O irmão de Melchior era uma graça. Ethan observava atentamente Marco Chioren concentrado no papel a sua frente, cheio de cálculos ridiculamente fáceis para ele, mas não para um garoto de nove anos. Fora seu irmão mais velho quem pedira gentilmente para que ele o ajudasse em matemática.

— Pensei que você fosse um gênio — dissera a Melchior, com um leve tom zombeteiro. — Pensei que um gênio seria capaz de ensinar frações a alguém do quarto ano.

— Oh, eu sou — Melchior respondera com aquela voz doce e suave como a risada de um bebê. — Mas ando ocupado demais com meu livro e protegendo minha família da Coruja para fazer isso. E desde a queda de Hellen Page, a escola tem ficado mais difícil, não imagino por quê.

Ethan torcera o nariz. Enquanto observava o cabelo cacheado e cinzento de Marco, quase deixou passar o fato de que ele estava somando três e três, ao invés de multiplicando.

— Me desculpe — ele disse, apagando o erro. Olhou-o com adoráveis olhos azuis que hora ou outra, tornavam-se púrpuras. — Embora ainda não saiba por que preciso saber frações. — Fitou o papel. — Que infernos.

— Concordo com você, mas aqui estamos. — O jeito de Marco era tão parecido com o de Nick que o surpreendera, até que Melchior contara-lhe que ele também tinha hiperatividade. E que era tão egoísta e irritante quanto fofo quando queria. Até agora, ele não mentira. — Vamos, refaça.

— A folha inteira está errada, tenho certeza — disse, cansadamente. — Que Deus tenha piedade do pobre Marco. Vamos lá.

Ethan riu levemente. Estavam em seu quarto, na escrivaninha, para falar a verdade. Nick estava no quarto dele, trepando com Mia Cinneto, provavelmente. Eles estavam juntos há mais ou menos um mês, o que era simplesmente um marco histórico na vida sexual de Nicholas Hentz. Verdade seja dita, eram fisicamente diferentes, mas nunca vira um par combinar tão bem.

Aliás, via sim, sempre que ia pra cama com Nick.

Os ciúmes vieram, é claro, mas Ethan o pegou com as mãos, guardou-o no fundo de uma caixinha e escondeu-a bem no fundo de seu âmago, como sabia que seu irmão fazia em relação a ele e Gabriel. Seria simplesmente a maior hipocrisia do mundo não retribuir o favor. E Mia era uma garota legal. Era um ano mais nova que Ethan, e ambos realmente partilhavam vários interesses e semelhanças, como o fato de terem irmãos mais novos insuportavelmente teimosos.

Leon Cinneto era um demônio de cabelo amarelo, odiava Nick e provavelmente a própria irmã também, mas ninguém parecia se importar com isso. Talvez porque eles fossem tão parecidos.

— Terminei — disse Marco.

Ethan pegou a folha e fez uma leitura dinâmica. Não importava o que Melchior dissera, Marco não parecia ser alguém com dificuldade em matemática. Na verdade, cometia sempre os mesmos erros, com a mesma frequência, num padrão sequenciado. Quando começava uma questão, errava alguma besteira, então Ethan corrigia, e ele fazia o resto corretamente. Isso aconteceu em absolutamente todas as questões que fizera. Parecia absurdo demais para ser pura coincidência.

— Você acertou — repetiu, pela quinquagésima vez.

— Legal — ele disse. Levantou-se da cadeira e se espreguiçou. — Podemos descansar?

— Claro.

— Legal — repetiu. — Vou descer até a cozinha. Fica aí.

E saiu pela porta.

Ethan olhou cansadamente para a única estante do quarto, onde seus cadernos e livros empilhavam-se aos montes. Mais ou menos na metade do mês anterior, em abril, um dossiê contendo supostas provas de corrupção por parte da diretora da Academia Alphonse Enoi, Hellen Page, chegou ao Conselho. Eram apenas suposições, mas os poderosos decidiram tirar-lhe o cargo por tempo indeterminado para evitar um escândalo, dando-o ao parente mais próximo do falecido marido de Page, Fayonir Enoi (que, não por acaso, era bisneto de Alphonse Enoi), seu sobrinho, Ernst Overgreen.

Tudo estaria bem se ele não fosse tio de Tommy Overgreen, que todos acreditavam que morrera por culpa de Ethan, e se não tivesse movido montanhas para que Ethan fosse expulso, a época de sua morte. A única coisa que evitara sua expulsão fora Hellen. Não acreditava realmente que ela era corrupta, mas não tinha poder para decidir.

A primeira vez que viu Ernst Overgreen, sentiu náuseas súbitas. O homem devia ter menos de trinta anos, mas parecia ter sessenta. Era quase calvo, exceto por uma coroa de cabelos castanhos que rodeava sua cabeça. Apesar disso, usava um corte de cabelo estupidamente ridículo que consistia em puxar todo o cabelo que conseguisse de um lado e fazê-lo atravessar o couro cabeludo até o outro, mas não sem antes empapá-lo de gel.

Vez ou outra, o cabelo escapava e voltava para o lugar. A maioria das pessoas era obrigada a controlar a vontade de ir lá e ajeitar, era uma fase pela qual todos passavam.

Apesar da calvície, ele tinha poucas rugas, o que tornava ainda mais incrível o fato de que parecesse mais velho. Tinha um nariz largo e olhos pequenos de porco, com cílios enormes e volumosos, além de lábios grossos. A única coisa que o impedia de tornar-se extremamente efeminado era um queixo quadrado com uma covinha no meio. Era impossível determinar se algum dia já fora bonito ou feio, mas era perturbador de se ver. Apesar disso, também era difícil desviar o olhar.

Quando Ethan o viu sorrindo, algo desagradável nasceu dentro dele. Entre tantos dentes brancos, lembrou-lhe um jacaré. Um jacaré sorrindo. E tudo o que pensava era em ir lá e tirar aquele sorriso de seu rosto aos socos. Havia algo naquele homem que o estava deixando louco.

A primeira coisa, a primeiríssima coisa, que Ernst fez ao assumir o trono da Academia foi tirar Ethan da turma Primeira do terceiro ano e colocá-lo na turma Quarta. Todos sabiam que a turma Quarta era onde estavam os alunos mais bagunceiros e menos inteligentes da escola. A segunda coisa que ele fez foi instituir provas todos os sábados para o ensino médio. Todos. A terceira coisa foi impor aulas à tarde todos os dias, também para o ensino médio inteiro, o que provocou indignação por parte dos alunos. As revoltas começaram quando ele cancelou os campeonatos desportivos que todo ano a escola fazia.

