Como Vivem Os Anjos
63 A Rainha, Pura E Simplesmente
Notas iniciais
El rey nato.
“O rei, pura e simplesmente.”
(Palavra de ordem utilizada
por absolutistas espanhóis)
OoO
Lorenzo.
Essa voz surgiu da escuridão, e tudo a sua volta era escuridão. No entanto, não aquela com a qual estivera acostumado durante onze anos de sua vida, mas uma pior, uma escuridão densa e pesada que oprimia sua alma, esmagando-a como a um inseto. Era uma escuridão feita de Sombras que conseguira se infiltrar em seu corpo, e Lorenzo sabia que não havia poder suficiente a seu alcance para expulsá-las.
Isso não é verdade.
A voz novamente. Tentou permanecer sereno e ser racional, não havia motivos para se desesperar. De onde ela vinha? De onde poderia vir? Seria apenas criação de sua mente? Ou poderia ser de um dos azuis? Uma vez alguém lhe dissera que se ouvimos uma voz ou vemos um rosto num sonho, é porque já a ouvimos ou o vimos antes em algum lugar, mas Lorenzo se lembrava de todas as vozes que ouvira e aquela era completamente nova. E se fosse de fato um dos azuis? Eles nunca haviam lhe perturbado antes.
O que você quer?, perguntou com calma e firmeza, quase do mesmo modo com o qual o irmão falava com pessoas que queria subjugar. Não Nicholas, Ethan. Só Ethan poderia fazer aquilo. Fazia semanas que Nicholas parecia que ia ter um colapso nervoso a qualquer momento.
Eu quero que você viva, a voz respondeu. Agora Lorenzo tinha mais consciência de seu tom. Era puro e gelado, taciturno, sussurrante, mas surpreendentemente alto, melodioso como uma tempestade, mel derramado sob trovão. Essa frase surgiu de algum lugar, não soube de onde. Masculina? Ou feminina? Parecia um misto dos dois. Impossível saber ao certo.
Não posso viver, vou morrer, respondeu a única verdade que havia aceitado já há muito tempo. Tenho câncer.
Não, não tem câncer. Você tem Sombras. Havia uma tranquilidade perturbadora na voz, mas Lorenzo não saberia dizer o que exatamente o incomodava. Seria porque mesmo que estivesse calmo, o ser com quem conversava estava secretamente nervoso? Expulse-as. Expulse suas Sombras.
Como? Como expulsá-las?, perguntou. Quem é você?
Quem sou eu, ele repetiu lenta e profundamente, como se divagasse sobre algo ocorrido há muito tempo, sua voz ficando cada vez mais distante à medida que a frase se esticava, e então pareceu se desvanecer, o que foi muito estranho porque não havia nada ali que indicasse isso. Nenhum som, nenhuma luz, só Sombras negras chicoteando-se no ar como cobras, envolvendo os braços, o pescoço e a cabeça de Lorenzo com uma força opressiva. Tentavam a todo custo sufocá-lo, mas já haviam tentado antes e nunca conseguiram. Algo o protegia? O quê?
Quem é você?, sussurrou novamente, dessa vez para o vazio infinito.
Algo o acordou, algo que era real, tangível, quente e macio como seda. Sonolento, Lorenzo percorreu seus dedos pela pele lisa das costas nuas do irmão até chegar a sua nuca, onde sentiu o início do cabelo. Era estranho tocar a cabeça de Nick e não senti-la cheia do cabelo mais delicioso que Lore já sentira na vida. Agora só havia fios curtos e espetados, embora continuassem com o mesmo cheiro de antes.
— Acorde — ouviu a voz do irmão falar. Onde estavam mesmo? No trailer? Não, a cama era muito macia para estarem no trailer. Talvez estivessem de volta ao Palácio Real Hentz, fossem ricos e cercados de empregados como antes, e todo o pesadelo pelo qual passaram não fosse mais que isso… um pesadelo. — O encontro é hoje.
Ah, sim, pensou infeliz. As lembranças lentamente voltaram. Estavam em Las Vegas, no The Lancaster Resort & Casino, sob a tutela dos Lancaster, que sequestraram e aprisionaram Ethan. Havia feito amor com Nick na noite anterior, assim como em todas as outras noites de todos os dias desde que foram para a cama pela primeira vez. Ele era bem mais permissivo e submisso do que Ethan. Lorenzo já estava mais familiarizado com o corpo do irmão do meio, com quem mantinha um caso há poucas semanas, do que com o do mais velho, cujo caso já durava vários meses.
Mas Deus, sentia tantas saudades do corpo de Ethan. Era como se nunca o tivesse tocado por baixo das roupas sociais caras. Já fazia três semanas que partiram de Middleland, mas toda a sua vida anterior parecia um sonho distante.
E falando em sonhos… Lorenzo sentiu um arrepio de repente, uma carícia do invisível. A escuridão plena de seu pesadelo parecia estar voltando, aprisionando-o de novo num caixão de Sombras. Antigamente, antes do câncer, tinha pesadelos daquele tipo, e quase todos os seus sonhos eram escuros e sombrios, mas estavam muito mais frequentes agora e muito mais sinistros. E agora aquela voz. Como é típico dos sonhos, não se lembrava dos detalhes de sua conversa com ela, mas sabia serem importantes.
— Sinto tanta falta de ser milionário — Nick resmungou levantando-se. Lorenzo ficou triste com isso. Era ótimo poder tocá-lo na cama logo após acordar. — Não consigo me acostumar à pobreza, sou mimado demais para isso. Vou ter que me prostituir para sustentar você. Eu sou Fantine e você é Cosette. — Pelo modo como Nick falava, nem mesmo parecia ter sido ele o responsável pela falência temporária da família.
— Acho que vamos sair dessa. Em toda a nossa história, dinheiro nunca pareceu ter sido o problema.
— Claro que não, as coisas são bem mais fáceis com dinheiro. Tipo matar oito pessoas, só que aí podem ficar bem mais difíceis também. Mas não se preocupe. Vou me comunicar com Jules e ele vai fazer Melchior arrumar um jeito de me dar o um milhão de dólares que eu entreguei a ele para emergências. Quando isso aqui acabar, já que estamos nos EUA, quer ir à Disneylândia?
— Não.
— Por quê? Tem muitas atrações turísticas lá.
— Jura? Mal posso esperar para vê-las com meus olhos.
— Eu gostava mais de você quando não sabia falar inglês.
— Não é verdade, você me detestava. Lembra-se de quando eu coloquei uma peça de roupa na sua mochila após Ethan te obrigar a me levar ao shopping? Sei que eu disse que fiz aquilo sem querer, mas foi de propósito. Queria obrigá-lo a gostar de mim.
Lorenzo não precisava de poderes supersensitivos para saber que Nick estava ficando lentamente chocado.
— Seu maldito manipulador, como pode fazer isso?
— Como pôde maltratar um garotinho órfão de oito anos? — perguntou calmamente. Nick também era órfão, mas não importava. Lorenzo levantou-se da cama e sentou-se na beirada, esfregou os olhos com os punhos, estendeu os braços e tocou no irmão mais velho, puxando-o de volta para si. O corpo de Nicholas era sensacional. Além de seu rosto ter a simetria perfeita para dotá-lo de traços delicados e um apelo sexual agressivo e natural, todas as curvas inferiores pareciam ter sido desenhadas à mão por Deus. — Graças a Deus você não é o chefe da família Hentz ou já teria torrado toda a fortuna e se matado de fome.
— É verdade. Apesar disso, ainda temos cinco mil dólares americanos. Se voltarmos à Califórnia, vão valer uns quinhentos dólares a mais.
— Mas não voltaremos.
— Isso mesmo.
Deslizou as mãos de seu rosto para seu pescoço, onde as curvas eram perfeitas. Foi passando pelos ombros e então pelo tórax e abdômen, que depois de tantos anos de esportes ininterruptos haviam adquirido alguma musculatura, apesar da magreza de Nick. Sua barriga era completamente lisa e dura; a cintura era fina e os quadris eram largos; as pernas eram compridas e as coxas eram torneadas. Praticamente não havia vestígio de pelos em parte alguma, com exceção dos pelos óbvios do rosto. Que Deus abençoasse a disfunção hormonal de Nicholas Hentz.
É claro que ela provinha da verdadeira família progenitora de Nick, mas ele não tinha que saber isso. Até Lorenzo sabia que ele jamais poderia saber o segredo, e ainda por cima jamais poderia saber que um dia soubera dele e que fora retirado à força de sua mente. Se algum dia soubesse, Nick provavelmente entraria em colapso.
— Já é meio-dia e não temos tempo para foder de novo — ele disse com alguma decepção, gentilmente afastando suas mãos de seu corpo. — Embora eu gostaria. Vamos, vá tomar um banho. Quero encontrar Lincoln e Pan antes da hora do encontro.
— Mas será apenas às onze horas da noite.
— Eu sei, mas estou nervoso demais para parar. Se eu parar, vou pensar, e se eu pensar, vou chorar. Não quero chorar e borrar minha maquiagem. Eu comprei maquiagem ontem, avisei? E lentes de contato. Tenho que ficar irreconhecível se quiser me sentar numa mesa de pôquer e blefar com Devon Lancaster durante toda a madrugada.
Nick começou a andar pelo quarto recolhendo roupas usadas, colocando o lixo em sacolas plásticas e fazendo as malas. Era implícito que aquele seria o último dia dos dois naquele hotel. Acontecesse o que acontecesse no encontro, de bom ou de ruim, eles não voltariam ao The Lancaster.
— Acha que encontraremos Ethan hoje? — perguntou Lorenzo.
— Quer que eu seja bem sincero?
— Sim, eu não consigo mais detectar mentiras.
— Não faço a mínima ideia do que vai acontecer hoje à noite, mas eu sei que você e Pan estarão dentro do trailer com as malas prontas, com Charlie e as tartarugas, prontos para partir. E sei que se eu não voltar, vocês irão sem mim.
Caiu um silêncio incômodo entre os dois em que nenhum disse ou fez nada até que Nick resolveu quebrá-lo, informando casualmente:
— Escrevi até de madrugada ontem, na máquina de escrever, depois empacotei os registros e escondi nesse quarto. Acha que um dia serão encontrados? Se forem, espero que façam um filme e escrevam um livro sobre, mas não vão fazer o filme na HBC porque a Anhert vai ter quebrado por causa da morte de Ethan…
— Pare com isso — Lorenzo protestou indignado. — A Anhert não vai falir porque Ethan não vai morrer. Vamos encontrá-lo.
— A única coisa que mantém a Anhert viva é a expectativa de encontrar Ethan. Se não encontrarmos ele a tempo, todos vão presumir que ele morreu e a empresa irá por água abaixo. Jules é, aparentemente, uma pessoa muito competente em assinar contratos e fazer o que os advogados e diretores-gerais de Ethan mandam, mas ele não vai segurar aquele monstro capitalista para sempre. Ele não é Ethan. Ninguém é remotamente igual a Ethan.
Aquilo era verdade. Ninguém era igual a Ethan… Ninguém poderia copiar seu modo de pensar simplesmente porque ninguém o compreendia por completo. Jules não era igual a Ethan, Nick também não… e isso ficava muito óbvio quando dividia a cama com Lorenzo e os dois se despiam. Nick era calmo, paciente, ainda que da maneira dele, e fazia tudo o que Lorenzo pedia. Inclusive se pedisse para ele ser agressivo, ele era, mas não era natural. Era mais do que óbvio que ele fingia e isso tirava toda a excitação da coisa. Lorenzo não sabia como ele podia ser um ator tão bom nos palcos e tão ruim na cama. É claro que nunca lhe dissera que o achava ruim de cama, mas se perguntava como tanta gente podia achá-lo bom. Talvez por ser cego, não tivesse oportunidade de apreciar sua beleza e se apegasse mais ao fato de ele parecer uma prostituta. Gostava de fazer amor com ele, mas se tivesse que escolher, faria com Ethan para sempre. Ou com os dois. Ao mesmo tempo.
Quanto a Ethan, ele era completamente diferente. Era sexy, exigente e dominador na cama, e vinha em todas as horas do dia. Às vezes Lorenzo se preparava para dormir e Ethan vinha, despia suas roupas e o fazia ejacular como louco naquela cama enorme e vazia sem dar uma palavra. Os dias que passou dormindo com ele após o diagnóstico de seu câncer foram simplesmente fantásticos.
Mais uma vez, perguntou-se como era possível que Ethan e Nick nunca houvessem tido um caso ou algo parecido. Ambos tiveram milhões de oportunidades e era explícito que sentiam desejo um pelo outro. O que os impedia? Nicholas obviamente não se importaria de ter um caso com ele. Será que seria Ethan? Deus, seus irmãos eram tão confusos.
— Você se arrepende de nunca ter ido para a cama com Ethan? — perguntou com cuidado. Nick não parecia gostar quando Lorenzo falava sobre aquilo, mas não ia se deixar intimidar.
— Por que está perguntando isso?
— Eu quero saber.
— Sim, Lorenzo, eu me arrependo — respondeu irritadamente. — Me arrependo de não ter chupado o pau dele enquanto pude, me arrependo de ter passado treze anos sozinho com ele e de ter notado todos os sinais que ele mandava de que adoraria me comer e de ter ignorado todos.
— Por que você ignorou?
— Eu não quero falar sobre isso.
