Como Vivem Os Anjos
65 Um Jantar Com Os Mortos
Notas iniciais
Somos marionetes a dançar, presos aos cordéis daqueles que chegaram antes de nós, e um dia nossos filhos ficarão com nossos cordéis e dançarão em nosso lugar.
(A Tormenta Das Espadas
— George R. R. Martin)
Show me another pleasure like dinner which comes every day and lasts an hour.
(Charles Maurice de Talleyrand)
OoO
Ethan Lemnsack estava de luto. Era dia 2 de novembro de 2014, um ano após a morte da Rainha Henrietta Walker, a primeira Rainha da Califórnia e a monarca mulher que reinou durante mais tempo no mundo. Henrietta ainda era chamada em muitas esferas políticas e midiáticas de a libertadora e a rainha eterna. Um tanto exagerado. Senn podia, em sua intimidade, achá-la apenas uma velha cruel e rancorosa, mas sem dúvida fora uma mulher extremamente inteligente e carismática.
— Eu tenho certeza que sua estadia nesse container seria encurtada se você deixasse que eu mesmo escovasse os dentes — murmurou para Honey enquanto ele aprontava seu café-da-manhã. Não havia nenhuma pressão em sua voz, mesmo que agora soubesse ser capaz de persuadi-lo se quisesse. Tinha esse poder. — Você se importaria de substituir essa roupa de hospital por algo preto? Henrietta morreu, afinal. Mas acho que ela não era sua rainha. Devon é, não é mesmo?
Era engraçado vê-lo apavorado. Se Ethan começasse a falar algo relacionado a sua libertação, ele cobria os ouvidos e cantarolava uma música qualquer. Como de costume, jamais conectava sua visão a dele. Seria devastador se acontecesse, embora houvesse agora uma câmera no container. Ethan tinha certeza de que fora desligada no Halloween. Naquele dia amaldiçoado, sentira-se tão poderoso que poderia ser capaz de hipnotizar quem quer que estivesse olhando através do monitor. Talvez por isso não tivesse sentido o caminhão rodar naquele dia?
— Onde estamos? — Honey colocava a bandeja na sua frente. Porcelana fina, copo de cristal cheio de água gelada flores num vaso de vidro. Tudo muito perfeccionista. — Você me contou quando estávamos em Vegas.
— Não vou cometer o mesmo erro de Las Vegas.
Voz sussurrante, hesitante.
— Honey, manter um prisioneiro vivo é uma arte. Você tem que ter cuidado para que eu não enlouqueça. Solidão é muito pior que qualquer tortura física. Você tem que falar comigo antes que eu comece a falar sozinho. O que aconteceu depois de eu te hipnotizar?
Ethan também notava que ele não usava mais o colar com o controle de suas correntes no pescoço desde a confusa noite em Vegas. Afinal, o que havia acontecido? Quem descobrira seu poder? E como sabiam que se intensificaria no Halloween? Será que eles possuíam o mesmo conhecimento do lado paranormal daquele mundo cheio de anjos? Sentiu saudades de Rowan Pyatt. Ele fora um garoto maravilhoso para se ter na cama.
E é claro que Honey não respondeu. Sentou-se na cadeira ao longe, mexendo no tablet concentradamente. O menino tornara-se perito em ouvir sem escutar e ver sem enxergar. Era um robô num momento e uma estátua no outro. Bom, para o diabo com ele. Ethan não poderia deixar de falar. Era isso ou, como dissera, enlouquecer no branco infinito daquele quarto.
— Fale-me, quantas fábricas da Anhert fecharam hoje? — Enfiou o garfo na boca. Comida de primeira linha, como não podia deixar de ser. — Quanto valor as ações dela perderam? E os acionistas? Aposto que terrivelmente desesperançados. Não venderam tudo quando fui sequestrado por acharem que seria algo simples, mas não é simples vencer os Lancaster.
Achou ter visto alguma reação do corpo dele. Um levantar ínfimo de olhos ou um menear diferente da cabeça? Ora, quem se importava? Era uma resposta. Era preciso jeito para lidar com Honey. Depois de dois meses, Ethan aprendera o que ele gostava de ouvir.
— Melchior é mais imprestável do que Jules era, mas Jules sabia como manter as coisas estáveis como um curso d’água. Melchior é uma tempestade, um furacão desgovernado. Está propositalmente afundando a empresa e não há ninguém que possa impedi-lo. Agora que penso bem, foi uma ideia estúpida concentrar todo o poder em um único cargo. Foi assim que os grandes impérios do mundo antigo caíram e os grandes imperadores foram assassinados, um após o outro como um castelo de cartas ou uma fileira de peças de dominó. O poder precisa ser dividido, correto? Que acha disso? Melinda divide o poder com Devon?
Ele levantou a cabeça. Isso, uma resposta!
— Melinda é totalmente autoritária — respondeu em voz grave e mecânica —, mas sempre pede sugestões aos familiares. Devon principalmente. Ele é extremamente inteligente. Tinha vinte anos quando saiu da faculdade.
— Os outros Lancaster sabem o que Devon vem fazendo?
— Devem ouvir os mexericos e as fofocas, mas isso é imprescindível em famílias antigas. Melinda tem um grupo de pessoas de confiança a quem mantém seus segredos e que sabem dessa perseguição. Eles a ajudam a controlar Devon, mas ninguém pode realmente controlar Devon.
Honey parou de falar. Provavelmente achando que falara demais.
— Gosto do som da sua voz — comentou cuidadosamente. Para ser honesto, qualquer voz naquele momento pareceria fantástica.
Ele não respondeu. Será que se sentira lisonjeado? Ethan se perguntou onde estavam os pais daquela criança. Ele se aproximou com o tablet.
— Oh, olhe só — comentou olhando para a tela. — A irmãzinha mais nova de Melchior nasceu. Eu deveria estar lá para estrangulá-la na maternidade. Tecnicamente, é minha prima. O que houve com seus pais?
Não soube se ele iria responder ou não porque a porta se abriu. Uma cena totalmente nova, aquela porta se abrir quando Honey já estava lá dentro. Da escuridão e do frio do cargueiro do caminhão, surgiu um homem jovem, branco como um fantasma e de olhos azuis quase sem cor, como bolas de neve sujas. Ethan já conhecera alguém com aquela tonalidade nos olhos. Fora Luca Granelli, não fora? Quanto tempo já tinha isso? Dois anos.
O homem possuía uma barba hirsuta preta como petróleo cobrindo o queixo que ligava-se às costeletas também pretas. Seu cabelo estava puxado para trás com pesados montes de gel e ele usava óculos retangulares bastante bonitos em seu rosto atraente e masculino. Até aqueles suspensórios ficavam bonitos por cima da camisa de botões branca e da calça social.
Um homem atraente, mesmo com aquele execrável barba. Ou Ethan poderia ter achado dessa maneira se o homem não fosse Devon Lancaster.
Era aterrorizante o quanto sua voz se destoava da aparência. Era fria, gelada e desvairada. Muito baixa, quase sussurrante, o que o forçava a aproximar-se de Ethan para falar, já que o contrário era impossível.
— Olá, meu querido — falou-lhe em tom polido e elegante, quase como Lorenzo, mas sem a paixão arrebatadora que havia na voz de seu irmão e amante, muito menos o sotaque italiano e lindo. — É bom vê-lo pessoalmente de novo com você acordado. Na última vez, um de meus seguranças teve que desacordá-lo. Na penúltima, eu estava estuprando seu namorado.
Ethan debateu-se na cama de raiva. Pela primeira vez, o aperto das algemas nos pulsos e nos tornozelos pareceu-lhe demais. Ele estava inalcançável, o que era uma coisa boa porque naquele momento Ethan percebeu que o estrangularia até a morte se pudesse.
— Eu tenho que admitir que nunca gostei muito de loiros. Eu prefiro morenos como você, mas eu escolhi seu namorado porque seu rosto estava deformado após ser espancado. O achei pouco atraente. Como eu poderia saber que era tão bonito?
Ethan sentiu sua mão, muito mais forte do que parecia, em seu queixo. Uma mão de pedra. Ele o segurou e forçou-o a olhar seus olhos. Ethan estava extasiado e desconcentrado demais para conseguir hipnotizá-lo.
— Liane disse-me que não posso manter contato visual por mais de dez segundos, mas não sinto nada. Acho que pela primeira vez ela errou. — Ele deslizou a mão do queixo para o peito de Ethan. Rasgou a roupa de hospital num único puxão violento. — Sim, viu como eu tinha razão? Você é muito mais atraente que Oliver.
Ethan gritou quando ele envolveu os dedos em seus mamilos e os apertou, em parte pelo asco, em parte porque doía, em parte porque, contra toda a sua vontade humana e paranormal, seu sexo dava sinal de vida.
— Honey não tem permissão para falar com você —sussurrou enquanto agarrava o membro de Ethan. Era como se nada estivesse acontecendo ali. Devon vivia em seu próprio mundo, totalmente alheio ao real. — O que falava com ele? Responda-me.
Ele o apertou. Ethan cruzou as pernas, gritando de dor e prazer, depois de ódio dele e de si mesmo. Se Devon quisesse fazer aquilo, ele faria, e ninguém poderia impedi-lo.
Como não respondesse, assistiu-o tirar uma pistola moderna de dentro do coldre da calça. Ethan não a vira. Com uma lentidão desconcertante, ele apontou aquilo para Honey.
— Não quer ser responsável pela morte dele, quer? Se me forçar a atirar, deixarei o cadáver aqui até que apodreça. Provavelmente vai me levar algum tempo para achar alguém que aceite entrar aqui para lhe entregar suas refeições. Quer isso, Ethan?
Seu membro estava na mão dele, duro e pulsante. Desde que fizera amor com Nicholas pela primeira vez há dois anos e meio, Ethan nunca passara mais de um mês sem fazer de novo. Estava gemendo incontrolavelmente de excitação, explodiria a qualquer instante. O polegar dele massageava sua glande lubrificada com pré-gozo com habilidade.
Honey olhou-o com aflição. Um apelo.
— Perguntei o que houve aos pais dele — respondeu.
— Ah, isso?
Devon guardou a arma, levantou-se da cama e, delicadamente, desabotoou os botões de sua camisa. Jogou-a elegantemente em cima de uma cadeira e desceu o zíper fino da calça social, aquele que faz um barulho característico. Tinha um corpo magnífico, musculoso e delineado. Ethan odiou-o por aquilo, depois odiou-se por olhar para aquele volume dentro da cueca. Não transava há dois meses e meio, pelo amor de Deus, o que queriam?
— Quer saber o que houve aos pais de Honey? — Devon indagou. Subiu em cima da cama, em cima de um Ethan completamente indefeso, e desnudou-o com um puxão. — Eu gostaria que você pudesse abrir um pouco mais as pernas, mas com as algemas isso é impossível. Vai doer.
Devon enfiou a mão na própria cueca e tirou o membro enorme e duro de dentro. Uma gota transparente lubrificava sua glande. Ethan olhou para o azul esbranquiçado de seus olhos, implorando que não fizesse aquilo. Nem por um instante achou que funcionaria, e não funcionou.
— Os pais de Honey eram primos da minha mãe, os dois, um por segundo grau e outro por terceiro, algo assim. — O primeiro dedo dele lhe invadiu de uma vez sem cerimônia alguma. Ethan gritou de dor. O que Oliver chegara a sentir? — Trabalhavam para o governo americano. Foram os principais responsáveis pela tentativa de assassinato do Rei Senn ano passado. Está gostando disso? Eu sei que está, seu namorado também gostou. — Havia dois dedos lá agora, violentando-o sem piedade. Ethan mal segurava as lágrimas nos olhos. — Mas isso irritou o lado californiano da família Lancaster. Após aquilo, muita gente foi jogada no mar antes do tempo, tanto nos Lancaster quanto nos Goldenschild, porque eles também são parentes distantes nossos e também fizeram parte disso. Os pais de Honey foram os primeiros a serem mortos. Eu matei a mãe dele pessoalmente. Pedi-o de presente de Natal à minha mãe e aqui ele está. Não é mesmo, querido?
Honey assentiu mecanicamente. Estava pálido. Olhava para baixo. Um robô coberto por pele humana e sangue quente, mas nada mais que isso, um robô. Ethan percebeu imediatamente que após Devon terminar o que fazia, ele faria o mesmo com Honey, só que sem medo de matá-lo no processo.