Ernst Overgreen era diretor há duas semanas e já era tão odiado quanto Ethan pensou ser possível. Cerca de meia dúzia de alunos foram expulsos por coisas como fumar ou até mesmo se beijar dentro do campus da escola.

Nick entrou no quarto, dourado e reluzente, como sempre.

— Você já passa mil horas por dia dentro da escola, e ainda tem fôlego para ensinar crianças? — ele indagou, sentando-se no lugar de Marco, pondo os pés para cima, com as mãos cruzadas atrás da cabeça.

— Eu aguentei uma criança por treze anos, depois duas por mais um, não faz diferença uma terceira. Como está Lorenzo?

— Hoje, ele olhou pela janela — Nick respondeu, como se fosse grande coisa. Na verdade, era. — Voltou para a cama quando eu entrei no quarto trazendo seu almoço. Acho que ele só não está falando conosco por teimosia. A propósito, tenho grandes notícias para você. Nosso querido irmãozinho aprendeu as artes da masturbação.

Ethan arregalou os olhos.

— Mastur… — interrompeu-se. — Mas… como? Ele tem nove anos. Nove. Pelo amor de Deus.

— Eu aprendi com oito.

— Você é você.

— Eu sei. Eu sou eu. Eu sou o último leão dourado. Ouça o meu rugido. — Ele fez uma tentativa propositalmente desastrada de rugir como um leão, o que só levou risos aos dois. — Quando eu fui pegar o prato do almoço de volta, ele estava de baixo dos lençóis, e deu um pulo tão grande quando eu entrei que quase bateu a cabeça no teto. Acredite, só há uma coisa que faz meninos pré-adolescentes pularem daquela maneira.

— Lorenzo é uma criança. Não um pré-adolescente.

— Criança que se masturba não é mais criança. — Nick riu prolongadamente. — Mas acho que ele está se recuperando. Você sabe que vai ter que falar com ele sobre os fatos da vida, não sabe?

Ethan fez um ruído de desgosto.

— Meu maior nervosismo não é falar com ele sobre isso. É que ele descubra sobre sexo e acabe descobrindo sobre nós.

— Ah, quem sabe. Quando ele for mais velho, podemos chamá-lo para participar. Você sabia que perdemos o aniversário de um ano da morte de nossos pais?

Ethan se levantou da cadeira e olhou pela janela, para o Garganta Dourada que, lá em baixo, fluía em paz.

— Sei. Quem diria, não é? Já faz um ano desde a morte deles. Parece que foi ontem. Tudo passou tão rápido. Você tinha treze e eu tinha dezesseis. Agora você vai fazer quinze e eu vou completar a maioridade.

— E o que você vai me dar de presente de aniversário…? — Não era uma pergunta de verdade, ele estava insinuando algo.

— A mesma coisa que no ano passado, vou dar algo para todos nós. Um carro.

Nick pulou da cadeira, feliz, e foi abraçar o irmão pelas costas. Ethan virou-se e olhou para ele, para seus cabelos louros e seus olhos negros. Crescera, pelo menos, cinco centímetros desde o ano passado. Ethan não crescia um centímetro sequer desde os catorze anos.

— Obrigado — Nick disse. Encostou a cabeça em seu peito, apertando Ethan contra o peito. — Você é um amorzinho.

— Você também seria se não tivesse sido quase expulso por Ernst Overgreen.

Como é que eu iria saber que eles haviam instalado uma câmera no Corredor? — ele indagou, falsamente indignado. — Minha sorte é que eu só beijei a garota, eu queria transar com ela, mas ela amarelou. Se tivéssemos feito mais do que fizemos, teríamos sido expulsos. Overgreen quer te expulsar.

— Eu sei disso. Não vou dar motivos a ele.

— Espero que não dê. Você é a única coisa que me segura na Academia. Ano que vem, quando você terminar a escola, vai ter que abrir a carteira em doações se quiser que eu volte para lá. Eles estão escolhendo os melhores alunos, sabia? Recusam os ruins. E eu sou péssimo.

— Você tem melhorado.

— Não seja estúpido, eu sou péssimo por natureza.

Ethan estava prestes a contestar novamente quando a porta se abriu, revelando Marco com uma bandeja de prata cheia de guloseimas, inclusive algumas que tinha certeza que não havia na cozinha. Quando pegou a bandeja para ajudá-lo, surpreendeu-se ao ver como era pesada. Como ele havia subido os quatro andares da casa com aquilo?

— Posso pegar uma? — Nick indagou, com os olhos famintos.

— Não — Marco disse, dando um tapa em sua mão já perto demais de um bolinho com chantilly.

Nick fitou-o com um misto de surpresa e hostilidade. Ethan prendeu a respiração. Havia um clima tenso no ar, o mesmo clima presente quando seu irmão e Lorenzo encontraram-se pela primeira vez. O encontro acabara terrivelmente mau, e por isso Ethan puxou Nick lenta e gentilmente para a porta.

— Volte para a sua namorada, ainda tenho trabalho a terminar por aqui — sussurrou. Deu-lhe um beijo na testa. Os olhos de Nick ainda estavam raivosos.

— Você é a minha namorada — resmungou, pouco antes de sumir no corredor escuro.

Ethan virou-se de volta para Marco. O garoto era quase da altura de Nick, alto demais para idade. Uma coisa branca e pastosa estava espalhada por volta de sua boca e pela ponta do nariz enquanto mastigava um cupcake, fitando o mais velho atentamente.

Marco estava realmente uma gracinha. Estendeu o bolinho.

— Quer? — indagou, os olhos brilhando. Vistos de longe, pareciam azuis. De perto, havia pequenos detalhes púrpuras cobrindo as íris. Pareciam uma aurora boreal.

— Adoraria — Ethan falou, pegando um da bandeja. Enquanto tomava cuidado para não se sujar com o chantilly, percebeu que Marco não tirava os olhos dele. Havia uma ferocidade incrível neles, ferocidade essa que podia ser facilmente confundida com desejo. Mas não. Marco tinha nove anos.

— O que você e Melchior conversaram naquele dia, na biblioteca da minha casa? — ele indagou num tom propositalmente casual, mas que escondia uma vontade enorme de saber.

Aquela conversa aconteceu há um mês. Por que ele só veio me perguntar agora?

Ainda tinha lembranças daquela vela minúscula como única fonte de luz da sala empoeirada, do laranja banhando as paredes brancas e livros antigos, do rosto angelical de Melchior, de sua voz sussurrante, de seus lábios finos e compridos, de seu corpo branco e nu, da lágrima escorrendo pela bochecha e morrendo em seu queixo.

— Coisas sobre a escola — respondeu, no mesmo tom casual. Sorriu quando o menor revirou os olhos.

— Decidi que odeio gente inteligente. Vocês me fazem me sentir burro. Espera, vou lavar o rosto.

