(Balada De Leões – Autor Desconhecido)

Um leão para o pão trazer.

Dois leões para dar de comer.

Três leões para a água procurar.

Quatro leões para a sede saciar.

Cinco leões para os sonhos trazer.

Seis leões para viver e viver.

Sete leões para da alegria ressurgir.

Oito leões para teu amor sentir.

Nove leões para você amar.

Dez leões que amar-te-á.


OoO


— Que música é essa? — Mia indagou, docilmente. Fazia carinho em seu cabelo, enquanto descansava a cabeça em sua barriga. Ainda estava lisa, é claro, ela não devia estar com muito mais de um mês.

— É uma cantiga infantil — Nick respondeu. — Se chama Balada De Leões. Bom, não exatamente. Não precisa ser leões, pode-se usar qualquer animal, na verdade. Minha mãe costumava cantar para mim. — Nick deu uma risadinha. — Isso é mentira, ela só cantou uma vez, quando eu tinha oito ou nove anos, mas ficou na minha cabeça para sempre. Ela usava gatinhos. Mas eu mudei porque, afinal, ele vai ser um leão dourado.

— Pode ser uma menina — ela entoou.

— Claro que pode, mas eu tenho certeza que vai ser um menino. — Nick encostou o ouvido em sua barriga, pouco acima do umbigo, tentando inutilmente ouvir seu filho que, no momento, não era mais que uma partícula no útero de Mia. — Como vamos chamá-lo? Usemos um nome unissex, assim não vamos ficar decepcionados daqui a uns dois meses.

— Não tenho ideias. Pelos meus cálculos, ele ou ela nascerá em dezembro.

— Talvez nasça no Natal, assim só teremos que dar um presente para os dois dias.

Mia riu lindamente. Estavam deitados na cama do louro, os lençóis estavam no chão, e todos os travesseiros estavam igualmente chutados. Amanhecia uma aurora rósea e dourada, dourada como um leão Hentz. A pouca luz entrava pelas janelas. O quarto estava gelado, e Nick e Mia esquentavam-se simultaneamente nos braços um do outro. Mia era da altura de Ethan, era bem parecida com ele, na verdade. A cor do cabelo, as feições. O jeito maternal.

Ela será a melhor mãe do mundo, Nick pensou, feliz. E eu serei o melhor pai, é claro.

Dezembro parecia que nunca chegava. Quanto mais os segundos passavam, mais ansioso ficava. E Mia havia lhe dado a notícia há tão pouco tempo, no mesmo dia em que contara a Ethan. Ele quase teve outro colapso nervoso e, por dois segundos ou menos, literalmente tentou estrangular Nick, mas depois de desabar em lágrimas e perguntar a si mesmo por que não morrera em alguma das chances que teve, acabou, relutantemente, aceitando aquele fato.

A mídia descobriria, mas e daí? Não podia deixá-la regular sua vida.

Ele fora um acidente, é claro. A camisinha havia furado, mas aquilo acontecia. Ao invés de ficar com medo e assustado, como a maioria dos pais adolescentes, ficou imensamente feliz. E não poderia explicar de onde vinha aquela felicidade, mas estava ali, num cantinho íntimo de seu coração, firme e crescendo forte. Nick e Mia teriam um leão dourado, e nada poderia ser melhor. Dinheiro não era problema.

Beijou sua barriga de novo, suavemente.

— Eu amo você. — Não se referia a ela, referia-se ao bebê. Passou a falar com aquele tom de voz cômico reservado para falar apenas com bebês e animais. — Own, quem é que vai ser o mais novo leão dourado, hein? Quem é? — Afinou um pouco mais a voz. — Quem é que vai ser o herdeiro de quinhentos milhões de dólares, quem vai? Own. — Beijou-a de novo. — É você, você vai ser o herdeiro de quinhentos milhões de dólares, vai sim, desde que eu não gaste tudo primeiro.

— Como seu irmão reagiu à notícia?

— Como sempre. Primeiro veio a negação, depois a raiva, depois a tristeza, e então a aceitação. Foi um alívio, porque normalmente a aceitação é substituída por mais raiva. Se isso tivesse acontecido, o pobre Nicholas Hentz não estaria mais entre nós.

— Tenho certeza que Ethan está feliz com a ideia de ser tio.

— Eu sei, mas não agora. Mas ele vai se acostumar. Pode até voltar a gostar de mim algum dia, quem sabe.

— Ethan ama você. E eu também.

— E eu, a vocês dois… — E a beijou.

Nick surpreendia-se ao ver que não havia se cansado de Mia nem quando foram para a cama pela primeira vez, que provavelmente fora quando o bebê fora concebido. A despeito das incontáveis pirralhas insuportáveis que se apaixonavam por ele e faziam de tudo para que não se cansasse delas (o que acabava acarretando exatamente no contrário), Mia nem fez questão de continuarem juntos. Nick só se deu conta de que ela o estava manipulando mentalmente quando já estava fisgado.

Psicologia inversa realmente funcionava.

Nick puxou Mia pela cintura e aprofundou o beijo enquanto passeava suas mãos pelas costas, habilidosamente abrindo o fecho do sutiã por baixo da blusa. Tudo ia bem até que resetou o corpo.

— O que foi? — ela indagou, levemente ofegante. As pupilas estavam dilatadas sobre os olhos castanhos.

— O bebê… — Nick sussurrou. Estava se sentindo tolo, mas sentia medo que algo pudesse acontecer. Mia ainda estava no primeiro mês de gravidez.

— No momento, o bebê tem o tamanho de uma ervilha, Nick. — Mia sorriu, o que lhe estranhamente deu confiança. Voltou a beijá-la, subindo em cima de seu corpo delgado. Interrompeu o beijo apenas uma vez, para tirar sua camisa e a blusa dela, jogando as peças de roupa no chão, formando uma pilha.