Ele tirou os dois dedos. Seus lábios expiravam uma brisa quente que forçava o corpo menor a se arrepiar. Não adiantava se debater de novo, ele era muito pesado e Ethan tinha medo de que ameaçasse fazer alguma coisa com Honey mais uma vez. Devon ajoelhou-se entre suas pernas, apertou a carne de suas coxas para que se colassem à cintura com possessividade e, gemendo incompreensivelmente, deitou-se em cima do garoto. Ethan tinha medo de irromper numa crise de choro. Para ele, demonstrar fraqueza naquele momento, para aquele homem repugnante, seria abominável e humilhante. Talvez tenha sido assim que Nicholas se sentira quando Lafferty Winter o atacou, mas dessa vez não haveria nenhum Ethan para matá-lo com um taco de baseball.
Devon empurrou-se contra ele num ritmo lento e constante. Parecia apreciar as contrações de dor do corpo branco molhado de suor de Ethan. Ele só gritou quando chegou ao final. O membro era grande, muito maior que qualquer outro que já tivesse experimentado, até mesmo que o de Gabriel Melnick, este que experimentara naquela noite no apartamento antigo, quando ele o algemou à cama contra sua vontade. Fora simplesmente delicioso do início ao fim. O que mudava daquela situação para esta? Ele odiava o homem que estocava como se não estivesse fodendo um ser humano, e sim um pedaço de carne que não sentia dor.
Devon beijou seu pescoço e seu queixo, depois os lábios, as bochechas e as orelhas. Não precisava segurar os braços de Ethan por causa das algemas, então aproveitava as mãos livres para estimular seu membro e seus mamilos e apertas suas nádegas. Aquilo era uma tortura. Dor excruciante e prazer pecaminoso, os dois entre as pernas e ao mesmo tempo! Como ele ousava? A cada investida que dava, a cama rangia mais. Seus pulsos e tornozelos, puxados pelo metal das algemas, estavam em carne viva. Devon suspirava em seu ouvido, gemia seu nome e mordia o pescoço com força suficiente para fazê-lo sangrar, totalmente delirante.
Quis gritar a Honey: mate-o! Ele está indefeso, não percebe! Você o odeia tanto quanto eu, então, por favor, pegue a faca que usei para comer e enfie-a na nuca dele! Mate-o, mate-o! E depois: mate-me.
Ethan estava quase desmaiando de dor, mas o pior veio depois, quando ejaculou na mão dele. Ele engoliu aquilo com um gosto abusivo e depois beijou Ethan, que tentou virar a cara, mas sua mão agarrou seu queixo e forçou-o a olhá-lo. Eram mãos enormes. Tinha medo de que ele pudesse quebrar sua mandíbula, pois era louco o suficiente para tal.
Devon o beijou e continuou estocando.
Os sons animalescos que fazia, o cheiro e suor de seu corpo, o barulho do ranger da cama, devia ser tudo excitante porque era o tipo de sexo que Ethan gostava, mas aquele não. Era um sexo tão repulsivo e hediondo que imaginava se iria gostar daquilo de novo quando tudo acabasse. Será que sentiria o mesmo prazer com aquelas coisas quando as fizesse com seus garotos? Nick, Lore, Jules? Seus anjos? Por Deus, não deixe-me odiar sexo.
Devon lambeu o suor de seu pescoço e enfiar a língua em sua boca. Ethan sentiu vontade de mordê-la até arrancar fora, mas ele o mataria se o fizesse. Estocou mais uma vez com violência antes de se desmanchar em seu interior num jato forte de semente quente. Devon estava suado e ainda gemia, musculoso e viril, sem um único pelo no peito, uma visão que Ethan amaria em outras circunstâncias, mas no momento não o via como o homem que era, e sim como como um animal irracional.
Seu corpo estava marcado, maculado, violado pelo estupro para sempre, assim como o de Oliver. Mas Ethan ainda vivia para sofrer. E não teria descanso, sabia que não.
— Por favor, me mate — conseguiu sussurrar. Foi ignorado.
— Eu virei amanhã — ele disse levantando-se da cama. Começava a se vestir. — E no dia seguinte, talvez duas ou três vezes por dia. E se você morrer por exaustão, continuarei vindo por algum tempo, até o corpo começar a se decompor. E se não puder vir, mandarei Honey em meu lugar. Tenho certeza de que você gostará dele. Ah, e se eu encontrar seus irmãos vou trazê-los aqui e fazer o mesmo com eles na sua frente. Eles estavam atrás de nós até agora, mas assim que chegarem a Nova York as coisas mudarão. Somos nós quem os caçaremos daí por diante.
Deu-lhe um último beijo nos lábios. Ethan não expressou reação. Estava esgotado demais para isso. Não suportaria que ele viesse no dia seguinte e no dia seguinte a esse, duas ou três vezes por dia.
Honey aproximou-se dele e puxou seu pulso com delicadeza. Espetou uma agulha nele, ligada a um fino tubo onde um líquido transparente como vidro pingava numa daquelas bolsas.
— É para você não desidratar — informou-lhe. Por um segundo, Ethan pensou ter visto alguma emoção em sua voz. Não importava. Estava cansado. Não aguentava mais. Queria morrer.
— Ora, vamos, por favor, só por uma hora. Você precisa tomar ar.
— Não, deixe-me em paz.
Três semanas após o glorioso Halloween de Nova Orleans, Lorenzo Barcarolli vinha se tornando cada vez mais ranzinza e irritadiço. Já o era por natureza, mas sempre costumava cobrir tudo com uma boa dose de sarcasmo para mascarar a falta de paciência e má-educação. Sempre dava certo porque seu rostinho adorável ajudava nisso. Sempre dera. Mas como todas as coisas boas da vida, isso acabou.
A mansão de Ethan em Nova York ficava na Madison Avenue, Manhattan, perto do Madison Square Park, e era na verdade a cobertura de um belíssimo prédio antigo, nem de longe tão alto quanto o Palácio. Pegava dois andares. Foi um tremendo debate ao chegarem em Nova York e se hospedarem num hotel barato sobre se deveriam ir ou não.
— Eles vão nos pegar se formos lá, seu imbecil — dissera Lincoln, doce e sutil como sempre. — O apartamento pertence a seu irmão. Acha que o FBI não sabe disso e não o está vigiando?
— Não sabemos se Ethan o comprou com seu próprio nome. Ele não avisou a ninguém. Eu só soube desse apartamento quando encontrei documentos no chalé em Aspen que indicavam esse endereço na Madison Avenue, e só sabia do chalé em Aspen porque ele havia me contado.
— É assim que os ricos fazem — resmungou Lorenzo de sua cadeira de rodas. Ele andava falando pouco, às vezes passava um dia inteiro sem falar, mas quando abria a boca todos escutavam. — Compram casas em todo o mundo e não avisam a ninguém para poderem tirar umas boas férias.
— Ethan também tem uma casa em Sacramento que Cornelius Goldenschild deu de presente pela fundação da Anhert — adicionou Nick. — E nenhum de vocês sabia disso.
— Mesmo que o dono do apartamento seja desconhecido — prosseguiu Lincoln —, como vamos fazer para entrar? Não temos a chave.
— Ela devia estar guardada no cofre por trás do Rembrandt — Nick murmurou. Idiota! Não deveria tê-las pego, todas elas? O chalé em Aspen deixara de ser um problema quando Nick aprendeu a arrombar janelas sem que ninguém ficasse sabendo. Passaram apenas dois dias no Colorado, de qualquer forma. Mas aquilo era um edifício cheio de apartamentos com pessoas fofoqueiras que viam e faziam perguntas.
— Como vai fazê-las voarem magicamente para cá? — Lorenzo perguntou isso, uma pergunta que poderia muito bem vir de Lincoln.
Por causa disso, Nicholas Hentz ligou para Lauren Mayfair de um telefone público. Estava congelando lá fora, se é que pode-se considerar dez graus um frio congelante, mas ele era californiano, afinal. Deveria passar mais uma vez numa Walmart para comprar novas roupas de frio.
— Mayfair & Stonem — cumprimentou uma voz jovem e feminina do outro lado. Eles já haviam tirado o Fauntleroy do nome da firma. Advogados, todos arrogantes.
— Bom dia — disse num elegante sotaque inglês. — Gostaria de falar com Lauren Mayfair, se possível. Meu nome é Dylan Strauss. Ela provavelmente saberá quem é.
Nick não sabia se Lauren havia sido informada desse pseudônimo, o primeiro que havia usado, agora abandonado.
— Nicholas — uma voz muito mais velha e empertigada atendeu. Graças a Deus. Sussurrava. — Graças a Deus está vivo.
— Lauren, não posso falar muito, mas vou dizer-lhe que estou bem e Lorenzo ainda vive, e tanto quanto sei Ethan também.
— Pois é melhor que você o ache logo. Deve ler as notícias, Melon Chioren está destruindo essa companhia de dentro para fora e ninguém pode fazer nada contra! A não ser, é claro, o presidente. Nicholas, você sabe que se voltasse para cá seria nomeado presidente da empresa, não sabe?
— Não posso fazer isso. Não me sinto bem em ternos.
— Teria o direito de demitir Chioren e desfazer tudo o que ele fez. Cuidaríamos de você para que não fosse para a prisão. Até o fim do ano darão Ethan como morto. E quando isso acontecer, ele será nomeado presidente. Terá poderes supremos e inalienáveis. Ele pode…
— Não diga isso.
— Ele pode fazer com a Anhert a mesma coisa que sua mãe fez com a Kruger-Vorheel em 2000, e de acordo com o testamento sua família também é a única beneficiária da fortuna Hentz.
— Quem teve a brilhante ideia de legitimá-lo? Sei que Jules du Pont não fez isso por si mesmo. Como ele está, a propósito?
— Estável, mas ainda em coma. Prenderam o homem que dirigia o carro que capotou com o dele. Embriagado. Antes do acidente, Jules disse-me que John enviou-lhe um e-mail durante a madrugada em que morreu. Mas quer saber de algo? Eu conhecia os hábitos de John Fauntleroy. Ele jamais ficaria acordado durante a madrugada. Tomou a insulina fora da validade e foi para a cama às onze horas da noite, como faz todos os dias. Nunca mandaria um e-mail tão tarde.
— Eu sei o que está pensando, e posso dizer-lhe que é absolutamente possível. Cuidado com Melchior, ele é um psicopata calculista e perigoso. No momento, o melhor é não fazer nada. Ele tem o direito de te demitir?
— Não. Só o presidente pode fazer isso porque estou atrelada à Anhert, mas Liam estava atrelado à família. Ele foi demitido.
— Filho da puta. Espere um momento, vou desligar e ligar novamente.
Nicholas bateu o telefone, enfiou outra moeda na fenda e discou o mesmo número. Dessa vez, foi atendido imediatamente por Lauren.
— Como estão nossos velhos amigos? — indagou a ela. — Os Goldenschild, o Rei Senn? O que eles dizem intimamente sobre isso?
— Senn não pode fazer nada, mas creio que sabe de alguma coisa. Não consegui contato com os Goldenschild. Cornelius recusa-se a ser visto.
— Deve saber que Ethan tentou criar um banco por suas costas. Malditos. Veja, estou por um triz. Lorenzo vai morrer a qualquer momento.
— Onde está?
— Nova York.
— Meu Deus. Ethan tem uma mansão na cidade.
— Eu sei, por isso liguei. As chaves da mansão estão no cofre do escritório de Ethan, aquele por trás do Rembrandt. Vou dar-lhe a senha, e preciso que pegue a chave e mande para mim pelo correio. Vou lhe dar o endereço de um hotel. É para ele que deve mandar, para o nome de Lestant Millicent.
— Farei isso, mas não sei quanto tempo vou levar. Melchior fica no escritório o tempo todo. Se ele descobrir onde você está, vai denunciá-lo imediatamente. Você sabia que ele virou a mente do meu filho?
— Taylor? — Ethan já havia ido para a cama com Taylor Mayfair, mas era sensato não revelar aquele segredo à advogada por telefone. — Ethan também nunca se deu bem com ele. Pode ser um sinal. Não conte que teve essa conversa com ninguém, está bem? Sua secretária ouviu o nome Dylan Strauss e Melchior conhece esse nome. Livre-se das provas.
