Ele estava sonhando quando foi acordado.

No sonho, não havia pessoas ou formas, cores ou expressões, havia apenas escuridão e clareza, alegria e tristeza, cheiros, toques e sons. O contato de uma mão segurando-lhe, a sensação de outros lábios colados aos seus, a voz de uma alma querida acariciando-lhe os ouvidos.

Estava tocando piano do alto de um palanque tão alto quanto às nuvens, e podia ouvir os gritos e gracejos do público lá em baixo. O piano era monumental e possuía mil fileiras de teclas, mas ele conseguia tocar todas ao mesmo tempo, produzindo um som tão gracioso e melódico quanto perfeito, e tocava os corações e as almas de quem o ouvia.

Todos o amavam; ou pelo menos, era assim que ele pensava, antes de perceber que os gritos vindos lá de baixo eram zombarias.

Desesperado, tentou tocar de novo, mas seus dedos emaranhavam-se e ele não conseguia uma nota sequer. Ao invés daquele som doce e alto, o piano tocava um grasno horrível a cada tecla. O banquinho no qual estava sentado tornou-se baixo demais, de modo que ele teve que se levantar, mas então o piano tornou-se alto demais e ele já não podia mais alcançá-lo.

Teve que escalar o instrumento. Quando chegou lá em cima, percebeu que cada tecla tinha o tamanho de uma tábua de madeira. Tentou tocá-las pulando em cima delas, tão célere quanto nervoso, mas os gritos e uivos do público intensificaram-se. Quando ficou cansado demais, sentou-se sobre uma das tábuas geladas e cruéis e começou a chorar. Não aquele choro aguado e baixo que chorara durante quase oito anos, mas um lamento tão profundo que era como se estivesse imortalizando seu âmago com lágrimas quentes.

O engodo acabara. Ele não conseguia mais tocar. E a tecla na qual estava sentado produzia um som terrível, um berro horrendo que se enfiava por seus ouvidos e batucava sua cabeça para ficar lá para sempre e sempre…

Lorenzo percebeu que não estava sozinho. Sombras moviam-se perto de si, mas, silenciosas como estavam, não sabia quem era. A cama era grande demais para ele, um mar de fofura e conforto que podia tornar-se tão traiçoeiro quanto um lorde descontente.

Puxou os lençóis para cima, sonolento e desgrenhado.

— Quem é? — perguntou.

— Sou eu, Lorenzo. — Era Ethan.

Ethan sentou-se ao seu lado na cama e, delicadamente, passou os dedões pelos côncavos de seus olhos até os cantos internos, para tirar as remelas.

Lorenzo lembrou-se. Ethan iria viajar àquele fim-de-semana.

— Você já está indo? — perguntou, com a voz engrolada.

— Estou. Vou voltar domingo de noite, você sabe, não é?

— Sim. — Era sexta-feira, então. Não teria aula àquele dia. Ou melhor, teria, mas Ethan dissera que podia ficar em casa. Nick ficaria também.

Olhou furtivamente para as janelas. Ou estavam fechadas, ou ainda era muito escuro e o sol não havia nascido.

— Ainda é escuro — Ethan falou. — Pode voltar a dormir. Ah, Lorenzo… antes de ir, queria te pedir algo. — Ele fez uma pausa. — Cuide de Nick.

Lorenzo franziu as sobrancelhas, confuso.

— Como posso cuidar dele? É ele quem devia cuidar de mim.

— É, ele devia. — Havia desgosto na voz de Ethan. — Mas, às vezes, Nick não consegue cuidar nem de si mesmo. Pode não saber como, mas você é mil vezes mais maduro que ele. O que eu quero é que… mantenha-o na linha.

Lorenzo não sabia como poderia fazer aquilo, mas não quis perguntar.

— Certo.

Ethan beijou-o na bochecha calorosamente e o deitou de volta na cama, cobrindo-o com o lençol.

— Há comida suficiente na cozinha para o fim-de-semana inteiro. Se precisar de alguma coisa, peça a Nick, está bem? Não deixe de falar, se precisar.

— Como quiser.

Lorenzo fechou os olhos e inspirou profundamente. Quando a porta de seu quarto se fechou, contou até sessenta e então se levantou. Havia perdido o sono. Na verdade, não precisava de mais do que quatro ou cinco horas de sono por dia, mas seria melhor que Ethan e Nick não soubessem disso.

Pegou sua bengala encostada ao lado da cama e tateou o caminho até o banheiro. Ela estava ficando pequena para si, logo teria que trocá-la. Subiu no banquinho da pia (ela era muito alta, então Ethan arrumara-lhe o banco para que pudesse alcançá-la), abriu a torneira e lavou o rosto. Então escovou os dentes cuidadosamente, bochechando logo depois.

A mansão era bem maior que o antigo apartamento, muito, muito maior. Quando se mudaram, Nick levara-lhe para passear por toda ela e fê-lo entrar em cada quarto e cômodo que havia. Lorenzo não conseguia lembrar onde ficava cada recinto, mas sabia que seu quarto era no quarto andar e que, à esquerda do corredor, ficava a porta do quarto de Nick e logo depois, o de Ethan.

Se seguisse o corredor pela direita, acabaria dando uma hora ou outra com uma escada na parede esquerda que levava ao terceiro andar. Então seguiria por uns doze metros entre portas trancadas para chegar ao salão de jogos. Se continuasse seguindo, encontraria outra escada, no outro extremo da mansão, na parede direita, e chegaria ao segundo andar. Depois de pegar a outra escada para chegar ao primeiro e então ao térreo, poderia encontrar a piscina do Jardim Púrpura e a biblioteca.

Não podia ler os livros, mas era legal ter uma biblioteca em casa. Havia uma em sua antiga casa, na casa que fora queimada, no país que nascera, com a mãe que morrera.

