Notas iniciais
Antepenúltimo capítulo da temporada. Faltam mais dois e o epílogo.

Monstros são reais e fantasmas são reais também. Vivem dentro de nós e, às vezes, vencem.

(Stephen King)

OoO

Louis Garret fugir de casa não foi uma coisa pensada. Acordara no meio da madrugada suado e desorientado, arrastara de cima do guarda-roupa a grande mala de viagens empoeirada, jogara um punhado de roupas aleatoriamente e descera à cozinha. Como odiava aquele papel de parede amarelado florido cheio de mofo, descascando nas pontas, como se estivesse tentando fugir da casa também.

A mãe estava sentada na cadeira, fumando um baseado, como costumava fazer durante as madrugadas. A mãe era como um leviatã em seu habitat natural, naturalmente furioso e apenas esperando um motivo para usar seus valorosos punhos. Uma mulher baixa e gorda como um botijão de gás, enfiada às pressas numa camisola bege com babados rasgados. Bobes no cabelo castanho. Quem ainda usava aquilo? Sem chinelos ou sutiã. Era possível ver os mamilos por baixo da camisola. Muito escuros e grandes. Estava frio na cozinha, eles não podiam realmente pagar pelo aquecedor.

Louis abriu a geladeira velha. Não havia muito, nunca houve. Não sabia por que fazia aquilo, talvez por ter esperança de que aquela cruz pregada na parede finalmente tivesse feito suas orações funcionarem.

— Para onde vai? — perguntou a mãe. Já vira a mala de viagens. Não havia por que mentir.

— Embora. Onde você guarda o dinheiro para emergências?

Ela respondeu com um palavrão. Louis passou a verificar os pequenos potes de condimentos ainda intactos. Farinha, açúcar, canela, nenhum dinheiro. Por que estava surpreso? O armário de bebidas estava cheio.

Para chegar à porta precisava passar pela sala. Um quadrado pequeno e apertado com uma TV pequena no canto, uma planta morta em outro e um sofá com um gigantesco buraco em um dos dois assentos. Aquele lugar tinha um eterno cheiro de mofo, mas o resto da casa também era assim. Pegou as chaves da moto, a carteira e o chaveiro de Tracy. Dois ursinhos se abraçando com uma porção de corações em cima. É, guardava as chaves de casa. Poderia devolvê-lo agora que as jogaria no lixo, mas Tracy morava em Carnegie Hill, então precisava encontrá-la em algum lugar.

— Como pretende sobreviver sem mim, heh? — Não demorou muito para a mãe começar a falar. Louis não esperava que levasse tanto tempo. — Como pretende ganhar dinheiro sem mim? Você sabe que não presta para nada além de fumar maconha.

Ela fumava pelo menos dois maços de cigarro por dia.

Atravessou a sala até o hall mal iluminado. Era o único lugar da casa onde o papel de parede não estava descascado. Havia uma pintura acima de uma mesinha, um autorretrato de um homem grisalho. Parecia ter sido pintado por Rembrandt. A bela moldura de madeira escura valia mais que ele, mas Louis gostava de olhar. Quando criança, ficava horas no hall, imaginando quem era o homem. A mãe costumava assustá-lo dizendo que era um fantasma que o comeria de noite se ele não se comportasse. Louis se comportou durante toda a infância, mas quando se lembrava disso hoje em dia pensou se não seria melhor se deixasse que o fantasma o comesse.

Abriu a porta de casa. Cinco e meia da manhã no Harlem. O ar frio estava estático e congelante. Fez-lhe os olhos arderem. Ele subiu o zíper do casaco até o final, coisa que raramente fazia porque lhe sufocava. Abaixou o gorro até que cobrisse as orelhas, firmou as luvas nas mãos e a mala pendurada nas costas. Se corresse, poderia chegar à estação rodoviária a tempo. Para qualquer lugar, menos ali.

— Se você for, nunca mais vai poder voltar! — gritou a mãe da sacada de casa. Louis não ouviu o resto. Tirou o celular do bolso e ligou para Tracy.

— Preciso encontrá-la na Temperance’s House. — Ela sabia onde ficava. 59th Street. Bem em frente ao Central Park.

Sua respiração quente criava uma fumacinha branca no ar quando expirava. Àquela hora só havia mendigos nas ruas e ratos nos becos. Louis não tinha medo daquele lugar àquela hora. Era um homem grande, de quase um metro e oitenta e cinco de altura. Tinha dezenove anos.

Esperou silenciosamente no ponto de ônibus. Tracy já devia estar esperando há um bom tempo quando Louis finalmente atravessou a rua em frente ao Central Park. Temperance’s House era uma cafeteria de esquina, aberta 24h por dia, no térreo de um daqueles prédios residenciais feitos de tijolos cor marrom com escadas de incêndio ao lado. A Temperance’s House possuía vidraças cujos cantos estavam sujos de poeira e gordura, um piso cujo carpete encardido precisava ser trocado e mesas de madeira escura cheias de farpas. As luzes eram brancas e enjoativas, mas mais enjoativo era o rapaz sentado ao lado de Tracy. Como gostaria que ela tivesse ido sozinha.

Entrou no estabelecimento. Sua presença não deixou de ser notada pela garçonete sonolenta por trás do caixa. Não havia muita gente ali, mas essa era a parte interessante da Temperance’s House. Quando o relógio batia as seis horas, o lugar simplesmente se enchia de repente. Todos os moradores do prédio tomavam café-da-manhã ali, e os que preferiam bacon e ovos fritavam-nos em casa e levavam para baixo para completá-los com café. Faltavam quinze minutos.

Tracy Templeton tinha dezoito anos, mas era pequena para a idade, mesmo para uma garota. Tinha um cabelo curto multicolorido, onde mechas azuis, verdes e róseas se misturavam; olhos azul-esverdeados e piercings prateados espalhados pelo nariz, orelhas e lábios. Era linda. O jovem ao lado era um ano mais velho e tinha olhos iguais, mas seu cabelo era amarelo, do mesmo modo que o cabelo de Tracy um dia deveria ter sido antes de ser destruído com tinturas. Era seu irmão. Chamava-se Tyler.

— Oi, desculpe acordá-la — falou ao se sentar no banco em frente ao dela e de Tyler. Ignorava sua existência, mas no final das contas ele acabaria falando de um jeito ou de outro.

— Você sabe que sempre pode me acordar — ela disse num tom suave e doce. Louis tirou do bolso seu chaveiro com sua chave. Com alguma dificuldade, desatou a chave da roda metálica do chaveiro e o devolveu para ela. Tracy o encarou de forma confusa.

— Estou te devolvendo — explicou. — Estou indo embora hoje e queria te devolver isso antes.

— O quê? — ela indagou pasma. — Como assim, indo embora? Sua mãe o colocou para fora, ou algo do tipo?

— Eu disse que usar drogas só traria problemas — Tyler comentou com sinceridade absoluta. Por que em nome de Deus ele usava um cardigã?

— Eu simplesmente quis ir embora, está bem? Sabe como são essas coisas. Não me diga que você nunca previu que algo do tipo aconteceria mais cedo ou mais tarde.

— Mas para onde você vai?

— Chicago. Ou Filadélfia. Sempre se pode ir para a Califórnia.

— E como vai chegar lá? Aqui, deixe-me te dar algum dinheiro.

— Não pode fazer isso — Louis e Tyler disseram ao mesmo tempo. Mas Tracy nunca foi do tipo de garota que obedecesse a ordens. Enfiou a mão na bolsa e tirou algumas notas amassadas. Ela também nunca foi do tipo de garota que tivesse uma carteira, mas talvez isso tivesse que mudar.

— Mas que droga, não tem tanto assim.

— Tracy…

— Espere, não diga nada, está bem? Apenas… apenas deixe-me pensar por um momento. Conhecemo-nos desde que nascemos, como você vai embora assim? Pelo amor de Deus. Espere, ainda não diga nada. Vamos esperar esse lugar abrir de verdade, e só então você vai embora. Só uma última vez.

Louis não tinha o que dizer a ela. Não havia por que não esperar mais dez minutos, não se seriam os últimos dez minutos que passaria com sua melhor amiga. Talvez esperasse que milagrosamente ele mudasse de ideia. Ambos sabiam que isso não aconteceria. E o que você fará ao chegar à Chicago, ou à Filadélfia, ou à Califórnia, Louis? Ora, como deveria eu saber? O que o destino me reservar.

As seis horas chegaram e com ela mais luz do sol. Tracy estava sentada ao seu lado, bebericando silenciosamente um café preto forte, do tipo que ela gostava. Louis enfiara dois pãezinhos de queijo na boca para satisfazê-la. Tyler ainda estava do outro lado com suas roupas discutíveis, parecendo irritado e sonolento.

Os moradores do prédio começaram a chegar. Viram o casal de idosos que sempre pedia a mesma coisa, dois cafés com chocolate e croissants de queijo; o homem jovem com uma barba escura aparada que sentava-se no canto e abria seu notebook e passava horas escrevendo; a mulher de meia-idade que lia o jornal à medida que bebia suas xícaras de café; o idoso que simplesmente bebia, comia e ia embora; a moça jovem que secretamente misturava uma bebida marrom suspeita ao café.

Louis conhecia-os todos, suas aparências, hábitos, comidas, cafés e mesas preferidas, mas não sabia o nome de ninguém. Era como passar tanto tempo olhando para uma obra de arte a ponto de conhecer cada pincelada e cor naquele quadro, sem, no entanto, nunca tocá-lo.

— Acho que é isso — disse a Tracy. Ela não queria olhar para ele. Não queria encarar o que viria a seguir.

Louis iria dizer mais alguma coisa, mas nunca teve a chance. Da porta dos fundos, entrou um rapaz jovem consideravelmente arfante. Usava um pesado sobretudo escuro, uma echarpe fina e cara, óculos escuros, luvas e um gorro, todos também escuros. Ele olhou através da cafeteria, sem ninguém dar-lhe atenção especial, até seu olhar recair sobre a mesa daqueles três. Ele não pareceu pensar muito no que fazia. Sentou-se no lugar onde Tracy anteriormente sentara, ao lado de Tyler e de frente a ela.

— Olá — disse uma voz rouca e estridente com um obviamente falso sotaque britânico. — Por favor, finjam que me conhecem e que sou parte de vocês. Há alguém me perseguindo.

— Por que faríamos isso? — perguntou Tyler desagradavelmente, ignorando o fato de que ele acabara de dar o motivo.

O rapaz olhou-o irritado. Era fantástico ser possível perceber que ele estava irritado porque usava óculos escuros. Ele olhou para Tracy e Louis, abaixou os óculos e levantou o gorro, revelando um tufo dos cabelos mais dourados que Louis já vira na vida.

Reconheceu-o imediatamente. Pelo aperto de Tracy e pelo grito efeminado de Tyler, notou que eles também reconheceram-no. Aquele garoto estava em todos os jornais, capas de revistas e artigos na internet existentes, assim como seu irmão mais velho. Louis sempre vira aquele tipo de pessoa com uma película invisível e indestrutível separando-os, mas o garoto estava ali, na sua frente, claramente implorando sua ajuda.

Olhou para Tracy. Ela continuava tão espantada quanto antes.

— Meu Deus — exclamou Tyler afetadamente. — Você é…

— Sim, sim, sou eu, sim, por favor, não grite meu nome.

Ele falava as palavras com tanta claridade e articulação. Bem-educado. Olhou para trás, para a porta dos fundos, e imediatamente começou a despir o sobretudo, a echarpe, as luvas, os óculos escuros e a touca, jogando tudo para debaixo da mesa. Estava vermelho de tanto correr.

— Eu sou o seu maior fã, sabia disso? — continuou Tyler. — Apoio você desde que sequestrou seu irmão.

Ele fitou Tyler penetrantemente. Era impossível saber o que estava pensando. Provavelmente havia se esquecido de que ele existia nos quinze segundos que levara tirando as roupas. Estranho ver aquele belo garoto indicado ao Emmy com roupas compradas numa Walmart.

— Gosta tanto assim de mim? — perguntou suavemente. — Então me faça um favor.

Antes que Tyler pudesse perguntar o que, ele segurou seu rosto com as duas mãos e aproximou os lábios dos dele, depois forçou-o a virar os corpos, como num beijo clichê de algum filme hollywoodiano em preto e branco.

Nesse momento, dois homens grandes usando terno entraram na cafeteria. Tyler não os percebeu; estava concentrado demais beijando a celebridade. Tracy e Louis pensaram rápido. Tracy beijou Louis, falsamente apaixonada, abraçando-o do mesmo modo que Tyler abraçava o garoto.

Os dois homens ignoraram os adolescentes. Não reconheciam-no sem as roupas de frio e não viram seu rosto porque estava escondido entre o ombro e a cabeça de Tyler. Quando foram embora pela porta da frente, os quatro voltaram à normalidade. Tyler estava vermelho da cabeça aos pés, meio zonzo e com um sorriso estúpido no rosto. O rapaz estava como antes, natural e estonteante. Parecia acostumado àquilo.

— Obrigado pela ajuda — ele disse. — Agora tenho que ir.

Fez menção de se levantar, mas Tyler segurou-o pelo cotovelo. Era interessante observá-lo fazer coisas ordinárias. Movia a cabeça como se ainda tivesse cabelo comprido, sempre tomando cuidado para que uma mecha inexistente não lhe caísse na frente dos olhos pretos. Eram olhos realmente lindos. Havia algo a mais neles. Algo sofrido e triste.

— Espere, você não pode ir ainda.

— Quem estava lhe perseguindo? — perguntou Tracy subitamente animada. Ela tinha facilidade em ficar daquele jeito. — Foram… foram as mesmas pessoas que sequestraram seu irmão?

Ele olhou para cada um naquela mesa por vários segundos com ar crítico. Será que sabia que soava arrogante mesmo sem ter a intenção?