— Sou uma advogada, Nicholas. Sei fazer isso.
— Espero que consiga as chaves. Ah, aliás, se puder fazer o favor de tirar a maior parte das joias e documentos oficiais e secretos de dentro daquele cofre e espalhá-los em bancos ao redor do mundo, eu ficaria feliz. Leve tudo o que puder, não deixe nada para os Chioren. Agora pegue um papel e anote a senha…
A coisa tinha catorze dígitos e Nicholas só a vira uma vez, quando Jules du Pont a digitou para pegar os oitocentos mil dólares em dinheiro guardados no cofre. Tinha déficit de atenção e péssima memória, mas ela estava gravada em sua mente. O que indicava aquilo? Oliver, mais um de seus truques? Também informou-lhe o endereço do hotel.
— Enviarei a chave pelo correio assim que puder. Mude de nome novamente e não permaneça no mesmo lugar por muito tempo. Evite sair, use óculos e cubra o cabelo. Também não ande como um supermodelo, você sempre faz isso. E sua voz é inconfundível.
— Lauren, estou zanzando pela Califórnia e pelos Estados Unidos há dois meses e meio e não fui descoberto. Para o FBI, ainda estou na Flórida. Não foi tão má ideia assim me hospedar no resort da Nickelodeon, foi? Peguei um bronzeado e tanto.
Dessa vez, levou um tempo para Lauren Mayfair falar.
— Você teve algo a ver com o incêndio em Harmount?
E Nick levou mais tempo ainda para responder.
— É minha advogada, não pode revelar meus segredos, não é mesmo?
— Absolutamente nenhum.
— O filho da puta mereceu morrer.
E bateu o telefone.
Isso foi há uma semana e meia. As chaves chegaram há uma semana. Nick imediatamente deixou de ser Lestant Millicent para se tornar Julian Shepherd; Lorenzo batizou-se Vincent Shepherd; Lincoln era Anthony Shepherd-Price; e Pan tornou-se Pamius Price. Nunca mudavam muito as histórias de suas vidas, apenas as reciclavam. Alguns retoques aqui e ali, uma mudança de nomes de pessoas e estados e se tornavam quatro adolescentes viajando para o Maine para o Dia de Ação de Graças com a avó doente de dois deles.
Era domingo, dia 23 de novembro, estavam a apenas cinco dias do Dia de Ação de Graças e Lorenzo não queria sair da mansão para tomar ar. A casa era espetacular. Toda de mármore claro, com estátuas e painéis decorativos de gesso, lustres dourados e poltronas azuis, além de uma magnífica lareira com uma obra de arte antiga pendurada por cima. Havia uma camada de poeira cobrindo tudo, o que era bom porque indicava que não existiam faxineiras entrando naquele apartamento.
Uma banheira hidromassagem do tamanho de um pequeno bonde estivera esperando Nick no imenso quarto principal. Foi o melhor banho que tomara em meses. Ainda precisaria fazer sexo com alguém ali dentro.
Aquele apartamento havia sido comprado por John Daniel. Samuel Hentz crescera ali, andara por aquele piso, tocara naquelas paredes, olhara por aquelas janelas. Será que apreciava o Madison Square Park? Será que o Madison Square Park já existia?
Para chegar em Nova York, passaram pelo Mississipi, Alabama, Flórida, Geórgia, Carolina do Sul, Carolina do Norte, Virgínia, Virgínia Ocidental, Maryland, Delaware, Nova Jérsei, Pensilvânia e Nova York, especificamente a cidade de Nova York, nessa ordem, durante um período de três semanas. O GPS não dava sinais de vida há mais de uma semana, e por sua longa experiência Nick receava que algo extraordinário iria acontecer.
— Provavelmente eles vão bombardear esse prédio — dizia Lorenzo. Seus remédios o ajudavam nas dores, mas o transformavam num zumbi e eliminavam seu apetite. Dormia doze horas por dia e ficava sonolento nas outras doze. Sem falar no mal humor. Passar tempo com uma companhia tão desagradável se tornava cada vez mais difícil.
O que estou dizendo?, pensou Nick horrorizado. Ethan nunca ficaria tentado a abandonar Lorenzo. Ele está apavorado. É só isso.
Tentou melhorar seu humor ao parar de ouvir suas opiniões. Como estava numa cadeira de rodas, não podia realmente se recusar a ser levado aos lugares. Nick o levou à Broadway e com ele assistiu O Fantasma da Ópera, Cats, Motown, Os Miseráveis, Aladdin, O Rei Leão, Mamma Mia! e Cinderela, todas peças musicais. Em Off-Broadway assistiram The Fantasticks e The Rocky Horror Picture Show, e em Off-off-Broadway viram produções independentes e amadoras. Lorenzo odiou Nick por aquilo, a princípio.
No entanto, quando as cortinas se abriram pela primeira vez e o espetáculo começou, como por mágica a carranca permanente de Lorenzo esvaneceu. Os olhos, cinzentos e ainda lindos, vidraram-se no palco onde os melhores atores do mundo performavam. Quando a cantoria começou, Lorenzo fechou-os, jogou a cabeça para trás e gemeu de excitação. Era aquilo que ele queria, percebia Nick. Estar num palco na Broadway cantando a plenos pulmões. Era para aquilo que fora feito. Para o brilho e a fama.
Só que a chance sumia lentamente à medida que crescia o tumor, à medida que suas dores aumentavam e ele perdia movimentos simples do corpo. Nick exercitava suas pernas todos os dias para que não atrofiassem, mesmo quando ele se sentia cansado demais para isso. Os remédios eram tomados estritamente na hora, nem um minuto antes ou depois.
— Eu durmo metade do dia, mas na outra metade gostaria de estar dormindo. — Um comentário sinistro e deprimente. Estavam no meio do Central Park. Nicholas o tirara à força de casa, como de costume. Lincoln estava comprando cachorro-quente para Pan.
— Você não se sente melhor no ar puro?
— Ar puro? Em Nova York? Está um frio dos infernos.
Empurrava a cadeira de rodas lentamente através da calçada. Estava sim frio como o inferno, mas não chegava a haver neve. Depois de anos no calor da Califórnia e meses na parte quente dos Estados Unidos, o frio era bom. Nick cobria o rosto com óculos escuros, o cabelo com uma touca e o pescoço com um cachecol, assim como Lorenzo, além de usar um daqueles pesados sobretudos que tanto gostava. Quase se lembrava do ano passado, quando passara o Natal com os irmãos na França.
— Gostaria de passar o Natal em Nova York? — perguntou em tom casual. As gigantescas árvores fechavam-se num arco lindo acima deles. — Tem neve aqui no Natal, não é como na Califórnia. Eu sempre gostei de decorar a casa, é minha parte preferida. Ethan me deixava fazer todo o trabalho sozinho, exceto montar a árvore. Uma vez, quando eu tinha doze anos, tentei montar a árvore sem ele. Eu só me lembro de cair na mesinha de centro e estraçalhar o vidro. Levei doze pontos no braço. Ainda tenho a cicatriz.
— Adoraria vê-la — ele sussurrou.
Nick fechou os olhos e deu um suspiro inaudível.
— Ele sempre fez a ceia sozinho — continuou bravamente. — Nunca comprava nada pronto. Ficava metade do dia na cozinha, fazendo o peru brilhar como uma peça de ouro, apenas para que eu o devorasse em dez minutos. Depois íamos para a cama, às vezes dormíamos juntos, quando a noite estava muito fria. Deixávamos as janelas abertas e nos esquentávamos com o calor do outro. Eu sempre adormecia depois dele, com as luzes de Natal piscando nos meus olhos.
— O brilho deveria ser lindo. Adoraria vê-lo.
Engoliu em seco. Andava mais devagar agora.
— A última vez que eu vi meus pais foi no Dia de Ação de Graças de 2011. Nesse dia, eles não trabalharam, não foram ao escritório, não atenderam o telefone. Passaram a manhã, a tarde e a noite com Ethan e eu. Saímos juntos de manhã como uma única família, eles nos perguntaram como andávamos, se íamos à escola direitinho, essas coisas. De tarde, minha mãe cozinhou a ceia de Ação de Graças com a ajuda dele e eu e meu pai assistimos televisão, depois todos nos juntamos na mesa e comemos e conversamos. Fiquei feliz daquela forma poucas vezes na minha vida. Eles foram embora naquela madrugada sem nos avisar. Dois meses depois, eles morreram.
Lorenzo levou muito tempo para dizer alguma coisa. Nick já estava com a esperança de que ele não iria dizer nada.
— Você tem muitos problemas em se manter atento à cronologia dos fatos — murmurou cruelmente. — Num momento, está falando do Dia de Ação de Graças e no outro está falando sobre o quão feliz você ficou ao descobrir que poderia chupar o pau de Ethan se quisesse. Depois, de volta ao Dia de Ação de Graças.
Nick segurava os guidões da cadeira de rodas quando parou de empurrá-la. Estavam no meio de uma larga e longa calçada de cimento com bancos dos lados e o já mencionado arco de árvores. Seus lábios tremiam. Lentamente, soltou os guidões, deu um passo para trás, deu as costas a Lorenzo e desatou a correr dali.
Lincoln e Pan acabavam de virar uma esquina. Estavam no início do calçadão, a cento e cinquenta ou cento e sessenta metros de distância, indo em direção aos dois irmãos, quando viram Nicholas chegar esbaforido e, honestamente, meio apavorado também. Ele arrancou o gorro e o cachecol com violência como se fossem parasitas. Por sorte, naquele frio não havia muita gente no Central Park. Seus olhos negros de leão indicavam que não estava realmente fitando nenhum dos dois garotos.
Por um segundo, Lincoln Spring acreditou que Lorenzo havia sido capturado pelos Lancaster ou morrido. Chegou a ficar feliz, mas o ponto escuro lá ao longe da calçada matou a felicidade.
— Pan, vá buscar Lorenzo — disse ao maior. — Traga a cadeira de rodas dele para cá. Vamos ficar aqui.
Nicholas tinha as mãos nos joelhos. Suas costas subiam e desciam com rapidez por causa de sua tentativa desesperada de recuperar o fôlego naquele ar frio. Quando finalmente levantou a cabeça, com Pan já longe, desatou a chorar de tristeza e raiva.
— O que houve? — Lincoln perguntou suavemente.
— O que houve? — ele repetiu irritado. — Sabe, houve um tempo em que eu realmente me senti mal por Lorenzo, em que senti por ele um amor tão puro que quase matava. Cheguei a perguntar a Rowan Pyatt se eu poderia desistir da minha vida para curar a doença dele, mas agora eu não mataria um esquilo para curá-lo. Aquela coisa na cadeira de rodas não é meu irmão e nunca foi! Eu não aguento mais olhar para a cara dele.
— Você quer que ele morra?
— Quero! Eu quero que ele morra logo e pare de sofrer!
Lincoln deu um tapa tão forte no rosto de Nicholas que o desequilibrou. Não foi sua intenção fazer com tamanha força. Só percebeu o quão irritado estava pelo que acabara de ouvir após ver a marca vermelha.
— Você me envergonha — sibilou furioso para ele. — Acha que Ethan Lemnsack estaria assim, chorando por causa de um garotinho cínico? Acha que as ofensas de Lorenzo o afetariam? Ele simplesmente riria e zombaria de Lorenzo, que se irritaria e ficaria de boca fechada, ou então o acalentaria e diria a ele como ele se sente, o que o emocionaria e isso o faria ficar de boca fechada. É isso que ele faria. Você sempre diz que você é o mais forte dos três irmãos, mas quer saber, Nicholas? Você é pateticamente fraco. Você chora, se emociona e se afeta com tudo! Já tentou se matar uma vez. Lorenzo e Ethan são totalmente diferentes de você. Eles são puro aço. Nada consegue quebrá-los. Um câncer ou três meses de solidão, nada!
— Você não faz ideia pelo que eu já passei.