Havia uma janela grande logo à esquerda de sua porta. Lorenzo abriu-a e inspirou o ar gelado da noite. Ainda estava de pijamas, um macacão macio que usava para dormir. O vento invernal deu-lhe calafrios. O clima de Middleland era tão estranho, as estações do ano não ditavam o clima. Podia nevar no outono e fazer um sol esturricante no inverno. No dia anterior, o sol estava tão quente que a água da piscina estava aquecida. Agora, o frio zombava da peça pregada.

Suas noites eram iluminadas pelas estrelas e pelo brilho da lua; os dias, pelo sol. Mas ele estava sempre envolto em escuridão.

Estava amanhecendo. Podia sentir isso. Seus horários biológicos forçavam-no a acordar às cinco da manhã todo dia. Não devia estar a muitos minutos disso.

Desceu as escadas até o térreo e foi até a biblioteca. Apesar de não saber ler, gostava do ambiente. Muitos dos livros eram antigos e exalavam um cheiro característico gostoso. A atmosfera do lugar era quente e abafada, a luz do sol entrava pelo domo e a aquecia como uma estufa, assim como fazia com aquele jardim que chamava de Estufa, perto do Jardim Púrpura e parecido com ele também, mas bem menor.

Lorenzo deitou-se num dos confortáveis sofás e inspirou profundamente. Se o sono voltasse, levantaria. Não queria dormir e sonhar de novo, aquele sonho já fora ruim o suficiente.

Tinha pesadelos desde o dia do acidente.

Dormia tão profundamente que achava que seria impossível ser acordado. Estava errado. Quando o avião raspou o teto do prédio, foi jogado de sua cama para o chão tão violentamente que pensara que havia quebrado o braço. Não havia, mas seu ombro doía muito. Ethan surgira logo depois, embalando-o nos braços. Percebeu que ele estava nu, mas não disse nada.

Lorenzo chorara como uma menininha enquanto saíam do prédio, assustado demais para pensar. Ethan o confortara, dizendo que não estava ferido. Ele também não estava, nem Nick.

Passaram o ano novo num hotel. Lembrava-se de ter vislumbrado no céu pontos de luz vagos e apagados que julgava serem fogos de artifício. Achava incrível a sensação do ano novo, aquela de esperança e renovação, algo tão puro quanto o sentimento de uma criança.

Deve realmente ter cochilado, pois acordou com um toque em seu braço que só podia ser de Nick.

— Olha só, eu vou fazer uma festa hoje — ele disse, com excitação na voz. — Aliás, o que está fazendo aqui?

Lorenzo esfregou os olhos com os punhos.

— Gosto daqui. Do ambiente. Da sensação.

— Decorou o caminho até aqui? Eu me perdi duas vezes até achá-lo. — Ele riu. — Bem, quanto a festa…

— Uma festa? — indagou. — Por quê? É aniversário de alguém?

— Nem toda festa é de aniversário. Eu ia sair para comprar algumas coisas, você terá que vir comigo. Tenho que cuidar de tudo.

Às vezes, Nick não consegue cuidar nem de si mesmo.

— Tem certeza de que é uma boa ideia? — Estava receoso. Não sabia se Ethan aprovaria aquilo.

— Tenho. Mas Ethan não pode saber.

Ele não aprovaria.

— Você não quer que eu conte a ele — adivinhou.

— Isso mesmo — ele confirmou.

O que eu quero é que… mantenha-o na linha.

— Bem… não vai acontecer nada demais, certo?

— Certo. Vai ser só uma reuniãozinha. Para umas quarenta pessoas. Agora vamos, tenho que comprar a bebida.

Puxou Lorenzo pela mão e correu com ele para fora de casa. Já se acostumara com o ritmo agitado de Nick, de forma que não era difícil acompanhá-lo.

Quando passaram pelos muros da mansão, ele parou.

— Quem vai comprar a bebida, afinal? — perguntou, mas para outra pessoa.

— Ritchi compra. Ele tem identidade falsa, e é grande o suficiente para se passar por dezoito anos. — Já ouvira aquela voz antes, mas não sabia a quem pertencia. Era calma e suave, sussurrante, quase como um ronronar de gato em seu ouvido. — Lorenzo — ele saudou-o alegremente. — Meu nome é Melchior.

— Seu nome realmente é Melchior? — indagou. Melchior poderia ser qualquer coisa, mas não era um nome.

— É Melon — Nick falou. — Eu queria ter uma identidade falsa.

— Você não se passaria por muito mais velho que Lorenzo — disse outra voz, muito mais grave e baixa que a de Melchior. Parecia pertencer a alguém que ficara muito tempo sem falar. — Parece uma camponesa de onze anos.

— Calado. Vamos lá.

Andaram por algumas ruas e esquinas até saírem de Jardim de Ouro. Chegaram a uma loja de bebidas, pelo visto. Enquanto Ritchi comprava o que devia e aquele garoto extremamente quieto chamado London permanecia quieto, Melchior falou com Lorenzo com aquela voz mansa e amaneirada. Vinha de tão longe que ele devia ser mais alto que Ethan.

— Gostou de Marco, Lorenzo?

— Da minha escola?

— Sim, ele é meu irmão, sabia disso?

— Ah… seu sobrenome é Chioren? Ah, espera. Melon Chioren. Melchior. É daí que vem seu apelido?

Ele riu e afagou seus cabelos.

— É isso mesmo.

— Eu gosto de Marco — ele disse. — Ele é bem… agitado. — Agitado era modo de dizer. Marco conseguiu ser expulso de sala três vezes no primeiro dia de aula e parecia ter uma obsessão doentia por Lorenzo. Parecia que estava forçando-o a ser seu amigo.

— Ele é hiperativo, assim como Nicholas — Melchior disse. — Por isso é tão agitado. Ele é bem parecido com você, na verdade.

