Confessionário
4 Capítulo 4
Quando Regina retornou para dentro do quarto, meu coração desacelerou. Ela não estava morta. Por pior que fosse meu destino, eu ainda não era um fracasso completo. Ela caminhava apressadamente.
“O que houve? Desistiu daquela ideia maluca?” Repliquei aliviado quando ela estendeu a mão e desfez sua magia, permitindo que eu me movesse.
Ela debruçou-se novamente sobre a penteadeira e começou a recolher seus frascos.
“Você estava certo.” Uau, qual é o gosto dessas palavras em sua boca majestade? “A maldição do sono não era a resposta. Como você disse, eu precisava apenas de um motivo para viver.”
“E você encontrou um?” Sorri com a afirmação. Por pior que fosse, Regina merecia uma chance de ser feliz. Ela tinha um coração pulsante por baixo de toda aquela maldade e roupas apertadas.
“A única coisa que não tenho há muito tempo.”
Minhas sobrancelhas formaram um arco e possivelmente a confusão ficou bem nítida nas minhas expressões faciais, pois ela se virou para mim com um sorriso aterrorizante e envolvente antes de concluir seu raciocínio.
“Alguém para destruir.”
Lá estávamos nós – de volta à estaca zero. Regina era um enigma para mim. Seu coração era doce, sua mente era amarga. Sua alma era bondosa, seus instintos eram maléficos. Seu cérebro era cruel, suas motivações eram nobres. Se você se afeiçoar, cairá sobre os joelhos da Rainha Má. Se começar a odiá-la, sentirá o coração derreter-se por Regina.
Ela levantou os olhos para mim, e eu percebi que suas intenções não eram louváveis. Ela acenou com a mão e eu senti meus pés presos contra o chão novamente. Forcei-os, já sabendo que eu não conseguiria me mover.
“Regina.”
Ela vai me matar.
“Acho que antes de me concentrar nesse plano eu preciso me livrar do que está me desconcentrando.”
Ela veio caminhando até onde eu estava com elegância, o quadril fazendo curvas suntuosas no ar, um sorriso diabólico nos lábios. Seus olhos brilhavam como labaredas de um fogo ardente. Eu nem me dei ao trabalhar de pegar o arco. Se ela quisesse, ela iria me matar antes que eu conseguisse colocar a flecha no arco. Eu estava perdido.
Regina parou na minha frente, sorrindo para mim. Eu temia o próximo movimento dela. Mas ela me olhava curiosamente, como que analisando cada centímetro do meu rosto. Lentamente, seus olhos deslizaram pelo meu corpo todo. Ela não tinha pressa. Parecia estar feliz em me deixar completamente constrangido com aquela inspeção.
“Regina, não deixe meu filho órfão.”
Ela lambeu o lábio superior enquanto fixava os olhos nos meus lábios. Era quase como se ela... Acorde, ladrão. Ela é a Rainha Má.
“Não vou matar você, ladrão.”
“O que você quer de mim?”
“Isso.” Respondeu ela, seca, antes de enfiar a mão no meu peito e puxar meu coração para fora num movimento bruto.
Em suas mãos, meu coração cintilava. Pulsava forte e ela o observou com atenção.
“Coração puro o seu, ladrão.”
Era completamente surreal observar meu coração fora do meu peito. Já havia escutado muitas histórias. Mas aquilo era diferente. É diferente quando é o seu, quando é você que está vivenciando o seu órgão vital pulsando nas mãos de alguém com quase nenhum senso de compaixão.
Para falar a verdade, era desesperador.
Regina apertou-o e mesmo não usando muita força, eu fechei os olhos. Aquilo doía.
“Regina!” Gemi, e temi que ela fosse levar aquilo adiante. Realmente, eu ia morrer.
Ela se aproximou ainda mais de mim e segurou meu coração na mão esquerda, levando-o à altura dos lábios. Ele estava entre nós, embora nós estivéssemos estranhamente próximos um ao outro. Por um momento de loucura, achei que ela fosse arrancar um pedaço dele com os dentes e apesar de eu considerar que isso significaria minha morte, soou estranhamente sensual.
Pare de flertar. Ela vai esmagar seu coração, imbecil.
“Beije-me. Com mais desejo do que seu corpo é capaz de suportar.” Sussurrou ela contra o coração pulsante em sua mão.