— É, foi, sim. E, só para vocês saberem, eu não sequestrei meu irmão menor. Quando soube que Ethan havia sumido, eu o levei comigo porque, de outro modo, ele seria enviado aos parentes mais próximos, que moram na Sicília. A guarda dele pertence a Ethan, não a mim. E ele está morrendo. — Oh, sim, Louis também havia sabido daquilo. — Eu não queria que morresse só, com desconhecidos. Ethan havia sumido. Se eu não o levasse, ele seria mandado embora. Vocês entendem isso?

Ignorando as redundâncias, sim, era perfeitamente compreensível. Por que ninguém nunca pensara naquilo antes? Tantos famosos posicionaram-se contra ou a favor daquele menino loiro, alguns chamando-o de louco irresponsável, outros de herói, e ninguém mencionara aqueles fatos.

— Quem sequestrou seu irmão? — perguntou Tracy. Ele não parecia querer responder. — Vamos lá. Eu te pago uma cerveja.

— Tenho dezesseis anos, eu não posso beber aqui. Na verdade, não posso beber em lugar nenhum. Eu não posso beber… nunca.

Ela soltou uma exclamação baixa e embaraçada. É, também haviam ouvido falar daquilo. Ele revelara tudo em sua participação no The David Paradis Show, semestre passado.

— Que tal um café?

— Bem… aceito. Eu preciso me alimentar.

O café logo chegou. Ele bebeu tudo de uma vez, lentamente e com gosto. Quando terminou, pôs a xícara de volta e limpou os lábios delicadamente com um guardanapo. Como era civilizado. Não era estranho ter aceitado que lhe pagassem um café quando estava na capa da Forbes como o rapaz com menos de dezoito anos mais rico do mundo? Até meses atrás, seu irmão mais velho figurara na capa, mas então ele fizera dezenove anos.

— Então — voltou a falar Tracy delicadamente. — Quem sequestrou seu irmão?

— Um homem — ele respondeu. — Não falarei o nome dele, mas foi isso. Um homem o sequestrou no dia 26 de agosto após a festa de comemoração de um ano da Anhert Corporation. Eu sei que o usual seria ele pedir resgate, mas não é com isso que estou lidando. Ele nunca quis resgate. Ele queria… que eu o seguisse. Usou o helicóptero de Ethan para transportá-lo para um hotel perto do aeroporto, mas eu já havia acordado e descoberto tudo. Por telefone, ordenei que o diretor do aeroporto paralisasse as operações e corri de carro até lá, mas ele havia usado uma Land Rover para fugir. A Land Rover de Ethan.

— Mas por quê? — ela indagou.

— Porque eu poderia rastrear o GPS do carro e segui-lo. Era isso que ele queria desde o início. Um jogo de gato e rato comigo em que os dois eram simultaneamente o gato e o rato. Isso acontece desde 27 de agosto. Atravessei a fronteira dos EUA pouco tempo depois e fiquei em Las Vegas até o 11 de setembro, depois fui ziguezagueando por todos os estados americanos do sul até chegar aqui, onde estou há algumas semanas sem sinal do GPS ou do meu irmão. Tanto quanto sei, ele pode estar morto.

— Espere um pouco — disse Louis. — Ainda não entendi por que você não contatou a polícia. Eu sei que queria ficar com seu irmão, mas por que seguir esse homem? Por que não foi para a Sicília com Lorenzo e deixou a polícia fazer o trabalho?

Novamente, ele parecia hesitante em responder.

— Porque ele tem um trunfo muito grande contra Ethan. Veja, é algo como um segredo. Se esse segredo fosse revelado, coisas muito ruins iriam acontecer. Se a polícia achasse Ethan ou se eu me recusasse a segui-lo, ele diria esse segredo a todos, e isso eu não podia permitir. É por isso que não permiti o envolvimento da polícia. Só iria dificultar as coisas.

— Você acha que foi uma boa ideia levar seu irmão doente com você?

— Não, não acho, mas uma ideia pior seria ele morrer sozinho com desconhecidos. Isso me irrita muito, sabe, quando pessoas totalmente ignorantes acham que conhecem minha família melhor que eu. Lorenzo poderia ter o melhor atendimento médico do mundo, mas se estivesse longe de mim e de Ethan ao mesmo tempo seria o mesmo que estar sem analgésicos. Vocês não sabem como ele é ou como ele pensa, então deveriam se resignar a suas ignorâncias.

Novamente, não havia nenhuma intenção de ofensa na voz dele. Até Tyler percebeu isso. Era só um garoto infeliz e cansado. De repente sentiu uma vontade tão grande de abraçá-lo e dizer que tudo ficaria bem! Foi isso que Tracy fez, mas ela segurou sua mão.

— Gostaria de poder acreditar nisso com mais veemência.

— Lorenzo ainda está vivo? — ela perguntou.

— Sim, mas muito mal. Ele não consegue mais andar. Às vezes fica um dia inteiro sem falar uma palavra, deitado na cama olhando para o teto. Os braços dele começaram a se curvar para dentro, e isso é sinal de atrofia. Por isso exercito seus membros todos os dias, mesmo que ele se recuse. Também faço-o comer alguma coisa, mesmo que ele vomite depois. Ele toma tantos remédios por dia que eu creio que não fazem mais efeito. A dor que ele sente por estar se tornando inválido é igual à dor física do câncer.

— Você parece ter sofrido tanto — Tyler disse com tristeza da voz. Era a primeira vez que dizia algo minimamente inteligente.

— É, mais ou menos.

— Quer falar sobre isso? — perguntou Louis. — Afinal, você não tem ninguém para falar sobre isso, tem? Meu nome é Louis, a propósito. Louis Garret. Estes são Tracy e Tyler Templeton. Pronto, não somos mais estranhos.

Seu sorriso foi encantador e adorável, o tipo de sorriso que dava para as câmeras e em entrevistas. Podia-se ver como era sincero e delicado. Deus, que garoto bonito. Sua expressão de alívio era sublime.

— Louis, Tracy e Tyler — ele sibilou, assimilando os nomes. — Vocês querem saber minha história sombria e assustadoramente nada convencional? O por trás das câmeras mais verdadeiro já contado? O que há por trás desse cabelo loiro e dos sorrisos charmosos?

Todos os três responderam que sim.

— Então que assim seja. Espero que aqueles caras não saibam onde eu moro. — Tossiu para limpar a garganta. — Minha história é formada por várias histórias paralelas, e apesar de eu não dispor de todo o tempo para contar tudo, vou contar as mais importantes e assustadoras. Era uma vez, numa cidade tão, tão distante chamada Castellobranco, que na verdade não é tão longe, fica a apenas quatro mil quilômetros daqui, dois garotos que moravam em casas vizinhas. Os dois garotos eram partes separadas da mesma alma, mas por catorze anos eles nunca souberam disso, pois nunca se encontraram. Um dos garotos nasceu na ensolarada Califórnia e outro nasceu num recanto escuro e sombrio do Canadá chamado Vale das Sombras.

“O californiano tinha cabelos e olhos escuros e uma alma gentil e afetuosa, no entanto ele jamais foi feliz em seus catorze anos de vida, pois faltava-lhe algo, e esse algo não podia ser compensado pelo físico ou material. Ele ansiava pelo mesmo tipo de alma gentil e afetuosa, mas nunca encontrou ninguém que tivesse algo remotamente parecido.

“Até que, um dia, o californiano encontrou o canadense num parque florido. Foi a primeira vez que se viram, ainda no início da primavera. O canadense tinha o brilho branco das estrelas nos cabelos e o céu nos olhos, e apesar de sua alma ser o tipo de alma que o californiano procurava, estava corrompida por Sombras. Todos o tinham abandonado por causa disso. Ninguém conseguia lidar com a corrupção. Alguns nem se importavam. Ele estava sozinho nesse mundo, amedrontado e assustado. Amassava flores com os pés aleatoriamente quando o californiano se aproximou. Não sabia por que, mas o garoto lhe atraía de forma que ninguém mais jamais o atraiu.

“‘Por que amassa as flores?’, perguntou-lhe o californiano. O canadense fitou-o penetrantemente durante pelo menos cinco segundos antes de responder. Dava uma impressão de que existia entre dois mundos ao mesmo tempo, nunca ficando muito tempo nem em um nem em outro. ‘Elas são bonitas, vivas e felizes’, ele respondeu. ‘Eu as odeio por causa disso. As invejo.’ ‘Oh, bem, não as odeie’, replicou o californiano. ‘Você é exatamente como elas.’

“O canadense voltou a fitá-lo, sorriu, deu meia volta e seguiu caminho. O californiano ficou extremamente deprimido. Pensou que nunca mais voltaria a vê-lo. Era a primeira vez que tentava falar com alguém que lhe interessava e, aparentemente, ele lhe ignorara por completo. A sensação era quase insuportável. Seu irmão mais novo, uma criança inútil e dependente dele, nada fez para ajudá-lo porque era muito estúpido e egoísta. Mas, bem, nessa história o destino é o maior e único deus, e ele se encarregou de juntar aqueles dois meninos que nasceram um para o outro.

“O californiano voltou àquele parque todos os dias para ver o canadense de novo, mas ele raramente aparecia. Um dia, finalmente decidiu segui-lo até em casa. Descobriu que ele morava a algumas casas de distância de sua própria. A partir daí, todos os dias antes de ir à escola o californiano parava no portão da casa dele para acompanhá-lo, mesmo que na maioria das vezes o canadense não dissesse nada o caminho inteiro. Os dois eram da mesma turma, mas era difícil que conversassem na escola. Nenhum dos dois tinha amigos. Nenhum dos dois era muito sociável. Por isso demorou para que começassem a se falar com uma frequência humanamente razoável.”

— Que coisa frustrante — resmungou Tracy. — Os dois eram iguais e feitos um para o outro, mas nunca se davam uma chance. Por que isso?

— Porque, na época, eles não sabiam do que eu sei e lhes conto hoje. É incrível o que um pouco de conhecimento pode fazer. Eu já disse que seu cabelo é lindo, Tracy? O californiano e o canadense chegaram a um ponto em que sua relação não poderia mais ser chamada de amizade porque os dois execravam o termo, mas também não era muito menos que isso. Às vezes encontravam-se na rua com problemas e discutiam-nos um com o outro. Às vezes saíam juntos quando o tempo estava frio, porque ambos gostavam do frio. Podiam ir ao cinema juntos. Tomar café-da-manhã numa cafeteria do bairro. Quase nunca trocavam palavras, mas, inconscientemente, amavam a companhia do outro.

“Então, numa certa madrugada, numa noite fria, o californiano acordou com a campainha da porta tocando. Estava sozinho em casa com o irmão menor. O canadense estava do outro lado da porta, de pijamas, suado e ofegante. Parecia ter corrido de alguma coisa, mas não havia nada na rua. Ele perguntou-lhe o que havia de errado, e o canadense respondeu que as Sombras o perseguiam. Não perguntou-lhe o que eram as Sombras porque não é esse o modo com o qual se lidava com o outro. Simplesmente concordou com a cabeça e chamou-o para entrar.

“E quando entraram, sentaram no sofá em frente à lareira e se fitaram, então todos os dias e semanas passados juntos em silêncio vieram à tona. Os dois meninos se beijaram e se amaram pela primeira vez ali, naquela noite, naquela sala, sem dizerem uma palavra ao outro. Apenas sabiam que era o certo a se fazer, que os dois queriam e que não aguentariam passar nem mais um dia sem aquilo.

“Depois disso, o canadense e o californiano jamais chegaram a passar mais do que uma noite sem se verem. Esconderam seus sentimentos de si mesmos por tanto tempo que sentiam que nunca mais poderiam fazer algo parecido, por isso andavam de mãos dadas no meio da rua, beijavam-se sem se importarem que alguém veria, passavam horas e horas juntos em qualquer lugar em que pudessem deitar um do lado do outro e conversarem sobre tudo e sobre nada. Ou simplesmente não conversavam. Podiam apenas apreciar a existência do outro.”

— E com isso você quer dizer que eles faziam sexo — disse Tyler. Ele fitou-o com seus olhos pretos por vários segundos antes de responder.

— Você é uma pessoa extremamente desagradável. Vou voltar à história. As vidas do californiano e do canadense pareciam maravilhosas, mas isso não é um conto de fadas. Três problemas nasceram de seu amor, um deles que viria a ser fatal. O primeiro foi o irmão menor do californiano. Como eu disse, ele era dependente do mais velho, não apenas para fazer coisas que meninos de onze anos normais saberiam fazer sozinhos, como amarrar os cadarços e fritar ovos, mas emocionalmente também. Ele passou a se sentir abandonado e consequentemente sua amargura tornou-se ódio. Como era incapaz de odiar o irmão, pois nascera em seu amor e morreria nele, direcionou o ódio ao canadense. Isso leva ao segundo problema.

“O segundo problema era o canadense. Ele amava o californiano, não se enganem, prestem atenção no que digo, ele verdadeiramente amava o californiano de todo o coração, mas sua natureza impedia-o de demonstrar isso. Assim como de início, ele ainda parecia existir em dois mundos. O canadense andava sempre distraído e com a expressão vazia, como se seu corpo estivesse sem aquela alma gentil, etéreo e intangível. Podia passar horas sem falar. Ou dias. Não importava se você falava com ele, ele não respondia, permanecia em estado catatônico, a fitar o nada, alheio ao mundo real. A verdade é que ele tinha vários problemas em sua mente, problemas causados pelas Sombras que os perseguiam. Ele via pessoas que não existiam. Ele falava com ninguém. Ele apagava de repente, como eu já disse, e só voltava horas depois. Tomava vários remédios por dia para minimizar os efeitos de sua doença, mas era impossível não notar. O canadense era simplesmente uma figura que não parecia ter sido feita para esse mundo. Como posso explicar? Ele parecia uma pintura que veio à vida. A textura de sua pele era diferente. Sua silhueta não era como a de um humano normal, e o que dizer das cores de seus cabelos e olhos, impossivelmente brilhantes? A luz reincidia sobre ele de outro modo, quase como numa pintura de Rembrandt. Seja qual fosse o mistério envolvendo aquele garoto, o californiano nunca parou de amá-lo. Nunca parou de obrigá-lo a tomar seus remédios todos os dias e nunca o abandonou num parque quando ele apagava. O canadense era muito perceptivo também porque notou o ódio que o irmão do californiano sentia por ele e, sendo uma criatura essencialmente gentil, fazia o possível para que ele gostasse. É claro que o efeito era o contrário. O californiano nunca notou esse ódio. Era exclusivo do irmão e do canadense.