— Sim, eu faço, eu sei tudo pelo que você passou! E quer saber? Seus irmãos passaram por isso também! Eles sofreram tudo o que você sofreu porque te amam demais para não se importarem! Vejamos o que aconteceu a Ethan. Perdeu Oliver, quase morreu por espancamento, perdeu os pais, casou-se com Amy e tomou sua guarda. E quando se lembrou de Oliver teve um colapso nervoso. Quase morreu duas vezes naquela noite em que Enzo Granelli sequestrou Lorenzo. Depois teve que passar pela depressão de Lorenzo em Jardim de Ouro e pela sua tentativa de suicídio seis meses depois, enquanto tentava fundar a Anhert! E depois enfrentou a sua depressão quando Carmen morreu, passou pela experiência de matar Lafferty e de ser preso. Então ele morreu, voltou à vida e foi sequestrado, e agora pode morrer novamente! Isso parece pouco para você? E mesmo assim estaria de cabeça erguida e orgulho intacto, não deixando o irmãozinho morrendo de câncer sozinho numa cadeira de rodas, num parque vazio e gelado!
A ira de Lincoln estava inexplicavelmente inflamada.
— Seu fraco. — Empurrou-o com força contra a grama. Nicholas deixou-se cair, alheio à gravidade. Seus olhos escuros estavam fixos em Lincoln quando os lábios rosados formaram as palavras lentamente, quase como se cada sílaba fosse uma palavra própria.
— Como… você… sabe? — A incredulidade em sua expressão era estarrecedora. Lincoln percebeu, arrependido, que havia mencionado vários fatos que Nicholas jamais mencionara para ele antes. Se soubesse o que Lincoln fizera, entrar em sua mente e roubar suas memórias, não tinha dúvidas de que ele o largaria ali em Nova York.
— Eu disse a você que no Halloween meus poderes estavam fortes demais. Sua mente é um livro aberto e eu li tudo. Sinto muito.
Ele pareceu engolir a mentira.
Pan e Lorenzo chegaram. Lorenzo estava com exatamente a mesma expressão pálida e doentia que vinha carregando há dias, uma que poderia ter sido facilmente esculpida numa estátua. Ele não parecia ter consciência de que acabara de ser abandonado. Oh, e se tivesse? Mas não contaria a ele. Sua cota de maldade havia se esgotado ao empurrar Nicholas.
Subitamente, Lincoln colocou-se no comando.
— Vocês dois vão para casa agora. Eu e Nicholas vamos ao supermercado comprar mais suprimentos e as coisas para o jantar de Dia de Ação de Graças. Pan, consegue levá-lo ao apartamento? Lembra-se onde é?
— Madison Avenue — Pan falou quase com uma pontada de orgulho na voz. Havia uma barba minúscula em seu queixo. Lincoln decidiu que deixaria crescer para ver como ficaria. Deus, era bom ter o poder. — Perto da esquina com a 23th Street. Ao lado do Madison Square Park. Prédio antigo chamado Miraggio. Cobertura.
— Isso mesmo, acertou em tudo, pena que não tenho uma guloseima para te dar. Lorenzo, dê-lhe dicas de como se portar ao chegaram lá.
— Eu não recebo ordens de você.
Lincoln sorriu amavelmente. É, agora estava plenamente arrependido de ter criticado Nicholas por não suportá-lo mais. Aproximou-se da cadeira de rodas sorrateiro, pôs as mãos nos guidons e utilizando sua pouca força adolescente, usou-os para inclinar a cadeira perigosamente para a esquerda. Colocou-a de volta no lugar um segundo depois, mas o grito de susto que aquele garotinho desprezível e doente deu foi épico.
— Da próxima vez que falar comigo assim, eu derrubo a cadeira. Eu não sou um de seus irmãos. Não estou nem um pouco preocupado com seu bem-estar. Não me irrite. Pan, só atravesse na faixa de pedestres e olhe sempre para os dois lados. Sinal verde é a vez dos carros, sinal vermelho é a sua vez. Não fale com ninguém. Qual seu nome? E o de Lorenzo?
— Pamius Price. Vincent Shepherd.
— Muito bem. Aqui está o dinheiro para o táxi. Você precisa esperar pelo troco e lembre-se de que não precisa abraçar o taxista ao chegarem. Se alguém chegar e forçadamente falar com você, comece a falar em francês e ele te deixará em paz. E, pelo amor de Deus, não chie para ninguém.
Lorenzo ficou calado enquanto Pan virava a cadeira de rodas e desaparecia com ele. Era impressão sua ou ele estava diminuindo de tamanho? Diminuindo não… definhando. Nicholas ainda estava sentado na grama com os olhos cheios de mágoa. Lincoln se compadeceu.
— Não fique assim. Vamos ao supermercado fazer compras. Vai ficar melhor após comer alguma coisa.
— Não. — Ele fungou. — Esse é Lorenzo. Ethan fica melhor após ganhar alguns milhões de dólares. Eu fico melhor quando recebo atenção e dizem que sou lindo.
— Você é lindo. E tem toda a minha atenção.
Nicholas pareceu ficar melhor. Limpou as lágrimas dos olhos com os punhos como se fosse uma criança e fungou de novo. Como uma flor que recebe água e sol, seu rosto pareceu florescer. Lincoln estendeu a mão para aquele encantador garoto loiro, que relutantemente a segurou e aceitou ser puxado para cima. O orgulho, assim como a ambição, era um gene dominante nos Hentz.
De pé, Nicholas fez menção de soltar sua mão, mas deve ter visto na expressão de Lincoln que ele não soltaria. Os meninos fitaram-se por alguns segundos, silenciosos. Finalmente o maior deu de ombros e continuou seguindo o caminho de mãos dadas ao outro. O que Nicholas Hentz gostava mais do que receber atenção? Talvez fazer sexo com os membros da família. De qualquer forma, ambas as coisas estavam em falta no momento.
As dores eram grandes, às vezes insuportáveis, e estavam em todo lugar como uma onipresença agonizante, um monstro invisível e intangível com garras afiadas que atravessavam tanto seu corpo quanto sua alma.
Ethan dormia e sonhava constantemente enquanto era medicado. Honey cuidou dele com habilidade. Onde será que havia aprendido aquelas coisas? A ter mãos tão delicadas quanto luvas enquanto desinfetava as cicatrizes e as cobria com talas e esparadrapos ou a administrar aquele líquido transparente sinistro que recebia todos os dias desde o Halloween? Para não desidratar, dizia.
Não se falavam mais, mas também Devon não havia voltado. Honey vinha com sua comida, a punha na frente de Ethan que comia tudo mecanicamente, mostrava-lhe as novas notícias no tablet — essa era a parte mais difícil porque as notícias eram sempre sobre a iminente falência da Anhert —, arrumava tudo e ia embora. Isso nos primeiros dias após o que acontecera.
Nos dias seguintes, ele passou a quebrar a regra de não falar. Dizia algumas frases aleatórias e sem importância. Ethan nunca respondia, mas sempre escutava. Não tinha mais medo de se aproximar dele ou de aumentar o comprimento de suas correntes para que comesse com mais facilidade. Às vezes trazia uma sobremesa de dentro das roupas, uma coisa obviamente contrabandeada, mas por algum motivo deliciosa. Trouxe um espelho, uma vez. Após três meses sem tocar o próprio rosto, Ethan viu-se, pela primeira vez em seus dezenove anos e meio de vida, com o rosto barbeado. Não era muito espessa ou volumosa e estava bem esparsa, a barba. Honey o barbeou com cuidado e não fez sangrar nenhuma vez.
Começava a passar cada vez mais tempo no container, vinha até mais de três vezes por dia. Uma vez, trouxe um livro e o leu para Ethan, terminando-o nos dois dias seguintes. Isso comprovava que a câmera de segurança era, de fato, falsa. Eles nunca se arriscariam a ter aquele que olhasse através do monitor hipnotizado pelo poder de Ethan. Estranhamente, não sentia vontade de hipnotizar Honey de novo para tentar fugir ou mesmo de estrangulá-lo, como sempre sentira. Quando se conseguia ver através daquela expressão robótica, via-se Honey como o que verdadeiramente era: um pré-adolescente traumatizado.
Ethan esperava não estar com Síndrome de Estocolmo.
No dia 28 de novembro, Dia de Ação de Graças, Honey trouxe-lhe um jantar tradicional e uma televisão portátil. Ficaram juntos durante duas horas naquela noite, assistindo a especiais do feriado e conversando ocasionalmente. Foi agradável. Por alguns momentos, esqueceu que estava preso àquela cama por algemas e que havia uma agulha enfiada em seu pulso.
Àquela noite, após ficar sozinho, Ethan sonhou.
No sonho, estava numa escadaria em caracol feita de pedra com heras crescendo nas paredes. Não havia nada acima, mas uma luz dourada demoníaca ardia e tremeluzia abaixo, como se viesse de velas. Foi descendo as escadas lentamente, apoiando-se nas colunas grosseiramente construídas.
Chegou a um grande salão de pedra. Uma enorme mesa de madeira escura prostrava-se no meio, forrada com seda e ornada com candelabros de prata, de onde vinham as velas. Havia pratos, muitos pratos vazios e sujos, com ratos e insetos repulsivos passeando por cima como se fossem um parque de diversões, mas não era essa a parte assustadora. Os homens e mulheres dos quadros do escritório de Ethan estavam sentados à mesa.
— Ethan, que bom que chegou! — disse um homem aparentemente de meia-idade. Trajava um terno e tinha cabelos louros e espessos e olhos muito escuros. — Esperávamos por você.
Imediatamente percebeu que aquele era Samuel Hentz. Ethan deu um grito de horror. Ele tinha setenta anos, morrera com setenta anos, e aparentava quarenta e cinco, no máximo!
— Não, afaste-se de mim! — exclamou com os olhos arregalados. — Você não é real, você está morto!
— Sim, é verdade — disse outro homem, esse mais corpulento, que também usava um terno, mas uma versão muito mais antiga, provavelmente dos anos 20. Possuía um chapéu e um farto bigode louro-acinzentado. Um verdadeiro cavalheiro do fim do século XIX. Santo Deus, era John Francis! — Ele está. Todos nós estamos.
— Eu não estou morto — falou indignado ao trisavô. Quão absurda era essa frase? — Estive morto, mas não estou mais. Voltei a viver.
— Sim, como nenhum de nós voltou. — Essa voz era doce, calma e feminina. Vinha de uma bela mulher, brilhante como uma estrela, com um olho azul e outro verde e cabelos louro-claros quase brancos. Vestia-se de branco num vestido à moda dos anos 20, o que era estranho porque Ondromeda Olrwen morreu em 1967. Aquela Ondromeda tinha vinte e poucos anos. Por que via todos com diferentes idades, e não as em que morreram? Todos os três homens tinham setenta anos, mas as mulheres eram mais jovens.
Foi isso que perguntou àquelas pessoas.
— Você nos vê como primariamente nos imagina — disse uma outra mulher. Era bonita, sim, com olhos azul-escuros caídos e lábios trêmulos e rosados. Cabelo louro apagado e preso num coque complicado e vestido cor-de-rosa até os joelhos muito fechado e apertado. Uma mulher pertencente aos anos 60, com quase cinquenta anos. Descende de italianos, era sua bisavó Letricia Ovanosi, esposa de John Daniel. A mulher meneou a cabeça, indicando Ondromeda. — A vê jovem porque na velhice ela nunca permitiu que fossem publicadas fotos suas.
Ondromeda lançou-lhe um olhar sarcástico.
— Pela primeira vez que está mais velha que eu, não é, minha querida Letricia?
Eram sogra e nora, as duas, e começaram a discutir na sua frente como se estivessem num brunch familiar! Aquilo não podia estar acontecendo!
— Oh, meu querido — consolou-o em uníssono outro casal, Samuel e uma mulher com rosto comprido, olhos escuros e cabelos claros. Sua avó, Joselia Jasperin. Ambos tinham um leve sotaque francês, mas o de Samuel era ligeiramente prepotente. Ele o forçava.
— Pare de forçar esse sotaque — reclamou Joselia, o que lembrou Ethan de que teria que aprender francês qualquer dia desses. — Ele está assustado, veja.
— Bobagem — retorquiu o avô com seu eterno jeito infantil e despreocupado. — Um neto legítimo meu não ficaria com medo da família.
E agora seu avô e sua avó discutiam também!
— Eu pensei tê-lo ensinado melhor a ser menos arrogante — murmurou em voz baixa e grave o segundo dos homens Hentz, careca e taciturno. Seu querido bisavô falando com Samuel.
