Confessionário
43 Capítulo 43
Quando Regina acordou, sentiu certa estranheza com o local. Tudo que lhe acontecera no dia anterior parecia um sonho; mas levou poucos instantes para ela compreender que não era nada mais do que a sua nova realidade. Ela estava livre. Tudo bem, era uma fugitiva da própria mãe e do Rei Leopold, mas estava livre e finalmente tinha livre arbítrio para tomar suas próprias decisões.
Graças à ele. Lembrou-se também das palavras de Robin, de como ele parecera chateado com as suas insinuações. Em nenhum momento ele a desrespeitara, pelo contrário, tudo que ele fizera fora lhe ajudar. Ele olhara suas pernas, mas meu Deus, ele fizera por mal? Ela podia jurar que não.
Regina levantou-se e assegurou-se que estava visualmente razoável para quem havia dormido em um celeiro. Caminhou até a porta e a abriu. Robin estava sentado entre duas caixas, dormindo. Ela sentiu-se extremamente culpada, mentalizando o frio que ele devia ter passado ao dormir a noite toda ao relento. Caminhou até ele e se debruçou, segurando na aba de seu colete.
"Robin? Robin!"
Ele acordou assustado, mas sorriu admirado quando viu seu rosto. Ela sorriu, encantada com aquele gesto simples e significativo. Nunca vira ninguém tão feliz por vê-la. "Desculpe."
"Tudo bem. Está pronta para irmos?"
Regina assentiu com a cabeça. "Mas você acabou de acordar."
"Assim como a senhorita, suponho." Respondeu ele, olhando-a com um meio sorriso. Regina pareceu acanhar-se diante daquele comentário, e fitou os próprios pés.
"Sim."
"Vou pegar o Bart. Precisamos encontrar um lugar para comermos algo e você precisa de roupas novas."
"Você não gosta dessa roupa?"
Robin encarou-a com divertimento no olhar e ela sorriu, desviando o olhar logo em seguida. Era tão simples estar ao redor dele, como se fosse completamente natural. "Você está muito bonita nela, mas vai nos denunciar fácil."
"Você tem razão."
Robin entrou no celeiro e voltou com o cavalo. O equino esfregou o chanfro no braço dela, fazendo-a rir. Ela deslizou os dedos pela crina dele, e beijou-a, encantada. "É um cavalo muito bonito."
Ele apenas balançou a cabeça, confirmando o que ela dissera. Por algum tempo, permaneceu em silêncio e ela apenas o acompanhou enquanto desciam pelo gramado. Estava cada vez mais difícil permanecer ao lado dela e não beijá-la. Extremamente difícil conhecer a mulher da sua vida pela terceira vez, e ainda assim se apaixonar por mais um versão dela que você não conhecia. Regina conseguia ser adorável e apaixonante em todas as suas facetas — ou talvez ele fosse simplesmente vulnerável. De qualquer modo, ali estava ele com suas emoções embaralhadas por ela.
"Eu posso guiar?"
Robin a fitou, curioso. Ela o olhava como uma criança pedindo algo à mãe. Ele estendeu a corda e colocou nas mãos dela. "Desde que você não nos derrube."
"Eu sou perfeita em questões de montaria."
Robin sorriu, pensando em dizer que ela era perfeita em absolutamente tudo — mas ele ia começar a parecer um idiota. Ajudou-a a subir na cela e subiu em seguida. Ele ficou paralisado por alguns segundos — Regina estava a sua frente, o corpo quase colado ao seu. Supostamente, ele deveria estar animado. Isso possibilitava uma espécie de toque, mas naquele momento ele estava aterrorizado pensando em como iria segurar nela sem que ela o achasse um tarado.
"Você precisa segurar em mim, Robin." Comentou ela. Ele sentiu as mãos delicadas sobre as duas, puxando -as e colocando-as sobre o seu abdômen, numa espécie de meio abraço. "Não fique com timidez. Eu não quero que você caia."
Ele riu e ela retomou as rédeas do cavalo, iniciando sua jornada.