Odeia seu irmão e seu primo. Imagino se todos que tem família grande têm capacidade de odiar os parentes tão facilmente.

A tarde de domingo veio e foi. Quando o céu escuro tomou a noite, Marco se espreguiçou e bocejou.

— Acho que já podemos terminar por hoje — Ethan disse, guardando as coisas de cima da mesa. — Você está exausto. E eu também.

— Sim, sim, claro — ele disse, enfiando folhas e cadernos dentro da mochila de um modo que lembrou Nick. — Obrigado por ter me ajudado. Você é ótimo. — Deu-lhe um beijo na bochecha.

Ou Ethan pensava que ia dar. No último segundo, Marco desviou o caminho e selou seus lábios nos do maior. A surpresa foi tanta que ainda deixou-o lá por um segundo antes de empurrá-lo.

— O que está fazendo? — indagou, espantado, inconscientemente limpando os lábios com as costas da mão.

— Beijando você — respondeu, os olhos brilhando de falsa inocência. Ele é uma versão em miniatura de Melchior, por Deus. — Eu quero você, Ethan. Eu amo você.

— Não, não quer, e não, não ama. — Levantou-se da cadeira e afastou-se gradativamente dele, como se fosse um tigre olhando sua presa. — Você não me ama, só está confuso.

— Tenho certeza de que não fico nem um pouco confuso quando você invade meus pensamentos enquanto eu me toco.

Marco literalmente pulou em cima de Ethan, levando-o ao chão. Era muito mais forte do que parecia, prendendo-se ao corpo maior com as pernas num abraço de ferro. Beijou-o de novo, mas Ethan não conseguiu se separar, ou não quis.

— Viu só? — ele indagou, arfando levemente, as pupilas dilatadas. — Você quer. — Pressionou seu quadril contra o baixo-ventre de Ethan, que gritou e o empurrou bruscamente.

Pare… com… isso! — ele gritou. Alta como um trovão, sua voz ecoou pelo quarto. Marco estava no chão, arfando e claramente irritado. Olhou para o próprio cotovelo.

— Você me machucou — ele sussurrou, os olhos ardendo de fúria. — E me rejeitou. Não devia ter feito isso. Vai se arrepender.

Levantou-se, pegou a mochila, e saiu.

Ethan suspirou e deitou-se pesadamente no chão. A outrora menção de dor de cabeça explodira como uma supernova. Desde a ascensão de Ernst Overgreen, aquilo vinha acontecendo muito frequentemente. Na verdade, bastava lembrar-se do homem para sentir enjoo.

Eu não matei Tommy Overgreen, mas, se era para ele morrer por minha culpa, bem que poderia tê-lo feito mais lentamente.

Até aqueles dias, ainda não conseguira descobrir como Nick conseguira quebrar o braço dele. Tinha pelo menos o dobro do tamanho e peso do leão dourado.

E assim se passou o resto da sua noite de domingo, com uma enxaqueca cruel e pulsante.

No dia seguinte, teve mais dificuldade do que o normal para acordar Nick. Ele não abrira os olhos enquanto o levantava da cama e o conduzia ao banheiro, não se mexera enquanto tirava suas roupas e o enfiava de baixo do chuveiro, tanto que nem percebeu que Ethan tirara a roupa também e entrara com ele.

Ahhh! — ele gritou, ao receber o primeiro jato de água quente, engasgando. — Que é que eu to fazendo aqui? Pensei que ainda estava na cama. Que é que você está fazendo aqui?

— Tomando banho com você, transando com você, agora cale a boca ou Lorenzo vai ouvir.

Era engraçado tomar banho com Nick. De repente, a presença de Ethan ali o transformava num bebê incapaz de levantar os braços para passar sabonete, fazendo o mais velho ter de fazer isso. Seu cabelo louro ficava quase castanho quando molhado, e Ethan suspeitava seriamente que era essa a única razão pela qual natação era o único esporte que ele não praticava.

Depois do banho e do sexo feitos, deixou o mais novo para se vestir e foi ver Lorenzo. Ele sempre se arrumava muito antes dos dois, e ficava deitado na cama, quieto e em posição fetal, esperando o que lhe viesse. Ethan chegou na cama e deu um beijo na bochecha dele, o que o fez abrir os olhos.

— Está na hora de ir? — indagou, com a voz tão macia e pura quanto a de Owl.

— Está. Sabia que há aulas de música na Academia? — Tirou uma mecha de cabelo negro de sua testa. — De tarde, depois que as aulas acabam. Nick vai ficar praticamente a tarde toda lá hoje fazendo esportes, se você quiser, pode ficar nas aulas também.

Ele fungou e não fez mais nenhum som, o que indicava que sua resposta era positiva.

— Então está certo. Levante-se, o táxi está chegando.

A Academia Alphonse Enoi nunca fora exatamente normal, mas, ao final daquela manhã de segunda-feira, Ethan deu-se conta de que estava passando por uma fase especialmente turbulenta.

Havia um mural de avisos anexado à parede interna do térreo da unidade do terceiro ano, que normalmente ou estava vazio, ou com poucos avisos, mas desde a ascensão de Ernst Overgreen, havia sempre um amontoado de regras estúpidas fixado. Ou devia haver. Quando chegou ao prédio àquela manhã, viu a camurça do mural rasgada e arrancada de um lado ao outro. No painel vazio, escrita em tinta roxa como uma uva, uma única frase: O que adere fácil, mas é quase impossível de tirar?

Havia até uma assinatura. Senhor do Mundo M.

A câmera de segurança estava estraçalhada no chão.

Como não havia como descobrir o culpado, Overgreen puniu o terceiro ano inteiro, encurtando em duas semanas as férias do meio do ano. Se aquilo voltasse a acontecer, ele simplesmente as cancelaria.

Mais tarde, Ethan descobrira que a unidade do segundo ano amanhecera aquele dia completamente pichada de tinta roxa por dentro, do térreo ao quarto andar. Dessa vez, as câmeras não foram quebradas. Elas simplesmente escolheram pifar bem na hora do ato.

O mais perturbador foi o que picharam. Nada menos que a resposta do enigma anterior incrustrado no mural de avisos… Tinta permanente.

… e um novo enigma. O que está acontecendo quando um sólido passa a liberar energia em forma de luz e calor?

E, como não podia deixar de ser, a inconfundível assinatura. Senhor do Mundo M.

Possesso de raiva, Ernst Overgreen suspendeu a turma Quarta inteira.

Claro, muito fácil pôr a culpa na turma mais bagunceira, Ethan pensou, enquanto serenamente observava a boca flácida do diretor abrir-se e fechar-se num monte de impropérios cobertos com uma fria camada de obrigatória educação.