Tornou a beijá-la. Acariciou seus seios desnudos com cuidado, aos poucos começando a apertá-los com carinho e desejo. Desceu aos beijos por sua garganta e pelo pescoço, distribuindo chupões e mordidinhas. Mia suspirou e conduziu a própria mão até a excitação do loiro, que soltou um suspiro contra a curva delicada de seu pescoço antes de sugá-la novamente, deixando uma marca avermelhada ali.

Ela estremeceu e arrancou a saia que usava, com os lábios famintos de Nick, que também tirava o calção, separando-se de seu pescoço, enquanto estimulava-a devagar, ambos selando os lábios.

Como se os pensamentos estivessem sincronizados, prensaram os quadris ao mesmo tempo enquanto apartavam o beijo em busca de oxigênio e gemiam em uníssono. Nick massageou seu clitóris com um dedo e então o enfiou em sua abertura, sentindo-a ficar mais molhada e excitada a cada estímulo. Começou a sugar um de seus mamilos, já introduzindo um segundo dedo.

Mia gemeu, enroscando os dedos nos fios loiros de Nick e puxando-os, abrindo um pouco mais as pernas para dar-lhe espaço. Moveu os quadris, já comportando o terceiro dedo com o rosto afogueado de prazer.

Ao perceber que ela já estava pronta, Nick passou a masturbar-se, descendo beijos pelo abdômen de Mia e, ao chegar ao umbigo, sussurrou carinhosamente:

— Foi assim que fizemos você. Não é adorável?

Continuou estimulando-a até estar ele próprio totalmente duro e então posicionou-se entre suas pernas, adentrando-a devagar. Graças a Deus não preciso mais usar camisinha, pensou divertida e prazerosamente. Mia suspirou de prazer e abraçou suas costas, fechando as pernas ao redor de sua cintura, fincando suas unhas na pele dourada. Nick abafou um grito com uma mordida de lábio e começou a estocar.

Logo o quarto foi preenchido pelos gemidos baixos de ambos, que se moviam em sincronia e olhavam-se em êxtase, castanho no preto. Nick não estocava com selvageria, mas tampouco o fazia com delicadeza excessiva; o ritmo foi gradativamente aumentando, assim como seus gemidos.

Mia tinha cabelo louro entre os dedos de uma mão e a pele das costas de Nick nas unhas da outra. A boca do menor passeava por seus seios, sugando-os e mordiscando os mamilos com cuidado, enquanto sentia mãos passeando por todo seu tronco, sendo pressionada contra o corpo do outro. Movia a cintura no mesmo ritmo das estocadas, o que provocava descargas de prazer cada vez mais violentas no corpo de ambos.

Os gemidos se transformaram quase em gritos à medida que se aproximavam do clímax, ambos tentando conter espasmos agressivos. Finalmente chegaram ao ápice num longo gemido, e então o quarto mergulhou num silêncio confortável.

— Já sei como o bebê pode se chamar — ela sussurrou. Nick sorriu.

Naquela noite de domingo, depois de Mia ir embora e de Nick conseguir levar o irmão para a cama, descansava a cabeça em seu peito. Ambos nus, aspirando o cheiro do que acabaram de fazer.

— Nós sabemos qual vai ser o nome do bebê — Nick disse, fitando-o. Deitou-se de bruços, apoiando o rosto nas mãos, enquanto seus cotovelos estavam fincados no colchão. — Charlie.

Ethan franziu as sobrancelhas.

— Vai dar a ele o nome do nosso pai?

— Não, nosso pai se chamava Charles, e, por algum motivo, eu odeio esse nome. Charlie é fofo e legal. E unissex. Como não sabemos o sexo do bebê, ele pode se chamar Charlie tanto se for menino quanto se for menina. Charlie Ethan Cinneto Lemnsack Hentz.

Como era esperado, ele ficou mais confuso ainda.

— Charlie… Ethan? Vai… usar o meu nome como segundo nome dele? Por quê?

— Porque eu te amo. — Nick engatinhou para cima de seu corpo. — Porque você é meu irmão, meu amante, porque você é o Hentz mais velho vivo, porque você é o primeiro e o último leão negro, porque eu te amo, porque eu te amo, porque eu te amo…

Encostou o lado do rosto em seu peito, sentindo sua quentura tão conhecida e acolhedora, que tanto lhe protegeu em toda sua vida. Ethan envolveu suas costas com os braços e o apertou contra si. Nick gemeu gostosamente, manhoso como um gatinho.

— Eu também te amo — o mais velho sussurrou. — E vou amar seu filho da mesma forma.

Por algum motivo, Nick sentiu-se supremamente feliz.

— Lorenzo gostará de ser tio — disse. — Acho que ele nunca viu um bebê antes. Quer dizer, ele literalmente nunca viu um bebê antes, mas também nunca segurou um.

— É verdade. Sabia que esse ano fará cento e quarenta e seis anos que John Francis Hentz nasceu? E cento e vinte e seis anos da fundação da Kruger-Vorheel? Vamos acender uma vela a ele, afinal, se não fosse por John Francis, não estaríamos numa mansão tão gigantesca e desvalorizada como essa.

— Ainda estou ressentido pela nossa mãe ter doado os sessenta bilhões de dólares resultantes da venda da Kruger-Vorheel. O mundo continua igual, não melhorou em nada. Você já percebeu que terminará a escola esse ano?

— Já.

— Já decidiu o que quer fazer na faculdade?

Ethan não respondeu. Nick conhecia-o o suficiente para saber que estava pensando.

— Você quer criar outra empresa como a Kruger-Vorheel, não quer? — indagou, fazendo um bico que levou o maior a risadas.

Nunca existirá outra empresa como a Kruger-Vorheel… pelo menos não na nossa geração. Então… por que não daqui a umas duas ou três? Eu não sei, eu penso nisso todo dia. Recriar uma empresa do zero, e então expandi-la. Eu tenho capital suficiente para isso. Mas… eu não sei. Eu tenho dezessete anos.

— E fará dezoito esse ano, dezenove ano que vem e vinte logo depois. John Francis tinha vinte anos quando fundou a empresa, você acabou de dizer isso.

— Ele achou um diamante de milhões de dólares.

