Confessionário
21 Capítulo 21
Regina apareceu na cozinha com um vestido justo preto, e eu evitei fita-la por muito tempo. Eu ainda estava tentando digerir o que acontecera na madrugada. A visão dela abraçada a uma peça de roupa minha. O som de sua voz confirmando que ela gostava do meu cheiro. Ela beijou o topo da cabeleira loira de Abigail e me olhou enquanto beijava o topo de cabelos castanho escuro de Roland. “O cheiro está maravilhoso.”
“Achei que fazer um bom café da manhã era o mínimo que eu poderia fazer para agradecer.” Sorri. Regina me encara com curiosidade. Seus cabelos estavam lindos. Ela está completamente linda. Viro-me de costas, porque sei que quanto mais eu encará-la, mais difícil será resistir. Regina deixou evidente as suas convicções sobre nós e ela não está errada.
“Papa faz waffles como ninguém.” Resmunga Abby com a boca cheia de comida.
“O que eu lhe disse sobre falar com a boca cheia, mocinha?”
“Desculpe.” Responde ela, sorrindo e eu observo Regina passar por trás do balcão e encher uma caneca com café. Ela o bebe, os olhos fixos em Abigail. Por um minuto, me perco nas curvas suntuosas que o vestido faz ao contornar seu corpo. Quando me liberto desse transe, percebo que Regina está me encarando de volta. Merda. Pego em flagrante.
Estávamos fazendo aquilo de novo. Nos olhando como se pudéssemos ler o que havia na mente do outro. Como se nossos corações dissessem “sim, estamos de acordo”. Eu sabia que não podia e Regina era a primeira a se negar a transigir qualquer que fosse o limite. Era um beco sem saída. Apenas uma ilusão na qual estávamos nos mergulhando.
“Posso falar com você?” Perguntei, incerto sobre a minha abordagem.
Regina balançou a cabeça e caminhou com seus saltos vermelhos até a varanda. A segui, sem silêncio. As crianças estavam entretidas com a televisão, o que nos dava algum tempo. Fechei a porta atrás de mim e logo estávamos frente a frente.
“O que houve?”
“Eu... Não quero atrapalhar mais do que já o fiz, Regina. Mas preciso de apenas mais um favor.”
“Você não me atrapalha.”
“Não acredito em você.” Rebati e ela sorriu.
“Do que precisa?”
“Só preciso que fique com as crianças por uma ou duas horas. Preciso ir para casa e conversar com a Zelena civilizadamente. Eu busco as crianças depois.”
Regina ajeitou os cabelos, incomodada. Acredito que tenha sido devido a menção da minha esposa. “Eu terei que ir à prefeitura, mas os levo comigo. Precisará buscá-los lá ou eu os deixo em sua casa depois.”
“Não, eu os busco. Não vai atrapalhar seu trabalho?”
“Como eu disse, Robin, você não me atrapalha. Muito menos seus filhos. Mas...” Ela parecia relutante, e olhou para a porta, como que pensando nas crianças. “Tem certeza disso? Quer dizer, você sabe que eu não sou a pessoa mais bem vista por aqui. Muitos achariam uma extrema imprudência da sua parte deixá-los comigo.”
“Regina.” Suspirei. “As pessoas sempre vão se apegar aos nossos passados. Elas são incapazes de acreditar em mudanças. Eu confio em você e isso basta para mim.”
Regina sorriu, tímida. Meu Deus, como era linda. “Não tem medo que eu roube o carinho e amor dos seus filhos?”
“Não se pode roubar o que foi dado a você, milady.”
Caminhei na direção dela. Por mais que fogo crepitasse nas minhas veias, por mais que o desejo fosse febril e ardesse contra o meu tórax, deslizei minha mão pela lateral de seu rosto, e carinhosamente segurei-a pela nuca, beijando-a com cuidado e lentidão na bochecha. Senti-a suspirar com o toque. “Obrigado. Você é a melhor pessoa que eu já conheci.” Afastei-me sem olhar para ela, pois sabia que eu fraquejaria e voltei para o interior da cozinha, engolindo todo e qualquer sentimento que estivesse embolado na minha traqueia naquele momento.
