Subi as escadarias do castelo correndo. Eu estava ofegante e comecei a sentir pontadas acusatórias do esforço incomum. Quando cheguei ao corredor de acesso ao quarto dela, avistei o Príncipe e Branca de Neve em frente à porta do quarto. Assim que me notou, o semblante de David mudou e ele veio na minha direção furioso.

"O que foi que eu te pedi, Robin? Que merda você fez?"

Eu não ia levar o desaforo de graça porque ele era príncipe de alguma coisa. Mas Branca colocou-se entre nós, as duas mãos sobre o peito do marido.

"Calma, David." Ela retornou para me olhar e eu pude ver que ela não se sentia tão diferente dele. "O que você fez?"

"Como assim o que eu fiz? Cadê a Regina? Eu quero falar com ela."

"Para piorar essa situação ainda mais? Poupe o esforço." Sibilou David para mim.

"Ela voltou para cá furiosa e destruiu tudo que havia no quarto. Tivemos sorte de ninguém ter cruzado o caminho dela. O foi que você fez?”

Pensei nas coisas que havia dito. Eu era o culpado.

“Talvez eu tenha dito algumas coisas.”

“Claro que disse.” David me encarava com fúria nos olhos. Ele bufou, e passou por mim, esbarrando propositalmente no meu ombro. “Imbecil.”

Mantive os olhos em Branca, que sorriu desajeitadamente. “Me desculpe por ele. David está preocupado que Regina faça algo que prejudique o bebê.”

O bebê. Olhei para a barriga dela. Ali estava, uma pequena curva acentuada, não era exuberante mas também não era imperceptível. Eu entendia a fúria de David. Eu também odiaria se alguém colocasse a mulher que eu amo, grávida, em risco por algum motivo idiota. Belle estava completamente certa, eu era um tremendo idiota.

“Eu cometi um erro, mas vim até aqui para pedir desculpas à ela. E peço desculpas à você, Branca. E ao David. Desculpe ter exposto vocês à um perigo desnecessário.”

Ela sorriu para mim, e eu me senti um pouquinho melhor.

“Ela gosta de você, Robin. Não desperdice isso.”

“Eu não vou. Posso falar com ela agora?”

“Ela está no terraço. Final do corredor.”

Acenei para ela e caminhei até o final do corredor. Eu não sabia o que ia dizer. Eu não sabia nem como começar, mas eu havia feito uma escolha ruim e precisava corrigir aquilo. Regina merecia o melhor de mim. Passei pelos batentes em formato de arco e observei o terraço, silencioso.

“Regina?”

“Robin.” O sussurro dela foi tão doloroso que me deixou em estado de alerta. Coloquei a flecha no arco e busquei sua presença. Meu braço tensionou assim que a avistei, inerte ao poder de Zelena, que mantinha as mãos sobre o pescoço dela.

“Tire suas mãos dela.” Sibilei, mirando a flecha exatamente entre os olhos verdes. Regina olhava para mim com súplica em seu olhar e naquele momento, me senti mal. Extremamente mal.

“Quem é você para me dar ordens?” Zelena gargalhou e olhou para a meia irmã com despeito. “Quem é esse idiota?”

“Solte-a ou vou enfiar essa flecha no seu crânio.”

Zelena fitou Regina, que recusou-se a responder alguma coisa. Ela continuava me encarando. “Vá embora, Robin.”

“E alertar todo mundo? Você fica.”

Soltei a flecha, mas Zelena criou um campo em volta dela — o que partiu o objeto em dois. “Idiota.” Resmungou ela, e eu senti que meus pés estavam presos ao chão novamente. Eu odeio magia.

“Não a mate, isso não vai servir de maneira nenhuma aos seus objetivos.” Eu tinha que barganhar.

“O que você entende dos meus objetivos?”

“Regina viva vale bem mais do que morta.”

“Concordo parcialmente.” Zelena arremessou-a no chão e Regina respirou fundo, enfraquecida. A Bruxa Malvada do Oeste era definitivamente mais forte. Regina engoliu em seco e tossiu com dificuldade. Zelena deu uma volta completa em volta dela. “Em breve, a vida dela não vai fazer nenhuma diferença para mim.”

“O que quer dizer com isso? O que você pensa que vai fazer? Você não vai machucá-la.” Gritei, tentando me soltar do chão. Zelena iria matá-la se eu não me movesse. Mas como? “Inimigo no castelo! Inimigo no castelo! Inimi…”

Eu ainda estava gritando quando uma bola de magia verde foi arremessada contra mim.

