— Fique quieto, ou vai voltar a sangrar.

— Está doendo — ele reclamou.

O ferimento das costas de Lorenzo tinha quase vinte centímetros de comprimento. Ia do meio das costas até sua base, uma ferida fina e quase perfeitamente reta. Após lavar as mãos cuidadosamente, Ethan desinfetara o ferimento com soro fisiológico e então pressionara uma gaze contra para que parasse de sangrar. Parou logo, de modo que o cobriu com um adesivo não aderente antes de declarar que o trabalho estava terminado.

Se o alarme não tivesse soado, Lorenzo teria morrido.

Naquele momento, Ethan agradecera-se mentalmente por ter tido a ideia de pôr um alarme na casa. Lorenzo não sabia da existência dele, por isso que fora à Campina tarde da noite. O alarma demorava um pouco para tocar quando os sensores captavam alguma presença no pátio da mansão, mas, quando tocou, veio junto com um grito desesperado do menino.

Ethan Lemnsack encontrara Lorenzo encolhido na grama, com a camisa de algodão encharcada de sangue. Parecera tão pequeno ali que fora difícil não sentir pena.

E ele não chorara. Nem quando Ethan levara-o para dentro de casa, nem enquanto tratava de seu ferimento. Seu rosto era pedra, não deixando passar nada que estava por baixo. Assim como era quando o vira pela primeira vez, há tanto tempo. O que Ethan mais temia não era de que ele não deixasse transpassar nada, mas sim de que ele não estivesse sentindo nada.

Aquela foi a primeira coisa que falou, aquela reclamação.

— O que aconteceu lá? — perguntou, vestindo-lhe com uma camisa nova. Estavam no quarto de Ethan. Nick estava no dele. Não acordava nem com o alarme soando.

Lorenzo olhou-o com olhos apáticos. Toda aquela vida que há muito estava lá, sumira, deixando-os foscos e sem brilho.

Ele voltou a olhar para o nada, sem responder.

— Lorenzo, por favor — pediu. Sentou-se em frente a ele e segurou seu rosto com as duas mãos, acariciando-o. — Me desculpa por ter falado aquilo pra você. Me desculpa se te magoei. Eu… não devia ter falado aquilo… Lorenzo. Olha pra mim e me fala o que aconteceu lá.

Ele se limitou a soltar um grunhido incompreensível. Levantou-se da cama e saiu pela porta, fechando-a com um baque surdo.

Eu matei o adulto que existia dentro dele, quando ele veio para cá, Ethan pensou, e agora acabei de matar a criança que restava.

Já conseguira criar uma criança antes, por que estava dando tudo tão errado com aquela?

Porque eu também era outra criança. Não estava sozinho.

Levantou-se da cama e foi ao quarto de Nick. Ele estava esparramado na cama, dormindo profundamente, como um bebê. Parecia imperturbável. Estava até com um esboço de sorriso no rosto louro e bonito. Tranquilo daquele jeito, era difícil sequer pensar em acordá-lo.

Ethan deitou-se ao seu lado e o sacudiu violentamente.

— Ahn… ah! O que foi? Meu Deus, eu estava tendo um sonho tão bom. — Ele sentou-se na cama e esfregou os olhos com as mãos. — Eu era rei do universo e todo mundo acatava minhas ordens. Meu trono era feito de ouro, meu cabelo também. O que está fazendo aqui?

Ethan o fez ficar de bruços e deitou-se por cima dele. Tateou o cós de seu calção, puxando-o para baixo.

— Você só pode estar brincando — Nick reclamou, mas gemeu do mesmo jeito quando Ethan o penetrou. — Me acordou a essa hora para me foder.

Então ele se calou. Durante vários minutos, tudo o que se ouviu foi o som da cama rangendo, das respirações descompassadas e das estocadas que Ethan dava no irmão. Nick estava deitado de lado, com o maior logo atrás dele, tomando-o para si. Beijava o pescoço dourado do menor, dando chupões e lambendo a pele salgada. Nick estava tão apertado quanto tinha o direito de estar, de modo que ejaculou logo.

Os dois amantes despiram-se completamente e ficaram debaixo dos lençóis, beijando-se e agarrando-se como um só.

— Senti saudades disso — Nick falou. Estava em cima do maior, pressionando seu baixo-ventre contra o dele. — Dormir com você, nu, depois de ser fodido como uma cadela. — Ele riu. — Por que não fazemos isso todo dia?

Ethan ficou calado.

— Eu te amo, Ethan. — Beijou-o calorosa e apaixonadamente. Foi retribuído.

— Nós temos um problema — sussurrou. Beijou suas bochechas e a ponta de seu nariz. Apertou seu corpo contra o seu próprio, sentindo arrepios. — Eu também te amo.

— Então não temos problema.

— Temos sim.

— O que é?

— Lorenzo.

Contou-lhe sobre como o alarme disparara, acordando-o, e como encontrou Lorenzo na Campina, tremendo de medo e ensanguentado.

Os olhos de Nick eram duas piscinas de petróleo, onde uma chama nascia bem em seu meio, enchendo-o de fúria.

— Alguém tentou matá-lo — ele disse, seus lábios tremendo a cada palavra. — Tentou matá-lo do mesmo modo que matou Lance Chioren. Tentou matá-lo dentro da própria casa. Ainda bem que você colocou o alarme, pelo menos alguém aqui faz algo que preste. Por que ele não está aqui? Ele não deve ficar sozinho no quarto depois disso.

— Ainda há outra coisa…

Então falou sobre a apatia que caíra sobre ele, tornando-o duro como pedra. Como quando o conhecera.

— Ele está traumatizado — Nick disse. — Mas crianças esquecem bem rápido das coisas. Vou falar com ele, sei que ele vai falar comigo.

Nick vestiu um roupão e saiu do quarto. Ethan contou exatamente cinco minutos antes que ele voltasse, frustrado e praguejando.

— O que você fez àquela criança?

Também queria saber.

— Eu acho que ele não vai se recuperar disso tão facilmente — disse a ele, que voltava a se despir.

— Não vai se recuperar se ficar trancado aqui dentro de casa, como você. — Achava adorável o modo como Nick ficava sem papas na língua quando estava mal-humorado. — Há alguns dias, eu acordei de madrugada, fiquei com insônia e decidi andar um pouco pela casa. Encontrei Lorenzo aninhado como um bebê, no chão, ao pé da porta de um quarto vazio, dormindo. O acordei e perguntei por que ele estava lá. Ele respondeu que não conseguiu encontrar o caminho de volta ao próprio quarto.

Ethan sentia-se cada vez mais triste.

— Você quer me fazer chorar, é isso?

— Seria bom. Mas não importa. Vou levá-lo para passear por Jardim de Ouro amanhã. Ele mal conhece esse lugar.

E espero que não tenha tempo de conhecer. Quanto mais tempo passava em Jardim de Ouro, mais desejava voltar para sua antiga casa. Um assassinato e uma tentativa de assassinato. Começamos bem.

— Vou com vocês — disse.