— Por que você ignorou? — repetiu agora irritado também. — Eu nunca vi uma pessoa com tanto desejo por outra quanto você por Ethan. Eu me lembro. Todas as vezes que ele o abraçava e beijava, você sentia vontade de fazer sexo com ele, eu sempre percebi isso porque era supersensitivo, mas nunca comentei nada. Com todas as chances que teve, por que nunca fez com ele, sendo que quando viu chance de fazer comigo, você nem hesitou? Eu perguntei isso a ele também e ele disse que te queria, e que nunca tentou. Por quê? Estão mentindo pra mim, por acaso?
— Por que está tão revoltado? Um banho gelado pode ajudar. — A calma na voz dele inflamou a ira de Lorenzo, mas o menor não disse nada. — Algumas coisas simplesmente não são para acontecer. Agora você pode ir tomar banho, por obséquio?
Ficou algum tempo em silêncio antes de falar:
— Eu também me arrependo.
— Do quê? — indagou Nick fatigadamente.
— Eu me arrependo de não ter feito com ele a mesma coisa que fiz com você enquanto tive a chance, e me arrependo de não ter forçado vocês dois a irem para a cama comigo ao mesmo tempo e acabado de uma vez com esse tesão reprimido incontrolável que fomentava todas as brigas e discussões que vocês tinham. Se vocês transassem mais, talvez brigassem menos. É disso que me arrependo.
— Bom saber — respondeu alegremente —, agora vá se arrumar, sim? Temos que ir ao hotel de Lincoln e Pan.
Melchior esperava nunca mais ter de voltar àquela escola miserável, não quando um assassinado foi perpetrado lá semestre passado que ele próprio testemunhara e escondera, mas foi obrigado por uma questão de força maior. Odiava quando isso acontecia, a propósito.
A Escola St. Nicholas, apesar de todo o seu resplendor e tradicionalismo enjoativamente católicos decorrentes de cento e trinta anos de existência, ficou, para a infelicidade das freiras dali, nacionalmente conhecida como a escola em que o padre que estuprou a celebridade mais amada do país Nicholas Hentz foi assassinado por sua amiga vingativa, que também acontecia de trabalhar como prostituta. Foi um baque e tanto para a velha St. Nicholas e quando os alunos mais brilhantes das famílias mais abastadas começaram a ser tirados aos baldes e matriculados na novíssima e remodelada Academia Hentz, a Diretora Mary Sandy foi substituída pela organização que comandava todas as filiais daquela escola do mundo.
Era incrível como os Hentz podiam fazer praticamente qualquer coisa e não serem pegos nunca. Nicholas entrava numa escola como um aluno normal e saía dela deixando por trás de si um cadáver, um vestiário incompleto, uma freira desempregada e uma escola centenária desmoralizada, como uma explosão em câmera lenta num filme de ação. Ethan assassinava ou mandava assassinar quem bem entendia, fazia centenas de operações empresariais ilícitas para beneficiar a Anhert e seus investidores, mantinha pelo menos uma dúzia de contas secretas no exterior cheias de centenas de milhões de dólares e provavelmente estava para estraçalhar cada membro da poderosa família Lancaster com as próprias mãos, e Deus sabia que ele não seria preso porque de algum modo se safaria ou poria a culpa em alguém.
Era basicamente assim que vivia a família Hentz. Era irritante. Voltar à St. Nicholas lembrava Melchior disso.
Era por essas e outras razões que evitava se aproximar daquela escola, mas, como já foi dito, uma questão de força maior o chamou. Essa força maior chamava-se Marco Chioren, que ainda estava matriculado na escola. Mais especificamente, na Casa Azul.
Apesar de seu desprezo, Melchior procurou apreciar a vista enquanto se aproximava do prédio do irmão menor. Pegou a Estrada Principal consciente de todos os olhares caindo sob si, controlando-se com dificuldade para não devolvê-los. Entrou no Sul, a área da escola que comportava as Casas Verde e Amarela, e passou entre os dois imensos prédios góticos. Havia gárgulas ameaçadoras no topo das construções.
Depois do Sul a estrada transformava-se numa divisória entre o Leste e o Oeste. Os ginásios e vestiários ficavam no Oeste. Melchior ficou tentado a verificar o vestiário II para ver o buraco onde Lafferty havia sido jogado, mas a área estava cercada. E não diziam que o culpado sempre voltava à cena do crime?
Melchior só percebeu que aquela escola estava dividida em quatro partes da mesma forma que os condados da Califórnia quando entrou no Norte. O coreto em que Edric Winter havia transado com Lewis Baberfield e Melchior havia conseguido a filmagem foi uma surpresa agradável. Spring também havia terminado com Nicholas ali, o que também era agradável.
Marco estava sentado do lado de fora da sala da coordenação, que ficava no térreo da Casa Azul. Seu lindo rosto estava sujo de terra e grama, o caro uniforme da St. Nicholas estava todo amarrotado e rasgado em partes impossíveis de se costurar novamente e ele usava apenas um sapato. Além disso, também havia arranhões nas costas de suas mãos e nos punhos, que ele provavelmente usou para esmurrar algum garoto que o irritara.
Quando o menino levantou a cabeça para observar Melchior sair da coordenação com sua autorização de saída, seus olhos encheram-se de fúria, mas Marco Chioren não disse nada. Isso não driblou o olhar perspicaz de seu odioso irmão mais velho, obviamente.
— Ora, não fique irritado comigo — Melchior falou com uma suavidade provocadora. — Não fui eu quem brigou com um garoto onde todos pudessem ver e levei uma semana de suspensão. Você tem que saber fazer isso. Tem que atraí-lo para fora da escola, onde não há leis católicas. Quantos anos ele tinha, aliás?
— Quinze.
— E você tem dez. Isso não foi muito inteligente.
— Eu quebrei o nariz dele e ele só fez me arranhar.
— É mesmo? Oh, bom garoto. É um verdadeiro Chioren.
— Está fazendo aquilo de novo.
— O quê?
— Está sendo condescendente comigo. Não seja condescendente comigo. Não preciso da sua pena para me dizer que sou um Chioren. Não é você quem decide se sou ou não. Eu sei que sou. E não há nada que você possa fazer para mudar isso.
O tempo era realmente a única coisa a qual Melchior não podia combater. Era engraçado pensar em como há apenas um ano e meio Marco o idolatrava mais que a própria vida e agora havia desprezo em cada sílaba que cuspia. Não estava reclamando, é claro. Sabia que seria só questão de tempo para isso acontecer, mas não se importava. Marco era imprestável. Inteligente demais para aceitar ordens e estúpido demais para ter iniciativa própria. Nesse quesito, Daemon vencia todos os outros irmãos de Melchior. Ele aceitava todas as ordens sem questionar.
— Não me importo com o que pense de mim — sussurrou quando chegaram ao portão. Tinha seus olhos fixo nos dele. Os de Marco eram violeta-azulados e brilhantes, e o cabelo era cinza-acastanhado. Parecidos com os de Melchior, mas não iguais. Nunca iguais. — E não me importo que me odeie. Mas se tem algum amor pelos nossos pais, pare de estragar esses uniformes. Você não faz ideia da fortuna que eles custam, e também não faz ideia da fortuna que custa essa escola. Você é o único da família recebendo educação particular, então faça valer a pena.
— Cale a boca. Pelo amor de Deus, só uma vez na sua vida miserável, cale a porra da sua boca.
Em outras ocasiões, Melchior teria dado um tapa nele por falar assim. Prostrou-se no meio-fio da calçada, olhando para o lado esquerdo da rua, e esperou um táxi aparecer. Ignorava totalmente a existência de Marco. Algo lhe dizia que aquela seria uma longa espera.
Em dado momento, sentiu-o empurrando-o violentamente para o meio da rua. Melchior já esperava algo do tipo, então desequilibrou-se apenas um pouco, deu dois passos desajeitados para frente e voltou ao exato local em que estava com e elegância de um lorde. Como se nada tivesse acontecido.
A diferença é que agora a voz de Marco ecoava em seus ouvidos, e ele também parecia estar chorando. Até parecia ser um garoto de dez anos.
— Por que você está fazendo isso comigo? Por que você parou de me dar atenção? Para se dedicar àquele imbecil do Daemon que não sabe fazer nada direito? Eu sou um gênio como você e sou o que mais me pareço com você, como é que você pôde parar de falar comigo? Como… — A voz de Marco ficou embargada demais nesse momento. Melchior permitiu-se virar para trás e observá-lo com um olhar de pena. Ele estava de joelhos na calçada com a cabeça baixa, deixando todos os seus cabelos encaracolados a mostra. Secava os olhos com as costas de uma das mãos. Levantou o rosto de novo. Seus olhos ficavam ainda mais bonitos quando molhados. — Melon, por favor, eu imploro… volte a ser meu irmão. Melon… eu te amo. Eu te amo mais que tudo. Me ame também. Por favor.
Era um pedido razoável. Melchior fingiu meditar sobre a questão por alguns segundos, depois sua consciência decidiu que seria melhor mostrar algum sentimentalismo e obrigou seus olhos a ficarem marejados, mas não o suficiente para derrubarem lágrimas. Ele se ajoelhou para ficar da altura do irmão e beijou-lhe o nariz, então abraçou-o.
— Eu te amo também — sussurrou em seu ouvido. Marco se arrepiou. Melchior tocou sua orelha com a língua e a deslizou pela região, arrancando-lhe um gemido de prazer. Beijou-o lá, depois nas bochechas e por fim deu-lhe um selinho cheio de paixão.
Nunca esteve tão mecânico.
Ethan estava começando a ficar sinceramente incomodado de estar preso àquela cama, cercado por máquinas médicas caríssimas e por todo aquele branco enjoado. Já fazia duas semanas que sua rotina não mudava. O garoto cujo nome nunca descobrira vinha três vezes ao dia para as refeições e atualizações sobre a situação em que se passavam. Há muito que ele admitira estarem em Las Vegas, mas Ethan não abriu a boca sobre saber exatamente onde estavam.
— Então meu irmão também cruzou a fronteira — comentou olhando para o tablet que ele acabava de tirar de suas mãos.
— É o que a polícia acha, mas não se preocupe — ele respondeu com sua voz curiosamente controlada. — Não há nenhum indício de que ele esteja em Las Vegas, muito menos em Nevada. A polícia vai levar algum tempo para rastrear Nicholas até aqui. Seus irmãos são mestre em disfarces.
Bem, Nicholas era um ator e Lorenzo podia mudar o sotaque para se adequar a qualquer nacionalidade. Eles com certeza teriam feito algo assim. Pelo menos era o que Ethan achava. Era o que Ethan faria. Esperava que Nick estivesse agindo com juízo. Nick… Deus, como sentia saudades dele. Ethan chegou à conclusão de que não se lembrava da última vez que ficara tanto tempo separado do irmão. Tanto tempo sem olhar para seu rosto de último leão dourado. Sem abraçá-lo ou sentir o cheiro de seu cabelo. Uma coisa terrível estava acontecendo também: estava começando a se esquecer do rosto dele.
Seus últimos dias vinham sendo tomados pelo tédio, o que lhe deu oportunidades de pensar e refletir sobre sua vida e sobre a de seus irmãos. Sobre o término de seu relacionamento secreto com Nicholas, por exemplo. Pensava nos prós e contras daquele ato. Perguntava-se se realmente valera a pena. Pior: perguntava se conseguiriam cumpri-lo. A perspectiva de viver sem poder amar Nick do jeito que queria parecia estupidamente impossível. Era irritante que pudesse mudar de opinião após três semanas de cárcere.
— Quando é que Devon Lancaster vai acabar com essa farsa? — perguntou ao garoto, que se preparava para ir embora com seu almoço. — O que vocês fariam se por acaso a polícia batesse nas portas desse caminhão e forçasse vocês a abrirem todos os containers? Não conseguiriam arrumar uma boa desculpa para explicar a presença de um garoto sequestrado, conseguiriam?
Ele olhou-o furioso com seus olhos castanhos que não faziam jus a sua raiva. Era isso que Ethan estava tentando conseguir. Algum contato humano que destoasse de um frio e gélido robô programado para repetir tudo o que lhe fora dito.
O garoto aproximou-se da cama. O controle das correntes estava pendurado por um cordão em seu pescoço, mas Ethan não tinha ilusões de que conseguiria pegá-lo. Mesmo se conseguisse, o garoto já havia lhe avisado que podia fazer soar um alarme a hora que quisesse, e se isso acontecesse todas as trancas do container se fechariam e possivelmente pessoas lá fora seriam alertadas.
— Acha mesmo que seria possível você fugir daqui por meios comuns e ordinários? Seu estúpido arrogante! — Então ele deu-lhe um tapa no rosto. Doeu, mas não foi surpreendente. Ethan o vinha provocando desde que ele lhe dera banho de esponja. Era difícil não fazer isso. O garoto realmente tinha mãos habilidosas. — Esse container está em cima de meia tonelada de dinamite e existe um dispositivo eletrônico ligado a tudo isso que te mandaria pelos ares se você tentasse sair.
— Entendo, mas alguém teria que ativá-lo à longa distância. Se eu saísse sem ninguém ver…
Ethan parou de falar. Os olhos castanhos do garoto, antes brilhantes e congelados, haviam perdido foco. Era como se uma película de vidro fosco os houvesse coberto. Seus lábios estavam entreabertos e mudos e os poros estavam abertos. Todos os pelos de seus braços estavam eriçados. Ethan também sentiu algo. Era mais como uma grande energia se acumulando dentro de sua cabeça que se esticava para frente e acertava aquele menino. Sentia-se completamente conectado a ele, quase como se compartilhassem suas mentes.
— Qual seu nome? — perguntou. Sua pergunta não lhe pareceu nada mais que um mísero sussurro quase inaudível, e a resposta dele também.
