Como Vivem Os Anjos
62 Às Sombras De Pan
Notas iniciais
É temido por todos aqueles que necessitam atravessar as florestas à noite, pois as trevas e a solidão da travessia os predispunham a pavores súbitos, desprovidos de qualquer causa aparente e que é atribuídos a Pã; daí o nome pânico.
(Sobre o deus Pã)
OoO
Querido amigo (sim, você mesmo),
Sou Nicholas Hentz. Se você está lendo esse texto é porque o encontrou no esconderijo em que eu o deixei. Eu acho que eu deveria deixar claro para você que isso não é um trote. Eu realmente sou Nicholas Antonella Lemnsack Hentz (curiosidade: eu só aprendi a escrever meu nome completo com oito anos de idade). Originalmente, meu cabelo tinha a cor do ouro e eu tinha olhos pretos grandes com cílios compridos. Minha pele era dourada e meus lábios eram vermelhos. Creio que era magro demais e tinha um metro e sessenta de altura (na verdade ainda sou e tenho, é impossível mudar essas coisas). Minha aparência é bastante infantil, é o que todos dizem, mas eu realmente não preciso me descrever. Você pode ver como sou procurando meu nome na internet.
No exato momento, estou sentado na escrivaninha de vidro do meu quarto no hotel-cassino The Lancaster, quarto 3.302. Já são onze horas da noite, mas estou numa cidade que nunca dorme, então não dá pra perceber. Eu consigo ver daqui o brilho dos cassinos da Las Vegas Boulevard com aquelas placas luminosas imensas que fazem nossos olhos implodirem. Quando abro a janela, ouço o som das pessoas. Agora eu sei por que todos esses quartos são à prova de som. Graças a Deus.
Eu escrevo com uma máquina de escrever. Sei que estamos em 2014, mas você ficaria absolutamente maravilhado com o que se consegue encontrar em lojas de souvenires de cassinos. Essa imitação de máquina de escrever custou-me uma pequena fortuna, mas isso é pouco se for comparado ao que eu gastei no cassino em si. Lincoln estava errado. Abaixar a maioridade de vinte e um para dezesseis anos foi a pior coisa que Las Vegas já fez. Falo mais sobre isso mais tarde.
Quando falo Lincoln, falo de Lincoln Spring. Ele é um garoto de doze anos terrivelmente irritante e cínico e que tem a capacidade de enlouquecer qualquer ser humano com uma pequena conversa. Lincoln tem pouco menos de um metro e sessenta de altura, cabelos loiros compridos com alguns tons marrons e olhos verdes muito grandes e redondos. Ele é irmão do meu ex-namorado, mas acho que isso é irrelevante. É difícil gostar de Lincoln de primeira (de segunda também), mas também é impossível não gostar. Quer dizer, a não ser que você seja chantageado por ele, como ele fez com o irmão mais velho, mas isso é outra história. Eu achei Lincoln servindo de aviãozinho para um traficante num bairro pobre da cidade de Middleland e fiz o que qualquer bom cidadão deveria fazer: o sequestrei e o arrastei comigo para minha pequena aventura. Lincoln fez para mim e para meu irmão Lorenzo os documentos falsos que precisaríamos para procurar Ethan. Foi ele quem nos tornou Dylan e Elliott.
E sim, é claro que eu precisava sequestrá-lo. A miséria ama companhia.
Há alguma música tocando absurdamente alta lá fora, mas não posso sair e reclamar. Eu estou disfarçado.
Se você fez o que eu disse lá em cima e procurou meu nome na internet, deve ter visualizado aquele encantador garoto californiano de dezesseis anos com as características supracitadas, tipo os cabelos compridos e amarelos, os olhos extremamente escuros e a pele dourada, mas não é assim que estou. Meus cabelos foram raspados há vários dias e agora estão rentes e curtíssimos, claros como trigo e praticamente espetados. Ultimamente tenho andado pálido como um cadáver. Empunho um falso sotaque britânico ao falar e quando preciso sair sempre uso lentes de contato azuis, óculos escuros e cachecol (é verão, por isso tem sido uma tortura). Ah, e só saio quando preciso de verdade.
Você se pergunta por que escrevo isso. Se não pergunta, deveria, porque eu vou explicar de qualquer jeito. Há três motivos.
O primeiro deles é que por baixo do carpete desse quarto, há um piso de madeira bastante bonito, mas consideravelmente envelhecido. Há, por acaso, um certo ponto do piso, perto do pé da cama, em que a madeira está solta. Quando removi a tábua e olhei para baixo, descobri um vão entre esse andar e o de baixo. Não havia nada além de teias de aranha e fios elétricos.
O segundo motivo veio após um caloroso diálogo que eu tive com meu irmão Lorenzo. Eu e ele dividimos esse quarto por questão de força maior, mas não posso falar qual é porque aí meu outro irmão seria assassinado.
Oops.
Bem, ninguém é perfeito.
Eu estava pagando o ajudante do hotel por trazer nossas malas para o trigésimo terceiro andar por motivos autoexplicativos. Lorenzo estava com o rosto na janela, respirando o ar frio da noite com os olhos fechados. Não sei se todos sabem disso, mas Lorenzo não precisa realmente falar com sotaque italiano. Ele faz isso de propósito para nunca se esquecer de onde veio e dos horrores que viu dois anos atrás, quando tinha apenas oito anos. Eu queria saber por que demorei tanto tempo para reconhecer todos os talentos que ele tem. O de tocar piano e violino como ninguém sendo tão jovem, o de ter uma voz tão absolutamente linda, o de ser uma pessoa maravilhosa e cativante tendo apenas onze anos.
E agora ele vai morrer porque tem um tumor enorme no cérebro. Quando você tiver encontrado esse texto e estiver lendo-o, ele provavelmente já terá partido. Acenda uma vela por ele.
— O ar daqui é o mesmo ar do trailer — eu falei olhando para ele. Às vezes eu gostaria de não ser sempre tão melancólico e entristecido, mas eu sou Nicholas Hentz. Estou numa perseguição continental. Eu simplesmente sou assim e tenho o direito de estar assim.
— Não, não é — ele respondeu. — É diferente. Os ares de todas as cidades são diferentes. Eles nunca são iguais. Las Vegas é…
Lorenzo parou de falar aí. Com os olhos vidrados em mim, ele os arregalou, caiu de joelhos e agarrou a própria cabeça com as duas mãos. Começou a gritar com desespero. Eu quase entrei em desespero também, mas percebi que Ethan não estava ali para controlar a situação.
Agachei-me ao lado dele e apertei seu corpo contra o meu. Não havia literalmente mais nada que eu pudesse fazer. Lorenzo parou de gritar após cinco segundos e começou a choramingar e lacrimejar, ainda agarrando a própria cabeça.
— A dor é insuportável — ele sussurrou. Seus olhos haviam se transformado em poças cinzentas. O sofrimento estampado em seu rosto transmitia tanta penúria que partiu meu coração. — E está ficando mais frequente. Eu não aguento mais isso, Nick. Faz parar.
