tombada pelo sono imaculado da maldição. “Ele acha que vai conseguir chegar até você, sis.”

Gargalhando, Zelena rodopiou os dedos e administrou sua magia. “Vamos fazer o ladrãozinho suar um pouco.”



Uma vibração incomum da árvore me fez acordar. O sol me cega por alguns instantes. A arvore balançava de maneira incomum, e demoro apenas alguns segundos para entender o que estava acontecendo. Alguns metros abaixo, no chão, há um bando de bestas, animais ferozes e medonhos que parecem uma mistura mal sucedida de um urso com um leão. Eles roem violentamente a madeira, tentando fazer com que o tronco ceda e eu caía sobre eles — um enriquecido café da manhã. As bestas emitem um som que parecia um rosnado de cão, porém bem mais agressivo e profundo, quase rouco. Eu nunca vi nada parecido. Nunca ouvi nada assim.

Olho em volta e calculo para onde pular. A arvore chacoalha violentamente e eu me seguro no tronco. Com dificuldade, transpasso um flecha sobre o arco e segundos depois, derrubo um deles. Ótimo.

Sinto quando a madeira da árvore cede. Um barulho oco se faz presente, e eu pulo imediatamente na arvore mais próxima, quase escorregando. Observo assustado a arvore onde eu estava caindo estrondosamente no chão. Eles são fortes, e estão em bando. Pense, Robin. Use a cabeça. Pulo de uma árvore para a outra, tentando ganhar tempo para pensar. Onde estão os milhares de pensamentos inúteis agora?

Pulo em outra arvore, mas não encontro a base que preciso para segurar. Eles destroçam a raiz da árvore em minutos, e eu caio inerte sobre o chão duro. Meu peito arde, o coração bate aceleradamente e eu tenho certeza de que a fratura no meu braço aumentou. Ouço os rosnados, uma sequência estranha — como se eles pudessem conversar entre si — e começo a correr.

Corro como nunca corri antes. Eu não sei de onde vem a força que me move. Eu não sei de onde surgiu a musculatura forte o suficiente para o desempenho que estou apresentando. Só sei dizer-lhes que eu corri, ouvindo os rosnados logo atrás da minha nuca e seu bafo úmido e nojento de sangue velho. E como sentir o hálito da morte logo atrás de você. Meu arco enroscou-se na árvore e eu continuo correndo. O arco ou a vida. O arco ou a vida, o arco ou a vida, meu arco ou… Continuo correndo. Eu preciso continuar vivo. Buscar o arco é impossível agora. Tropeço em um tronco rugoso, e caio alguns metros a frente.

Tento levantar, mas sinto presas duras e afiadas cortando a carne da minha perna. Eu grito, tamanha a dor que agora vibra forte sobre todo o meu corpo. Chuto a cara da besta com o outro pé e começo a mancar, correndo conforme posso. Mas o sangue se alastra e eu não estou conseguindo correr muito. Minha perna toda dói, nervos repuxam desesperadamente através do buraco de sangue e carne que sobrara ali. Eu não consigo respirar direito, minha garganta está seca, a respiração descompassada e ofegante. Tiro uma flecha da aljava e paro de correr, o que me dá tempo exato de enfiá-la com as minhas próprias mãos na têmpora de uma das bestas — que cai morta sobre os meus pés. Continuo correndo, ou o que quer que eu esteja tentando fazer, já que minha perna está jorrando sangue e eu sinto uma dor vigorosamente penosa tomando conta do meu corpo.

Eu estava correndo quando trombei violentamente em algo e caí no chão e pelo rosnado assustador, descubro ser outra besta monstruosa. Ela acertou sua pata em meu peito, rasgando-me. Urro de dor mas não solto minhas flechas. Sinto seu peso esmagador quando esta pula sobre mim e eu acerto a flecha em seu peito como uma lança. No entanto, eu não pude prever o movimento seguinte. No intuito da dor, a besta soltou seu peso sobre o meu braço fraturado.

Meu coração para por alguns segundos, tamanha a dor que isso me causa. Sinto meu sangue salpicando em minhas veias. A dor é insana. Insuportável. Meu estômago está duro, assim como todo o meu corpo. A besta avança e eu fecho os olhos, certo de que vai acabar assim.

Ouço um tilintar de espadas.

Espadas?

Abro os olhos, e vejo uma mulher, de idade avançada, com uma espada afiada derrubando a besta que sangra exageradamente.

“Você está bem, meu querido?” Pergunta ela e sua voz é delicada, carregada com ternura.

Será que estou alucinando? Devo ter perdido muito sangue e estou vendo coisas. Mas ela enfia a espada na garganta de uma das bestas com propriedade antes de se aproximar de mim. “Venha, querido. Precisamos sair daqui.”

Com dificuldade, levanto-me. Tento me equilibrar usando o apoio que ela me dá mas eu sinto que estou muito ferido. Manco até a carroça de madeira para a qual ela me guia. Caio sobre a madeira do bagageiro e me recolho, sentindo meu corpo todo estremecer. Eu respiro dor, eu penso dor, eu falo dor. Minha mente está tocando um alarme alto e irritante indicando dor. Penso no que acabei de ver. Uma senhora idosa, de cabelos grisalhos, matando impiedosamente as bestas que quase me mataram. Sorrio. Eu só posso estar alucinando.

Ouço o rosnado distante e cogito a possibilidade de outras bestas estarem se aproximando.

Apago novamente.