Aquilo era uma tremenda mentira. Ethan dissera que desde que Lorenzo começara a nadar, crescera cinco centímetros, mas Marco ainda era uns bons seis ou sete centímetros mais alto que ele. Aliás, o cabelo dele era encaracolado e seu rosto era fino e bonito. Sabia disso. Ele o deixara vê-lo com as mãos, como sempre fazia.

— Não na aparência — ele continuou dizendo. — Na personalidade. Ele é inteligente. Muito. Uma das pessoas mais inteligentes que já conheci. Assim como você. É bem incrível, já que você é deficiente visual.

— Cego.

— Como…?

— Cego. Não diga “deficiente visual.” Eu sou cego.

Nick surgiu por trás de si, segurando seu ombro e bagunçando seus cabelos que já estavam suficientemente bagunçados.

— Vamos pra casa? Tem um carregamento de bebida aí que poderia ter enchido minha antiga casa inteira. Temos que organizar tudo. E as caixas de som. E as camisinhas, meu Deus, as camisinhas. Esqueci-me delas.

Eles todos começaram a discutir sobre qual o melhor método de comprar camisinhas, já que a maioria não parecia disposta a comprar todas de uma vez numa mesma farmácia.

— O que são camisinhas? — Lorenzo perguntou.

De repente, todos se calaram.

— São camisas pequenas — London falou, com um quê de divertimento na voz. Mesmo assim, ainda parecia levemente com um rosnado. — São camisas bem pequenas.

A mentira estava impregnada em sua voz, fria e zombeteira.

Depois de voltarem à mansão, Lorenzo ficou em seu quarto o dia inteiro. Saiu apenas por alguns momentos, quando Nick pediu sua ajuda para algumas coisas, tipo arrastar todos os móveis da sala principal para o corredor grande. Ele era pequeno e sabia que seus esforços não faziam muita diferença, mas todos o congratulavam por sua ajuda.

Notou que as pessoas começaram a chegar quando um burburinho irritantemente baixo tomou conta dos corredores, como uma abelha numa sala grande e silenciosa, mas foi crescendo à medida que o tempo passava e a noite caía. Chegou um momento em que Nick disse que teria que ficar em seu quarto.

— Mas por quê? — indagou, aborrecido. — Eu ajudei com os móveis. Eu devia poder ficar na festa.

— Eu sei, mas não posso cuidar de você o tempo todo. Tem muita gente desconhecida aqui, aliás.

Uma tristeza súbita desceu em si. Sentia-se um estorvo, como muitas vezes sentira antes. Sua cegueira o impedia de ser uma pessoa normal, alguém tinha sempre que estar vigiando-o. Parecia que, se ficasse sozinho um momento, um buraco se abriria no chão e o engoliria.

Nick pareceu ler seus pensamentos. Passou o braço em volta do pescoço dele.

— Você não é um estorvo, está bem, Lore? É apenas que… essa é uma festa para pessoas grandes. Fique aqui. Quando chegar a hora do jantar, vou trazê-lo aqui para você. Prometo.

Deu-lhe um beijo na bochecha e outro na testa, como se compensasse sua decepção. Lorenzo fechou a cara pelo resto do dia.

O jantar foi-lhe trazido, mas sequer tocou nele. Quando esfriou, não conseguiu mais identificar a comida pelo cheiro, de modo que teve que comê-la a esmo quando a fome realmente o atacou. A carne estava fibrosa e dura de cortar, além de estar salgada demais. Ethan ensinara Nick a cozinhar algumas coisas, mas a cozinha era tão natural a ele quanto uma bicicleta a um peixe.

Quando terminou, empurrou o prato para o fundo da mesinha de seu quarto e escovou os dentes. Voltou para a cama, pretendendo se remoer de aborrecimento até dormir. A música estava muito alta para que tocasse piano.

Perto da meia-noite, quando estava quase dormindo, a porta se abriu num estrondo. Por um segundo, achou que fosse Nick. Ele sempre abria a porta daquela maneira.

— Lorenzo? — Era Marco.

Nick dissera que a festa era para pessoas grandes, e, no entanto, Marco estava ali.

— O que está fazendo aqui?

— Vim escondido — ele riu. — Quando Melchior saiu de casa, ele me disse para não segui-lo. E não segui. Esperei uma meia hora e então vim sozinho. Tecnicamente, não o segui, certo?

— Acho que não.

— Legal. Por que está aqui, nesse escuro? Por que não liga a luz… Ah, eu me esqueci. Não faz diferença. — Ele riu novamente. Às vezes, parecia-se tanto com Nick que, se não fosse pela voz, jamais notaria a diferença. Ou notaria. Eles tinham cheiros diferentes. — Ei, vamos descer. A festa está rolando lá em baixo.

— Nick me disse para não sair do quarto, não quero desobedecê-lo.

— Ele disse a você “Não saia do quarto”?

— Não, ele disse “Fique aqui.”

— Então. Tenho certeza que, com “aqui”, ele se referia à mansão. E o lugar para onde vou te levar fica na mansão. Você não vai desobedecê-lo.

Lorenzo pensou um pouco. Era verdade, mas tinha absoluta certeza que Nick não analisara a semântica do que dissera, e que “aqui” realmente significava seu quarto.

A música estava mais alta que nunca, parecia um convite.

— Está bem.

— Legal.

Depois de Lorenzo pegar sua bengala, Marco puxou-o pela mão e desataram a andar para o lado esquerdo do corredor. Ao chegarem quase a seu fim, Marco bateu o pé.

— Droga. Lembrei que Nicholas abriu o primeiro e o segundo andar, mesmo dizendo que não faria isso. Não dá pra chegar lá em baixo sem que meu irmão veja.