No dia seguinte, o sol brilhava impiedosamente por trás de nuvens cinzentas carregadas. A notícia da morte de Lance Chioren já estava em todas as bocas de idosas com mais de sessenta anos e logo, logo estaria nas dos mais jovens também. A rapidez com que fora difundida fora impressionante.

Numa sociedade de pequenas caixas, as fofocas fluem como água. E nada melhor para fofocar do que um assassinato numa mansão exageradamente espalhafatosa.

Numa banca de revistas por perto, uma revista de fofocas estampava uma manchete cruelmente chamativa.

Do jeito que tabloides são, provavelmente vão achar que foi Lorenzo quem matou Lance Chioren.

O mais novo não fizera objeções em sair para andar, mas Ethan achava que ele não faria objeções nem se lhe perguntassem se gostaria de ser atirado pela janela. Comera o desjejum em silêncio, vestira-se em silêncio, sempre sob ordens, como um robô programado.

Esperava que o tempo ruim não fosse um presságio para aquele dia. Um domingo já era um dia ruim simplesmente por ser um domingo, mas um domingo chuvoso era um castigo divino.

Lorenzo vestia algo quente, assim como Nick. Uma vez, ele lhe dissera que gostava do frio. E, no entanto, ele estava ali, sob peles e mais peles de casacos.

— Espere um pouco — disse a Nick. Aproximou-se do menor e tirou o casaco que ele usava. Lorenzo não falou nada.

— Está frio pra caramba, você quer matá-lo?

— Calado.

Tirou a segunda camiseta que ele usava também, deixando-o apenas com uma camisa de manga comprida.

— Está melhor assim? — perguntou, ajoelhado, fitando seus olhos cinza e foscos. Pensou ter visto um relampejo de qualquer coisa ali, mas o assentimento que ele deu foi suficiente.

Começaram a andar.

Chegou um momento em que se depararam com Melchior, Ritchi Revonne e London Weswalk. Ethan não nutria simpatia por nenhum deles. Melchior era tão arrogante e presunçoso que parecia ser o imperador do mundo, Ritchi era um delinquente e London era um psicopata, com aqueles demoníacos olhos vermelhos. Aliás, ele provavelmente havia matado Lance. Provavelmente.

Mesmo assim, foi obrigado a parar quando Nick se aproximou para falar com eles. Não falou com Melchior, no entanto. Nem ele fez qualquer menção para falar com o louro. Na verdade, Melchior e Ritchi também pareciam não se falar. London estava entre eles, como um mediador.

— É verdade, o que aconteceu? — Ritchi indagou. — Ouvi que Lance estava no seu riacho, metade enterrado, a outra metade apodrecendo e sendo comida pelos peixes.

— Não há peixes naquele riacho — Nick disse. — Mas, sim… é verdade. A polícia disse que vai fazer uma autópsia no corpo para averiguar se houve realmente assassinato.

— E se houve?

— Então eles vão singelamente interrogar todas as quatrocentas pessoas daquela festa.

Ethan discretamente fitou os olhos de Melchior. Estavam cor-de-rosa, naquele dia. Os olhos de London pareciam olhos de boneco.

— Não vão interrogar todos — Melchior sussurrou. Não parecia estar falando com ninguém em especial. — Vão ver quem tinha relações com ele, e quem tinha motivo para matá-lo. Um sobrinho que o desprezava, o filho da amante, um delinquente com passagem pela polícia, o anfitrião da festa, o responsável dele, a criança cega que aparenta ser mais do que é. Coisas assim.

Lorenzo levantou a vista e falou pela primeira vez naquele dia.

— Vá se foder.

Nick arregalou os olhos. Ritchi levantou uma sobrancelha. London murmurou algo incompreensível. Ethan ia dizer que ele não devia dizer aquilo quando Melchior deu uma risadinha mansa.

— Como eu disse. A criança cega que aparenta ser mais do que é.

Se Nick não tivesse segurado Lorenzo, ele teria chutado a perna de Melchior.

— Ei, só pra você saber — o menino disse, sorrindo. Virou-se para Ethan. — Melchior está com Gabriel. Quer dizer, os dois estão juntos. Como vocês um dia estiveram.

Ethan fitou o garoto com ametistas no lugar dos olhos. Nunca o tinha visto tão perturbado.

— Seu…

Parou de falar quando viu quem vinha lá. Owl usava aquele short de sempre, mas, incrivelmente, estava sem o casaco. Era estranho olhá-lo despido dele, parecia muito menor do que realmente era. Mesmo após tanto tempo, Ethan ainda tinha dificuldade em olhar para ele sem perder a fala. Aquele rosto redondo, os lábios grossos, a pele branca e aqueles dois mundos azuis orbitando em sua face, coroados pelos cabelos louro-prateados esvoaçados pelo vento…

— Owl — saudou-os, feliz.

Então toda a estabilidade da situação desmoronou. Lorenzo gritou. Ethan só o viu jogando-se para trás nos braços de Nick, que falhou em segurá-lo. O menino arrastou-se pelo chão, para longe do Owl de Owl.

— E-e-e-e-era… era você! — ele gritou, descontroladamente. — Era você, e-era você!

— Era ele o quê? — alguém perguntou. Ethan nunca chegou a descobrir quem.

Era você quem estava na Campina ontem!

O berro dele foi jogado no ar e lá ficou. Ninguém falou. Um fino fio de saliva escorria pelo canto direito da boca de Lorenzo. Seus cabelos negros estavam desgrenhados e seus olhos, cheios de terror. Owl estava com uma expressão inocentemente indagativa.

— Owl?

Lorenzo gritou de novo.

— Lore — Nick disse —, Owl é autista. Ele não teria capacidade de ferir alguém.

Você não entende! — ele gritou. — Quando o alarme tocou, eu ouvi alguém perto de mim falando alguma palavra, a voz era tão doce que eu não consegui perceber se era homem ou mulher. Agora eu lembro, era idêntica a dele! — Apontou para Owl.

Owl continuava confuso. London estava neutro, como sempre. Ritchi e Melchior compartilhavam a mesma expressão de incredulidade.

— Eu nunca esqueço uma voz — Lorenzo insistiu, sua voz ficando embargada, tropeçando as palavras. — Nunca, eu nunca esqueço uma voz… eu não esqueceria a dele… não a dele. — Começou a chorar.

Melchior deu um sorriso de escárnio. Ethan agradeceu que Lorenzo fosse cego, para que não pudesse vê-lo. Entre a vontade de enfiar o punho na cara de anjo dele e a de acolher o irmão nos braços, escolheu a segunda.

— Você está louco — Melchior disse. — Louco. É isso que dá nascer como um bastardo.

Surpreendendo a todos, Ritchi falou.

— Cala a boca, Melon Chioren.

E aquilo pareceu realmente irritá-lo.

— Vá à merda, Ritchi.

Enquanto meditava sobre o estrago que os punhos de Ritchi fariam na cara de Melchior e consolava Lorenzo, Ethan viu os dois partindo, cada qual para um lado.