— Eles me chamam de Honey. — Sua voz estava hesitante e vazia, mais robótica que o normal, como se alguém falasse através dele. Lágrimas começavam a rolar de seus olhos. Ethan começava a sentir os seus próprios começarem a arder como brasas, mas se piscasse tudo aquilo se interromperia. — Não sei meu nome verdadeiro.
— Aproxime-se.
De sua garganta saiu um grasnido desesperado enquanto ele dava passos lentos para a frente e se inclinava para a cama. Ethan ergueu a mão até onde pode antes de ser segurado pela corrente e arrancou o controle do cordão do pescoço dele com um puxão. Deve ter doído, mas o garoto — Honey? — não deu um pio. Seus olhos estavam vermelhos e lacrimejantes.
— Agora vá.
Ele andou em direção à porta de costas, sem desviar os olhos dos de Ethan. Quando chegou ao batente, Ethan finalmente piscou, interrompendo o contato ocular. O garoto piscou novamente, tonto e confuso, mas sem se lembrar de um único segundo do que acabara de acontecer. Meio desorientado, virou-se para a saída e desapareceu na escuridão do compartimento de carga do caminhão.
Ethan não fazia a mínima ideia do que havia acabado de acontecer, mas de uma coisa sabia: tinha em mãos a chave para sua liberdade.
Levou pelo menos metade de um minuto precioso para descobrir onde clicar no pequeno e moderno controle para soltar suas correntes. Cada segundo contava, já que a hipnose acabara e o garoto — Ethan não podia se acostumar a chamá-lo por seu nome ou ele descobriria o que acontecera — logo perceberia a falta do controle.
Quando conseguiu se soltar, pulou da cama, o que se revelou um enorme erro. Após três semanas sem andar, suas pernas não funcionaram e ele simplesmente foi ao chão. Estavam atrofiadas, as duas, e com o surpreendente baque de movimentos começavam a formigar. Ethan mordeu o lábio e se arrastou sentado até a bancada do canto. Estendeu a mão e pousou o controle lá, depois arrastou-se de volta à cama e cobriu os tornozelos com os lençóis para que ele não os visse descobertos. Com alguma dificuldade, enrolou as correntes soltas de volta em seus pulsos para dar a impressão de que estavam acorrentados, mas antes disso limpou o suor da testa com as costas da mão.
O garoto voltou poucos segundos depois. Ainda parecia meio confuso e tonto. Deu uma olhada crítica pelo quarto até seus olhos pararem no controle tranquilamente repousado no balcão.
— Eu deixei isso aqui? — ele indagou sem olhar para Ethan. Não parecia estar perguntando para ele em especial.
— Sim, você o tirou do pescoço quando eu pedi para que você se desnudasse. No início você parecia bem animado com a expectativa, mas depois mudou de ideia. — A voz de Ethan estava impregnada de sarcasmo, mas em tudo havia um toque de verdade. Não iria se incomodar se aquele garoto realmente decidisse fazer algo do tipo.
Ele o olhou com a mesma coisa de sempre no olhar: nada. No entanto, era óbvio que estava com raiva. Quando se convive com alguém por algum tempo você invariavelmente absorve alguns dos traços de personalidade da pessoa, assim como aprende a decifrar suas emoções sem necessidade de palavras.
— Volte a dormir. É o melhor que você pode fazer.
O garoto pegou o controle do balcão e deixou o container, sem suspeitar de nada. Ethan estava livre.
Nicholas proibira Lincoln Spring de torturar Pan, mas não significava que não pudesse brincar com ele enquanto tivesse a chance. Não apenas era divertido como também fazia-o sentir-se poderoso por ser mais inteligente que um garoto de dezenove anos que parecia ter cinco. Era divertido vê-lo ficar extasiado com as lâmpadas do abajur se acendendo e apagando e então se queimando ao tocar no vidro quente.
No entanto, ao decorrer dos dias, as coisas começaram a mudar, principalmente depois do interrogatório de dez horas que Nicholas vinculara contra Pan. Era um exagero falar assim, já que os três concordaram com aquilo, mas do jeito de Lincoln era mais divertido.
As mudanças começaram quando fizera aquela coisa terrível que jamais seria perdoada por Nicholas se ele viesse a descobrir, embora Lincoln só tenha se dado conta disso depois de fazer a coisa em si. Depois do interrogatório e de conhecer a fundo a história de Pan, uma ideia surgiu em sua mente, mas simplesmente não conseguiu julgá-la como sendo ética ou não, de modo que fez o que fazia nesses casos: deixou sua dúvida para lá e fez.
Estavam todos cansados. Lincoln manipulara Nicholas para que ele tirasse um cochilo antes de voltar ao The Lancaster com Lorenzo e, enquanto ele dormia, sentou-se ao seu lado, tocou em sua testa com dois dedos, fechou os olhos e concentrou-se. Para fazer aquilo, Lincoln imaginava-se dentro de um tubo sendo sugado aonde queria; no caso, à mente de Nicholas. Pensou que veria superficialidade e depressão, mas o resultado foi muito mais sinistro. Viu as trevas mais escuras que já vira na mente de alguém.
Já tinha conhecimento do que primeiro surgiu em seus olhos. Uma garota alta de cabelos negros sangrando numa praça — Meera Cinneto —, uma garota loura pálida com a cabeça enfaixada e os olhos dourados fechados para sempre — Carmenia Goldenschild em seu funeral —, uma outra garota loura idêntica à primeira indo embora num avião — Victoria Goldenschild —, e um garoto loiro de olhos verdes deixando-o sozinho num coreto — seu glorioso irmão, Edric Spring.
Nada disso foi surpreendente, mas inevitavelmente Lincoln sentiu seu coração começar a aquecer e encher-se de compaixão por Nicholas. Ele era uma pessoa muito triste, mas será que aquelas quatro decepções amorosas podiam explicar tamanha quantidade de trevas em sua alma, ou como Lorenzo chamava, Sombras?
Foi então que lembrou-se da expressão de Nicholas quando Pan começou a falar sobre o Vale das Sombras e Oliver Castanelli. Procurou-o ali, leve como o ar, pura essência vagando por suas faculdades mentais. Achou-o. Fitou-o nos olhos, e ele parecia fitá-lo de volta, não Lincoln nos olhos de Nick, mas o próprio Lincoln, como se soubesse que ele estava ali, o que não fazia sentido, uma vez que era apenas uma lembrança.
Oliver Castanelli só durava três meses naquelas memórias — excluindo-se alguns sonhos ocasionais —, e quanto mais assistia, apesar de ser bonito e etéreo, mais Lincoln pensava que jamais chegaria a compreender Nicholas por completo. Então anoiteceu. Uma noite sem estrelas esquecida por Deus surgiu imperturbável em relação aos horrores que ocorriam na Terra. Através dos úmidos olhos do Nicholas de onze anos, viu a chacina terrível que as Pessoas perpetuaram em Oliver e Ethan. Sentiu seu coração apertar como se fosse o dele, sua mente pensar como se fosse a dele, suas pernas correrem como se fossem as dele. A tempestade que se formou na cabeça do menino quando ele chegou àquela casa branca e vermelha no final da Rua Boulevard trovoou na cabeça de Lincoln também.
E esse é o resumo do que teve que acontecer para Lincoln Spring finalmente ver aquele garoto loiro, Nicholas Hentz, como a pessoa maravilhosa e linda que ele era.
Quando saiu de sua mente, Lincoln contemplou seu rosto adormecido por alguns momentos. Achou-o extremamente bonito, coisa que nunca havia acontecido antes. Acariciou-o com lentidão, odiando-se seriamente pelo que estava fazendo, mas também sem se importar.
Desde então, os pensamentos de Lincoln vinham recheados da presença de Nicholas. Ele nunca sumia. Pensava ter se apaixonado por ele, mas se lhe contasse como isso aconteceu ele jamais lhe perdoaria, como já foi dito anteriormente.
Além disso, suas emoções o irritavam. A primeira vez que tivera emoções tão fortes assim, desde que podia se lembrar, fora quando foi expulso de casa e encontrou-se sem esperanças ou destinos, tendo ido parar onde Nicholas o encontrou. Em dado momento, reencontrou Jules e comentou casualmente onde estava e o que andava fazendo. Ele se chocou e prometeu ajudar-lhe, coisa que realmente fez quando mandou Nicholas à sua procura. Então ele veio e o levou… emoções de novo. Tentava não pensar nisso, mas era quase impossível. Lincoln amava Nicholas, assim como amava Lorenzo e Pan, só que também detestava gostar das pessoas. E agora começava a amar Nicholas de outro jeito. Às vezes pegava-se com raiva de Ethan Lemnsack por tê-lo possuído daquele jeito.
Ninguém nunca lhe dissera quão difícil seria a adolescência.
As outras coisas que descobriu também o irritaram. Por exemplo, a verdade sobre a morte de Lafferty Winter. Por que eles não lhe contaram? Não confiavam nele? E o motivo de Ethan ser sequestrado, o verdadeiro envolvimento de Devon Lancaster nisso. Havia outros detalhes sobre a vida de Nicholas — a depressão, a tentativa de suicídio e a anorexia — que o tocaram do mesmo jeito. Mas havia outra coisa, uma coisa que o enfureceu ao ponto de fazê-lo tremer fisicamente de ódio. Foi quando viu Lorenzo nu em seus braços, todas as noites desde o sequestro de Ethan, no trailer e no hotel, e em como ele o amava apaixonadamente. Era a terrível sensação de ciúmes.
— O que é um cassino? — Pan perguntou-lhe em dado ponto com os grandes olhos castanhos brilhando de felicidade. Lincoln havia roubado livros e revistas do hotel e trazido para que ele pudesse ler. Às vezes pedia para ele ler em voz alta e tentava controlar o riso ao ouvi-lo gaguejar.
— É um lugar espaçoso e cheio de luzes, normalmente nos primeiros andares de um hotel de luxo, decorado em vermelho e dourado onde tem umas máquinas que devoram todo o dinheiro de quem entra lá.
— Então por que as pessoas entram?
— Porque ocasionalmente as máquinas ficam cheias e vomitam todo o dinheiro que roubaram em uma única pessoa, que sai de lá rica. Todo mundo espera ser essa pessoa. Nicholas esperou, embora seja mais rico que todo o universo, e assim perdeu todo o dinheiro que usávamos para não passar fome. Não sei o que seria de nós se as contas desse hotel já não estivessem duas semanas adiantadas. Adiantá-las foi ideia minha, a propósito.
— Nick dará um jeito.
— Chame-o de Nicholas, não de Nick.
— Por quê?
— Sei lá. Acho que quando as pessoas não têm muitas preocupações na vida, elas inconscientemente se obrigam a se irritar por coisas banais. — Não que Nicholas no momento não tivesse nada com o que se preocupar, mas o Nicholas criança que era o menino mais feliz do mundo, até ser estuprado por Lafferty Winter, é claro, já não gostava de ser chamado de Nick por qualquer um que não fosse Ethan. — Será que ele se irritaria se soubesse que eu entrei na mente dele e roubei os segredos mais misteriosos e importantes da família Hentz?
— Como você entrou na mente dele?
— Do mesmo modo que entrei na sua. Pela porta da frente.
Houve uma batida na porta da frente. Lincoln estava deitado na cama de barriga pra cima com a cabeça para fora dela, então teve uma leve sensação de tontura quando se levantou rápido demais. Caminhou até a porta, onde bateu de volta três vezes. A pessoa do outro lado bateu três vezes novamente, o que completava o código. Quando Lincoln abriu a porta, Nicholas revelou-se triunfantemente. Ou melhor, não era Nicholas, era Dylan Strauss com Elliott por trás.
Nicholas usava uma echarpe no pescoço e um sobretudo escuro, óculos escuros e um gorro escuro também. Lorenzo estava parecido, mas sem o sobretudo. Devia estar fazendo pelo menos trinta graus lá fora e ambos estavam pingando de suor.
— Vocês por acaso precisam tomar um banho? — perguntou. A perspectiva de ter Nicholas nu a poucos metros de si era interessante.
— Não adianta — ele retorquiu tirando os acessórios. — Vou suar novamente pelo nervosismo. Quanto tempo falta até o encontro?
— Dez horas — respondeu Lorenzo pacientemente. Lincoln olhou-o com frieza, incomodado por ele não poder ver ou perceber isso e se incomodar também. Se admirava que ainda conseguisse andar.
Nicholas deixou o gorro, a echarpe e o sobretudo com Lincoln na entrada. Antes de checar o corredor para ver se alguém espiava do lado de fora, enterrou o rosto naquelas roupas e aspirou o cheiro delicioso dele.
Não havia ninguém no corredor, apesar de haver câmeras de segurança. Era estranha a situação que passavam. Embora perseguissem os Lancaster, estes os impediam de serem pegos despistando a polícia com pistas falsas que os levavam a centenas de quilômetros de distância. Incrível.
— Tem sobras do almoço na mesa, se vocês quiserem — comentou com os dois irmãos ao voltar ao quarto. Foi de propósito. Sabia que Lorenzo não conseguia comer praticamente nada há dias.
— Estou nervoso demais para comer — murmurou Nick, nervoso demais para se sentar também. — Lorenzo, coma alguma coisa.
— É espaguete. Não gosto de espaguete.
— Como não gosta de espaguete? Você é italiano! E faz questão de nos lembrar disso todos os dias.
Lorenzo murmurou algo mal humoradamente em italiano, mas nenhum deles pode entender.