— Eu vou fazer parar, não se preocupe. Sei o que fazer.
Mas a verdade é que eu não fazia ideia do que fazer. Eu ainda não sei. Isso aconteceu há duas semanas. Tenho uma lista enorme com nomes assustadores de medicamentos analgésicos e receitas médicas para isso, mas eu esperava que levasse mais tempo até que fossem necessários. Eu penso que se Lorenzo tivesse aceitado o tratamento médico para o câncer, nesse exato momento estaria numa cama de hospital pesando trinta quilos.
Depois que a dor passou, levei-o à cama e o cobri. Dei-lhe um beijo de boa noite e apaguei todas as luzes do quarto. A claridade o incomodava. Decidi que no dia seguinte eu compraria os remédios de Lorenzo.
— Ainda é cedo demais para você dormir — ele sussurrou. — O que vai fazer até então? Você nem pode sair do quarto.
— Vou pensar em algo — respondi.
Lorenzo fechou os olhos e deixou a cabeça pender para o lado e eu achei que ele tinha adormecido, mas então ele os abriu novamente.
— Você deveria registrar tudo o que estamos fazendo. Se morrermos no caminho, não haverá ninguém para saber o que aconteceu conosco e porque você me levou com você. Todos acham que você me sequestrou e isso é ridículo. Escreva e explique.
— Não preciso dar satisfações a ninguém — eu falei mais ríspido do que tive intenção.
Ele sorriu como quem sabe mais. Sempre achei que Lorenzo era um ancião de cem anos no corpo de uma criança. Ele sempre parece saber mais do que sabe e frequentemente é condescendente com todo mundo. A única pessoa com a qual nunca o vi tendo momentos de superioridade é Ethan. Ethan sempre foi o suprassumo do ser humano para ele. Eu me sinto um idiota perto dos dois. Ambos são extremamente inteligentes e talentosos. Tudo o que Deus decidiu deixar para o pobre Nicholas Hentz foi uma beleza magnífica e deslumbrante e capacidade de fazer qualquer um me amar.
— Faça pela família Hentz.
Isso é uma coisa que Ethan diria.
Lore adormeceu. Descobri o vão perto da cama pouco tempo depois e então decidi me arriscar sair do quarto disfarçado. Achei a loja de souvenires e comprei a máquina de escrever e toneladas de papel.
E por que deixei passar tantos dias e só escrevo agora? Bem, eu precisava de uma história diferente. Não posso escrever sobre mim mesmo. Que espécie de idiota infeliz passaria horas e madrugadas escrevendo compulsivamente sobre as aventuras da família Hentz?
De qualquer forma, achei a história após alguns dias pesquisando e procurando. Curiosamente, ela estava quase que literalmente debaixo do meu nariz e era tão óbvia que me critico por não ter percebido antes seu potencial. Não gosto de reduzir pessoas a isso, mas o caso é meio necessário. Lorenzo não concorda, mas o que Lorenzo sabe sobre a vida em si?
Ela foi meu terceiro motivo para começar a escrever esse texto. A história de Pamius Cargill.
Já passou da meia-noite. Agora há pouco levantei pra beber água e quase tive um ataque cardíaco quando vi um balão de festa locomovendo-se no meio do quarto. Pensei que era o próprio Pennywise querendo me devorar, mas então liguei as luzes e me lembrei que eu havia amarrado bexigas nas três tartarugas de Lorenzo para que elas pudessem caminhar pelo quarto sem que as perdêssemos. São três, bem pequenas, e chamam-se Donatella, Franchesca e Nikita. Há alguns dias perguntei por que Lore as chamara assim.
— São nomes de babás que eu tive — ele respondeu. — Quando ainda morava na Itália com minha mãe. Ignorando que ela era neurótica e superprotetora, não podia ficar comigo todos os segundos de todos os dias, então ela contratava babás e as despedia após poucas semanas porque temia que fossem espiãs da máfia italiana. Donatella era italiana e foi minha babá quando eu completei sete anos de idade. Era jovem, tinha uns vinte e poucos anos. Foi ela quem começou a me ensinar piano e quem me ensinou aquela música que eu toquei naquele hotel que ficamos quando viajamos à Paris pela primeira vez. Lembra-se? Não importa. Francesca era francesa, mas quase não tinha sotaque porque era poliglota. Era mais velha, tinha quase cinquenta anos. Ela me ensinou a entender a língua inglesa, mesmo que eu não tivesse capacidade de falá-la. Foi embora antes de eu completar oito anos. Nikita era russa e era mais jovem que Donatella. Ela descobriu que minha voz é maravilhosa e especial. Palavras dela. Minha mãe a despediu pouco tempo antes de me mandar para cá.
— Não para cá — eu falei. Lorenzo fez uma expressão estranha.
— O quê?
— Ela o mandou à Califórnia. Estamos nos Estados Unidos.
— Estamos? — indagou confusamente. Então arregalou os olhos. — Meu Deus, estamos.
Lorenzo chorou até dormir nesse dia. Dizem que alguns pacientes terminais ficam muito bem até algum dia, praticamente sem sintomas, mas então após o Último Dia Bom eles simplesmente entram em colapso. A única coisa que Lore vinha demonstrando eram os enjoos frequentes após comer. Hoje em dia, ele mal consegue comer qualquer coisa.
Eu me odeio tanto por não ter aproveitado seu Último Dia Bom antes que acabasse.
E hoje é aniversário de Lincoln. Eu deveria ligar para ele e desejar feliz treze anos de idade, embora fosse, de certa forma, ofensivo e cínico, bem o tipo de coisa que ele gosta. Lincoln está com Pan num hotel pequeno nos limites da cidade, bem longe do The Lancaster. O trailer está com ele. Achei uma boa ideia, considerando as circunstâncias nas quais eu o encontrei.
Eu liguei para Lincoln e lhe desejei feliz aniversário. Ele mandou que eu me fodesse por tê-lo acordado e me mandou desligar o telefone antes que o rastreassem. Ele tem razão. Não sei por que achei uma boa ideia usar o telefone fixo desse quarto. De qualquer forma, ele também me agradeceu pelas congratulações. Como já disse, Lincoln é um garoto estranho e problemático, mas eu gosto dele. Talvez porque eu também sou um garoto estranho e problemático.
Está bem, eu não apenas gosto dele. Eu amo Lincoln. Desde que ele era apenas um Coelhinho de orelhas rosadas que tocava violino agressivamente e divagava sobre assombrações, eu o amo do mesmo modo que amo meus amigos, e isso é uma coisa absolutamente única porque, bem… eu não tenho amigos. Tive colegas com quem conversava durante as aulas e durante os intervalos, mas nunca considerei ninguém acima disso.
Amo Lincoln mesmo que ele seja homofóbico. Quer dizer, eu acho que ele é mentalmente incapaz de amar ou odiar qualquer coisa, mas isso não importa no momento. Acho também que se ele encontrasse Devon Lancaster de repente, o mataria sem piedade.