“E o terceiro problema era a exposição. Como eu disse, eles nunca se preocuparam em esconder o que tinham como garotos da idade deles se preocupariam porque queriam que seu amor fosse vívido e sólido. As Sombras do canadense materializaram-se numa estúpida gangue de escola liderada por um rapaz inteligente e cruel que aproximou-se do irmão do californiano e manipulou-o. Fê-lo acreditar que o canadense era uma pessoa má. O irmão acreditou em suas palavras e, lentamente, passou a adorá-lo como adoravam todos os outros elementos daquela gangue. Ele foi corrompido, assim como a alma do canadense antes de ele conhecer o californiano que, afinal de contas, lhe descontaminou. Essa foi uma história feliz. Mas essa outra não seria tão feliz assim.

“Foi numa noite estrelada. Havia poucas nuvens no céu e ninguém na rua. O canadense e o californiano haviam saído para jantar juntos. O irmão do californiano ficou em casa, pois ele acreditava que podia ficar sozinho por algumas horas. Como ele poderia saber que o líder da gangue havia planejado aquilo tudo? Ele lhe ligou e perguntou se queria passar algumas horas com seus amigos. O irmão disse que sim e foi atrás deles, ingênuo e estúpido. Num certo momento, o líder perguntou-lhe onde o californiano estava. O irmão quase lhe respondeu, mas algo o fez parar. Não lembro o quê. Mas não adiantou. O líder sabia onde ele estava. Talvez o irmão sempre soubesse o que se sucederia depois disso e não quisesse evitar, porque era, de fato, uma pessoa má. Ou não. Talvez não fizesse ideia.

“A gangue foi atrás deles. O irmão atrasou-se para pegá-los, e quando chegou àquela rua vazia e escura, a coisa já havia acontecido. Eram oito, sabem, oito pessoas naquela gangue, e todas as oito agarraram o canadense e fizeram com ele o pior, ali, no meio da rua. Despiram-no e montaram nele como um cão faz com uma cadela. O líder segurava o californiano e o forçava a assistir àquilo, ameaçando matá-lo se ele fechasse os olhos. O irmão estava ao longe, paralisado, sem conseguir pensar em nada. O líder foi o último a estuprar o canadense, e quando terminou entregou-lhe uma faca e apontou uma arma para o californiano. Disse ao canadense que se não cortasse a própria garganta, ele mataria o californiano. A coisa parecia impossível, mas, contra todas as possibilidades, o canadense fez o que o líder mandou. Pegou a faca, enfiou-a inteira debaixo da orelha e deslizou a lâmina até a outra orelha, num horrível sorriso sangrento. Sussurrou a palavra monstro antes de desfalecer. A gangue espancou o californiano até que ele desmaiasse, deixando-o em coma por três semanas. E esse foi o fim do amor entre o canadense e o californiano.”

— Não! — exclamou Tracy. Louis estava tão compenetrado na história que não notou que ela chorava. Usou um guardanapo para limpar suas lágrimas. — Como isso pode acontecer? Como uma história de amor pode acabar assim?

— Monstros são reais e fantasmas são reais também — ele sussurrou olhando para seu café. — Vivem dentro de nós e, às vezes, vencem.

Uma citação famosa. Louis já a tinha lido em algum lugar, mas não sabia onde e nem de quem era.

— Você é o irmão — disse. Não era uma pergunta. Ele não confirmou nem negou. — Ethan é o californiano. E o canadense?

Tracy e Tyler olhavam chocados para ele, que brincava com palitos de dente, quebrando-os em cinco pedaços pequenos e pontiagudos.

— Ele chamava-se Oliver — respondeu. — Morreu assassinado em 2009. Um de seus estupradores é o homem que sequestrou Ethan três meses atrás. Olhem, está nevando! — Apontou para a janela da cafeteria. Do lado de fora, flocos de neve começavam a cair. Até o final da manhã Nova York estaria branca como um lençol. Louis voltou a olhar para ele. Seus olhos negros brilhavam como os de uma criança. — Desculpem, sou californiano. É raro que eu veja neve. Me lembra do ano passado, quando passei o Natal em Paris com Ethan e Lorenzo. Foi a segunda vez que fui à Champs-Élysées. Quase comprei um apartamento lá, meu irmão quase me matou.

— Retroceda um pouco — pediu Tracy tentando mantê-lo focado. Louis já não havia lido em algum lugar que ele tinha déficit de atenção? — A última coisa que você disse. Por que ele sequestrou Ethan?

— Ah, sei lá. — Ele sabia. Era óbvio que sabia. Mas também era óbvio que não contaria. — Essas coisas acontecem. Meu Deus, eu preciso comprar mais roupas de frio. Sabem onde fica a Walmart mais próxima?

— Concentre-se. — Tracy segurou suas mãos com as suas ternamente. Sua voz era suave e gentil. Os olhos dele estavam úmidos, mas ele sorria. Era a coisa mais triste que Louis já vira na vida. — Eu sei que isso dói. Não sei do que você se lembra desse episódio, mas você não teve culpa na morte de Oliver. Era apenas uma criança enciumada. Amava seu irmão.

— Oliver também — ele respondeu com a voz embargada. O sorriso não sumira. Compostura acima de tudo. — Oliver também o amava. Ethan era a vida dele vice-e-versa. Eles se completavam. Faziam o outro feliz. Eu não fazia meu irmão feliz já há muito tempo. Eu só arrumava problemas que ele tinha que resolver porque… porque…

— Por quê? — Louis indagou com doçura. Os olhos pretos e marejados pousaram nele. — Por que ele tinha que resolver?

— Porque… meus pais… nunca estavam em casa.

Tracy apertou suas mãos.

— Você tinha problemas com seus pais? Você os amava?

— Sim… eu amava.

— E eles te amavam?

— Amavam. Isso que dói mais… o fato de eles me amarem, mas não o suficiente para não me ignorarem.

O garoto silenciou-se, abaixou a cabeça e começou a chorar. Não era possível ver seu rosto, mas aquela era uma visão de partir o coração. Ele parecia um bebê crescido demais, completamente indefeso e vulnerável, e não uma celebridade multimilionária pertencente a uma família mundialmente conhecida. Ele parecia indestrutível na televisão, mas era apenas uma criança magoada e traumatizada. Que vontade de abraçá-lo!

— O que houve depois da morte de Oliver? — perguntou Tracy.

O garoto fungou e engoliu em seco para afastar o choro. Limpava as lágrimas do rosto com um guardanapo.

— Meus pais voltaram correndo da América do Sul depois que souberam que seu filho mais velho havia sido brutalmente agredido e posto num hospital. Como eu já disse, Ethan ficou três semanas em coma. Eles ficaram todos esses dias aqui, na Califórnia, sem viajarem ou trabalharem. Ouso dizer, com muita tristeza, que talvez tenha sido uma das melhores épocas da minha vida. Sinto-me horrível com isso porque pensávamos todos os dias que Ethan iria morrer ou não iria acordar do coma, mas à medida que os ferimentos dele se curavam, ele melhorava. Ele então finalmente acordou, e eu estava ao lado dele. Perguntou o que lhe aconteceu, eu perguntei se ele não se lembrava de Oliver. Sabem o que Ethan me respondeu?

Todos os três balançaram a cabeça negativamente.

— Ethan respondeu com uma pergunta. Que Oliver? Ele havia se esquecido dele. Não do terrível massacre, mas ele literalmente esqueceu-se da existência de Oliver. Seus médicos disseram que era amnésia psicológica, que ele não queria se lembrar porque o trauma era muito grande. Eu realmente não quis saber disso. Tratei de ir para casa e me livrei de todas as lembranças de Oliver que existiam. Foi tudo para o lixo. Salvei uma foto dele com Ethan, uma que achei especialmente bonita. Ethan mantém essa foto hoje em dia dentro de um cofre.

— Está dizendo…

— Sim, Tyler, ele se lembrou, mas estamos nos adiantando. Depois de Ethan acordar, eu, com meus onze anos, convenci meus pais de que ele se lembrar de Oliver seria um trauma muito grande. Algo a que devíamos evitar. Nos mudamos de cidade depois disso. Fomos para Middleland, a cidade ancestral da família Hentz, e cortamos qualquer laço com Castellobranco que tínhamos. Meu trisavô fundou Middleland, vocês sabiam disso? Vivemos muito bem lá por quase dois anos, até o dia 7 de fevereiro de 2012, quando eu e Ethan recebemos a notícia de que nossos pais haviam morrido. Estávamos na escola, no escritório da Diretora Hellen Page, quando ela ligou a TV e vimos a repórter falar da queda do avião. Dois adolescentes cujos pais ausentes morrem numa queda de avião. Quão original.

— Como se sente em relação a isso? — perguntou Louis.

— Bem, eu acho. Superei isso. Não tenho medo de andar de avião e não choro mais à noite quando trovoa. De qualquer jeito, Ethan sempre me deixa dormir com ele quando isso acontece. Tenho medo de trovões, isso é algo que vocês não sabiam. Eu também nunca aprendi a amarrar cadarços ou fazer nós em gravatas. Acontece. Onde eu estava? Ah, sim, a morte dos meus pais. Alguns dias depois disso, Ethan começou a ter sonhos perturbadores sobre um garoto que era torturado por oito pessoas e ele não podia fazer nada para impedir. O sonho passou a deixá-lo fisicamente debilitado. O garoto perguntava-lhe constantemente quem ele era e isso assombrava Ethan dia e noite. Quem sou eu quem sou eu quem sou eu. Um dia, a escola mandou-o em viagem à Castellobranco. Eu fui com ele para garantir que não se lembraria em nada, mas ele insistiu em visitar nossa antiga casa. Teve sonhos àquela noite também. Dias depois de voltarmos à Middleland, eu acabei contando ao namorado dele toda a verdade, e foi nessa noite que, ainda durante um sonho, Ethan rompeu a amnésia e lembrou-se de tudo. O choque foi tão violento que ele teve um colapso nervoso e teve de ser internado num hospital. Eu o visitei àquela noite em escondido e tivemos uma longa conversa. Ele não necessariamente me perdoou naquela hora, mas sabem o que eu pensei? Em meus ingênuos treze anos? Eu me lembro até hoje. Pode me ignorar para o resto da vida, mas eu sempre vou estar ao seu lado. Isso nunca mudou. Mesmo quando ele foi sequestrado. Eu poderia ter ficado em Middleland porque a chantagem do homem que sequestrou Ethan não me afeta. Poderia ter deixado que Lorenzo fosse levado para a Sicília e morresse em paz. Depois, se Ethan não fosse encontrado, e ele provavelmente não seria, eu herdaria toda sua imensa fortuna para fazer o que quisesse com ela. Eu compraria toda Hollywood e nunca mais precisaria trabalhar. Sim, eu poderia. Mas não, eu não fiz. Eu larguei minha confortável vida para entrar na ilegalidade simplesmente porque eu não permitiria que minha família fosse destruída. Que circunstâncias a rompessem como uma corda. Não, os Hentz são mais fortes que isso. Somos mais fortes que uma corda.

Tracy chorava de novo. A mente de Louis estava polvorosa. Estava diante da pessoa mais fascinante e complexa que já conhecera na vida. Não, estes não eram os adjetivos próprios para descrevê-lo. Qual era a palavra?

— Ethan acabou por superar o trauma de Oliver. Quer dizer, ele nunca o superou por completo, mas se recuperou do colapso nervoso e voltou para casa para ser meu irmão, o que é bom porque eu não sabia cozinhar na época e não sabia o número de nenhum delivery. Eu estava quase que literalmente morrendo de fome. Ah, uma coisa que esqueci de contar. Enquanto estava internado, Ethan recebeu a visita de um paparazzi disfarçado de médico e fez a inteligência de contar-lhe várias informações pessoais sobre si e sobre mim. Os filhos de Charles Lemnsack e Mary Alice Hentz eram desconhecidos até então, mas depois disso, literalmente do dia para a noite, viramos celebridades. Acostumamo-nos. Vivemos muito bem durante quatro meses na cobertura do número 266 da Rua Symphonia, a apenas oitocentos metros da então Academia Alphonse Enoi. Mas tudo isso mudou quando um fantasma que fala italiano entrou em nossas vidas. Mais uma coisa que vocês e nem ninguém jamais soube. Eu odiava Lorenzo quando o conheci.

Puro. Essa era a palavra para descrevê-lo. A palavra exata, sem contradições, exceções ou adições. Puro. Sua alma era tão pura quanto a de uma criança. Não havia mais nada que pudesse explicar aquela auréola invisível sobre sua cabeça cheia de cabelo loiro.

— Por quê? — perguntou Tyler.

— Oh, não sei. Acho que a coisa mais óbvia é porque ele representava a infidelidade do meu pai para com minha mãe, mas também porque significava a ruptura total da minha vida pacata que quase nunca mudava. Eu gostava da minha vida do jeito que era, vejam. A existência daquele horripilante italiano de oito anos me irritava de modo quase obsceno. Eu simplesmente não conseguia gostar dele. Lorenzo não sabia falar inglês, mas entendia tudo perfeitamente. Não se enganem, Ethan também não gostou da presença dele inicialmente, mas seu coração desesperado por irmãos menores dependentes emocionalmente dele amoleceu com mais rapidez que o meu. Algumas coisas nos uniram. Ethan ficou furioso quando eu falei com ele pela primeira vez e levantei questões como o fato de ele ser cego e de ser uma criança ilegítima, então obrigou-me a ser educado. Um dia, me fez levar Lorenzo ao shopping para comprar-lhe uma bengala. Fomos a uma loja de roupas, o deixei com minha mochila enquanto procurava bengalas. Não sei por que eu levei uma mochila ao shopping, mas isso não importa. O que aconteceu foi que Lorenzo colocou peças de roupa dentro dela sem eu ver, então quando saímos o alarme apitou, e quando o segurança me indagou sobre isso e eu fiquei sem saber o que responder, Lorenzo levou a culpa por mim. Inocentemente. Eu nunca suspeitei que ele havia perpetrado esse crime hediondo e horrível até que ele me contou em Nova Orleans. Também teve aquela família que tentou nos matar. Isso nos uniu.

