Confessionário
28 Capítulo 28
Subi em uma das pedras e puxei Zelena. Ela me abraçou, as mãos abertas sobre o meu tórax enquanto descansava o maxilar no meu ombro. O sol começava a subir da encosta do lago, criando um efeito rosa e laranja que coloria o céu.
"Regina estava certa, a vista é fenomenal." Comentou Zelena.
Fechei os olhos por um segundo. Não. Eu não ia pensar em Regina. Não era para isso que eu estava ali. Desvencilhei-me de Zelena e desci da pedra. "O que está fazendo?" Perguntou minha esposa, e eu comecei a puxar as varas de alumínio de dentro da bolsa.
"Vou montar a barraca."
"Robin, o sol nem nasceu ainda... Você pretende dormir agora?"
"É melhor deixá-la já montada, caso sei lá, chova."
Senti os olhos dela em mim, mas não disse nada. Coloquei as primeiras varas nos locais indicados e comecei a montar a base. Zelena prontamente puxou as varas e colocou na outra ponta. Ela estava montando o outro lado da barraca, distraída. Reparei na luz do sol reluzida em seus cabelos ruivos, e seus olhos azuis atentos às dobras da barraca. Zelena é linda, deslumbrante no seu modo simples de ser.
Zelena estava me ajudando a montar a barraca, assim como me ajudava na vida. Eu nunca pedira por nada, mas ela estava sempre lá. Eu queria muito ter valorizado isso desde o início.
"Robin." Chamou minha atenção. "Puxa a lateral para cima, por favor."
Sorri e deixei que ela me guiasse. Pelo jeito, Zelena entendia melhor o manual de instruções que eu.
POV REGINA
Acordei com Roland e Abby deitados na minha cama. Abby estava deitada com a cabeça por cima do meu abdômen enquanto seu irmão estava enrolado na minha perna e no cobertor. Não vi quando eles invadiram minha cama.
Faço carinho nos cabelos loiros esparramados pela cama e tento me desvencilhar deles. Não consigo. Roland agarra minha perna com força e eu suspiro. Sinto um movimento e percebo que Abby acordou, e me olhar incerta, até que finalmente se deita na cama, ficando de frente ao meu rosto.
"Oi."
"Oi Abby. Dormiu bem?"
"Dormi." Ela sorriu e eu me apaixonei por aquela garotinha novamente. Como ela podia ser tão adorável? Como podia me fazer tão bem? Bati a ponta do dedo indicador em seu pequenino nariz e ela sorriu, mostrando os dentinhos alinhados. "Você podia me adotar..."
"Você já foi adotada."
"Mas posso ser de novo. Aí você me adota, eu moro aqui..." Abby aproximou-se de mim, e sussurrou, fazendo uma espécie de concha com as mãos. "E aí nós sequestramos o Roland e trazemos ele também, ninguém vai notar."
"Ninguém." Repeti, rindo. "Está com fome?"
Abby balançou a cabeça, afirmando. Bocejei desanimada antes de me ajeitar para levantar. "Gina." Senti a mão pequena de Abigail segurando minha roupa. "Não desce não. Faz magia e a gente toma café na cama, assistindo televisão. Por favorzinho."
Pensei em dizer que eu odiava que comessem em cima da minha cama. Pensei em fazer discurso sobre usar magia assim, sem necessidade. Mas no final das contas, eu nunca tinha oportunidades de passar tanto tempo com eles. Dane-se. Rapidamente produzi bandejas sobre a cama, cheia de guloseimas, e voltei para o meu lugar, enfiando-me na coberta e puxando Abby para perto de mim. Liguei a tevê. "CSI?" Perguntei, sorrindo.
"Eu posso?" O rosto apreensivo me fez sorrir.
"Por hoje, somente hoje, você pode tudo."
"CSI então!" Sorriu ela, deitando sobre o meu colo. Meus olhos se encheram de lágrimas. Fazia anos que eu não sentia essa sensação. Fazia anos desde que Henry deitara em meu colo desse jeito. Henry. Henry ainda não se lembrava de mim. Embora eu sentisse vontade de morrer cada vez que cruzava meu caminho com o dele e ele me olhava como se eu fosse uma estranha, passei a aceitar que era o melhor. Henry estava seguro desde que não se lembrasse de mim. Qualquer pessoa que se envolvesse comigo, por menor que fosse o laço, corria sério risco de vida e eu sabia disso. Abigail, Roland, Robin, Thomas... Todos correm riscos. Por minha causa. Porque a Bruxa Má do Oeste quer me prejudicar. Me fazer sofrer. Quando penso assim, sei que eu deveria afastar todos. Colocar um ponto final nisso, por que cedo ou tarde, alguém pode acabar se machucando.