Num movimento certeiro, segurei o braço dela com força. Ela fincou os olhos no meu, a boca semiaberta – mas não se moveu. Parecia estar interessada no que eu faria a seguir. Com um movimento duro, eu a forcei a colocá-lo no meu peito novamente. Regina ergueu os olhos para mim, zombeteiros.
“Eu vou arrancá-lo daí novamente, não se iluda.”
Seus olhos se fixaram nos meus lábios e o sorriso foi aos poucos sumindo de seus lábios. Eu não deixei de encará-la em nenhum momento. Se é assim que quer jogar, jogaremos assim Rainha. Eu estava perto demais, e sentia a respiração dela deslizando sobre o meu rosto. Não precisei sequer me mover para sussurrar contra os lábios dela.
“Você não precisa arrancar o meu coração se quer que eu lhe beije. Eu farei isso por livre e espontânea vontade, majestade.”
Enfiei meus dedos naqueles cabelos. Eram macios e sedosos, e faziam cócegas. Meus dedos se apossaram de sua nuca e eu a forcei contra mim, minha boca encaixando-se na dela. Seus lábios eram deliciosos, macios e eu senti a textura carnuda deles se esfregando ambiciosamente contra os meus ásperos lábios. Sua língua era quente na minha boca, deslizando pela minha – era tão quente quanto vicioso. O gosto dela era torturantemente vicioso, e quando ela virou a cabeça para o outro lado e me deu ainda mais abertura, senti que ia morrer ali. Meus pés ainda estavam presos ao chão, mas desci a outra mão pelo corpo dela, e meus dedos deslizaram pela costura libidinosa daquele vestido.
Regina gemeu contra a minha boca, e eu senti meu corpo todo estremecendo em resposta. Deixei que minha outra mão deslizasse para a sua nuca de modo que segurava sua nuca com as duas mãos agora, sua boca quente, úmida e safada contra a minha, aqueles lábios aveludados encaixados nos meus de uma maneira tão lasciva e indecorosa como só uma rainha e um ladrão poderiam fazer. Era a junção do nobre e do pobre, da realeza e do proletariado, do educado e do grotesco e eu me sentia incapaz de parar de beijá-la. Regina era deliciosa demais.
Senti quando ela desfez a magia em meus pés e eu mais do que rapidamente a empurrei contra a parede, nossos lábios ainda se lambendo com voracidade. Regina gemeu novamente e eu apertei a cintura dela enquanto minha boca deslizava para o seu pescoço, onde deixei minha língua deslizar, lambendo-a, os lábios chupando cada gota de suor, minha boca umedecendo cada pedaço de carne ali enquanto sentia os dedos dela nos meus cabelos, me puxando contra ela. Eu não sabia dizer como é que aquilo estava acontecendo, mas eu não queria que parasse. Nunca.
Apertei as duas mãos contra a cintura dela e minha boca deslizou sobre aquele decote generoso que ela usava. Minha boca áspera roçava contra a pele acetinada e eu sentia o arrepio correndo pela sua pele. Deslizei a língua pelo vale entre seus seios e chupei a pele com a boca molhada.
“Não!” Resmungou ela, e espalmou as duas mãos contra o meu peito, afastando-me. Seus olhos estavam gélidos novamente. “Isso foi suficiente, ladrão.”
“Regina...” Sussurrei. Porra, eu estou totalmente duro. E ela estava simplesmente me dispensando. A Rainha Má voltara.
“Eu já obtive o que pedi.” Respondeu ela, sem olhar para mim. Fiquei apenas li parado, observando-a pegar seus frascos e passar por mim como se nada tivesse acabado de acontecer. “Precisamos ir nos encontrar com a Branca de Neve.”
Continuei parado, talvez indignado. Com ela por ter me usado, ou comigo por ter criado expectativas demais? Era difícil saber.
Regina parou próximo à porta, e seu semblante estava totalmente fechado novamente. A perfeita máscara do mal. Ela manteve seu porte elegante e apenas inclinou o corpo na minha direção.
“Não ouse contar o que aconteceu aqui a ninguém, ladrão.”
“Eu tenho honra, majestade.”
“É melhor mesmo, ou arrancarei seu coração novamente e farei um par de brincos com ele.”
Eu semicerrei os olhos e encarei suas costas enquanto a seguia para fora do quarto. Já estava começando a me acostumar com isso.
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