Entrei em casa, e não vi Zelena em canto nenhum. Não fazia a mínima ideia de onde ela poderia ter ido. Eu estava com as roupas de ontem, e com certeza, precisava de um banho. Subi as escadas com cuidado, tentando identificar qualquer barulho vindo dos outros cômodos, mas nada. A casa parecia realmente deserta. Dois lances de escada e duas portas depois, entrei em meu quarto. Para a minha surpresa, Zelena estava enrolada nos lençóis, e embora estivesse acordada continuava imóvel.
“Zelena?”
Minha voz parecia tê-la libertado de um transe, e ela mexeu-se bem lentamente, buscando-me com os olhos, até que finalmente me fitou. “Robin?”
“O que houve com você?”
“Onde você foi, Robin?” Ela tentava se mover, mas parecia que seus membros estavam pesados demais. Com esforço, recostou-se à cabeceira da cama, sentando-se. Seus cabelos ruivos caíam pelo rosto, bagunçados. Os olhos fundos, denunciavam as lágrimas que com certeza umedeceram as fronhas dos travesseiros durante a noite. “Por que me deixou sozinha?” Seus olhos se encheram de lágrimas novamente.
Sentei na beirada da cama, mas não me virei para encará-la. Eu fitei o espelho frontal do guarda-roupa. “Eu coloquei a segurança das crianças em primeiro lugar. É o que um bom pai faz.”
“E o que um bom marido faz, Robin?”
A pergunta me atingiu como uma pancada. Meu estômago doeu, e eu sabia o porquê. Com certeza, um bom marido não fazia o que eu fazia. Quer dizer, o que eu havia feito? Eu não era exatamente um bom marido. Eu estava apaixonado por outra mulher e estava negligenciando a minha esposa. Por mais que eu não lembrasse, Zelena era minha mulher e eu tinha um compromisso a zelar. Eu estava me afastando do homem que eu havia prometido ser e isso doía muito. Me tornava fraco. “Desculpe, Zelena. Eu não tenho sido um bom marido para você.”
Ela não respondeu. Virei-me para olhar para ela, e nossos olhos se cruzaram. “E o que isso quer dizer, Robin?” Ela limpou as lágrimas que caíam de seus olhos. “Quer dizer que vai melhorar ou está simplesmente dizendo que acaba aqui?”
Se eu fosse honesto naquele momento, teria dito que acabava ali. Mas eu poderia? Quem eu seria? Que base eu teria para ensinar aos meus filhos sobre honra, comprometimento e dignidade se transpassasse meus valores ao primeiro sinal de divergência? No fundo, eu gostaria de correr até a prefeitura e ter Regina em meus braços de novo, mas eu também sabia que não era assim que as coisas eram. Eu não estava livre para ela. Eu assumira esse laço de união e não podia simplesmente desatá-lo porque era conveniente. Longe de Regina, eu conseguia pensar assim. Mas bastava estar perto dela e tudo ia por água abaixo.
“Eu prometo que vou tentar, Zelena.” Respirei fundo, acariciando a perna dela por cima do lençol. “Vamos fazer esse casamento funcionar. Eu te jurei votos de dedicação, e é minha obrigação honrá-los.”
“Não quero que fique comigo por obrigação, Robin.” A voz dela estava fraca. “Se essa é a razão de estar aqui, deve ir embora.”
“Eu não posso dizer que te amo, Zelena.” Ouvi-a suspirar de tristeza e ela abraçou seus joelhos. Puxei-a para mim, e segurei seu rosto com as duas mãos, acariciando a maçã de seu rosto. “Eu preciso de tempo. Eu preciso te conhecer novamente, me apaixonar novamente. Caso contrário, eu estaria te contando mentiras.”
Lágrimas escorriam do rosto dela quando eu colei nossos lábios, beijando-a com carinho. Eu me odiava pelo que estava fazendo. Eu me odiava por ser Robin Hood. Não queria ser justo. Não queria ser exemplar, nem mesmo digno. Eu queria ser feliz. E sabia, que por mais que tentasse, não era naqueles lábios que morava a minha felicidade.
Prefeitura de Storybrooke Maine.
Escritório da Prefeita.
Bati duas vezes na porta, e entrei. Três rostos se viraram com curiosidade para a minha direção. Rapidamente, Roland e Abby saltaram das cadeiras e correram na minha direção. “Papa!”
Ajoelhei e abracei-os, mantendo cada um em um dos meus braços. Beijei a bochecha de Abby e a testa de Roland, antes de fitar Regina, que me olhava com admiração. Eu gostava de como eu parecia aos olhos dela. Engoli meus pensamentos e me levantei, um tanto sério.