— Qual o plano de vocês? — ele perguntou sentando-se elegantemente na poltrona e obviamente tentando mudar de assunto. Lincoln franziu as sobrancelhas e deu graças a Deus por estar se sentindo atraído pelo outro irmão. Não gostar de qualquer ser humano além de Nicholas Hentz já era essencialmente ruim demais. Aliás, Lorenzo era italiano e Lincoln tinha ascendência alemã, e todo mundo sabe o que acontece quando esses povos se juntam.
Nicholas começou a explicar:
— Às dez horas e meia da noite nós vamos sair desse hotel e fechar a conta. Colocamos todas as malas no trailer estacionado na garagem e dirigimos de volta ao The Lancaster, onde eu vou deixá-lo num estacionamento perto da rua. Lorenzo e Pan ficarão dentro do trailer. Lincoln virá comigo, mas agiremos como se não nos conhecêssemos. Ele obviamente não pode jogar no cassino, então só poderá entrar até certo ponto, mas a missão dele é vasculhar os pensamentos de todos os homens que pareçam seguranças dos Lancaster para tentar descobrir se aquilo não é uma emboscada.
— E se for? — indagou Pan. O vocabulário dele havia aumentado.
— Então ele vai me avisar gritando algo como: Ei, aquele não é Nicholas Hentz? Os Lancaster não vão poder fazer nada comigo se todos estiverem olhando para mim. E, acredite, todos vão estar.
Todos ficaram em silêncio por algum tempo. Lorenzo e Lincoln tentavam processar aquela informação para descobrirem se realmente era o que haviam ouvido; Pan estava satisfeito com sua pergunta respondida, mesmo que fosse impossível para ele entender o contexto; Nicholas esperava a reação dos dois garotos calado. O verdadeiro sentido do plano dele veio à tona logo.
— Você vai se revelar? — perguntou Lorenzo.
— Só se houver problemas — respondeu o irmão dele.
— Mas, se você se revelar… você vai ser preso. E eu serei deportado.
Nicholas assentiu, o que foi uma idiotice porque Lorenzo não poderia ver, então reconfirmou oralmente.
— E quanto a mim e Pan? — Lincoln perguntou aborrecido por ele provavelmente não ter pensado nisso.
Ele deu de ombros com tristeza.
— Vocês não fizeram nada de errado. No pior dos casos, você pode dizer que eu o sequestrei também e será mandado de volta para casa. Você é inteligente demais para deixar que seus pais o maltratem de novo ou voltar a ser um aviãozinho. Não faço ideia do que poderá acontecer com Pan.
— Mas você vai para a cadeia — adicionou.
— É, vou. Acho que Jules também vai. Mas quem se importa? Lorenzo já terá morrido e eles com certeza irão matar Ethan se isso acontecer…
Lorenzo e Lincoln engoliram em seco, angustiados demais para ficarem calmos. Lorenzo disse:
— Então estão dizendo que se o psicopata que sequestrou nosso irmão e estuprou e assassinou o namorado dele à sangue frio nos trair, toda a nossa família irá por água abaixo?
Nicholas não respondeu nada. Estava de cabeça baixa. Lincoln estava furioso com aquilo, mesmo sabendo ser necessário e que se tivesse de acontecer, Nicholas acabaria revelando ao mundo o envolvimento dos Lancaster no assassinato de Oliver Castanelli e os destruiria também… mas do que adianta a morte de um inimigo quando não se está vivo para vê-lo sofrer? Não era incrível que Nicholas pudesse ser preso por algo que não fez enquanto Ethan se safou de algo que realmente fez?
Por fim, Lincoln decidiu matar aquele clima pesado.
— Então, ontem eu estava entediado e achei um dos quartos do hotel aberto e vazio, acho que os inquilinos haviam fugido. Enfim, achei todos os oito volumes de Harry Potter em HD e temos pouco mais de nove horas para matar até o encontro.
— Você roubou o aparelho de DVD deles também? — Nicholas indagou olhando para a TV do quarto. Havia um aparelho de DVD lá que não existia da última vez que ele aparecera.
— Respondo se me deixar chamá-lo de Nick — respondeu alegremente.
— Vamos assistir.
Jules du Pont estava sozinho num dos quatro elevadores principais do Palácio Real Hentz, dirigindo-se ao nonagésimo quinto andar. Com a cabeça encostada na parede, fitava o chão. Os cabelos loiros caíam pelo rosto como uma cascata. Seu pescoço doía; havia uma pontada insuportável de dor na nuca e outra na base das costas. Por que Ethan nunca contratou milhares de assistentes para fazer o que Jules estava sendo obrigado a fazer no momento? Perguntou-se como ele estava lidando com três semanas longe do trabalho. Devia estar a ponto de enlouquecer.
Perguntou-se também onde estava Nicholas. Rezavam as lendas que ele havia atravessado a fronteira. Um guarda o havia reconhecido num veículo recreacional com três outros meninos, todos muito jovens, cruzando a fronteira com o estado de Nevada, mas esse era só mais um de outras dezenas de guardas que o haviam reconhecidos em diferentes partes da fronteira da Califórnia com os Estados Unidos, todas longes demais para que fossem verdade. Alguns o avistaram até no México.
Jules sentia uma vontade absurda de ligar para ele e confirmar a veracidade dos boatos, mas sentia medo de que algo pudesse acontecer. Os Lancaster podiam ter rastreado o celular dele ou mesmo a polícia. Ou algo assim. A única coisa a fazer era esperar que ele ligasse de um telefone público. Não havia requerido o dinheiro de Melchior, então tudo devia estar bem.
Também queria dizer que ele foi indicado ao Prêmio Emmy de melhor ator em série dramática pelo papel que fizera em Lympharia.
O elevador parou no último andar. Jules atravessou o hall e abriu a porta para o suntuoso escritório de Ethan apenas para se deparar com Melchior lá. Ele estava sentado na escrivaninha de Ethan com um grosso dossiê nas mãos. Por algum motivo, aquela visão fez sua espinha gelar.
— Boa tarde — ele cumprimentou-o com um sorriso afável e uma voz amaneirada. — Sei que pediu que eu não viesse a esses andares, mas eu preciso falar com você sobre uma coisa. Nicholas se comunicou comigo.
A essa altura ele já havia se levantado da poltrona presidencial e Jules já havia ocupado seu espaço. Olhou para o dossiê em suas mãos.
— Não tente ler isso — Melchior falou. — Não vai entender. É linguagem médica sobre meu projeto de identificação de câncer. Parece chinês, mas é mais difícil.
— E presumo que você entenda.
Ele deu uma risadinha. Sentou-se na cadeira de frente à escrivaninha e colocou os pés em cima dela. Por que é que ele nunca tirava aquele sobretudo, nem quando estava num local de temperatura ambiente?
— Eu decidi que queria aprender e aprendi, então agora eu entendo. São as boas partes de ser autodidata. As ruins é que você sempre pensa que o mundo não te acompanha rápido o suficiente. Lorenzo Barcarolli é assim, você devia falar com ele sobre. Isso é, se…
— Sim, se ele voltar antes de morrer. Eu entendi essa parte. — Por algum motivo, o excesso de trabalho lhe deixava mal-humorado. — Você disse que Nicholas se comunicou com você? O que ele disse?
— Eu tenho que admitir que apesar de na maioria das vezes achá-lo burro como uma porta, ele tem lapsos surpreendentes de inteligência. Ele me mandou uma carta, assinada como Dylan Strauss. Como deve saber, Dylan Strauss é um personagem de um livro que escrevi ano passado. Achei curioso e abri. Quer ver o conteúdo?
Ele lhe estendeu um envelope aberto. Jules pegou-o e abriu a carta.
“Olá, caro amigo!
Lembra-se de mim? Tenho certeza que sim, após ficar madrugadas acordado para me escrever em menos de um mês após a morte da sua coruja de estimação. Ela ainda está viva na minha mente, branca como a neve, com grandes olhos azuis… como você a chamava, mesmo? Rhanys?
Bem, gostaria de informar-lhe que apesar de você conhecer Dylan Strauss como o irmão mais velho, eu agora sou o do meio! Descobri que tenho um irmão mais velho, quão interessante pode ser isso? Ele tem cabelos escuros e grandes olhos azuis bem assustadores. Chama-se Devon. Estou indo ao encontro dele no dia 11 de setembro, mas uma coisa terrível e engraçada aconteceu.
Eu estava com meus dois irmãos mais novos, Elliott e Lincoln, aqui na Cidade dos Pecados, quando aquela nota de cem dólares que você me mandou de presente de aniversário, na manhã do dia 27 de agosto, pouco antes de eu partir, foi levada pelo vento! Você acredita? Todo o meu dinheiro se foi!
Pena, pena.
Enfim, só gostaria de avisá-lo que logo vou precisar acessar nossa conta bancária conjunta, e eu ficaria feliz se você, de algum modo bastante rápido e seguro, me informasse o número dela. Talvez através do nosso querido e andrógino amigo.
Com amor,
Dylan N. H. Strauss.”
— Impressão minha ou ele me chamou de andrógino?
— Isso não importa. Me pergunto se ele sabe que minha série o fez ser indicado ao Óscar da televisão. Vamos decifrar essa carta, aqui, comigo. — Melchior pegou a carta novamente. Jules sentiu um leve tom condescendente em sua voz. — O primeiro parágrafo é sobre o meu personagem Dylan Strauss e uma clara referência a Owl, que descanse em paz.
— Ele não matou sua irmã e seu tio?
— Bem, todos nós cometemos erros. Continuando, ele ter dito que agora é o irmão do meio foi um modo de contar que ele na verdade é Nicholas, que é o irmão do meio, afinal. Depois cita Devon Lancaster, aquele filho da puta. Ele encontrar-se-á com ele no dia 11 de setembro, o que é lindamente simbólico no nosso país vizinho. E Cidade dos Pecados é como é conhecida Las Vegas. Ele se encontrará com ele em Las Vegas. Já lhe disse que os Lancaster possuem um hotel-cassino lá chamado The Lancaster? O parágrafo seguinte me faz entender que foi assim que Nicholas perdeu todo o dinheiro que tinha. Num cassino.
— Oh, Deus — Jules lamentou. — Lembro-me quando Winter uma vez comentou comigo que ele era um jogador compulsivo. Então ele precisa do dinheiro que lhe deu. O N. H. no nome do seu personagem são as iniciais dele. Acho que esse é o nome falso que ele está usando. Dylan Strauss.
— Sim, provavelmente Elliott trata-se de Lorenzo. Sabe se esse Lincoln que ele cita viria a ser Lincoln Spring?
— Provavelmente. Mandei-os a ele quando quiseram documentos falsos. Nicholas não hesitaria em levar Lincoln consigo quando o encontrou. Acho que ele não suportaria ver alguém tão parecido com Spring trabalhando com um traficante. E ele precisa do dinheiro.
— Sim, precisa, mas há alguns problemas aqui. Ele não pode ir ao banco e retirar um milhão de dólares em dinheiro sem que ninguém lhe faça perguntas, e também não pode usar cartão de crédito ou seria facilmente rastreável. O que fazer, então?
— Eu não sei. Não consigo pensar direito quando meu pescoço dói.
Melchior pôs a carta na escrivaninha, levantou-se e deu a volta nela, indo parar por trás da poltrona de Jules. Ele não teve tempo de protestar antes que Melchior começasse a massagear seu pescoço.
— Eu não… pare com isso.
— Você está estressado e isso é compreensível. Mas se recusar a relaxar é uma grande estupidez. Pare de reclamar.
Tinha de admitir que aquilo fazia bem. Parou de tencionar os ombros e deixou seu pescoço naquelas mãos macias que pareciam ser feitas de nuvens. Ele o estava deixando com uma curiosa sensação de embriaguez ao tocá-lo nos ombros e pescoço, e quando suas mãos subiram à nuca e todo o seu corpo se arrepiou, ele soltou um leve gemido.
Jules cobriu a boca com as mãos.
— Não é o primeiro que faz isso, sabe — Melchior sussurrou. Quando o louro olhou para trás e fitou seus olhos violeta e ardentes, todas aquelas semanas sem ter contato com nenhum garoto o acertaram com violência.
Levantou-se.
— Acho melhor você ir. Depois pensaremos em como mandar o dinheiro a Nicholas. Por telefone.
— Você me decepciona.
— Por quê?
Melchior usou apenas um dedo para encostá-lo à escrivaninha e então encostou seu corpo no dele. Os dentes de Jules tremiam e ele tinha que se agarrar à mesa para não cair no chão. Seus olhos cinzentos e enevoados estavam grudados em Melchior.
— Saia. Se afaste de mim.
— Faz mais de três semanas que ele se foi. Talvez você tenha de aceitar que Ethan possa não voltar. Eu sei que gostava de Nicholas antes de gostar dele, mas depois de Spring e das gêmeas Goldenschild, ele parou de gostar de loiros.
— Pa-pare com isso. — Seus lábios estavam a centímetros de distância.
— Eu quero beijá-lo. Você quer me beijar?
— Se eu quero beijá-lo? — perguntou incrédulo. — Claro que quero. Você é o garoto mais bonito que já vi na vida. Mas eu também quero me casar com Ethan algum dia, e isso não vai acontecer se eu traí-lo com seu pior inimigo.
— Oh, por favor. Eu tenho dezesseis anos. Não tenho como ser o pior inimigo de ninguém. — Melchior separou seus corpos. — Parabéns, você passou no teste. Com certeza é um bom namorado para Ethan.
Jules fitou-o irritado.
— Saia daqui.
