Conexões

4 Capítulo III - segunda parte


Notas iniciais
Olá! Mais um capítulo para vocês, espero que apreciem! Boa leitura.

Terça, janeiro de 301616h25min.

Fixei os olhos no chão, não podia arriscar seguir em frente pelos dutos, afinal a sorte estava ao meu favor... Por enquanto. Suspirei encarando a distância entre o chão e eu. Não podia adiar mais, o momento é esse.

Ajoelhei-me e passei primeiro as pernas pela estreita passagem, meus braços sustentando o corpo. Esperei até que me sentisse segura para descer mais, tudo abaixo do tronco estava solto no ar, apenas minhas mãos me mantinham estável. Balancei e me joguei no chão, aterrissando totalmente descoordenada, caindo sobre meu próprio braço. Meus joelhos haviam colidido e pude sentir que meu cotovelo sangrava.

Levantei atordoada, como uma bêbada, os pés queimavam de maneira que parecia estar pisando em acido, e as palmas das mãos estavam vermelhas pela queda. Encostei-me à parede fria da nave, sugando o máximo de oxigênio possível, até que o meu coração desacelerasse. Não tão longe dali avistei a porta adiante, caminhei em sua direção.

Ao lado da saída existia uma espécie de monitor a laser, funciona com um projetor em sua base, a luz é direcionada para cima e a tela é visualizada. O sistema é comum, já vira vários do tipo em empresas e bancos. Cliquei no botão OPEN que o painel oferecia, no mesmo instante uma luz vermelha onde se lia ERROR, surgiu. Fitei o monitor por longos minutos, como Francis havia previsto, estava bloqueado pelo código de segurança.

Francis! Ele poderia ser a solução.

Contudo, como nos comunicaríamos se estamos separados por uma porta de ferro? Mesmo que eu gritasse ou chutasse, com a euforia causada pelo pânico dos outros jovens, ninguém poderia me ouvir. Uma pena que a máquina do tempo não passe de um mito dos povos antigos que imaginavam o futuro... Peculiares essas pessoas do passado.

Olhei para o duto acima, de onde havia surgido, não poderia voltar, a passagem estava a mais de três metros de altura. Minhas opções estavam escassas.

***

O alvoroço do pessoal diminuíra, mas não o pânico. O silencio é sempre quebrado por sussurros e conversas entres os grupos. Amy estava ao meu lado, em posição de lótus, olhando o nada, e Selena desaparecera do nada.

Há alguns minutos estávamos todos juntos, nos distraímos por um minuto, e quando nos demos conta Selena já não estava mais aqui. Amy, inconformada, ficou calada desde o sumiço dela. Pouco provável que algo ruim tenha acontecido com Selena, segundo meu raciocínio, é de fato, mais lógico que ela tenha encontrado alguma forma – da qual não tenho ideia – de escapar daqui. A pergunta exata é como? E por onde?

Levantei intrigado, pronto para revistar o local pela terceira vez.

— O quê vai fazer Francis? — Amy perguntou finalmente.

— Vasculhar por aí — respondi caminhando para longe dela.

Alisei as paredes de metal com as pontas dos dedos, tentando captar alguma coisa ou algo, encostei as bochechas na mesma, o que fez meu rosto ficar achatado. Um pensamento recorrente me fez franzir o cenho.

— Estranho... — murmurei para mim mesmo.

— O quê é estranho? — fui surpreendido por uma pequena “coisa” de cabelos curtos e loiros atrás de mim, Amy.

— Não quero ficar sozinha — se explicou, cruzando os braços. Olhou em direção a um grupo de meninas. — Aquelas garotas estão me encarando — contou num tom baixinho.

— Talvez a fome as tenha feito confundirem você com um peru — Amy me beliscou em protesto.

— Agora me diga, por que estava beijando a parede?

— Eu não estava a beijando — retruquei, esfregando onde doía — Estava medindo a temperatura com as maças do rosto, pois é uma parte quente do corpo, assim só algo quente pode saber o que é ainda mais abrasador — Amy ergueu uma sobrancelha como se perguntasse “Do que está falando?” — O que quero dizer, é que as paredes estão geladas.

Ela encostou, então, suas bochechas.

