Como dizer eu te amo (HIATUS)
2 Daniele
Notas iniciais
"Preciso falar com vc" ~ Nana
O celular vibrou na estante ao lado da cama. Eram duas da manhã e o sol sequer havia pensado em acordar. O quarto estava completamente escuro, exceto pela luz da tela do iPhone.
Meus dedos deslizaram rapidamente pela tela e formaram a mensagem.
"Fale depois" ~ Dani
Apaguei os caracteres antes de enviar. Mesmo com raiva eu não conseguia ser grosseira com a Nana. Era um sentimento estranho que ia tomando conta lentamente da minha mente, do meu ser e do meu coração.
"O que é agr?" ~ Você
Voltei a fechar os olhos, mas a resposta veio logo e não me deixou dormir.
"Não aguento + chorar" ~ Nana
Outro sentimento ferveu na minha mente: raiva. Ela não parava de me mandar esse tipo de mensagem. Eu precisava fazer alguma coisa. Senti vontade de falar para ela chorar por mim, mas a hipótese passou rapidamente e deu lugar à vergonha.
"Esquece ele" ~ Você
Fechei os olhos e dessa vez afundei no sono. Sonhos turbulentos e estranhos me atormentaram numa curta noite de sono.
Acordei pela manhã e quase não consigo abrir os olhos. O quarto estava bagunçado exatamente como eu me recordava. A luz do sol entrava ainda escassa entre as frestas da persiana. O notebook coberto de adesivos infantis estava sobre uma estante roxa repetindo a playlist que eu tinha selecionado. Ele dividia espaço com copos, papéis de bala e o iPod completamente destruído. Roupas de todos os tipos, camisetas, sutiãs, calças, estavam jogadas por todo o quarto e até mesmo no ventilador de teto. O que as férias tinham feito comigo.
Peguei uma das poucas calças limpas e vesti-a junto com a blusa do pijama. Calcei um par de tênis qualquer e desci até à cozinha.
O lugar estava completamente arrumado e uma garrafa quente de café estava sobre a mesa. Torradas, pães, presuntos, queijos, uvas e outras iguarias cobriam o pano de mesa e exalavam um cheiro delicioso. Dalila, a empregada estava cozinhando qualquer coisa no fogão e não reparou quando me sentei à mesa.
– Bom dia! – eu falei para a moça.
Ela derramou um caldo amarelo fumegante sobre o avental e fez uma cara de raiva. A mulher negra me assustava aparentemente, mas era uma boa pessoa. Trabalhava com a minha mãe há anos e nunca causou problema algum. Ela dormia em um quarto no segundo andar da casa e recebia um bom salário, que a possibilitava andar sempre com boas roupas. Ela também que acolheu a minha família quando chegamos à Bahia, vindos de São Paulo. O nome dela era Luzinete, mas por costume eu tinha até me esquecido disso. Sempre a chamava de Sinhá.
– Bom dia dona Daniele – a empregada respondeu com o sotaque lento – A senhora sua mãe mandou avisar que aquela sua amiga, a Nana, ‘tá te esperando na sala. A menina chegode manhãzinha e queria falar com ‘cê.
– Obrigada Sinhá – eu passei manteiga no pão e coloquei uma fatia de presunto dentro.
Levantei-me e dei um beijo na bochecha da empregada e fui até a sala. Nana estava me esperando onde sempre ficava acomodada entre tantas almofadas que eu não conseguia a ver. Subi dois degraus da escada até conseguir vê-la. Uma morena de cabelos lisos e seios volumosos que dariam inveja a qualquer uma.
– Lá em cima – eu a chamei enquanto pulava escada acima.
Ela entrou no quarto e eu fechei a porta atrás dela.
– O que você quer? – eu explodi – São sete horas da manhã!
Ela pareceu não se importar com meu desabafo e sentou na cama – É ele, Dani.
– Já disse para parar de pensar nele e procurar outra coisa para fazer – eu me sentei ao lado dela.
– Mas não consigo – ela começou a choramingar – Não se esquecem de oito anos de relação em uma semana. Eu vivi muita coisa com ele e não consigo me conformar dele ter terminado comigo.
– Ah, mas está enganada – eu retruquei – Se esquece de oito anos de namoro em uma noite. Não são precisas semanas. Uma noite de balada e quando você menos percebe está de ressaca na sua cama com roupas todas espalhadas pela casa.
Um pequeno filete de sorriso se abriu no rosto dela e sumiu com a mesma velocidade – Mesmo assim. Lembra aquela vez que ele me deu o anel de brilhantes nos Alpes? Estávamos descendo o monte quando eu caí e ele me pediu em casamento. Aí ele aparece na outra semana e me diz que não quer mais por que achou outra. Eu sou qualquer uma? – ela exigiu uma resposta.
Eu fiquei procurando o que falar e só consegui olhar para os lábios dela, pensando em como seriam doces e macios até que ela me tirou do meu devaneio – Eu sou qualquer uma?
– Não! Não! – eu repreendi – Ora, Nana!
Eu não queria que ela ficasse pensando em outra pessoa que não fosse eu e isso me era muito estranho. Era um ardor que crescia quando ela estava perto de mim.
– Eu tenho que dar uma lição nele – ela passou de chorona a vingativa.
– Não! – eu gritei – Não! Ele não merece isso e, além do mais, você é uma mulher já! Não pode pensar como uma adolescente.
Ela me olhou fumegando – O que quer dizer com isso?
– É só que você está sendo infantil – arrisquei.
– Você o defende e me diz que estou sendo infantil?
“Agora ferrou.”