— Está bem. Eu tenho que ir, de qualquer jeito. Vou pegar um voo essa tarde para Los Angeles, para uma convenção de escritores. Há milhares de nerds fissurados por fantasia medieval que precisam de mim por lá. Só espero conseguir ir, tenho me sentindo péssimo ultimamente. Acho que estou com gripe estomacal, ou algo assim. Quando eu pensar sobre o dinheiro, ligo para você.
Melchior fez uma reverência e beijou as costas da mão de Jules, então, enquanto se afastava, beijou a palma da própria e soprou o beijo para ele antes de deixar o escritório triunfantemente.
Agora entendo porque Ethan se afastou dele, pensou quando Melchior foi embora. Ele é completamente doido. Havia mandado um e-mail a John Fauntleroy falando sobre o desejo de Melchior de se revelar um Hentz, mas ele ainda não respondera. Faria o que ele dissesse, mas, de qualquer forma, Jules posicionava-se contra aquilo. Gostaria de ter Nicholas ali.
Quando deixou o Palácio Real Hentz, Melchior não foi para o aeroporto, muito menos para casa, como todo o resto do mundo esperava. Pediu para o motorista do táxi deixá-lo na esquina de duas ruas de um bairro abastado de Middleland chamado Vanderbilt Hills. Quando o carro foi embora, andou dois quarteirões até parar em frente ao gramado de uma grande mansão de arquitetura antiga.
O sol já havia se posto há algum tempo. Não havia ninguém nas ruas. Os únicos sons ouvidos eram os dos carros ao longe, dos regadores automáticos molhando os gramados daquelas lindas casas, às vezes das risadas das famílias felizes em segurança.
Melchior avançou pelo gramado da casa de John Fauntleroy. Como andava observando seus movimentos há semanas, sabia que ele não estava, assim como sabia que Lauren Mayfair e Liam Stonem também não estavam em casa. Os três mais Jules du Pont trabalhavam o dia inteiro para gerir a empresa que Ethan geria sozinho em muito menos tempo. Fantástico.
Era culpa de Jules que estivesse sendo obrigado a fazer aquilo. Se ele tivesse aceitado suas investidas, Melchior seria capaz de manipulá-lo de forma muito mais sutil, lentamente colocando-o contra os advogados de Ethan e obrigando-o a fazer o que quisesse, sem que precisasse de qualquer outra medida drástica, mas o imbecil era estrito e rígido como uma freira. Imprestável. Ethan escolhera bem por quem se apaixonar. Era uma pena que, depois de John Fauntleroy, ele fosse o próximo obstáculo.
Melchior deu a volta pela casa. O quintal era cercado por uma grande cerca de madeira, mas uma das tábuas estava solta por baixo, de modo que foi por baixo dela que passou. Havia uma grande piscina com uma cascata de pedra artificial e um enorme gramado com mesas de vidro. Todas as janelas do primeiro andar estavam fechadas e apagadas, mas havia algumas do térreo que, apesar de fechadas, estavam acesas. Fauntleroy possuía três empregadas, como Melchior bem sabia.
Muito bem, vamos fazer. Silencioso como o vento e leve como um gato.
Tirou os sapatos e ficou apenas de meias. Com cuidado, Melchior despiu o sobretudo, mas antes tirou o pequeno recipiente transparente que guardava no bolso e enfiou-o na calça. Aproximou-se da varanda cuidadosamente, checando todo o local à procura das funcionárias. Passos, sussurros, qualquer coisa. Nada. Ou elas estavam longes demais ou Fauntleroy havia contratado freiras cistercienses como faxineiras.
Por sorte, a porta principal da varanda estava apenas recostada. Melchior invadiu a casa pisando leve como uma pena, atento a cada mínimo detalhe. Era muito iluminada onde as luzes estavam acesas, com candelabros enormes de cristal, mármore nas paredes e no piso. Ouviu algo parecido com metal batendo contra metal. Provavelmente uma das empregadas estava na cozinha. Cheiro de comida. Fazia o jantar.
Oh, Deus. Se ela está fazendo o jantar, quer dizer que Fauntleroy está vindo logo. Tenho que me apressar.
Seguiu em frente até o hall. Havia duas escadas paralelas que dobravam uma curva, cada uma para um lado, antes de chegarem ao primeiro andar. Melchior adiantou-se para cima sem parar de olhar para baixo. Quando chegou ao primeiro andar, onde estava tudo escuro, finalmente respirou.
Seguiu pelo corredor principal para o lado esquerdo. Não enxergava direito, mas não ousava acender as luzes. Sempre que via uma porta, abria-a com cuidado e checava o interior. Nenhum dos recintos parecia ser o quarto principal. Havia duas bibliotecas e um escritório imensos, uma sala de descanso e uma de TV, além de vários quartos de hóspede. John Fauntleroy não era casado e nem tinha filhos, graças a Deus.
Quando chegou ao fim do lado esquerdo, deu meia-volta e refez o caminho. Era hora de checar o lado direito.
Foi num dos corredores desse lado que Melchior cruzou uma esquina e deu de cara com uma das empregadas.
Aquela era muito velha, a mais velha das três, e vestia um uniforme impecavelmente branco com detalhes azul-escuros, com um avental e um laço no pescoço. Era baixa, não devia ter mais de um metro e cinquenta e cinco, a pele amarelada e os cabelos muito brancos levemente crespos presos num coque apertado. Segurava um espanador. Era impossível saber a cor de seus olhos, por causa da escuridão, mas Melchior sabia que eles o fitavam.
Parou no mesmo lugar, estático. O chão parecia de repente muito gelado. Seu coração martelava no peito com violência, como um tambor. Sua boca estava entreaberta, sem soltar um único som. Ele estava paralisado. No entanto, a velha apenas pareceu olhar por trás de seus ombros, depois voltou a espanar o vaso que já espanava antes.
Ela é cega, pensou quase chorando de alívio. Por isso está no escuro.
Com uma lerdeza mortal, Melchior se encostou na parede, deixando o corredor livre. Contou mentalmente pelo menos três minutos antes que uma voz vinda do térreo chamasse seu nome e ela saísse do corredor. Passou a apenas trinta centímetros de distância de Melchior, mas não pareceu notá-lo. Era bom saber que nem todos os cegos eram sinistros como Lorenzo.
Melchior respirou profundamente e seguiu para o fim do corredor. Quase todas as portas eram iguais, mas a do fim era de madeira escura e detalhada. Era óbvio que era o quarto principal, mas não se demorou lá. Seguiu direto ao banheiro particular. Ali, Melchior tirou uma pequena lanterna do bolso e abriu o armário de remédios. Checou todos os frascos antes de achar o que procurava.
John Fauntleroy era diabético, dependente de insulina injetável diariamente. O que Melchior estava fazendo era muito simples. Pegou o frasco de insulina que já estava no armário de remédios e o esvaziou na pia, então o encheu novamente com o líquido do frasco que trouxera no bolso da calça. Também era insulina, mas aquela havia passado da validade já há alguns dias. Quando os familiares mais próximos de Fauntleroy descobrissem que ele havia se injetado insulina fora da validade e que a caixa do medicamento indicava uma data posterior a real, processariam a companhia farmacêutica que havia embalado aquele frasco. Melchior não se importava.
A companhia pertencia à Anhert.
Agora só havia uma coisa a fazer. Sair da casa e bater na porta para ter uma longa conversa com John Fauntleroy.
Já estava muito tarde. Era hora de deixarem o hotel.
Os quatro meninos desceram sutilmente ao estacionamento enquanto Lincoln ia fechar a conta. Lorenzo e Pan se sentaram no sofá do trailer enquanto Nick se trancava no banheiro e começava a preparar a maquiagem. Suas sobrancelhas eram naturalmente impecáveis, graças a Deus, e ele não tinha pelos no queixo. Após limpar o rosto cuidadosamente com água e sabão, usou uma esponja para aplicar uma base líquida em toda a face, tomando cuidado nas bordas para não haver linhas visíveis. Com um pincel macio, passou bronzer nas bochechas, nariz e testa o suficiente para fazer parecer que havia saído de um bom fim-de-semana na praia. Fez linhas grossas em volta dos olhos com um lápis preto, então passou uma fina camada de corretivo nas pálpebras e completou com sombra escura. Esfumou as duas com os dedos. Passou blush nas maçãs do rosto para iluminá-lo, contornando os ossos da bochecha. Finalizou aplicando aqueles cílios falsos que tanto se obrigara a comprar e passando o batom vermelho.
Quando terminou, Lincoln já estava no trailer. Ele fitou-o intensamente e por muito tempo antes de dizer:
— Parece uma drag queen.
— Ótimo, afinal, eu estou em Las Vegas. Não há lugar melhor para uma drag queen. Me confundiria com Nicholas Hentz?
— Não, o confundiria com Conchita Wurst.
Nick deu meia-volta e enfiou-se no quarto. Vestiria um sobretudo feminino que chegava às coxas e meias-calças pretas com saltos altos. Havia comprado uma peruca feminina de cabelos escuros cortados no estilo Chanel para completar. Quando fez todo o procedimento para colocá-la e pôs as lentes de contatos azuis, fitou-se no espelho. Era uma mulher por completo. Só faltava uma coisa.
Havia comprado dois pares de brincos idênticos, mas um deles era de pressão. Cuidadosamente, tirou a safira ornada de ouro da orelha esquerda e pôs um dos brincos normais, depois colocou o brinco de pressão na direita, que nunca fora furada. O Anel da Matriarca estava em seu dedo anelar. Tirou-o e guardou-o no mesmo lugar que guardou a safira, no fundo de uma de suas malas de roupas.
Saiu do quarto.
— E agora? — perguntou. — Sou uma mulher?
— Dê um jeito na sua voz que sim, você é — disse Lincoln. — Felizmente Dylan é um nome unissex, então ninguém vai estranhar vê-lo sentado na mesa reservada a esse nome. Lembra-se de como jogar pôquer?
— Lembro-me, mas dessa vez há muito mais coisa em jogo. Você conseguiu o que eu pedi?
— Sim. É muito mais fácil encontrar gente que faça identidades falsas nas cidades grandes. Usei a foto que você pediu.
Lincoln entregou-lhe sua segunda identidade falsa, destinada a uma moça de dezoito anos chamada Dylan Strauss. Era inteligente aumentar a idade e podiam fazer isso sem problemas, mesmo considerando a razoavelmente baixa altura de Nick.
Eram quase dez e meia da noite. Do lado de fora do trailer, podiam ver a Las Vegas Boulevard iluminada como os Portões do Paraíso, com todos os seus gigantescos hotéis e cassinos de placas brilhantes. Nick não sentiria falta daquilo após aquela noite. Perguntou-se se estaria vivo após aquela noite. Se seus irmãos estariam.
Deu a partida no trailer. Ao invés de entrar na Las Vegas Boulevard, pegou a rua colateral, passando por trás dos grandes hotéis-cassinos, inclusive do The Lancaster. Por trás do estacionamento dele, havia um grande estacionamento escuro cheio de caminhões gigantescos, pertencente a uma transportadora chamada Chrysler. Sabia que Ethan havia sido transportado num daqueles caminhões, mas era impossível que estivesse ali agora. Antes de o sinal do GPS sumir, ele havia marcado o estacionamento subterrâneo do The Lancaster, mas, como Nick comprovara depois de ir procurar, era apenas um truque. Ethan estava bem longe dali, preso num lugar seguro.
Estacionou o veículo de modo que ficasse virado para os portões estranhamente abertos — o lugar parecia abandonado —, e deixou a chave na ignição. Se precisasse vir correndo, podia atravessar o estacionamento do The Lancaster, sair pelos fundos, atravessar a rua, entrar na transportadora, dar a partida e fugir em poucos segundos.
— Tomem cuidado de deixar toda essa área do trailer desobstruída — falou ao irmão e a Pan. — Não quero tropeçar em nada se sair correndo. Fiquem no máximo no sofá, mas seria bom se ficassem no quarto. Não quero que os funcionários dos Lancaster descubram que vocês estão aqui dentro. No entanto, se descobrirem…
Colocou um telefone nas mãos de Lorenzo.
— O número da polícia está na discagem rápida — disse a ele. — Se perceber estranhos entrando aqui, disque sem hesitar.
— O que devo dizer?
— Que você é Lorenzo Barcarolli.
— Pelo amor de Deus, Nick.
— Lorenzo, é melhor que você seja deportado e vá morrer em paz com parentes na Sicília do que ser capturado pelos Lancaster. Se alguém invadir esse trailer, ligue para a polícia e conte seu nome e onde está da forma mais rápida possível. Não se importe comigo. Eu posso cuidar de mim.
— Nicholas… — Ele parecia prestes a chorar. — Você se lembra de quando eu tinha oito anos e destruí a máfia italiana? Depois que Enzo Granelli foi preso e a polícia me interrogou por ter dado um tiro nele e eu cantei a canção mais linda que eles poderiam ouvir? Aposto que você se esqueceu. Bem, os remanescentes da máfia não esqueceram. Granelli pegou prisão perpétua, mas nem por isso ele deixa de ter poder. Quando eu digo que não posso voltar à Itália não é por causa das más lembranças. É porque se eu voltar, o que farão comigo não será nada parecido com o que os Lancaster fariam. A Cosa Nostra não perdoa nem esquece.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Nick ficou olhando para seu choroso irmão por muito tempo, sem conseguir falar absolutamente nada para acalentá-lo. Odiou-se por isso. Ethan saberia o que fazer, saberia o que dizer. Eu não faço ideia do que estou fazendo desde que deixei Middleland.