— Owl — Owl murmurou, parecendo desconcertado com tudo aquilo. Continuou seu caminho, saltitando sobre os ladrilhos.

— Só para você saber — London murmurou, tão baixo que Ethan teve que se aproximar para ouvir. — Owl tem uma coleção de facas.

Quando ele partiu, Lorenzo ainda derramava lágrimas quentes.

— Shh, Lorenzo — sussurrou ao ouvido dele, fazendo-o arrepiar-se. — Acalme-se. Você não é louco.

— Você acredita em mim? — ele indagou, desesperado por um mínimo de afago. Ethan não ia negar aquilo a ele.

— Acredito — mentiu.

Nick estava quieto como um predador pouco antes de atacar a presa, mas seus olhos eram cruéis.

— Eu deveria tê-lo ameaçado — ele murmurou, para si mesmo. — Eles dois.

— Do que está falando?

— Nada. Vamos para casa. Tem cobras demais em Jardim de Ouro e já pisamos em muitas caudas.

Lorenzo não melhorou com a experiência de encontrar Owl. Ao invés de indiferença, ele afundou-se numa profunda melancolia. Não sentia vontade de comer e passou a maior parte do domingo dormindo sob colchas grossas e quentes. Só a visão da criança perdida num mar de lençóis era suficiente para colocar qualquer um para baixo.

— Quando a polícia vier nos interrogar, faríamos bem em contar a eles o que London disse sobre Owl — Nick disse, logo depois de fazerem amor no quarto do mesmo.

— Francamente, você acha mesmo que ele pode ter feito isso? — Ethan estava em cima de Nick, que estava de bruços, ambos nus. Mordeu sua nuca, desejando-o penetrá-lo de novo. — Owl não é o tipo que mataria. E ele nem teria motivo pra isso. Ele é muito inocente.

Nick saiu de baixo de Ethan. Levou algum tempo fitando-o.

— Desculpe, estamos falando sobre a mesma pessoa? Eu estou falando de Rhanys Olrwen. — Ele virou-se para o lado e cobriu-se com a colcha. — Não de Oliver Castanelli.

O dia na escola parecia que nunca terminaria. Além de sete aulas insuportavelmente compridas de manhã, Ethan ainda teria mais cinco à tarde. Uma hora depois do meio-dia, Nick fora embora com Lorenzo em seu encalço, de táxi, mas ele ficou. Perguntava-se se a direção da Academia Alphonse Enoi instituíra aula à tarde para o primeiro ano as segundas-feiras propositalmente para torná-las pior do que já eram.

Melchior estaria lá, sabia disso.

Provou-se certo quando ele irrompeu em sua sala de aula, durante um intervalo de aulas, com aquele sorrisinho manso e cheio de intenções.

— Que bom te encontrar aqui, pensei que não ficaria, depois do seu irmão e tudo mais — ele disse, num tom de voz que podia usar para perguntar pelo tempo para um desconhecido num elevador.

— É sério que você se atreve a falar comigo depois do que disse a Lorenzo ontem? — indagou, cheio de raiva. — Ele estava traumatizado pelo que aconteceu na Campina, e você ainda fala aquilo? Lorenzo é uma criança.

— Você acha que eu não sei lidar com crianças? — Os olhos de Melchior brilhavam roxos. — Tenho seis irmãos e uma irmã menores, além de quatro primos, também menores. Oh, Ethan. O que eu disse não eram palavras minhas. Eram palavras de Lance. Eram coisas que ele diria para uma criança com a mesma facilidade que daria bom dia para uma senhora de idade.

Ethan levantou uma sobrancelha.

— Por que o disse, então?

— Para te mostrar que Lance era um monstro. Eu sabia o que havia acontecido na Campina. Sabia que Lorenzo estaria traumatizado por causa daquilo, e provavelmente estava sofrendo de amnésia psicológica. Do mesmo modo que você sofreu depois que você e Oliver Castanelli foram atacados por skinheads.

Os olhos dele se arregalaram e perdeu a fala.

— C-como… como você…?

— Oh, foi simples. Para saber sobre o passado seu e de Nicholas, simplesmente investiguei seus nomes em Castellobranco. A escola onde estudavam, por exemplo. Não encontrei nada de interessante lá, mas encontrei nos registros do necrotério da cidade. Depois de ler numa edição antiga de um jornal que o filho de um dos diretores da Lemnsack Hentz World Donations foi assassinado por nazistas, e juntamente com ele um garoto de catorze anos foi espancado, moreno e de olhos pretos, foi fácil te ligar a Oliver. Você não morreu, mas foi quase. Três semanas em coma, tsc, poucos sobrevivem. Lamento dizer que seus pais já havia contatado o necrotério para cuidar de toda a burocracia necessária para morrer com você ainda vivo, mas, veja bem, eles devem ter se sentido super felizes em te ver acordar, não é?

Meus pais sabiam. Será que sabiam que a culpa foi de Nick? Será que… Melchior sabe que a culpa foi de Nick?

— E mais felizes ainda em ver que eu não me lembrava de nada — completou.

— Certamente. Mas, continuando, eu sabia que Lorenzo poderia estar sofrendo de amnésia psicológica depois do que houve, de modo que, se ele tivesse encontrado Lance durante a festa e ouvido algo que pudesse levar ao assassino, ele teria se esquecido. Conhecendo o modo como meu tio falava, eu literalmente o forcei a se lembrar. Não deu certo, porém. Bem, eu sou mortal, não sou? — Ele deu um risinho. — Lamento se piorei as coisas para ele, mas eu realmente quero saber quem matou meu tio. Quero agradecê-lo.

Ethan fez um grunhido de asco.

— Ora, não faça esse barulho para mim — Melchior fingiu reclamar. — Quando Lance estiver bem enterrado sob sete palmos de terra, dançarei no túmulo dele. Não sou de danças, mas creio que, nesse caso, posso abrir uma exceção.

— Por que você o odiava tanto?

Melchior sorriu amavelmente.

— Vou te contar. Vou te contar isso e muito mais, Ethan. — Aproximou-se dele. — Quando sairmos daqui, siga comigo para a minha casa. Quero conversar com você.

— Conversar sobre o quê?

— Sobre Lance, sobre Lorenzo, sobre Gabriel, sobre… — Ele fez uma pausa.

— Sobre… o quê?

A voz de Melchior não era mais que um sussurro.

— Sobre você. E sobre mim. Vou te falar de onde nós viemos, Ethan Lemnsack.

E quando ele foi embora, assim o tempo passou, com a velocidade de um caracol.

A vela sobre a mesa não passava de um toco de cera com um pavio não muito maior que uma unha. Mesmo assim, o fogo ardia, uma chama laranja e amarela tremeluzindo à medida que Melchior andava para lá e para cá por aquele depósito adaptado. Uma estante abarrotada de livros antigos ocupava uma parede inteira daquele quarto banhado em luz laranja.

Estava quente e, mesmo assim, ele usava um sobretudo.