— Você tem um diamante de bilhões de dólares, tem um sobrenome que vale ouro, tem leões dourados que também valem ouro. Você é Ethan Lemnsack Hentz. Você pode. Agora está me dizendo que tem medo? Não me envergonhe. — Sentou-se na cama. — Nós dois sabemos que você fará economia e administração. Não se engane. Você nasceu pra isso.

Ethan lambeu os lábios, bebendo cada palavra que ouvia.

É tão divertido brincar com o orgulho dele, Nick pensou, divertido. Os olhos negros de Ethan estavam dilatados, e sua pulsação acelerara consideravelmente. Estou praticamente decidindo o futuro do meu irmão com a arte da manipulação. Melchior faria isso melhor. Ele provavelmente faria Ethan me colocar na presidência.

— Eu vou — declarou. — Vou recriar a Kruger-Vorheel do zero.

— Esse é o meu garoto. — Beijou-o, deitando-se de bruços ao seu lado logo depois. — Mas enquanto você ainda não é dono de metade do mundo, bem que pode massagear minhas costas, não é mesmo, meu querido?

— É claro, tudo para o temporariamente último leão dourado.

Nick adormeceu ali, com as mãos de Ethan em suas costas, tão protetoras, como sempre haviam sido.

No dia seguinte, na Academia Alphonse Enoi, a notícia da suposta gravidez de Mia Cinneto havia se alastrado como água, principalmente quando descobriram que o provável pai era Nicholas Hentz. Parecia impossível acreditar que o loiro promíscuo e amado e odiado por todos haveria de se tornar pai. Antes das aulas começarem, quando algumas pessoas vieram lhe perguntar se era verdade, Nick não viu razão para mentir.

Isto é, não via razão para mentir, mas então, antes que pudesse entoar a verdade, Melchior surgiu por ali e expulsou os alunos como se fossem cabras.

— Por que fez isso? — indagou, irritado.

— Você é idiota? — ele indagou, os olhos púrpuras brilhando de fúria. — Mia tem dezesseis anos, você acha mesmo que o fato de ela estar grávida vai sair bem? Isso sujaria a imagem da Academia, ela seria expulsa e você também.

— Eu nunca seria expulso. Não com Ethan aqui.

— Ethan não vai protegê-lo para sempre, Nicholas Hentz. — Melchior respirou fundo e abaixou o tom de voz. — Se a Academia aprovar a gravidez dela, ela poderá ficar na escola até o final do ano. Não se engane, Nicholas. Você tem catorze anos e o mundo está cheio de pessoas conservadoras e preconceituosas, não pense que todos vão aplaudir o fato de que você será pai. Mas bem, de qualquer forma… meus parabéns.

Nick se resetou um pouco. Tentava não gostar de Melchior, tentava odiá-lo, mas era difícil. Ele exalava um carisma e um charme tão grandes através daquela pele translúcida e daqueles olhos absurdamente roxos que, quando você percebia, estava encantado por sua lábia, preso por garras invisíveis.

Aliás, Julie Chioren havia morrido há não muito tempo. Por baixo de todo aquele cinismo, havia tristeza e desolação.

— O que você quer que eu faça? — indagou, quase debilmente. Suspeitava que ele o estava hipnotizando, da mesma forma que Ethan fazia.

— Não precisa negar, mas não confirme nada — sussurrou. — A gravidez de Mia não ficará aparente até o semestre que vem, que é quando Hellen Page voltará. — Isso deixou Nick confuso.

— Ela não vai voltar. Deixou de ser presa por um triz.

— Oh, ela voltará. — Estavam perto da cantina da escola, onde, ao longe, podiam ver as unidades das diversas turmas e séries. Melchior passou a fitar um dos prédios mais pertos, penetrantemente. Olhou no relógio. — São exatamente sete horas da manhã, quando os prédios abrem. Não deixam mais ninguém entrar nas unidades sem ser em horário de aulas.

E então, um sinal inconfundível.

— Fogo? — indagou, sentindo um temor. O som altíssimo entrava em sua cabeça e batucava seus tímpanos ensurdecedoramente.

— Esse é o sinal que indica que o alarme de incêndio foi ativado. Não significa necessariamente fogo. Significa fumaça. Olha, é ali no prédio do oitavo ano. Vamos ver.

O Senhor do Mundo M, Nick pensou. Só aí notou quantas pessoas arriscavam um olhar a Melchior quando ele passava. Essa criatura poderia ter qualquer pessoa que desejasse. Ele é um deus. E eu… eu não preciso de mais ninguém. Eu tenho Mia. E em breve terei Charlie também.

Ao chegarem ao prédio, Nick notou que Melchior tinha razão. Não havia fogo, nem sequer fumaça, mas à medida que os alunos que já haviam entrado saíam correndo, ensopados de água, foi que, lentamente, olhou para o chão.

O que acontece quando se molha uma fotografia?

Centenas, senão milhares, delas. A tinta escorria das fotos pelo chão, criando um ensopado de papel e sujeira colorida que se arrastava pelos corredores. Nick aproximou-se e pegou uma das fotografias mais inteiras nas mãos.

— Essa não é a Audrey Rockfeller? — indagou. Havia uma expressão de surpresa no rosto de Melchior, mas era óbvio que era falsa. — Ela está… nua.

— E esse aí bem em baixo dela não é você? — ele perguntou, tapando a boca com a mão, abafando um riso. — Você também está nu.

— Estou, mas eu sou muito mais bonito que ela. — A foto ela clara. Nick estava com os olhos fechados, a boca entreaberta, gemendo de prazer, pelo visto. Audrey estava sentada em seu colo, com a cabeça jogada para trás, também num orgasmo. Nick correu os olhos pelas outras fotografias no chão e viu que mostravam pessoas diferentes. Não importava quem eram, estavam todas fazendo a mesma coisa. No Corredor.

Na parede, pichados com tinta roxa, alguns singelos avisos.

Ela fica molhada. O que acontece quando uma Coruja entra num prédio? Senhor do Mundo M.