— Deixe o menino — disse Letricia ao marido referindo-se a Samuel, seu filho. Referia-se à imagem do filho de setenta anos como menino!
E de repente todas as seis pessoas em volta daquela mesa discutiam frivolidades, como se fossem uma única família ordinária. Ethan olhou silencioso para aquilo durante vários minutos antes de começar a chorar de tristeza. A família que nunca teve a chance de ter e que mesmo assim amava discutia amigavelmente, como qualquer outra família. E não usavam todos os homens o Anel do Patriarca? E todas as mulheres o da Matriarca? E também as outras joias?
— Isso é coisa da minha mente — sussurrou, silenciando as bocas de todos os seis pares de olhos. — Estou apenas sonhando. Vocês não estão aqui. Nunca ficaram na Terra. Fizeram a travessia, todos vocês.
— Fizemos — confirmou o trisavô. — Menos aquele ali. — Indicou Samuel com a cabeça, que deu-lhe um sorriso simpático. — Eu sabia que ele seria um problema desde que pus os olhos nele pela primeira vez. Tinha sete anos quando morri, estava segurando minha mão quando morri, e sabe qual a última coisa que ouvi quando morri? Vamos, diga-lhe!
— Eu disse que tomaria conta de toda a fortuna dele — respondeu Samuel graciosamente. — Com sete anos! Veja só! Eu já falava francês, inglês e latim fluentemente aos sete anos.
Como Ethan gostaria que o avô tivesse vivido o suficiente para ensinar-lhe como dirigir uma empresa. Poderia tê-lo amado, apesar de todos os seus defeitos. Herdara dele a incapacidade de ter só um homem em sua vida.
— Não entende por que estamos aqui, entende? — indagou Letricia.
Ethan respondeu que não. Sentia-se fraco. As cores de suas roupas, sem distinção entre as novas ou as antigas, desbotavam.
— Você está em perigo, meu querido — afirmou Ondromeda.
— Eu sei disso! — disse rispidamente, quase se esquecendo de que falava à sua trisavó. — Tive três meses para pensar no assunto e decidir que sim, definitivamente estou em perigo! E o que vocês sabem, afinal? Quando morreram a penicilina nem estava disponível ao público! Vocês são todos dinossauros.
— Nunca dissemos que não éramos — disse Joselia.
— Nem por isso não viemos lhe ajudar — disse John Daniel.
— Apenas nos ouça — disse John Francis. — Temos três coisas para dizer.
Samuel se levantou de sua cadeira e aproximou-se do neto que nunca viu crescer. Pôs as mãos em seu rosto e segurou-o com delicadeza. Ethan conseguia sentir o calor e o pulso vindo daquelas mãos. Eram tão reais. Tinham digitais, pelos e marcas de idade.
— Ah, sim, olhe para você, meu neto — disse o avô. — Tão bonito. Um Hentz puro. A primeira coisa que temos a dizer é que algo fantástico está para acontecer, mas não com você, e sim com seu meio-irmão. Acontecerá no Natal, no lugar onde a neve é sempre branca e as árvores têm ouvidos. Em volta de uma clareira, homens azuis dançarão sob duas luzes: a que é branca e a que é azul. Sombras serão expulsas. Está me entendendo? Você tem que mantê-lo vivo até que aconteça ou a família se perderá.
— Estou tendo dificuldades para me lembrar das coisas. Não me lembro nem de como cheguei aqui.
— Acontece após muito tempo na área após a película da realidade. A segunda coisa é que um grande mal acabou de nascer no mundo. Esse mal deve ser extirpado o quanto antes. Ele tem meu sangue, tem o sangue de todos nós, mas você deve ser implacável, Ethan. Seu irmão Lorenzo saberá que mal é esse quando chegar a tocá-lo.
— E quanto a Nicholas?
— Ele não é e nunca foi seu irmão — ralhou Joselia. Então acrescentou com desgaste: — Mas é um Hentz, apesar de tudo.
Ethan pensou ter entendido o que ela disse, mas Samuel negou.
— A terceira coisa é que Nicholas não é seu irmão, como sabe, mas é descendente direto de John Daniel. Nos anos 30, John Daniel teve um caso amoroso com uma mulher chamada Mary Nicholas Fontanelle, que mais tarde tornou-se freira. Ela deu à luz um bebê que chamou Maynard Fontanelle, que nos anos 70 deu cria a outro bebê chamado Charles Fontanelle. E esse Charles casou-se com Mary Alicia Ettel e teve um bebê que chamar-se-ia Lucas, mas hoje é conhecido como Nicholas! Seu irmão postiço!
— Oh, Deus! — A cabeça de Ethan começou a girar. O que estava acontecendo àquela sala? A cor das paredes havia sumido e as velas se apagado. Estava tudo desgastando-se e desmoronando. Os odiosos insetos e roedores foram desintegrados. — Não pode ser, não pode! Isso significaria que Nicholas e eu somos primos de terceiro grau, assim como meus pais! E… onde estão meus pais?
— Seu pai nunca tornou-se Hentz o suficiente para ter lugar entre nós — disse John Daniel.
— E minha… — Ethan pensou que fosse vomitar. Os rostos começavam a se derreter. Estava tudo dando lugar a uma profunda escuridão. — E minha mãe? E Mary Alice?
O rosto de Samuel, o único que sobrara inteiro, contorceu-se de fúria ao ouvir o nome da única filha.
— Não fale esse nome aqui! Eu jamais permitiria que ela entrasse nesta sala depois do que fez! Como ousou vender a empresa! Não apenas a empresa, ela vendeu a família! Destruir o legado, o poder e o jogar fora o dinheiro Hentz por pura arrogância! Eu deveria tê-la estrangulado no berço quando vi que era uma menina!
— Cale a boca, seu velho, você está morto. — Dizer aquilo fazia-lhe bem. Samuel mereceu ouvir muitas vezes aquela frase durante sua vida. — Quero saber uma coisa. Uma vez John Fauntleroy me disse que você teve seu primeiro filho aos treze anos, e depois descobri que John é exatamente treze anos mais jovem que você. Diga-me, Samuel, você é pai de John?
Samuel fez uma expressão sinceramente confusa, mas Ethan nunca ouviu sua resposta. A sala foi sugada por um turbilhão escuro. Todos os homens e mulheres antigos sumiram. Todas as vozes silenciaram-se. Os sonhos foram apagados. Ethan mergulhou num sono profundo e gostoso, um sono merecidos e sem mais sonhos.
Dormiu até que as mãos macias de Honey o acordassem. Era dia 1 de dezembro. Ele tinha um delicioso café-da-manhã para ser comido e a última edição do The New York Times com cruzadinhas para serem completadas. E a melhor parte de tudo aquilo era que, apesar dos grandes buracos nas reminiscências do sonho mais pavoroso que já tivera na vida, Ethan Lemnsack lembrava-se das últimas palavras do avô Samuel.
Melchior estava no Palácio Real Hentz, no escritório que agora chamava de seu, contemplando uma parede marrom onde antes seus antepassados se imortalizaram em formosas pinturas. Livrara-se de todos os quadros, um por um, assim como todas as antiguidades que um dia pertenceram aos Hentz. Dera-os à Lauren Mayfair, aquela advogada arrogante que não via a hora de ser demitida, para leiloá-los.
Segurava-a nos braços, sim, segurava a pequena. Melchior amava a pequena desde que pusera os olhos em seu corpinho rosado pela primeira vez. Fora o primeiro de sua família a vê-la, antes mesmo do pai Leoh, que convenientemente encontrou o carro com o pneu furado ao descobrir que a bolsa de Any havia estourado e que ela fora ao hospital. Middleland Hentz Hospital. Em breve Middleland Chioren Hospital. Sim, foi no dia 2 de outubro.
Melchior segurou-a nos braços após a enfermeira tê-la limpado e a envolvido em toalhas. Uma menina, sim, como podia ver. Os olhos estavam fechados, mas se abririam logo. Um pequeno tufo de cabelos no topo da cabeça redonda, cabelos brilhantes, macios e sedosos da cor das nuvens. Ela abriu os olhos antes que Any pudesse segurá-la. O primeiro ser humano que aquela nova Chioren viu foi Melchior, e Melchior sorriu.
— Como vamos chamá-la? — perguntara Any de seu leito do hospital, onde anteriormente já estivera oito vezes. Sua nona criança. Sua segunda menina. A primeira cesárea, completada com uma boa laqueadura. Não haveria mais Chioren no mundo, e nem era para haver.
— Não é óbvio? — perguntou Melchior olhando para o bebê que berrava. Os olhos da menina eram violeta, plenamente violeta, sem nenhum resquício do azul recorrente em todos os irmãos. Eram olhos iguais aos seus, com cabelos iguais aos seus. Ela era igual a Melchior em todos os sentidos. Sim, ele sabia que seria tão inteligente quanto ele, tão bela quanto ele, tão ambiciosa, perversa e cruel quanto ele. Sua irmã. — Ela se chamará Violett.
O pai não objetou aquele nome, a mãe achou-o lindo. Violett Chioren. Melchior levou todos os irmãos à maternidade para que dessem as boas-vindas à nova menina. Uma linda menina. Não permitira que ninguém tirasse os olhos dela desde que entrou na sala cheia de bebês até que o momento de sair. Sabia de casos de bebês trocados no nascimento, embora fosse impossível confundir aquele bebê com qualquer outro. Violett tinha os olhos mais violeta que já nasceram na família. E ela se provaria merecedora de tal.
Enquanto Any descansava do último parto de sua vida, que decorrera bem apesar de já ter quarenta e três anos, e Leoh geria a casa e trabalhava, Melchior saía com Violett. Levava-a ao parque e a museus em seu carrinho de bebê, conversando com ela como louco durante horas, mas sem usar aquela estúpida voz que pessoas usam para falar com crianças, idosos senis e animais, e sim como se ela fosse o que era: um ser humano que o via, escutava e entendia. Seus olhos focavam o rosto do irmão com uma atenção absurda. Melchior sabia haver admiração ali, e amor também. Violett tinha dois meses de vida e o amava incondicionalmente.
Lia livros clássicos para ela e tocava Mozart e Beethoven para que dormisse, às vezes em aparelhos eletrônicos, às vezes no piano gigantesco do quarto de Lorenzo. Gostaria de ter o Stradivarius ali. Quando se cansava da música sem letra, Melchior cantava para ela como cantara para todos os irmãos. A Balada dos Gatinhos, principalmente. A velha cantiga infantil de autoria desconhecida em que se podia usar qualquer animal. Uma certa vez, usara leões e foi a primeira vez que Violett riu.
— Está certa, minha querida — disse-lhe dando um beijo em sua testa. — Porque você é uma leoa, assim como eu. Somos leões Hentz e estamos prestes a sermos os únicos. Quando crescer, vou contar-lhe tudo o que fiz para destruir os originais. Será sua história preferida. Juntos, você e eu construiremos um império mais forte que os Hentz alguma vez sonharam. Dominaremos o mundo. Eu estarei no topo. E, você, ao meu lado.
Os irmãos e os pais diziam-lhe que estava passando tempo demais com ela. Bobagem, tolice. Como se não gostassem de não precisar aturar o choro insuportável, a troca de fraldas e as necessidades noturnas de mimos e mamadeiras. Melchior fazia tudo isso com ela como fizera com Teo, Tarly, Robbet, Marco e o primo Grey, irmão do finado Robb. Que descanse em paz. Foi realmente um acidente horrível. Violett saberia disso também.
Levara o berço a seu quarto e acordava duas ou três vezes por noite para dar-lhe o leite, sem nunca acordar cansado de manhã por isso. Isso quando não passava a noite inteira escrevendo no computador descrições detalhadas de sua aparência sem nenhum motivo aparente, ou desenhando esboços de seu rostinho de bebê e de como ficaria ao crescer. Adorava colorir os olhos no tom de violeta mais forte que encontrava entre os lápis de cor dos irmãos mais novos. Às vezes simplesmente ficava olhando para ela durante horas e horas.
Ela era sua, Violett, e ele não deixaria que ninguém a tirasse dele.