– Não! É só que... – as palavras entalaram na minha garganta.
– O que?
– É que...
– Fala logo!
– Eu te amo! – não acreditei no que estava dizendo, mas no fundo eu sabia que era verdade – Não aguento você falando só de outra pessoa! Quero que você fale de mim! Que olhe para mim!
Ela subiu na cama assustada e me olhou como se eu fosse uma doença – O que quer dizer com isso?
Eu puxei ela para mais perto e a beijei – Isso! Eu te amo, Nana!
– Dani! – ela disse quando se desvencilhou de mim – Você está louca! Somos duas garotas!
– E que importa?
– Dani! – ela abriu a porta apressada – Quando estiver melhor me liga! – e saiu correndo escada abaixo antes que eu pudesse ir atrás.
Sentei na escrivaninha e empurrei os copos e papéis para o lado. O som de vidro se quebrando pouco me incomodou. Eu me debrucei sobre o notebook e olhei para a janela.
– Está tudo bem dona Daniele? – escutei Sinhá.
– Sim!
Voltei a me deitar na cama e abracei o travesseiro. “Que bobagem fez agora Daniele.”
– Dona Daniele! – escutei as batidas apressadas de Sinhá na porta – Posso entrar? Está tudo bem?
– Pode entrar – eu esfreguei os olhos.
A mulher entrou no quarto como um pinguim que não aguenta o próprio peso – Fiquei preocupada Dona Daniele. Já são seis horas e você passou a manhã no quarto.
– Droga! Dormi sem querer – eu me levantei e comecei a calçar as botas desajeitadamente – Não está de folga hoje Sinhá?
– Oxalá! Eu trabalho a semana inteira! – ela sorriu para mim.
– Até mais! Bença Sinhá! – eu me apressei porta afora.
– Deus te abençoe – escutei ela gritar.
Entrei no SUV e dirigi até o pub que ficava na esquina do supermercado. Era movimentado a essa hora da noite de sábado e hoje não era diferente. Uma mulher muito bonita cantava músicas de Raul Seixas, Renato Russo, Rita Lee e muitos outros artistas ao som do violão de um homem. Eu conhecia os dois das inúmeras noites que passava fumando e bebendo com Nana naquele lugar, mas somente conversei algumas vezes com eles. A mulher se chamava Flávia e o parceiro, muitos anos mais velho, Reinaldo.
Encostei-me ao balcão e pedi ao velho barbudo que administrava o lugar uma garrafa de cerveja. Puxei um maço velho de cigarro do jeans surrado e levei-o a boca, retirando um deles com os lábios. Ao aproximar o isqueiro da boca percebi que um homem me observava e ofereci o maço a ele.
Habilmente ele retirou um cigarro e riscou um fosforo tirado de não-sei-onde no balcão acendendo a ponta da droga, finalizando o espetáculo com uma tragada poderosa que formou um circulo ao ser soprada para longe. Ele fez um gesto com a cabeça agradecendo.
Ao perceber que eu estava olhando embasbacada para ele, se aproximou até nossos braços se encostarem.
– Júlio – estendeu a mão sem olhar para mim.
– Daniele – apertei a mão dele com a mesma indiferença.
– E então Daniele – ele soprou mais uma circunferência de fumaça e olhou nos meus olhos – O que faz em um bar tão tarde?
– O mesmo que você – peguei a minha garrafa de cerveja e dei um longo gole – Bebendo.
– Será? – ele arqueou a sobrancelha – Não bebo e nem fumo. Só aceitei por educação.
Então era assim que o loiro se portava?
– Então o que veio fazer aqui? – desdenhei.
– Adoro a voz dela – apontou o cigarro para a mulher que estava cantando.
– Poeta? – estava começando a me divertir com aquela conversa – Sua musa?
Ele jogou o cigarro no chão e pisou a brasa com sapatos surrados – Poeta sim. Minha musa, não – ele me avaliou de cima a baixo – Por que uma garota do bairro nobre está em um bar?
– Não sou do bairro nobre – chateei-me.
– É sim. Aquele carro em que chegou é bem caro e esse iPhone 6 é bem novo – ele colocou o dedo no meu bolso e puxou para cima a ponta do smartphone.
– Está bem. Menti – terminei a garrafa e pedi outra.
– Então me responda – ele pegou um celular pequeno e de teclas, bem antigo, e digitou qualquer coisa.
Passou-se muito tempo e o ambiente silencioso era palco para a dupla que cantava na mesa no centro do pub.
– Fui rejeitada – eu resmunguei apoiando os braços no balcão.
– É normal. Os jovens hoje só querem meninas mais novas – ele confortou.
– Por uma mulher – traguei o cigarro.
– Eu... Bem... – ele pareceu incomodado, mas não por muito tempo – Quer que eu recite? Vinicius de Moraes?
– Que seja – eu apreciava a boa poesia, porém não estava com saco para dar atenção a isso.
Ele começou:
Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade
Virei-me e escorei as costas no balcão, vendo atentamente as palavras que saiam naquela bela voz.
Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude
Ele encostou-se ao balcão de novo e ficou quieto por um tempo.
– Soneto do amor eterno – quebrei o silêncio – Tem uma voz incrivelmente bela.
– Obrigado – ele fez uma reverencia – Quer ir ao parque? Esse lugar está me dando enjoos.
– Claro, por que não? – eu tirei a chave do carro do bolso – Dirige?
– Não tenho um carro – ele sorriu.
– Vamos no meu.
Entramos no carro e percebi que eu havia provado do mais inocente e puro flerte que já existiu no mundo.
Fale com o autor