O enigma fez cada pelo do corpo de Nick se arrepiar. Olhou para Melchior, que continuava impassível com aquele sorrisinho manso e maligno. Mais pessoas começaram a entrar no prédio. Marco Chioren surgiu de algum lugar, olhou para o aviso, então para as fotos no chão, pegou uma entre as mãos, arregalou os olhos e sorriu.

— Que legal.

— Pena que não é para você. — Melchior puxou o papel molhado das mãos do irmão menor. — Vamos sair daqui, as coisas vão esquentar. — Não se referia a Marco, referia-se a Nick. Marco não tinha opção de escolha.

Saíram correndo do prédio antes de uma multidão maior entrar. Nick estava arfando, apoiando as mãos nos joelhos, os cabelos molhados caindo pela testa.

— Senhor do Mundo não é como a gente te chamava? — Marco indagou, olhando para o irmão.

— É? — sussurrou Melchior. — Sabe que eu não me lembrava?

Nick quase engasgou com a própria saliva, embasbacado. É claro, era tão óbvio. Quem mais seria tão poderoso para invadir o sistema de segurança da escola e roubar prints da recém-instalada câmera do Corredor? Quem mais teria condições de causar um incêndio não fatal? Quem mais poderia praticamente implodir um prédio, estourando todas as suas janelas?

Quem poderia fazer tudo isso sem ser pego?

— O que o Senhor do Mundo M quis dizer com aquele último enigma? — indagou. Melchior deu de ombros, inocentemente.

— Como eu poderia saber? Talvez o próximo ataque aconteça à noite. Corujas são animais noturnos. — Era impossível não associar aquilo com a Coruja de Jardim de Ouro, principalmente porque, no enigma da parede, Coruja estava escrita com C maiúsculo.

Nick continuava fitando o anjo demoníaco a sua frente.

— Melchior… você não vai…

— Ei! — gritou alguém. Com a vista cansada, Nick viu Ethan aproximando-se. Tinha um bolo de fotografias molhadas nas mãos, fotografias essas que Nick tinha certeza de encontrar um leão dourado com cara de orgasmo. Ethan olhou para Nick. Parecia levemente furioso. — Sabia que você é a pessoa que mais aparece em todas as fotos?

— É por isso que todo mundo quer ser meu amigo, porque todo mundo quer dar para mim. Quantas fotos você tem aí?

— Sei lá, elas grudaram umas nas outras. O mais legal é que isso é nada menos que pornografia infantil. — Ethan lançou um discreto, mas furioso, olhar para Melchior, que, novamente, deu de ombros, sorrindo de modo insolente.

— Até que minha volta à escola foi bem recebida, não? Mas já tocou há dez minutos. Melhor irmos para a aula. Isto é, se houver aula.

Não houve aula. Trêmulo, Ernst Overgreen anunciou que as atividades daquele dia seriam canceladas devido a assuntos da direção, o que era uma grande e gorda mentira, já que os corpos nus dos alunos certamente não se tratavam de assuntos da direção. Nick voltou para casa feliz como um passarinho. Também ficou sabendo que quase trinta alunos sairiam da escola, expulsos ou retirados pelos pais.

O Senhor do Mundo M estava, lentamente, desintegrando a estrutura da Academia Alphonse Enoi. E Nick estava rindo de todos eles.

Quando descobriu que não conseguiria dormir mais, decidiu sair da mansão. Sem Ethan saber, é claro. Ele não deixava nem ele nem Lorenzo sequer tirarem o pé de casa.

Estava caminhando pelo meio-fio, tentando se equilibrar, quando acabou de chocando com Owl que, pelo visto, fazia a mesma coisa. Ele assustou-se como uma coruja jogada violentamente para fora de sua gaiola.

— Desculpa, Owl — disse, levantando-se. Não ofereceu ajuda, pois sabia que ele não aceitaria. O garoto prateado murmurou um Owl e levantou-se, bateu a poeira do casaco branco e jogou os cabelos para o lado num movimento de cabeça.

Oliver fazia esse mesmo movimento, com esse mesmo cabelo e esses mesmos olhos sobrenaturais. Quem sabe ele não possuiu Owl para me matar? Quem sabe eu não mereça isso?

— Owl, você soube? — indagou. Ele inclinou a cabeça para o lado e ficou esperando uma resposta, parecendo bem aéreo. — Minha namorada está grávida. Eu vou ser pai. Não é incrível? — Ele sorriu docemente, um sorriso infantil e inocente.

— Owl, Owl, Owl, Ooooooooowl, Ooooooooowl, Owl?

— Ela é a Mia Cinneto. Sabe quem é?

— Owl.

— Que bom que sabe. E eu não andaria sozinho pelas ruas se fosse você. Há muito perigo por aí, ultimamente. — Ele o mediu de cima a baixo, franzindo as sobrancelhas.

— Owl? Owl… Owl.

— Eu sei que estou sozinho, mas eu não seria assassinado. Eu deixaria o assassino louco. — Owl riu, um riso baixo e leve que lembrou Nick de Lorenzo. Ele ria daquele jeito. Há quanto tempo não o ouvia rir? De repente, sentiu-se saudoso. — Eu tenho que ir. Tome cuidado, está bem?

— Owl — disse Owl.

— Owl — concordou Nick. — Até mais.

Deu meia-volta e seguiu o caminho de volta para casa. Mia estava no portal, parecendo se preparar para tocar no interfone, mas antes de fazê-lo, Nick chegou por trás, cobriu seus olhos com as duas mãos e perguntou sussurrando quem era. Quando ela respondeu, virou-a para si e deu-lhe um selinho, na ponta dos pés.

— Você é muito alta — reclamou, enrolando uma mecha de seu cabelo negro entre dois dedos.

— É bom se acostumar. Preciso falar com você.

— Estou bem aqui.

— Meus pais querem conhecê-lo.

De repente, Mia ficou ainda mais alta, mas então Nick percebeu que havia caído de joelhos.