— O quê? — indagou Tracy estupefata.

— Ah, sim, isso aconteceu. Não vou falar o nome da família, não me parece certo. Mas aconteceu. No ano 2000, antes de a minha mãe fechar e vender a Kruger-Vorheel, a primeira empresa da minha família, houve uma certa confusão numa das fábricas de medicamentos. Malotes foram trocados e dezessete pessoas tomaram os remédios errados. Tenho certeza de que, se procurarem, vão achar notícias sobre isso em jornais ou na internet. Bem, uma dessas pessoas era uma garota chamada Leanne. O resultado foi que ela ficou em coma permanente. Sua família, o pai, a mãe e os outros três filhos, um casal de gêmeos da idade de Ethan e uma menina da idade de Lorenzo, mudou-se para o apartamento abaixo do nosso com o intuito de nos fazer sofrer tanto quando eles sofreram. Isso não é absurdamente inverossimilhante? Quais as chances? As ameaças começaram cedo. Recebemos uma carta com uma foto de Leanne, deformada e em coma, com ameaças dizendo que havíamos feito aquilo e pagaríamos, isso antes de a família se mudar. Depois acordamos um dia para descobrirmos uma mensagem escrita na parede de casa com tinta spray vermelha. Vocês vão morrer. Cheguei a achar que foi Lorenzo até que percebi que ele não sabia escrever. Naquela manhã, fui caminhar no pátio do nosso prédio quando conheci a garota. A filha. Tivemos uma conversa, me atraí por ela, nada de novo. Foi nesse dia que o episódio do shopping com Lorenzo aconteceu. Após sairmos, já no fim da tarde, fomos a um parque, onde conheci o garoto, irmão gêmeo dela. Ele aproveitou e me disse que a garota com quem meu irmão brincava na caixa de areia era a irmã menor dele. E eu não suspeitei de nada!

— Meu Deus — gemeu Louis.

— É, eu sei, incrível, não é? Como meu bom amigo Lincoln uma vez disse, nós, Hentz, nunca ficamos entediados. Um belo dia, eu, Ethan e Lorenzo acordamos sentindo-nos terrivelmente mal. Náuseas, dores, enxaqueca. Acreditei que havíamos sido envenenados por causa da mensagem na parede, então perguntei a Ethan o que poderia ter causado aquilo. Ele disse que arsênico era uma causa, uma substância que se encontra em pesticidas. Naquela mesma manhã, Ethan desceu o prédio para jogar toda a nossa comida no lixão e encontrou o garoto. Conversou um pouco com ele, depois ele foi embora. Quando se aproximou da grande lata, percebeu várias latas de pesticidas jogadas fora. Fomos à Paris pouco tempo depois e nos hospedamos no hotel George V. Presente de aniversário de Ethan para mim e Lorenzo. Fazemos aniversário no mesmo dia, 3 de junho, então foi matar dois coelhos com uma cajadada. Antes disso, no entanto, obriguei o namorado de Ethan, a vistoriar o apartamento todos os dias porque eu tinha medo que alguém tentasse entrar lá. Em Paris, saí sozinho com Lorenzo enquanto Ethan ia ao Museu do Louvre se encontrar com o garoto. Sim, isso mesmo, eles nos seguiram até a França. Quão interessante pode ser isso? Quando voltei ao hotel, percebi que alguém havia invadido o quarto e bagunçado todas as coisas. A recepção não fazia a mínima ideia de quem poderia ter feito aquilo, mas nós quatro sabemos quem foi. Já estávamos com suspeitas daquela família a essa altura, mas isso não me impediu de transar com a garota. É, acontece. Compramos o primeiro teclado de Lorenzo nessa viagem. Ele sentou-se no grande piano do George V e tocou uma música que sua mãe lhe havia ensinado, a única que ele sabia.

— Já notou que você tem problemas em manter a cronologia das coisas? — indagou Tyler curiosamente. Ele olhou-o com vazio no olhar antes de ignorá-lo e voltar a contar sua história.

— Voltamos à Califórnia. O grande ápice da coisa aconteceu na noite em que minha escola organizou uma feira de história baseada numa linha do tempo desde a Pré-História até a Idade Contemporânea. Eu e mais duas pessoas fizemos sobre o Período Napoleônico. Foi muito divertido porque me vesti de Napoleão. Meu Deus, eu tinha catorze anos. Não faz tanto tempo assim, faz? Por que sinto que aconteceu há mil anos? Por que sinto que estive na Escola St. Nicholas numa vida passada? Enfim, repetindo, nós, Hentz, nunca ficamos entediados. Naquela noite, na feira de história, Arianne Crane jogou uma taça de suco de uva no vestido de Andrie Sarkosian e eu tive que ir em casa buscar um vestido sobressalente. Antes de deixar a escola, cruzei com o garoto, pois a irmã menor dele estudava na Academia, e ele me disse duas frases que fariam a diferença nas vidas de todo mundo. Está um dia lindo. E ele vai acabar ainda melhor, essa foi a primeira. Depois que eu gentilmente pedi que ele parasse de tentar seduzir meu irmão, coisa que que fiz ameaçando matá-lo, ele disse: Não me importo com suas ameaças, não enquanto você e Ethan continuarem a viver na escuridão. Tenha cuidado. Eu fui para casa pegar o vestido de Andrie quando decidi roubar algumas camisinhas de Ethan do lugar onde ele guardava. Era uma caixa em formato de livro. Ele jurava que eu não fazia ideia da existência daquilo, mas eu sabia. Ele guardava a última fotografia existente dele e de Oliver naquela caixa. Olhava para ela de vez em quando. Como eu disse, o fantasma daquele fantasma nunca nos deixou. Oh, e além das camisinhas eu encontrei uma coisa a mais. Um dossiê com várias informações sobre compras de pesticidas em toda a cidade, e no final daquele dossiê havia uma foto em alta resolução da mãe. Entendem, a mãe. Ethan havia contratado um detetive particular e não me avisou. Eu fiquei inflamado de raiva. A carta com ameaças também estava na caixa, e foi quando juntei as duas coisas às frases que o garoto havia me dito. Então percebi. Finalmente percebi.

— Uau — exclamou Tracy engolindo os últimos goles de café. Fez sinal à garçonete e pediu mais quatro xícaras de café. Aquilo estava ficando bom.

— Voltei à escola e com a ajuda do meu bom amigo Luca Granelli sequestrei o filho.

— Luca Granelli? — repetiu Louis.

— Sim, filho de Enzo Granelli. Ainda não falei sobre ele, falei? Ele também foi parte importante dessa história toda, mas depois falo disso. Luca tinha vários guarda-costas e me ajudou a apagar o garoto com clorofórmio e a levá-lo para a mansão do pai dele em Jardim de Ouro, exatamente a mesma em que morei no início de 2013, mas isso é outra história. Lá, eu o forcei a contar-me a história toda e ele admitiu ser irmão de Leanne, assim como disse que quem os obrigava a fazer todas aquelas coisas não era sua mãe, e sim seu pai. Pediu-me para olhar suas costas. Havia cicatrizes lá. E me contou uma coisa terrível. Aquela noite da feira de história foi a noite em que eles decidiram acabar com tudo. Havia uma bomba plantada na lâmpada da sala de estar da minha casa, e assim que um de nós acionasse o interruptor, ela explodiria. Eram seis horas da noite quando ele me disse isso. A hora em que Ethan sairia da escola. Ele levava dez minutos para caminhar de volta para casa. Eu tinha dez minutos para correr para lá e avisá-lo. Convenientemente, ele era o tipo de idiota que nunca levava o celular para a escola, então vocês podem imaginar como o pobre eu se sentiu ao, aos catorze anos, ter que salvar a vida do irmão mais velho. Usei o motorista de Luca para correr ao apartamento, sendo que deixei Lorenzo na casa dele porque não queria que ele visse o que quer que estivesse para acontecer. Lembrem-se disso, porque mais tarde revelou-se ser um grande erro. A verdade, meus amigos que acabei de conhecer, é que eu não consegui chegar a tempo.

— Oh, meu Deus — exclamou Tyler. — Ethan morreu?

O rapaz olhou-o novamente nos olhos.

— Sim, Tyler, ele morreu. Ethan morreu em 2012. — E antes que Tyler pudesse perceber a idiotice do que havia perguntado, ele continuou: — Eu não tenho como saber exatamente o que aconteceu nos bastidores daquela família, mas o que houve foi o seguinte: cheguei ao prédio e peguei o elevador apenas para me arrepender no momento em que as portas se fecharam, porque acreditei que se eu tivesse pego a escada teria chegado lá mais rápido. Nunca fiz o teste para saber se é verdade ou não. Finalmente cheguei ao vigésimo terceiro andar. Era um corredor único que levava ao nosso apartamento, um corredor com paredes brancas ornadas e um piso acarpetado vermelho. Muito bonito, aliás. A porta estava fechada e intacta. Pensem comigo. Se uma bomba houvesse explodido, a coisa deveria estar devastada, não é mesmo? Bem, eu não pensei nisso na hora. Simplesmente corri corredor adentro, abri a porta e perdi os sentidos.

“O que aconteceu comigo havia acontecido com Ethan momentos antes. Quando acordei, minutos depois, estava com os pulsos amarrados com cordas. Ethan estava deitado ao meu lado, desmaiado. O pai estava lá, junto à mãe. Começou dizendo que a ideia do lustre foi uma estupidez, pois seria altamente improvável que três pessoas chegassem ao mesmo tempo ao apartamento e ele precisava de nós três mortos. Tinha um dispositivo nas mãos, um detonador, e disse que quando ele o acionasse, a bomba do lustre explodiria à distância. Saiu e deixou a mãe comigo e Ethan, pois ela disse que precisava checar as granadas mais uma vez. Então ela se levantou da cadeira onde estava sentada e ligou os interruptores. Nós não morremos, mas lembro-me de gritar tão alto que, por um momento, senti-me verdadeiramente morto. Eu olhei para a sala iluminada assustado, sem saber bem se estava vivo ainda, quando percebi que sim. A mãe se aproximou de Ethan e soltou-lhe os pulsos, depois veio a mim. Perguntei-lhe onde estavam as bombas e ela disse que as havia tirado dali, então pediu-me para devolver seu filho vivo e disse que, se eu o fizesse, nunca mais ouviria falar em seu sobrenome novamente. Eu concordei e ela foi embora. Nesse momento, Ethan acordou, mas eu não pude explicar para ele o que aconteceu porque eu desci correndo até o térreo. Cheguei a tempo de ver o pai e a mãe dentro do carro do lado de fora da rua. O pai olhou para mim e arregalou os olhos. A mãe olhou para mim e sorriu. E logo depois apertou o botão do dispositivo.”

— Ela o havia colocado no carro — deduziu Louis fascinado.

— Exato. Aquela carro virou uma fogueira. A explosão me lançou para trás e me fez bater a cabeça no chão, mas eu me levantei e me aproximei. Os dois corpos foram incinerados e eu, sujo de fuligem. Subi o prédio até o vigésimo segundo andar e falei com a garota. A mais velha. Sim, ela sabia. Tudo ficaria bem, eles tinham uma tia, e sua mãe havia se sacrificado pelos filhos e por mim e por Ethan. Eu subi até meu apartamento e contei a Ethan o que havia acontecido, então comecei a chorar desesperadamente. A essa altura, o garoto já havia sido liberto da casa de Luca Granelli, de modo que nós três nos dirigimos para lá para buscar Lorenzo. Foi então que atentaram contra nossa vida pela segunda vez àquela noite.

— Hentz nunca ficam entediados — comentou Tracy espirituosamente.

— Vocês pegaram o jeito. Para explicar por que quase morremos àquela noite pela segunda vez, vou ter que voltar um pouco a linha do tempo. Mais ou menos na aparição de Lorenzo. Ele foi enviado para a Califórnia por sua mãe, Antonella Barcarolli, através de um amigo pessoal e deixado com nosso advogado para que Ethan cuidasse dele. O que nós dissemos é que Antonella morreu e Lorenzo foi enviado para nós, mas foi ela própria quem decidiu enviá-lo. Planejava pegar um avião para outro canto do mundo na mesma noite em que ele pegou o dele, mas sabe-se que ela morreu antes disso. É provável que tenha morrido pouco depois de ver Lore pela última vez. Depois eu digo o porquê. Bem, vamos para o outro lado da história, quando conheci Luca Granelli. Luca viveu na Itália até os seis anos de idade antes de se mudar para Middleland e teve aulas em casa por quase toda a vida. Ele tinha treze anos quando o conheci em seu primeiro dia de aula na Academia Alphonse Enoi. As pessoas o amaram, mas eu fui o único que tornou-se seu amigo. Isto é, depois de ele me perdoar por uma coisa horrível que fiz com ele, mas não preciso dizer o que foi, embora Ethan tenha descoberto. Foi por isso que me obrigou a passar tempo com Lorenzo, o que ocasionou naquele episódio do shopping. Antes dele me perdoar, no entanto, eu me encontrei numa situação ligeiramente complicada. Havia acabado de sair da casa de uma garota e…

— O que você foi fazer lá? — indagou Tyler.

— Ah, bem, caridade com os pobres. Como eu dizia, havia acabado de sair de lá e me encontrei sem telefone ou dinheiro para o táxi. É claro que eu poderia ter chamado um táxi mesmo assim e pago quando chegasse em casa, não sei por que não pensei nisso, mas se fosse assim as coisas não teriam acontecido do jeito que deveriam, teriam? Isso se chama licença poética. Eu também não queria ligar para Ethan porque imaginava que àquela altura ele já soubesse o que eu fiz a Luca. Bem, eu decidi ir andando. Imaginei ser uns quarenta quilômetros de caminhada, mas na verdade eram apenas quatro. O que aconteceu foi que, eventualmente, enquanto passava perto da área onde fica Jardim de Ouro, três homens me abordaram. Eu fiquei bastante assustado, especialmente quando me colocaram num carro e começaram a dirigir. Imaginei estar sendo sequestrado. Que ironia seria isso? Mas não eram sequestradores. Eles se revelaram serem guarda-costas de Luca e me levaram exatamente para a mansão dele no Jardim.