O cascalho da estrada fazia um barulho engraçado quando entrava em atrito com as ferraduras de Bartolomeu. A estrada era aberta e as curvas bem abertas, embora só houvesse grandes campos e muito verde de ambos os lados. Nenhum sinal de civilização, pessoas, sons que não fossem os animais tranquilos em seus habitats naturais. Regina observava a extensão das terras ao seu redor e pensava o quanto ela desconhecia do mundo, o quanto ela nunca havia visto ou imaginado. Ela não havia vivido, até então.
Sentiu Robin movendo um dos dedos, pela primeira vez e sorriu. Possivelmente, ele estava preocupado demais em não causar uma impressão ruim — não havia movido nem um centímetro das mãos que delicadamente ela colocara sobre o próprio abdomen. Sabia que ele estava nervoso pois a respiração entrecortada e descompassada vez por outra batia contra a sua nuca, eriçando-a. A única pessoa com a qual Regina havia montado estava morta e ela nunca imaginaria estar naquela posição com um homem novamente. Qualquer outro homem poderia ter tirado algum proveito da situação, mas Robin só deixava transparecer o seu desajeito com aquela situação e ela queria desesperadamente rir dele, mas não podia.
“Está tudo bem, Robin?” Perguntou, agradecendo aos céus que ele não poderia ver o riso contido em seu rosto.
“Sim, tudo bem.”
“Sabe, Robin...” Começou ela, os olhos fixos no caminho. “Eu não fui justa com você. Me desculpe pela maneira que eu agi no celeiro. Eu estava assustada. Tudo que está acontecendo parece uma… ilusão — de tão surreal que é.”
“Não precisa pedir desculpas, princesa.” A voz dele era bonita e rústica, como o som de brasas ao fogo diretamente em seu ouvido. Ela engoliu em seco por dois instantes antes de se recompor.
“Regina. Por favor, me chame de Regina.”
“Regina, você não precisa. Está tudo bem. Você estava irritada.”
“Eu não sou essa pessoa. Eu não maltrato as pessoas. Não foi isso que meu pai me ensinou.” De repente, a lembrança de seu pai a entristeceu. Henry havia ficado para trás. Um nó formou-se na sua garganta, e ela começou a chorar. As primeiras lágrimas vieram como uma onda quebrada, silenciosas e sem força. Mas não demorou muito para que a torrente se chocasse contra o seu peito, de modo que ela estava soluçando em poucos segundos.
“Regina? O que aconteceu?” Robin desceu do cavalo apressadamente e retomou a corda. Regina escondia o rosto em uma das mãos e ele gentilmente a segurou pelo antebraço, ajudando-a a descer. “Meu Deus, Regina… Você está chorando, você…” Ele não conseguiu terminar. Assim que ela colocou os pés no chão, agarrou-o, abraçando com força e chorando contra o seu peito. Ele não tinha nenhuma noção do que havia acontecido com ela — mas ele sabia que era a pior sensação que ele já sentira. Vê-la chorando como se o seu mundo estivesse acabando e não saber o que fazer. Ele segurou-a pela nuca, beijando o topo da cabeça dela e com a outra mão começou a acariciar-lhe as costas, delicadamente, enquanto sentia as lágrimas dela molhando sua camiseta fina.
Por algum tempo, ele apenas a segurou firme, tentando de algum modo mostrar que ela não estava sozinha — ele cuidaria dela independente do que fosse. Quando sentiu que ela estava se acalmando, permitiu-se perguntar. “Vai me dizer o que aconteceu ou eu vou continuar preocupado?”
“Eu deixei meu pai. Ele ficou para trás também. Ele é a única pessoa nesse mundo que me ama, e se importa comigo e eu o deixei. Será que algum dia eu vou ver meu pai novamente, Robin?”
Ela não poderia dizer o quanto aquelas palavras o machucavam, e muito menos ele poderia se pronunciar. Mas Robin queria. Por um momento, ele considerou jogar tudo para o alto e dizer a ela que Henry não era o único. Que ele a amava mais do que qualquer outra pessoa no mundo. Que a amava apesar dos mundos, das gerações, das vidas. Que se importava com ela a ponto de desistir de tudo e de todos, que ele daria sua alma por ela a qualquer momento. Mas ele não podia e sabia muito bem disso.