“Vamos para a casa da Regina agora?” Perguntou Abby, recolhendo seus desenhos. Estavam espalhados pela mesa de Regina. Olhei para a menina, que tinha um sorriso doce no rosto e fitei Regina, que parecia sem resposta.
“Nós vamos para casa, Abigail.”
“Por que?”
“Porque nós moramos lá.”
“Mas eu quero ficar com a Regina.”
“Você pode ficar outro dia com a Regina, se ela quiser. Hoje nós vamos para casa.”
Abby olhou para Regina, como que pedindo socorro. Mas Regina apenas assentiu, observando-me com seus olhos de predadora feroz. Eu estava preparado para alguma alfinetada, alguma observação sagaz e impiedosa. Mas assim que as crianças passaram por nós e foram para a sala de brinquedos, Regina respirou fundo e perguntou em alto e bom tom:
“Como está Zelena?”
“Não está muito bem, mas vai melhorar.”
Ela engoliu em seco, e encarou o fogo na lareira, que parecia ter crescido rapidamente. Labaredas de uma chama flamejante queimavam as toras com uma fúria quase humana. “Tome cuidado com a Abby, Robin.” Ela me encarou, e eu percebi a nítida mudança em seu semblante. “Não se deslumbre com a sua esposa a ponto de não perceber as incompatibilidades entre ela e sua filha, por favor.”
“Elas não são inimigas, Regina.”
“Elas não são amigas, Robin.” A voz dela soou séria e penetrante.
“O que quer dizer com isso?”
“Só quero que tome cuidado com ela. Abigail é importante para mim.”
“Tudo bem.” Resmunguei. Regina afastou-se de mim, e voltou para a sua mesa. Ela estava segurando-se firme para não dizer nada, eu podia sentir a cada segundo de sua respiração. Pela maneira que mordia a pele do lábio inferior e assinava furiosamente os processos em sua mesa. “Regina, a minha relação com Zelena...”
“Não me diz respeito.” Cortou ela, gélida como um imenso iceberg. “Ela é a sua esposa, Robin.”
Respirei fundo. Eu estava irritado com ela, mas eu é que estava errado. Eu sentia vontade de gritar e ao mesmo tempo, de agarrá-la. Meus sentimentos por essa mulher me dividem ao meio, me consomem e me derrubam. Eu não sei até onde vou aguentar essa tensão emocional que se consolida sobre o meu peito toda vez que estamos juntos entre quatro paredes. Abigail e Roland voltaram, correndo até ela e beijando-a, fazendo-a sorrir novamente, bagunçando seu cabelo e molhando seu rosto com beijos molhados.
“Vocês estão me bagunçando toda, suas pestinhas.” Brincou, apertando a bochecha de Roland.
“Tchau, Gina. Não esquece de me buscar para dormir na sua casa.” Alertou Abby e Regina sorriu para ela.
Roland veio até mim e subiu em meu colo. Abby entrelaçou seus dedos nos meus e Regina fitou meus olhos, depois de muito tempo. Eu podia ver em suas irises escuras. Podia ler a sua linguagem corporal e dizer, letra por letra, o quão desapontada ela estava comigo naquele momento. Regina me odiava naquele instante. Me odiava por ter deixado que esse sentimento se desenvolvesse, o trancafiando logo depois. Condenando-nos ao esquecimento. Me surpreendi quando ela nos acompanhou até o carro, me ajudando a colocar as crianças no carro.
Assim que Abby e Roland estavam em seus respectivos lugares, Regina aproximou-se de mim e segurou minha mão direita. Nossos olhos se encontraram com facilidade. “Eu não posso dizer que fiquei feliz de saber que você está tentando se entender com ela.”
“Regina...”
“Mas eu fico feliz por você ter feito essa escolha. Quer dizer que é o homem que eu achei que fosse.”
Regina beijou minha bochecha, e me abraçou. Seu corpo pequeno encaixou-se com suavidade contra o meu. Eu estreitei os espaços entre nós, apertando-a contra mim e ouvindo um suspiro deliciosamente rendido. Seu cheiro adocicado inebriou meu olfato, e eu rocei o nariz naqueles cabelos macios e sedosos. Ela apertou seus braços ao redor da minha cintura, intensificando aquele abraço. Mas com a mesma rapidez, Regina desvencilhou-se de mim e voltou para dentro do prédio, sem olhar para trás.
