Conexões
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Bye ^.^
Terça-feira, janeiro de 3016/05h00min.
O único objeto que possuí cor em minha casa é um lustre de cristais que cai em forma de cascata até o centro da sala. Fisicamente não há nenhuma cor em todo seu material, mas toda vez que os primeiros raios de Sol incidiam nele o lustre ganhava a função de um prisma, cores brilhantes envolvem a sala por inteira, e eu aguardava todas as manhãs pelas cores, esperando, imaginando quando o show de luzes envolveria a sala – monótona e sem vida do teto ao chão; brancos – mais uma vez.
Meus pais ainda dormiam, podia ouvir suas maquinas de oxigênios ecoando pela casa.
Desde o ano 2050 o oxigênio da Terra tivera uma diminuição em trinta e dois por cento, o que fez os seres humanos precisassem se reabastecer com oxigênios artificiais, oferecidos por maquinas no turno da noite durante o sono. Assim os pulmões não extraiam tanto ar para dentro no processo de inspirar e respirar, diferente de quando estão acordados se movimentando, uma das formas de poupar oxigênio. Acordo sempre enjoada pelo oxigênio artificial, embora nunca tendo respirado ar puro, como ouvira dizer nos livros da área restrita da biblioteca da escola, mas não era difícil de imaginar o sabor de algo realmente natural.
O sol já não estava mais com seu poder total quando voltei a fitar o lustre, as cores foram enfraquecendo ao tempo que uma nuvem escondia os raios atrás de si. Satisfeita levantei-me do chão, onde estava bem abaixo do lustre. As luzes se acenderam automaticamente devido ao sensor de movimento, quando voltei a me deslocar para meu quarto.
Quadrados de energia azulada acendiam a cada passo que eu dava, sob a pressão dos meus pés contra o piso frio. Imaginei violinos elétricos tocando neste momento, as cordas ao compasso de meus movimentos, pensei na suavidade com que as aves voavam. Comecei a dançar fazendo os quadros de energia acenderem-se a cada vez que os tocava, fechei os olhos e visualizei as bailarinas que já tinha visto nos filmes antigos do século passado. Nesse momento eu estava flutuando, meu cérebro me comandava, fazia piruetas e giros, remexia os pés delicadamente, o ritmo foi acelerando a melodia dos instrumentos tornou-se uma batida forte de ritmos mistos e os quadrados azulados não paravam de piscar emitindo luzes poderosas e ofuscantes, mesmo assim não conseguia parar de sorrir, enquanto meu corpo dançava como seda ao vento.
—Querida, as onda elétricas estão muito fortes!
Fui surpreendida pela voz doce de minha mãe, no mesmo instante parei com o fluxo intenso de pensamentos, os quadrados azuis se apagaram e os violinos perderam o ritmo e se desfizeram em um silencio, e tudo voltou ao seu normal, branco e sem vida.
—Desculpe! — disse oferecendo um sorriso honesto de "eu estou arrependida, então não vem com essa".
—Você deve se controlar Selena. Violinos de novo? – suspirou ela, não precisei responder. —Os poderes das ondas cerebrais é algo que tem de ser levado a sério —, continuou ela, acrescentando seu autêntico sermão por ter pegado a filha usando ondas celebrais.
Desde tempos antigos os cientistas vêm estudando o cérebro humano, uma máquina extremamente potente, rápida e acima de tudo poderosa. No ano de 2045 foi descoberta uma forma de ondas cerebrais que tornava o senso de pensamento na ação física das coisas reais, traduzindo de forma mais simples, significa que a força do pensamento literalmente pode fazer as coisas acontecerem. Estes estudos foram se aprofundando cada vez mais até que no ano de 2064 houve vestígios dos primeiros humanos com “poderes” sobre ondas magnéticas.
Um dos casos estudados foi de um estudante de apenas quatorze anos, chamado Henry Marx, ele tinha no hemisfério esquerdo do cérebro uma proporção maior que a do lado direito. O lado esquerdo do cérebro de Henry assim como de todos é onde fica o senso lógico, ou seja, o julgamento racional de cada um, mas o do garoto era distinguido pela polaridade das ondas, o corpo colosso do cérebro de Henry transformava este sinal, esta onda de pensamentos em algo solido e concreto. Henry podia resolver equações das mais complexas em um piscar de olhos.
Durante anos o caso de Marx e dos demais seres humanos com habilidades semelhantes foram estudados, o que resultou no que hoje é considerada uma das muitas evoluções genéticas que os seres humanos sofreram no decorrer dos séculos (uma das mais importantes). Na atualidade trinta e três por cento do planeta terra é composto por humanos com estas atribuições, estes são denominados como encéfalos-homo, mais popularmente chamados de psíquicos.
