Era o dia do lançamento do produto da Lúmina Cosméticos. O salão do evento estava movimentado, muitas personalidades estavam presentes. Boa parte deles conversavam, andavam e cumprimentavam os outros.

Tina por sua vez estava por lá, deslumbrante, com um belo vestido azul, cheio de brilho, o cabelo cacheado que ficava impecável com as luzes das lâmpadas refletidas sobre a cor ruiva de seus cabelos. Ela acabou por chegar mais cedo a fim de ajudar na organização do evento ou suprir qualquer questão relacionada a ele.

Olhava atentamente para o relógio do seu camarim a fim de imaginar os motivos pelos quais Edu demorava. Seu coração estava aflito e preocupado. Temia que ele não chegasse a tempo, pois queria que ele fizesse parte desse momento especial para ela.

Edu ainda estava a caminho, passou um bom tempo em casa se arrumando, escolhendo a melhor roupa, o melhor perfume para estar apresentável a sua esposa. Além disso, teve que deixar as crianças na casa de sua mãe para poder vir para cá e por esses motivos demorou bastante. E para complicar ainda mais, teve de enfrentar uma fila para comprar o buquê de flores. O trânsito também parecia que não iria ajudar.

Enquanto isso, Tina vai fazer companhia para a estrela da noite. Não há muito o que se fazer, já que a mesma trabalhou bastante neste período e é justo que ela somente curta o evento e veja a estrela da noite brilhar. Falando nisso, Rick estava no camarim sendo produzido por alguns maquiadores. Ela chegou e o encontrou nos momentos finais da maquiagem.

Ela se escorou na porta percebendo que ele estava ocupado.

— Animado?

— Sim, é claro. — ele vira para ela.

— Cuidado. — diz o maquiador.

— Desculpe.

— Acho que estou te atrapalhando. — Disse Tina.

— Não! Só estou surpreso por você estar aqui cedo.

— Ah, eu vim pra ver se poderia ajudar em alguma coisa.

Do outro lado, Edu tentava chegar a tempo. Ele esperava encontrá-la a tempo e presenteá-la por seu trabalho e dedicação nesse grande evento. Mas ele acabou por não achá-la no camarim. Infelizmente encontrou a tia Ana por aquelas bandas. Tentou se esconder, mas a mulher o viu.

— Edu!— gritou ela.

Edu virou para vê-la.

— Oi, tia Ana. Como vai? Está melhor?

— Oi, Edu querido. Eu nunca imaginei que você me ajudaria com o táxi. Muito obrigada.

— Não há de quê tia Ana.

— Edu…

— Tia Ana, não vou poder ficar por aqui por muito tempo. Preciso encontrar Tina.

— Sério?

Tia Ana olhou para o buquê de flores e pensou:

— Nossa! Ele está desesperado mesmo.

Ela olhou para ele com uma cara de pena e disse:

— Está fazendo tudo o que está ao seu alcance não é filho? É uma pena que ela já tenha se decidido.

— Veremos.— disse Edu, na convicção de que tudo aquilo não passava de um equívoco da parte dela.

Rick e Tina estavam finalmente prontos para entrar. Os maquiadores já tinham terminado o trabalho. Saíram, deixando os dois a sós. Ele se levantou e foi ao encontro dela. Do lado de fora a presença inusitada de Edu por aquelas bandas. Ele chegou bem no momento em que os dois estavam conversando. Não entrou, esperou e pegou um lado duvidoso da conversa.

— E você, preparada para hoje a noite?— diz ao segurar o ombro dela.

— É claro que sim. Finalmente chegou o tão esperado evento de lançamento.

— Ah, e o que me diz. Está tudo certo?— deu uma piscadela.

— Ah sim, as passagens já foram compradas e consegui a mala, como a gente combinou.

— Gostou da mala que eu te dei?

— Sim, eu adorei.

— A gente vai se encontrar amanhã pra ir?

— Ainda não. Sexta feira sem falta. Passo no seu hotel e a gente se fala.

— Não tô acreditando que estamos fazendo isso.

— Eu também.

Os dois riem.