No intervalo, depois da irritantemente longa palestra sobre vandalismos e suas punições, observando as faces cansadas dos alunos, Ethan decidiu que todos pareciam estar com medo. Não sabia se era pela sempre presente ameaça de punição ou de um provável novo ataque.

A resposta surgiu durante a quinta aula da manhã. Na unidade do primeiro ano, alguém pôs fogo no telhado.

Começou sutilmente, mas quando a fumaça do fogaréu enegreceu o céu, os bombeiros tiveram de ser chamados. Uma linha grossa de pólvora fora espalhada pelo teto, onde foram achados vários galões vazios de gasolina. O resultado foi um fogo que pipocava tão alto que o alarme de incêndio nem precisou tocar para que o prédio fosse evacuado. Também acharam, escritas em roxo, uma resposta, uma pergunta e uma assinatura.

Ele está pegando fogo. O que acontece quando se explode uma bomba perto de uma janela? Senhor do Mundo M.

Com o fogo apagado e os alunos do nono ano se dando conta de que seriam os próximos a serem vandalizados, estes simplesmente começaram a se recusar a entrar no prédio, tamanha a obviedade da resposta da pergunta do misterioso autor dos massacres.

— Bando de covardes — Nick disse ao final das aulas, suado e hiperativo. Suas pupilas estavam dilatadas. — Se tivessem nos deixado voltar ao prédio, eu simplesmente me sentaria longe das janelas.

Ethan nunca o teria deixado voltar à unidade depois daquilo. Os ataques estavam ficando cada vez piores. No terceiro ano, foi apenas um mural destruído. No segundo, uma pichação. No primeiro, um incêndio.

— Não te apetece mais saber por que o Senhor do Mundo M está fazendo isso? — indagou suavemente. Em frente ao Espaço, Nick olhava com olhos famintos para o Corredor. Quase se apiedou dele.

— E quem liga? Ele está aterrorizando a direção. — Riu longamente. — Eles estão lutando contra um inimigo invisível. Que quase matou os alunos, mas tudo bem.

— É exatamente isso — disse Melchior, que surgiu ali de repente. Estava segurando o cangote da camisa de Marco com uma mão e a mochila dele com a outra. O menor tentava se soltar, mas Melchior não parecia se importar, nem ter dificuldade em segurá-lo.

— O quê? — Nick indagou.

— O Senhor do Mundo M está desafiando Ernst Overgreen — ele sussurrou, o que indicava que estava contando um segredo —, destruindo o tesouro que por tanto tempo ele ambicionou. O Conselho está lentamente fechando suas afiadas e cruéis garras em seu pescoço, pressionando-o para que descubra quem é o responsável por isso. — Riu dramaticamente. — Ele está por um fio. E o Senhor do Mundo M está morrendo de rir, bem debaixo do nariz dele. — Olhou para o próprio relógio. — Exatamente uma hora da tarde. Oh, olhem lá.

Através do campus da escola, apontou para o prédio do nono ano. Num segundo, ele estava lá, branco e intacto. No outro, um barulho ensurdecedor ecoou pelo ar e o prédio pareceu explodir, mas não, foram apenas suas janelas.

Cacos de vidros espalharam-se pelo ar em direção à grama verde. Alunos e professores gritaram enquanto se afastavam dos retalhos.

— Ninguém se machucou — Melchior sussurrou, com olhos roxos e brilhantes. — Que pena. Se houvesse pelo menos um ferimento, aí talvez aquele grande imbecil do Overgreen pudesse levar o Senhor do Mundo M a sério. Nem imagino o que ele fará com o oitavo ano, pobres garotos.

Ethan fixou o olhar nele, estático. É claro, era tão óbvio. Senhor do Mundo M.

No prédio, uma faixa branca foi jogada de uma das janelas mais altas. Passarinhos, pensou Ethan. Há passarinhos por todo lugar. Ao se aproximar, podia ver seus dizeres, escritos sempre com a inconfundível tinta roxa.

Ela se estraçalha. O que acontece quando se molha uma fotografia? Senhor do Mundo M.

Sentiu o suave aperto dele em seu cotovelo.

— Preciso falar com você — disse, pouco antes de soltar a mão de Marco, que desatou a correr para longe dali. Foram a um canto afastado do Espaço, que estava praticamente vazio, já que todos se aproximavam do prédio do nono ano para ver o estrago causado. — Parece que sua noite com Marco não terminou bem ontem, não é?

Ethan forçou-se a não reagir. Tinha certeza absoluta de que Melchior estava blefando.

— Na verdade, terminou bem. Ele estava bem abalado porque não conseguiu fazer os últimos exercícios que lhe dei. — Viu a sobrancelha de Melchior levantar-se, fazendo-o achar que conseguira enganá-lo, mas sua risada mansa provou que estava errado. Ninguém conseguia mentir para o mestre dos segredos.

— Você tem andado treinando, vejo isso. Mas seu erro foi me dar o motivo pelo qual ele estava abalado. Marco é um gênio, assim como eu. — Aposto que herdou a modéstia também. — Disse que estava com dificuldades em matemática porque queria ficar perto de você. Ele está apaixonado por você.

— E você o ajudou — percebeu. Melchior deu de ombros, divertindo-se com aquilo.

— Ajudei. Queria ver aonde tudo aquilo daria. Queria ver como Marco pensa. Eu tenho variados sistemas de controle que uso com todos os meus irmãos e primos, e com outras pessoas também. Inclusive você. Bem, no momento em que Marco me desobedeceu pela primeira vez ao insistir que eu o ajudasse nisso, percebi que meu sistema estava ficando ultrapassado. Eu só queria renová-lo. — A inocência com a qual ele dizia aquilo era quase crível. — O que realmente aconteceu lá?

Ethan ficou em silêncio por alguns segundos, observando o rosto de anjo a sua frente, procurando algum sinal de sentimento que não fosse cinismo. Não achou.

— Ele me beijou.

— E você deixou? — ele indagou, fingindo surpresa.

— Ele me beijou a força — contestou, irritado.

— Ele tem metade da sua idade.

— Me pegou de surpresa. E é mais forte do que parece.

— É verdade. Bem, ele acabou machucando o cotovelo quando você o empurrou. Disse-me indolentemente que iria te denunciar por estupro.

Arregalou os olhos perante a apatia com que Melchior dissera aquilo. Parecia estar falando que choveria àquela tarde.

— Não se preocupe — ele disse. — Tirei essa ideia da cabeça dele. Ele não fará isso. Marco não é um mau garoto, veja. É apenas uma criança apaixonada que não sabe controlar os próprios sentimentos. Como Lorenzo. — Não deixou Ethan interrompê-lo. — Sabe, quando pessoas tem um grande trauma, elas podem escolher em ficarem agressivas ou em ficarem depressivas, dependendo da partícula que tiverem. Psicologia explica isso. Bem, Marco é do tipo que fica agressivo. Lorenzo é do tipo que fica depressivo. Seu irmão está apaixonado pelo meu. — Sorriu meigamente.