— Aqui está — Melchior sussurrou, abrindo um velho livro empoeirado. Tirou um papel de dentro, muito novo, por sinal.

Ethan estava sentado numa cadeira por trás de uma escrivaninha, onde, do outro lado, Melchior desdobrava o papel. Era comum, e seus escritos estavam desenhados a lápis numa letra minúscula e apertada dentro de quadrados, todos ligados uns aos outros, num emaranhado de traços.

E então percebeu. Era uma árvore genealógica.

— Aqui está, quase cento e cinquenta anos de casamentos, traições, maquinações, incesto e etecétera — Melchior disse. Pôs uma mecha de cabelo cinza atrás da orelha. Seus olhos estavam quase brancos, sob a luz da vela. — E alguns poucos anos de trabalho e investigação minhas. Vamos começar. Preste atenção porque é terrivelmente complicado. — Ele apontou para uma das caixinhas mais altas, no topo do papel.

“Tudo começou com John Francis Hentz, seu trisavô. Todos sabem que ele teve John Daniel, que teve Samuel, que teve sua mãe, que teve você e Nicholas. Mas o que ninguém menciona são os nomes das esposas deles. John Francis Hentz era casado com uma mulher chamada Ondromeda.”

— Eu sei disso — Ethan falou.

— Ondromeda Olrwen. — Daquilo ele não sabia. Foi difícil se segurar na cadeira. — Também conhecida como Dama Prateada, matriarca de uma família muito antiga chamada Olrwen, conhecidos por terem sido os principais rivais dos Hentz em termos de negócios, no século XX. O que você não deve saber é que Ondromeda era viúva de um homem chamado Orcus Ozaczaki e, com ele, tinha um filho chamado Olannis. Olannis preferiu adotar o sobrenome da mãe, ao invés do do pai. Ninguém pode culpá-lo, não é? Haha. Ozaczaki é terrivelmente difícil de pronunciar.

— Olannis Olrwen… já ouvi esse nome em algum lugar.

— Olannis foi o fundador de uma indústria de mineração chamada Coruja Branca que por um fio de cabelo não se equiparou à Kruger-Vorheel. Acontece que John Daniel Hentz fez o favor de expandir a empresa dele o máximo possível, uma jogatina ousada para a época, mas que deu incrivelmente certo e fez a Coruja Branca diminuir de tamanho.

“John Daniel Hentz, filho de John Francis e Ondromeda, se casou com uma mulher chamada Letricia Ovanosi, filha de Renno Ovanosi e Lara Mirch. Letricia tinha uma irmã chamada Olda, que veio por se casar com Olannis, enteado do sogro da irmã. O que menos ainda sabem é que Olannis tinha duas amantes: uma atriz espanhola chamada Barbra Velazquez e outra chamada Doreah.”

— Doreah… Lemnsack? — Ethan não podia acreditar.

— Com Doreah, Olannis teve três filhos ilegítimos que nunca chegaram a conhecer o pai: Astrid Lemnsack, Orchild Lemnsack e Judith Lemnsack. Judith chegou a se casar com um homem chamado Cleos Donadio, mas não tiveram filhos. Astrid realmente não teve filhos. Orchild casou-se com Doris Martell e teve um único filho, a quem nomeou de Charles Henry Lemnsack.

“Voltando um pouco. Com a esposa Olda, Olannis teve sete filhos. Obadiah Olrwen, Orchibald Olrwen, Onelly Olrwen, Otannis Olrwen, Othell Olrwen, Osmine Olrwen e…”

— … Olenna Olrwen — Ethan completou.

— Olenna casou-se com Onelly e teve Ottis Olrwen.

Ethan arregalou os olhos.

— Ela casou-se com o próprio irmão?

— O incesto era comum na família Olrwen — Melchior falou. — Mas não fê-los bem. Olenna, Onelly, Othell e Osmine eram os únicos férteis. Todos os outros morreram sem deixar filhos. Olenna é a única viva, e teve seu filho com quase quarenta anos. Bem, aqui. Othell e Osmine tiveram uma filha chamada Onnie Olrwen, que casou-se com Ottis Olrwen, seu primo. Juntos, tiveram…

— … Rhanys Olrwen.

— A coruja. Todos sabem que Onnie morreu no parto, em condições bem suspeitas. Vamos subir um pouco a árvore. — Ele apontou para uma caixinha mais em cima. — Barbra Velazquez, segunda amante de Olannis, era casada com Orch Ovah. Nome ridículo, é verdade, e o cara era mais idiota ainda. Barbra engravidou de Olannis e teve uma filha, que criou como se fosse filha de Orch. A filha se chamou Odette Ovah. Odette casou-se com Oz Ovense e tiveram outra filha, Olívia Ovense, que se casou com Ottis, quando sua esposa morreu.

— Santo Deus.

— Pois é. Olívia é filha da filha bastarda do avô do marido. É infértil, infelizmente. Tudo na família Olrwen é um grande incesto. — O modo como ele falou aquela palavra fez Ethan se sentir desconfortável. — Veja as linhas que ligam as caixinhas. Linhas duplas significam relacionamento incestuoso.

Os Olrwen estavam cheios de linhas duplas.

— Após a morte de Olannis, seus filhos tentaram, um por um, reerguer a empresa, tendo falhado miseravelmente. Quando Osmine Olrwen morreu e apenas Olenna sobrou, ela fechou a empresa e tomou os últimos centavos restantes de sua venda para si. Como seus outros irmãos quase não tiveram herdeiros, suas consideráveis fortunas passaram a ela. Os Olrwen poderiam morar numa casa como a sua, mas a velha controla a fortuna com mãos de ferro. Onnie Olrwen também tinha algum dinheiro, mas após sua morte, esse passou a Ottis, que espera ansiosamente sua querida mãe morrer para conseguir pôr as mãos nos vinte milhões de dólares dela. Ao todo, eu calculo os dois montantes em cerca de vinte e cinto milhões de dólares, não muito mais que isso, nem muito menos.

“Vamos voltar aos Hentz. John Daniel Hentz teve, com Letricia Ovanosi, um filho chamado Samuel Hentz. Samuel casou-se com Joselia Jasperin e teve Mary Alice Hentz, a primeiraleoa dourada em várias gerações. Casou-se com Charles Henry Lemnsack, um advogado proeminente e parente bem distante. E ambos tiveram Ethan e Nicholas Lemnsack Hentz. Engraçado, não é? Bem, Charles tinha uma amante chamada Antonella Barcarolli, com quem teve Lorenzo Barcarolli. Mas Antonella era bem promíscua, eu diria.”

— Eu também.

Melchior riu.

— Ela também foi amante de Enzo Granelli, que era filho de Antonio Granelli e Marta Moretti… dois grandes nomes do mundo mafioso. Enzo era casado com Estrella Mirtchi e tinha uma irmã chamada Estella. Estrella e Estella. Haha.

Ethan notou que a caixinha que continha o nome de Luca Granelli estava ligada apenas a Enzo, e não a Estrella.

— Por que você não ligou o nome de Luca à mãe dele?

— Estrella não era mãe dele.