— Vai se dar mal se ele souber que está aqui?

— Não seja estúpido. Melchior sabe que estou aqui. Sabe que estou aqui, com você, pensando que eu sei que ele sabe que estou aqui. Melchior sabe de tudo. Tudo.

— Há uma outra passagem para o térreo.

— Onde?

— Do lado direito do corredor. Dá para se pegar uma escada para o terceiro andar, e então basta atravessar o corredor para pegar outra para o segundo. Depois fazer a mesma coisa para chegar ao primeiro e então de novo, para chegar ao térreo. São escadas alternativas. As oficiais são invertidas. São as que todo mundo deve estar usando.

— Como descobriu tudo isso? Você é cego.

Audição, olfato, paladar, tato, quase disse. Há muitas maneiras de conhecer o mundo, mas aqueles que podem ver estão cegos a isso.

— Descobrindo.

— Mesmo que Melchior saiba de tudo, nem ele pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. — Deu uma gargalhada. — Vamos lá.

Voltaram o corredor pelo lado direito, desceram, atravessaram outro corredor, desceram, atravessaram mais um corredor, desceram, atravessaram de novo e desceram pela última vez. No fim, estavam no térreo, onde a música era mais alta.

— Onde estamos? — Lorenzo perguntou, mas obteve sua resposta quando quase caiu ao topar com uma cadeira. Era da sala principal. — Estamos no corredor grande. Nick o trancou para guardar os móveis da sala.

— Sim, não tem ninguém aqui. Sabia que há túneis secretos por baixo da mansão?

Lorenzo sabia. Nick havia contado a ele, mas também disse que era um labirinto perigoso e mal iluminado, que quase todas as saídas estavam fechadas e que só havia uma abertura, que dava numa clareira na floresta de Middleland. O caminho até lá era comprido e complicado, bastante perigoso e era provável que a saída estivesse coberta por tábuas.

— Sei.

— Sabe onde é a entrada?

Era numa sala pequena que era usada como armário, nos fundos da mansão. A entrada era um buraco no chão com uma escada. Bastava descer e puxar uma alavanca para acender as luzes, e então seguir para trás para chegar à clareira.

— Sei.

— Me mostre.

Lorenzo hesitou.

— Não podemos descer. É perigoso, os túneis são labirintos. Podemos nos perder lá em baixo.

— Não se preocupe. Melchior conseguiu os mapas dos túneis. Ele me ensinou qual o caminho para a clareira. Quero vê-la com meus próprios olhos. Que tipo de pessoa pode dizer que tem um labirinto em casa? Haha.

— Er… eu não sei.

— Vamos. Não seja um covarde. Vai ser legal.

Ainda hesitou mais uma vez, mas, no final, Lorenzo Barcarolli assentiu.

Atravessaram o corredor grande e chegaram à sala. Estava trancada, para alívio de Lorenzo.

— Acho que não poderemos ir.

— Poderemos ir sim. Melchior me ensinou a abrir trancas, embora eu nunca tenha precisado fazer isso. Só preciso de um pedacinho de metal e um grampo. Essa fechadura é antiga.

Lorenzo levou menos de um minuto para ouvir o tique que indicava que a porta estava aberta. Aquele som foi estranhamente macabro.

— Que legal — Marco disse. — Você primeiro.

Desceu as escadas cuidadosamente. Podia escorregar a qualquer momento. Quando atingiu o chão poeirento, tateou a parede esquerda em busca da caixa de força, achou-a e levantou a alavanca com esforço. Era pesada, mas conseguiu.

Pode ouvir o barulho das luzes acendendo-se hesitantemente. Não fazia diferença para ele, mas, para Marco, sim.

— Isso é tão legal. — Conseguia sentir a excitação na voz dele. — Vamos, é pelo caminho oposto.

Começaram a andar. Num momento em que o túnel dividiu-se em dois, foram pela direita. Depois, houve um cruzamento de quatro vias. Marco dissera-lhe que um dos caminhos estava praticamente desabado, de modo que se mantiveram longe dele.

Lorenzo calculou que andaram quase um quilômetro até chegarem ao final. Percebeu então que estava fora da mansão, e não dentro. Desobedecera a Nick.

— Já estamos fora da mansão — falou, nervoso.

— Shh. Olha, a saída é por ali. Não recolocaram as tábuas, haha.

Lorenzo estava quase dando meia volta quando sentiu uma lufada de vento gelado atingir-lhe o rosto. A surpresa foi tanta que caiu de joelhos, e não sentiu nada além de terra úmida e folhas secas e mortas no chão. Pegou-as entre os dedos, esmagando-as, ouvindo o som de crack que faziam. O cheiro da terra molhada era tão inebriante quanto o som das árvores e do rio Alto Cruzeiro a escorrer entre sulcos e pedras.

— Não é legal, tudo isso? — perguntou Marco. — Dá pra ver a mansão daqui.

Lorenzo inspirou profundamente aquele ar puro e florestal. Era como sair de uma caixa depois de muito tempo preso.

— É maravilhoso.

— Sabe que outra coisa é maravilhosa? — sussurrou. — Isso.

Marco segurou os ombros de Lorenzo e fê-lo deitar-se no chão, por cima de folhas e galhos quebrados. Antes que pudesse perguntar por que ele estava fazendo aquilo, sentiu seus lábios nos seus.

Afastou-se rapidamente, arrastando-se pelo chão.

— O que está fazendo?

— Beijando você. Não gostou?

— N-Não… é que… nós somos dois meninos.

— E daí? Seu irmão Ethan faz isso o tempo todo.

— Ele… faz?

— Claro. Ele gosta de garotos, assim como eu. E assim como você, eu espero.