Senti uma dor lascinante na cabeça.

Depois disso, eu apaguei.

Abri meus olhos.

A claridade era forte e invasiva. Alguns sons se faziam presentes à equação mas eu tinha dificuldade em identificá-los. Eu não conseguia enxergar com precisão. Fechei os olhos novamente. Minha garganta estava tão seca…

Regina. O que tinha acontecido com ela? Zelena. Regina.

“Eu vi ele abrindo os olhos.”

“Talvez fosse reflexo, Branca. Você não pode ter esperanças demais.”

Era a voz de David?

“Ele não está morrendo.”

“Ele ficou uma semana apagado. Podia ter morrido.”

Uma semana? Eu fiquei desmaiado por uma semana? Uma maldita semana? Onde estava Regina? Eu preciso falar com ela. Eu preciso acordar, eu preciso sair dessa cama.

“Regina.” Resmunguei, a voz rouca devido à aspereza da minha garganta desidratada.

“Ele acordou, David! Vai procurar ela.”

Abri os olhos novamente e me forcei a foca-los. Longos minutos depois, consegui ver o belo rosto de Branca de Neve me encarando. Ela sorriu e eu jurei que havia lágrimas tentando cair pelo canto dos seus olhos, mas ela não as permitiu. Engoli um pouco de saliva e tentei me sentar na cama, mas ainda não tinha forças.

“Olá.” Sorriu ela, colocando a mão sobre a minha. “Como se sente?”

“Fraco.”

“Você passou uma semana inconsciente.”

Limpei a garganta. “O que houve? A Regina está bem? Zelena…”

“Fica calmo. Não aconteceu nada. Você bateu com a cabeça na parede, mas chegamos a tempo de afastar a Zelena de Regina. Ela está bem.”

Eu olhei para o teto, inconformado com tudo. “Onde está Roland?”

“Ele ficou com a Regina todo este tempo.”

Eu sorri, e Branca me acompanhou. “Ela gosta mesmo de você.”

“Gosta nada.” Brinquei.

“Quando você foi atacado, ela passou a noite toda aqui, vigiando você.” Branca olhou por cima do ombro, para a fresta da porta, talvez temendo que Regina adentrasse sem avisar e lhe pegasse em flagrante contando tudo novamente. “Ela ficou de sentinela nessa cadeira ao lado da sua cama todos os dias, várias horas por dia. Só saiu daí para cuidar do Roland.”

Meu coração batia tão forte que eu achei que fosse rasgar minha pele e sair para fora. Algo estava gritando dentro de mim. Regina tinha feito tudo isso por mim. “Por que ela faria algo assim?”

“Como eu disse, ela gosta mesmo de você.”

Engoli em seco, e fechei os olhos novamente. Eu precisava falar com ela. Urgentemente. Senti os lábios de Branca sobre a minha têmpora. “Melhoras, Robin. David já foi chamá-la. Ela estará aqui em breve.”



Eu não saberia dizer quanto tempo eu dormi desde que Branca de Neve saíra do meu quarto. Meu corpo parecia estar demasiadamente exausto e enfraquecido. Engasguei e tossi, levantando-me um pouco e sentando-me na cama, as costas apoiadas na cabeceira da cama. Meu olhar vagou pelo quarto até que a encontrou.

Sentada à minha frente, vestida com um longo vestido azul turquesa, estava ela. Seu sorriso abriu-se inesperadamente, e eu sorri de volta, encantado. “Olha só quem finalmente acordou.” Brincou ela e eu senti o carinho em suas palavras.

“Pareço estar sobre alguma maldição do sono ou algo assim. Isso não é normal.”

“Nada é normal, Robin.”

“Não mesmo.” Retruquei, me lembrando da última conversa que eu tivera.

“Está querendo dizer alguma coisa, Hood?”

“Não.” Sorri. “Onde está meu filho?”

“Dormindo no meu quarto. Já passa da meia noite.”

“O que você faz aqui no meu quarto, em plena madrugada, Rainha?”

Ela me encarou com um sorriso turvo no rosto. Eu a adorava assim. Bem humorada. Sarcástica. Debochada.

“Eu estava de passagem apenas.”

“Eu ouvi dizer que você ficou horas apenas ‘passando’ na beira da minha cama.”

Juro que vi um leve esfumaçado rosa colorindo as bochechas dela.