Ethan estava incrédulo.

— Estrella era estéril — Melchior disse. — Teve câncer de útero quando ainda era nova, o que a forçou a retirá-lo. Ela não podia ter sido mãe de Luca, embora o tenha criado como se fosse. Meu palpite é que Antonella era mãe dele.

Ele quase engasgou com a própria saliva.

— É só um palpite — Melchior disse. — Ele é bem parecido com Lorenzo, o suficiente para ser meio-irmão dele, eu diria. Talvez Antonella tenha engravidado e Estrella tenha ficado com o filho dela para criar como seu, já que ela não podia ter filhos. Pode ter sido tudo um grande acordo. Enzo Granelli saberia.

“O poderosíssimo e tachado como louco Samuel Hentz teve um caso com uma mulher chamada Cistie. Cistie Chioren. Minha doce avó paterna, haha. Ela me disse isso pouco antes de morrer. Tinha câncer, tadinha, não estava bem do juízo, deixou escapar. Ainda lembro-me de seus olhos púrpuras e de sua voz rasgada se vangloriando da noite que passara com um dos bilionários mais famosos do mundo. Era secretária dele. Eu tinha doze anos, foi o que me motivou a procurar a verdade sobre todas essas falcatruas a fundo. Bem, Cistie era casada com um homem chamado John Weswalk.”

— Chioren, Weswalk…?

— Sim. O que minha avó não lembrou é que ela tem dois filhos, ou seja, foi mais do que uma transa de uma noite. Eu disse que ela estava delirando.

— Está dizendo que… seu pai e Lance…

— São filhos de Samuel Hentz, criados como filhos de John Weswalk. Era esperta, minha avó. John nunca descobriu nada. Mas ela teve uma sorte dos diabos que seus dois filhos tenham puxado a ela em tudo. Se algum dia tivesse deixado deslizar sobre suas coxas um bebê dourado de olhos pretos, provavelmente não teria vivido pra me contar a história.

— Então… então eles…

— São seus tios. — Melchior sorriu. — E eu sou seu primo, Ethan. Não é adorável? Acho incrível que os genes dos Hentz sejam tão fracos assim. Absolutamente nenhum ramo que se derivou da família Hentz original tem as mesmas características físicas que os leões dourados. Você é o primeiro leão que não é dourado. Mas espere, ainda tem mais.

“Cistie teve Leoh e Lance Chioren, que teve Hugh e Howl Chioren, é verdade, mas John também deu algumas puladas de cerca. Ele tinha um caso com duas mulheres. Uma chamava-se Osttie Oswell. Com ela, teve Any Oswell, que casou-se com Leoh Chioren e teve oito filhos… Julie, Samwell, Daemon, Marco, Robbet, Tarly, Teo e Melon, aquele que vos fala. Adorável, realmente adorável. Porém, Any tem duas irmãs, também de John e Osttie. Uma se chama Mel Oswell, que casou-se com Grinald Thanathos e teve Robb e Grey Thanathos, e a outra… é chamada Brienne Weswalk.”

— Brienne e Any são irmãs…? Mas isso faz você…

— Primo de London. É. Brienne é minha tia.

— Elas não sabem disso?

— Any e Mel sabem que são irmãs, mas não sabem que são irmãs de Brienne. O que aconteceu foi que Osttie colocou Brienne num orfanato pouco antes de ela nascer. Ela era a mais velha, minha mãe e minha tia vieram depois e nunca ficaram sabendo de nada. Osttie e John morreram sem revelar seu segredo. Não me admira que ninguém nunca tenha descoberto, embora tanto Mel, quanto Brienne, quanto minha mãe tenham cabelo preto e olhos castanhos. Mas essa é uma característica bem comum. Os Chioren têm, geralmente, cabelo castanho acinzentado e olhos azuis ou púrpuras, por causa de Cistie. Todos os meus irmãos são assim.

Ethan não tinha o que falar.

— Enfim, Brienne casou-se com Jamie Dohaeris e teve London, Ron e Jimmi Weswalk. Eles foram registrados com o sobrenome da mãe. A outra amante de John Weswalk chamava-se Beth Miller, que era casada com Angus Revonne. É a mesma história, teve dois filhos com John e os criou como filhos de Angus. Dois filhos, batizados como Arnold Revonne e Ike Revonne. Arnold morreu jovem, mas Ike viveu para se casar com Farris Oschini, filha de Daniel Oschini e Kassa Stengi… Farris tem uma irmã chamada Margareth, que era casada com Orson Sonopolis, morto de câncer há algum tempo. Margareth está morando com a irmã desde então. Oh, e veja que interessante. Farris e Ike tiveram dois filhos, Ritchard Revonne e Terrence Revonne. Fim. — Melchior se espreguiçou na cadeira. — Resumindo, Owl é seu parente distante, mais especificamente… Filho do filho dos filhos do enteado do seu trisavô, que também era meio-irmão do seu bisavô. E você e eu somos primos, Ritchi e London são primos entre si e London é meu primo também, mas não seu. Legal, não?

Ethan estava entorpecido.

— Por que está me mostrando isso?

— Pra te mostrar que eu posso ser uma pessoa muito agradável quando quero, Ethan. — Melchior se aproximou. A luz da vela lambia seu rosto de anjo, tão bonito e delicado. Seus olhos estavam brancos, mas ardiam fantasmagoricamente. — Que você é da minha família, quer queira ou não. Eu só te quero bem.

— E me prova isso pegando meu namorado de mim.

Ex-namorado. Eu o peguei de você para devolvê-lo.

Franziu as sobrancelhas, confuso.

— Gabriel Melnick vai acabar voltando para você uma hora ou outra, ele ainda te ama, se não sabe. — Melchior subiu na escrivaninha e sentou-se em cima. — Se… você for bom pra mim, Ethan, eu posso acelerar esse processo. Comigo sussurrando no ouvido de Gabriel, ele logo, logo decidirá voltar contigo. Eu posso te fazer muito bem, de um modo que você nem imagina. Sou um mestre dos segredos, sei de muitas coisas, coisas que nem sempre… — Sutilmente, Melchior pegou o lápis afiado como uma lâmina e marcou dois tracinhos entre as caixinhas com os nomes Ethan Lemnsack e Nicholas Hentz — fazem bem. Seja bom para mim.

Linhas duplas significam relacionamento incestuoso, ele disse.

— O que você quer de mim?

— Que você seja bom para mim. — Era a terceira vez que ele dizia aquilo. — Você devia agradecer que Lance tenha morrido. Ele era um parasita miserável, e se descobrisse que era filho do lendário bilionário Samuel Hentz, meio-irmão da magnata filantropa Mary Alice Hentz e tio do adolescente mais rico do mundo, pode ter certeza que reclamaria na Justiça por alguns milhões seus. E provavelmente conseguiria. Mas não se preocupe. Ninguém vai saber dos nossos laços de parentesco. Ninguém conhece essa árvore genealógica, nem meus irmãos, nem London, nem Ritchi, muito menos Owl. Muita gente acabaria tendo crise existencial se soubesse da existência dela, de modo que prefiro guardar segredo.