Marco beijou-lhe de novo, levemente dessa vez. Lorenzo deixou acontecer, sentindo cada pelo de seu corpo arrepiar-se. Os lábios dele eram diferentes dos de Jill. O beijo dela fora úmido e doce, o de Marco era mais quente e agressivo. Ficou invasivo quando ele enfiou a língua em sua boca.

Empurrou-o.

— Eu não consigo gostar — Lorenzo disse. — É estranho.

— É diferente. Você se acostuma. Mas bem, se não gostou, posso fazer outra coisa que imagino que vá gostar.

Estava a ponto de negar quando o sentiu descendo seu calção com tanta rapidez que só percebeu quando ele enfiou seu pênis na boca. Lorenzo gritou e tentou se afastar, mas Marco segurou-o à força. Era bem mais forte do que parecia, e maior que ele também, embora fossem da mesma idade.

Ia tentar se afastar de novo, mas não conseguiu. Aquilo havia ficado bom.

Era uma sensação estranha, a língua e os lábios finos dele lá, sugando-o para dentro de sua garganta, tão profundamente que parecia que ia arrancá-lo. Mas não arrancou, apenas manteve o contínuo movimento de vai-e-vem, lento e curto.

Acabou quando sentiu uma chama dentro de si incendiar todo seu corpo, que se contorceu em espasmos.

— Essa é a primeira vez que você goza? — ele indagou, levantando seus calções.

— Primeira vez que eu faço o quê? — Ainda estava meio entorpecido da sensação que acabara de ter.

— Goza. Ejacula. É quando você tem essa sensação boa que acabou de ter. Acho melhor voltarmos. Está muito escuro.

Seguiram de volta pelo túnel em silêncio. Ao subirem a escada de volta ao quartinho da mansão, Lorenzo foi primeiro e Marco foi logo atrás. Por um segundo, pisou em falso e acabou caindo, chocando-se contra o peito dele.

— Tudo bem — ele sussurrou em seu ouvido. Enquanto um de seus braços segurava-o na escada, o outro atravessava o peito de Lorenzo, impedindo-o de cair no chão. Lorenzo se arrepiou. — Te segurei.

O calor do corpo dele é tão… gostoso. O que é isso que eu to sentindo?

— Obrigado — agradeceu, logo ao sair do buraco. Deu sua mão para ajudá-lo a subir também, mas percebeu que foi desnecessário. Se conseguiu sozinho, Marco conseguiria também.

— De nada. — Bateu nas próprias roupas para tirar a poeira. — Vamos indo?

— Certo. Mas você tem que me levar ao corredor grande. Não faço ideia de como voltar ao quarto a partir daqui.

Marco o levou ao corredor grande. Subiram ao primeiro andar, ao segundo, terceiro e finalmente chegaram ao quarto. Quando estavam para atravessá-lo a fim de chegarem ao quarto de Lorenzo, Marco puxou-o de volta às escadas, cobrindo sua boca com uma das mãos.

— Shh. Quieto. Melchior está ali. Com Ritchi.

Descobriu a boca de Lorenzo, que se encolheu nos degraus. As vozes pareciam vir da sala de TV. Ou o que deveria ser dela, já que estava vazia.

— Sabia que Marco está aqui? — ouviu Ritchi perguntando. Parecia mal-humorado ou triste, ou as duas coisas.

— Ele veio escondido — Melchior falou. — Mas não é estúpido, ele sabe que sei que ele está aqui. Está com Lorenzo. Saia da janela, Ritchi.

— Eu não disse que Melchior sabe de tudo? — sussurrou Marco, divertido.

— Quero você — Ritchi disse. — Quero você montado em mim, aqui, agora.

— Eu… eu não posso, Ritchi.

— Gastou tudo com Gabriel Melnick? — Daquela vez, pareceu irritado. — Acho que vou foder com Ethan, assim ficamos quites.

Lorenzo ouviu Marco cobrindo uma risada com as mãos.

— Quem diria — ele falou, tão baixo que mal pode ouvir. — Melchior e Gabriel. Não sabia que eles estavam juntos.

— Como assim? — perguntou, mas ouviu apenas outro Shh.

— Por que está assim? — Melchior indagou. — Você sabe que eu só faço isso por necessidade. Escute, Gabriel não terminou com Ethan por causa de Nicholas. — Por que Ethan terminaria com Gabriel por causa de Nick? — Ethan o traiu com outro garoto qualquer. Já que eu não posso conquistar o patriarca da família Hentz com uma chantagem, tenho que fazê-lo gostar de mim.

Ethan traiu Gabriel. Assim como nosso pai traiu a mãe deles com a minha.

— Ethan odeia você — disse Ritchi.

— Ethan odeia todo mundo. Você não entende? Ele está um saco porque quer Gabriel de volta, e Gabriel o quer de volta também. Eles ainda se amam. Vou dá-lo de presente a ele.

Ethan ainda ama Gabriel, e Gabriel ainda o ama? Então por que eles terminaram? Isso não faz sentido.

— Que adorável, você de cupido. — Havia asco na voz de Ritchi, o mais profundo nojo. Ele e Melchior passaram a discutir, cada um mais enraivecido que o outro. Marco disse-lhe que Ritchi cuspira na cara de Melchior, mas ele sequer revidara. Estava chorando, em certo momento.

— Prova pra mim que isso não é verdade, Melon. — Ritchi disse. Ele queria chorar, mas parecia que simplesmente não conseguia. — Que você me ama.

— Meu nome é Melchior — Melchior respondeu, com uma surpreendente determinação na voz, misturada com raiva e tristeza, tudo formando um caldo de ódio. — Melchior. Não Melon. Não me chame disso. Nunca mais. Você sabe o que acontece com quem me trai. Você sabe o que, eventualmente, acontecerá a você. Você escolheu o que escolheu, Ritchard. Eu juro que vou te fazer se arrepender.