Levantou-se, mas deixou a dignidade no chão

Conhecer?! Como assim, conhecer? Eu nunca conheci os pais de nenhuma garota antes… meu Deus, eu não vou saber me portar. Eles vão me odiar, me enxotar da sua casa e vão mandar você abortar Charlie e todos viveremos infelizes para sempre.

— Não vão não, Nick.

— Mas é claro que não vão, eu sou um futuro milionário, certo?

— Certo, mas não é isso. Eu contei a eles sobre Charlie hoje. Ambos ficaram bem abalados, mas acho que hora ou outra aceitarão esse fato. E acho que a coisa mais óbvia a se fazer é conhecer o pai do neto deles, não é?

— É… acho que sim.

— Ótimo. Hoje à noite, às oito horas. Vamos jantar.

Oito?! Meu Deus, o que eu vou vestir?

— A mesma coisa que você vestiria para uma formatura, mas sem o smoking. Você é carismático, vai conquistá-los.

— Certo, certo, eu sou carismático, loiro, lindo e meu irmão é bilionário, é claro que vou conquistá-los. Qual o nome dos seus pais mesmo? — Ela riu com o desleixo do menor. Beijou-o na bochecha e sussurrou:

— Donald e Meera. Chame-os de Sr. e Sra. Cinneto, a não ser que queira ser realmente enxotado. — Nick só ficou ainda mais apreensivo.

— Acha que eu deveria levar Ethan? Ele leva jeito com adultos. — Mia ponderou por um momento.

— Acho que não é necessário. — Mia mordeu o lábio inferior. — Meus pais não são tão difíceis de lidar, embora não tenham senso de humor… nem sejam engraçados… nem divertidos… nem legais. Tsc, é, traga o Ethan. E Lorenzo também, é lógico.

Naquela mesma tarde, com o irmão, Nick tentava amaciá-lo com sexo oral para pedir o que tinha que pedir. O céu já estava vazio de luz quando Ethan finalmente ejaculou.

— Tenho que te pedir uma coisa — disse a ele, limpando a boca com as costas da mão. Ethan abriu a gaveta da cômoda do lado e, para o total horror e surpresa de Nick, tirou um cigarro de um maço e um isqueiro.

Ele acendeu e tragou.

O que é que você está fazendo fumando?! — gritou. Ethan soprou a fumaça para o teto, observando-a dissipar-se.

— Sabia que fumar faz dor de cabeça desaparecer? — indagou, quase sussurrando. Pelo visto, não se surpreendeu quando Nick pulou em cima dele e arrancou o cigarro de sua mão, e então o maço e o isqueiro da gaveta. Observou o louro atirando os dois primeiros itens pela janela, mas antes de repetir a ação no isqueiro, Ethan disse: — Esse isqueiro é de ouro.

Nick olhou para o objeto em sua mão, balançou a cabeça e o enfiou no bolso.

— Os pais de Mia querem que eu vá jantar com eles hoje, às oito horas. Você vem comigo, e Lorenzo também. Vamos impressionar os Cinneto. Não quero que você fume de novo. Entupa-se de remédios para enxaqueca, mas não fume de novo. Está me ouvindo? — Ethan estava com um sorriso estúpido na cara, olhando para ele.

— Você fica tão bonito com a luz da Lua por trás de si. — Sentou-se na cama. — Tudo bem, vamos à casa de Mia. Vou fazer bonito, e vou ensinar você a fazer também. Pode começar não mastigando de boca aberta e usando o guardanapo.

— Sei.

— Aliás, coma devagar. Você aspira a comida, Nicholas.

— Sei, sei, certo. Vou fazer tudo o que você fizer. E você pode começar tirando esse cheiro de cigarro.

— Certamente.

— Já falou com Lore sobre masturbação?

— Eu tentei, mas ele jogou um travesseiro em mim quando eu perguntei se ele havia notado mudanças no corpo dele ultimamente. — Nick permaneceu sem expressão, ouvindo atentamente. — Tipo as coisas que ele sente quando segura o pênis.

Pegou um travesseiro e atirou nele.

— Seu grande idiota. Falou do mesmo jeito comigo quando eu tinha dez anos, e olha para mim agora. Deixa que eu falo com ele.

Ao sair do quarto de Ethan, Nick ouviu uma melodia baixa e hesitante. Na ponta dos pés, encostou a orelha na porta do quarto de Lorenzo, de onde a canção vinda do piano vinha. Nunca a tinha ouvido antes, parecia composição original.

Nove anos e compondo melodias no piano. Eu com catorze anos estou fazendo filhos. Que digno, Nicholas Hentz.

Abriu a porta num ímpeto tão grande que Lorenzo, sentado no banquinho do piano, se assustou.

— Lore, seu aniversário é mês que vem — disse, observando-o ajeitar o cabelo. — Que tal ganhar um piano de cauda? Daqueles que são bem grandes e custam uma fortuna?

Lorenzo não respondeu, mas Nick não esperava que ele o fizesse. Um quase imperceptível dar de ombros foi o suficiente para demonstrar que sua resposta foi sim.

— Legal. — Lorenzo ficou fitando-o com aquele olhar cego e apático. — Você está se masturbando?

Nenhuma reação, mas uma levantada de sobrancelha foi o suficiente. Nick esgueirou-se para perto do ouvido do menor e sussurrou venenosamente…

— Masturbar é quando você segura seu pênis para sentir aquela sensação legal.

… e foi empurrado. Vendo o olhar de horror no rosto dele, quase sentiu pena.