Você deve estar ansioso para que eu comece a história de Pan, mas tenha paciência. Você achou meu diário nas fundações do quarto e conseguiu não ser eletrocutado pelos fios desencapados, então deve muito bem conseguir segurar-se por mais algum tempo.
Eu decidi falar com Pan sobre Pan antes que eu conseguisse a proeza de gastar todos os oitocentos mil dólares em dinheiro que eu tinha nos cassinos. Sim, eu estou falido. Por que é tão frustrante saber disso? Acho que é porque Lincoln não me deixa esquecer, já que tivemos um trabalho miserável para converter oitocentos mil dólares californianos em dólares americanos sem que as casas de câmbio suspeitassem. Depois da conversão monetária (dólar americano vale mais que o californiano), perdemos uns setenta mil dólares.
Enfim, eu estava com Lorenzo no pequeno hotel de Pan e Lincoln, numa das raras ocasiões em que eu os visitei. Queria revê-los e meu cachorro Charlie também, que deixei com os dois porque Pan gostava dele.
Ainda não descrevi Pan, descrevi? Não lembro, na verdade, e me recuso a reler o texto inteiro para saber. Pan tem dezenove anos, mas é mais novo que Ethan, embora seja mais alto que ele (todo mundo é mais alto que Ethan), deve ter por volta de um metro e setenta e oito e eu meio que o odeio por isso. Tem cabelos compridos, chegando aos ombros, ondulados e da cor do chocolate. Depois que eu os hidratei, ficaram quase tão bons quanto os meus. Seus olhos são castanho-escuros e adoráveis e sua pele é da cor do cobre. Ele parece estar sempre bronzeado.
Eu encontrei Pan na cidade-fantasma de Lionville. Estava sozinho no centro da cidade quando olhei para trás e o vi olhando para mim com curiosidade. Agora que eu penso, me pergunto o que o fez se aproximar de mim, já que antes não havia jamais feito isso com ninguém. De qualquer modo, Pan é o que se chama de feral child. Como vou explicar mais a frente, ele cresceu sozinho em Lionville por nove anos na companhia ocasional de gatos, por isso quando se assusta ele imediatamente… chia. É parte engraçado e parte desconcertante. Venho tentado construir nele uma mentalidade capitalista e alienada como a de qualquer outro jovem, por isso obrigo-o a assistir TV e ler jornais quase o tempo todo. Ele fica maravilhado.
Certo, eu estava no hotel deles com Lorenzo. Nós quatro estávamos no quarto. Lincoln reclamava sobre trivialidades, como o fato de o hotel não ter piscina ou um cassino nos primeiros andares. Mais tarde, eu chegaria à conclusão de que deveria ter sido eu e Lorenzo a ficar naquele hotel e Lincoln e Pan a ficarem no The Lancaster, mas isso seria impossível de qualquer forma por motivos que não posso dizer aqui.
O quarto era bastante razoável. Tinha duas camas de solteiro, uma televisão grande, duas poltronas e uma mesa com quatro cadeiras, tudo branco e marrom. Não chegava perto do resplendor do quarto do The Lancaster, onde das enormes janelas é possível contemplar a selva comercial que é Las Vegas Boulevard, com pessoas selvagens e agressivas lá em baixo e luzes que nunca se apagam (você já sabe disso porque eu já disse lá em cima, mas usar metáforas é muito divertido).
— Se eu ficar mais um dia nesse maldito quarto — resmungava Lincoln —, vou empurrar Pan pela janela. Ele não parece se importar com nada e eu me irrito com isso.
— Claro que ele não se importa — eu falei, me sentindo muito como Ethan nesse momento —, ele passou nove anos no tédio absoluto em Lionville. Sabe como passar o tempo.
— Você acha que ele sabe o que é masturbação?
Eu ignorei a pergunta dele. Para lidar com Lincoln, você tem que ignorar pelo menos dois terços das coisas que ele diz e apreciar apenas o terço restante, que é geralmente muito importante. Lorenzo havia deixado seu violino (um Stradivarius) com ele para que ele praticasse quando quisesse, e estava ficando consideravelmente melhor. Pan gostava de ouvir o som do violino. Eu também gostava, mas Lore ficava deprimido por não ser mais capaz de tocar com a perfeição de um anjo.
Falando em anjos, agora eu me sinto terrivelmente culpado de todas as vezes que ele começou a tocar aquela tenebrosa música Como Vivem Os Anjos e eu o mandei parar. Não importa que eu tenha escrito a letra, continuo achando insuportável.
— Há uma coisa que eu sempre quis perguntar desde que nós começamos essa novela — Lincoln continuou. — Você tem que fazer o ACEM no final do ano. Como vai ser?
Dei de ombros.
— Sei lá. Eu estava tendo aulas particulares em casa, mas obviamente não estou mais.
— Você deveria voltar a estudar. Se não passar no ACEM, será obrigado a passar outro ano inteiro tendo aulas em casa ou então, pior ainda: voltar à escola. Lidar com adolescentes. Provavelmente arrumar quatro amigos, separá-los com intrigas e namorar um deles apenas para ele voltar ao ex.
Uma das piores coisas daquele um terço útil que Lincoln fala é que ele é quase sempre ofensivo, apesar de ser extremamente verdadeiro. Eu segui o conselho dele e comecei a passar o tempo livre estudando para o exame. Mas não é sobre isso que quero falar.
— Sabia que Pan realmente nasceu em Fresno? — ele indagou. Eu franzi as sobrancelhas. — Lá é nosso local de nascimento por necessidade, mas ele realmente nasceu lá. Apesar disso, seus pais são canadenses.
— Como sabe disso? — Desde que encontrei Pan, tenho estado mortalmente curioso acerca da história dele, mas nunca pensei em perguntar porque…
— … porque você é um imbecil — Lincoln completou pra mim. Eu já disse que ele pode ler mentes? Ele pode. Literalmente falando. Ele literalmente pode ler mentes. Estou sendo redundante de propósito. — Não é porque ele quase não tem vocabulário que ele não tem história. A história dele está dentro dele, só precisa de um meio para sair. Aliás, gostei da sua ideia de escrever sobre nós. Devia colocar Pan no meio. Escreva sobre ele.
— Não sou um escritor — eu falei. — Não sou Melchior.
— Melchior é um…
Eu vou censurar o que Lincoln falou acerca de Melchior porque se algum dia essas memórias vierem à tona e forem publicadas, ele pode querer processar a editora que as publicou por calúnia, difamação… enfim. Nunca se sabe. Lincoln estava bem invocado.
— Está bem, eu entendi — interrompi-o. Não gostava que Lorenzo ouvisse tantos palavrões assim e não queria que as novas palavras que Pan aprendesse fossem resumidas àquilo. — O que sugere?
— Você faz as perguntas, ele responde o que conseguir, eu entro na mente dele e extraio o resto. Até agora só sei que seus pais são canadenses e viviam num lugar chamado Vale das Sombras.