Por isso a levara ao Palácio em seu aniversário de dois meses. O cabelo já estava maior, numa tonalidade prateado-escura estonteante. Era a mesma tonalidade dos cabelos de Melchior. Absolutamente linda. Os olhos não mudaram de cor, como acontece na maioria dos bebês. Continuavam tão violeta como no dia em que deslizara das pernas da mãe.
Segurou o bebê contra as janelas de corpo inteiro que mostravam Middleland.
— Vê essa cidade miserável? É toda sua, assim como as pessoas. E esse prédio em que estamos e as pessoas que trabalham nele? Todos seus. Passei no Middleland Hentz Hospital, outro dia, para ver Jules. Nenhuma mudança. Ele não vai acordar. A mãe está pensando em desligar os aparelhos. O que acha de a convencermos a acelerar o processo?
Violett pareceu rir. Melchior beijou sua bochecha. Levou-a ao divã e deitou-a cuidadosamente, embalada em panos e trouxas.
— Vamos voltar aos livros. Quero que aprenda a ler e escrever antes dos três anos e a tocar pelo menos dois instrumentos musicais com perfeição antes dos sete. Aos dez, já deverá saber pelo menos quatro idiomas. Você terá uma educação de primeira linha desde que a idade de ir à escola, diferente dos meus irmãos. Vai se formar em Harvard muito jovem summa cum laude. Eu não tenho tempo de fazer isso. Tenho que asfaltar a estrada que você vai pegar. Mas você… você tocará o mundo quando eu não estiver mais aqui. E vai demorar, espero.
O bebê lambeu os próprios lábios. Melchior deu-lhe uma caneta de ouro para que brincasse. Pegou um grosso livro com capa de couro e começou.
— Odisseia, de Homero. Livro X: Éolo, Lestrigões, Circe. Assim que chegamos à ilha de Éolo, Ulisses…
Havia uma grande mansão nos arredores da cidade de Middleland. Um castelo neorrenascentista mundialmente famoso e galardoado com prêmios de arquitetura chamado Château de Wintorland. Nesse castelo, há muitos e muitos meses, viveram duas meninas gêmeas com seu pai, seu irmão e seu sobrinho adotivos. Houve um tempo em que Nicholas Hentz uniu-se a essa família e foram todos muito felizes.
Mas esse tempo acabou quando um grande terremoto chacoalhou a cidade de Middleland. Agora vivia nele apenas um homem solitário. Um homem solitário, rico e poderoso.
Cornelius Marie de Rockefeller e Goldenschild era um homem velho, mas vigoroso e robusto, com cabelos finos totalmente brancos e olhos dourados. Nasceu no ano de 1924, filho de Lionel Sophie de Goldenschild e Marie-Hélène du Pont Rockefeller, que viria a se tornar tia de Seraphine du Pont, mãe de Jules du Pont. Sem irmãos e herdeiro de uma grande fortuna, entrou nos negócios da família com vinte e um anos, após entrar na Universidade da Califórnia. A presidência do Banco Goldenschild um dia pertencera a seus antepassados, mas havia há muito tempo sido retirada por seus primos mais próximos. Quando nasceu, o presidente era seu tio, James von Goldenschild, do ramo alemão da família, que casou-se com uma membro da nobreza britânica, Lady Cécile Rothschild, e meteu um título de lorde antes do nome do único filho, Isaac. Quase tão genial quando Cornelius, Isaac era acreditado de ser o sucessor na presidência do banco por todos na família.
No entanto, havia algo em Isaac que faltava no primo: um senso de moral e ética absolutamente dispensáveis naqueles ramos selvagens. Lentamente, Cornelius tomou o lugar seu lugar e tornou-se o favorito para suceder James. Foi tão sutil e manipulador que, quando Isaac percebeu, havia perdido o posto que Cornelius mantém até hoje. Foi empossado em 1966, aos quarenta e dois anos, e desde então não parou mais de crescer.
De forma nunca antes vista, Cornelius estendeu tentáculos sobre todos os ramos da família, desde o de mineração até os vinicultores. Comprou e reformou antigas propriedades e terrenos dos Goldenschild, investiu em indústrias farmacêuticas e fazendas de gado e nos anos 90 foi um dos principais acionistas de uma empresa de tecnologia que hoje valia centenas de bilhões de dólares. No entanto, seu negócio principal era o bancário. O Banco Goldenschild cresceu como uma fortaleza e mantinha-se implacável e indestrutível desde então. Ao longo das décadas, tomou controle de todos os grandes bancos e corporações do planeta e a dinastia Goldenschild, que no passado planejou golpes de estado, fraudes, genocídios e guerras para sua perpetuação no topo da elite planetária, assumiu-se como a família mais rica e poderosa do mundo. Cornelius criou um império de forma que nenhum dos grandes césares do mundo antigo conseguiu.
Teve seu primeiro contato com os Hentz aos vinte e um anos, em 1945, quando decidiu com alguns primos Goldenschild publicamente tomar o partido de Henrietta Walker na separação da Califórnia dos Estados Unidos. O principal aliado de Henrietta nesse assunto fora John Daniel Hentz. John Daniel era o que se podia chamar de um aliado fantasma. Nunca aparecia nas reuniões ou declarava-se partidário publicamente, mas financiava-a em segredo e dava-lhe conselhos de quais áreas da esfera política americana atacar, quais senadores e parlamentares subornar, onde conseguir um bom material para chantagem e táticas de guerrilha. Isso foi uma coisa que dividiu a família Goldenschild, que na época tinha membros na política de vários estados diferentes que se opuseram a Henrietta. O Vice-presidente dos Estados Unidos e o Secretário de Estado eram Goldenschild, além do Diretor da CIA e do Bank of America. Até hoje em dia, os descendentes desses membros dificilmente misturam-se aos ramos que apoiaram a separação.
Cornelius atendeu a maioria das reuniões secretas que Henrietta promovia. John Daniel raramente aparecia, mas seu filho, Samuel, assistia a todas. Em 1945, Samuel Hentz tinha quinze anos de idade e era um rapaz esplêndido e inteligente, o que podia-se chamar hoje em dia de superdotado. Absurdamente ambicioso e brilhante, tinha memória fotográfica, altos conhecimentos de economia, geopolítica e história, era um gênio com números e tão carismático e diplomático quanto um líder sindical, com seus cabelos loiros rebeldes e os olhos extremamente pretos e inteligentes. Naquela época, foi difícil para uma mulher sozinha conseguir apoio numa política predominantemente governada por homens. Henrietta Walker tinha trinta e seis anos e era a única governadora mulher do país. No entanto, Samuel tinha a habilidade incrível de fazer todos aqueles dinossauros conservadores esquecerem seus preconceitos e prestarem atenção. E quando falava, que importava se Henrietta era mulher? Que importava se ele próprio tinha quinze anos de idade? Que importava se seu companheiro ao lado era um democrata ou um republicano? Os velhos escutavam-no com atenção.
E Cornelius também. Ah, como escutava. Dividiam não apenas pensamentos e opiniões, aquele homem de vinte e um anos e o adolescente de quinze. Dividiam a cama também. Samuel foi o primeiro e o último homem com quem Cornelius esteve. Era um garoto absolutamente apaixonante e inebriante, um pequeno deus grego no corpo de um socialite prestes a se tornar um grande bilionário corporativista. Sim, fora perdidamente apaixonado por aquele nova-iorquino que se naturalizara californiano, uma criancice estúpida, uma tolice juvenil. Mas foram bons tempos. Podia-se conversar sobre praticamente qualquer coisa com Samuel Hentz. Discutiam política, filosofia, ética e moralidade, mitologia, religião, direitos civis e amor. Samuel previra naquela época os problemas ambientais que as grandes fábricas acabariam provocando e em como isso afetaria o mundo moderno. Previu a nova grande queda da bolsa — embora não tenha vivido o suficiente para ver isso —, a corrida e conquista espacial, o avanço nos direitos civis das minorias e o surgimento do celular e da internet. Certamente de maneiras limitadas ao que se podia esperar de um adolescente dos anos 40, mas sempre fora a frente de seu tempo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Você verá, Cornelius — costumava dizer quando terminavam de fazer amor ou de tomar grandes doses de vinho. — As grandes potências mundiais ainda se reunirão pacificamente em países neutros para decidirem se devem continuar soltando fumaça no ar ou não. E quer saber? Essas reuniões raramente darão algum resultado. — Ou então: — O homem ainda poderá se comunicar com outro homem do outro lado do planeta de forma quase instantânea. A informação será mundialmente uma só e a imprensa se tornará o quarto poder, acima do judiciário, executivo e legislativo. E nessa época chegaremos à Lua, à Lua! Ela não está no céu apenas para enfeitá-lo. Caminharemos nela algum dia. — E mais: — Haverá um dia em que mulheres vão tomar consciência da opressão em que vivem e perceberão que são tão capazes de fazerem qualquer coisa que um homem faz. E a sociedade terá que engolir isso, caso contrário ela será engolida. — E por fim: — E eu sei que queremos ser um país próprio, mas eu te digo que um dia haverá um homem negro como presidente dos Estados Unidos.
Como Cornelius rira dessas previsões, achando-as nada mais que frutos da mente fértil de um adolescente. Pedira para que não saísse por aí dizendo-as em voz alta, ou o tachariam de comunista. Acabou que Samuel acertou todas. Também ajudou algumas a se realizarem.
Samuel vivia em Nova York e voava para a Califórnia pelo menos duas vezes por semana. Tinha um amante na cidade americana, admitira desde sempre, e não pretendia largá-lo. Um garoto italiano cujo nome Cornelius já não se lembrava mais. Um criado. Nada com o que pudesse se preocupar. Para se ter Samuel, você precisaria dividi-lo com quem ele achasse meramente atraente. Conquanto pudessem discutir por que exatamente a sociedade presente execrava o amor entre homens enquanto bebiam vinho e comiam frutos do mar despidos no quarto de hotel luxuoso em Los Angeles que sempre ficavam, estava tudo bem. Depois cansavam de discutir e faziam amor mais uma vez, e depois outra e mais outra. Samuel dizia o que Cornelius teria que fazer para recuperar o Banco Goldenschild para seu lado da família e graças a seus conselhos, no futuro, Cornelius realmente conseguiu.
É, aqueles foram bons tempos. Até viajaram juntos à Europa uma vez.
Na Revolta Californiana, o maior enfrentamento que houve entre californianos e americanos aconteceu numa cidadezinha quase na fronteira com o estado de Nevada chamada Frankfurt, em dezembro de 1949. Exército americano contra policiais e civis armados com armas brancas. Quase trinta mil manifestantes. Henrietta liderava os californianos. Cornelius e Samuel estavam presentes, cada um ao seu lado. Cornelius e Henrietta só descobriram depois que Samuel havia ido sem a permissão de John Daniel. Bem, era impossível esperar que Samuel obedecesse ordens que não lhe agradavam. Uma vez o pai tentou mandá-lo para um internato católico nos confins da Europa sem um tostão no bolso, provavelmente irritado com todos os seus casos com rapazes. Samuel voltou em quarenta e oito horas num navio comercial. Havia feito amor com metade da tripulação e engravidado duas moças. Depois disso, John Daniel não tentou mais mandá-lo para longe. Àquela altura, ele já tinha dezenove anos.
Quanto a Frankfurt, o que deveria ser um protesto pacífico — será que em toda a história da humanidade houve uma revolução bem-sucedida pacífica? — tornou-se um genocídio sangrento. Duas mil pessoas morreram, cinco mil ficaram feridas e vinte e três mil fugiram. Uma das fotografias mais famosas do mundo vinha daquela batalha, uma em preto e branco. No entanto, a lembrança estava fresca na memória de Cornelius e daqueles que haviam estado lá. Estavam na época do Natal e havia enfeites por todos os lados, naquelas casinhas interioranas simples e lindas. Quando o primeiro tiro ressoou e as pessoas começaram a gritar, uma grande massa atacou os soldados com tacos de baseball, canivetes e facas. A outra grande massa deu-lhes as costas e fugiu desesperada. Pessoas morreram pisoteadas, baleadas e espancadas. O exército trucidou os que ficaram. A fotografia em questão retratava um boneco de Papai Noel com a frase Paz e amor para todos costurada na barriga manchado de sangue, com uma cena de fuzilamento borrada ao fundo.
