Quando cheguei ao pátio, Roland soltou minha mão e correu na direção dela, exatamente como eu gostaria de fazer. Regina debruçou-se e o abraçou, sorrindo. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Eu queria ficar bravo com ela. Eu queria ficar com raiva. Mas lá estava eu, sorrindo feito um idiota. A cada beijo que ela dava nas bochechas dele, a cada gargalhada dele, meu coração ia demolindo suas muralhas de modo que eu estava totalmente vulnerável à Regina novamente.

Merda.

Regina levantou os olhos, me encarando. Ela encaixou Roland em seu colo e caminhou até onde eu estava. Seu rosto estava impassível e ela parecia austera.

"Robin." Ela abriu um sorriso grande e largo, seus olhos brilhando. Era impossível resistir a aquilo. Pare com isso, Regina. Pare agora. "Podemos conversar depois?"

"Aconteceu algo, Rainha?"

"Acho que ambos sabemos o que aconteceu, Robin." Ela parecia conseguir ver através das minhas retinas, para dentro da minha alma. Parecia me despir, vendo meus medos, inseguranças e segredos. "Eu o procuro mais tarde."

Sem que eu pudesse responder, ela se afastou com Roland em seu colo. Ele sorria o tempo todo e isso se traduzia em um sentimento de total tranquilidade e paz batendo em meu peito. Eu só tinha medo de quando ela resolvesse partir.

De longe eu percebia quando Regina me olhava. Seus olhos pareciam mais escuros que de costume. Eu não tinha certeza sobre o que ela queria conversar. Seria sobre o beijo? Ou sobre a maneira que eu a tratara? Ou ela ia me dispensar de uma vez?

Qualquer diagnóstico seria melhor do que tamanho purgatório. Meu estômago começou a rosnar e eu previ que aquele seria um dia longo demais.

Eu estava caminhando pela mata quando Regina apareceu na minha frente, envolta em um nevoeiro roxo.

"Não podia vir andando?" Resmunguei.

"Ia demorar dois dias."

"Tempo suficiente de caminhada para mim." Eu havia prometido não responder à altura. O que eu estava fazendo?

Ela respirou fundo e me pegou pela mão, entrelaçando seus dedos aos meus. A maciez de sua pele contra a aspereza da minha era alarmante mas suave e tão gostoso que dava vontade de ficar ali para sempre. Olhei para ela, confuso e Regina devolveu o olhar, com uma expressão enigmática no rosto. Ela me puxou pela mão e então me guiou para dentro da floresta. Estávamos sozinhos, ainda bem. As pessoas não entenderiam Robin Hood e a Rainha andando de mãos dadas.

Paramos em uma clareira onde árvores formavam uma espécie de caverna aerada. Da beirada, podíamos ver todo o lago que cercava o reino. Regina não soltara minha mão e eu rezava para que ela jamais o fizesse. Eu estava apaixonado por ela, e agora eu tinha absoluta certeza disso.

Infelizmente, ela desvencilhou seus dedos dos meus, e parou na minha frente, observando-me. Seus olhos analisaram os meus traços, viajando pelo meu cabelo, meus olhos, e meus lábios. Ela suspirou olhando para os meus lábios e eu sabia o que ela estava pensando. Exatamente o mesmo que eu. Segundos depois, ela voltou a olhar em meus olhos.

"O que foi, Robin?"

"Perdão, milady?"

"O que aconteceu? O que eu fiz à você? Quer dizer, eu estava errada em arrancar seu coração. Me desculpe. Mas parecia que estávamos bem e de repente você está me tratando como a antiga Rainha Má."

Regina pedindo desculpa por ter arrancado meu coração. Eu não tinha me precavido para isso. Eu não estava preparado para aquele olhar de súplica e preocupação no rosto dela. Eu supostamente queria me afastar mas naquele momento, estava procurando motivos para não enfiar os dedos naqueles cabelos negros e puxá-la para um beijo voraz.

"Não vai falar nada?" A irritação dela era presente em cada sílaba.

"Eu só... Estava meio preocupado com toda essa situação da Zelena." Ela estava completamente insatisfeita com aquela resposta e eu sabia disso. "A culpa não é sua, Regina."

Ela respirou fundo e caminhou para longe de mim. De costas para mim e de frente para o lago, eu a vi respirando fundo. "A culpa é minha sim. Estamos todos em perigo porque Zelena quer a mim. Talvez seja melhor eu me entregar, isso garantiria a todos vocês uma chance de ficarem em paz. Afinal, sou eu quem ela quer."

"Isso é uma besteira."

Ela se virou para mim com um sorriso melancólico no rosto, mas os olhos estavam marejados. "Você sabe que não é."

"Nós já conversamos sobre isso, Regina. Mesmo que você se entregue, acha que ela vai nos deixar em paz? Zelena não terá piedade de ninguém."

"E o que você me sugere?"

"Eu vou até ela."

Regina riu amargamente, e caminhou até estar novamente na minha frente. "Você é louco? Robin, com o que você vai derrota-la? Acha que vai derruba-la com flechas? Antes de você conseguir acerta-la, estará morto. Essa ideia é uma besteira."

"Eu vou tentar."

"Robin. Eu não vou permitir."

A expressão dela era muito séria. Seu tom de voz denunciava sua determinação.

"Você não pode me impedir, Regina."

"Eu posso e você sabe disso." Ela sorriu diabolicamente. "Você não vai deixar o seu filho órfão. Roland só tem a você. Você vai ficar com ele e me deixar cuidar disso."

"Eu não quero que você morra."