Decidiu beijar seus dois olhos e carinhosamente limpar suas lágrimas, então deu-lhe um abraço longo. Lorenzo pareceu ficar melhor.
Saiu do trailer com Lincoln. Não havia ninguém por perto.
— O que você acha que vai acontecer? — perguntou ao menor.
— Não sei, moça — ele respondeu tranquilamente, andando como se estivesse dando uma caminhada na praia. — Quanto é o programa?
— Cale a boca, eu não pareço uma prostituta. Aliás, você acha que fiquei bem nesses saltos de dez centímetros?
— Você não acha que as pessoas do cassino não vão estranhar uma mulher de óculos escuros num espaço fechado?
— Não, Anna Wintour faz isso o tempo todo. Eu sou Dylan, Greyson.
Ambos atravessaram o estacionamento do The Lancaster e chegaram à Las Vegas Boulevard. O êxtase era contagiante. As pessoas mais lindas do mundo andavam apressadamente para todos os lados, carros caríssimos enchiam a rua, luzes e mais luzes, cegantes como estrelas, ardiam na terra. A fachada do The Lancaster era magnífica. Tratava-se do nome do complexo em grandes letras vermelhas margeadas por uma grossa silhueta dourada, todas piscando chamativamente. Um epiléptico teria morrido ali.
— Não está sentindo vontade de jogar, está, Dylan?
— Não, Grey.
— Não te dei liberdade para me chamar de Grey. É Sr. Strauss-Avery para você.
— Lincoln, pelo amor de…
Entraram no grande recinto. O hall do The Lancaster era um salão monumental decorado em vermelho e dourado. O enorme balcão da recepção estava lotado, com recepcionistas atordoados berrando em telefones e falando com turistas em vários idiomas. De um lado podia-se entrar no hotel, e do outro podia-se entrar no cassino.
— Se me permite, a senhorita está linda — disse Lincoln olhando para Nick. — Queria saber como você sabe que sobretudo feminino com meia-calça cai muito bem com botas de couro, mas acho melhor não perguntar.
— Estou me sentindo realmente confortável dentro dessas roupas.
Do lado do cassino, havia um restaurante e um banco numa área, sendo que a dos jogos era mais para o fundo, após uma grande série de arcos. Lincoln não poderia passar dos arcos, mas, se olhasse ao longe, podia-se ver o lugar onde eram reservadas mesas de pôquer. Número seis. Faltavam vinte minutos.
— Vamos nos sentar e esperar.
Sentaram-se na mesa mais próxima à série de arcos que havia no restaurante. Toda a série de jogos estava visível. Lincoln teria uma boa visão. Falando em Lincoln, ele abriu o cardápio, passou o olho e fechou-o.
— Não há sede no mundo que me faça pagar isso tudo por uma garrafa d’água. Do que ela é feita, lágrimas dos perdedores? Será que as suas estão aqui?
Nick não respondeu. Batucava os dedos na mesa nervosamente, sem conseguir se concentrar. Esperava virar a cabeça e dar de cara com os olhos terríveis e a voz aterradora de Devon Lancaster dizendo-lhe que seu irmão estava morto. Não devia ter se livrado da arma de Lincoln antes de atravessarem a fronteira. Não devia nem ter saído de Middleland. No que pensava?
— O que você sabe sobre mim? — Lincoln indagou.
Nick fitou seus olhos verdes. Eram sinceros. Estava tão nervoso que mal aguentava falar, mas o fato de Lincoln ter deixado o sarcasmo de lado deixava-o tão feliz e aliviado que decidiu satisfazê-lo.
— Eu sei que você é um bom garoto e faz o possível para não causar mal às pessoas, mas também é frio e pode ser cruel, que é extremamente calculista e mecânico, mas cobre tudo com uma casca grossa de sarcasmo e cinismo, e mantém para si uma personalidade niilista que você adora ter e cultivar. Sei que demora para se abrir às pessoas e para confiar em estranhos, mas quando consegue você abre seu coração aos poucos, mesmo que não perceba. Você adora ser mal-educado e incômodo porque sabe que é impossível você se importar, e isso te difere das pessoas, e você gosta disso. Você gosta de ser diferente. Mas também não gosta, às vezes você só gostaria de ser um garoto de treze anos normal, e que nem sempre é fácil ser superinteligente e pertencer a um mundo que não é preparado para te receber. Sei que é difícil gostar de você, mas quando você conquista o coração de alguém, é para sempre. Sei que se importa comigo, e com Lorenzo e com Pan, e mesmo que não aceite, com Ethan, porque ele importa para nós.
Lincoln ouviu a tudo com uma expressão de pedra.
— Sei que é complexo — Nick adicionou. — E que amo você.
— Eu também amo você.
Ouvir isso o assustou. Não porque Lincoln o amasse, disso Nick sabia, mas pelo modo como ele disse. Pela entonação fina da voz, pelos olhos marejados e emocionados, pela expressão de um garoto fazendo algo que queria muito fazer, mas estava completamente apavorado. Ele não apenas o amava, ele estava apaixonado por ele. Era a última coisa que Nick queria.
— Lincoln…
— Oh, cale a boca. Conheço esse tom de voz. É o tom que você usa para ser condescendente. É o tom que vai usar para partir meu coração após ter me transformado numa bicha como você.
— Lincoln, não faça assim. Sabe que te amo.
— Hoje ainda é meu aniversário, lembra? Você acabou de estragá-lo.
— Eu gostava mais de você quando era homofóbico. Está me deixando magoado e irritado.
— Não estou pedindo que diga que também me ama do jeito que amo você aqui e agora, estou pedindo que quando voltarmos a Middleland e tudo volte ao normal, você me dê uma chance de te fazer se apaixonar por mim.
— Eu tenho dezesseis anos, você tem treze.
— Igual a você e Ethan quando…
Nick levantou-se da cadeira bruscamente, irado, e bateu na mesa. Não conseguia ouvir aquele assunto sendo comentado pela boca de ninguém. Sentia ódio quando Lorenzo insistia em fazer aquilo, mesmo sendo Lorenzo. Simplesmente não parecia certo que outras pessoas se achassem no direito de discutir um assunto tão delicado quanto o finado relacionamento de Ethan e Nicholas. Eles dois próprios nunca discutiram aquilo. Nunca sentaram-se no sofá e começaram a discutir porque faziam sexo sendo irmãos e porque nunca se importaram com isso. Ethan e Nicholas eram partes divididas da mesma alma, eles simplesmente precisavam ficar juntos para serem felizes. O sexo só tornava as coisas mais prazerosas, só isso.
— Eu nunca mais quero ouvir você falando sobre esse assunto na sua vida, está me ouvindo? — As palavras eram cuspidas de sua boca impensadamente. — Você não tem o direito porque isso não te diz respeito. Não faça de novo nem comigo, nem com Lorenzo. Você não é da família Hentz. Eu amo você, mas quero que se comporte e me obedeça. Eu vou para lá agora. Faça a sua parte.
A mulher chamada Dylan Strauss que Nick era agora atravessou o restaurante e passou pela série de arcos após enfiar sua identidade na cara do segurança. Perguntou-se se ele sabia quem ele era. Talvez fosse uma boa ideia ter mudado de nome. Não poderia ser Dylan para sempre.
Passou pelas portas fechadas do teatro do cassino, onde uma famosa comediante se apresentava. Viu celebridades ali dentro assinando autógrafos e jogando alguns milhares aqui e acolá nas mesas de black jack, roleta, dados e pôquer. Nick sentiu um ímpeto imenso de se atirar naquelas mesas, mas conseguiu controlar o nó na garganta. Quando não conseguira, perdeu todo o seu patrimônio.
O ambiente estava cheio e abafado. Nick caminhava com o queixo erguido e uma expressão obstinada e orgulhosa no rosto; remexia os quadris mais provocativamente do que normalmente o faria, mas fazia o possível para esconder a falta de seios. O sobretudo ajudava, é claro, e ele amava aquela meia-calça, não podia deixar de admitir. Por que era tão fácil andar de botas de salto alto?
Os jogadores começavam a se reunir na mesa de pôquer número seis. Havia dez lugares na mesa, quatro dos quais já estavam ocupados por homens desconhecidos que fumavam. Nenhum levantou o rosto quando Nick sentou-se na confortável cadeira listrada onde a placa dizendo Dylan Strauss se prostrava. O barulho do cassino era perfeitamente audível de lá. Tirou um cigarro do maço que guardava no sobretudo e o acendeu com o isqueiro Zippo. Agora sentia-se mais relaxado. Faltavam dois minutos para as onze horas.
Havia dois lugares vazios ao seu lado. A sua esquerda, uma placa indicava o nome Devon Lancaster. O nome trouxe-lhe ódio. Nick perguntou-se o que exatamente estava para acontecer. Perguntou-se se valia a pena matar Devon ali naquele momento e ir preso por isso. Talvez não.
Havia uma TV fixa à intersecção da parede ao teto que mostrava um canal de celebridades. Nick assistia fixamente quando viu sua própria imagem na TV, seguida pela visão de um prêmio que conhecia bem.
Meu Deus, que maldita hora para ser indicado ao Emmy e voltar à TV.
Por fim, o último integrante da mesa apareceu, e acompanhado de um segurança corpulento, mas não era Devon. Era uma mulher. Não era muito alta, tinha cabelos escuros e olhos azulíssimos, pele clara e vestia quase a mesma coisa que Nick, exceto que não tinha óculos e que tirou o sobretudo antes de sentar-se na cadeira. Aparentava estar chegando à meia-idade. Foi ela quem distribuiu as fichas.
— Senhores, o Sr. Lancaster não pode comparecer hoje — ela anunciou. O segurança trocou a placa que dizia Devon Lancaster para uma que dizia Liane Z. T. Chamrey. — Texas Hold’em, cash game. — Aquela era a modalidade do jogo. Todos os homens pagaram em dinheiro o valor correspondente à aposta inicial do jogo. Nick percebia que não trouxera consigo um único centavo quando Liane Chamrey virou os olhos para ele. — Seu buy-in já está pago. Tire os óculos, não são permitidos aqui.
— Obrigada. Vou tirar.
E então apenas seus lábios se moveram, e Nick conseguiu lê-los:
— Parabéns pela indicação, Nick.
Meia hora antes da conversa entre Liane Chamrey e Nicholas Hentz acontecer, ela interagiu com Ethan Lemnsack.
Pouco antes, Ethan estava dentro do container. O caminhão em que estava preso estava estacionado por trás do hotel-cassino The Lancaster. Andava massageando cuidadosamente suas pernas para que voltassem a funcionar. Após o formigamento parar, conseguira mexer os dedos dos pés e os joelhos, que doíam terrivelmente. Fez alguns exercícios para recuperar o resto do movimento e, quando percebeu, mais ou menos às dez horas e trinta e cinco, ficou de pé pela primeira vez em mais de três semanas.
Uma desconfortável sensação de tontura o invadiu, mas se segurou no batente da cama e caminhou até a saída. Havia uma alavanca simples que Ethan precisou de uma força monstruosa para puxar para baixo. Perguntou-se como Honey fazia aquilo com tanta facilidade, então se lembrou que sempre costumava ouvir um clique elétrico antes de ele ir. Talvez aquela porta estivesse ligada a algum sistema eletrônico, que muito possivelmente alertaria se a porta fosse forçadamente aberta.
Ele estava certo. E nem sabia que a poucos metros dali, seu irmão e Lincoln preparavam-se para sair do trailer.
A algumas centenas de metros dali, dentro do prédio administrativo da Transportadora Chrysler, Liane Chamrey observava silenciosamente uma luz vermelha piscar na parafernália eletrônica ligada àquele caminhão. Estava sozinha num escritório estéril de metal, ciente de que o encontro entre Devon e Nicholas estava prestes a acontecer em vinte e cinco minutos. Devon estava no segundo andar daquele pequeno prédio, e só Deus sabia o que fazia.
Liane fez uma ligação. Era uma mulher ágil e calculista de pensamento rápido que jamais hesitava ou perdia tempo quando queria fazer algo.
A voz que atendeu era familiar.
— Ele de alguma forma conseguiu se soltar das correntes — informou. — Está tentando sair. Nicholas ainda não foi avistado no cassino.
— Então faça-o parar, ainda não é a hora da libertação. Os Lancaster ainda têm um trunfo gigantesco contra os Hentz. Ethan reencontrar Nicholas é uma passagem só de ida para a cadeia. Para os dois.
— Como prefere que eu faça isso?
— Use sua imaginação, conhece-os melhor que ninguém. Cuidado para seu disfarce não ir abaixo.
— Devon não vai descobrir que eu trabalho para os Goldenschild, Cornelius. Me toma como seu braço direito. Melinda vai fazer a mesma coisa, mais cedo ou mais tarde. Eu ganharei a confiança dela para dar tempo de nós a destronarmos quando salvarmos Ethan.
— Eu sei que ele não vai — respondeu Cornelius Goldenschild. — E não é esse disfarce do qual falo.
Liane desligou. Respirou fundo e levantou-se da cadeira, ajeitando suas roupas elegantes. O cabelo escuro estava preso num coque apertado, os olhos azuis estavam cansados e foscos, seus pés doíam dos saltos, mas teria que deixar as dores para depois. Tinha apenas quarenta e um anos, mas sentia-se muito mais velha.
Tirou uma caixa branca de metal de debaixo da mesa. Ela possuía uma grande cruz vermelha na tampa. De dentro, Liane extraiu um líquido transparente de um frasco com uma seringa. Era difícil ter de fazer aquilo, mas necessário. Também era estranho que para ajudar quem queria, primeiro teria de servir àqueles que desprezava.