Regina caminhava pela rua com confiança e um sorriso fatal no rosto. A prefeita era um poço de sofisticação e poder e ninguém ousaria negar esse fato. Mas ninguém acreditaria no turbilhão de emoções que se passava pela sua mente. Eu sou casado. Stunning, in every way. Respirou fundo e continuou caminhando.
Passou pelo portão de sua residência e avistou a jovem loira sentada em sua varanda. Tinkerbell levantou e andou em sua direção, acanhada. Parecia uma adolescente com seus jeans justos e o moletom verde, os tênis brancos nos pés e aquele coque na cabeça.
"Regina..."
"Hoje não fada." Regina esforçava em manter sua pose mas as memórias a chicoteavam com força, trazendo à dor para a superfície da sua alma. Eu não sei se amo a minha esposa...
"Regina!"
Regina parou e encarou a jovem loira à sua frente. "Desculpe. Não fui clara o suficiente? Hoje não, verdinha. Hoje não estou com paciência para suas ilusões de pó de fada. Tente outro dia."
"Eu vi você e o Robin no estacionamento da prefeitura, vocês estão se entendendo?"
Aquela era a gota d'água. O limite da paciência e da benevolência de Regina. Regina é perfeita. Ela estava furiosa. Eu sou casado. Eu sou casado. Eu sou ca- "Quem não está se entendendo aqui é você, Tinkerbell!" Regina gritava, furiosa. Os olhos faiscando de raiva como se fossem entrar em combustão espontânea. "Olha o que você fez! Você fez isso comigo! Você me prometeu o final feliz que eu nunca, jamais vou ter! Olha para a miséria que você fez da minha vida, sua fada de araque!"
"Mas Regina, o pó"
"Chega desse papo de pó de fada. Ele é um homem casado e com filhos! Um homem que valoriza família e lealdade! Ele jamais largaria a mulher por mim! Você me colocou nessa, Tinkerbell. Você me fez esperar por ele, procurar por ele!" Havia lágrimas nos olhos da prefeita, o que deixou a fada perplexa, sem nenhuma reação. "Olha o tipo de pessoa que eu voltei a ser! Uma mulher apaixonada pelo marido de outra! Por culpa do quê? Dessa sua farinha de fada!"
"Você está sendo injusta, Regina. Comigo, com você e com as fadas. Nossa magia não tem erros."
"Saia da minha varanda! Saia!" Gritou Regina. "Eu não quero ver você aqui nunca mais! Eu nunca vou conseguir ser feliz e a culpa é toda sua!"
Regina passou por ela, e entrou na sua casa, batendo a porta. Girou o trinco e encostou a cabeça na porta. Do outro lado, Tinker fazia o mesmo.
"Regina, por favor me escuta."
"Vai embora, Tinkerbell. Me deixa em paz."
Regina virou-se de costas para a porta, o corpo apoiado na madeira lisa. Aos poucos, ela deixou seu corpo escorregar até que estivesse sentada, com as costas contra a porta, e as pernas dobradas. Regina segurou suas pernas ali e deixou a cabeça cair contra seus joelhos, as lágrimas chegando exponencialmente e lavando seu rosto. É pelo seu coração que ele vai se apaixonar. Se eu amar uma mulher... Lágrimas e mais lágrimas, uma dor lascinante fincada em seu peito.
"Regina, eu vou embora. Mas eu não vou desistir de você. Eu não perdi minhas asas à toa. Eu prometi a você um final feliz e é isso que eu vou te dar."
Regina escutou os passos de Tinkerbell se afastando, até que desapareceram de vez. Stunning, in every way. Minha esposa é ótima. Regina é perfeita. Você é a mais linda de todas. Eu sou casado. Eu sou casado. São fiéis até o fim. Não sei se amo minha esposa...
Amor é fraqueza, Regina.
Eu sou casado.
Você é a melhor pessoa que já conheci.
O homem com a tatuagem de leão é a sua alma gêmea, Regina.
Eu sou casado.
Vilões não têm finais felizes.
Eu.
Sou.
Casado.
"Por que, Robin? Por que? Por que?" Se perguntou enquanto outra onda de lágrimas e soluços descontrolados tomava conta dela.
Fale com o autor