Ela permaneceu olhando nos meus olhos com a boca semiaberta. "Você não sentirá a minha falta. Acredite. A única pessoa que sentiria minha falta sequer sabe quem sou eu."

"Eu não apostaria nisso."

Regina aproximou-se ainda mais de mim. Estávamos a poucos centímetros do inevitável. Seu cheiro adocicado de maçãs era hipnotizante. Senti as mãos dela nas lapelas do meu colete, e no segundo seguinte, ela me puxou para si, grudando nossos corpos. Eu não conseguia respirar. A lembrança daqueles lábios era tentadora e fora do meu controle. Regina debruçou-se e roçou seus lábios nos meus, numa sensação ardente de sofreguidão e desejo. Eu a queria, muito.

Mas uma sirene tocou dentro da minha cabeça. Eu sabia que algo estava errado. Estávamos agindo sem pensar. Eu já tinha me machucado. Ia fazer isso de novo. Que raio de homem insiste em fazer algo que o machuca?

"Me beija, Robin." A voz dela escoou nos meus ouvidos como um sussurro derretido, criando um calafrio na minha nuca. Com uma dor lacerante em meu peito, coloquei minhas mãos sobre as dela, e tirei-as da minha roupa. Ela abriu os olhos, confusa e quando notou que eu estava me afastando, ela mordeu o lábio inferior com força. Torci para que ela não chorasse. Eu não aguentaria. Os olhos dela estavam marejados a ponto de explodir, então eu me virei e comecei a caminhar.

"Por que?"

Parei no exato momento. A voz dela transmitia uma magoa horrível. Eu temi por meu coração nesse momento. Eu a havia ferido, exatamente como David me pedira para não fazer. Ela estava de costas para mim, ainda ofegante. Regina me odiava. Agora para sempre.

"Eu só quero saber por que, Robin."

Engoli em seco e caminhei até ela, que não se virou. Regina era linda demais, eu não conseguiria nunca me conter perto dela. Afastei o cabelo de seu pescoço e ela suspirou, triste. Deslizei meu dedo pelo seu cabelo e coloquei-o atrás da orelha. Eu me debrucei e toquei sua orelha com meus lábios, assistindo sua pele se arrepiando de maneira deliciosamente suave.

"Você sabe o porquê, Regina. Você é uma Rainha. Eu sou Robin Hood, o príncipe dos ladrões. Nós não temos nada em comum. Isso não pode e nem deve acontecer. Pertencemos a mundos diferentes."

Eu ouvi quando ela prendeu a respiração. Afastei-me dela, odiando me por ter que deixar de toca-la. Mas eu sabia que ou eu me afastava agora, ou eu também iria chorar e meu código não me permitia esse tipo de fraqueza.

A vida é uma merda. Esse código é uma merda. E aqui estou eu, novamente, caminhando na floresta e deixando a mulher que amo para trás.

"Você e a Regina, uh?"

Sorri desajeitadamente para a ruiva à minha frente. Belle era uma boa amiga do passado, que estendera a mão para mim num momento em que eu estava à sarjeta da sociedade.

"Não há nada entre nós, Belle."

"Robin, todo mundo comenta sobre o jeito que vocês olham um para o outro."

"Todo mundo está enganado. Nós não temos nada."

Ela me encarou e sorriu, e eu soube que tinha confirmado justamente o contrário. Belle possuía sabedoria de sobra.

"Podem não ter nada. Mas não diga que não sentem nada um pelo outro. "

"Está me perguntando algo, Bells? Sim. Eu gosto dela. Mas veja onde estamos. Quem somos. Não tem nada a ver. Vou continuar minha missão de ajudar os pobres."

"Você é tão idiota, Robin."

Ela estava rindo de mim. Gargalhando. As pessoas começavam a nos olhar. E eu ri também, afinal — ela era minha amiga e estava certa. Eu era idiota.

“Você está com medo do que está sentindo e por isso insiste nessa desculpa esfarrapada ridícula.”

“Eu só estou dizendo o que a própria Regina disse.”

Ela sorriu para o meu aborrecimento.

“Ela é mulher, Robin. Tudo bem estar insegura sobre o que sente. Mas você é um homem barbado com um medo infantil, praticamente patético. O que eu e Rumpel temos em comum? O que Branca de Neve e David tem em comum? O que Emma e Graham tinham em comum? Não somos todos diferentes?”

Ela tinha razão e eu me odiei por isso.

“A verdade, Robin, é que se você ama alguém ela pode ser até de outro universo e continuará sendo a pessoa ideal para você. Quando a gente ama alguém, passa por cima dos obstáculos, passa por cima dos contratempos, aprende a lidar com os prós e contras da pessoa e fica com ela, não importa como. Se você acha que ama a Regina, por que deixa que ela se afaste?”

“Eu não sirvo para ela.”

“Ela disse isso?”

“Ela disse que não devia acontecer porque somos de mundos diferentes.”

“Mas vocês não estão no mesmo mundo agora?”

Parecia que a nuvem densa e obscura que estava repousada sobre a minha mente havia se dissipado. Belle tinha razão. Como eu não tinha percebido isso antes? Eu não estava lutando por ela. Eu tinha desistido no primeiro sinal de dificuldade. Eu não havia me comportado como um homem digno dela. Eu a havia rejeitado. Partido seu coração. Eu tinha me apaixonado e feito tudo que não devia ter feito. Porra, eu tinha errado para caramba.

“Vá atrás dela, meu amigo.”

Me levantei sorrindo, e beijei o topo da cabeça da minha amiga. Ela sorriu.

“Obrigada, Belle. Você é uma amiga de ouro.”