“Foi naquela mansão que Luca finalmente me perdoou. Ele também demonstrou saber de um segredo meu, sendo que não sei como ele descobriu. Foi nessa madrugada que acordamos com a mensagem Vocês vão morrer na parede. E foi na manhã seguinte que conheci a garota e fui ao shopping com Lore. Enquanto estávamos lá, um paparazzi tirou uma foto dele comigo e isso saiu na capa de uma revista de fofocas que Luca chegou a adquirir, o que se revelou uma grande estupidez, mas digo por que depois. No dia em que eu simulei um incêndio em sala de aula, ele me levou de novo a sua casa para me mostrar um coisa. Debaixo daquela casa, havia um antigo túnel usado para mineração, e uma das aberturas desse túnel levava a uma clareira na floresta de Middleland. Era possível acessá-lo através da casa, o que faz sentido se você pensar que ela foi construída a mando de um líder criminoso. Ele me mostrou esse túnel e me levou através dele até a clareira. Torci meu tornozelo no processo, mas foi fantástico. Não sei por quê. Passei a gostar muito dele depois disso. Conheci Enzo Granelli ao sairmos do túnel. Ele viu um exemplar da revista que tinha eu e Lore na capa.

“Enfim, na feira de história. Como eu já lhes disse, ao sequestrar o garoto com a ajuda de Luca, levei-o para sua casa com Lore e deixei Lore lá ao voltar correndo ao apartamento para impedir que Ethan morresse. Quando estávamos nós três voltando, começamos a procurá-lo no salão de jogos. Não o encontramos. Fiquei nervoso, com uma sensação ruim. Em dado momento, me encontrei com um dos guarda-costas de Luca que me ajudaram a sequestrar o garoto e perguntei a ele se ele tinha visto meu irmão. Ele demorou um pouco para entender porque não entendia inglês muito bem, mas acabou me fazendo segui-lo casa adentro. Eu tinha me separado de Ethan e Luca já há algum tempo quando chegamos a uma sala com uma enorme porta de ferro fechando-a. Eu entrei na sala. Estava tudo escuro. E quando a porta se fechou por trás de mim, percebi que havia cometido um grande erro.

“Puseram uma corda em meus pulsos e me sentaram numa cadeira. Ainda não ligaram a luz. Pensei em gritar, mas eu sinceramente não queria receber um tapa no rosto, por isso fiquei calado. Quando eles ligaram a luz, vi uma sala de cimento não muito diferente daquela em que torturei o garoto para arrancar as informações dele. Vi Ethan, Lorenzo, Luca e Enzo Granelli. Mais tarde, Lorenzo me contou que havia sido levado para aquela sala mais cedo e que havia conversado com Enzo Granelli. Ele lhe havia contado que sua mãe, Antonella, era chefe-segunda da máfia italiana. Ah, isso é uma coisa que, certamente, ninguém no mundo sabe. Lorenzo o contestou dizendo que ela não era, de fato, uma mafiosa. Na verdade, como ele bem sabia após anos tendo ouvido suas conversas em inglês em segredo, Antonella trabalhava para o governo italiano como espiã. Estava infiltrada no alto-escalão da máfia da Sicília já há vários anos com o intuito de destruí-la. Nesse meio tempo, conheceu meu pai e engravidou dele. Charles deixou-lhe uma fortuna de cinquenta milhões de dólares para que nunca revelasse a ninguém a identidade do verdadeiro pai de Lorenzo, mas a medida que o tempo passava, o dinheiro acabava e ela ficava cada vez mais dividida entre servir o país e servir a organização a qual se dedicara por mais de uma década, ela tomou uma decisão drástica. A herança de meu pai acabou, por isso Antonella decidiu roubar uma voluptuosa fortuna da máfia e fugir do país. Para protegê-lo, decidiu mandar Lorenzo para mim e Ethan enquanto ia ao outro lado do mundo e sumia por tempo suficiente para que fosse seguro unir-se a seu filho novamente. Mas, como eu já lhes disse, ela foi assassinada antes disso. Granelli queimou a villa em que morava com Lorenzo e foi atrás dela, mas Lore conseguiu escapar. Até então. Ah, quando eu paro para pensar, o que ela fez não foi muito diferente do que fez Étienne Cargill.

“Infelizmente, nossa exposição na mídia arruinou o plano de Antonella. Granelli acabou nos encontrando. Imagino sua surpresa ao descobrir que a criança a quem estivera alucinantemente a procura era irmão mais novo do novo amigo de seu filho. Essas coisas acontecem. É importante lembrar que Granelli já havia fugido da Sicília para a Califórnia por causa de Antonella. Ela armou uma emboscada em sua propriedade e ele foi obrigado a fugir. No processo, a mãe de Luca morreu. Em resposta, anos depois, quando Antonella desertou da máfia, Granelli matou a maioria dos Barcarolli existentes. Lorenzo teria uma grande família por parte de mãe se não fosse por isso. Talvez ele nem morasse conosco. Repetindo, essas coisas acontecem.”

Essas coisas acontecem? — indagou Tyler perplexo. — Essas coisas acontecem? Não, não acontecem. Sabe que tipo de coisas acontecem? Tirar uma nota baixa na escola. Ter uma briga com os pais. Ralar o joelho andando de bicicleta. Não ser quase assassinado duas vezes na mesma noite.

— Tyler, não seja desagradável — disse Tracy. — Por favor, continue.

— Obrigado, Tracy. Eu estava naquela sala com meus pulsos presos nas costas, sentado numa cadeira, fitando os cruéis olhos esbranquiçados de Enzo Granelli. Ele tinha uma pistola preta metálica nas mãos e fumava um charuto calmamente. Lorenzo estava preso como eu e Ethan também, mas ele tinha uma mordaça na boca. Luca estava livre, mas não podia fazer nada contra o próprio pai. Eu comecei a provocá-lo com conversa-fiada enquanto Luca me implorava com os olhos que calasse a boca. Granelli obrigou Lorenzo a dizer-lhe porque iríamos morrer, e ele contou sem realmente acreditar no que dizia. Tinha nove anos naquele tempo. Nem sonhávamos com o que viríamos a passar nos meses e anos seguintes, mas isso não importa agora.

“Eu voltei a provocar Granelli com conversa-fiada e percebi, sutilmente, que ele a amava, pois rosnava que eu me calasse todas as vezes que falava o nome dela. Antonella. É meu segundo nome, acho que vocês sabem disso. Oh, no exato momento em que percebi isso, também percebi algo no meu bolso de trás. Uma coisa pontuda e afiada. A faca que a mãe usou para cortar as cordas dos pulsos de Ethan e que eu havia guardado por nenhuma razão além de salvar minha vida menos de uma hora depois. Eu pensei rápido. Precisava ganhar tempo. Pedi a Lorenzo que descrevesse sua mãe em voz alta enquanto puxava a faca do meu bolso e começava a cortar as cordas. Fiz um sinal para que Luca se aproximasse de mim. Granelli estava muito concentrado na descrição apaixonada de Lorenzo para perceber o que se passava.

“Quando eu consegui romper as cordas, Luca estava na minha frente. Eu pulei da cadeira e envolvi meu braço no pescoço dele, pressionando a faca contra a pele macia. Silvei a Granelli que se ele não largasse a pistola, eu cortaria a garganta de seu filho. Na hora, me senti realmente capaz de fazer isso. A adrenalina no meu corpo era como uma droga. Se me perguntam agora se eu realmente faria, eu não sei. Talvez eu fizesse. Eu gostava muito de Luca. Mas gosto mais dos meus irmãos. Sim, eu faria, sim. Eu mataria qualquer um que tentasse me separar dos meus irmãos de qualquer maneira.

“No fim, Enzo Granelli pôs a arma no chão. Mandei que Ethan se levantasse e libertasse Lorenzo, o que ele fez. Quando as cordas caíram de seus pulsos, para a surpresa de todos, ele se levantou e pegou uma pistola cinza que estava perto de sua cadeira. Eu nunca falei sobre essa pistola cinza, falei? Enquanto conversava com Lorenzo, Granelli havia posto aquela pistola em seu colo e dito para que usasse nele, ao passo que Lore obviamente não usou. A pistola ficou perto de sua cadeira, no chão, esse tempo todo. Que conveniente, não é? Meu bom amigo Rowan tem razão. O destino é o único deus que rege esse mundo.

“Mandei que Lorenzo largasse a arma, mas ele a manuseava entre os dedos com curiosidade. ‘Lorenzo, largue isso’, eu disse. ‘Está tudo bem, nós vamos ficar bem. Não precisa disso. Largue.’ Lorenzo respondeu concordando: ‘Nós vamos. Nós vamos. Minha mãe não vai.’ E então olhou para Granelli. ‘Você a matou.’ Eu repeti para ele largar, mas nunca fui muito bom em dar ordens. Granelli tentou dissuadi-lo de fazer o que obviamente queria fazer, mas logo todos nós naquela sala percebemos que não havia como parar. E então aconteceu.

“Enzo Granelli deixou cair o charuto da boca. Foi uma cena muito lenta e estranha, ver aquele charuto caindo, porque eu atirei Luca para o lado e me joguei na frente de Lorenzo exatamente ao mesmo tempo em que Granelli se abaixava e puxava a arma preta do chão. E, também ao mesmo tempo, Lorenzo apontou a arma cinza para ele e atirou. A bala de Lorenzo atingiu Granelli no ombro e a bala de Granelli me atingiu no peito, causando-me um belo pneumotórax. Não me lembro de mais nada depois daí, só de acordar no hospital com tubos no nariz sem conseguir respirar sozinho. Em minha agonia, disse a Ethan que ele precisava tomar a guarda de Lorenzo de um jeito ou de outro. Não importava como, ele apenas deveria fazer isso. E é só. Eu dormi profundamente durante horas. Todo o resto é um borrão imenso na minha mente.

“Fomos obrigados a envolver a polícia nisso, é claro. Lorenzo, com seus oito anos de vida vivendo com sua mãe, havia ouvido o suficiente para dedurar praticamente cada atividade criminosa da máfia. Ele cantou, e cantou a canção mais linda do mundo. Vocês devem se lembrar disso. A grande queda da máfia italiana foi perpetuada por Lorenzo. Enzo Granelli foi extraditado e condenado a prisão perpétua na Itália. Luca voltou para lá também para viver com sua tia Estella. Nunca pude tirar a virgindade dele, como prometi.

“Nos meses seguintes, voltamos à mídia quando Ethan requereu a guarda de mais um irmão. Eu estava me recuperando da cirurgia pulmonar que fiz e fui poucas vezes à escola, embora, não sei como, não tivesse reprovado de ano. Os meses passaram-se tranquilos. Nós três nos dávamos muito bem. Acho que foi a época mais feliz que passamos juntos porque não tínhamos nenhuma preocupação. Nada a nos atormentar. Apenas dois adolescentes e uma criança prodígio. Isso, é claro, até o Natal, quando aquela aeronave sofreu um defeito nas turbinas e teve que fazer um pouso de emergência ao lado do meu quarto. O avião raspou o telhado do nosso prédio. Eu me lembro de estar deitado no chão com o mundo inteiro tremendo a minha volta. Eu vi a carcaça do avião passando a menos de dois metros de altura de mim e não expeli nenhuma palavra. Eu realmente pensei que fosse morrer, mas então o avião sumiu e logo depois ouvi a grande batida no chão. Ele arrastou consigo meia centena de casas antes de parar.

“Eu me levantei do chão da minha sala e olhei em volta. Só destroços. Pedaços de parede e teto, tudo quebrado e empoeirado. Mal podia reconhecer aquele lugar. A árvore de Natal foi pulverizada. Olhei para cima e vi o céu. O céu. E então eu soube que uma nova aventura estava para começar.”

— Que coisa poética — disse Tracy. — Está com fome? Espere um pouco, vou pedir croissants para todos.

Quando ela saiu, o rapaz olhou para os dois outros rapazes da mesa.

— Vocês não acham que estou inventando tudo isso, acham?

Louis e Tyler se entreolharam.

— Eu achei no começo — Louis admitiu. — Enquanto você ainda falava de Oliver. Mas depois, quando começou a falar sobre Lorenzo, eu percebi que não havia como aquilo ser mentira. Simplesmente não faz sentido. É verdade, não é? Oliver realmente existiu? E ele foi assassinado?

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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

O rapaz assentiu baixando a cabeça.

— E todas as outras coisas que você passou? — Assentiu de novo. Louis acreditava nele, sim, acreditava com todas as suas forças. O menino de alma pura não tinha capacidade para mentir naquele momento. Era um livro aberto. Mas, só para ter segurança, Louis pesquisaria na internet todos aqueles eventos que ele disse que passou. Sabia que o tiro era verdadeiro, assim como o fato de ele ter vivido em Castellobranco durante onze anos antes de se mudar para Middleland.

E quanto a Tyler, bem, para o inferno com Tyler.

Tracy voltou com os croissants e pediu bebidas geladas para eles. O rapaz comeu metade do salgado e bebeu metade do milk-shake em silêncio. E nenhum dos três falou qualquer coisa. Sem perguntas ou dúvidas. Esperavam ansiosos que ele recomeçasse a falar.

Por fim, ele suspirou e pigarreou.

— Ethan, Lorenzo e eu ficamos num hotel até o Ano Novo por causa da destruição do nosso prédio. Quando o ano de 2012 virou e nos deparamos com janeiro de 2013, eu obriguei Ethan a alugar uma casa. Ele queria um apartamento perto da Academia Alphonse Enoi, mas eu tinha ideias melhores. Estella Granelli havia posto a mansão Granelli à venda. Ethan detestava condomínios, por isso eu tive que ameaçar me matar algumas vezes para ele finalmente aceitar se mudar para Jardim de Ouro. Foi lá que eu conheci um rapaz doce e enigmático com os cabelos cinzentos e os olhos violeta como ametistas. Rapaz esse que hoje vocês devem conhecer como Melchior.