— Que coisa horrível. — Ethan murmurou, sentando-se no chão e abraçando os próprios joelhos. — Todo mundo está apaixonado por todo mundo, e ninguém pode retribuir.

— Sei como é isso — ele falou, sonhadoramente, enquanto olhava para a multidão envolta do prédio. — Mas crianças são crianças. Eles vão superar. Assim que a Coruja for pega, Lorenzo haverá de superar essa depressão. Se não… bem… sabia que eu quero ser psicólogo quando crescer?

Os dois riram daquilo. Ethan surpreendia-se ao ver como Melchior conseguia ser tanto um amor quanto um monstro quando queria.

— Ele vai ficar bem — voltou a repetir.

Ethan pôs o braço em volta de seus ombros, fazendo-o encostar a cabeça no seu.

— Como está Ritchi? — indagou.

— Bem — ele respondeu. — Depois de fazer fisioterapia, ele recuperou algum resquício de movimento nas pernas. Talvez, em alguns anos, ele seja capaz de andar de muletas, embora nunca vá voltar ao normal. Mas ele é uma fênix. Fênix sempre renascem das próprias cinzas.

Melchior falava com um tom exageradamente sereno, e embora não fosse possível notar, Ethan sabia que sua máscara de Melchior escondia toda a tristeza e preocupação de Melon. Um membro de sua família fora assassinado, tinha sete irmãos e quatro primos mais novos, convivia com a sempre expectativa de ter algum deles atacado por algum psicopata desconhecido que tentava a todo custo desvendar quem era, e não conseguia. Entendia como aquilo devia ser monstruosamente frustrante para ele. De certa forma, admirava-o. Melchior era uma pessoa forte.

— E quanto a London?

— Por baixo da máscara de London, ele está bem triste, falando da forma mais sucinta. Jimmi não merecia aquilo, nem Ron merecia sofrer a perda do irmão gêmeo. Se perder um irmão já deve ser ruim, quem pode imaginar a de um irmão gêmeo? Quem diz que os gêmeos eram pestes irritantes provavelmente não conhece Leon Cinneto. Oh, Deus. E London ainda tem que enfrentar o divórcio dos pais. Sinto pena dele. Jamie e Brienne não estão ajudando, sabe? Creio que ele escolherá ficar com o pai, que certamente saíra de Jardim de Ouro.

— Está dizendo que ele vai embora? — Por algum motivo, sentiu-se triste.

— Estou — Melchior confirmou. — É triste, não é? Nossa vida é do mesmo jeito por tanto tempo que quando sofre uma grande mudança, não aceitamos.

Ethan lentamente ergueu os olhos escuros para as unidades do ensino médio.

— E às vezes, fazemos de tudo para que volte a ser como era — Melchior disse, fechando os punhos, com uma fúria tão súbita na voz que fê-lo assustar-se.

— De tudo? — Ethan indagou.

Melchior fitou-o com olhos ardentes, então sorriu com olhos cor-de-rosa.

— Tudo. Ah, mas bem, está ficando tarde, e as aulas recomeçam em menos de uma hora. Quer almoçar comigo naquele restaurante ali perto, em frente à escola? Sei que da última vez que isso aconteceu, não acabou bem, mas nem tudo são flores, não é mesmo?

— Creio que o meu namorado não gostará disso.

— Gabriel não tem aula à tarde, então certamente irá para casa depois daqui. Ele nunca saberá. Vamos ter um momento agradável em meio a tanto caos, acho que merecemos isso.

Ethan ainda hesitou, mas Melchior acabou o convencendo. Era incrível o carisma e poder de persuasão que ele tinha, com aquela voz macia e olhos meigos. Mas não se deixaria enganar, pelo menos não tanto. Melchior era uma pessoa perigosa, poderia manipulá-lo e brincar com sua mente sem que percebesse, como num jogo de gato e rato. Lúcifer também fora carismático.

O ambiente do restaurante era calmo e sereno. Sentados numa das mesas mais afastadas da porta, Ethan observava fascinado os lábios finos e compridos do mestre dos segredos soltarem suas palavras atraentes, palavras que queria ouvir. Ele jogava conversa fora tão bem quanto sussurrava.

Num dado momento, Ethan o atacou…

— Você é o Senhor do Mundo M?

… e se divertiu ao vê-lo engasgando-se com a comida, muito embora tivesse a leve impressão de que fora proposital. Era difícil determinar qualquer coisa sobre Melchior.

— Você poderia me fazer perguntas quando eu não estou mastigando, é falta de educação falar de boca cheia. — Tossindo e lacrimejando, limpou os lábios com um guardanapo e enxugou os olhos. — É bem engraçado, até. Senhor do Mundo é um apelido pelo qual meus irmãos me chamam quando eu jogo algo com eles, tipo jogos de tabuleiro. Como venço quase sempre, eles me chamam assim. Senhor do Mundo.

— E M de Melchior.

— Não, M de maçante, mal-acabado, M de maldito. É claro que é M de Melchior! — Ambos riram. Faziam uma companhia bonita um para o outro, o leão negro e o mestre dos segredos. — E obrigado por pagar o almoço para mim. Não é todo mundo que pode comer lagostas no intervalo de aulas.

— Mesmo? — Ethan indagou ironicamente, sorrindo. — Mesmo com dez livros publicados?

— Não tenho exatamente dez livros publicados, apenas seis, os seis da série Lympharia. Os outros quatro eu publiquei como e-books, numa editora virtual. Mas eu sou menor de idade, de modo que não tenho acesso ao dinheiro, ele está numa poupança.

— Quanto você conseguiu, ao todo?

Melchior fitou Ethan penetrantemente, como se estivesse decidindo se ele merecia saber ou não. Parecia estar olhando para sua alma.

— Nada. Não tenho nada. O rendimento mensal dos ­e-books é sempre dividido por quatro e então depositado em quatro poupanças diferentes, cada qual com cerca de quatrocentos… mil dólares. O rendimento de Lympharia é dividido em sete e depositado em sete poupanças diferentes, que agora devem contar com um milhão e meio de dólares.

Levou um segundo para Ethan entender.

— Está fazendo poupanças para seus irmãos e primos.

— Estou — confirmou. — Em onze poupanças diferentes, há pouco mais de doze milhões de dólares. Engraçado, não é? Meus pais já me perguntaram por que eu não fazia uma para mim também. Até hoje não lhes dei resposta, porque eu não sei. Mas não me importo. Sinto que as coisas estão certas assim. Eu sempre protegi minha família, e é isso que continuarei fazendo.