"Vamos nadar?"
Sorri para ela, que me olhava esperançosa. "Você tem certeza? O lago deve estar congelante."
Zelena balançou a cabeça, sorrindo e eu sorri, erguendo os ombros em sinal de rendição. Observei em silêncio enquanto ela se despia e pulava no lago. Nua. A água não devia estar muito gelada, pois Zelena se movia com facilidade. Pensei em como estariam as crianças e consequentemente pensei em Regina. Eu estava tentando, estava mesmo. Mas meus pensamentos estavam constantemente retornando para Regina, como se eu não tivesse escolha ou controle sobre eles.
"Vem!" Gritou Zelena e eu me despi, tentanto exorcizar a minha própria mente. Lembre-se de por quê você embarcou nessa viagem, Robin. Ambos precisam seguir em frente. Respirei fundo, e joguei o resto da minha roupa no canto da barraca, pulando no lago assim como Zelena.
POV REGINA
Roland havia adorado a idéia de fazer desenhos nas maçãs que caíam das minhas macieiras, e eu achei que era uma boa ideia ensinar Abby a lidar com a sua magia. Abigail era uma feiticeira poderosa, mesmo sendo apenas uma criança. E um potencial desses, sem controle, vira uma arma letal. Eu já tinha visto o suficiente na vida e não era o que eu queria para ela.
"Você precisa sentir a magia dentro de você, Abby. Você precisa mentalizar e canalizar." Falei, amorosamente. Ela sorriu, aceitando tudo com alegria. "Agora me traga aquela maçã, aquela bem lá no alto."
Abby mantinha os olhos abertos e buscava perfeição em seu toque, batendo em outras maçãs e quase as derrubando na minha cabeça. "Calma, calma." Brinquei. "Feche os olhos."
"Fechar os olhos? Eu não estou conseguindo nem com os olhos abertos!" Resmungou a pequena criaturinha. Caminhei até ela, me abaixando e encarando profundamente seus olhos.
"Exatamente... Você está sem foco." Coloquei as mãos sobre os seus olhos, fechando-os com cuidado. "Use sua mente e seu coração. Magia é sensação, você precisa sentir Abby."
Me afastei e observei-a movimentar as mãos com os olhos fechados. A maçã desceu com alguns solavancos, mas caiu sobre a minha mão. "Abra os olhos, Abby." Pedi, orgulhosa. Abigail abriu os olhos com medo, mas sorriu e correu até mim quando se dera conta de que conseguira. Ela estava começando a controlar seus poderes.
"Você acredita em um poder cósmico, Robin?"
Estávamos deitados sobre uma toalha, na beira do lago. O sol estava ameno, e eu abri os olhos, encarando os olhos azuis. "O que seria um poder cósmico?"
"Sei lá, destino, deuses, forças sobrenaturais.."
"Acho que sim, não sei. Profecias existem e se cumprem, isso seria considerado destino? Tem algumas que não se cumprem, e eu acho que embora exista uma força que esteja acima de nós... Nossas atitudes podem mudar tudo."
"Acho que somos nós que escolhemos nossos destinos." Comentou ela.
"Talvez sim."
Fechei os olhos novamente, e respirei fundo. Senti os dedos delicados fazendo carinho nos meus cabelos. Era reconfortante passar tempo ao lado de Zelena. Ela era cheia de vida, bem humorada, cheia de assuntos. Uma pessoa incrível.
"No que está pensando, querido?"
"Em você." Respondi, ainda com os olhos fechados.
"Em mim?"
Abri os olhos e me levantei, sentando-me. Zelena sentou-se também, me abraçando e pousando a cabeça em meus ombros. "Eu estou aqui, Robin. Não precisa pensar... Apenas fale."
"Zê, eu... Você é uma mulher fenomenal, só isso. Tenho sorte de estar casado com você."
Eu sabia que era verdade, então porque essas palavras tinham um gosto tão amargo?
POV REGINA
"Thomas?"
Thomas estava parado na minha porta, com as mãos no bolso. Vestia um jeans batido, e uma camiseta de mangas longas. Ele sorriu, me encarando de maneira abatida. "Podemos conversar?"