Cornelius ainda se lembrava de, desesperado, procurar Samuel em meio à multidão. Viu-o ao longe, tentando levantar Henrietta, que fora baleada no estômago. Um soldado aproximava-se dos dois com uma metralhadora em mãos. Cornelius não pensou realmente no que estava fazendo, mas sabia que queria proteger o rapaz que amava e a mulher em cujas ideologias acreditava. Aproximou-se dos dois, passando por cima de pessoas e soldados, e atirou um coquetel molotov perto de um grupo de soldados mais ao longe. Nenhum deles percebeu a coisa se aproximando. A explosão matou seis pessoas e distraiu o soldado que pretendia atirar em Samuel e Henrietta o suficiente para Cornelius degolar sua garganta com um canivete suíço que ganhara de presente de Samuel.
Retirou os dois dali e foram para um lugar seguro. Depois desse episódio, Samuel foi proibido pelo pai de voltar à Califórnia, e ele definitivamente não voltou. Ninguém conseguia segurar Samuel Hentz à força em lugar nenhum. Ele realmente queria o afastamento. Por causa disso, Cornelius sabia que o relacionamento havia oficialmente acabado. Nunca foi julgado pelo assassinato do soldado ou das pessoas explodidas.
Henrietta foi internada no hospital de Frankfurt, onde retiraram a bala cirurgicamente. Ela sempre soube do que houvera entre Cornelius e Samuel. O primeiro ainda se lembrava da primeira coisa que ela havia dito ao visitá-la no hospital após receber a notícia de que o segundo não voltaria mais àquele estado que tentava desesperadamente tornar-se país.
— Eu não o culpo por se apaixonar por um Hentz. — Henrietta estava meio drogada de analgésicos. Na época, tinha apenas quarenta anos e uma quantidade absurda de cabelos brancos. Será que suspeitava que seu futuro bisneto Senn apaixonar-se-ia pelo futuro bisneto de John Daniel? — Eu também me apaixonei por John Daniel. Oh, as noites que passamos juntos ainda vivem em minha mente. Tenho que contar-lhe uma coisa. Estou grávida de um bebê dele, e os médicos creem que posso perder a criança.
John Daniel era casado com Letricia Ovanosi e Henrietta já estava há doze anos com George Fellow. Se o escândalo viesse à público, todo o amor da população californiana para com sua líder desapareceria.
Henrietta abortou naturalmente naquela semana. Seu caso com John Daniel terminou aí. Ele nunca ficou sabendo da gravidez ou do aborto. Cornelius acreditava que havia sido mais ou menos nessa época que ela engravidara pela segunda vez, e dessa vez garantia que era do marido. O bebê chamar-se-ia Jaime Walker-Fellow.
Em julho de 1950, sete meses após o Massacre em Frankfurt, os Estados Unidos da América finalmente aceitaram a automutilação e reconheceram a Califórnia como país independente, sob forte pressão mundial. Cinco anos de revolta que finalmente valiam a pena. Todos os californianos nascidos até a data da proclamação da independência receberam dupla-cidadania, foi o que ficou escrito no acordo. O acordo também tinha outra cláusula que não veio ao público e provavelmente jamais viria, mas essa só foi adicionada depois de Henrietta tornar-se rainha.
Quando o estado finalmente tornou-se república, Samuel Hentz voou de Nova York pela primeira vez no ano e reativou a primeira sede da Kruger-Vorheel na próspera cidade de Middleland, ambas fundadas por seu avô John Francis. Já com vinte anos, aconselhou Henrietta a realizar um plebiscito para que fosse decidida a forma de governo. Ela acatou a ideia e, sob a surpresa do planeta inteiro, o recém-liberto povo californiano a elegeu Rainha da Califórnia. Uma monarquia parlamentarista. Por que não?
Quando Henrietta, já rainha, deu à luz, perdeu o bebê e tornou-se estéril, chamou Cornelius desesperada. Foi aí que lhe revelou a cláusula no acordo que fizera com o então presidente americano Harry Truman. Se sua linhagem de sangue acabasse, a Califórnia voltaria aos EUA como estado. Era terrível, a coisa mais terrível que poderia acontecer. Ela chorava, com os cabelos metade castanhos e metade grisalhos jogados na testa suada.
A expressão de Cornelius tornou-se fria. Eles não voltariam a ser americanos. Juntamente com John Daniel, fez um acordo com uma família que acabara de ter seu bebê, um muito parecido com o de Henrietta, para que realizassem uma adoção sem envolver o pessoal do hospital. Eles aceitaram após uma grande quantia em dinheiro oferecida por John Daniel. O bebê tornou-se Jaime Walker-Fellow, que mais tarde descobriu a verdade sobre seu nascimento e teve um colapso nervoso no meio do discurso de posse do Primeiro Ministro. Agora estava trancado num manicômio.
Em 1973, Jaime engravidou uma princesa norueguesa chamada Louise-Marie, que na época tinha dezessete anos. Ambos foram forçados a se casar. Mais tarde, nasceu a pequena Antoniette Walker-Fellow, uma doce garotinha que se tornaria uma alcoólatra melodramática quando adulta. As únicas coisas boas que fizera na vida foram seus dois filhos com aquele inglês que descendia de um barão, Alexander. Tiveram Senn em 1997 e Antoniette, Toni, em 2003. Oh, Senn, aquele lindo garoto que tanto lembrava Samuel, se não fosse tão mimado e hipócrita. Na verdade, Senn era essencialmente egoísta e egocêntrico, mas era carismático e era isso que o povo queria.
Ah, e se apaixonara por Ethan. Que grande história de amor os dois poderiam ter vivido, se não fosse tão impossível. Se Antoniette servisse para algo mais além de esvaziar garrafas de vodka e tivesse aceitado a posição de rainha, e não rainha-mãe, essa história poderia ter acontecido. O que é um príncipe herdeiro mimado em meio a tantos outros? Mas Senn como rei tendo um romance com Ethan? Não, impossível. Embora isso não impossibilitasse suas escapadinhas.
Voltando à 1950, a conversa entre Cornelius, Henrietta e Samuel em que Samuel falou sobre o plebiscito foi a última vez em que ambos os rapazes conversaram sobre o que tiveram. Ao ser indagado, Samuel sorriu, aquele lindo sorriso Hentz, balançou a cabeça cheia de cabelo loiro encantadoramente e disse que eram águas passadas, brincadeiras banais entre adolescentes. Ele estava noivo de uma francesa chamada Joselia Jasperin, que tinha catorze anos. O noivado duraria tanto quanto fosse necessário. Arranjado por seu pai. Não era medieval demais, perguntara a ele. Provavelmente, respondera. A moça me odeia.
Joselia e Samuel desprezaram-se até o fim de suas vidas. Corria um boato de que faziam suas obrigações na cama apenas uma vez por mês enquanto Samuel engravidava sua secretária que dava cria a uma porção de criaturas de cabelos cinzentos e olhos violeta que viriam a atormentar seus descendentes legítimos inimaginavelmente. Mas era impossível tirar uma ideia ou desejo da cabeça de Samuel. Não era à toa que só tivera uma filha aos quarenta e três anos de idade. Até John Daniel, aquele sociopata maníaco por trabalho cumprira suas obrigações para com a longevidade da família melhor que o filho. Era quase impossível acreditar que ele pudesse ser filho daquela estrela na Terra chamada Ondromeda Olrwen, a mulher mais bela que o mundo jamais viu.
Samuel partiu para Boston depois de reativar a sede da Kruger-Vorheel na Califórnia e fixou residência na Universidade de Harvard. Quando se formou, voltou a morar na Califórnia e casou-se com Joselia, tudo no mesmo ano. Mary Alice nasceu em 1973, John Daniel morreu em 1979 e no mesmo ano Samuel sentou-se no trono da Kruger-Vorheel Company e cortou qualquer tipo de relação com os Goldenschild. A última vez que se falaram foi nos anos 80, na festa de condecoração de um Primeiro Ministro. Um amigo de Cornelius trouxe Samuel pelo braço e apresentou os dois. Samuel sorriu como sempre sorrira. Em trinta anos, não havia mudado nada. Continuava sendo um lindo menino.
— Prazer em conhecê-lo, Sr. Goldenschild — falara cordialmente.
— O prazer é meu, Sr. Hentz.
Essa foi definitivamente a última vez que Cornelius e Samuel se falaram.
Quando Cornelius assumiu a presidência do Banco Goldenschild em 1966 e passou a acumular poder e a construir uma fortuna pessoal de oitenta bilhões de dólares que o transformaria na pessoa mais rica do mundo, puniu os membros da família Goldenschild que foram contra Henrietta nos anos 40. Demitiu-os de seus postos no alto escalão das empresas, tomou-lhes rendas e propriedades, exigiu de volta as joias antigas da família e deserdou seus descendentes para sempre. Os que a apoiaram ganharam privilégios. Foram dadas a eles grandes mansões e castelos e somas da fortuna para cuidarem, além de pequenas parcelas dos negócios da família e cargos de importância nas grandes empresas. Ninguém mais ousou ir contra Cornelius depois disso. Bem, só uma vez.
Após todos esses acontecimentos, seu primo, Lorde Isaac, antes um arrogante mimado, tornou-se submisso e amedrontado por seu crescente poder, mas também amargo e vingativo, embora Cornelius só viesse a perceber isso tarde demais. Cornelius arrumou o casamento de Isaac com uma nobre inglesa chamada Lady Elizabeth Spencer, que deu-lhe um filho chamado Austin. Lorde Austin casou-se com Seraphine Roffe, irmã de um herdeiro de um conglomerado de cosméticos, e teve duas filhas gêmeas, Carmenia e Victoria. Seraphine morreu no parto das duas. No entanto, como era de conhecimento implícito na família, Austin teve um caso em 1993 com uma socialite chamada Barbara Collins. Dela, teve uma filha chamada Hélène-Austin. Após a morte da esposa, Austin teve um colapso nervoso e decidiu viajar pelo mundo e tirar férias da família. Deixou as filhas recém-nascidas com o primo de segundo grau muito rico e desapareceu. Nunca mais foi visto desde então. Cornelius criou as gêmeas desde que eram bebês. Legalmente, eram suas filhas. Na prática, chamavam-no pelo nome.
De seu lado da família, Cornelius casou-se com uma membro da família real britânica chamada Sybil Whilhermina Windsor, trinta e seis anos mais nova, parente próxima da Rainha da Inglaterra. O casamento foi um grande espetáculo no New York Palace, com centenas de endinheirados e cabeças coroadas convidados. Muitos negócios foram feitos naquela noite, mas não era isso que importava. Cornelius realmente amava Sybil. Provavelmente fora seu primeiro amor depois de Samuel, e essencialmente o último. Era uma linda moça com olhos azuis e cabelos da cor do sol, doce e meiga como uma personagem de Bram Stoker. A esposa perfeita para um homem que tinha tudo e poderia ter quem quisesse.
Sybil morreu assassinada em 1985. Estava viajando de férias no México com Cornelius quando, ao relaxarem em seu iate, um franco-atirador acertou seu peito duas vezes de um helicóptero. Mas não era ela quem ele mirava. Sybil morreu tentando proteger a vida do filho Henry, que na época tinha dois anos de idade.
Reencontraram o helicóptero do franco-atirador depenado na costa próxima. Descobriram que ele havia se suicidado com uma pílula de cianureto. Não havia piloto.
Cornelius ainda se lembrava com perfeição do escândalo que isso causou na família. Ninguém mencionava culpados, mas estavam todos apavorados com o que ele faria. Não se deu ao trabalho de descobrir quem era o mandante da operação porque já sabia que pertencia a sua família, e para ele isso era traição suficiente.
Foi por isso que no ano seguinte, em 1986, convidou todos os chefes dos ramos mais influentes dos Goldenschild para um jantar privado em sua propriedade em Middleland. Patriarcas e matriarcas, poderosos e ricos o suficiente para mandarem assassinar seu único filho, herdeiro tanto da dinastia Goldenschild quanto, distantemente, do Império Britânico. Àquela altura, já era um homem velho. Não teria outro filho e todos sabiam disso. Seu primo, Lorde Isaac, futuro avô de suas filhas gêmeas adotivas, era um dos convidados. Não chegaria a conhecê-las.