— Então por que a fez?

Gosto de saber das coisas.

— E por que a mostrou a mim?

— Porque você também gosta.

— Gostaria de saber quem é o assassino — resmungou. — Isso você não sabe. — Não era uma pergunta.

— Oh, infelizmente não sei — ele sussurrou, confirmando. — Mas a história já se espalhou por Jardim de Ouro. Estão chamando-o de Coruja, porque só ataca a noite.

Ethan torceu o nariz, lembrando-se dos cabelos prateados e dos olhos azuis de Rhanys Olrwen. Aquela fora uma brincadeira cruel, nomear um serial killer com o apelido de Owl.

— A Coruja atacou meu irmão. — Sentia uma fúria crescendo dentro de si. — Atacou Lorenzo e tentou matá-lo. Traumatizou-o. Quero saber quem ele é.

— Oh, você vai — ele prometeu. Com a luz alaranjada surgindo por trás de si, Melchior parecia um anjo demoníaco. — Eu estou investigando paralelamente. Pensei que realmente podia ser Owl, mas a Senhora da Língua de Aço me disse que ele foi para casa depois da festa, e estava impecável. Se tivesse matado Lance a facadas, estaria sujo de sangue, e ele não estava. Eu estava com London dentro da mansão pouco antes de encontrar o corpo dele no Garganta Dourada, sendo que London saiu pouco antes de mim. Ele teria tido tempo de fazer isso, mas a pergunta é: onde ele conseguiria a faca?

— Eu acho que a pergunta é: onde é que está a faca?

— Certamente. Depois de realizarem a autópsia, a polícia provavelmente vai procurar na coleção de Owl uma faca que se enquadre nos ferimentos. Vão fazer isso porque eu sei que você vai contar a eles da coleção de Owl. De duas, uma: ou não vão achar nada, ou vão achar tudo. A maioria das facas dele é igual, tratando-se das lâminas. Se uma tiver sido usada para o assassinato, eles não conseguiriam identificá-la em meio a tantas outras.

— É possível encontrar rastros de sangue em lâminas, mesmo depois de lavadas.

— Oh, sim. Mas eles só podem fazer isso com um mandato judicial, e creio que vão procurar um pouco mais antes de enfrentarem a burocracia do nosso país e os enormes e magoados olhos azuis de Owl. Ninguém gosta de vê-lo triste, eu te digo, e nada o deixa mais triste do que ver pessoas estranhas mexendo nas facas dele. Ele tem um apreço doentio por aquela coleção. Bem, isso é o de menos. Eles vão vir falar com a minha família primeiro. Vai ser tão triste para Hugh e Howl. — Melchior abanou as mãos dramaticamente. — Eles estão inconsoláveis. A mãe deles está pouco se lixando para os filhos que pariu. Mas enfim. Eu vou ser obrigado a apontar o dedo para London, porque Deus e o mundo sabem que eu odiava Lance e não posso me deixar ser acusado. Marco estava comigo quando eu o encontrei, mas o depoimento de um garoto de nove anos de pouco ou nada vale.

— Havia muita gente naquela festa. Qualquer um deles pode ter sido.

— Mas poucos tinham motivo. A questão, Ethan, é que ninguém sabe onde London estava no meio tempo em que ele saiu da mansão, logo depois de Lance fazê-lo, ainda vivo, e quando eu o encontrei morto. Ele pode ter feito isso, eu sei que você acredita nisso.

— Mas você não.

— London não faria mal a uma mosca. E se tivesse sido ele, ainda teria havido a questão da arma do crime. Mas o pentagrama… Deus, o pentagrama. London é obcecado por pentagramas, e havia um desenhado nas costas de Lance. Oh, deixe-me te dar uma dica, Ethan. Procure ver se todas as facas de grande porte da mansão estão lá. Se estiverem todas em seu lugar, bem, deixe que a polícia analise-as uma por uma à procura de sangue sem precisarem do mandato. Isso vai deixá-los com uma boa impressão de você e te deixarão em paz.

— E se nem todas estiverem lá?

— Então eles vão achar que alguém daquela casa que fez isso.

— Você por acaso esqueceu que eu não estava em casa naquele dia?

— Você, não. Nicholas, sim.

Ethan deu uma risada de escárnio. Abanou a mão, como se descartando aquela hipótese.

— Eu conheço meu irmão, convivi com ele por catorze anos. Nick não mataria alguém. Se matasse, eu descobriria. Eu perceberia.

— Do mesmo modo que ele percebeu que você mandou matar cruelmente cada um dos assassinos de Oliver?

Ele mordeu o lábio inferior. Melchior sorriu.

— Eu chutei. Não sabia se você havia feito isso, mas achei possível. Essa sua mordida de lábio te entregou. Devia aprender a limpar o rosto quando fala, assim ninguém saberá que mente.

De repente, Ethan lembrou-se de algo.

— Você não me contou porque odiava tanto Lance.

— E preciso? — Deu outro risinho. — Oh, está bem. Eu tinha oito anos, morava na cidade de Passodepedra, bem perto de Castellobranco. Só me mudei para Middleland com doze anos, mas enfim. Brienne não é a primeira mulher casada com que Lance se envolve. Uma vez, eu o peguei na cama com minha tia Mel. Eu disse a ele que ia contar ao meu tio Grinald, o que, de fato, eu não fiz. Na verdade, eu fiz isso pra família inteira, exceto pra ele. Bem, a questão é que Lance me espancou quando ninguém estava vendo e me fez contar que havia sido uma briga na escola. Depois, me obrigou a desmentir tudo o que eu havia falado na frente da minha família. Eu o fiz, às lágrimas.

Ethan ficou quieto, ouvindo.

— Eu era uma criança inteligente. — Os olhos dele estavam violetas e cheios de fúria. — Mas não fui inteligente em perceber que ganharia mais chantageando Lance do que contando a verdade. Eu contei, e paguei o preço por isso. Foi naquele dia que eu percebi o que era um segredo, um sussurro, e o poder que eles tinham sobre as pessoas. Pessoas morrem por causa de segredos, Ethan. Algo sussurrado nos ouvidos certos ou errado pode dividir um império, assim como criar outro inteiramente novo. Eu só tinha oito anos, mas diziam que eu era superdotado. Eu acreditei. Foi assim que Melchior nasceu. Foi assim que nasceu meu império.

— Emocionante — Ethan sussurrou de volta.

Melchior sorriu.

— Eu sempre me gabei de entender as pessoas melhor que os outros, mas eu não consigo entender você. Acho que é porque você tem um pouco de todas as pessoas que eu conheço. Ama seu irmão com uma ferocidade surpreendente, embora briguem o tempo todo, assim como London faz com Ron e Jimmi. Prefere seguir os próprios instintos à sensatez, assim como Ritchi. Quando algo não está certo, simplesmente finge que está, assim como Owl.

Ele piscou.

— O que quer dizer com isso?