Edu ficou estarrecido. Ele não conseguiu começar o que tinha planejado fazer, encontrar a esposa e lhe entregar o buquê de rosas. Por um momento percebeu que Tia Ana poderia estar certa. Ele saiu dali para não ser visto por ela. Foi para um outro lugar descansar e refletir sobre tudo isso. Ele estava sob fortes emoções e queria destrinchar isso com mais cautela.

Ela continuava a olhar para o relógio, preocupada com Edu.

— Preocupada com o evento?

— Não, é o Edu. Ele ainda não chegou, não deu notícia.

— Calma. Ele vai chegar.

A produção chega no camarim.

— Oi, meus amores. Tá na hora de vocês entrarem em cena. A diretora vai dar umas palavras e aí Rick, logo depois dela você canta. Okay?

— Está tudo bem.

Tina olha algumas vezes para o celular e suas mensagens ainda não foram respondidas por Edu.

— O que será que aconteceu com ele?

Rick tinha subido ao palco para se sentar com os representantes da campanha, enquanto Tina olhava perdida para aquela multidão a fim de encontrar Edu. Havia muitas pessoas e muitos flashes. Isso dificultava encontrá-lo. Tina pensou que algo ruim tinha acontecido com ele. Pensou o pior, quem sabe um acidente. Ela ficava cada vez mais preocupada com ele, pois o trânsito nesse horário nas imediações do evento, provavelmente seria impossível de chegar.

Quando menos esperava viu Edu. Ele estava lá no meio daquela multidão muito bem arrumado, bonito e com um buquê nas mãos. Ela queria chamá-lo. E ele se pôs a vir na direção dela. No entanto, os dois foram surpreendidos com a finalização do discurso da diretora da campanha e assim em questão de minutos chegou a vez de Rick.

Ele subiu ao palco, foi aplaudido por todos e pegou o microfone para dar algumas palavras.

— Essa música vai para alguém muito especial pra mim, minha colega de faculdade que tive o prazer de encontrá-la novamente.

Edu não estava tão perto ainda, mas seus passos hesitaram em continuar quando o rapaz fez menção do suposto nome de Tina. A plateia toda aplaudiu. Olhavam uns para os outros surpresos e a tia Ana ria por dentro enquanto comia alguns petiscos, sabendo que Edu estava em maus lençóis, pois sua esposa fugiria com o Rick.

— Quero agradecer a alguém muito especial para mim e também a convido para subir ao palco. Valentina, por favor venha aqui meu bem.

Edu, por um instante, parou de caminhar. Ele ficou pensativo de chegar no momento e estragar o clima, já que ela foi mencionada e convidada para subir ao palco. Assim, ele se sentou em uma cadeira que achou no caminho e esperou ansiosamente pela oportunidade de ir até ela.

Quando subiu as escadas para ir ao palco, Tina olhava com minúcia para a plateia com intuito de encontrá-lo novamente. Ela o encontrou. Seu coração foi aquecido por aquele breve encontro. Ele acenou carinhosamente para ela, deixando-a mais aliviada. Mas infelizmente, depois disso não o encontrou mais, pois a plateia tinha se levantado e por isso o perdeu de vista. Edu voltou para si e decidiu deixá-la ir, pois ela deveria aproveitar esse momento que é só dela.

Dessa forma, Edu resolveu voltar para o camarim dela e esperar por lá. Depois de alguns minutos pôde ouvir o som de saltos caminhando em direção a porta. O evento ainda continuava lá fora, Tina tinha saído dali para respirar um pouco. Era ela que estava prestes a abrir a porta. Seu semblante era de uma pessoa um pouco chateada, pois estava preocupada por, talvez, ter deixado Edu a ver navios. Pensava em como iria se desculpar pelo desencontro quando conseguisse estar junto a ele. Mas quando abriu a porta se espantou por ele estar ali.

— Edu, querido. Você está aqui?

— Oi Tina.

Os dois se abraçam.

— Desculpa por esse desencontro todo. Eu estava preocupada com você. Porque você não foi onde eu estava?

— Ah, me desculpe. Me atrasei um pouco por causa de umas coisas. Acho que não seria legal atrapalhar seu momento.

Ele pega o buquê e dá a ela.

— Ah querido. Que lindo.

— Não tanto quanto você.

Ela ri.

