Confessionário
11 Capítulo 11
Sinto um cheiro de citronela antes de abrir meus olhos. Quando o faço, levo um tempo para me acostumar a escuridão consequente da iluminação escassa. Há cataplasmas nos meus ferimentos, e a chapa de ferro fora recolocada ao redor do meu braço, amarrada firmemente por um tira de pano limpo.
Olho ao redor. Estou no interior de uma cabana de madeira, pequena e simplória. Ouço o barulho familiar da madeira queimando e identifico a pequena senhora em pé diante da lareira.
"A sopa está quase pronta."
Ajeito-me na cama e observo enquanto a misteriosa senhora prova a sopa, tirando-a da fornalha em seguida. Muitas duvidas percorrem a minha mente, e como que lendo meus pensamentos, ela se aproxima sorrindo com a cumbuca em mãos.
"Comida primeiro, perguntas depois."
Delicadamente, ela deposita o recipiente no meu colo, tendo por base um travesseiro. Pego a colher que ela me oferece, e o cheiro de legumes cozidos atinge meu olfato. Um ronco audível do meu estômago denuncia a minha fome e dou algumas colheradas, esganado e faminto. Percebo que ela me observa com atenção, sentada sobre uma cadeira enquanto tricota. Olhando assim, era impossível dizer que essa mesma senhora indefesa degolou feras até a morte.
"Como é seu nome, querido?"
Os olhos dela possuíam uma cor púrpura. Eu nunca vira nada como aquilo. Suas íris brilhava como um névoa espacial repleta de asteróides luminosos. Seus cabelos eram brancos como a neve, e seu semblante calmo e frágil a tornava adorável.
"Robin, senhora."
"Não me chame de senhora. Me sinto velha."
Sorri e engoli mais algumas colheradas.
"Por que estava na floresta perdida, Robin?"
"Eu vim pela encosta da montanha. Entrei na primeira clareira que encontrei. Porque a chamam de floresta perdida?"
"Porque as pessoas que entram nela nunca mais são encontradas."
Engoli a sopa, engasgando por alguns segundos. Busquei o olhar dela, notando que ela soltara o material de tricô e encarava com cautela.
"O que pretende, Robin? Qual a sua jornada? Tem interesse em magia negra?"
"Magia negra?"
"A floresta perdida possui a maior concentração de terreno fértil para magia negra. Muitos bruxos e bruxas vem para cá, alguns dominam a escuridão, outros são tragados, e muitos morrem. É um solo maldito, suscetível a todo tipo de feitiço sombrio."
"E o que a senhora faz em um local como esse?"
"Me chame de Abigail. Não estamos na floresta perdida. Eu moro ao lado da floresta. E já ouvi muitos pedidos de clemência. Alguns eu pude atender. Outros eram tardes demais."
"Mas sozinha?"
"Eu tenho uma missão na vida, Robin. É isso que importa. E você, a que veio?"
"Eu vim resgatar uma pessoa."
Abigail sorriu e eu percebi que ela talvez fosse capaz de ler meus pensamentos.
"E sabe onde procurá-la?"
"Não."
"Não?" As sobrancelhas dela formaram um arco, estupefatas com a dúvida. "Você pretende resgatar uma pessoa sem saber onde ela está?"
Coloquei a cumbuca vazia ao meu lado.
"É... Complicado."
"É uma loucura. Sabe disso, não?"
"Eu sei. Você acha que é impossível?"
"Nada é impossível em um mundo repleto de magia, querido. Tudo que você precisa é acreditar."
Olho para a janela e observo que já é noite novamente. Preciso continuar. Já me sinto incrivelmente melhor, as dores sequer se fazem presentes. Acho que essa senhora entende de magia, pois sinto meu braço fraturado movimentando-se livremente por cima da chapa de aço.
"Já é tarde da noite. Você passou o dia todo desacordado, se é a sua dúvida."
Diz ela, enquanto lava seus apetrechos culinários em uma bacia. Estou começando a acreditar que ela lê mesmo meus pensamentos.
"Eu não posso perder tempo."
"Se sair agora, vai perder a vida. É bastante tempo a ser perdido."
Fiquei em silêncio. Era claro que eu não tinha nenhuma intenção de perder a vida. Pensei em Regina e senti meu peito arder. Em algum lugar deste universo, ela esperava por mim. Estava inerte, adormecida no sono mórbido da maldição. Zelena podia fazer o que quiser. E eu não podia impedir.
"Como ela é?"
"Quem?"
Sentei-me no chão, encostando-me à parede de madeira da cabana. Abigail sorriu, o rosto cansado e marcado por anos e anos de sobrevivência. Ela sentou-se em um banco, próxima à mim.
"A mulher pela qual enfrentou feras cujos dentes são mais afiados que minhas facas de cozinha."
"Regina. Ela se chama Regina."
"Sua mulher?"
Sorri. Ah, quem me dera. Se eu fosse casado com ela. Se ela fosse, realmente, minha. Eu seria o homem mais feliz do mundo mesmo com feras comendo minhas entranhas. Morreria sorrindo.
"Ela não é minha mulher."
"Eu vi esse brilho nos seus olhos, rapaz. Você adoraria que fosse."
Sorriu a velha e eu tive que sorrir também. Era verdade, não era?
"Sim, eu adoraria. Eu a amo muito."
"Eu sei."
"Sabe? Como?"
Abigail suspirou e olhou para a janela por alguns segundos antes de me fitar novamente. "Como eu lhe disse, eu já vivi muitos anos nas redondezas dessa floresta amaldiçoada, Robin. Já vi todo tipo de pessoas adentrando-a. Uma pessoa só enfrenta este inferno sombrio por amor. Amor a sua vingança, amor a seu poder, amor a alguém querido. O amor por coisas erradas é o que alimenta o chorume negro que percorre as células de toda a vegetação deste local. A morte se torna inevitável. Para um homem bom como você estar aqui, é porque ama esta mulher mais do que a própria vida."