— Já li todos os livros dele — disse Tracy.

— Se conhecessem o Melchior daquele tempo, não reconheceriam o de hoje. Naquele tempo, ele era um garoto extraordinariamente inteligente e ambicioso, mas, na medida certa, também amoroso e afável para com seus irmãos. Era sempre agradável tê-lo por perto, mesmo sabendo que, na maioria das vezes, ele estava zombando da sua inteligência por ter um QI maior que o de Einstein. Quando o Conselho da Academia Alphonse Enoi afastou a Diretora Hellen Page e instituiu um cara que logo, logo todos nós aprendemos a odiar, ele iniciou ataques misteriosos e anônimos sob o pseudônimo de Senhor do Mundo M. Já ouviram falar disso? A Revolução M? Levou as emissoras de TV à escola. Àquela altura, eu já tinha tingido o cabelo de vermelho. Foi muito divertido. Foram bons tempos.

“Mas vou voltar a falar do início. Quando eu ainda tinha catorze anos e era ingênuo e pensava que o mundo era um lugar mágico e colorido, Melchior me convenceu a dar uma festa na mansão Granelli. Ethan disse que não, por isso eu esperei até que ele estivesse numa excursão promovida pela escola, a qual tenho certeza que foi provocada por Melchior, para dar a festa. Houve algumas picuinhas com amigos meus, mas nada disso é importante para a história. Tudo ia muito bem. Eu vi algumas janelas quebradas e lixo demais no chão, mas pensei que Ethan podia muito bem pagar para consertar e limpar. As horas da madrugada passaram-se. Quando o sol começava a surgir no céu e a festa já tinha praticamente acabado, eu ouvi um grito do lado de fora da mansão. Ao ir checar, dei com Lorenzo, que também havia ouvido. Fomos em direção a um riacho que eu chamei de Garganta Dourada, onde Melchior e seu irmão menor estavam prostrados. Foi ali que ocorreu o primeiro assassinato da Coruja. E sabem de uma coisa? Eu só conseguia pensar em como Ethan me mataria ao chegar em casa.

“Vimos as costas de Lance Chioren. Trinta e seis facadas e um pentagrama. As indagações e suspeitas começaram e posso garantir a vocês que não foram poucas. Vou me abster de comentá-las porque não faz sentido falar sobre pessoas que não estão mais em minha vida, mas, na época, eu tanto não sabia que era primo de quinto grau de Rhanys Olrwen quanto negava totalmente a capacidade dele de matar. Owl, como o chamávamos, porque essa era a única palavra que ele conseguia falar, era um garoto doce e ingênuo. Odiava que tocassem nele e, a meu ver, não conseguia fazer mal a uma mosca. Melchior o conhecia desde os doze anos, outros desde que ele nascera, e todos concordavam com isso. Ele nunca foi suspeito. E vejam que ele colecionava facas e todo mundo sabia disso. Talvez, se ele fosse um suspeito, menos pessoas tivessem morrido.

“Eu liguei para Ethan e chamamos a polícia. Naquela mesma noite, Lorenzo foi a segunda pessoa a ser atacada. Estava do lado de fora de casa, sentado no gramado, que eu chamava de Campina, quando sentiu a ponta de uma faca penetrar suas costas, mas ela não penetrou mais que isso porque o alarme da casa começou a apitar. Ele sempre demorava pelo menos um minuto para apitar após ter detectado movimento, razão pelo qual as coisas aconteceram desse jeito. Lorenzo experimentou uma depressão severa nesse período de nossas vidas, e creio que ela começou ali. Ele não falou sobre o ataque até a manhã seguinte, quando por sugestão minha fomos dar um passeio em Jardim de Ouro. Eventualmente, encontramos Owl. Ao ouvir sua voz, Lorenzo teve um pequeno surto. Começou a gritar dizendo que foi ele quem o atacara na noite anterior. Só que… ninguém que estava ouvindo acreditou nele. Quer dizer, Owl? O doce e adorável Owl, de cabelos loiros muito claros e olhos da cor do céu? Impossível. A depressão dele começou verdadeiramente aí. Ethan e Melchior acabaram se aproximando, isso deve ter acontecido mais ou menos no tempo em que eles acabaram trepando um com o outro.”

Todos os três arregalaram os olhos. O louro parecia estar esperando.

— Melchior é gay? — perguntou Tyler.

— Em meus poucos dias em Nova York, assisti a dezoito musicais e posso garantir-lhes que ele é tão gay quanto qualquer um da plateia ou do palco. — Pigarreou. — Vou continuar. Foi Melchior quem nos revelou nosso parentesco com os Olrwen e quem disse que os Chioren são um ramo ilegítimo dos Hentz. Sim, sabíamos disso desde aquele tempo. É interessante saber que Olannis Olrwen, bisavô de Owl, é o primeiro filho de nossa trisavó Ondromeda Olrwen, e que teve um caso com nossa bisavó por parte de pai, Doreah Lemnsack. Antes que perguntem, sim, é a famosa atriz hollywoodiana. Às Sombras de Edgar é de fato todo sobre esse caso. Naquela época, Melchior não era ambicioso o suficiente para pedir para ser legitimado, e quando se tornou Ethan já era suficientemente ciente da índole dele para impedir tal loucura. Nós não falamos por Jules du Pont. Ele foi manipulado. Apenas uma marionete. Mas estou saindo do assunto. Perdoem-me.

“A essa altura já chamavam o assassino de Coruja porque ele só atacava de noite. Engraçado termos demorado tanto para reconhecê-lo porque a Coruja literalmente estava na porta ao lado. Melchior conheceu Oliver. Oh, acho que eu tenho mesmo problemas com cronologia. Guardem suas perguntas. Ele tinha oito anos e morava numa cidade chamada Passodepedra quando o Oliver de dez anos de idade tornou-se seu vizinho. Sempre sendo uma criança superdotada, foi Melchior quem descobriu que Oliver estava sendo abusado sexualmente por seu tio-avô. Sim, isso é verdade. Ele estava. Foi Melchior quem o denunciou e interrompeu isso, mas a essa altura Oliver já estava destruído demais para que fizesse qualquer diferença. Todas as suas características mais estranhas que eu citei a vocês há algum tempo decorrem disso.

“A segunda vítima fatal da Coruja surgiu algum tempo depois. Em Jardim de Ouro existia esse prédio que foi consumido por um terrível incêndio há alguns anos e que por algum motivo nunca foi demolido. A família residente, os Gramp, morreram todos. Não, isso não é uma história de fantasmas. Ainda. Foi nesse prédio que encontraram o corpo de Sttan Molihnar. Ele havia caído do terceiro andar. Trinta e seis facadas e um pentagrama, como de praxe. Nesse meio tempo, eu comecei a namorar a ex-namorada dele. Uma moça chamada Mia. Vocês não a conhecem. Ela tinha dezesseis anos enquanto eu tinha catorze. Agora que penso bem, Mia foi minha primeira namorada.”

— Houve um acidente antes da terceira vítima, não houve? — perguntou Tyler. — Sim, um garoto caiu do terceiro andar desse mesmo prédio que você falou. O nome dele era…

— Não, sem nomes — ele interrompeu-o. — Pelo menos, não esses. Os únicos nomes importantes são os das vítimas, isso porque esses já estão na internet, de qualquer jeito. Qualquer coisa além disso é inútil. A terceira vítima foi o irmão mais novo de um amigo meu. Jimmi Weswalk. Dez anos de idade. Era um entardecer quando ele foi atacado em casa…

— Não, espere — disse Tracy. — A terceira vítima, em ordem, foi um garoto chamado Terrence Revonne. Eu lembro de ver isso.

— Terry não foi uma vítima da Coruja.

— Mas é o que eu vi…

— Eu sei, mas isso está errado. Terry Revonne nunca foi assassinado pela Coruja. Eu logo, logo vou falar sobre isso. Como eu dizia, era um entardecer quando Jimmi foi atacado em casa. Morreu nos braços desse amigo, irmão dele. Um episódio muito triste. Ele tinha um irmão gêmeo. Foi nessa época que Hellen Page foi substituída e que os misteriosos ataques do Senhor do Mundo M começaram. No térreo da unidade do terceiro ano, havia um enorme mural de camurça onde eles colocavam avisos e afins. O mural estava rasgado de um lado ao outro e havia uma frase escrita com tinta roxa. A frase era… vejamos se me lembro… O que adere fácil, mas é quase impossível de tirar? E a assinatura do pseudônimo. Mais tarde, a unidade do segundo ano apareceu completamente pichada de roxo por dentro. A assinatura e a resposta do enigma estavam lá, Senhor do Mundo M e tinta permanente, assim como outro enigma. O que está acontecendo quando um sólido passa a liberar energia em forma de luz e calor?

— Ele está queimando — respondeu Louis.

— Precisamente. No mesmo dia, alguém espalhou uma grossa linha de pólvora no telhado da unidade do primeiro ano e pôs fogo nela. O barulho do pipoco pareceu a trilha sonora de um filme de faroeste. Pensaram que estavam atirando no prédio. A resposta era: Ele está pegando fogo. E a pergunta era: O que acontece quando se explode uma bomba perto de uma janela? Quando deu uma hora da tarde, todos os vidros da unidade do nono ano estraçalharam-se ao mesmo tempo. Eu sinceramente não sei como Melchior fez todas essas coisas e como nunca foi preso por terrorismo. Acho que é porque aquilo lá não são os EUA. A resposta estava lá: Ela se estraçalha. E o enigma: O que acontece quando se molha uma fotografia?

“A irmã mais nova de Melchior morreu um tempo depois. Julie Chioren, tinha doze anos. A quarta vítima. Estava a caminho na escola quando foi atacada. Melchior a encontrou no meio da rua em frente à sua casa. Trinta e seis facadas e um pentagrama. Ele ficou bastante abalado na época. Hoje em dia, não creio que se afetaria muito porque isso não o afetou. Naquela mesma noite, eu contei a Ethan que Mia estava grávida.”

Os três arregalaram os olhos.

— Você tem um filho? — indagou Tyler.

Ele deu um sorriso triste.

— Eu já chego lá. Ele iria se chamar Charlie. Charlie Ethan Cinneto Lemnsack Hentz. Eu estava tão excitado. Tinha apenas catorze anos, ela dezesseis. Hoje, não sei bem se ficaria tão excitado assim. Acho que ficaria. Não sei. Passei por muita coisa para saber. Bem, um tempo depois o próximo ataque do Senhor do Mundo M aconteceu. Abriram o prédio do oitavo ano apenas para encontrar printscreens da câmera de segurança do famoso Corredor da Academia Alphonse Enoi. Bem, a despeito das milhares de fotografias de adolescentes transando, a resposta do enigma era: Ela fica molhada. E a pergunta: O que acontece quando uma Coruja entra num prédio? Essa pergunta me aterrorizou bastante, mas a essa altura eu já sabia que Melchior era o terrorista psicopata que estava destruindo a Academia. Esses adjetivos foram de fato usados pela direção da época.

“Eu, Ethan e Lorenzo fomos jantar com a família de Mia para discutir sobre esse assunto. Seus pais queriam que ela abortasse o bebê, mas fomos contra. Nós realmente queríamos tê-lo. Eu sabia que seria um menino. Não sei como, mas sabia. E, de qualquer forma, se fosse uma menina poderíamos chamá-la de Charlotte ou Carlotta. São ambos o mesmo nome e versão feminina de Charlie. Estávamos felizes. Ethan prometeu ajudar. Tudo parecia que ficaria bem, mas não ficou. E menti para vocês. Vocês conhecem, sim, Mia. O nome completo dela é Meera Cinneto.”

— Oh — Tracy exclamou cobrindo a boca com a mão. — Ela foi a quinta vítima — sussurrou.

Ele assentiu, baixando novamente a cabeça. Louis precisava muito lhe dar um abraço. Não parecia apropriado, mas o que podia fazer? O rapaz uma hora era tão maduro e resistente, e em outra tão infantil e incapaz…

— Íamos nos encontrar numa praça de Jardim de Ouro. — Ele fungou com os olhos marejados. — Eu a encontrei deitada no chão sobre uma gigantesca poça de sangue. Havia uma frase escrita com o sangue, mas eu não prestei atenção nisso porque eu estava imaginando o bebê minúsculo que havia morrido junto com ela. Trinta e seis facadas e um pentagrama. Ninguém sobreviveria àquilo. Oh, e a frase era: A Coruja pia.

— Ela escreveu isso? — perguntou Tracy chocada.

— Já chegarei lá. Eu afundei numa depressão miserável depois da morte de Mia. Se Lorenzo parecia mal nos últimos meses, eu fiquei mil vezes pior. Não levantava da cama por absolutamente nada, não falava e não comia. Parei de ir à escola. Transformei-me numa marionete. Ethan tinha que literalmente fazer por mim as coisas que eu precisava fazer para continuar vivendo. Todas as manhã, antes de ele ir à escola, me acordava, me tomava nos braços e me levava ao chuveiro. Dava banho em mim como se eu estivesse inválido. Eu não reagia. Eu mal conseguia saber o que se passava fora da minha mente. Eu frequentemente tinha sonhos fantasiosos de como as coisas poderiam ter sido. Será que se eu tivesse chegado meia hora mais cedo ela estaria viva? Se não tivéssemos jantado no dia anterior? Eu só queria entregar um anel a ela. Diamantes. Sempre gostei de diamantes. Acho que ainda tenho o anel guardado, isso é, se Melchior ainda não o leiloou. Na hora das refeições, Ethan me sentava na mesa do quarto e colocava garfos na minha boca. Eu mastigava e engolia sem reagir. Ele me fazia beber copos inteiros de água de duas em duas horas. Tenho que dizer que minha pele nunca esteve tão brilhante quanto naquele tempo. Eu realmente deveria começar a beber mais água. Manter-se hidratado é importante, crianças.