— O que eu quero dizer com isso? — Melchior fingiu surpresa. Nada parecia realmente surpreendê-lo. — Não vê o que está acontecendo? Lorenzo está num país estranho, perdeu a mãe e todos que conhecia, esteve tão perto da morte tantas vezes que é um abuso querer que ele não se importe com isso. Talvez esteja finalmente entendendo o conceito de morte, entendendo que Nicholas foi baleado por causa dele, entendendo que quase matou Enzo Granelli, além de estar desacreditado e julgado como louco pelo próprio irmão. Você não disse isso, mas pensou, e eu estou certo quando digo que ele é mais do que aparenta. Lorenzo sabe que você não acredita nele, a mentira sempre esteve impregnada na sua voz. Vozes estão para ele assim como expressões faciais estão para nós, para os que veem. Lorenzo não vê a mentira, ele a ouve. É um garoto especial, pode ter certeza, mesmo sendo cego. Ethan, você está mais cego que ele.

Ethan se levantou.

— Calado.

— Você não percebe?

Calado!

— Ele está com depressão.

A cadeira em que o maior se sentava foi chutada para o lado. A súbita mudança de ares apagou a vela, mas Melchior reacendeu-a poucos segundos depois, calmamente. Ethan estava do outro lado da sala, de costas para ele, rangendo os dentes.

— Eu sei que você tem preconceito com pessoas que tomam remédios — sussurrou. — E não estou chutando. Sei que começou com Oliver. Tudo parece ter começado com ele. Já te sussurrei demais por hoje, Ethan. Sussurra pra mim, por quê?

Levou algum tempo para falar, sua língua parecia ter dobrado de tamanho. Era difícil se lembrar de Oliver sem que lágrimas viessem aos seus olhos, por isso, ficou de costas.

— Oliver tinha depressão severa causada por um abuso que sofreu na infância — disse. — Ele tomava remédios para isso, mas os remédios acabaram fazendo-o desenvolver esquizofrenia e uma série de outras síndromes que o consumiram mental e fisicamente. Se não me engano, ele tomava cerca de trinta comprimidos por dia para as mais diversas doenças… Se ele estivesse… — Sua voz falhou. — Se ele estivesse vivo hoje, provavelmente já teria perdido todos os resquícios de sanidade mental que ainda tinha… — Então, lá estava ela, descendo cruelmente por seu rosto, impiedosa como uma madre de convento, molhada e quente.

Sentiu o braço de Melchior passar por seu ombro. Ele era dois anos mais novo, mas era da sua altura. Seu rosto branco e suave erguia-se comprido e bonito, com olhos púrpuras e ao mesmo tempo índigos. Tudo nele era desenhado com tanta maestria e simetria, tanta delicadeza… parecia um anjo…

… e quando percebeu, seus lábios estavam nos dele.

Melchior abriu a boca, deixando sua língua entrar na cavidade quente e molhada. Ethan segurou-o pela cintura enquanto ele envolvia os braços em seu pescoço e aprofundava o beijo.

Separou-se dele.

— Não, não posso fazer isso — disse, mas tudo o que podia imaginar era em como ele era por baixo daquele sobretudo. — Você está com Gabriel.

— Gabriel é seu — Melchior sussurrou, os olhos ardendo de excitação — e eu também.

Ele o beijou de novo. Ethan arrancou seu sobretudo a força, então rasgou a camisa de cima a baixo. Desde o campeonato de futebol de Nick, tinha um estranho gosto por fazer aquilo. Melchior tirou a calça que lhe restava e deitou-se na escrivaninha, fazendo Ethan deitar-se sobre ele. Entre beijos e suspiros, as roupas do maior foram atiradas no chão.

A doçura e suavidade da voz de Melchior acelerou seu coração, que passou a palpitar forte como um martelo. Ethan estava hipnotizado por aqueles olhos violetas, por aquela pele branca e macia, sem uma falha sequer, por aqueles lábios rosados e entreabertos que o chamavam, o convidavam e provar dos pecados da carne.

Eles inverteram as posições. Melchior ficou por cima de Ethan, beijando seus lábios e pescoço, descendo ao peito, mordiscando os mamilos. Abocanhou o membro duro por cima da cueca, gemendo lenta e pausadamente. Ethan foi quase ao delírio quando o sentiu engolindo-o de uma vez, metendo-o na boca enquanto massageava os testículos. Sua boca era tão quente e úmida, e ele chupava com tanta calma…

Quando sentiu que ia ejacular, gentilmente separou-o de si.

Não com a mesma gentileza, Ethan fez Melchior deitar-se sobre a escrivaninha, com as pernas para fora, apoiando seu corpo. Beijou e mordeu sua nuca, aspirando o cheiro daqueles cabelos cinzentos e macios. Fez uma linha de saliva de seu pescoço até a base de suas costas, quando se ajoelhou. Com delicadeza, Ethan separou suas nádegas e afundou o rosto ali, começando a lubrificar sua entrada. Melchior gemeu.

— Isso, Ethan… aí. Isso, bem aí. Oh, Ethan. — O maior começou a se masturbar, gemendo enquanto resvalava a língua pelo ânus do mais novo. — Me coma, Ethan, venha pra mim.

Melchior se virou quando ele se levantou. Estava com as costas coladas à mesa, apoiando as pernas lisas nos ombros de Ethan. Seu membro estava duro de tesão, e os olhos estavam acesos. O maior apontou a glande de seu pau para a abertura piscante de Melchior e a pressionou lá. Quando ela entrou, o menor puxou-o pela cintura para si, fazendo-o enterrar-se de uma vez.

Lentamente, Ethan recuou. E então investiu, com toda a força que tinha. Não demorou muito para que começasse a estocá-lo com violência.

Tudo o que estava em cima da escrivaninha caiu. Alguns livros, os papeis da árvore genealógica, até a vela que iluminava o lugar. Quando a escuridão caiu sobre os dois, Melchior puxou Ethan para beijá-lo calorosamente, ao mesmo tempo em que ambos ejaculavam.

Os dois separaram-se, ofegantes e excitados. A vela foi reacendida pela segunda vez naquele dia e deixada para repousar no pé da escrivaninha, onde os dois sentaram-se, lado a lado.

— Não aprendi a ser um mestre dos segredos sozinho — o menor sussurrou, sem olhar para Ethan, como se não estivesse falando com ele. — Acredita em destino? — Fitou-o.

Ethan ainda achava difícil fixar o olhar naquelas ametistas.

— Talvez.

— Eu acredito — Melchior falou. — É como se tudo o que aconteceu ao meu passado estivesse voltando agora para me assombrar. Eu acho que havia um motivo para eu me mudar para Middleland, para Jardim de Ouro, e reencontrar parentes perdidos ignorantes de seus laços familiares. Eu acho que há um motivo para aquele avião ter raspado no teto do seu antigo prédio, forçando a você e a seus irmãos a se mudarem para cá.

Ethan pigarreou.

— E que motivo seria esse?

A voz de Melchior voltou a ser um sussurro.

— Te ajudar.