Pelo visto, Melchior foi embora, pois Marco puxou Lorenzo escada acima e desataram a correr silenciosamente para o quarto, como que para se esquecer de tudo o que ouviram.

— Não sabia que o nome de Ritchi era Ritchard. — Marco riu. — Eles terminaram. Isso é bom. Ritchi é um idiota e atrapalha muito Melchior. Um império vem antes de um amor. Mas pergunto-me por que exatamente Melchior está com Gabriel.

Lorenzo perguntava-se se deveria contar a Nick o que fez com Marco, lá na clareira, com a luz da lua e as folhas mortas das árvores como testemunhas. Ele disse que Ethan fazia a mesma coisa, talvez Nick entendesse e pudesse lhe explicar exatamente o que era. Não sabia disso. Mas sabia que fora bom.

Havia um relógio em cima da mesinha cuja hora era mostrada em braile, então bastava tocar nos ponteiros para saber o que diziam. Assim, podia saber que horas eram. Passava pouco da meia-noite.

Marco já fora embora quando Nick surgiu no quarto.

— Ainda acordado, Lore? — ele indagou. Cheirava a suor e a cerveja, além de uma dúzia de outras bebidas que Lorenzo não conhecia, mas sabia que eram bebidas. Ficou nervoso. Ethan pedira para que cuidasse de Nick. Tinha certeza que deixá-lo se embriagar não contava como cuidar.

— Não estou com sono — falou. — Marco veio aqui mais cedo.

— O irmão de Melchior? — Nick se aproximou. O hálito dele também cheirava a bebida.

— Sim. Ele veio. — Hesitou em contar que descera aos túneis. — Nós… nós fomos ao térreo.

— Ah. — Ele parecera esquecer que dissera que Lorenzo não podia sair do quarto, mas podia se lembrar daquilo a qualquer momento.

— Melchior está com Gabriel — falou, rapidamente.

Nick pareceu acordar.

— Como?

— Ouvi ele conversando com Ritchi, quando estava voltando para cá, com Marco. Melchior disse que… Ethan ainda ama Gabriel e vice-e-versa e que vai devolvê-lo para ele.

Ele ficou em silêncio.

— Então Melchior e Ritchi brigaram — continuou dizendo. — Eu acho que eles namoravam. Como Ethan e Gabriel. Mas agora terminaram.

— Oh, Lore — Nick beijou sua bochecha e bagunçou seu cabelo. Parecia a pessoa mais feliz do mundo. — Você é o melhor passarinho e ouvidor de sussurros que eu poderia querer. Vá dormir.

Após tomar um banho em que acabou se demorando demais nas partes baixas (enquanto Marco invadia seus pensamentos), Lorenzo vestiu um pijama e enfiou-se na cama.

Sonhou não que estava no alto de um palanque, tocando piano, mas sim debaixo da terra, num túnel alto como uma catedral, que ecoava sua voz, como se muitos de si mesmo estivessem falando ao mesmo tempo. Havia pessoas no túnel, sabia disso, mas elas não falavam nem respiravam, de modo que não sabia quem eram.

Deu um passo para frente e caiu num buraco.

Chocou-se contra o chão num baque surdo. Parecia que alguém o tinha segurado. E tinha, Lorenzo estava nos braços de Marco.

“Tudo bem”, ele disse, “te segurei.” E o beijou.

Mas então o rosto dele desmoronou para dentro e seu corpo desintegrou-se, dando lugar a um líquido espesso, viscoso como o sangue e quente como lágrimas.

Acordou com um grito.

Não dele, mas de outra pessoa. Era um lamento alto e estridente, tão alto quanto qualquer um que já tivesse ouvido e tão estridente que era como uma lâmina em seus ouvidos. Estava coberto de desespero, regado de medo e com salpicos de tristeza. Começou a ficar com medo também.

Tateou a cama até encontrar sua bengala e saiu do quarto, ainda de pijama.

— Há alguém aí? — indagou às sombras. Não houve resposta.

Desceu os andares da mansão até chegar ao térreo. Já não havia quase ninguém. A música estava muito mais baixa agora.

— Lorenzo? — Nick surgiu por trás si, ao chegar ao hall da casa. — O que está fazendo aqui? Eu o mandei ir dormir.

— Eu estava dormindo, mas acordei com um grito.

— Eu também ouvi.

Sentiu alguém entrando no hall e saindo pela porta, numa pressa absurda.

— Quem era?

— Melchior e Marco. — Nick respondeu. — Marco acenou pra você.

— Queria ter acenado de volta. A festa já acabou?

— Acho que sim. Nunca dei uma festa antes, não sei exatamente quando ela acaba. Mas acho que essa já acabou. Vou expulsar as pessoas que sobraram do Jardim Púrpura e…

Ouviu-se outro grito. Não era perturbador como o primeiro, era mais baixo, quase um sussurro se comparado àquele outro.

— O que houve? — Lorenzo indagou.

Nick puxou-o pela mão, arrastando-o para fora da casa. Estava frio lá fora. Sentiu um calafrio.

— Oh, meu Deus — Nick disse. — Não, isso não, não é possível. O que aconteceu aqui? — Havia um desespero notável em sua voz.

— Eu não sei — Melchior falou. Na dele também.

Tateando o espaço vazio com a bengala, Lorenzo bateu em algo duro. Tocou-o e percebeu que se tratava daquela baixa cerca de cimento que cercava o riacho Garganta Dourada.

O que está acontecendo? — perguntou, quase impaciente.

Ninguém lhe respondeu.

— Como assim “não sabe”? — Nick estava com tanto medo que começava a ficar irracional. — Quem é ele?

— E como eu deveria saber disso? — Melchior estava com tanto medo que começava a transformar o temor em raiva. — Meu tio, Lance. Ou o que restou dele.