“Agora vou detalhar precisamente como foi que Melchior chegou a desvendar a identidade da Coruja. Tudo começou quando ele, muito eficientemente, descobriu que o sistema de câmeras de Jardim de Ouro, o qual todos acreditavam não funcionar mais, ainda possuía algumas câmeras funcionando. Ele foi atrás da família dona do sistema e, de algum modo, conseguiu dezenas de horas de filmagens. Nenhuma das câmeras mostrava a Coruja ou os momentos de morte, mas enquanto xeretava as horas antes do momento de morte de Mia, viu um garoto olhando mais ou menos para a parte da praça onde ela foi morta, se assustando e então fugindo. Ele foi à procura desse garoto, que testemunhou que, antes de fugir, viu alguém, um outro garoto, chorando com Mia morta nos braços. Sim, esse garoto viria a ser Owl. Outra coisa que Melchior descobriu a partir de suas fontes é que Sttan Molihnar havia feito sexo antes de morrer e que tinha algumas costelas quebradas por um objeto de maneira grande, algo parecido com uma tábua. O que conseguem tirar disso?”

— Ele estava… — começou Tracy — estuprando alguém? Meu Deus, ele estuprou Owl?

O rapaz sorriu e não respondeu. Tudo a seu tempo.

— Melchior foi atrás de Owl. Não sei o que pensava nesse momento. Acho que ninguém acreditaria que fora Owl o responsável por aquilo, mas Melchior queria respostas daquele autista que só falava Owl. Com algum manejo, conseguiu que ele lhe confirmasse que estivera mesmo lá, que encontrara Mia e ficara abalado ao vê-la. Isso foi uns quinze minutos antes de eu e Ethan chegarmos lá. Espero que vocês entendam como, naquela época, era improvável que Owl houvesse feito aquelas coisas. Esqueci-me de falar que ele estava numa colônia de férias no momento em que Terry foi assassinado e seu irmão foi empurrado do prédio da família Gramp.

— Mas então quem matou Terry? — perguntou Tyler.

Novamente, ele sorriu e não respondeu.

— Enquanto isso, Melchior também agia como Senhor do Mundo M. Foi até a Academia e recrutou dois jovens para realizarem a trilha sonora do golpe que estava planejando dar. Anos atrás, eles fizeram uma música chamada Ensino Médio Inocente em que detalhavam os casos mais sórdidos entre alunos e alunos e alunos e professores. Hellen Page quase os expulsou por isso. Melchior propôs que os dois criassem uma verão atualizada da música, ao passo que concordaram. Ele também começou a criar seu penúltimo ataque como Senhor do Mundo M. Comprou tinta vermelha, tinta spray roxa, doze manequins de silicone e doze facas grandes. Ainda me lembro disso. O dia 22 de maio amanheceu com o prédio do sétimo ano parecendo a cena de um crime. Cada andar do prédio tinha dois manequins, exceto o térreo, que tinha quatro, e todos estavam cobertos de tinta vermelha com facas enfiadas em suas costas. Com a tinta spray roxa, escreveu na parede a resposta do enigma: Mortes acontecem, e o último: O que acontece quando uma população se revolta? A Revolução M, é claro.

“Simultaneamente a isso, Melchior achou o antigo celular de seu tio Lance, a primeira vítima. Ele descobriu que as últimas ligações de Lance foram para Sttan Molihnar, o que criava uma conexão entre os dois que ele estava louco para desvendar. Bem, na Academia, após o episódio dos corpos ensanguentados, o Conselho foi chamado. Estava tudo dando certo. No Jardim, Melchior foi atrás de um parente de Sttan para lhe indagar se ele sabia alguma coisa sobre seu relacionamento com Lance. Esse parente contou que eles costumavam sair juntos e que, no Ano Novo de 2012 para 2013, eles acabaram violentando alguém. E acabou que também forçaram Terry a fazer a mesma coisa. Terry também era autista, tanto quanto posso lembrá-los, e seu caso era muito pior que o de Owl. Ele era completamente incapaz de qualquer coisa.

“No mesmo dia, Melchior descobriu através de suas conexões três coisas. Que Lance havia feito sexo antes de morrer, que a pessoa com quem ele fizera sexo era a mesma com quem Sttan fizera e que Mia havia morrido por perda de sangue, e não por facadas, o que quer dizer que as facadas haviam sido feitas depois de ela morrer, ou seja, ela não poderia ter escrito aquela pista porque o assassino ainda estava lá. Melchior realmente tem conexões em todos os lugares do mundo. Ele poderia descobrir a marca de leite que o Papa bebe todas as manhãs no café-da-manhã. Esperem, estou saindo do assunto. Onde eu estava? Acho que preciso de outro café. Ah, sim, obrigado, Tracy.

“Odette Ovense, avó de Owl por parte de madrasta, foi morta. Ela foi, de fato, a sexta e última vítima da Coruja. Lance, Stan, Jimmi, Julie, Mia e Odette. Essas são as seis vítimas. Qualquer outro nome além desses é pura balela e sensacionalismo da mídia. No mesmo dia que ela foi morta, Melchior finalmente percebeu tudo. Ele nos chamou à nossa casa na manhã seguinte, às seis horas da manhã. Eu, Ethan, Lorenzo, meus dois amigos, irmãos de Jimmi e Terry, e Owl. Ele disse: eu sei quem é a Coruja. Quando virou-se e olhou para nós, Owl havia desaparecido pela janela. Melchior tirou o celular do bolso e ligou para a polícia, denunciando-o como a Coruja. Todos ficamos chocados, mas então ele começou a explicar.

“Ele disse que no Ano Novo de 2013, Lance e Sttan estupraram Owl na casa queimada da família Gramp, e forçaram Terry a fazer isso também. Pouco depois das primeiras mortes, ele perguntou a Olenna Olrwen, avó paterna de Owl, como Owl voltara para casa depois da festa que eu dei, a que Lance morreu, e ela respondeu que ele estava impecável, no entanto Lance foi encontrado dentro de um riacho, e como há uma cerca limitando-o, seria impossível que Owl o tivesse matado fora do rio e jogado o corpo dentro, principalmente porque ele era muito baixo e fraco. Em outras palavras, Lance foi morto dentro do riacho, o que significa que Owl estava ensopado e sujo de terra ao chegar em casa. Olenna mentira para protegê-lo. Ela sempre soubera que havia sido ele. O mandou à colônia de férias para ver se os ataques parariam, e quando pararam ela matou Terrence Revonne e empurrou seu irmão do prédio para tirar o foco de Owl.”

Os três engoliram em seco.

— Se querem demonizar alguém, deveriam fazer isso com Olenna Olrwen. Ela sempre foi o maior dos vilões. Se não tivesse morrido, teria sido julgada apenas por acobertar o neto, quando na verdade ela tentou matar duas pessoas. Era velha, mas Terry era autista e não oferecia resistência, e seu irmão estava bêbado e drogado demais para resistir. No dia em que foi morto, Sttan tentou estuprar Owl novamente. Além das costelas quebradas, havia marcas de unhas em suas costas. Ele provavelmente conseguiu esfaqueá-lo, depois o espancou com um pedaço de madeira, e naquele prédio queimado havia muitos, e o empurrou do terceiro andar. Lance também deve tê-lo atacado no dia em que morreu.

“Depois desses primeiros assassinatos, Owl começou a matar por motivos ínfimos. Matou Jimmi porque seu irmão o perguntou se ele era a Coruja. Matou Julie porque queria machucar Melchior, para assim machucar o irmão de Terry porque ele era irmão de Terry, que o havia estuprado. E matou Mia para me machucar, porque na festa que dei eu espalhei boatos de que Melchior e o irmão de Terry tinham um caso. E tinham. O que explica ele ter matado Julie. É, ficou sem sentido quando eu disse isso sem revelar a conexão entre os dois. Estão entendendo? Bem, Owl amava Melchior, aparentemente. Por isso Mia. Por isso…” Ele suspirou. “Por isso Mia.”

Ele suspirou e baixou a cabeça novamente. Impressão de Louis ou fazia aquilo sempre que tinha vontade de chorar? Tracy deu-lhe alguns guardanapos, os quais ele levou ao rosto. Oh, sim, vontade de chorar. Se Louis a tinha ao ouvir a história, o que devia sentir aqueles que a vivenciaram?

— Ele cortou a garganta dela para que morresse por perda de sangue, depois a esfaqueou e desenhou o pentagrama, e depois escreveu a mensagem com seu sangue. Não sei exatamente por quê. Talvez quisesse ser parado. Quando Melchior foi interrogar Owl, o viu polindo uma faca cuja ponta estava entortada. Quando ele esfaqueou os corpos de silicone em seu ato como Senhor do Mundo M, as facas que usou tiveram o mesmo destino porque ele fez com muita força, e parte da rua em que sua irmã Julie foi esfaqueada estava rachada com o impacto da faca. Deve ter matado Odette porque ela e Olenna se detestavam. Owl morreu no dia 24 de maio. Após fugir de nossa casa, foi para sua própria, ao passo que sua avó Olenna o levou ao topo de um pico chamado Alta Vista. Uma pequena montanha de pouco mais de trezentos metros em Middleland. Ela o sacrificou lá com uma de suas próprias facas. Cortou-lhe a garganta para impedir que fosse preso.

— Mas Olenna Olrwen foi achada esfaqueada e com o pentagrama desenhado em suas costas — disse Louis. — Como ela poderia tê-lo matado?

Ele deu de ombros.

— Eu não sei. Quem matou Olenna Olrwen é e sempre será um grande mistério. Mas não foi Owl. Owl não a mataria. Simplesmente não faz sentido. Esse foi o fim de Rhanys Olrwen. O que acham dessa versão? Bem diferente do que conhecem pela mídia, não é mesmo? Bem, a mídia disse que sequestrei Lorenzo, eles estão constantemente errados.

— Isso tudo é verdade? — indagou Tyler. — Você não engrandeceu nenhum dos fatos?

— Acha que eu brincaria com a imagem de pessoas reais dessa maneira? Literalmente tudo o que eu lhes disse é verdade. Eu não sinto raiva de Owl. Queria sentir, mas não sinto. Oh, e ele conheceu Oliver também. Melchior descobriu, depois contou a Ethan, que contou a mim. Foi na época em que ele tinha acabado de sair dos Estados Unidos e se mudado para a Califórnia. Ficou numa cidade chamada Piazzavuota. Não sei de mais detalhes, mas foi isso. Eu sei que é irreal, mas foi isso mesmo.

“A Revolução M aconteceu no dia do meu aniversário, 3 de junho. Melchior arrumou um microfone, pôs-se no meio do Campo Verde e começou a berrar a plenos pulmões para três prédios cheios de alunos insatisfeitos fazendo provas. Ele conseguiu incitá-los a deixarem suas salas e se reunirem em volta da diretoria enquanto Ensino Médio Inocente era cantada. Eu me infiltrei no prédio do terceiro ano e acionei no alarme de incêndio para obrigar os alunos remanescentes a saírem. Foi muito divertido ver quase mil pessoas em volta da diretoria berrando com o Conselho lá dentro. Ethan e Melchior entraram no prédio e negociaram com aqueles homens e mulheres ricos. No fim da manhã, Hellen Page foi renomeada diretora da escola. A essa altura havia policiais e emissoras de TV no campus. Melchior foi descoberto como sendo o autor de Lympharia aí. Ele ficou famoso. Assim como eu e meus irmãos. Também mudei de aparência. Cortei o cabelo e o pintei de vermelho, furei a orelha esquerda e coloquei esse brinco e pus um transversal na direita. Ah, e um piercing no lábio e outro na narina. Ethan quase me matou ao ver que cortei o cabelo.”

Isso terminou sua narração sobre o primeiro semestre de 2013. Quando Tracy perguntou-lhe sobre o segundo semestre, ele sorriu e disse que se absteria de contar a maior parte das coisas que aconteceram porque não faria sentido para aqueles que lhe ouviam. Disse que eles não acreditariam. Isso fez Louis pensar no que diabos poderia ter acontecido, considerando as coisas inacreditáveis que ele contara achando que eles acreditariam.

— Mas posso falar sobre as coisas que vocês sabem que aconteceram e posso falar do nascimento da Anhert. Deixem-me ver. Lorenzo superou sua depressão e começou a treinar piano na Academia. Ele sempre foi o melhor aluno, o mais talentoso e o que aprendia mais rápido. Lembro-me de ouvi-lo tocar Beethoven todas as noites antes de dormir, toda noite um pedacinho, porque por algum motivo aquelas músicas tem mil horas de duração. Os dedos dele pareciam ter sido feitos para as teclas. Também teve aquela explosão de banco que eu vi com meus próprios olhos. Por um triz não morri ali. Meu bom amigo Rowan me impediu.

“Um tempo depois Ethan me contou que pretendia criar uma empresa chamada Anhert. Anhert é o nome de um deus egípcio cuja forma animal era a de um leão, e nós, Hentz, sempre fomos conhecidos como leões dourados. Houve aquele episódio em que Ethan recebeu um tiro por Senn. Sei que vocês americanos sempre acharam ridículo que tivéssemos uma família real, mas não é todo dia que se pode salvar a vida de um príncipe. Lorenzo se apaixonou por um menino. Sim, um menino da Academia. Tinham a mesma idade. Ele era adorável. Os dois eram adoráveis. Uma coisa interessante aconteceu. Na hora da saída, os dois foram para o portão juntos e se beijaram. O pai do menino viu. Ele empurrou Lorenzo no chão. Ethan viu aquilo. Pegou uma barra de metal no chão e a acertou no vidro do carro do pai. Depois gritou uma ameaça a ele. Havia muita gente em volta vendo aquilo, foi estarrecedor. Ethan Lemnsack, o aluno nota 10, levantando a voz a um volume que ninguém nunca tinha ouvido e ameaçando um homem adulto. Se ele não namorasse, teria recebido algumas declarações de amor.