Minha família é composta de encéfalos-homo. Minha mãe, Eva Trettel tem ondas magnéticas maiores no hemisfério esquerdo, ela é inteligente e ágil, consegue interagir por qualquer meio comunicativo com a maior facilidade, e ainda fala mais de vinte idiomas diferentes. Meu pai Gregório Trettel tem apenas cinco por cento a mais da intensidade cerebral, e se concentra na parte direita de seu cérebro, mas como ele é canhoto as funções dos hemisférios também ficam invertidas, por isso ele é uma pessoa culta, não tem uma onda forte como de sua esposa, mais sua memória guarda oito vezes mais que a memória de qualquer ser humano comum, por este motivo ele nunca esquece nada. Nunca.
—Sente-se Selena, precisa se alimentar. — Comentou minha mãe, puxando a cadeira para mim. Ela tinha a voz calma, mas seus olhos diziam o contrário, estava preocupada comigo.
Todos os jovens do continente americanos (sul, norte e central) ao completarem seu décimo sexto ano de vida devem ser encaminhados para a OGE (Órgão Governamental Estudantil), que na verdade é um local onde reúnem uma grande quantidade de jovens para que o Estado faça vários exames de recrutamentos de encéfalos-homo com maior potencial de ondas cerebrais, isto para coletar dados de suas atribuições psíquicas. Eu sempre tive a ligeira sensação de havia mais do que isso e pela cara da minha mãe tínhamos a mesma opinião.
—Hoje é o dia — falei em tom normal, mas estava tão nervosa que precisei respirar profundamente antes de prosseguir a conversa. — Como foi quando você e o papai foram para o OGE?
Minha mãe nunca respondia minhas perguntas a respeito do OGE, ela sempre se tornava evasiva e dava respostas sem muita coesão, contudo me surpreendeu quando ela veio em minha direção e pegou minha cabeça com as duas mãos me deixando rente a seu olhar.
—Escute Selena, o que tenho a falar agora é muito importante querida. Prometa que você vai fazer tudo que eu lhe aconselhar?
Confirmei com a cabeça, ela hesitou um pouco, depois pensou por um minuto. Talvez pensasse que eu merecia saber um pouco sobre o que ela nunca me contara antes.
—Em hipótese alguma se destaque Selena.
—O que? Mas...
—Não está me entendendo. Selena em hipótese alguma se destaque, entendeu?
—Sim.
—Sim o que Selena?
—Em hipótese alguma vou me destacar.
—Bom. — largou meu rosto e sentou-se a minha frente alinhando as mãos sobre o colo. — Você não vai poder esconder que é uma psíquica, os equipamentos da OGE são os mais competentes do mundo, eles também poderão ter uma estimativa do seu potencial de ondas, mas nada concreto. O que quer dizer que eles só poderão confirmar seu potencial na pratica, e é nisso que você pode enganá-los. Não tente ser a heroína Selena, isso seria uma tática sem fundamento nenhum, incluindo que seria tolice completa.
—Mas por que mãe? O quê eles querem comigo? E por que você só está dizendo estas coisas agora? — fitei-a com os olhos alarmados, acusadores ao mesmo tempo.
Mamãe levantou-se de sua cadeira, encostou os lábios na minha orelha e sussurrou:
—Apenas faça o que eu lhe disse querida, e não conte ao seu Pai.
Depois disso me deu um beijo estalado na bochecha e voltou aos seus afazeres.
***
Terça-feira, Janeiro de 3016/13h38min.
—Não se preocupe querida. Você vai se dar bem lá! — comentou meu pai me dando um abraço mortal de urso, enquanto estávamos parados em um dos primeiros portais de ferro do aeroporto. Ele vestia seu familiar terno cinza, complementando com seu sorriso doce que fazia meu coração derreter — E não se esqueça de dar o seu melhor lá.
O olhar da minha mãe era totalmente contraditório, ela queria que eu me lembrasse de nossa conversa no café da manhã, fosse o quê fosse, a vida do meu pai no OGE foi completamente diferente do da minha mãe.
Agarrei o pescoço dele e lhe dei um beijo na bochecha.
—Eu vou pai, pode deixar comigo!
Logo mais, minha mãe chegou me aconchegando em seus braços, aceitei de boa vontade o gesto e me acomodei como um filhote em baixo da asa da mãe, carregando comigo coragem que ela sempre me passava.
—Prometa Selena! — sussurrou ela.
—O que?
—Que fará tudo àquilo que eu lhe disse...
—Eu vou mãe.
—Vai o que Selena?
Seu jeito de mandona me fez sorrir, sentiria falta disso.
—Eu vou fazer tudo àquilo que a senhora me aconselhou. Eu prometo mãe.
—Eu te amo querida — disse me soltando do abraçou, me deu mais um beijo e entregou-me o carrinho de malas para que me deslocasse até o ponto de partida.
Respirei fundo e olhei uma ultima vez para trás, para os olhos verdes da minha mãe e o sorriso branco do meu pai, sorri para eles, me afastando com os olhos lacrimejados em direção as naves de transportes para a sede do OGE, onde minha vida iria mudar de agora em diante.
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