— Tudo bem, escute com atenção, eu não vou enrolar como Ethan fez. Seu pequeno corpo está mudando e graças a Deus você não menstrua, ou seja, tudo que vem depois é legal, acredite em mim. Todo mundo faz isso, inclusive Ethan e eu. E é saudável, reduz o stress e eleva a função imunológica. — Havia lido aquilo em algum lugar e nunca mais esquecera. — Porém, eu tenho quase certeza que você ainda não ejacula, o que é um alívio, porque não há nada pior do que ter um orgasmo e então acabar com aquela coisa branca espalhada por todo lugar, certo? Certo. Então, primeira ordem de tudo… quando começar a ejacular, não faça isso nas roupas. Elas são caras, e esperma gruda em tudo depois de o trabalho feito. Agora você deve está pensando consigo mesmo: “Mas Nick, o que eu faço com tudo aquilo se não posso liberar tudo nas roupas?” Boa pergunta. Você pode começar o dia feliz fazendo aquilo no chuveiro toda manhã, antes de ir à escola. Isso elimina a necessidade de algo para cobrir. Maaaaaaaaas — Nick realmente carregou nos A — o dia é longo e masturbação é legal, então ao menos que tomemos quatro ou cinco banhos todo dia, precisaremos de mais outras opções. Então vamos começar com o básico: papel higiênico, perfeitamente aceitável para impedir toda aquela sujeira porque você pode jogar no lixo depois, se bem que pode ser duro e seco em uma pele sensível, sem mencionar que pode afixar no seu pênis como se fosse um band-aid e fica mais difícil de tirar do que se fosse um esparadrapo. Eu bem que poderia dizer para você se masturbar com casca de banana, mas eu acho que seu pênis é pequeno demais para isso, então deixemos para daqui a uns dois ou três anos. Então vamos pular para a parte dos lubrificantes: qualquer coisa deslizante serve, como óleo, creme hidratante, mel, saliva, manteiga, condicionador de cabelo e vaselina. Na minha opinião, o melhor lubrificante é… Lubrificante. Então poupe sua mesada e invista em algo mais prazeroso. Certo, você não ganha mesada, eu acho que eu já to me adiantando. Quando você estiver acariciando o Lorenzo Jr. no banheiro… jogue-o direto no vaso. Na cama, não faça no lençol, dá um trabalho dos diabos para limpar. Faça em cima da própria barriga ou da própria mão, depois é só lavar com água e sabão. E mais uma coisa, prática leva a perfeição, então se aperfeiçoe agora enquanto é um artista solo que você estará fazendo ótimos duetos no futuro. Gostou da metáfora? Faz sentindo porque você toca piano, haha.

Da primeira vez na vida que Nick vira Lorenzo, ele era pálido como porcelana. Agora, estava vermelho como um pimentão. Nick só esperava que ele tivesse entendido tudo o que dissera.

— Aliás, nós vamos jantar na casa da Mia às oito horas. Traje formal. Esteja pronto.

E as oito horas finalmente chegaram, deixando-os parados em frente à casa de Mia, uma construção verde e branca de um andar, onde uma janela circular ornamentada observava a tudo e a todos.

Lorenzo estava parecendo um pequeno príncipe. Alguma coisa fazia seu cabelo nunca ter um aspecto molhado por muito tempo, de modo que seus fios negros e rebeldes contrastavam com o aspecto formal da roupa que usava, uma calça social preta e uma camisa de manga comprida branca. Na verdade, os três usavam exatamente a mesma roupa. Nick havia usado metade de um pote de gel para manter os cabelos para trás. Pelo menos eles estavam brilhosos.

Ethan estava tão bonito que quase pulou em cima dele no jardim de Mia, mas se conteve. Afinal, Lore poderia ouvir os gemidos.

Antes de poder tocar a campainha, a porta se abriu.

Mia usava um vestido que caía delineadamente até seus joelhos, e cujo tecido era preto e brilhante. Tinha apenas uma alça, deixando seu outro ombro desnudo. Estava com o cabelo preso num coque apertado e usava um cinto fino e prateado de adorno, além de saltos de dez centímetros. A maquiagem era quase imperceptível.

— Não entrem agora, meus pais ainda estão lá em cima — ela sussurrou. Parecia um pouco nervosa, um pouco ansiosa, um pouco aliviada de vê-los ali. Deu um selinho em Nick, cumprimentou Ethan com um leve, levíssimo beijo na bochecha e despenteou os cabelos de Lorenzo carinhosamente. Então olhou para Nick. — É, acho que eles vão gostar de você. Mas não se exalte: eles não vão demonstrar isso. Também não vão te tratar melhor. Nenhum de vocês.

— Nick — disse Ethan. — Abaixe a gola da camisa. — Nick abaixou.

Mia mediu-o de cima a baixo, mordendo o lábio inferior.

— Seu cadarço está desamarrado. — Nick se abaixou e o amarrou.

— Coloque a camisa mais para dentro — disse Ethan. Nick colocou.

— E ajeite a postura — disse Mia. Nick ajeitou.

— E levante o queixo. — Ethan.

— Mas não demais. — Mia.

Nick levantou o queixo, mas não demais.

— Perfeito, vou entrar agora. Contem um minuto e toquem a campainha.

Ela entrou. Nick contou um minuto mentalmente, mas quando olhou no relógio, sequer meio minuto havia passado. Depois de mais trinta segundos, apertou a campainha.

A porta abriu-se quase no mesmo momento.

— Nick, que bom que está aqui — Mia disse, como se fosse a primeira vez que o visse. Atrás dela, aristocraticamente lado a lado, seus pais esperavam elegantemente. Meera Cinneto, ou melhor, Sra. Cinneto, exalava uma aura majestática apenas com a aparência. Mortalmente magra, seu cabelo escuro estava quase idêntico ao da filha, num coque tão apertado que repuxava a pele da testa, reforçando a austeridade de suas feições. No momento em que olhou para ela, Nick teve a ligeira sensação de estar sendo repreendido. Ela parecia uma madre de convento sem o hábito. Donald Cinneto, ou Sr. Cinneto, era uma versão masculina da esposa, embora loura e ligeiramente mais estufada. Usava um cardigã xadrezado e colorido, tornando-o levemente… efeminado.

Depois de um cumprimento certamente mais comportado entre o louro e Mia, esta cumprimentou seus irmãos novamente com a mesma fingida surpresa. Nick aliviou-se ao ver que Lorenzo parecia feliz e alegre, mesmo sabendo que também era fingimento.

Quando Ethan pode, puxou-o para um lado discretamente.

— Eu já disse e vou repetir: na mesa de jantar, faça tudo o que eu fizer — avisou ao menor.