Tirou os saltos antes de deixar o prédio administrativo e, protegida pela escuridão da noite, caminhou silenciosamente como um fantasma através do estacionamento. Ethan estava preso no caminhão número dois. Aproximava-se dele quando notou algo estranho. Havia um trailer estacionado perto do portão, mas não era um trailer qualquer… não podia ser.
Correu para o caminhão mais ou menos no momento em que Ethan Lemnsack conseguiu sair pela porta do passageiro. Após sair do container, como a traseira estava bloqueada e impossível de ser manualmente aberta, ele abriu a janela de vidro que ligava o cargueiro à cabine do motorista e passou através dela. Nada mais fácil e simples. Não havia como esperar menos inteligência de um Hentz.
— Ethan — sussurrou na escuridão.
O garoto olhou para trás e arregalou os olhos ao vê-la.
— Fique longe — ele disse com a voz implacável, sem um pingo de medo. Liane fitou seus olhos muito negros, admirada com sua escuridão. Há muito poder neles, pensou. A seringa estava escondida dentro de suas roupas. Precisava se aproximar com cuidado e enfiá-la no pescoço dele para impedir que matasse a si próprio e aos irmãos. — Ou eu vou machucá-la. Falo sério.
— Eu não duvido — falou com a voz controlada. Se Ethan caminhasse uns cinco passos para trás e virasse a cabeça para a esquerda, veria o trailer. — Não quero machucá-lo. Na verdade, trabalho para salvar você. É uma pena que, depois, você não se lembrará de eu ter-lhe dito isso.
Ele a fitou fundo nos olhos. Os dele eram absurdamente lindos.
— Depois de quê?
Liane sentiu algo em seus olhos. Começaram a arder e pesar, mas nem tanto assim. Então sentiu uma queimação quase invisível em sua cabeça, uma leve tontura, um arrepio na nuca. Ficou surpresa.
— Está tentando me hipnotizar? — Houve risos. — Não sabia que podia fazer isso. Não vai conseguir, minha criança. Eu não sou Honey.
No entanto, seu riso não durou. Como Liane temia, Ethan andou os cinco passos para trás e virou a cabeça para a esquerda, onde esperava ver o portão de saída. Sua maior infelicidade foi que isso foi exatamente no mesmo momento em que Nicholas e Lincoln deixavam o trailer, sem imaginarem que Ethan estava ali, a cinquenta metros de distância.
Os olhos de Ethan se arregalaram. Sua boca abriu-se para gritar o nome de Nick, mas as palavras nunca saíram da garganta. Liane enfiou a agulha da seringa em seu pescoço e injetou de uma vez. Fez efeito em um segundo. Ethan desmaiou como um bebê em seus braços. Ela o arrastou de volta para a frente do caminhão, deitando-o cuidadosamente lá. Odiava-se por ter que enfiá-lo de volta naquele maldito container, mas havia outro problema.
Se Devon deixasse o prédio para ir ao The Lancaster, como era esperado, veria o trailer, estranharia e olharia lá dentro. Como Liane esperava, poderia encontrar Lorenzo Barcarolli, já que ele não saíra do trailer com Nicholas. Seria como ganhar na loteria. Nicholas poderia resistir a se entregar por um irmão, mas não conseguiria perder os dois. Ela teria de agir rápido.
Voltou ao prédio e subiu as escadas para o segundo andar, à procura de Devon. Ele tinha costumes estranhos. O segundo andar era usado apenas pela família Lancaster — curiosamente, igual ao Palácio Real Hentz —, e todos os quartos tinham um propósito para ele. Ele fazia suas refeições em um deles, bebia e fumava em outro; dormia em um e repousava em outro; lia num quarto diferente de onde a biblioteca se encontrava; coisas assim.
Liane passara quase dois anos aprendendo os costumes de Devon Lancaster à pedido de Cornelius. Quando ele descobriu que os Lancaster vinham a ameaçar alguns dos negócios mais antigos dos Goldenschild e a esfaquear alguns membros da família pelas costas — nos sentidos metafórico e literal —, decidira pôr um fim nisso com um plano lento e ardiloso, e para isso chamara Liane Chamrey, que conhecia como uma velha amiga que não via há algum tempo. Introduzira Liane no Departamento de Relações Intergovernamentais de Sacramento quando Melinda Lancaster era prefeita da cidade. Na época, seu filho Devon trabalhava como diretor do departamento, apesar de ter apenas vinte e cinco anos. Liane, que começara como sua assistente, logo subiu na escala hierárquica para se tornar vice-diretora e então diretora do departamento inteiro quando Devon deixou o cargo para ser assessor da mãe, que candidatara-se ao governo do Condado de Northeria — e posteriormente vencera. Em 4 de julho 2013, quando ela foi eleita governadora, no mesmo dia em que a família real viajara para Middleland e Ethan levara um tiro no ombro para salvar o então príncipe Senn, Devon chamara Liane para trabalhar consigo.
Como Cornelius, o homem mais inteligente e poderoso do mundo, previra, Devon a tornara sua mão-direita.
As coisas que Liane viu e descobriu sobre os Lancaster desde então foram perturbadoras, mas não tanto quanto as que ela própria já havia visto antes de toda aquela novela começar. Sua vida pessoal era um mistério, seu passado era uma lenda, nem Devon nem Melinda jamais haviam descoberto nada além da história falsa que ela criara, mas suas suspeitas jamais se confirmaram após a segunda parte do plano de Cornelius se concretizar.
Quando você se torna um político, sua vida vira um livro aberto, e assim foi com Melinda Lancaster. Na mesma semana em que se tornara governadora, vários escândalos relacionados à fabricante de armas de sua família, a Lancaster Army, vieram à tona, mas jamais chegaram a atingir a família porque Liane pessoalmente cuidou de todos eles. É claro que eles jamais descobriram que Cornelius mandou levantar aqueles escândalos e então ele mesmo os encobriu. Eles não precisavam saber. Só ver os resultados.
Nada acontecia na política da Califórnia sem que Cornelius Goldenschild soubesse ou autorizasse. Defensor da monarquia, apoiara um decreto já julgado fracassado para que a maioridade do país descesse para dezesseis anos, para que assim a coroação de Senn não ficasse tão ridícula quanto parecia. O projeto de lei voltou para o Parlamento e foi aprovado. Liane sabia que Melinda Lancaster almejava o cargo de Primeira Ministra do país. Mal sabia que jamais o teria.
No mês anterior, em agosto, Devon a chamara e dissera que iria a Middleland para representar a mãe na festa de aniversário de um ano da Anhert Corporation. Nem ela, nem Cornelius, nem Melinda jamais poderiam prever o que ele planejava fazer. Na época, quando Liane acordou na madrugada do dia 27 de agosto com um telefonema de Devon dizendo-lhe o que havia feito, pensou ele havia bebido demais, e então ele explicou. Então Melinda ligou e explicou-lhe também.
A brincadeira doentia que Devon fizera em 2012 com a suposta companhia de assassinos que Ethan contratara para matar oito seres humanos era a maior calamidade que Liane poderia jamais prever. Podia imaginar Melinda rangendo os dentes ao descobrir que ele mesmo havia contatado Ethan em 2013 para falar-lhe de um suposto nono integrante no massacre promovido a ele e a Oliver Castanelli apenas para ver se ele queria ou não matá-lo. Cornelius e Melinda podiam prever o apocalipse, o arrebatamento e volta de Jesus Cristo, mas não podiam prever o que o filho psicopata dela era capaz de fazer.
Muito habilmente, Nicholas Hentz os impedira de pegar o jatinho de volta a Sacramento, mas então a mente louca de Devon agiu mais uma vez. Usara a Land Rover de Ethan para transportá-lo até a cidade-fantasma de Lionville — Liane estava no carro com ele — até que pudesse acomodá-lo no container de um dos caminhões da Transportadora Chrysler. Mais uma coisa que ela desconhecia, aquele container-prisão.
Provavelmente, Melinda Lancaster só não pedia a cabeça dele porque era seu único filho. Era uma mulher autoritária e fria de mais de cinquenta anos que não tolerava desobediência, mas não conseguia controlar o próprio filho. Aquela loucura já durava mais de três semanas e todos os dias ela ordenava que Devon levasse Ethan Lemnsack à Sacramento para que fizessem o que tinham de fazer.
Liane o impedia de fazer isso. Sabia que no momento em que chegassem àquela cidade, Ethan estaria condenado à morte.
Ela só não sentia mais pena dos Hentz porque era obrigada a ver quase todos os dias cenas como a que via naquele exato momento, na sua frente.
Devon estava sobre o garoto nu, só de cueca. Ela não sabia seu nome, mas ele era chamado de Honey o tempo todo. Devon clamava serem primos, mas não precisava ser verdade. Ele poderia muito bem tê-lo comprado em algum lugar, pois era simplesmente uma joia. Cabeça completamente vazia, idolatria imensa pelo — primo? — mais velho, nunca questionava, apenas obedecia cegamente. E era um ótimo brinquedo sexual.
Apesar disso, ele chorava silenciosamente todas as vezes que Devon o chamava para a cama. Apesar de tudo, não devia ser agradável ter doze anos e ser molestado por um necrófilo psicopata e ultraviolento que também era estranhamente atraente.
— Preciso falar com você — ela anunciou em voz alta como se estivesse no meio de uma reunião importante. — É importante.
— Liane, minha querida, estou no meio de uma reunião importante. — E mordiscou o pescoço de Honey, que apenas tremeu na cama. Ele ficava deitado paralisado, braços grudados aos lados do corpo, como uma dona-de-casa dos anos 50. — Por que não se junta a nós?
— Eu devo ir ao cassino — disparou. Era muito difícil fazer Devon entender alguma coisa. Convencê-lo, então, era quase impossível. — Meus olheiros descobriram que a Sra. Lancaster mandou parte de seu pessoal ao cassino. Parece que ela quer levá-lo a Sacramento de um jeito ou de outro. Pretende matar Ethan e Nicholas hoje, inclusive.
— E acabar com a diversão?
— Eu sei, querido. — Ela sentou-se na cama ignorando o garoto deitado. Seu olhar era o de uma corça e sua voz era rasgada e sedutora. Devon não era interessado em mulheres, mas gostava de se sentir desejado. — É por isso que você deve partir hoje, agora, se possível. Deixe que eu lide com Nicholas Hentz e mostre a ele com quem ele está brincando de gato e rato. Vá para Nova Iorque, como nós planejamos. Ele eventualmente chegará lá. E eu chegarei antes.
Ele olhou-a nos olhos. A maioria das pessoas achava difícil fazer isso por muito tempo porque os dele eram assustadoramente claros e penetrantes, mas ela nunca tivera essa dificuldade. Talvez por isso tivesse conseguido que ele a amasse. Ela conseguia olhá-lo nos olhos de uma forma como só Melinda conseguia, só que seu olhar não estava cheio de ódio e repressão como o da velha.
— Se achar aquele italiano, mate-o.
Liane assentiu. Embora soubesse onde ele se encontrava, não tinha intenção alguma de matar Lorenzo Barcarolli.
Foi assim que Devon Lancaster e Honey foram embora da Transportadora Chrysler dirigindo o caminhão onde Ethan estava — novamente — desacordado no container pelo portão dos fundos e jamais chegou a bater os olhos no trailer. Nem Nicholas Hentz nem Ethan Lemnsack nem Lorenzo Barcarolli jamais chegaram a saber o quão perto da morte estiveram e como foram salvos por uma mulher misteriosa que trabalhava para salvá-los ao prolongar seu sofrimento chamada Liane Z. T. Chamrey.
— Seja sucinta. Vá logo ao assunto. Onde está Devon?
Todos os outros jogadores da mesa eram contratados para terem ouvidos fechados e olhos vidrados nas cartas. Estavam na mesa mais elegante e afastada do salão de pôquer e conversavam livremente. Há alguns dias, Liane diria que mataria para ter uma conversa com Nicholas Hentz, e agora tinha essa oportunidade. Ele era uma pessoa fascinante. Ela quase sentiu algo como… orgulho? Não podia pensar nisso.
— Devon foi embora, como você pode ver — ela respondeu com calma sem tirar os olhos das cartas. — Seu disfarce está fantástico. Ninguém jamais poderia reconhecê-lo.
— Após passar a adolescência inteira ouvindo sobre como eu pareço uma garota, decidi fazer isso valer alguma coisa. Por que estamos aqui?
— Estamos jogando uma ótima partida de pôquer. Você paga?
Nicholas olhou para o homem a sua esquerda, depois para a aposta na mesa e então para seu jogo de cartas. Liane era especialista em expressões faciais e podia ver com clareza que seu jogo era horrível. Ele não apenas pagou como dobrou a aposta. Ela cobriu.
De repente, sentiu a mesma sensação de quando Ethan tentou hipnotizá-la mais cedo. Não havia como ser Nicholas porque ele não mantinha contato visual, mas alguém tentava invadir sua mente. Onde estava aquele garoto com o qual Nicholas saíra acompanhado do trailer, afinal?
— Quero saber como meu irmão está. Ele está vivo?
— Ele está perfeitamente vivo e saudável. Acho que gostaria de saber que ele se recuperou bem da apendicectomia de emergência.
— É. E de morrer.
Ela ainda se lembrava de como havia recebido a notícia da quase morte de Ethan. Estava com Cornelius na hora. Havia acabado de perguntar-lhe por que protegia Ethan quando ele havia tentado fazer com os Goldenschild a mesma coisa que os Lancaster fizeram. Cornelius respondeu que Ethan não fazia nada de errado. Ele na verdade era idêntico a ele quando jovem. Ambicioso e ganancioso e com um apreço imenso pela família.