Serviu-lhes um belo jantar italiano com seus melhores vinhos. Para a surpresa de todos, não falou nem mesmo uma vez sobre o assassinato. Perguntou sobre os negócios do petróleo, sim, sobre a Bolsa de Valores, é claro, sobre a provável queda do Muro de Berlim, por que não? Aconteceria dali a quatro anos, de qualquer jeito. O banco ia muito bem, é claro. O dinheiro Goldenschild estava muito bem investido em propriedades, bens e riquezas naturais. Uma fortuna que, unida, ultrapassava a marca de um trilhão de dólares. Suficiente para gerir um país grande. Impossível de ser perdida.
O jantar terminou, pratos e taças vazios, quase cem barrigas bilionárias cheias. Foram todos tomar sobremesa e fumar charutos na sala ao lado. Ninguém notou que Cornelius não tocara na comida.
Os chefes dos ramos do clã Goldenschild morreram com poucos minutos de diferença. Começaram as náuseas, as ânsias de vômito e as tonturas. Um deles caiu no chão, imediatamente morto, e outros perceberam que haviam sido envenenados. Tentaram ligar para a emergência ou conhecidos, mas os celulares haviam sido confiscados. Tentaram fugir, as portas estavam fechadas. Cornelius observou silenciosamente até que o último deles caísse morto no chão enquanto fumava um bom charuto cubano.
Havia inocentes entre aqueles mortos, óbvio que havia, mas Cornelius nunca fora do tipo que pouparia inocentes por não ter a certeza de qual deles era o culpado. Isaac com certeza não havia morrido de mãos limpas.
As famílias receberam os recados. Todos choraram as mortes de seus patriarcas e matriarcas da forma que puderam. Ataques cardíacos, aneurismas, foi toda a explicação que ouviram. Uma grande tristeza. Cinismo. Jamais haviam levantado a voz contra Cornelius Goldenschild novamente.
Seu filho Henry nunca ouvira a história da boca do pai, mas mexericos e fofocas são impossível de serem parados. Também nunca fez perguntas.
Era um belo garoto, inteligente como o pai e loiro de olhos azuis como a mãe. Ainda com quinze anos de idade, Henry engravidou uma moça de treze anos chamada Dominic. Ele queria que ela abortasse, mas o pai forçou-o a assumir a criança. O bebê chamou-se Benjamin, tinha os cabelos do pai e os olhos dourados da mãe. Decepcionantemente, Ben revelou-se um garoto tão arrogante e estúpido quanto o lado da família do qual as gêmeas descendiam. Como não podia deixar de ser, seguiu os passos de Henry e teve, aos quinze anos de idade, em 2013, um filho chamado Romeo. A mãe foi Hélène-Austin, meia-irmã das gêmeas. Tecnicamente, as gêmeas eram suas primas distantes, mas legalmente eram suas irmãs. Isso só complicava as coisas. Mas eram uma família feliz.
Isso é, por um tempo. Henry entrou para a Universidade da Califórnia, onde se formou em Medicina, e imediatamente ingressou nos Médicos Sem Fronteiras. Era mais que óbvio que não pretendia seguir os passos do pai. Benjamin provavelmente gostaria de sentar em seu trono, mas Cornelius antes empossaria o cadáver de Carmenia.
Ah, sim, Carmenia, sua filha louca e carinhosa. Morrera ao ser acertada na cabeça por uma laje na única força destrutiva que Cornelius não podia controlar: a natureza. Victoria fora mandada a um internato na Suíça para evitar que perdesse o juízo. Benjamin passava as férias em Cannes, na França, e o bebê Romeo estava com a mãe Hélène-Austin em Los Angeles.
Aquele era o legado de Cornelius. Um filho que não se importava, um neto que preferia fumar maconha a tentar entender como um fundo mútuo funcionava e que não fazia ideia de que era primo da Família Real Britânica, um bisneto que ainda era um bebê e estava sendo lentamente destruído por uma mãe inconsequente, uma filha morta e outra trancafiada.
O homem mais rico e o mais solitário do mundo, era isso que achava de si mesmo. Aceitara a auto-piedade anos atrás. Por que não? Tinha noventa anos de idade, oitenta bilhões de dólares, metade do ouro do mundo, um belo câncer de pulmão que o mataria antes do final do ano seguinte e nenhum herdeiro. Até encontrar Ethan. Não deixaria o dinheiro para ele, mas aquele jovem neto de Samuel poderia encontrar utilidade em algumas das empresas Goldenschild e uma parte das ações do Banco Goldenschild.
E agora aquela linda mulher que se nomeava Liane Z. T. Chamrey sentava-se na confortável poltrona de frente para sua escrivaninha. Era raro receber visitas àquela época de sua vida. Seus primos cuidavam dos negócios e dos encontros com chefes de estado e presidentes de empresas. Cornelius já estava velho e cansado demais para viajar.
— O que está fazendo aqui? — perguntou cuidadosamente. A mulher parecia abalada. Ethan não havia morrido, ou ela estaria louca.
— Vim pedir-lhe permissão para bombardear o New York Palace. É onde Devon está hospedado.
— Oh, minha querida. O que ele fez?
As palavras demoraram a sair de sua boca, mas quando isso aconteceu foram quase cuspidas.
— Ele o estuprou, foi isso que aconteceu! Não me avisou o que pretendia fazer. Eu acreditei piamente que iria apenas torturá-lo com palavras, mas ele o fez com o corpo. Como eu posso parar algo cujas intenções me são desconhecidas? Como eu posso prever o imprevisível?
— Não se pode. Tudo o que você pode fazer é tentar minimizar as consequências. Veja quando a CIA tentou matar Senn e acabou acertando Ethan. Eu não pude prever que meus primos distantes tentariam fazer isso, mas pude enforcá-los um por um quando não deu certo.
Fora sua última grande intervenção na família Goldenschild. Dois agentes do grande escalão da CIA, um homem e uma mulher casados, um Goldenschild e uma Lancaster, dois loucos desvairados. Pais de Honey. Parentes tanto de Melinda quanto de Cornelius. Os lados californianos das duas famílias se juntaram para massacrá-los.
— Ele está ficando impaciente — continuou Liane. — Melinda o perturba todos os dias e ele desconta cada vez mais em Honey, e agora vai descontar em Ethan. Vai chegar o momento em que vai entrar no container e dar um tiro na cabeça dele. Dou graças a Deus por ter conseguido roubar o DVD que o mostra estuprando Oliver Castanelli do computador de Ethan.
— Por que não o consegue alguns jovens prostitutos para que desconte sua frustração? Não é difícil se livrar dos corpos. Oh, eu me esqueci. Ele também gosta dos corpos.
— É tarde demais. Ele decidiu que vai virar o jogo. Não será mais perseguido por Nicholas e companhia. Agora ele os perseguirá. Recusa-se a dividir os detalhes comigo. Eu preciso voltar a Nova York e arrumar um modo de avisá-los a respeito sem que saibam que há alguém tentando ajudá-los. Por que é tão difícil fazer isso?
— Pode indicar que o fim está próximo.
— Está falando da operação final? Unir Devon e Melinda e matá-los? Isso será muito mais difícil. Devon sabe que estamos atrás dele. Ele não é estúpido o suficiente para juntar as duas partes. E não sabemos onde estão as provas do crime de Ethan. Não sabemos quem está com elas e quem sabe o quê. Certamente apenas os Lancaster, mas há muitos deles.
— É, é verdade. Há muitos deles. Como unir todos?
Liane ficou muito tempo em silêncio fitando o homem a sua frente.
— Está pensando o mesmo que eu? Você quer mesmo fazer isso? São vinte pessoas com a mínima chance de saber, e mesmo assim não quer dizer que ninguém mais saiba.
— Serão vinte cadáveres. Se mais alguém souber, entenderá o recado e ficará calado. É assim que as coisas funcionam. Impossível matar um por um ou todos ao mesmo tempo, e se um souber da morte de outro contará tudo à imprensa. Ethan vai para a cadeia para sempre e é o fim dos Hentz.
Ela deu um suspiro, consternada.
— Precisamos de um motivo para uma grande reunião Lancaster.
— Melinda costuma, de dois em dois anos, reunir toda a família em sua casa em Sacramento para comemorarem as festas de fim de ano. É uma grande tradição. Os irmãos e primos mais próximos chegam no Natal e se hospedam na casa, e os mais distantes hospedam-se num hotel chamado The Rivaille. Almoçam e jantam juntos todos os dias até o Ano Novo. As reuniões chegam a ter trezentas pessoas.
— Trezentas pessoas — ela repetiu. — Melinda tem vinte irmãos e primos de primeiro grau e cunhados que trabalham com ela ou no governo de Northeria ou na administração da Lancaster Army. Excluindo Meredith. Se os colocarmos na mesma sala, em sua mansão, e explodirmos a coisa toda, terminamos com a perseguição.
Os sobrenome de solteira de Meredith Lancaster era Goldenschild. Enviuvara de um dos irmãos de Melinda e agora era funcionária do alto escalão da Lancaster Army. Tivera um caso com Samuel Hentz, uma vez. Uma espiã de Cornelius. Como Liane.
— Mantenha os Hentz vivos até as festas de fim de ano e redirecione a perseguição de volta para Sacramento — aconselhou-a desnecessariamente. Só achava que o silêncio precisava ser quebrado. — Eles têm que estar em Sacramento no Ano Novo e nem um dia antes ou depois. Assegure-se de que Nicholas vai suportar. Sei que ele não é um Hentz legítimo, mas se Ethan consegue viver três meses preso numa cama, Nicholas consegue viver numa mansão em Nova York.
— Como estão as coisas com Melon Chioren?
Ah, sim, aquele monstrinho que se dizia neto de Samuel.
— Eu não tenho como impedi-lo de afundar a Anhert, mas posso atrasar as coisas até o fim do ano. Ele já fez várias manobras complicadas para quebrar os contratos que a empresa tem com empresas Goldenschild, mas eu jamais permitiria tal coisa. Creio que ele sabe disso, por isso está esperando Ethan ser dado como morto para fechar a empresa e tomar a fortuna.
— Se isso ficar próximo de acontecer, você tem minha permissão para eliminá-lo. Não vou permitir que a fortuna que os Hentz tanto lutaram para construir e Ethan para manter e aumentar seja roubada e gastada por alguém sem um pingo de direito aos privilégios da família.
— Na verdade, Liane, o dinheiro iria para o nome do pai dele.
— Cornelius, não ouse ser ingênuo. Melon Chioren domina todos os membros de sua família. Se ele morrer, Lauren Mayfair conversará com Leoh Chioren. Ele com certeza não irá querer ser dono de três bilhões de dólares. Então nós vamos procurar Nicholas e apadrinhá-lo. Ele vai ter que superar a morte dos irmãos, mas precisamos dele para reaver o dinheiro. Mate todos os Chioren se precisar.
Cornelius achava Liane uma mulher fascinante. Num momento, podia estar preocupada com a saúde física e mental dos membros da família Hentz e no outro considerando a possibilidade de morte deles tranquilamente, desde que o dinheiro ficasse em mãos seguras. Podia mudar o nome quantas vezes quisesse, mas a mulher continuava a ser a mesma.
— Eles estão sofrendo.
De volta à personalidade emocional.
— Está bem, vou ligar para Meredith. Também vou repetir uma coisa. Eles são Hentz. Vão superar.
— Essa não é a pior parte, Cornelius. Quando Ethan fugiu em Las Vegas e tentou me hipnotizar, descobri seu poder. Eu sabia que, no Halloween, ficaria poderoso demais para ser parado, e por isso eu o isolei durante vinte e quatro horas. Eu o avisei disso, não foi? Pois bem, Devon agiu sozinho nesse dia e não me contou nada. Ordenou que Honey o administrasse alguma substância durante, dizendo que era para que não desidratasse.
— Mas não era. — Cornelius sabia do que se tratava antes mesmo que Liane dissesse. Devon já havia manifestado seu desejo de fazer algo parecido antes. As coisas estavam ficando cada vez mais perigosas. Ele estava ficando mais ousado. Era realmente hora de iniciar a operação final.
Liane Chamrey se levantou da cadeira, desvairadamente furiosa.
— Não, não era! Sabe o que a substância fez? Ela o esterilizou, Cornelius. Por causa dos Lancaster, Ethan Lemnsack não é mais capaz de conceber filhos! A linhagem Hentz vai acabar com ele!
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