Como se fosse a primeira vez

11 Quem sabe seja só mais um mal-entendido


— Ai meu Deus…— disse a tia Ana. Surpresa pelo que tinha acabado de ver. Mas não foi uma surpresa triste, foi uma surpresa boa. Andou por um momento, desatenta, ao ponto de quase bater no poste da rua na direção em que caminhava. Equilibrou-se e retomou o passo ainda pensativa. E não parava de repetir: — Ai meu Deus. — como se os seus olhos estivessem contemplando algo tão bom, algo tão maravilhoso que mudaria tudo agora.

— Céus, agora tudo se encaixa. — pensou. — Rick, esse trabalho na Lúmina Cosméticos, Tina, amigos antigos da faculdade. Está na cara, é coisa do destino.

Mas ela não esperava que alguém familiar estivesse por ali.

— Tia Ana? Você está bem?— disse Edu, preocupado com ela. Até então porque ela estava agindo de uma forma estranha.

— Oi, Edu.

— Está bem? O que foi que aconteceu?

— Estou ótima. — disse em um tom sarcástico.

— Sério? Não me parecia que estava.

— O que faz aqui meu rapaz. — segurou o ombro dele.

— Nossa, está me chamando de “meu rapaz”? A senhora está bem mesmo?

— Estou extremamente feliz. — ela fazia movimentos estranhos e havia uma expressividade anormal em seu rosto.

— Okay então. Respondendo a sua pergunta, eu estava por aqui comprando algumas coisas para casa.

Tia Ana olhou para a cestinha de compras de Edu.

— Ah, detergente para roupas?

— Sim, são uns dos melhores. Tina gosta muito desses.

— Ah que pena.

— Como?

— Parece que um dia você estará comprando detergentes só para as suas roupas.

— O que quer dizer com isso?

— Você ouviu.— disse com um sorridente de orelha a orelha, e continuou.— Sua mulher está planejando fugir com o bonitão do Rick, e tudo isso após aquele bendito evento de lançamento.

— Tia Ana, você está bem mesmo?— Edu ficava cada vez mais intrigado por ela.

— Eu estou ótima.— Tia ana respondeu com muita convicção e rodopiou algumas vezes.

— Não pode ser.— disse Edu, ainda confuso e incrédulo. — ela não me parece bem, está bêbada.

Edu estava certo, Tia Ana tinha exagerado um pouquinho no vinho. E era estranho, nesse horário, em plena hora do almoço ela estava alterada. Ele se compadeceu dela. Seria crueldade deixá-la andar por aí dessa forma, então a pegou e levou para fora do mercado e assim chamou um táxi.

Ela insistia em dizer:

— Oh Eduzinho, você é um amor. É uma pena que saiba comprar um detergente ao invés de conquistar a sua mulher. Ela vai fugir com o Rick.

Edu estava se arrependendo da boa ação que fazia no momento. Mas já tinha chamado o táxi para a sua tia.

— Tia Ana, como pode fazer isso, estar bêbada a esse horário. Vai para casa e vai dormir. — Edu a colocou no táxi.

Depois daquilo, Edu ficou pensativo, mas não dava muito crédito nas palavras dela, já que ela claramente estava bêbada. Depois de um tempo, ele chegou em casa com as crianças. Os meninos por sua vez estavam empolgadíssimos pelo que Edu tinha trago na sacola.

As sacolas que tinha feito a compra deixou na mesa da cozinha e foi abrindo uma a uma para organizar a despensa. Os meninos observavam de perto. Edu distribuiu os salgadinhos que comprou para eles e ficaram muito felizes. Era uma coisa que ele adorava fazer. Logo em seguida, foi à lavanderia de casa, deixar os produtinhos de limpeza.

Em questão de minutos o almoço estava pronto, os meninos puderam comer e foram dormir. Então Edu pode pegar as roupas para lavar. Aquilo que a tia Ana falou, ainda martelava com força em si mesmo. Como assim Tina iria o abandonar? Mas ela estava bêbada, não podia ser verdade.

Enquanto lavava as roupas, Tina apareceu de surpresa e abraçou pelas costas. Ela adorava esse cheiro bom de detergente e ele ainda mais por sempre fazer uma boa compra. Ela ainda se mantinha tímida para demonstrações de afeto. Mas esse por si só já falava muito sobre as barreiras que ela estava vencendo.

— Oi Tina. — disse Edu, recebendo aquele carinho com muita felicidade. — Como foi no trabalho?

— Foi ótimo. Estou muito feliz que mais essa semana estou livre.

— Livre?

— É, vou descansar e ficar melhor.— ela o abraça ainda mais forte. — Sabe que eu tive vendo Edu.

— Fala— disse esfregando as roupinhas das crianças.

— Eu acho que tudo está indo bem. Vamos ficar bem. — pensou na conversa que teve com o Rick, e isso lhe fez ficar feliz.

— É claro querida. — ele vira para ela e lhe dá um beijo tímido na bochecha. Já Tina fica animada com isso e o retribui da mesma maneira.

Como Edu tinha terminado as coisas na lavanderia e Tina estava almoçando, ele foi arrumar a cama que ainda estava bagunçada. Quando pegou um dos lençóis para dobrar, o pano arrastou a bolsa que estava sobre a cama. Aberta, caiu da bolsa algumas coisas. Ele juntou tudo com muito cuidado.

— Uma passagem?— olhou mais uma vez para ver se não estava enganado.

Edu, por um momento, não compreendeu muito bem do que se tratava, mas as palavras da tia Ana foram as únicas coisas que ele conseguiu pensar no momento. Era impossível aquela mulher estar certa de alguma coisa.

Se abaixou novamente para ver se não estava esquecendo nada quando se deparou com uma mala sobre o chão embaixo da cama. Por um momento, as peças do quebra cabeça foram se montando. Aquilo que aquela mulher bêbada falou parecia ter sentido.

Seus olhos se fecharam, como se estivesse provando de algo amargo, fizesse algo que não deveria. Pecou em seu coração, duvidou de sua esposa por um segundo e se condenou por isso.

— Não, não posso fazer isso.— pensou.— Não posso fazer isso com Tina. Porque continuo insistindo nisso.

Sentou-se na cama e refletiu:

— Não entendo, não entendo…— frustrado, olhava com cautela para o tecido do pano que dobrava e percebeu que por mais que fizesse, se esforçasse, nada parecia ser bom o bastante para ele mesmo.

E continuou:

— Como isso mexe comigo dessa forma, como isso sempre me desestabiliza. — Questionou-se, reconhecendo que tudo aquilo não passava de sua insegurança gritando. Após essa descoberta, em seu rosto fez surgir um sorriso tímido que crescia como uma flor entre as pedras. Edu parecia ter encontrado o grande motivo para sua angústia. Esse inimigo silencioso, certo de que aquela sua insegurança era o motivo de toda essa inadequação a si mesmo e ao que fazia para conquistar a confiança de Tina.

— Quem sabe seja só mais um mal-entendido.