— Ethan vai me matar — Nick disse, quase chorando. — Ele vai me matar e me jogar nesse rio. Eu… eu só queria dar a festa em paz, eu não queria que ninguém morresse!

— Nicholas, olha o sangue — sussurrou Melchior. — Ele não simplesmente morreu. — Silêncio. — Foi assassinado.

— Olha as costas dele — Marco disse, cheio de temor e excitação. — Alguém desenhou um pentagrama nela. — Silêncio. — Desenhou com uma faca. O que vamos fazer com ele? Esconder o corpo?

Marco! — Melchior ralhou, rispidamente.

Como? — Nick gemeu. — Como ele foi assassinado? — Silêncio. — E por quê?

— Por facadas, pelo visto — Melchior respondeu, sarcástico.

— Owl coleciona facas — Marco falou.

— Owl tem a mente de um bebê, ele não tem capacidade nem de odiar — Nick disse. — Por que ele mataria alguém? Por que alguém o mataria, Melchior?

Silêncio.

— Owl teria motivos sim para fazer isso — ele disse, sombriamente. — Ele é autista, mas não é… completamente incapaz. Ele não é Terry, ele sim tem um retardamento grave. Com Owl, a gente consegue perceber quando ele está tirando com a nossa cara.

— Acha que Owl fez isso? — Nick estava incrédulo. — Se for assim, London também teria. Lance tinha um caso com a mãe dele, não é? Ele o odiava. — Silêncio. — E você também.

Outro silêncio.

— Odiava — Melchior confirmou. — Teria motivo. Mas não fui eu. Prefiro prejudicar as pessoas de outras maneiras. Matar… — A repugnância que ele sentia era evidente — matar é coisa de gente sem sentimentos ou emoções.

— London — Nick murmurou. — London é obcecado por pentagramas. Há um pentagrama nas costas dele.

— Não acho que London seria tão idiota a ponto de desenhar um pentagrama nas costas de alguém logo após matá-lo — Melchior rosnou. Estava na cara que tinha ficado irritado por Nick ter suspeitado dele.

— Então o que, acha que foi Owl, por acaso? Tenho certeza que Lance não foi morto simplesmente num assalto ou coisa parecida. Isso tem requintes de crueldade.

— Perdoe se não honro suas habilidades como detetive — disse Melchior. — É melhor você chamar a polícia antes que as coisas piorem.

A polícia? Tem ideia de que o que aconteceu nessa casa hoje fere pelo menos uma dúzia de leis?

— Tenho — ele respondeu. — Mas não é problema meu. Vamos, Marco.

— Tchau, Lorenzo — ele falou.

— Tchau.

Passou-se algum tempo até que Lorenzo percebesse que Nick estava chorando.

— Não chore — falou, pondo o braço em volta dos ombros dele. Era difícil, ele era alto. — Ethan vai perdoar você. Ele sempre perdoa.

— Lore, tem uma pessoa morta dentro do riacho. Se eu não tivesse dado a festa, isso não teria acontecido. Ele ainda estaria vivo. E não posso chamar a polícia. Você não sabe, mas Ethan não poderia ter me deixado sozinho em casa com você. Eu sou novo demais. Ele pode se dar mal. Oh, Lorenzo, o que eu fiz? — Sentiu-o encostando o rosto em seu pescoço e derramando suas lágrimas salgadas.

— Você sabe o que tem que fazer — sussurrou.

— Não sei — ele teimou.

— Sabe sim. Ligue para ele e implore para ele voltar.

O choro dele aumentou. Pacientemente, Lorenzo continuou acariciando seu cabelo; lentamente, o sono veio. Daquela vez, não sonhou.

Quando acordou, estava sentado no chão de cimento e Nick ainda estava apoiado em seu pescoço. A base de suas costas doía e seu pescoço, mais ainda. Já devia estar amanhecendo, sentia os raios de sol chocando-se quentes contra seu rosto, embora o ar continuasse frio.

— Nick? — perguntou. Sacudiu-o levemente.

— Hm…? Ahn, o quê? Oh, Lore. — Ele pareceu aliviado. — Foi tudo um sonho?

— O que, o corpo no riacho?

— Oh, droga. Não foi um sonho. Mas… sim, agora estou me lembrando. Melchior é um filho da puta, quase me arrependo de ter espalhado o segredo dele ao invés de tê-lo ameaçado com ele. — Ele se levantou. — Deus, o corpo ainda está ali… está apodrecendo.

Lorenzo torceu o nariz. Era verdade, sentia um cheiro de putrefação repugnante no ar. Nunca o tinha sentido antes, de modo que só podia vir do corpo.

Nick o levou de volta ao seu quarto e o proibiu de sair de lá pelo resto do dia. Ethan só voltaria no dia seguinte, mas, se Nick ligasse para ele, ele voltaria naquele instante. E depois de dar o maior esporro do universo em Nick, o perdoaria e tudo ficaria bem, como sabia que aconteceria.

Mas…

Melchior disse que Lance havia sido assassinado. Nick disse que podia ser London, já que a mãe dele tinha um caso com Lance. Mas Melchior também não gostava dele. E as facadas… Lorenzo não sabia quem era Owl, mas se ele colecionava facas…

Decidiu ir tocar piano para esquecer aquilo, mas quando percebeu que estava tocando a mesma nota havia vários minutos, parou. Tocou no relógio de mesa para saber que horas eram. Surpreendeu-se ao ver quantas já haviam passado.

Esgueirou-se para fora do quarto, mesmo sabendo que não podia.

— Nick? — chamou-o pelo corredor. Ninguém respondeu.

Desceu até o térreo, saindo no hall. Antes de entrar na sala principal, ouviu a voz furiosa de Ethan.

