Conexões

3 Capítulo III - primeira parte


Notas iniciais
Olá a todos. Trago mais um capítulo para vocês, espero que apreciem. Boa leitura.

Terça feira, janeiro de 3016/ 15h45min

Sem janela, sem portas e sem comida, era essa a situação em que estamos.

Juro que se encontrasse aquela garota holográfica neste momento danificaria seus sistemas! Não sei como, mas pensaria em alguma coisa.

Fitei o cômodo inteiro, até agora havia contado vinte e duas câmeras no total. O que eles estão esperando que aconteça nos vigiando dessa forma?

—Que comemos uns aos outros! — disse Francis, dei um salto da cadeira e olhei para ele. —O que é? — me devolveu o olhar. — Se eles demorarem com esse tal banquete, isso aqui vai ficar pior que Lost.

Minha mãe já havia me contado sobre psíquicos como Francis, que conseguem captar pensamentos. Não é uma coisa “direta” como ela disse, mas eles podem interagir com seus sentimentos, como se eles fossem antenas captadoras e nós as redes que manifestam as ondas. De qualquer modo era melhor eu controlar minhas emoções perto de Francis.

Amy estava dormindo com os braços debruçados sobre a mesa, e uma grande baba escorria de sua boca até sua mão. Cômico.

Voltei a observar o cômodo. Além das câmeras nada mais era visível, os outros jovens tinham perdido a euforia do começo, entregando-se ao tédio e ao nervosismo. Ainda não conseguia para de pensar no que aconteceria com nós depois que a nave pousasse, mas tinha que me controlar. Como meu pai sempre diz “É o medo e o pânico que são mortais em alguns casos”, pensando nisso respirei fundo até que o diafragma doesse, me fazendo soltar tudo rapidamente.

De repente o alarme tocou e a palavra Incêndio surgiu em letras grandes no ar, como um holograma, Luzes vermelhas piscavam de forma assustadora e constante ao redor. O pânico foi geral, só pude ouvir pessoas gritando e correndo para todos os lados, contudo como não tinha lugar para onde ir, ficaram como baratas tontas indo de um lado ao outro. Amy acordou assustada, totalmente desorientada e com o queixo todo babado, se não estivéssemos em um momento caótico riria da cena. Mas nós estávamos. Os jovens corriam sem direção exata, alguns golpeavam as paredes como se isso pudesse gerar resultados.

—As portas já não deveriam ter sido ativadas e abertas? — Amy perguntou com a voz dois quartos acima do tom, os olhos arregalados vigiando tudo que acontecia a sua volta.

—O sistema de segurança deve estar bloqueando ela. É recomendado que nenhuma porta se abra quando há um incêndio, assim não tem perigo que o fogo se espalhe — comentou Francis mordendo a unha do polegar, sua expressão era calma e contida, mas seu corpo o entregava se remexendo constantemente.

—Ah, obrigada pela aula, estou bem mais aliviada agora — retrucou Amy.

Ignorei os dois, e continuei encarando a única entrada e saída que tínhamos pensativa. Uma vez na escola tive que fazer um projeto de segurança sobre aeronaves anti-gravidade. Em casos de incêndio todas as portas e janelas ficavam trancadas para que a fonte do fogo fosse aniquilada e não comprometesse os demais setores da nave, mas existia uma falha, os dutos de ar da aeronave não eram comandados por sistemas, mas sim manualmente, essa pode ser nossa chance.

Lembro-me que tirei nota reprovada nesta tarefa, pois a professora Rodriguez discursou “Você encontrou uma falha no sistema...”, eu estava realmente contente com o meu trabalho, “... e isso é impossível, pois é o próprio OGE que as fabrica” dito isso, ela me fez jogar o trabalho e repensar melhor sobre minhas conclusões “sem nexo algum”. Mamãe me consolou naquele dia, dizendo a culpa não era minha e ainda menos da Senhora Rodriguez. Como não poderia ser? Ao recordar disso, penso que minha mãe sempre foi misteriosa em suas palavras, como se eu precisasse ler as entrelinhas para compreendê-la.