“Deixe-me adivinhar quem falou: começa com Branca e termina com Neve?”

Eu gargalhei. Minha cabeça latejava um pouco, mas era suportável. Tudo era suportável com ela por perto.

“Talvez.”

“Não há muito espaço para variáveis. Como está se sentindo, Robin?”

“Bem. Mas poderia estar melhor.”

Percebi uma mudança no semblante dela. “Está precisando de alguma coisa? Eu posso providenciar.”

“Sim, preciso de uma coisa.”

Ela se inclinou na minha direção e me encarou, concentrada. Eu continuei a falar.

“Preciso que me desculpe.”

“Robin…”

“Não, não, me deixe terminar. Eu tinha ido atrás de você no terraço para isso. Para pedir desculpas. Por que o maior erro da minha vida foi ter negado um beijo a você, Regina. Em vez de provar que você estava errada sobre nós, eu aceitei qualquer merda e me afastei como um covarde. Eu não concordo com você, eu não aceito que uma diferença de mundos, de criação, de riqueza, de vestimenta, ou qualquer outra convenção social me afaste de você; eu não me importo que não tenhamos nada em comum…” Estendi a mão e bati na cama, sinalizando que ela se sentasse perto de mim. “Eu não sei como isso aconteceu, como, nem por quê mas tudo que eu sei, Regina, é que não há ninguém no mundo que me faça tão bem quanto você. A não ser o Roland.”

“Robin…”

“Vem, senta aqui.”

Regina levantou-se, incerta e sentou-se bem perto de mim. Seus olhos agora estavam alinhados aos meus, e eu acariciei os cabelos dela, deslizando o dedo sobre eles enquanto os colocava atrás da orelha dela.

“Eu não quero machucar ninguém, Robin.”

Deslizei o polegar naquele rosto delicado. “Ficar longe de você vai me machucar mais do que qualquer outra coisa, Regina.”

“E eu não quero me machucar.”

Deslizei minha mão para a nuca dela, e a forcei a olhar em meus olhos. “Eu prefiro dar a minha vida a ver você machucada.”

Regina sorriu e uma lágrima escorreu pelo canto do seu olho esquerdo. Pressionei meus dedos contra a sua nuca, e a puxei. Nossas bocas se encontraram. Eu não sei dizer o que havia naquela boca. Não sei se era a maciez, se era a posição da carne sobre a pele aveludada. Tudo que posso dizer é que beijar Regina era como um presente divino, macio, aveludado, gostoso. A língua dela era faminta na minha boca, chupando-me, sugando-me como se eu fosse um oásis em um deserto de emoções. Seu gosto me arrepiava por inteiro, sua respiração me desestruturava, e eu mesmo não sabia no que me concentrar, de modo que deixei minha língua explorar cada centímetro daquele beijo, cada textura e precisão. Nossos lábios massageavam-se, uns aos outros, com pitadas de sofreguidão. Quando o ar tornou-se completamente escasso, fomos nos separando gradativamente, o beijo ardente dividindo-se entre beijos rasos até finalmente se tornarem selinhos.

“Você é perfeita, Regina.” Sussurrei contra a boca dela, beijando-a de leve. Ela sorriu e tentou se levantar, mas eu passei a mão sobre a cintura dela e beijei sua orelha. “Onde você vai?”

“Para o meu quarto. Você precisa descansar.”

“Fica comigo.”

“Que parte de ‘descansar’ você não entendeu?”

“Eu juro, não faremos nada. Só dorme aqui comigo, por favor.”

Regina me olhou com desconfiança, a sobrancelha arqueada. Mas seu sorriso indicou minha vitória. Delicadamente, ela retirou seus saltos e deitou-se na cama, na minha frente e de costas para mim. Enrolei o braço na cintura dela e a puxei para mim, abraçando-a e enfiando meu nariz em seu pescoço. Ela era uma deusa. Senti as mãos dela sobre os meus braços, me abraçando e então ela aninhou-se contra o meu corpo. Me enrosquei nela e beijei o topo da sua cabeça.

“Boa noite, Robin.” Ela estava de costas para mim mas eu podia sentir o sorrisinho insolente em seus lábios.

“Boa noite, minha rainha.”

Beijei seu pescoço e a senti se arrepiar.

Eu tinha Regina nos meus braços.

Eu tinha a Rainha na minha cama, aninhada no meu abraço.

O que mais eu poderia querer?

Notas finais
Obrigada a quem ainda tem paciência de esperar att ♥