— Eu acho que eu sei comer. Como você todo dia, lembra? — Ethan deu-lhe um beliscão e Nick riu. — Por que tanto nervosismo? Quem deveria estar nervoso aqui era eu.

— Não relaxe, eu dei uma olhada na mesa de jantar. Acho que vi uns trinta talheres.

Trinta talheres fora um exagero. Sentado à mesa de jantar, Nicholas Hentz deparava-se com um prato metálico cujo guardanapo era dobrado de uma maneira impossível, dois garfos do lado esquerdo, duas facas e uma colher do lado direito, três (isso mesmo, três) copos, outro garfo, outra faca e outra colher um pouco menores dispostos perpendicularmente em relação ao prato, um pratinho menor e outra faca que parecia uma espátula. Teve que se conter para não chorar.

O Sr. Cinneto, que parecia estar sempre com aquele olhar impiedoso, estava ausente no momento, assim como a Sra. Cinneto. Nick sentava-se exatamente no lado oposto da cabeceira da mesa. Ethan estava ao seu lado esquerdo, e Lorenzo do lado direito. Mia estava ao lado de Ethan e o lugar ao lado de Lorenzo estava vazio, que é onde pensava que se sentaria a Sra. Cinneto. Nick podia observá-los a todos, e todos podiam observá-lo.

Parece um jogo mental, pensou, imaginando para que diabos serviam tantos copos. Faça o que Ethan fizer. Faça o que Ethan fizer. Cacete, faça o que Ethan fizer.

Na verdade, lembrava-se mais ou menos as funções dos talheres. A faca e o garfo externos, os menores, eram para a entrada. A faca e o garfo internos, os maiores, eram para o prato principal. Os talheres perpendiculares eram para a sobremesa, mas a função dos copos e do pratinho menor com a faca menor ainda continuava a ser um mistério.

Olhou para Lorenzo e viu que ele, discretamente, sentia com os dedos o modelo à sua frente.

— Lore — sussurrou. Ele virou o rosto. — Para que serve o prato menor?

— É o prato de pão. A faca é para passar manteiga. O maior não é um prato. É só um suporte para o prato.

— Ah, certo. E os copos?

— Não faço ideia — ele disse. Os três tinham tamanhos diferentes.

— O maior é para água — Mia disse, torcendo os dedos nervosamente. — O médio é para a bebida que acompanha o prato principal, e o menor é para a entrada. Não acredito que ainda me lembro de tudo. Faz anos que não janto à francesa. E não relaxe, isso é mais complicado do que parece.

Ela é realmente parecida com Ethan.

— Eu já jantei assim — Ethan declarou. — Uma vez. Acho que me lembro.

— Com quem? — Nick perguntou. Ele crispou os lábios, os olhos fixos nos copos a sua frente.

— Com Oliver — ele murmurou.

— Quem é Oliver? — Mia indagou. Ethan deu-lhe um sorriso.

— Depois nós te contamos. Seu irmão não virá?

Nick sentiu náuseas súbitas.

— Ele deveria vir. Acho que surgirá no meio do jantar para atrapalhar a todos.

Ou talvez encontre a Coruja primeiro, pensou, mas amaldiçoou-se logo depois.

Os pais de Mia surgiram de lugar nenhum e tomaram seus lugares a mesa. O ambiente ficou subitamente mais azedo.

Uma empregada veio servir a entrada. Elegantemente, ela pousou um prato redondo pequeno em cima do prato de serviço, enquanto outra enchia o copo maior de água e o menor de vinho branco. No prato, um caldo esverdeado e fumegante em que vários pedacinhos de bacon flutuavam.

— Caldo verde — Ethan sussurrou, com uma expressão levemente triste.

Por favor, não me diga que foi isso que você comeu no dia em que Oliver morreu. Nós ainda temos que voltar para casa a pé.

Nick lembrava-se de jamais começar a comer antes do anfitrião, e enquanto discretamente observava o Sr. Cinneto, a porta da sala de jantar abriu-se rudemente.

Leon Cinneto adentrou no recinto como um furacão no meio de uma cidade. Ele era um paradoxo, tão parecido com Nick e, mesmo assim, tão diferente. Apesar de também ter cabelos da cor do ouro, assim como o pai, eram muito mais compridos e lisos, chegando a serem quase femininos, o que combinava com os traços delicados. Apesar disso, usava um boné para trás e segurava um skate encardido numa mão e uma mochila na outra.

Jogou tudo num canto da sala e sentou-se energicamente ao lado de Mia.

— Oi, to atrasado? — Passou a vista nos outros pratos. — Ótimo, caldo verde.

Havia algo naquele garoto que agitava Nick por dentro. Leon parecia pulsar sua hiperatividade.

— Onde você estava? — perguntou a Sra. Cinneto, com um olhar severo.

— Por aí — ele respondeu, de boca cheia. Nada fazia um contraste tão grande quanto aquele skatista num jantar à francesa. — Qual a ocasião mesmo? — Olhou para Nick. — Ah, é. Sua filha de dezesseis anos está grávida.

Ao ver Ethan reprimindo um riso, Nick chutou seu joelho por baixo da mesa. Jeitosamente, ele permaneceu quieto.

— Quieto — disse o Sr. Cinneto. Aos risos, Leon voltou a tomar o caldo. Quando seu pai fez o mesmo gesto, o resto da mesa o repetiu, inclusive Nick.

O caldo, ou sopa (Nick não fazia ideia da diferença), estava delicioso, como não podia deixar de ser. Tomou o cuidado de não soprar ou fazer barulho ao tomar, assim como de não pôr os cotovelos na mesa. Ao terminar, lentamente partiu o pãozinho que estava no prato menor com a mão, devolvendo o resto, passou a manteiga e o comeu. Exatamente como Ethan fizera.

Até a Rainha sentiria orgulho de mim agora.

Conversa vai, conversa vem, Nick começou a se sentir mais relaxado. Leon estava estranhamente quieto, e era isso o que o incomodava. Ele parecia um tubarão submerso, esperando o momento certo para atacar. E Ethan não parava de olhar para ele.