Começou a ficar cada vez mais perturbado.

— A quê?

— A superar o que aconteceu no seu passado.

Ethan se levantou.

— Já te falei demais de Oliver. Eu não… não quero superá-lo.

— Sei disso. — Ele continuou sentado. — Você crê que ele foi uma parte importante da sua vida, que moldou o que você é hoje, que te completa de um modo que ninguém entenderia, que, apesar de ter feito você sofrer pra caramba, não te faz querer apagá-lo da sua mente… Você fica com o peito queimando ao falar dele, porque você não gosta de dividi-lo com ninguém, porque ele é seu, pertence a você.

Ethan olhou pra ele, abismado.

— Como sabe disso?

— Oh, Ethan. — Melchior esfregou os olhos, como se ardessem. — Você é um atormentado pelo passado, assim como eu. Eu conheci Oliver.

Três palavras. Três palavras e tudo o que Ethan pensava saber pareceu desmoronar bem em frente de seus olhos, zombando cruelmente dele. Aquelas malditas lágrimas teimavam em voltar.

— Conheci — Melchior repetiu. — Em Passodepedra. Nunca procurou saber de onde vinha seu namorado, Ethan? O passado das pessoas pode revelar muito sobre elas. Tanto que você nem faz ideia.

— Só conheci Oliver por alguns meses — ele disse.

Melchior fez um gesto de desdém.

— Eu te conheço há um mês e sei mais sobre você do que você sabe sobre si mesmo. — Ele finalmente se levantou. — Eu só tinha oito anos quando aquela criatura com cabelos platinados e olhos azuis mudou-se para a casa ao lado da minha. Eu só tinha oito anos quando meu tio me espancou e aquela criatura de cabelos platinados e olhos azuis me acalentou. Eu tinha só oito anos quando percebi que aquela criatura de cabelos platinados e olhos azuis construíra uma muralha tão intensa em volta de si mesmo que tornou-se impossível para ele expressar sentimentos. Diziam que eu era uma criança inteligente, eles estavam certos. Mas, às vezes, pergunto-me se aquela consciência precoce que eu tinha sobre o mundo era mais um fardo do que uma bênção. Estavam lá, todos os sinais. Todos os sinais de abuso que uma criança deve demonstrar, ele demonstrou. Os adultos em volta de nós estavam cegos em relação a isso, mas não eu. Eu vi. Vi tudo. Vi o que aquela criatura de cabelos platinados e olhos azuis estava passando. E quanto mais o tempo passava, mais seu corpo ficava marcado, e mais ele se afundava dentro da própria mente, entrando voluntariamente num calabouço sem saída.

“Quando percebi que ele não aguentava mais, eu o fiz contar pra mim. O fiz contar tudo, quem era, o que ele fazia. Ele contou. Oh, eu lembro daquele dia. A criança abusada era Oliver, mas quanto mais ele falava, mais eu sentia que era eu quem estava sendo destruído por dentro. Fui eu quem denunciou o abusador. Fui eu quem… tirou-o do calabouço em que ele se enfiou para jogá-lo em outro. Foi quando ele ficou viciado em antidepressivos, que culminaram em todas as outras desordens mentais que ele desenvolveu…

“No dia em que Oliver foi embora de Passodepedra, pouco depois de eu ter denunciado o tio-avô dele, ele me disse algo que eu nunca vou esquecer, algo que realmente me ensinou o poder de um segredo.”

Melchior respirou fundo e engoliu em seco.

— “Manipula-os, tornas-te amigo deles, trai-lhes se necessário, mente, engana, chantageia, ameaça. É isso que tu és, é disso que tu és feito. O amor é teu inimigo. Torna-te fraco e covarde, faz-te ansiar por experiências egoístas e mesquinhas. Quebra teu império. Amas alguém e ele tornar-se-á teu maior amigo, teu maior confidente, teu braço direito… e, eventualmente, teu inimigo mais perigoso.” — Apertou os lábios, uns contra os outros. — Tinha só dez anos, aquela criatura de cabelos platinados e olhos azuis, tão inteligente quanto eu, tão destruída quanto eu. Olhar para Owl me perturbava no início, quando eu me mudei para cá. Eles são tão parecidos… Ethan. — Melchior pegou nas duas mãos dele e apertou-as contra si. — Oliver Castanelli foi… uma bênção e… um fardo que dominou nossas vidas durante anos. Eu nunca vou esquecê-lo, e sei que você também não vai. Eu o amava, e sei que você também o amava. De todo o coração. — Seus olhos ficaram úmidos. Por algum motivo, Ethan imaginava que suas lágrimas fossem roxas. — Você está aqui por um motivo, e eu também… todos estamos. Todos estamos presos nessa teia de fios invisíveis chamada vida, que nos liga sem sabermos, que nos dá um motivo para viver que não conhecemos. Eu conheço o meu. Eu estou aqui por você, Ethan. Estou aqui por você.

E quando Melchior terminou de falar, uma lágrima escorreu por sua bochecha e morreu no queixo, quente e transparente como a esperança. Como a esperança.

Notas finais
Bem, essa árvore genealógica deu um trabalho dos diabos para se fazer, porque eu trabalhei para que ela ficasse o mais verossímil possível, então espero que tenham entendido toda a explicação de Melchior sobre ela, embora tenha sido complicado. Eu até desenhei a árvore num papel. :3
E uma coisa, começarei a postar um novo capítulo apenas quando o anterior tiver dois reviews. Não é por nada, mas o enredo dessa temporada é longo e complexo, eu to me matando para atar os fatos uns nos outros, para que eles tenham uma lógica. Nada nessa temporada acontece por acaso, tudo tem um motivo, e DÁ trabalho sim.
Talvez alguns estejam gostando menos dessa temporada porque ela não dá tanta visibilidade para Ethan e Nick já que tem 1000 personagens novos, mas eu queria explorar outras vidas, outras personalidades além da deles.
E eu nunca fiz um romance policial antes, mas aí está, um serial killer a solta. Eu não escrevo para ganhar reviews, porque se escrevesse, colocaria lemon em todos os capítulos, o que eu não faço. Eu escrevo porque é prazeroso, porque é gostoso criar um enredo, criar personalidades, criar toda uma sociedade dentro de um condomínio de luxo. E, bem, tudo o que eu ganho disso são... reviews. Nada mais.
Contando todo o esforço para montar esse enredo, para revisar o texto afim de não haver erros gramaticais, de escrever sempre para postar toda semana, eu realmente acho que dois reviews não são nada. Por isso que atrasei uma semana a postagem, foi proposital, porque já estou com uns 2,5 capítulos prontos além desse.
E Como Vivem Os Anjos é uma fic grande, enorme, e vai ficar maior ainda, porque, ao meu desejo, ela terá dez temporadas e pode ser finalizada com mais de um milhão de palavras, tornando-se, se Deus quiser, a maior fic do Nyah. Mas não sei se isso será possível, principalmente sem a colaboração dos leitores. De verdade, gente, deixar um review não machuca. Mas a falta dele, sim.