Meu corpo gelou quando eu ouvi isso. Meu coração falhou uma batida. Uma terrível dose de adrenalina tomou meu corpo. Eu vi a inocência de meu nervosismo nos olhos de Lincoln e percebi que ele não havia falado aquilo para me incomodar porque nunca chegou aos cantos da minha mente onde o Vale das Sombras se aloja. Eu tive um sonho semestre passado onde eu ouvia falar dele e dos horrores que aconteceram naquele lugar terrível.
Não quero mais falar sobre isso. Deixarei que Pan fale.
Juntamo-nos na varanda do quarto. Podíamos ter saído do hotel, mas eu não queria dar a ninguém a chance de nos reconhecer. A visão das planícies que envolviam Las Vegas era suficiente para nós. Lorenzo estava com os pés apoiados no batente da varanda, deixando o vento seco bater em seu rosto. Ele tem estado muito quieto ultimamente e isso me parte o coração. Parece ter finalmente aceitado seu destino e estar apenas se preparando para morrer. Eu estava de costas para a vista, fitando o interior do quarto. Pan estava sentado praticamente na minha frente, virado para mim, e Lincoln estava perpendicular a nós dois, como um intermediário.
Comecei a fazer perguntas para Pan. A muito custo, ele respondeu o que conseguiu, então Lincoln tocava-lhe delicadamente e completava os relatos. Pan apenas confirmava o que ele havia dito. Em alguns momentos, começou a chorar, então parávamos um pouco e continuávamos depois. Foi tudo muito lento. Para arrancar alguma coisa dele, precisávamos perguntar mil vezes e ir comendo pelas beiradas para chegar ao centro. O interrogatório durou quase o dia inteiro. No final, estávamos todos exaustos e eu sabia praticamente tudo o que havia acontecido com Pan para que ele acabasse sozinho e abandonado em Lionville.
E agora escrevo, aqui, seu relato. Para quem se interessar em ler.
Pamius Cargill nasceu na cidade de Fresno, no Condado de Westeria, Califórnia, no dia 1 de julho de 1995 (ele realmente é mais novo que Ethan, mas por menos de um mês). Seus pais chamavam-se, segundo ele se lembra, Gabrielle Gauthier e Étienne Cargill. Depois de checar sua certidão de nascimento, confirmei a veracidade dos nomes. Também descobri como se escrevem.
Gabrielle Gauthier era franco-canadense. Havia nascido na França e se radicado no Canadá depois de se casar com Étienne. Toda a sua família era francesa. Ela foi a primeira a se mudar para a América. Falava francês fluente e quase nada de inglês. Pan disse que tinha cabelos amarelados como o sol (mais claros que os meus) e olhos azuis como o céu, feições delicadas e um sorriso branquíssimo. Gostaria de ter uma foto dela para comprovar.
Étienne era californiano e canadense. Havia nascido no Canadá, mas seu pai era californiano e sua mãe canadense, de modo que tinha dupla-nacionalidade. Da mãe vinha sua ascendência francesa. Sabia falar fluentemente as duas línguas, embora seu francês tivesse um certo sotaque norte-americano. De acordo com a foto dele e de Pan que encontrei na pasta que deixou com Pan em Lionville, Étienne tinha cabelos escuros e curtos e olhos castanho-escuros, feições grosseiras e embrutecidas, mas, de certa forma, bondosas. É visível pelo modo como abraça o filho, como se ele fosse tudo o que tivesse no mundo todo.
Pan nasceu quando Étienne e Gabrielle haviam saído de férias para a Califórnia. Na época, Gabrielle estava com sete meses de gravidez. Deveriam voltar ao Canadá a tempo de terem o bebê lá, mas enquanto passeavam pela cidade de Fresno ela escorregou numa poça d’água e caiu. O acidente acelerou a gravidez, fazendo-a dar à luz um bebê a quem chamaram Pamius (jamais vou saber de onde tiraram esse nome), no Hospital Comunitário de Fresno. Desse modo, por causa disso Pan nasceu com nacionalidades californiana, canadense e francesa.
Eu já falei sobre a aparência de Pan. Ele tem os olhos e os cabelos escuros de seu pai, mas a textura ondulada de sua mãe. Como nasceu prematuramente, teve alguns problemas de aprendizado na infância. Ele me disse que seus pais disseram que ele começou a falar e andar apenas com dois anos de idade, muito embora desde sempre dominasse fluentemente as duas línguas maternas, pois Étienne falava com Pan em inglês e Gabrielle falava em francês. É, essa foi uma surpresa para mim. Ele literalmente se esqueceu de que falava francês. Me pergunto se teria se esquecido de que falava inglês se eu, Lorenzo e Lincoln falássemos com ele em francês.
Não sei se isso também tem a ver com o nascimento prematuro, mas Pan sempre teve muita dificuldade de socialização. Lincoln me disse que acha que ele tem Síndrome de Asperger ou outra espécie leve de autismo. Considerando que Lincoln tem Síndrome de Asperger, eu acredito nele.
Durante os primeiros anos de Pan, seus pais moravam numa colônia francesa no Canadá a nordeste da cidade de Vancouver, na província da Colúmbia Britânica, chamada Vale das Sombras, ou Vallée des Ombres, como é seu nome original em francês. O Vale é uma pequena comunidade de menos de mil habitantes onde a língua principal é a francesa e todos os moradores são franceses ou têm ascendentes franceses. É cercado em três de seus lados por uma floresta de pinheiros chamada Floresta das Sombras, ou Forêt des Ombres. Por algum motivo, está sempre em constante nevasca.
Étienne e Gabrielle nunca foram muito ricos. Étienne vivia de trabalhos braçais fazendo pequenos serviços aos grandes barões da madeira que moravam nos arredores do Vale das Sombras e a mãe era cozinheira em um restaurante modesto localizado no próprio Vale.
Me pergunto se Ethan tem algum negócio relacionado a madeira naqueles arredores. Acho que depois de tudo ele jamais se aproximaria do Vale das Sombras novamente, apesar de nunca ter estado lá. Ignore tudo isso que escrevi. São velhos fantasmas cujas correntes são pesadas como chumbo e indestrutíveis como diamantes.
Voltando à história. O Vale das Sombras, apesar de ser uma comunidade teoricamente igualitária, possui, de certa forma, uma desigualdade social muito acentuada. Ao sul do Vale, perto da fronteira com a Floresta, se concentram as mansões e chalés de luxo dos moradores mais ricos, além dos estabelecimentos comerciais mais caros e atrativos. Ao norte, que por acaso é onde se localiza a única entrada (a Floresta das Sombras, por ser muito vasta e desolada, oferece uma barreira de proteção natural), há as casas mais humildes e modestas.