Ele quer me seduzir, me passar para o lado dele, Ethan pensou, divertido. Ele nem sabe que eu estou do lado dele.

— Tem notícias novas sobre a Coruja? — indagou, levando uma colher de chá cheia de mousse de chocolate à boca.

— Tenho. — Melchior repetiu o gesto, mas com uma mousse de maracujá. — A autópsia no corpo de Sttan descobriu que ele fez sexo antes de morrer.

Ethan não se permitiu engasgar. Ao invés disso, deixou que ele terminasse.

— Mia era namorada dele, mas ela disse que não o viu no dia em que foi morto e tem um álibi confirmado. A polícia acha que seja quem estivesse com ele no prédio queimado, foi a mesma pessoa que o matou. — Ethan largou a colher.

— Acham que ele transou com a Coruja?

— Acham, o que só levanta suspeitas de que a Coruja seja fêmea. — Melchior riu da própria piada. — Mas é estranho, Ethan. Eu não vejo quem teria motivo para querer matá-lo. Quer dizer, muita gente teria, mas nenhuma teria capacidade. Juro a você que cheguei a pensar em Ritchi, mas aconteceu o que aconteceu. Também pensei em London para Lance, mas também aconteceu o que aconteceu. É como se eu estivesse num labirinto e sempre que encontrasse a saída, ela se fechasse na minha frente. As respostas estão aqui, em algum lugar, mas simplesmente não me vêm à cabeça. Enquanto isso, alguém está matando os irmãos dos meus amigos. E isso me irrita profundamente. — Olhou no relógio de pulso que usava. — As aulas começarão em dez minutos, é melhor nos apressarmos.

— Só se você me disser o que acontece quando se molha uma fotografia.

Melchior fez um gesto de desprezo.

— Ela fica molhada, não é óbvio?

— É claro que é. Qual sua cor preferida?

— Roxo.

— Quantos passarinhos você tem na Academia?

— Quantos eu necessitar. Vamos, estamos atrasados.

— Como queira.

Seguiram de volta para a Academia até descobrirem que as aulas à tarde haviam sido canceladas. Afinal, a unidade do segundo ano ainda estava pichada, a do primeiro ainda exalava um leve odor de fumaça, e as janelas da do nono ainda estavam quebradas. Além disso, os alunos recusaram-se a entrar.

Ernst Overgreen estava em frente ao prédio do terceiro ano. Usava um terno de um negrume exuberante, além de sapatos muito bem polidos e um grande sorriso de porco mais brilhante ainda. Aquele penteado ridículo de sempre estava quase se desfazendo, e Ethan sabia que mais da metade dos alunos da multidão que ouvia suas palavras vazias estava controlando o desejo de ir lá e ajeitar.

Em um dado momento, Overgreen ameaçou os alunos de suspensão de uma forma tão sutil que poucos perceberam, mas a tensão estava no ar.

Melchior levantou sua delicada mão. Muitas garotas olhavam para ele, sonhadoras.

— O que vai fazer se os alunos não entrarem no prédio? Suspendê-los todos? — Um murmúrio desagradável nasceu na multidão. Ethan prendeu a respiração, sem saber bem por quê.

O sangue do diretor subiu-lhe a cabeça.

— Gostaria de ser o primeiro? — ele indagou, a voz envenenada de cinismo. Melchior deu uma risadinha que só pareceu atiçar sua fúria. Ele está brincando com leões, Ethan pensou. Não, com leões não, com porcos.

— Por mais que eu adore essa prestigiada instituição, receio ter coisa melhor para fazer. Mas sabe, atos de vandalismo têm sempre um motivo.

Overgreen franziu as sobrancelhas. Os murmúrios pararam. Todos os alunos olhavam para Melchior, que parecia ignorante da atenção que estava chamando.

— O que quer dizer com isso?

— O senhor não entendeu? Oh, bem. — Deu um grande e dramático suspiro. Em seguida, passou a falar lenta e pausadamente, como se estivesse se dirigindo a uma criança, ou a um idoso senil. — Se o senhor imaginar a Academia como um país, os terríveis atos do misterioso Senhor do Mundo M poderiam ser comparados a… revoltas populares, não?

Os olhos do diretor arregalaram-se quase que imperceptivelmente. Melchior passou a falar mais alto, para que todos ouvissem.

— E toda revolta popular tem um motivo. Se alguém como o tal do Senhor do Mundo M existe, então deve existir uma boa razão também, não acha, senhor Overgreen? Afinal, talvez todos esses ataques reflitam em… insatisfação pública.

Alguns alunos vaiaram, mas a cada um que o fazia, outros dez pareciam concordar.

— E aí está o senhor, com essas ameaças estúpidas — disse agressivamente. Ethan franziu as sobrancelhas quando ele passou a praticamente gritar. — Que eu saiba, um líder que precisa infligir medo em seu povo não é um líder, é um ditador.

E um líder incrivelmente carismático tem chances ainda maiores de se tornar outro ditador. Deus, ainda bem que Melchior não se interessa por política. Os murmúrios de concordância tornaram-se gritos, e as vaias cessaram completamente. Ernst Overgreen olhou nervosamente para a multidão, Ethan notou, e então devolveu o olhar para Melchior.

— Está suspenso.

— Por dizer a verdade? — As vaias voltaram, mas, dessa vez, para o diretor. — É assim que uma escola trata seus alunos que apenas querem melhorias? Alunos que pagam mais de mil dólares por mês e se esforçam para se darem bem no vestibular para terem as férias encurtadas e serem tratados como lixo?

A ênfase na última palavra foi o estopim. Os gritos de revolta reiniciaram-se e não pararam mais até que Melchior foi tirado dali. Overgreen chamou alguns seguranças para conter os raivosos, enquanto o mestre dos segredos e Ethan foram para a saída da escola. Nick surgiu de algum lugar com Lorenzo, e Marco veio logo depois.

— Você começou uma guerra — Ethan falou, voltando o olhar para o campus.

— Guerra não — Melchior respondeu, os olhos ardendo de excitação. — Uma batalha. Uma batalha entre leões enfurecidos e ditadores tirânicos. A guerra virá depois. — Então passou a berrar para a multidão que era lentamente contida. — Eu vou, mas eu vou voltar!

Os cinco tomaram o mesmo táxi para Jardim de Ouro. A visão de Melchior incitando dezenas de alunos contra o tirânico diretor fora deliciosa de se ver. Ele tinha um instinto natural para liderança, era verdade. Uma palavra podia derrubar todo um regime, e ela estava ali, por trás dos finos lábios de Melon Chioren, esperando loucamente para sair.