— Eu queria tanto que você estivesse lá comigo.— ela olha amorosamente para ele.— Fora o buquê, o que mais aconteceu pra você chegar atrasado?— pergunta curiosa pelo motivo.

— Não se preocupe querida, eu estou aqui. Isso é o que importa!

— Parece que todos tivemos um dia puxado. Essa semana foi maluca, não foi?

— Sim, pra mim nem tanto. Mas pra você imagino como deve ter sido?

— Nem imagina mesmo.— Risos.— Tive que ir atrás das passagens do Rick pra ele viajar na sexta que vem e ainda tive que arrumar umas roupinhas dos meninos para doar para uma prima. Eu corri tanto atrás de uma mala.

— Nossa.— diz Edu, surpreso.— Céus. Tina.

— O que foi?

Edu beija Tina com tudo de si.

— O que foi?— ela repete. Depois de voltar do beijo.

Edu estava muito feliz por saber que tudo que soube era mentira. Era um terrível mal-entendido. Ele beijava a mão dela de uma forma delicada como um meio de alívio e ao mesmo tempo, como uma maneira de se redimir pelos seus pecados e infortúnios em acreditar nas palavras da Tia Ana. Ela observava atentamente para cada toque, cada beijo gelado que sua pele sentia dado por ele.

— Edu? — ela riu. — O que foi?

— Eu não sei como eu sou tão tonto…— disse Edu, já rindo.

— Tonto?

— Oh querida! — disse ele ao beijá-la com amor e delicadeza.

O beijo que Edu deu em Tina foi tão bom que ela voltou para si ainda em êxtase e surpresa pelo atrevimento dele. Mas ela percebeu que não iria arrancar dele os motivos pelos quais ele estava se comportando dessa forma ousada, doce e serena.

— O que foi que deu nele? — pensou Tina. — Ele não costuma ser tão meloso assim.

Edu estava um pouco envergonhado, mas Tina percebeu isso e fez por bem não deixá-lo mais constrangido fazendo perguntas. Ela notou que era uma boa oportunidade para demonstrar o afeto e delicadeza que aquele momento lhe fazia sentir necessidade de demonstrar. Tina olhou nos olhos de seu marido enquanto seus dedos desciam em uma linha tênue entre o cabelo e a bochecha dele. Ela por vez tocou seu pescoço e o convidou para mais perto. Os lábios dela tocaram os dele novamente, agora com mais desejo, mais amor, mais delicadeza.

Edu se viu flutuando nas nuvens. A cada segundo que se passava e se perdia na doçura dos lábios dela, sentia suas inseguranças se desfazendo e suas dores sendo curadas. Um filme passou diante dos seus olhos, dando ênfase a todo o percurso que ambos tiveram até aqui. As inseguranças que um casamento arranjado lhe trazia, a sensação de amor não correspondido e as muitas vezes em que ele se sentiu insuficiente perante a Rick, se despedaçavam. Tina, da mesma forma. O fato dela se dispor para beijá-lo mostrava nitidamente um amadurecimento dela quanto a sua permissão que ela dava a si para sentir e demonstrar afeto pelo outro. Uma guerra interna regada de medos, inseguranças advindas de como o casamento era percebido pelos outros e até mesmo por ela, agora encontravam paz e seladas por aquele beijo na promessa de uma vida mais autêntica e sem medo.

O momento estava tão bom, ambos se abraçaram, ela com a cabeça recostada no ombro de Edu e ele se oferecendo como um porto seguro para ela. Ainda ali, em pé, no centro do camarim em direção a porta, os dois dançavam ao som de uma música imaginária sem sair do lugar. Parecia que nada iria os atrapalhar. Mal pensou e a tia Ana apareceu na porta.

Edu a viu e imaginou que ela interromperia todo o clima. Então, fez bem em acenar para ela a fim de que a mesma se retirasse dali. Mas o movimento delicado, quase imperceptível, trouxe suspeitas a Tina.

— O que foi Edu?— disse Tina, virando para trás para ver quem estava na porta.

Nesse instante, Edu a impediu de fazer isso. Ele segurou, por um momento, o queixo dela.

— Não é nada querida.

E ambos voltaram para o abraço.

Lá fora, Tia Ana não estava mais entendendo nada sobre o desfecho dessa história.

— Ela não vai mais fugir?— pensou tia Ana.