Outras coisas interessantes que descobri é que os restaurantes sempre mantém um preço para moradores do Vale e outro para turistas e que o Vale é presidido por um representante escolhido em votação democrática com mandado de dois anos, sendo que o voto é obrigatório a todos os moradores com idades entre dezoito e setenta anos e facultativo àqueles entre treze e dezoito e acima de setenta. Ao representante cabe as responsabilidades de manter a integridade e (embora isso não seja oficial, é bastante óbvio) o elitismo das estruturas do Vale, além da curiosa tarefa de checar se os antepassados de um novo possível morador são, de fato, franceses. Há apenas uma estrada que sai da rodovia principal que leva ao Vale (você realmente tem que estar procurando-o para achá-lo) e ela atravessa o lado leste da Floresta das Sombras.
Digo essas coisas porque acho que um retrato fiel da quase inexistente possibilidade de existir um lugar como o Vale das Sombras será, um dia, bastante necessário. Ninguém sabe por que ele se chama assim. Eu tenho uma certa ideia, mas não posso dizer aqui.
Há apenas uma escola na comunidade. É inacreditavelmente chamada, como não podia deixar de ser, de Escola das Sombras. Não estou brincando. Eu me pergunto como os mais velhos explicam isso aos filhos. Me pergunto se alguém dali se pergunta isso alguma vez na vida ou se estão todos ocupados demais olhando para os próprios umbigos franceses para perceber como aquele Vale inteiro é amaldiçoado.
A essa altura, Pan parou de falar conosco. Ficara muito deprimido. Lincoln me disse que as lembranças estavam pipocando em sua mente pela primeira vez em nove anos. Imagino como deve ter sido maravilhoso e assustador ao mesmo tempo. É como nascer de novo num outro corpo e ter que se acostumar àquelas memórias de qualquer jeito.
Aproximei-me dele e coloquei seus cabelos castanhos por trás da orelha com carinho, segurando seu rosto com toda a compaixão que eu sentia. Olhei em seus olhos castanhos. Havia medo no rosto dele e um sorriso de compreensão no meu. Eu subitamente percebi por que ele havia ficado tão perturbado em continuar a história sobre o Vale das Sombras. Eu não precisava ouvir mais nada. A história estava clara como água, clara… como os olhos dele.
— Os olhos dele nunca saíram da sua mente, não é? — eu sussurrei. — Depois da Floresta das Sombras. Eram lindos demais para que você esquecesse. De manhã, quando o céu clareava em Lionville, você se lembrava dos olhos dele, e de noite quando escurecia e você podia ver as estrelas, você mentalmente formava pares e imaginava como os olhos dele. É isso, não é?
Pan assentiu melancolicamente.
Eu tinha razão.
Ele nunca conseguiu esquecer os olhos dele.
Eu também nunca consegui.
Pan só tinha um amigo na Escola das Sombras, um garotinho como ele chamado Oliver Castanelli, mas que ele só chamava de Ollie. Ollie morava com o pai Antoine e a mãe Annice numa espécie de mansão-chalé na parte rica do Vale, ao sul, bem na fronteira com a Floresta. O quintal de sua casa era sempre coberto de neve e era cercado por pinheiros altíssimos e antigos. Tinha um tio-avô que morava na Califórnia chamado Adrien (que agora está na prisão). Toda a família Castanelli, desde o bisavô Olivier, havia morado no Vale das Sombras. Ollie não era exceção.
Acho que isso é óbvio, mas inevitavelmente todas as crianças do Vale eram bilíngues, uma vez que a escola ensinava as duas línguas e normalmente os pais também eram e ensinavam também.
Até os sete anos de idade, os cabelos de Ollie foram amarelos como o sol, seus olhos eram azuis-claros, da cor de um céu diurno, e a pele era rosada e corada. Ele era, de fato, o único amigo que Pan tinha. As outras crianças não socializavam com ele, e frequentemente zombavam dele, porque aos sete anos ainda tinha dificuldades em leitura e escrita e por seus olhos e cabelos serem escuros. Quase todos os habitantes do Vale das Sombras tinham olhos e cabelos claríssimos. Pan era uma das poucas exceções.
Esse lugar me lembra tanto Jardim de Ouro.
Eu pesquisei sobre o Vale das Sombras após o interrogatório. É um lugar recluso e fechado demais para que eu pudesse encontrar mais informações que as que já dei, mas há uma manchete praticamente única relacionada àquele Vale e tão incessantemente repetida que é impossível você pesquisar e não encontrá-la. Fala sobre uma criança que entrou sozinha na Floresta das Sombras e nunca conseguiu ser achada por ninguém. Ela morreu? Não. Foi encontrada na estradinha que leva ao Vale, aquela que passa pela Floresta. Eu disse que nunca foi achada porque ela voltou sozinha. O único problema é que foi um mês após seu desaparecimento.
Nem ela nem ninguém jamais conseguiu explicar como um garotinho de sete anos conseguiu sobreviver um mês dentro de uma floresta inóspita e gelada como o Vale das Sombras.
O garotinho é, naturalmente, Oliver Castanelli.
Eu acho importante informar que desde criança Ollie afirmava que conseguia ver espíritos a quem ele chamava de sonhos. Ele dizia isso a quem quisesse ouvir. Talvez por isso fosse rejeitado pelas outras crianças como Pan era. Crianças podem ser cruéis.
Não me importo se você acredita ou não nessas coisas, eu já vi horrores demais para não acreditar. Apenas guarde essa informação.
Quando Ollie se perdeu na Floresta das Sombras aos sete anos, Pan achou que havia perdido seu amigo para sempre. Diferente de todas as crianças (e às vezes adultos) que chamavam Ollie zombeteiramente de Caçador de Sonhos, sempre acreditara no que o amigo falava sobre os sonhos que via, sobre as pessoas que se diziam mortas há anos. Achava isso maravilhoso. Os dois costumavam sentar juntos por horas conversando sobre isso, explorar as partes já exploradas da Floresta das Sombras atrás de novos sonhos e aprendendo novas história de vidas passadas. Ollie aprendia e ensinava a Pan. Foi basicamente o que os dois fizeram durante toda a infância que passaram juntos. Eram melhores amigos. E então, num inverno terrivelmente gelado… Ollie foi levado pelos ventos.
Mesmo sendo jovem demais para entender a morte, de algum modo Pan sabia que ele não podia estar morto quando um mês se passou depois seu desaparecimento. Os sonhos não o deixariam morrer jamais. Amavam Ollie e amavam Pan também. Eles nunca permitiriam. Ollie estava lá em algum lugar, seguro e aquecido pelos sonhos que só ele via. Ele era o Caçador de Sonhos, afinal.
Ollie voltou um mês depois completamente mudado. Há uma coisa que poucas das manchetes que rodaram o mundo naquela época noticiaram: não apenas ele inexplicavelmente sobrevivera numa floresta de neve durante um mês, como também sua aparência mudou. Seu cabelo, antes amarelado como o de quase todo mundo que vivia no Vale das Sombras, estava tão claro quanto a luz, quase branco, coberto por um espectral brilho prateado como o da lua (Lincoln me ajudou a anotar comparações legais para quando eu precisasse). A pele havia perdido aquele tom rosado e infantil e agora tinha a cor da neve, quase cadavérica. Não, cadavérica não, vampiresca. Gosto mais desse adjetivo (foi ideia minha, não de Lincoln). E os olhos tornaram-se estrelas de cor anil tão brilhantes quanto faróis na neblina. Era simplesmente inebriante olhar para eles. Você se sentia hipnotizado, transportado para outro planeta, como se ele olhasse para sua alma.