Despediram-se dos Chioren na Avenida Chimera e seguiram até a Avenida Coruja Dourada. Lorenzo voltara a ficar triste por não poder participar da aula de música, mas parecia menos do que quando acordara.

Sozinhos no quarto de Ethan, este último e Nick despiam-se.

— Você tem falado demais com Melchior — o louro disse, sem se importar em esconder os ciúmes.

— Melchior é uma boa pessoa — contradisse. Certo, ele podia ser mentiroso, falso, cruel, manipulador e uma das pessoas mais perigosas que já conhecera na vida, mas Melon era também um garoto adorável e amoroso. E inteligente.

— Mesmo depois de ter falado aquilo para Lorenzo? Ele não é boa pessoa. É um monstro.

Fitando o corpo dourado do irmão nu, Ethan inclinou a cabeça levemente para o lado e crispou os lábios. Você não sabe nada, Nick Hentz.

— Que foi que ele fez àquela multidão? — perguntou, engatinhando na cama.

— Acendeu um pavio.

— Como é que é?

— Sabe o que acontece quando pavios chegam a seu fim? Explosões.

Não deixou que Nick voltasse a falar. Ethan deitou-se em cima do menor e beijou-lhe os lábios vorazmente. Fincou suas unhas em suas coxas e as subiu até a cintura, fazendo-o estremecer de dor e prazer. O corpo de Nick retorcia-se em baixo do seu, e seus gemidos eram finos e infantis.

Ethan meteu o membro do menor na boca, sentindo dedos finos puxando-lhe o cabelo, movimentando sua cabeça num frenético ritmo de vai-e-vem. Lambeu toda a extensão do pênis, desde sua base até a glande inchada, logo antes de engoli-la com volúpia. Masturbava-o enquanto isso, encostando um dos dedos na abertura piscante entre as pernas.

Ethan o pôs de quatro e começou a beijar e morder a carne das nádegas. Traçou uma linha de saliva desde os testículos até seu ânus, onde pressionou a língua, cheio de desejo. Nick estava com o rosto encostado no colchão, abrindo-se totalmente ao irmão, ao mesmo tempo em que murmurava desejos pornográficos.

Beijou e mordiscou sua abertura, deliciando-se com o cheiro e o gosto de sexo do leão dourado.

— Ah, Ethan… isso, aí, que delícia, mano. — O maior segurou suas coxas com as duas mãos e as puxou para si, afundando ainda mais o rosto entre suas nádegas. — Ahhh! Isso… vai, garoto, manda ver no seu irmãozinho. Me lambe, Eth. Me fode com a sua língua.

Ethan desviou-se para as coxas levemente musculosas e torneadas do irmão. Mordeu-as sem dó, e adorou ouvir um gemido de dor em resposta. Então desceu mais, marcando as pernas de Nick com chupões e marcas de dentes, até chegar aos pés, onde tracejou uma linha de saliva desde o calcanhar até o dedo maior. Beijou-os e mordeu-os com vontade, delirando de prazer com seu sabor e cheiro.

Nick se levantou e, num empurrão, fê-lo deitar-se.

— Agora é minha vez.

Fitando-o com olhos famintos, o louro não tardou em enfiar seu membro inteiro na boca. A força da sucção era tal que Ethan começou a sentir dor, embora não chegasse a se importar. A língua de Nick era esguia e molhada, resvalando por toda a extensão de seu pênis, deixando-o encharcado.

Quando estava prestes a gozar, seu irmão parou, deitando-se na cama. Ethan deitou-se em cima dele, mas em posição invertida, voltando a colocar seu membro na boca, para então largá-lo e começar a chupar os testículos. Ethan mordiscava suas coxas quando sentiu sua língua começar a tocar sua entrada.

Sentou-se no rosto de Nick, que puxou-o ainda mais para si, chupando e lambendo seu ânus com vontade. Ambos gemiam, desejando-se unirem-se um com o outro. Ethan passou a balançar o quadril, ainda com a língua de Nick dentro de si.

Finalmente separaram-se, voltando a se agarrar e se beijar. O louro estava em cima do mais velho, que apertava suas nádegas com cada mão, beijando-o no pescoço, nos ombros, no rosto, nos lábios.

— Deus, eu te amo tanto — Nick disse, logo após lhe dar um chupão. — E você é tão gostoso. Até mais do que eu. Não é incrível?

Ethan deu-lhe uma palmada, mordendo seu lábio inferior.

— Eu tenho feito tanta coisa ruim ultimamente, Eth. Me dá outra palmada. Acho que eu preciso.

Ethan o fez. Passou a dar tapas fortes e curtos na bunda do irmão, que logo tornou-se vermelha e marcada. Nick quase chorava de dor, mas sempre pedia para ser mais forte. O maior brincava com a carne do louro, massageando-a cruelmente forte após um tapa mais forte ainda. Nick estava com a cabeça repousada no peito de Ethan, pressionando seu falo contra o dele, gemendo e lacrimejando.

Quando Ethan sentiu que não aguentaria mais, puxou Nick para si, deu-lhe outro beijo e o virou de lado. E assim ambos ficaram, de lado, um atrás do outro, até que o mais velho penetrou o mais novo e então se uniram num só.

Enquanto Ethan bombardeava Nick com estocadas, masturbava-o também, sussurrando palavras amorosas em seu ouvido. Depois mordia seu pescoço com força, apenas para chamá-lo de vadia ou de puta. Nick gemia de todos os modos, pedindo para que ele fosse mais rápido.

Então gozou, e Ethan o fez engolir o próprio esperma, cada gota. Saiu de dentro do louro e passou a se masturbar ajoelhado em frente a seu rosto, com um joelho no colchão e outro em seu peito, dificultando sua respiração. Quando ejaculou, foi em sua boca, e então o beijou, provando da própria semente na boca do menor, que o abraçou ternamente.

— Nosso sexo é o melhor do mundo — Nick falou, descansando no peito do irmão mais velho. — Devíamos fazer sempre, não acha?

— Com certeza — Ethan respondeu. — Principalmente porque você é uma vadia que gosta de apanhar, e eu te amo por isso.

— Sou sua vadia que gosta de apanhar.

— Você é. — E então abraçou sua criança, fazendo carinho em seu cabelo e costas. — Amo você.

— É bom que ame. Também amo você.

Tiraram um cochilo a tarde e depois de fazerem sexo novamente de noite, Ethan Lemnsack e Nicholas Hentz dormiram como dois bebês, nus, um nos braços do outro, como que se protegendo de um inimigo invisível que espreitava pela escuridão. Os muros da mansão eram seguros, mas o abraço do outro era impenetrável.