— … a única coisa inteligente que você fez esse final de semana todo foi me chamar para voltar. Deuses, eu nunca deveria ter te deixado aqui, sozinho. O que eu estava pensando? Nicholas! Está prestando atenção?

— Por que eu deveria? — ele indagou, teimosamente. — É sempre o mesmo blábláblá…

O tom de voz de Ethan indicava que não havia nada que ele gostaria mais do que empalar Nick e exibi-lo em praça pública.

— Uma pessoa morreu, Nicholas! Morreu. Na sua festa. Na festa que você deu. Você já viu a bagunça que está essa casa? Faz ideia do que os tabloides vão falar disso? Por que você é tão inconsequente?

— Aposto que você gostaria de descobrir que eu fui trocado na maternidade, ou algo assim, e se livrar de mim. Não é mesmo?

Ethan demorou pra responder.

— Acho que eu só não me livraria de você para não prejudicar a vida do outro garoto. Não importa. Não importa. Eu estive nessa casa esse fim-de-semana todo, entendeu? Eu estive aqui durante a festa, uma festa que não teve bebida. Está bom assim, Nicholas Hentz?

— Está.

— Ótimo, agora vamos chamar a polícia.

Lorenzo ouviu os passos na sala aumentarem. Subiu as escadas correndo. Silenciosamente, voltou a seu quarto e trancou a porta. Alguns momentos depois, Ethan entrou.

— Lorenzo? — ele perguntou. O menino estava em sua cama, enrolado sob lençóis, fingindo dormir.

— Hm? — murmurou. Esfregou os olhos com os punhos e bocejou. — Você já voltou? Pensei que só voltaria amanhã.

— Eu ia, mas… aconteceu o que aconteceu.

Só então percebeu que Nick dissera a Ethan que ele havia visto o corpo.

Que estupidez.

— Eu estou bem — falou. Sabia que o mais velho achava que ele ficaria traumatizado, ou qualquer coisa do tipo. — Juro. Eu não estou… abalado.

— Eu sei — Ethan disse. — É isso que me preocupa.

Lorenzo franziu as sobrancelhas.

— Como assim?

— Lorenzo, você tem nove anos. Não é toda criança que vê um cadáver e não fica abalada.

— Tecnicamente, eu não vi o cadáver.

— A questão não é essa. A questão é que Nick desatou a chorar no momento em que eu cheguei aqui. Eu quase me juntei a ele quando vi o estado do corpo. E aquele cheiro putrefato… você o sentiu e não esboçou nenhuma reação. Isso… não é normal.

Lorenzo não sabia o que dizer. Não havia nada de errado com ele, não podia haver.

— O que quer dizer com isso? London também é assim.

— É… — A voz dele estava cheia de pesar. — E London é simplesmente o maior suspeito do assassinato.

Uma vez disseram a Lorenzo que, quando se fica com raiva, o rosto enrubesce. Perguntava-se se estava daquele jeito, naquele momento. Se não estava, devia estar.

— Você acha que, quando eu crescer, eu vou virar um assassino só porque tenho dificuldade em expressar sentimentos? Eu não sou um psicopata. Enzo Granelli era um psicopata. Não eu.

— Lorenzo…

— Não. — Enfiou-se novamente debaixo dos lençóis. — Não quero mais falar com você.

Ethan suspirou e se levantou. Quando ouviu a porta se fechando, Lorenzo começou a chorar.

Viu só, seu idiota? Eu tenho sentimentos. Eu tenho… não tenho?

Naquela noite, quando todo mundo estava dormindo, Lorenzo saiu de casa. O corpo já havia sido removido, sabia disso. Ouvira policiais entrando e saindo da mansão o dia todo, embora não soubesse o que diziam. Nick contara que uma multidão de pessoas se ajuntara afora dos muros, mas Ethan enxotara todos.

A grama da Campina estava seca e quebradiça debaixo de seus pés nus, mas após uma caminhada nos ladrilhos de cimento, era como uma bênção. Lorenzo esgueirou-se pela escuridão que não via até encontrar um carvalho tão grosso que seriam precisos cinco de si para abraçar seu tronco. Sentou-se sob sua sombra.

Às vezes, quando ficava muito triste e não conseguia dormir, ia para a Campina e ficava debaixo daquele carvalho até pegar no sono, acordando pouco antes de amanhecer. Ia para lá quando se lembrava de sua mãe, do fato de que nunca mais a veria. Quando se lembrava de quando atirara em Enzo Granelli, fazendo-o balear Nick, quase o matando.

Sentia-se só no mundo. Nick era uma criança como ele e Ethan era exigente demais. Ele tinha nove anos. Por que o culpavam então de não chorar ao ver o cadáver de um desconhecido? A morte não era estranha para ele. Parecia uma velha amiga, que cada vez que aparecia, estava mais exigente. Algum dia, o exigiria também.

As lágrimas também eram. Quentes e salgadas como o mar sob o sol de verão, nasciam em seus olhos mortos e escorriam por suas bochechas. Às vezes, chocavam-se contra seus lábios finos, fazendo-o provar de sua própria tristeza, sua angústia e infelicidade.

Ele era só uma criança. Cega. Que não sabia fazer as coisas sozinha. Um estorvo. Tinha certeza que Ethan e Nick seriam mais felizes se nunca tivessem sabido de sua existência, ou se tivessem-no deixado para lá. Nick nunca teria sido baleado. Ethan teria um irmão a menos com quem se preocupar.

Lorenzo Barcarolli levantou-se, decidido a voltar para casa.

Um alarme ressoou no ar, alto e penetrante. Junto com ele, ouviu alguém por perto dizer algo, com uma voz tão doce que não sabia se era homem ou mulher.

Sentiu algo em suas costas, algo pontudo que foi logo enfiado por baixo de sua camisa. A lâmina era fria, mas, quando deslizou sobre sua pele, tornou-se quente como o sangue.