— Sim, estão — confirmou, fitando-me — e daí?

Dá-me paciência com essas criaturas loiras.

— Não acha que é estranho que em pleno incêndio, as paredes continuem geladas? Elas não deviam, quem sabe, estar quentes ou acima da temperatura?

— Ou o fogo ainda não chegou a ponto de transformar esta sala em um forno gigantesco.

Mas se o fogo ainda não se alastrou a tal ponto, então eles não deveriam ter acionado o código 12 (incêndio), a regra é simples e clara com relação a isso.

“O código 12 deve ser acionado apenas em casos de extrema urgência, quando não há mais opções disponíveis de controle pelo sistema. Nunca acioná-lo quando existirem chances de recuperação de controle, para que não seja criado tumulto na base inclusiva.”

Então, se não há riscos, não há necessidade de alarme. O que de fato, foi totalmente contraditório a questão diante de nós.

***

Selena estava a ponto de usar força bruta contra aquele monitor. Tentara de tudo, mas as cinco letrinhas (ERROR) continuavam a atormenta-la.

Olhou em volta, estava presa do lado de fora da sala onde se localizava os outros jovens. Tudo era muito estranho e confuso, ninguém para ajudá-los, nem mesmo um segundo sinal de incêndio vindo de fora do refeitório. Era como se tudo fosse um sonho e o perigo fosse fruto de sua imaginação. No entanto, a dor no cotovelo, que ainda sangrava, era real, e foi isso que a manteve desperta.

Frustrada com si mesma sentou escorregando a costa na parede, jogou a cabeça para trás e tentou não se apavorar. Ela tinha um plano, mas não havia nada que garantisse que funcionaria.

Lembrou-se do poder das ondas de Francis, “um receptor ambulante”. Já lera um artigo de Rodolfo McGuiler que falava sobre esse tipo de psíquico, e como se comunicar com um mentalmente, com “Usando o Transe das Ondas”, o título de seu livro mais famoso, Selena aprendera alguns truques. Infelizmente nunca havia experimentado a teoria na prática, pois sua mãe nunca gostou de vê-la usando as ondas, sabia então, em tese como fazer. Esta era também a única opção que tinha no momento.

Lembrava-se bem, existiam três passos fundamentais para que isso funcionasse, e acontecia na forma dos três corpos: mental, vital e físico.

“Relaxe o corpo físico, deixe o mental vazio e preencha o vital”, dizia McGuiler. Foi o que ela fez.

***

Francis voltara a se sentar junto a Amy no chão do refeitório. A teoria que formara a pouco não saia de sua cabeça, o ponto positivo dela era que estavam fora de perigo, o negativo era que algo iria acontecer, e isso o assustava. Amy estava fazendo careta, fixando o olhar centrado na porta selada.

— Está querendo explodi — lá com a força do pensamento — riu Francis, adivinhando os pensamentos da menina.

— Talvez... — respondeu ela, sonhadora.

Inesperadamente, uma dor lancinante veio à mente de Francis, a sensação desconfortável, como se estivesse pisando em algo gosmento da qual não conseguia livrar-se. Francis teve que se apoiar em Amy, cansado, mesmo estando parado no lugar. Fechou os olhos, encarando a escuridão de suas pálpebras, e como um zumbido, a voz quase inaudível foi surgindo, era doce e séria. Tudo estava em trevas, mas repentinamente uma coloração azulada e familiar, flutuou em sua direção, dançando como se fosse água viva no mar, quanto mais perto chegava, mais manchas azuis surgiam em sua mente.

— FRANCIS! — um grito vindo do nada o chamou, fazendo com que ele se retorcesse, era a voz de... Selena.

— Selena? — sussurrou ele.

— SIM, SOU EU! DEU CERTO! — ela gritou novamente.

— Selena! Mais baixo — pediu a meia voz. — Está querendo me matar?

— Desculpe — pediu baixinho. — Isso aqui é muito confuso.

— Confuso ficarão meus cerebelos. Onde você está? Desapareceu do nada! — Francis previu que aquela não era a hora de discutir o assunto, então acrescentou rapidamente. — Esqueça. O que houve?