“Nós não vamos fugir para sempre, Regina. Você vai encontrar um homem bom, você vai formar uma família, você vai ser feliz. Daremos um jeito de trazer o seu pai até você. Só me dê tempo, tudo bem?”
Ela ergueu os olhos e encarou-o. Os olhos azuis que refletiam genuína preocupação e carinho, e ela ousaria dizer que havia mais sentimentos ali — se não fosse uma grande loucura. Apertada em seu abraço forte, e com as mãos espalmadas em seu tórax, Regina finalmente respirou fundo e deitou a cabeça ali. Ele cheirava a pinheiros e tramadeiras, ao arvorismo típico da alta vegetação da floresta ao redor do castelo. Quando levantou a cabeça, seus rostos haviam de certa forma se aproximado ainda mais. Ele a fitava intensamente, o azul dos seus olhos parecia um tanto mais escuro agora. Ela não sabia porquê, mas sentia uma infinita vontade de beijá-lo. Como um agradecimento. Como se pedisse desculpas por estar lhe dando trabalho.
Regina tentou aproximar-se mais alguns milímetros mas ele simplesmente desviou o rosto e beijou-a ternamente na bochecha. Um beijo casto, que a fez suspirar de frustração. O que havia de errado com ele?
“Eu não posso fazer isso.” Sussurrou ele, antes de se afastar e caminhar na direção do cavalo.
Ela estava faminta e aborrecida quando eles avistaram algumas dezenas de casas — o que fez com que Robin agradecesse mentalmente aos deuses. O silêncio entre eles já se estendia por horas e beirava o constrangimento. “Finalmente.” Comentou ele, e ela apenas consentiu com a cabeça, sem proferir nenhuma palavra.
As pernas dele doíam. Não achava que tinha algum direito de ir sentado abraçado nela depois de tê-la dispensado daquela maneira, de modo que Regina viera montada no cavalo e ele viera caminhando ao lado deles. O que aparentemente não havia sido uma ideia muito inteligente. Desceram por uma trilha quase apagada no meio do mato e saíram em uma rua de terra. Havia casas humildes de palha, sustentadas por algumas vigas de madeira de eucalipto. Eles notaram uma ou duas pessoas em suas janelas ou quintais — e pela curiosidade deles, era bem possível que não recebessem muitos visitantes.
“Olá.” Uma voz feminina chamou a atenção de ambos, obrigando-os a parar. À sua frente, havia uma senhora idosa, de estatura baixa. Seus olhos eram castanho-claro e seu cabelo, embora bem ralo, era branco como neve. Ela sorria amigavelmente em seu vestido xadrez. “Posso ajudar vocês?”
“Nós só estamos de passagem.” Começou Robin. “A minha... “ Ele olhou para Regina e limpou a garganta. “Minha amiga precisa de novas roupas, e nós estamos com um pouco de fome. Eu posso pagar por tudo.”
A pequena senhora encarou-o por alguns segundos e então observou Regina. “Você tem razão. Ela está ridícula nessa roupa.” Regina riu e ele riu, aliviado. A risada dela era uma das coisas mais mágicas que ele conhecia. “Venham, vamos achar o que comer.”
Regina desceu do cavalo em um pulo e caminhou até o lado dele. Eles estavam em um local desconhecido, com pessoas que não sabiam dizer se eram boas ou ruins. Eles só tinham um ao outro e torciam para a sorte estar do lado deles — afinal as chances eram quase nulas. Nem todos os moradores daquela vila eram tão hospitaleiros quanto essa senhora. Muitos deles apareciam até a porta de suas cabanas e os encaravam — alguns desconfiados, alguns fechavam suas portas.
“Eles são ladrões, Yoni!” Gritou um deles, antes de bater a porta e fechar as janelas. Regina engoliu em seco e entrelaçou seus dedos nos dedos de Robin — o que chamou a atenção dele imediatamente. Eles trocaram um longo olhar, e ele percebeu o quanto ela estava assustada, de modo que apertou ainda mais os dedos contra a mão dela e sussurrou que estava tudo bem.