Não acredita em nada disso porque é cético demais? Tudo bem, pesquise sobre o caso do Vale das Sombras e veja que tudo isso aconteceu de verdade, que Oliver Castanelli existiu; pesquise mais um pouquinho e veja que a aparência dele mudou. Essas coisas aconteceram e ninguém jamais poderá dizer que não porque estão registrados na imprensa. O mundo em que vivemos é cheio de mistérios e segredos e se você nega, você é um idiota.
Pan obviamente não possui um vocabulário grande suficiente para descrever as características de Oliver de forma tão apaixonante, mas não quer dizer que as estou inventando. Eu sei que Oliver era assim porque eu conheci Oliver, eu toquei em Oliver, eu conversei com Oliver e olhei para ele por tempo suficiente para me certificar de que seus olhos eram quase que literalmente estrelas. Mas essa é outra história da qual não falarei.
Nicholas, você sabe por que Oliver não morreu naquela floresta?
Sei. Mas isso não é da conta de ninguém.
Vamos voltar a Oliver e Pan. Ollie se tornou ainda mais distraído e etéreo do que era, considerando que pela ação dos sonhos ele já costumava ser muito. Parecia estar existindo em outro plano dimensional, como se não estivesse ali de todo, ou apenas seu corpo estivesse, enquanto a alma flutuava num outro mundo. Olhar Oliver nos olhos dava às pessoas uma irremediável sensação de estranheza (quem conseguia superar isso passava a amá-lo. Ethan e eu conseguimos. Minha mãe não conseguiu). Ele começou a ser ainda mais rejeitado do que quando era apenas um Caçador de Sonhos, porque agora era um Caçador de Sonhos com cabelos brancos e olhos ardentes que falava sozinho mais que nunca. As crianças começaram a dizer que ele era imortal por não ter morrido na Floresta das Sombras, mas ao invés de zombarem dele todos o ignoravam e o evitavam porque tinham medo. Exceto Pan. Pan o amou desde sempre até o fim.
No entanto, nada dura para sempre, nem sempre as coisas acontecem do jeito que tem que acontecer e nem sempre tudo é do jeito que tem que ser. Ao longo da vida, somos obrigados a nos acostumarmos com isso para que não percamos o juízo. Ganhos e perdas podem ser facilmente assimiladas por um adulto ou por um adolescente (não conte comigo, eu tentei me matar uma vez), mas não por um garotinho de sete anos como Pan.
A verdade é que a mídia não deu indícios de que ia deixar a família Castanelli em paz após o reaparecimento misterioso de Ollie. Os moradores do Vale das Sombras, tradicionalmente reclusos e conservadores, começaram a pressionar a família para que fosse embora e levasse sua atenção consigo. Eles foram, os Castanelli de fato foram, mas nem toda a atenção foi embora. A Floresta das Sombras foi o palco do espetáculo envolvendo Ollie e ela continuava ali, branca e neventa como sempre (eu não fazia ideia de que a palavra neventa realmente existia).
Eles terminaram por se mudarem para os EUA no mesmo ano, e depois para a Califórnia, mais especificamente uma cidade chamada Piazzavuota, mas essa é outra história a qual, adivinhem, não vou contar. Esse é basicamente o fim da triste e curta história de Oliver, que descanse em paz. Ollie morreu aos catorze anos de idade de forma trágica. Fico feliz que Pan não saiba disso.
A mãe de Pan morreu pouco tempo após Oliver se mudar do Vale. Pan não sabe por que ela morreu e é impossível encontrar qualquer registro disso, a não ser, talvez, no próprio Vale das Sombras, mas eu não tenho planos de algum dia aparecer de surpresa naquele lugar, então vamos inventar uma morte. Vamos dizer que ela morreu de forma pacífica. Durante o sono, melhor ainda. Quando Étienne a encontrou (porque ninguém quererá o Pan de sete anos de idade encontrando a mãe morta), ainda estava quente. Parecia estar dormindo, com os cabelos louros embelezando seu rosto como uma moldura. Os olhos azuis que Pan nunca herdara fechados para sempre num sono tranquilo e eterno.
Sim, é uma boa forma de morrer, principalmente porque se não fosse por isso Pan ainda estaria morando no Vale das Sombras e seria uma pessoa normal, e não alguém que comia gatos para sobreviver.
Com menos renda e perdendo o laço legitimamente francês da família, Étienne foi forçado a se mudar para outra cidade (em outras palavras, os cidadãos do Vale expulsaram ele e Pan de lá). Mudou de província, inclusive, saindo da Colúmbia Britânica para uma cidade pequena no interior da Nova Escócia (Nova Escócia é aquela ilha ao leste do Canadá que por algum motivo me lembra muito Nova Iorque), onde tinha parentes que poderiam ajudá-lo a criar o filho enquanto não arranjasse um emprego, seu irmão mais velho e tio de Pan que possuía uma próspera fazenda, chamado Laurent Cargill.
Obviamente, todas as histórias precisam de vilões, e agora que o desprezível povo do Vale das Sombras ficou para trás, a vida se encarregou de trazer mais um. Você pode bem pensar que após eles se mudarem, Pan superou a morte da mãe e os problemas de aprendizado e cresceu normal e feliz aos cuidados do pai e do tio, e também que o fato de eu tê-lo achado sozinho em Lionville é mentira, mas você sabe que isso não é verdade. Você pode fechar esse relato e mentir para si mesmo, mas isso não te torna uma pessoa muito boa, torna? Eu minto demais porque tenho segredos demais. Não é saudável. Eu decididamente não recomendo.
Sobre o que eu falava? Acho que divago demais na narração. Ah, sim, o negócio dos vilões.
O novo vilão é Laurent Cargill, como não podia deixar de ser. Não sei o que causa o fato de alguns adultos serem grandes filhos da puta (acho que é porque se não fossem, não haveria história para ser contada), mas Laurent não era exceção. Ele era como uma babá malvada. Age bem com os pais e terrível com as crianças, e no caso não havia interferência paterna não porque o pai não acreditaria, mas porque a criança era incapaz de contar-lhe.
Laurent gostava de perturbar Pan. Degradava-o por ter problemas de aprendizado e parecer, basicamente, um iniciante nas duas línguas que dominava (um pequeno fato inútil, mas possivelmente engraçado: Lorenzo disse que quando uso sotaque britânico fico parecendo estar tendo um aneurisma), por ser baixo para a idade (vou relembrar o fato de que ele tem quase um metro e oitenta de altura hoje) e, acho, apenas por diversão. Sabe-se lá porque incomodar um garotinho inocente seria divertido para Laurent, se bem que minha última diversão foi gastar todo o meu precioso patrimônio em mãos nos cassinos de Vegas.