Olhei por cima do ombro para dentro da casa. Abigail e Roland estavam entretidos com uma caixa enorme de tintas e desenhos para colorir. Voltei-me para ele. "Entra. Tenho tempo para um café."
Caminhamos até a cozinha, e Abby correu, abraçando Thomas. Ela era pequena, alcançando no máximo a cintura dele. Thomas a abraçou, beijando seu rosto e eu senti uma pontada no peito. "Você está linda, Abby." Elogiou ele, bagunçando seu cabelo.
"Você está horroroso." Comentou ela, mostrando-lhe a língua e correndo para a mesa, onde tubos enormes de tinta a aguardavam. Observei o sorriso nos lábios dele enquanto a assistia, e seu sorriso desfez-se aos poucos quando voltou a me encarar. Coloquei a xícara de café sobre a bancada, e peguei uma.
"O que você quer, Thomas?" Eu não estava com tempo para historinhas. Nem tempo, nem paciência. Precisava de objetividade. Thomas não era um homem ruim. Não era uma pessoa ruim. Mas eu... Eu me sentia meio perdida, e o fato de ele ter mentido por algum tempo me machucava.
"Você." Confessou ele, num só fôlego. Imaginei que era tão dificil para ele quanto para mim.
"Thomas." Alertei. Eu não estava preparada para essa conversa.
"Eu sei." Ele fixou os olhos na bancada, incapaz de me encarar. "Tudo que eu fiz foi numa tentativa estúpida de te manter ao meu lado. De não perder você e que ironia — foi exatamente o que me fez perder você, Regina."
"Eu não suporto mentiras, Thomas."
"Regina, eu... Me desculpe. Me desculpe pelas mentiras. Me desculpe por não ter sido honesto desde o começo."
"Eu desculpo você. Mas não estou em condições de..."
"Não vou te pedir isso, Regina." Ele me cortou, sério. Seus olhos estavam duros contra os meus. "Não vou te pedir para voltar comigo. Se um dia você quiser, eu vou estar mais do que disposto a continuar. Sei o que você sente pelo Robin..." Engoli em seco, olhando para ele. "Mas ele não escolheu você, Regina. Ele escolheu a esposa. Eu estou aqui e vou continuar. Não estou te pedindo para escolher. Você pode encontrar outro homem e ser feliz com ele. Eu só quero que pare de sofrer por quem não a merece."
Fiquei em silêncio, tentando absorver as palavras dele. Thomas se levantou e beijou minha bochecha, caminhando para a saída logo em seguida.
Anoitecia, e eu saí para buscar lenha. Zelena ficou na barraca. A floresta era minha segunda casa e eu me sentia rejuvenescido ali. Era como voltar às raízes, às fontes de tudo. Minha história estava entrelaçada a natureza, e eu adorava isso. Eu havia crescido entre vilarejos, enfiado em cima da copa das árvores e nos acampamentos.
Desci pela trilha e cheguei à uma clareira. Sentei-me ali, observando a noite. Zelena parecia muito feliz e eu me sentia orgulhoso disso. Quebrei algumas toras e as coloquei na bolsa improvisada. Como será que estavam as crianças? Como será que estava Regina?
Regina.
Por melhor que fosse a companhia de Zelena, por mais que eu estivesse me esforçando, por mais que eu me distraísse, por mais que minha esposa me tocasse e me lembrasse do prazer de ser seu homem, Regina não abandonava meus pensamentos. Eu estava condenado. E estava condenando Zelena à infelicidade.
POV REGINA
Abigail e Roland dormiram cedo, exaustos. Eu estava feliz por ter passado o dia todo com eles. Tanto Abby quando Roland eram crianças adoráveis, cheias de disposição e de uma inteligência absurda. Mas eram crianças, e ver o brilho em seus olhos quando apresentados à uma enorme quantidade de brinquedos era mais do que eu poderia querer.
Em pé na varanda, com uma taça de vinho nas mãos, deixei meus pensamentos voltarem às palavras de Thomas. Ele não estava errado. Realmente, Robin havia feito sua escolha. Ele escolhera prezar seu casamento, e eu me apaixonara ainda mais por ele depois disso. Um homem que honrava seu casamento. Um homem lutando pelo seu compromisso. Mas daí, eu continuar pensando nele era um erro terrível. Thomas estava certo e eu odiava esse fato. Ele mentiu, mas suas motivações não foram maldosas.
Eu gosto de Thomas. Talvez ele seja o homem destinado a me fazer esquecer esse amor impossível.
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