A cabana de Yoni era bem parecida com as outras. Era simples, sem qualquer luxo. A palha servia como uma boa alvenaria, os móveis eram todos de madeira, esculpidos à mão. Ela sinalizou para que eles sentassem à mesa pequena. “Nós não somos ladrões, senhora Yoni.” Foram as primeiras palavras de Regina. A mulher fitou-a antes de sorrir.
“Tudo bem, minha querida. O Klaus teve experiências ruins com alguns visitantes que tivemos. Além do mais, ele é um velho resmungão. Não se preocupe.” Ela colocou um par de cumbucas de barro na mesa, cada uma em frente à um deles. Com uma concha de madeira, despejou algo na cumbuca, o que eles rapidamente identificaram como sendo algum tipo de sopa. “Nós não usamos talheres aqui, se é o que estão esperando.”
Regina observou Robin sorrir para a anfitriã antes de levar a cumbuca à boca e beber o líquido. Ela nunca havia feito aquilo. Vivera em um castelo a vida toda, e sentia-se bastante ridícula agora. Respirou fundo, e segurou a cumbuca com as mãos, embora sentisse que estava fazendo aquilo do jeito errado — com alguma dificuldade levou à boca, mas assim que terminou e colocou-a de volta à mesa, Robin e a pequena senhora começaram a gargalhar.
“O que foi?” Perguntou ela, mas Robin continuava rindo. Seu rosto começou a queimar — obviamente, eles estavam rindo dela e ela nem sabia por quê. Ela sentiu uma umidade em seu tórax e então olhou para baixo, percebendo que havia lambuzado todo o vestido com a sopa.
“Você parece uma criança.” Gargalhou ele e Regina encarou-o com uma careta mas começou a rir, pois afinal, ela parecia mesmo. Yoni os observava em silêncio até que ergueu a a concha no ar entre eles.
“Quem quer mais uma?”
Robin ergueu a mão rapidamente, enquanto Regina arregalou os olhos e fitou a mesa. “Tudo bem, Regina. Se você quiser mais, é só comer. Ninguém se importa com seus protocolos de princesa.”
Ela encarou-o com susto e socou o braço dele. “Sua louca! Por que fez isso?”
“Princesa.” Sussurrou ela, e ele se deu conta do que havia feito. Yoni o encarava com uma das sobrancelhas levantadas. Ela colocou a concha de volta à panela e sentou-se à mesa. Não estava mais sorridente.
“Você disse princesa? Ela é uma princesa?”
Robin fitou a morena ao seu lado, resmungando xingamentos contra ele que possivelmente ele não deveria nem se dar ao luxo de tentar entender. Virou-se para a frente e encarou os olhos castanhos da senhora que aguardava uma resposta. “Sim, ela é uma princesa.”
A anfitriã ponderou sobre aquela nova informação por alguns segundos. “Olha, meus queridos. Vocês não podem ficar aqui. Podem comer, e eu os levarei à mercearia para comprar o que precisam, mas devem ir embora antes do anoitecer. Princesas fugitivas trazem grandes tragédias sobre aqueles que as resgatam. Esse vilarejo já é sofrido o bastante.” Regina continuava fitando a mesa. “Não me leve a mal, menina. Você parece ser uma boa pessoa.”
“Nós iremos antes embora antes do anoitecer, Yoni.” Respondeu a morena, a voz fria e dura. Robin sabia que ela havia ficado magoada — não com aquela senhora, mas com a veracidade em suas palavras. Se Leopold ou Cora descobrissem que eles a haviam acolhido, realmente, destruiriam tudo e todos. Yoni sorriu e ergueu a concha novamente. “Alguém vai querer mais?”
Regina levantou-se, desvencilhando-se do mobiliário de madeira. “Muito obrigada, Yoni. Estava maravilhoso — mas acabei perdendo a fome. Vou esperar lá fora.”
Ele observou-a sair. O clima voltara a pesar entre eles. Obviamente, ela devia estar com vontade de socá-lo no rosto, e ele sequer podia dizer que ela estava errada. Ele havia entregado sua identidade de bandeja, sem nenhuma ressalva. Ele havia estragado tudo. Mais uma vez.
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