— Estou do outro lado da porta — Francis não conseguiu deixar de sorrir, se é que podia sorrir dentro de sua própria mente. — Mas como você tinha dito, a porta está trancada pelo código de segurança, e eu já tentei de tudo!

— Você precisa invadir o sistema, refazer o programa, e inserir outro em seu lugar, mas sem o código que a tranca, depois disso...

— Francis?

— O quê?

— Eu não sei fazer isso, sinto muito, mas nem todos são gênios com sistemas como você. É por isso que precisava contatar você, percebi que você é um encéfalo receptor.

Ele tinha que admitir, Selena era muito inteligente.

— Tudo bem! Deixe-me pensar um pouco.

***

Mal pude acreditar que entrara na mente de Francis, estava a quase uma hora tentando captar o menino de cabelos laranja, mas nada surtira efeito, até que em um segundo de concentração, consegui enxergar um tom de amarelo, a mesma cor do moletom de Francis. Ele pedira tempo para pensar e lhe dera.

— Tenho uma ideia — murmurou ele com a voz cansada, minutos depois.

— Imaginei que teria — confirmei, esperava por aquilo.

— O monitor que está impedindo a porta abrir, como ele é? — indagou, me surpreendendo.

Sem questionar respondi:

— Bem... É como aqueles dos bancos federais, que funciona por meio de laser, tem um sensor de toque e movimento.

— Bom — suspirou Francis, suspeitei que ele estivesse falando para si mesmo. — Selena, eu quero que você redirecione o projetor para baixo da porta.

— Mas assim o monitor estará conectado na parede e... Oh!

— Você entendeu não é? — começou Francis. — Com o laser direcionado a parece, eu terei controle dele direto daqui e assim poderei abrir a porta.

Quase bati palmas, meu cérebro estava a mil.

— Sim, compreendi!

Totalmente extasiada, sai da mente de Francis e tratei de iniciar o plano. Segui a risca o que ele havia pedido, erguendo a base da máquina e o direcionando para a pequena fresta debaixo da porta. Com laser posicionado, só pude ouvir os gritos de supressa das pessoas do outro lado, alguns minutos depois, ouvi o chio da porta se abrindo, revelando um Francis com um sorriso enorme, que mal cabia no rosto. Amy se jogou em meus braços.

— Não desapareça mais assim — avisou Amy, ainda se agarrando a mim. — Principalmente com aquela grandona ali com a gente...

Amy referia-se a menina-gorila com quem eu tinha esbarrado mais cedo, ri.

Os jovens aos poucos deixaram a sala para abarrotar o pequeno espaço do corredor, cochichavam e me olhavam de canto, Francis veio logo para meu lado.

— Tirando a parte que você quase me matou no grito, foi um xeque-mate clássico.

Confirmei com a cabeça, oferecendo-lhe um pequeno sorriso.

Tudo se calou completamente, quando uma voz feminina soou pela nave, direcionada de uma das fontes de som da nave.

— Bem vindos — proferiu a voz. — Vocês acabam de passar pelo simulador de teste do OGE — meu queixo caiu no mesmo instante, foi como dizer que o céu não existe e que é apenas uma imagem tridimensional. — E ouso a dizer, com grande êxito — continuou a dizer a voz feminina. — Mas antes de qualquer coisa, melhor nos conhecemos.

Tudo ao redor começou a brilhar, como se os objetos e lugares emitissem luz própria, e de uma vez a sala se desfez, a porta desfez, eu estava me desfazendo, como num efeito dominó. Quando ressurgimos, um novo lugar havia sido nos revelado. Era um enorme salão cromado com grandes escotilhas. Pisquei rapidamente, sugando toda a informação que conseguia absorver. Francis e Amy estavam ao meu lado, as expressões tão confusas quanto a minha.

Avistei um gigantesco palco à frente, nele uma forma humana estava posicionada, tudo indicava que era a dona da voz. A mulher esguia, de cabelos prateados, parecia ser um pouco mais velha que mamãe. Usava um terno reto da cor exata dos cabelos, e exibia um sorriso presunçoso, enquanto observava cada jovem do salão, como se fossemos criaturas raras. Senti um frio na nuca quando seu olhar me tornou seu alvo.