“Enquanto isso, eu comecei a desenvolver anorexia. Eu não fazia a mínima ideia disso, nem contei a meus irmãos. Havia tido uma briga horrível com Ethan por motivos que honestamente não lembro e não estava falando com ele, e Lorenzo era muito novo. Eu estava sozinho, nu, em frente ao espelho, odiando meu corpo, mesmo que minhas costelas estivessem a mostra sob a pele. Eu parei de tomar café-da-manhã, de almoçar e jantar. Comia esporadicamente. Desmaiei durante um jogo de futebol. O ápice da coisa veio no dia 29 de julho, quando, dois dias antes, Lorenzo e Ethan viajaram à Sacramento para a festa de condecoração do Primeiro Ministro sem mim. Naquela noite, eu fiquei deitado na minha cama, no escuro, olhando para o teto, sentindo as Sombras daquele lugar me engolindo. Eu tive uma forte impressão de estar sendo esmagado dentro do quarto. Minha respiração começou a aumentar. Eu me levantei meio desorientado e fui para a sala. Havia uma linda garrafa de uísque na estante. Eu peguei a garrafa, fui à cozinha e peguei uma faca e subi ao telhado do prédio com meu celular. Demorei meia hora para beber a garrafa, que já estava pela metade, e então liguei para Ethan em Sacramento. Fiquei com medo que não pegasse por ele estar em outro condado, mas ele atendeu. Rapidamente falei com ele. Eu não faço ideia do que falei, a propósito. Eu não lembro nada depois de estar bêbado e ele não me conta. Eu cortei meus pulsos, ou posso ter cortado antes da ligação, e subi na pequena murada que impedia o acesso à borda do prédio. Setenta e dois metros abaixo, o chão surgia para me encontrar.

“Mas amigos meus me acharam a tempo e me puxaram da borda. Ligaram para uma ambulância e fui levado a um hospital público, onde peguei uma boa infecção como punição pelos meus pecados. Eu não sei exatamente o que me levou a fazer isso. Minha depressão simplesmente atacou-me de forma mais feroz que nunca por eu estar sozinho em casa, me sentindo abandonado, apesar de Ethan ter implorado que eu fosse com eles à Sacramento. Eu o desobedeci e aconteceu o que aconteceu.

“Foi no período em que estive internado ao hospital que conheci Carmen e Vickie Goldenschild, filhas adotivas de Cornelius Goldenschild. Oh, deuses, elas me ensinaram a amar novamente. Muitas pessoas me criticam por ter namorado duas garotas ao mesmo tempo, mas estávamos todos bem com isso. Elas me amavam e eu as amava igualmente. Eram tão diferentes e mesmo assim tão iguais. Com elas, me senti feliz como nunca havia me sentido antes. Recuperei-me de minha anorexia. Eu ainda pesava quarenta e três quilos quando saí do hospital, mas me senti muito melhor. Carmen costumava me chamar de Nigel, não sei por que, mas eu adorava.

“Oh, e Ethan fundou a Anhert. Comprou a agência de publicidade onde o pai do namorado de Lorenzo trabalhava como forma de forçá-lo a aceitar o relacionamento do filho. Foi assim que, no dia 26 de agosto de 2013, comemoramos a fundação da corporação no apartamento na Rua Symphonia tomando um vinho caríssimo. Nós três. Depois o que aconteceu? Ah, sim, acharam o avião de nossos pais. Ethan quase vomitou quando viu o cadáver de nosso pai, embora nunca tivessem achado o corpo de nossa mãe. Não faz mal. Das quinhentas pessoas daquele avião, apenas algumas poucas foram achadas. O resto foi comido pelos peixes ou vaporizado na queda. Também descobrimos que tínhamos um cofre num banco suíço com as lendárias joias provenientes do Diamante Hentz. Ethan foi para a África do Sul comprar uma mineradora porque queria ter diamantes suficientes para fazer os antepassados morrerem de inveja.

“Então a hora das bruxas veio e aquele terrível terremoto atacou a Califórnia. Carmen morreu graças a uma laje que caiu do teto de sua casa. Vickie foi mandada pelo pai a um internato na Suíça. Todo o desespero que senti com a morte de Mia voltou de uma vez. O namorado de Lorenzo também morreu, o que o deixou ainda mais cínico que o normal. Foi meu último ano na Academia Alphonse Enoi. Depois disso, eu fui para a Escola St. Nicholas. E, quanto a isso, eu realmente não tenho nada a dizer. Comecei a atuar no teatro daquela escola e depois Melchior me convidou para a série Lympharia, o qual eu aceitei. Então Ethan foi preso, o que foi um grande absurdo. Mas toda a história de Amy e Arianne também foi um grande absurdo. Fui indicado a um Emmy, sabiam disso? A premiação será em janeiro do ano que vem, em Los Angeles. Espero ganhar. Mas talvez não. O Emmy sempre deixa séries de fantasia de lado.”

— Preciso perguntar algo — disse Louis. — Espero que não se importe. Não precisa responder, se não quiser. Como você se sentiu ao saber que ela havia matado Lafferty Winter?

Ele o olhou por muito tempo com aqueles olhos pretos e lindos.

— Eu… eu não teria deixado que Arianne fizesse aquilo, se eu pudesse. Porque ele fez muitas coisas horríveis, sim, ele fez. Mas todos temos monstros dentro de nós. Como eu já lhes disse, eu mataria pelos meus irmãos. Se eu tivesse que sacrificar um menino de onze anos para dar a vida dele a Lorenzo, eu faria isso sem hesitar. Se eu encontrar o sequestrador de Ethan, eu provavelmente vou matá-lo se Ethan não me impedir. Todos temos monstros dentro de nós, mas cabe a nós decidir se eles vão sair ou não. Sou irracional quanto a Ethan e Lorenzo, mas… quanto a Lafferty? Um nome que há muito não me dizia nada? Eu não desejava sua morte. Não, não desejava. Isso não me tornava melhor que ele. E se eu não posso ser melhor que um homem como aquele, qual é o ponto de se ter um caráter bom, de se construir uma alma? Qual é o objetivo de tentar ser uma pessoa boa… se eu não consigo ser bom quando algo me afeta malignamente?

Tracy chorava copiosamente. Não fazia barulhos, mas seus olhos estavam cobertos pela mão direita. Até Tyler estava agoniadamente emocionado. Ele suspirava para não deixar cair lágrimas. E Louis… Louis tinha lágrimas saindo dos olhos já há algum tempo, mas não percebia isso. Estava amando aquele garoto, assim como Tracy e Tyler o estavam amando também. Ele estava sentado no mesmo lugar, imóvel, inocente e frágil como um filhote.

— Essa é a minha história, Louis, Tracy, Tyler. Essa é a minha história final, sem cortes e sem censura. Sem sorrisos. Sem charme. Sem a cobertura da mídia para fazer parecer mais dramática. Sem riqueza, fama e glamour. É assim que ela é. Essa é a minha vida que eu vivo em tons de cinza, e não em preto e branco.

— Eu realmente espero que você encontre seu irmão — murmurou Tracy. Não se dera ao trabalho de limpar as lágrimas. — Espero mesmo. Espero que Lorenzo morra em paz e sem dor e que você possa ser feliz. Espero muito que você possa ser feliz. Eu quero muito que você seja feliz.

— Eu também quero — disse Louis. — Você é a pessoa mais magnífica, surpreendente e maravilhosa que já conheci em minha vida.

Tyler a essa altura já estava chorando demais para falar qualquer coisa.

— Eu percebi que você tem uma mala — ele disse olhando para Louis. — Por acaso está indo para algum lugar? Fugindo de casa?

— Sim. É isso mesmo.

— Boa sorte com isso. Crie sua própria história e faça-se feliz com ela. Ser feliz é o maior objetivo na vida de todos. Não importa que não consideremos isso. No fundo, sempre é o maior objetivo. Aqui, deixe-me dar-lhe alguma coisa.

Ele tirou uma carteira do bolso da calça. Louis estava para recusar, mas de repente tinha pelo menos oito notas de cem dólares nas mãos.

— Por favor, aceite. Tenho mais de onde isso veio. Não é muito, mas espero que você possa usar por tempo suficiente até conseguir outra fonte de renda. Boa sorte, Louis. Tracy e Tyler, também espero que sejam felizes. Tyler, tente ser uma pessoa menos preconceituosa. — Ele se levantou e pegou seus agasalhos. Por alguns segundos silenciosos, vestiu tudo de volta. — Tenho que ir agora. Parei de perseguir, estou finalmente sendo perseguido. Tenho que pegar meu irmão e sumir desse estado. Como está o Maine nessa época do ano? Ah, deixem para lá, vou ver quando chegar. Dizem que o Maine tem quase tantos monstros quando Nova Orleans. Até mais, pessoal. Obrigado por me ouvirem. A miséria realmente ama companhia.

Ele sumiu pela porta da Temperance’s House. Louis ficou olhando para o dinheiro em suas mãos, depois dobrou-os cuidadosamente e os colocou no bolso traseiro da calça.

— Quando acordei hoje de madrugada, não pensei que isso aconteceria — comentou com Tracy. Ela concordou. Ambos olharam para Tyler, que tinha um celular nas mãos. — O que está fazendo?

Tyler olhou para eles e sorriu.

— Vendo o que vai se tornar o vídeo mais visto da história da humanidade. É isso que estou vendo.

Ele mostrou a tela do celular. Podia-se ver um vídeo de cinquenta e seis minutos de duração. Em seus primeiros segundos, mostrava o rapaz louro de um ângulo inclinado.

Quem estava lhe perseguindo? — Era a voz de Tracy, embora ela não pudesse ser vista. — Foram… foram as mesmas pessoas que sequestraram seu irmão?

É, foi, sim — ele respondeu. — E, só para vocês saberem, eu não sequestrei meu irmão menor.

E no fim do vídeo:

Essa é a minha vida que eu vivo em tons de cinza, e não em preto e branco.

A raiva de Louis se inflamou.

— Você filmou tudo?! Filmou-o contando toda a história da vida dele sem ele saber? Depois de ele confiar em nós? Seu filho da puta, você não tem consciência? Se colocar isso na internet, ele vai ser pego pela polícia e por quem quer que sequestrou o irmão dele!

— Não se preocupem. — Tyler se levantou. Não havia remorso em seu rosto. — Vou esperar ele recuperar o irmão ou morrer para publicar isso. O que eu sei é que nossos pais estão quase falidos e a faculdade para onde eu quero ir custa mais que nossa casa. E também sei que qualquer revista no mundo vai pagar um milhão de dólares por isso. Vou voltar para casa agora. E, Louis, lembre-se do que eu disse. Não gaste tudo com drogas.

Eles viajaram muito para chegar onde o destino os levara. Connecticut, Rhode Island, Massachusetts, New Hampshire, Maine, Vermont, Ohio, Michigan, Indiana, Illinois, Wisconsin, Iowa, Minnesota, Dakota do Sul, Dakota do Norte, Montana, Idaho, Oregon e Washington. Nessa ordem. A essa altura, os quatro meninos já haviam visitado quarenta e sete dos quarenta e nove estados americanos, a exceção do Havaí e do Alasca. Não perseguiam mais um ponto vermelho no GPS. Essa era a diferença.

Depois daquela singela manhã numa cafeteria chamada Temperance’s House, os quatro sumiram de Nova York em seu trailer a mais de cem por hora, seguindo para o nordeste dos EUA. Por incontáveis vezes quase foram pegos. Desviaram de balas, sim, balas de verdade, e por mais de uma vez o trailer teve que acelerar para fugir de algum carro.

A polícia, no entanto, continuava sem conseguir localizar seu rastro. Eles demoraram vinte e quatro dias para chegarem a onde estavam, às vezes mudando de nome mais de uma vez por dia, com transformações físicas mais radicais que nunca, sobrevivendo com o mínimo do mínimo. Passaram por incontáveis cidades interioranas. Houve tempos em que pensaram seriamente em se separar para diminuir a possibilidade de vítimas. Devon Lancaster só queria dois deles, afinal.

Mas isso não aconteceu porque Lincoln proibiu. Durante vinte e quatro dias eles fugiram, e durante vinte e quatro dias ficaram unidos. Porque foi na manhã da véspera de Natal que chegaram à cidade canadense de Kamloops após terem cruzado a fronteira para a Colúmbia Britânica, e dessa cidade tomaram uma estrada desconhecida para o leste, adentrando numa densa e assustadora floresta. O GPS só conhecia os mapas californiano e estadunidense. O Canadá era uma selva gelada.

Será que foi aleatoriamente que pegaram uma estrada desconhecida para o coração da floresta? Talvez não, porque a verdade é que acabaram se deparando com uma entrada para uma pequena comunidade. Madeira grossa e escura, com certeza não proveniente dos pinheiros e espruces cheios de neve daquela floresta escura. Havia neve por todos os lados. As árvores eram quase brancas.

Uma placa de madeira dava-lhes boas-vindas bilíngues para aquela comunidade amaldiçoada. Os dois irmãos se deram as mãos, porque apesar de um não poder enxergar, nem física nem espiritualmente, as Sombras eram fortes demais para serem desapercebidas.

Bienvenue à Vallée des Ombres

Population: 1.212 habitants.

Bem-vindo ao Vale das Sombras

População: 1.212 habitantes.

Notas finais
~~ Noah, por que você escreveu esse capítulo enorme e totalmente enfadonho que não diz praticamente nada? ~~ Bem, sabem aquele episódio especial em sitcoms em que os personagens se sentam e se lembram em flashbacks de todos os episódios anteriores? É algo parecido. Na verdade, por causa do final esse capítulo foi tão importante quanto quando os irmãos foram expostos à mídia no final da primeira temporada. É uma pena que eu não vou ter como explorar isso porque eu precisaria escrever a sétima temporada. E vocês não fazem ideia de quanta coisa eu havia me esquecido sobre a segunda temporada. Algumas coisas eu não fazia a mínima ideia de como aconteceram. E o final desse capítulo mudou todo o rumo da temporada. Eu sei que pode dar a impressão de que ela está se arrastando, mas eu garanto a vocês que esse final vai ser o final de temporada mais surpreendente e maravilhoso de toda a fic, e o que vocês mais vão gostar. O próximo capítulo será bem triste. A fic está chegando a seu final, pessoal. Comentem. :3 Ps: perceberam que o nome de Nick não é citado nenhuma vez nesse capítulo? Haha.