Liane quase se esquecera de que Nicholas havia namorado as duas filha gêmeas de Cornelius até que uma delas morreu no terremoto. A outra fora mandada a um internato na Suíça.
— E você, como está? — perguntou amavelmente. O montante na mesa era enorme e as três primeiras cartas haviam sido viradas. Liane olhou para sua mão. Tinha uma trinca. Os homens foram passando as apostas quando Nicholas a aumentou. Liane foi a única a cobrir. Os outros simplesmente entregaram o jogo.
— Como estou, você pergunta? — Ele quase deu uma gargalhada. — Santo Deus, você pergunta como estou, e fala sério? Estou falido e tenho outros três garotos que contam comigo para não passarem fome; meu irmão mais velho foi sequestrado e pode morrer a qualquer momento; meu irmão mais novo tem câncer no cérebro e pode morrer a qualquer momento; a polícia inteira da Califórnia está atrás de mim e agora a dos EUA também e não sei como me livrar deles se por acaso tudo isso acabar. Ah, mas está tudo bem. Eu ganhei uma indicação ao Emmy!
Estavam apenas os dois no jogo e a quarta carta havia sido virada.
— Passo — ele acrescentou.
— Passo — repetiu Liane.
A quinta carta foi virada. Liane tinha uma quadra.
— Passo — ele disse.
Ela apostou metade do que tinha. Nicholas desistiu do jogo. Liane levou todo o montante. Um dos homens agora embaralhava as cartas.
— Está agindo de modo inteligente — disse a ele. — Não foi pego nem reconhecido até agora. Algumas pessoas aqui ou ali, mas nos livramos delas rapidamente. Temos conexões em lugares que você não imaginaria.
— Por que me chamaram aqui?
— Difícil compreender a mente de Devon Lancaster, mas devo dizer que você devia agradecer por ele não estar aqui nesse momento.
— Onde está Melinda?
— Em Sacramento, onde a governadora deve estar.
— Acho que vou alterar minha rota. Vou para Sacramento matar aquela mulher de uma vez. Cortar o mal pela raiz, sabe?
Alterar a rota era literalmente a pior coisa que Nicholas poderia fazer.
— Se ousar alterar a rota, vamos matar Ethan imediatamente, e pode ter certeza de que você receberá uma cópia em HD da filmagem. Será lenta e dolorida. Depois vamos atrás de você e de Lorenzo.
— Não ousem chegar perto de Lorenzo. Ele já tem problemas demais.
— Ele é siciliano, vai aguentar.
— Não, não é, ele nasceu em Roma.
— Não, ele foi registrado em Roma, mas ele nasceu na Sicília.
— Como você sabe disso?
— Tive uma conversa com Antonella Barcarolli, uma vez.
Nicholas olhou fixamente para Liane após passar sua vez. Liane passou a dela também.
— Quem é você?
— Nós observamos e estamos sempre presentes. Isso não é apenas o lema da Lancaster Army, leão dourado. Sabemos tudo o que você faz ou que um dia poderia pensar em fazer.
— Não, não acho que sabem. Vocês se acham invencíveis, mas no final da contas quanto mais alto, maior a queda. Cairão por conta dos Hentz. Trucidaremos vocês e será como se nunca tivessem existido. Eu derrubei um governador em junho, como bem deve saber. E somos amigos íntimos do Rei Senn. Ethan é mais do que eu.
Liane entendeu o que ele quis dizer. Ora, mas isso é novidade.
— Não vou mentir, Nicholas. Gostamos de você. Você é uma pessoa fantástica e parece que sempre tem algo de novo a revelar. Talvez por isso ainda não o tenhamos matado. O que, no entanto, nos impede de fazer isso aqui, nesse momento?
— Vocês não saberem onde Lorenzo está. Isso os impede.
Inteligente. Como Ethan.
— E se eu disser que sabemos?
— Eu diria que está blefando, assim como está blefando nesse jogo de pôquer. Eu cubro a aposta.
Ela realmente estava blefando. Após a quinta carta, Nick levou tudo.
Acabou que uma hora inteira se passou desde que o jogo começara. Liane podia sentir a impaciência e angústia de Nicholas crescendo espontaneamente a cada minuto. Ele batia a mesa com as unhas, rangia os dentes, cruzava e descruzava as pernas, olhava para os lados sem parar, como um bom portador de hiperatividade deve fazer. Por vezes esquecia que era uma mulher quando os garçons passavam oferecendo bebidas e falava com a voz grossa. Não importava. Nada importava.
— Não se sente mal trabalhando para uma pessoa que fez o que Devon Lancaster fez?
— O que Devon Lancaster fez?
Sabia que ele não responderia. Não tinha coragem de contar a ninguém sobre Oliver Castanelli. Ninguém tinha, ninguém jamais teria.
— Estou cansado — disse. — E morrendo de sono. Meu irmão espera por mim, provavelmente. Ele não consegue dormir mais que algumas poucas horas por noite e está me esperando para levar o jantar. É meia-noite.
— Uma última partida, então — declarou Liane. — Eu proponho um trato. Se eu vencer a próxima partida, nós continuaremos nossa perseguição como sempre. Se você vencer… eu digo-lhe exatamente onde encontrar Ethan Lemnsack.
Ele fitou-a com seus adoráveis olhos pretos.
— Feito.
As cartas foram embaralhadas e dadas. Liane possuía um oito e um nove de ouros. Todos pagaram as apostas obrigatórias e três cartas foram viradas. Lá havia um dez de ouros, um jóquei de ouros e um ás de espadas. Nicholas apostou uma quantia absurdamente alta. Todos os outros jogadores desistiram.
— Cobre? — ele indagou.
— Cubro.
A aposta consumiu quase todas as suas fichas. Nicholas agora tinha mais do que ela. Se continuasse a apostar, seria obrigada a dar um all-in.
A quarta carta foi virada. Era um jóquei de copas. Inútil. Nicholas apostou todo o resto que tinha.
— All-in.
— All-in.
Todas as fichas dos dois estavam na mesa, em frente à última carta não virada. Liane fitava Nicholas penetrantemente, que a fitava de volta com o mesmo fervor e fúria. Ela tinha um oito, um nove, um dez e um jóquei, todos do mesmo naipe. Se a última carta não fosse o que esperava, ela perderia.
A quinta e última carta foi virada com lentidão.
Era uma rainha, e estava coberta pelo dourado dos Hentz.
Nicholas deu uma gargalhada e colocou na mesa as duas cartas que segurava na mão. Dois jóqueis, que somados aos da mesa formavam uma quadra.
— Fiz uma quadra de jóqueis — ele disse triunfantemente. — E você?
Ela quase, quase jogou as cartas por trás dos ombros e declarou sua própria derrota. Parecia obsceno querer retirar daquele rosto lindo toda a felicidade e, mais importante… alívio que aquela quadra trazia. A quadra era o terceiro maior jogo que se podia fazer naquele tipo de pôquer, mas havia um que era mais alto.
— Straight Flush.
Ela apresentou suas duas cartas à mesa e juntou-as com três das outras cinco. Oito, nove, dez, jóquei e rainha de ouros. Uma sequência de cinco cartas de mesmo naipe. Quase impossível de se conseguir e absolutamente linda de se ver. Nicholas ficou vários segundos olhando para aquela mesa bagunçada, para todas as suas fichas que se evaporaram no ar e que poderiam ter se convertido em dinheiro, que podiam suprir as necessidades do irmão menor que morria de câncer. Doía, doía sim. Poderia dar-lhe as fichas? Claro que sim. Mas quem disse que ele não suspeitaria? Se Nicholas achasse sequer por um momento que havia alguém por trás de tudo querendo ajudá-lo, desabaria. Ele pararia de tentar. Era assim que ele funcionava. Só fazia as coisas difíceis quando era estritamente obrigado.
— Foi um bom jogo — ele disse cansada, mas orgulhosamente. — Nunca havia visto um Straight Flush antes na vida. De ouros, ainda por cima. Bastante irônico, não é?
Liane tirou do bolso do sobretudo um pedaço de papel com um código numérico. Levantou-se da cadeira, empertigada.
— Esse é o código do GPS que você deve seguir de agora em diante. — Aquele GPS não era o que estava dentro do caminhão que Devon dirigia, o que continha Ethan. Devon ia para Nova Iorque e Liane não tinha intenção de deixar Nicholas se dirigir para lá ainda. — As regras são as mesmas.
— Diga ao meu irmão que…
— Nenhum recado será dado.
Virou-se e andou de costas para ele, dirigindo-se à saída do cassino, sem olhar para trás. Liane Chamrey não tinha como saber, mas por muito, muito tempo, seria a última vez que veria Nicholas Hentz em sua vida.
Lorenzo acordou com o barulho do motor do trailer sendo ligado. Sua cabeça doía e sentia-se tonto e enjoado.
— Nick?
— Sim, sou eu. Volte a dormir.
— Preciso vomitar.
— Lincoln, leve-o ao banheiro.
Sentiu as mãos de Lincoln encaminharem-no ao banheiro mecanicamente — ele nunca era muito delicado —, onde Lorenzo se ajoelhou em frente ao sanitário e agarrou-o com as duas mãos, esperando vir.
Quando tudo acabou, levantou-se e foi à pia para lavar o rosto.
— O que houve lá? — perguntou.
— Não sei. Eu simplesmente não sei. Uma mulher sentou-se ao lado de Nicholas durante uma hora e apesar de eu ter tentado entrar várias vezes na mente dela, sempre era expulso com violência. Havia uma muralha intransponível lá dentro. Tentei entrar sorrateiramente, com ferocidade, até pedir permissão! Foi humilhante. Tudo o que sei é que depois Nick se levantou e foi embora do cassino. Ele nem me chamou. Não falou nada até agora.
Lorenzo saiu do banheiro. O trailer estava se movendo.
— Para onde vamos?
— Estamos saindo do estado de Nevada — disse Nick numa voz sem emoções. — Ou vamos para Utah ou para o Arizona. Ainda não sei direito.
— Nick, o que houve lá?
— O que houve lá? Um Straight Flush, Lorenzo. Foi isso que houve lá. Eles nunca quiseram me entregar Ethan. Foi tudo para brincar com minha mente. — A voz dele começava a ficar cada vez mais instável. — Eles nunca vão nos entregar Ethan. Quando se cansarem da brincadeira, Devon Lancaster vai dar um tiro na cabeça dele.
— Nick, pare o carro, por favor.
— Não, por quê?
— Até eu posso perceber que você está correndo demais. Por favor, pelo amor de Deus. Pare esse carro. Por mim.
O veículo foi lentamente desacelerando até parar completamente. Lorenzo sentou-se no banco do motorista e colocou sua mão sobre a de Nick. Beijou-a, depois seu braço, depois o pescoço e a bochecha.
— Eu te amo, Nick, e amo tudo o que você vem fazendo por todos nós. Não poderíamos passar por isso sem você. Você e Ethan são os amores da minha vida, e mesmo que percamos ele, ainda terei você. Eu sei que vou morrer em breve, mas eu quero que saiba que vou estar pensando em você, quando acontecer.
— Claro que vai. Você vai estar comigo.
Empertigou-se no banco como um pequeno lorde.
— Eu decidi que vou embora. Você vai me entregar à polícia e eles me enviarão de volta à Sicília.
— O quê? Ficou maluco? Você vai ser morto!
— Nick, serei morto lá, aqui, em qualquer parte do mundo, porque eu vou morrer. Mas aqui, com você, só vou atrasá-lo. Tenho parentes lá, está bem? Não usam o sobrenome Barcarolli, mas são parentes, e são ricos. Por favor. Será melhor para nós três.
— Não, não vou fazer isso. Eu sei que eu deveria usar a racionalidade e que deveria fazer porque de fato será melhor para nós, mas eu não sou assim. Eu sou Nicholas Hentz e eu não penso antes de agir.
Lorenzo sentiu-o levantar-se do banco do motorista. Sua voz tinha um novo ânimo.
— E nós não vamos desistir. Lincoln, vá fazer café, toneladas e toneladas de café. Vou precisar enquanto ando em círculos nos estados americanos que por algum motivo têm formas perfeitamente quadradas. Lorenzo, quero que vá pegar o Anel da Matriarca e meu brinco de safira na minha mala de roupas, enquanto isso eu vou tirar toda essa maquiagem, trocar de roupas e parar de ser Dylan Strauss, que já está me enchendo o saco. E Pan… continue sendo Pan.
Lorenzo sorriu e dirigiu-se sossegadamente ao quarto. Não importava pelo que passassem, eles eram Hentz, e aquele era o lendário Nicholas Hentz, que jamais seria derrubado por nada nem por ninguém, que não necessitava de mais que alguns desafios e provocações para voltar a ter o velho gás. Invencível, inquebrável, incurvável… era seu irmão Nick.
A pedra enorme do Anel da Matriarca estava gelada ao toque. Lorenzo deslizou-o pelo próprio dedo, mas o anel pareceu pesado e desconfortável. Não conseguia mais ver Sombras com muita clareza, mas tinha a impressão de que ondas negras e sinistras eram liberadas daquela pedra de milhões de dólares. Bem, não importava. Eles tinham um caminhão a perseguir.
— Achou? — Nick perguntou entrando no quarto.
— Achei — sussurrou Lorenzo. Era bom ouvir de novo calor na voz estridentemente rouca dele. — E não foi só o anel. Achei… você.
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