Ethan não viu Melchior na escola no dia seguinte, até que se deu conta de que ele havia sido suspenso. Por causa disso, nenhum ataque ao prédio do oitavo ano aconteceu. Pelo menos, era essa a lógica mais óbvia.

Mas era aí que morava a contradição. Com Melchior fora da escola, se os feitos do Senhor do Mundo M parassem de repente, tudo ficaria muito óbvio. Ele jamais deixaria passar esse fato, a não ser que quisesse ser descoberto. Mas por que quereria? Se fosse pego, tudo o que já fizera de nada adiantaria. Alguma coisa estava errada.

Como as aulas da tarde estavam temporariamente canceladas, chegou ao condomínio uma hora da tarde. Deixou que Nick levasse Lorenzo para a mansão enquanto se dirigia à Avenida Quimera. Melchior estava sentado no meio-fio da frente de sua casa, de sobretudo e shorts. Era uma combinação absurda para qualquer um, mas não para ele.

Realmente, havia algo errado.

Aproximando-se, Ethan notou sua falta de atenção a sua presença ali, tanto que levou um susto ao ter seu ombro tocado.

— Está tudo bem com você? — indagou. O rosto de Melchior era pedra lisa, branca e perfeitamente esculpida. Levou algum tempo para falar.

— Julie está morta.

Naquele momento, o tempo pareceu parar. Mais tarde naquele dia, Ethan não saberia dizer quanto tempo passara o encarando, silencioso, tentando processar aquela informação pavorosa. Sim, Julie era a irmã de Melchior, mas também era um nome tão comum…

— Trinta e seis facadas, e um pentagrama nas costas — ele disse, a voz tremendo de ódio. — Trinta e seis facadas, e nenhuma chance de se defender. Ela tinha doze anos. A única mulher da família Chioren tinha doze anos. — Apertou os punhos até os nós de seus dedos ficarem brancos. — Achei-a aqui nessa rua, hoje de manhã, às nove horas e cinquenta e seis minutos. Não havia ninguém aqui, ela estava sozinha. Morta e sozinha. Meus outros irmãos já haviam ido para a escola, e meus pais já haviam ido trabalhar. Ela iria um pouco mais tarde hoje, porque aparentemente não teria a primeira aula. Saiu sozinha, sem ninguém. Sem mim. Ela tinha doze anos, eu devia cuidar dela, eu não devia… — Foi nesse momento em que toda sua máscara de Melchior caiu e Melon surgiu num piscar de olhos, machucado e aterrorizado. Naquele momento, tudo o que Ethan mais queria era abraçá-lo, pois parecia tão frágil que podia se quebrar ao menor sopro de vento. — Não devia tê-la deixado ir sozinha, eu devia acompanhá-la… eu devia…

— Se você falar de novo, bato em você — sussurrou asperamente. Melon estava em seus braços, tremendo e chorando, tão digno de pena quanto uma criança. Todo o seu orgulho caíra, todo o seu cinismo se fora, ele era apenas um garoto assustado e delicado como papel.

— Isso… isso não d-devia ter acontecido. — Soluçou.

— Shhh… Nenhuma morte devia ter acontecido. — Estava segurando-o com força, pensando que poderia voltar a tremer novamente. Ou talvez apenas não quisesse deixá-lo ir. Talvez quisesse ficar com ele, acalentá-lo.

E mesmo assim, continuava com uma frieza calculista.

Melchior deu um soco de raiva no cimento, e sequer pareceu se importar com as feridas que se abriram em seus punhos.

— Vou descobrir quem é a Coruja, e então vou matá-la. Não sei como, mas eu vou matá-la.

— Não diga besteiras.

Besteiras?! — exclamou. Ethan não se alterou. Melchior precisava descontar o ódio em alguém, e a verdade é que estava acostumado a servir de bode expiatório. — Ele ou ela aleijou meu namorado, matou o irmão dele, matou o irmão do meu outro amigo, matou minha irmã e quase matou o seu. E ainda ousa falar que é besteira? — Levantou-se. — Vá para casa. Vá para casa proteger seus irmãos do modo que eu não consegui fazer com os meus. É o melhor que você pode fazer.

Ethan serenamente observou-o entrando em casa e batendo a porta. Suspirou longamente.

Horas depois, gritos infantis enchiam seus ouvidos. Era verdade que, naqueles tempos, poucas pessoas se aventuravam para fora de casa, mas ele não. Ethan se recusava a se esconder e a viver com medo. Passara quase dezesseis anos recluso dentro da própria mente, escondido de um mundo que mal sabia existir. E por quê? Por medo de se aventurar. Imaginava que era por isso que apreciava o modo como Nick crescera e se desenvolvera rápido, e até ajudara nisso, para se realizar através dele.

A sua frente, no parque de Jardim de Ouro, Nicholas Hentz aproveitava a infância que pouco tivera. Estava enfiado na caixa de areia, rindo infantilmente com a areia em seus cabelos dourados. Parecia muito mais feliz do que de costume desde que passara a tarde inteira com Mia. Lorenzo estava com ele, não estava rindo e ainda estava bem quieto, mas parecia gostar do som de suas risadas.

No céu, o crepúsculo lentamente fechava seus dedos negros sobre a última claridade do dia que se extinguia. A lua estava um minguante, fina e afiada como uma lâmina de uma faca.

Nick saiu da caixa de areia, sujo de cima a baixo, sem nem se importar em se limpar. Sentou-se no banco de madeira e abraçou o irmão ternamente.

— Tenho uma coisa pra te contar — ele disse, com um grande sorriso de leão no rosto bonito.

— É o motivo da sua felicidade? — Lorenzo ainda estava na caixa de areia, esforçando-se para sair, batendo a sujeira das roupas.

— É — Nick confirmou. — Sabe a Mia?

— Sei.

— Então. — Um carro passou por ali, com os faróis desligados. Que inapropriado. Lorenzo já havia saído da caixa e agora vinha em direção a eles, o que era incrível, porque não devia saber onde eles estavam, afinal, ele era cego. Talvez Melchior tivesse razão. Talvez ele fosse mais do que aparentava. — Ela está meio grávida.

Por um momento, Lorenzo pareceu andar mais devagar, o tempo pareceu passar mais devagar. De repente, os faróis desligados daquele carro não pareciam ter tanta importância assim.

— O quê? — indagou, pensando não ter ouvido direito. Então deu-se conta de que sim, ouvira direito, e passou a procurar no rosto de Nicholas Hentz qualquer resquício que indicasse que aquilo não passava de uma brincadeira cruel e doentia.

Mas seu sorriso indicava que não.

— É isso mesmo, ela está grávida. Ethan, eu vou ser pai!Isso não é maravilhoso?

Notas finais
Gente, falta apenas mais três capítulos + o epílogo para terminar a temporada. :3