Olhei para cima, movimentando os olhos a sua procura. Como imaginava estava em um dos cantos do cômodo – a abertura para os dutos. Encaminhei-me em sua direção, me posicionando de modo estratégico de baixo dele, estava a mais de três metros de altura, nunca que eu conseguiria chegar lá em cima, mas era preciso.

Respirei fundo, de repente a voz da minha mãe veio como um soco até mim, “Não tente bancar a heroína Selena...”, olhei na direção dos outros, Amy e Francis sentados com as cabeças entre pernas, pessoas gritando e pedindo por socorro, alguns tentavam chamar a atenção das câmeras.

—Desculpe Mãe, mas não quero morrer também.

Então me concentrei, fechei os olhos, pensando em raios que partem os céus em noites de tempestade, imãs gigantes que são usados para carregar metais pesados, baterias que geram eletricidade. Abri os olhos, sentindo a energia pulsar em minhas veias, coloquei uma das mãos na parede de metal e o magnetismo entre mim e a parede se iniciou. Comecei a escalar ela toda, não podia perder a concentração. Minhas ondas elétricas deixavam marcas azuis a cada passo, continuei subindo, meu coração estava acelerado como o de um beija-flor. Acalme-se, repetia para mim mesma.

Quando consegui chegar à entrada do canal de ar fechei o punho e concentrei as ondas nele. Imaginei lutas de boxes, os lutadores com toda aquela ira e todos seus músculos parecidos com os de cavalos selvagens. Ergui o cotovelo, chocando meu punho e ombros contra a placa que bloqueava a passagem, a entrada se partiu com um estrondo. Não perdi mais tempo, tratei de puxar meu corpo para cima.

O duto era pequeno, estreito e muito quente com suas paredes de cobre. Fiquei de quatro, engatinhando olhei para trás e para frente, decidi seguir em frente, meus joelhos doíam, mas continuei. Ainda podia ouvir os uivos do pessoal lá embaixo, suspirei. Tudo o que eu temia era que esse caminho me levasse direto para as turbinas, onde não teria mais chance, pois a força do vento me puxaria para as laminas que me picotariam como carne. Engoli em seco.

Continuei, já havia visto diversas plantas de naves como esta, só precisava me localizar. Senti que o duto se estreitava mais, chegando ao ponto de precisar rastejar com a ajuda dos meus braços, que usava para me puxar para frente. Encontrei uma abertura com grades de ferro maciço, sabia que eu não tinha força o suficiente para quebrá-la mesmo com as ondas.

Olhei ao redor procurando por alguma inspiração divina que me ajudasse, mas já tinha perdido a esperança e começado a rastejar de volta por onde entrei, quando um som metálico veio do meu braço. Era a pulseira de metal que papai havia me dado no meu décimo quarto aniversário, desde que ganhei não larguei mais. Ela é constituída por um material inteligente, que se dobra conforme a preferência do usuário, hoje ela estava trançada. Foi ai que percebi. Tirei a pulseira, modelando-a em forma reta e pontuda.

Segui para mais perto das grades, que são presas por parafusos. Quem pensaria que uma ferramenta criada 400 anos A.C. por um filósofo chamado Arquitas, ainda estaria em uso nos tempos de hoje. Peguei minha pulseira que estava com aparência irreconhecível, e com a parte pontiaguda a encaixei na risca do primeiro parafuso, começando a girá-lo, depois outro e mais outro até que não restava mais nenhum. Puxei a grade para cima, tirando-a de seu lugar.

Fitei a longa distancia entre o chão além da grade e eu, não podia pular daquela altura. Tirei a cabeça para fora do duto para ver o cômodo. Exatamente como o refeitório, só que sem as mesas – e nada de turbina. Logo ali estava à porta que dava acesso a sala cinco, onde eu estava há dez minutos, talvez eu pudesse abri-la, mas como?

Notas finais
Espero que tenham curtido. Comentem se puderem, favoritem se quiserem. Obrigada por ter lido! Até logo!