Pan, Étienne e Laurent ficaram assim durante dois anos, com pai e filho morando de favor na casa de Laurent enquanto Étienne fazia serviços sem nunca conseguir, no entanto, um emprego fixo. Às vezes trabalhava para o irmão. Não sei se havia ou ainda há alguma outra família além dos três, Pan também não sabe e Lincoln não achou nada na mente dele. Talvez simplesmente não haja ninguém. Se houvesse, creio que Étienne teria ido atrás deles para não dar trabalho ao irmão.
Quando Pan fez nove anos, Étienne conseguiu um emprego com um fazendeiro muito rico e se mudou para uma cidade chamada Camrose, na Província de Alberta, para gerir uma de suas fazendas. Era um trabalho muito melhor e muito mais remunerado e poderia significar todo o fim dos sofrimentos de Pan, certo? Certo, mas essa história não tem um final feliz. Ela não é como as outras. É como a minha. Ela nunca terá um final feliz.
É claro que você pode parar de ler aqui e fingir que ela teve um final feliz, mas isso seria (o seguinte trecho foi ditado por Lincoln) um ato orwelliano de duplipensamento. Não sei o que significa, mas parece inteligente.
Essa história não terminou feliz porque Laurent era bem-sucedido e amigo do fazendeiro que empregou Étienne, também tinha uma casa próxima à fazenda e se mudou junto ao irmão e o sobrinho. Os três passaram (voltaram) a morar juntos na nova fazenda de Laurent. E dessa vez as coisas foram diferentes, e para pior, e também foram muito iguais às que eram comigo. Como a maior parte do tempo Étienne trabalhava, passou a ter de deixar por muito mais tempo o filho com o irmão, que começou a tratá-lo pior que nunca. Apesar de Étienne estar ganhando mais dinheiro e logo estar pronto para deixar a casa do irmão, estava muito mais ausente da vida de Pan, e todos sabemos que o pai era a única coisa feliz que o menino tinha. Era antissocial e depois de Ollie, nunca mais teve amigos. Não os queria ou não gostava deles, não importa. Não é direito meu ou seu criticá-lo por isso.
Por isso que digo que ele é parecido comigo. Nossos sofrimentos, nessa ocasião, foram praticamente iguais.
Laurent não deixava Pan fazer os deveres de casa antes de terminar os deveres na casa. Punha-o para limpar a casa, como se fosse um de seus empregados, batia-o de modo que não deixasse marcas, xingava-o e humilhava-o pelos motivos que já foram citados e ameaçava-o matá-lo caso contasse ao pai. Quando penso bem, isso é uma coisa nova. Indica que Pan estava começando a deixar de ser a criança tímida e retraída que era para se rebelar contra o que lhe oprimia, mas a esperteza de Laurent causou exatamente o contrário. Pan piorou. Muito.
Os únicos momentos em que relaxava eram aqueles que passava com o Étienne. Em alguns, o pai lhe ensinava o pouco que sabia, como ler, escrever, fazer contas e caçar nos bosques ali de perto. Ele ensinou praticamente tudo o que Pan sabe hoje em dia, exceto por como aquecer uma pizza congelada no micro-ondas de modo que a massa não afine. Isso fui eu que ensinei. Não posso contar a receita, é segredo da família Hentz (é só colocar um copo d’água dentro do micro-ondas junto com a pizza).
Quando Pan fez dez anos, Étienne descobriu sobre os abusos de Laurent ao filho. Não sei como ele descobriu porque Pan não se lembra, mas esses detalhes não importam. Importa que é maravilhoso! A essa altura ele já tinha muito dinheiro e se mudou da casa do irmão para outra com o filho e os dois viveram felizes para sempre no Canadá!
Não, você sabe que não foi assim que aconteceu. Continue lendo.
Ele não tinha tanto dinheiro assim para se dar ao luxo de parar de viver sob o teto de Laurent, então resolveu tomar uma medida drástica: roubou dinheiro do próprio irmão e do patrão e fugiu em direção à Califórnia. Aqui entra uma dicotomia entre o bem e o mal, o certo e o errado, o compreensível e o incompreensível que divide muita gente. Alguns acham certo ele ter efetuado o roubo e outros acham errado, e qual das duas partes está certa? Nenhuma das duas, porque nenhuma das duas estava no lugar de Étienne para saber como foi vivenciar uma situação tão difícil.
Apenas imagine. O bem mais precioso que você tem na sua vida é seu filho de dez anos, que também é sua única ligação com sua querida e falecida esposa. Você está completamente quebrado, lentamente se reestruturando financeiramente, vivendo na casa de seu irmão e passando dias longe do filho para dar uma vida melhor… ao filho! Então descobre que ele é maltratado e que você não tem literalmente poder nenhum para impedir. O que você faz? Você faz o cacete que for preciso para isso parar.
Não julgue Étienne. Você não tem esse direito. Lembre-se que foram julgadores quem atiraram Fantine na sarjeta e, assim como ela, ele agora está acertando as contas com Deus.
Vamos voltar à Califórnia, essa linda terra (literalmente… onde não tem cidade só tem terra) abençoada por Deus e banhada de sol com belíssimas praias e toneladas de maconha, abortos e casamentos entre o mesmo sexo. Étienne planejava começar uma nova vida lá longe do irmão e do antigo chefe de quem roubara. Podia morar numa cidade pequena e viver uma vida pacata e fingir que todo o seu passado nunca acontecera, mas se houvesse sido assim eu não teria motivo para escrever esta história.
Como tanto o pai quanto o filho tinham a nacionalidade californiana, não houve dificuldades em chegar ao país (assim como não houve dificuldades para eu, Lorenzo, Lincoln e Pan sairmos dele). Agora que penso bem, uma vez que encontrei Pan em Lionville, creio que ele estava tentando chegar a Harmount. Isso só me deixa mais triste.
Étienne comprou um carro usado em Northeria, ou pelo menos é o que eu suponho, considerando que se houvesse alugado a companhia em questão teria ido atrás do veículo após sua morte e teria possivelmente achado Pan. Mais uma coisa que deveria ter acontecido, mas não aconteceu.
Dirigiu incansavelmente através do país inteiro e três condados com o filho até chegar à cidade-fantasma de Lionville no verão de 2005. Faz nove anos que isso aconteceu, e muito provavelmente o momento em que escrevo se aproxima bastante da exata data em que eles chegaram à cidade.
Étienne estava exausto. Pan estava sonolento e faminto. Decidiram parar por algumas horas para descansarem numa cidade deserta onde ninguém os encontraria. Totalmente aceitável. Mas o problema é que eles foram encontrados.
