Como dizer eu te amo (HIATUS)
1 Matilda
Notas iniciais
O acampamento militar era o lugar mais gelado que Krös já frequentara. O peito tremia e o frio revirava o seu estômago sob os grossos casacos camuflados. O céu da Alemanha era alaranjado naquele momento e o vento soprava o cheiro de pinheiro para dentro da tenda. Ele desejava não ter se alistado, mas lá no fundo sabia que com a guerra se aproximando todos os homens seriam separados de suas famílias e iriam aprender a usar um fuzil.
Há semanas Krös colocara um anel de brilhantes na mão gelada de Matilda e se tornaram noivos. Um grande sorriso vermelho cortou sua pele pálida e sob seus cabelos negros engomados, belos olhos azuis brilharam. A casa onde moravam não era nada grande e nem confortável, mas era quente e, acima de tudo, possuía a palidez de Matilda.
Ele se levantou e caminhou até a rede onde um pequeno soldado ressonava. Teve que pular se arrastar e tomar muito cuidado para não acordar os outros duzentos soldados que ali dormiam.
– Yori — Krös balançou bruscamente a rede — Preciso falar com você.
O menino se levantou resmungando e acompanhou o homem mais velho até um bosque a alguns metros da tenda.
O lugar chegava ainda a ser mais gelado que o redor. Sempre que uma lufada fria passava por entre passavam por entre os pinheiros, eles farfalhavam e deixavam cair muitas agulhas. Os ventos vinham do sul e paravam no bosque, se desviando para oeste e leste, mas mesmo assim incríveis ventanias geladas transitavam ali dentro. Era impossível ver o céu negro, somente uma lua sangrenta se elevava sobre eles.
– Tire sua luva e me ajude a fazer uma fogueira — Krös ordenou.
O pequeno menino tirou a luva esquerda. A mão era fina e nunca poderia estar naquele lugar. Era ainda uma criança.
– Pode tirar as duas. Não está tão frio assim.
Ele hesitou e por fim tirou a luva direita. Ali estava: uma mão feminina e um belo anel de brilhantes.
– O que, Matilda? — Krös tirou a boina da cabeça de Yori, revelando os cabelos lisos e negros de Matilda — O que veio fazer aqui?
Enlaçaram-se em um longo beijo, caloroso, que esquentou a noite. Sentaram-se por fim na grama coberta por orvalho. Krös sentia alivio, incompreensão e, acima de tudo, raiva. Não sabia os motivos que levaram Matilda a um acampamento militar na fronteira com a Itália, tão exposto que um sussurro os denunciaria.
– Não sabe o quanto esperei por isso – a voz rápida e fina da menina cortou a noite.
– Sim, eu sei – Krös fitou as lanternas que iluminavam a entrada da tenda e pensou em como aquilo chamaria atenção.
O desejo era satisfeito com o olhar e as caricias mais eróticas que um casal de amantes poderia trocar dentro de um bosque. Chegaram a despir-se, sem ligar para o frio e confiando suas vidas ao calor de uma transa, mas o som de hélices fez Krös gelar. Por fim o silêncio novamente tomou conta dos ocos que existiam nos pinheiros.
Matilda se deitou no peito do homem mais velho e adormeceu imediatamente. Krös se manteve acordado. Estava olhando as lanternas, pensando que tinha esquecido-se de alguma coisa. Sentia que estava novamente em casa ao se entregar aos braços de Morfeu.
O tremor o tirou de seu sono e o som distante de gritos e explosões o fez maldito. O avião! Ele ia se culpar pela morte de muitos, mas agora ele só pensava em Matilda.
Ele tropeçou inúmeras vezes nos galhos e pedras até chegar ao acampamento. A cena mais horrível passou pelos seus olhos. Se aquilo era guerra, queria estar longe dela. Corpos mutilados cobriam o que restavam das tendas carbonizadas. Sangue cobria a terra batida. Por um minuto deixou de pensar em Matilda. Não mais que um minuto. E se amaldiçoou mais ao encontrar o corpo da amada jogado à sarjeta.
Ajoelhou-se e a pegou nos braços. A pele pálida estava fria e os olhos cerrados. A metade direita do cabelo sumira e só existia um osso queimado e coberto de sangue no lugar daquilo. As mãos estavam fechadas em torno de um volume.
– Eu te esperei – os olhos negros apareceram distantes através de uma fenda.
Um pino de granada atingiu o chão e a mulher colocou o volume no bolso da frente da farda de Krös. Ele a abraçou com força e sentiu os ossos frágeis da mulher se quebrando ao aperto. Ela não reclamava a dor e ele não se importava. Esqueceu-se das maldições, do sexo carnal e do amor por Matilda. Tudo era mentira. Ele se amava. Matilda era parte dele.
– Matilda – ele gritou antes que cessasse o tic-tac e a morte os abraçasse.
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