"Eu tenho medo de perdê-la."
"Todos nós temos medo de alguma coisa, querido. Você não sentiu medo dos Kalagarians?"
"Quem?"
"É o nome das bestas que quase comeram sua perna."
Como se eu pudesse esquecer.
"Senti. Achei que fosse morrer."
"Mas não desistiu. Preferiu ficar e lutar, porque encontrá-la era mais importante. É isso o que estou te dizendo, querido. O medo existe, mas quando se há um motivo maior, uma motivação, um sentimento que o impulsione, bem, a coragem simplesmente se levanta e arma um escudo."
"Você sempre morou sozinha, Abigail?"
"Minha história não é interessante, querido. Vamos, vá descansar. Amanhã é dia de retomar sua jornada."
Abigail levantou-se e caminhou para trás da cortina, que separava os comodos da cabana. Observei o pano movimentando-se devido a brisa gelada que vinha da floresta. Um som, sombrio e agudo acompanhava o vento. Era agoniante, como um choro triste, algo como um gemido moribundo. Abigail apareceu atrás do tecido, apenas para acrescentar algo.
"Não confie nos sons da floresta. É mais uma das suas armadilhas."
Voltei para o colchão sorrindo.
Abigail podia ler pensamentos. Ele tinha certeza agora.
Amanheceu e eu me sentia pronto. Meu braço fraturado estava firme e novo – o que com certeza, era coisa de Abigail. Ela negava, mas com certeza, tinha algum conhecimento mágico. Talvez estivesse evitando usá-lo. Arrumei meu leito, e peguei meus pertences, colocando sobre o meu ombro antes de me sentar à mesa. Abigail apareceu sorridente com frutas cortadas e eu me perguntei onde é que ela achava essas coisas em um local tão inóspito.
"Precisa se alimentar direito, querido."
"Você é uma boa pessoa, Abigail."
"Eu só quero te ajudar."
"Porque?"
Eu não entendia. O porquê dela estar me ajudando. Quer dizer, mal me conhecia. Eu era um estranho que quase morrera na floresta perdida. Eu podia ser um assassino. Um mago obcecado. Um feiticeiro sociopata. Eu poderia ser qualquer um. Mas Abigail — ela me acolheu e cuidou dos meus ferimentos, me alimentou e conversou comigo.
"É a minha missão."
Tudo isso soava incrivelmente evasivo. Comi minhas frutas com vontade, estavam deliciosas. Tudo parecia ter um gosto assustadoramente bom e eu suspeitava que a ausência de casa era a causa disso. Sinto tanta falta de Roland, que dói. Intensamente. Mas sei que ele está em boas mãos. Levanto os olhos para a janela e vejo o sol. Está na minha hora.
"Antes que vá, quero lhe dar algo."
"Abigail…" Ela me ignora. Vejo-a se levantando da pequena mesinha e mexendo em suas caixas. Já observei essas caixas antes. Ela possui caixas de madeira, de diversos tamanhos. Em suas tampas, há desenhos. Alguns parecem simbologia, outros parecem ter rostos esculpidos. Há figuras tribais, e algumas estampas pagãs. "Não precisa me dar nada." Continuo, envergonhado. "Você já salvou a minha vida. Me deu onde dormir e o que comer, não é justo me dar mais nada."
"Fique quieto, rapaz." Respondeu ela, sorrindo.
Em suas mãos, vejo um pergaminho pequeno e um pequeno saquinho, numa cor bordô, amarrado por uma fita dourada. Ela os coloca em minhas mãos, delicadamente.
"Esse pergaminho contem uma oração muito importante, Robin. Muito importante. Você só terá a oportunidade de usá-la uma única vez. Você pode lê-la. Pode até decorá-la mas não a pronuncie se não for utilizá-la. É muito importante que entenda isso."
"Eu entendi perfeitamente."
"E este pequeno saquinho é uma cortesia. Ele possui propriedades mágicas. Mas também só pode ser utilizado uma única vez. Você deve pronunciar essas palavras bordadas nele e ele providenciará o que você precisa." Abigail sorriu, e me abraçou.
Eu não tenho memórias vívidas da minha mãe. De modo que a abracei de volta, talvez como um filho adulto abraçaria a mãe antes de abandoná-la. Seus batimentos eram lentos, o que era engraçado — ela parecia melhor do que eu, inclusive. Abigail debruçou-se e beijou meu rosto. "Boa sorte, querido. Você irá precisar."
"Eu quero que fique com isso." Respondi, já tirando a corrente de ouro do meu pescoço. O pingente, uma flecha com penas em sua cauda, balançava de um lado para o outro.
"Robin, não…"
"Sim, Abigail. Fique com ela. Esta corrente foi um presente da minha ex-mulher antes de morrer. É a lembrança do amor que compartilhávamos pelo nosso filho. E agora, vai ser a lembrança da minha gratidão. Você nunca estará sozinha. Eu estarei com você enquanto estiver com ela."
Ela sorriu, e eu podia jurar que vi lágrimas marejando seus olhos. Delicadamente, coloquei em seu pescoço e prendi. Beijei-lhe a bochecha com carinho e deixei Abigail ali.
"Tenha uma boa vida, minha senhora." Foram minhas últimas palavras antes de sair da cabana. Olhei para o grande horizonte à minha frente, depois para a floresta escura e sombria à minha esquerda. Havia muito a ser desbravado ainda. Minha viagem estava apenas começando.
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