Nesse momento, Pan começou a chorar descontroladamente. Os poucos parágrafos a seguir que encerram a história demoraram mais para serem extraídos de Pan do que tudo o que eu já escrevi acima. Ele não conseguia mais se concentrar. As memórias eram dolorosas demais para ele. Demos-lhe um tempo. O fiz beber água com açúcar e tirar um cochilo. Obriguei Lincoln a deixá-lo chorar em seu ombro. Eu já disse que Lincoln detesta contato corporal? Me lembra muito Owl (Rhanys Olrwen, Massacre da Coruja, tenho certeza de que você sabe quem é). A diferença é que Owl era um assassino psicopata que matou minha namorada grávida e Lincoln é um loirinho de olhos verdes muito cínico.
Fiquei cinco minutos imaginando quão bonito ele vai ficar quando crescer, por isso vou voltar a escrever porque eu não admito sentir atração por Lincoln Spring. Em minha defesa, ele é extremamente parecido com o irmão mais velho, que era meu namorado, mas me largou pelo ex. Sim, eu sei que já comentei isso antes.
Após muitas horas de trabalho árduo, eu consegui o final da história de Pan. Durante a noite, enquanto ele e o pai dormiam no carro (não sei exatamente onde, eu não encontrei o carro quando fui a Lionville), capangas do fazendeiro para o qual Étienne trabalhava chegaram até Lionville e os encontraram. Acredito que estiveram seguindo-os o tempo todo. Pan se lembra de ter sido violentamente acordado durante a noite. Sob as estrelas, foi puxado para fora do carro e jogado no chão. Alguém pisou em seu rosto e depois o comprimiu de lado contra a terra. Dessa forma, ele foi forçado a ver dois homens colocarem Étienne de joelhos e meterem uma bala na cabeça dele.
Depois disso os homens carregaram o cadáver do pai e o filho para perto de um pequeno precipício onde havia uma escadaria que levava para baixo. Lá em baixo, encontraram uma pequena caverna e esconderam o corpo de Étienne lá. Não mataram Pan, não sei por quê. Acho que se divertiram ao ver o pequeno chorando desesperadamente sob o corpo do pai e o deixaram para morrer de fome.
Há uma casa erguida perto desse precipício, um remanescente em meio a tantas ruínas centenárias. Era lá o lugar onde Pan morava quando o encontrei e o precipício é o mesmo que vi ter um poço d’água lá em baixo. Foi tudo um golpe de sorte. Se Pan não tivesse encontrado aquele poço, teria morrido de sede. Os homens deixaram o carro de Étienne intacto, e com os suprimentos que teve Pan conseguiu sobreviver algumas semanas até que tivesse que começar a matar gatos, depois veio o inverno e os turistas trouxeram comida, que ele roubava. Ele viveu nessa rotina praticamente todos os dias até que eu o encontrasse.
A triste história desse garotinho não termina aí, apesar de tudo.
Laurent foi para Lionville algum tempo depois da morte de Étienne. Creio que estivesse procurando pelo corpo do irmão e do sobrinho, mas encontrou apenas o do irmão, porque o sobrinho ainda estava vivo. A cena estava vívida na cabeça de Pan, e ele narrou o seguinte com um desespero ardente e apavorado.
Era uma noite muito fria cheia de estrelas no céu e tudo estava escuro, pois não existe iluminação em Lionville. Pan contemplava a lua, brilhante e maravilhosa, no céu, cercada por milhões de pontinhos, quando ouviu um barulho. Olhou para trás e viu Laurent. Na época, estava quase com onze anos de idade, feroz como um felino e cheio de raiva no peito. A imagem de seu pai morto ainda não sumira de sua cabeça, e ver o rosto do tio que odiava só piorou as coisas. Isso implodiu sua mente.
É impossível saber o que Laurent queria com Pan quando seguiu em direção a ele. Talvez estivesse arrependido pelo modo como o tratara e quisesse levá-lo de volta ao Canadá, uma vez que tudo o que fizera no passado acarretara na morte do irmão. Ou talvez quisesse matar o sobrinho para que o crime de assassinato nunca viesse à tona. Você pode pensar o que quiser, fica a sua escolha, porque não dá pra saber.
Pan o atacou. Cheio de ódio, atacou o tio e empurrou seu corpo contra o precipício. Laurent cambaleou, desesperou-se e finalmente pisou no nada. Caiu no chão vazio dez metros abaixo e morreu na queda. Pan desceu as escadas e após olhar para seus orbes vazios, arrastou o corpo do tio para a mesma caverna onde estava sepultado o de seu pai, criando uma tumba dividida por dois irmãos, como Elizabeth I e Maria I.
Quando estive no topo desse precipício, Lorenzo me disse que sentira a morte perto daquela caverna. Eu pensava que havia cadáveres de gatos, mas não era verdade. Havia os corpos de dois irmãos, ambos brutalmente assassinados, um mandatoriamente e outro pelo sobrinho.
Não preciso dizer que esse foi o fim do sobrenome Cargill.
Eu, Nicholas Hentz, Lorenzo Barcarolli e Lincoln Spring encontramos Pan vivendo em Lionville no dia 26 de agosto de 2014. Levamo-nos conosco durante nossa perseguição continental em busca do meu irmão Ethan Lemnsack. Não posso dizer onde ele está porque eu mesmo não sei, mas acredito ser aqui, em Las Vegas. Não posso dizer quem o sequestrou porque se ele ainda estiver vivo, eles o matariam, mas eu sei quem foi e eu farei o possível para destruir cada um deles, um por um.
E não, eu não sequestrei meu irmão. Lorenzo está aqui por vontade própria. Ele prefere morrer ao meu lado do que numa cama de hospital, sozinho e doente. É claro que eu deveria ter pensado mais nele e em seus remédios quando decidi jogar compulsivamente nos cassinos e não consegui mais parar e gastei os oitocentos mil dólares que trouxe, mas eu ainda tenho um milhão de dólares guardados em algum lugar.
Pelo menos agora eu tenho certeza de que tenho vício em jogos.
Se você encontrou esse texto e leu até aqui, parabéns. Estou terminando de escrever e logo o colocarei num envelope no esconderijo que citei lá em cima. Também vou colocar uma nota de cinquenta dólares (parte do meu último dinheiro) dentro, assim você pode tomar um café e comer um bolinho enquanto lê.
Enquanto escrevo esse parágrafo, chego à conclusão de que eu deveria ter contado a finalidade da nota logo no início do texto, então faça uma boa ação com ela e dê a alguma criança de rua.
Aliás, se você quiser vender esse texto a alguma grande corporação do entretenimento para que da história de Pan seja feito um filme ou algo parecido, vá em frente. Minhas palavras ao mundo estão aqui. Você vai ficar extremamente rico e famoso, mas não aja como eu e faça coisas malucas, como tentar se matar, gastar todo o seu dinheiro num cassino, sair em fuga pelo país com toda a polícia do mundo atrás de você ou tentar ter um caso com seu irmão.
Oops.
Como já disse, ninguém é perfeito.
Com amor,
Nicholas Hentz.
Las Vegas, 11 de setembro de 2014.
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