Deu-lhe outro chute.

— O que foi? — ele sussurrou asperamente.

— Pare de olhar para o meu cunhado, você tem namorado e um irmão que já come todos os dias. — Ethan deu um sorriso idiota e provocante. Nick sentiu vontade de matá-lo com a faca de pão.

Era incrível como as empregadas esforçavam-se para manter os copos sempre cheios. Nick não gostava de vinho branco, mas tomou o copo inteiro e metade do de água, quando terminou a entrada. O prato redondo foi levado, junto com o copo de vinho já usado, a colher, o garfo e a faca da entrada.

Então veio o prato principal. O cheiro difundiu-se pela sala e trouxe água à boca de Nick, que estava tão quieto quanto poderia estar.

— Carne de porco assada com purê de maçã — Lorenzo sussurrou, mas, por algum motivo, todos na sala conseguiram ouvir.

— Como sabe disso? — Leon perguntou. — Você é cego.

Lore sorriu meigamente para ele.

— Eu tenho nariz, ao contrário de você, que parece não ter cérebro.

Mia cuspiu a água que bebia, gargalhando ruidosamente. Não parecia ser forçado, ela realmente parecia querer rir daquele jeito há um bom tempo. Para a surpresa de Nick, o Sr. e a Sra. Cinneto riram também. Leon ficou vermelho, se era de vergonha ou de raiva, Nick não soube dizer.

— Você fala italiano fluentemente? — A Sra. Cinneto perguntou, olhando para a criança ao seu lado. Lorenzo assentiu, mas antes que ela pudesse dizer algo mais, virou-se para a filha que ainda continha as risadas. — Meera, pare de rir do seu irmão.

Dessa vez, Nick quase cuspiu a água que bebia, olhando para Mia.

— Seu nome é Meera? — indagou, estupefato. Ela deu de ombros, dizendo:

— Mia é apelido. — Leon riu debochadamente.

— Engravidou uma menina cujo nome nem sabe. Que digno.

— Cala a boca — Mia ralhou.

— Já chega, vocês dois — o Sr. Cinneto disse.

O prato principal foi servido e comido quase em silêncio.

Nick voltou a experimentar aquela sensação de conforto. Por algum motivo, o silêncio caía melhor que a conversa, pois eliminava a sempre presente necessidade de impressionar seus futuros sogros. Leon fazia barulhos irritantes ao comer, mas Nick não se renderia àquele pequeno psicopata, não a seus cabelos dourados e seus olhos castanhos.

Pelo menos agora haveria mais chance de que Charlie nascesse loiro. Não que fosse pior se ele nascesse moreno.

Quando terminou a entrada, Nick recostou-se confortavelmente na cadeira. Foi aí que Leon gargalhou inesperadamente. Virou-se para Mia.

— Entãaaaaaaao — entoou. — Espero que seu filho seja louro, assim como todos os grandes leões dourados foram. É claro, se não fosse louro, não seria dourado. Mas santa mãe de Deus, por que você não escolheu alguém que soubesse dispor os talheres do modo certo no prato?

Nick sentiu todos os olhares virarem-se para si, inclusive o dos pais de Mia. De repente, todo o ar foi expulso de seus pulmões.

— O quê? — murmurou nervosamente.

— Vamos fazer uma aposta — Leon murmurou, com a boca cheia de pão, sem dar tanta atenção. — Se você colocar os talheres do modo certo, eu raspo o meu cabelo.

Não, isso não, por favor. Mia uma vez contara-lhe que o maior sonho de seus pais era que Leon cortasse o cabelo. Nick olhou para o próprio prato. O garfo e a faca estavam dispostos paralelamente no sentido das nove horas. Não via o que poderia estar errado.

— Eu… não sei — sussurrou. Leon riu debochadamente. Viu Mia mordendo o lábio, provavelmente contendo a vontade de cometer um homicídio. Ele se levantou, caminhou até Nick e passou a falar lenta e pausadamente, como se ele fosse retardado.

— Aqui, deixe-me ajudá-lo. O garfo e a faca ficam unidos paralelamente dentro do prato, com os cabos apontados para o lado direito — Eles estavam apontadas para o esquerdo —, na direção das quatro horas e vinte minutos, mais ou menos. A serrilha da faca é virada para o interior do prato, enquanto os dentes do garfo ficam virados para baixo, no modo francês. No modo inglês, eles ficam virados para cima. Aqui, deixe-me fazer isso por você, ou você pode acabar se cortando com a faca.

Quando Leon voltou a seu lugar, Nick sentiu-se estúpido como uma porta. Só de irritação, deu um chute na perna de Ethan. Ele olhou-o confuso, mas virou a cara quando viu seu olhar feroz.

O prato principal se foi e a sobremesa logo veio.

— Profiteroles com sorvete de creme — Leon entoou, como se ninguém ali soubesse. Nick não sabia, e se odiou por isso enquanto enfiava o garfo minúsculo no bolinho crocante recheado de sorvete e coberto com calda de chocolate.

— Então — disse o Sr. Cinneto. Aquela sensação de ansiedade voltou ao âmago de Nick. — Acho que essa é uma boa hora para discutirmos este… filho de vocês.

— E neto de vocês — Leon acrescentou, mas só recebeu um Shh irritado de sua mãe.

— Como assim… discutir? — Nick indagou, sentindo-se estranhamente desconfortável. Leon respondeu.

— Ele quer dizer que é bom vocês aproveitarem agora enquanto a gravidez está no começo para… — Fez um gesto como se cortasse o pescoço com um dedo, deixando a cabeça pender para um lado com os olhos fechados e a língua de fora.

Todos ali arregalaram os olhos, menos o Sr. e a Sra. Cinneto, Leon e Lorenzo, é claro, que não pode vê-lo gesticulando.

O quê? — Nick se engasgou. — Não, eu não quero que ela aborte o bebê.

— E eu não quero abortar o bebê — Mia completou furiosamente.

— Hm, então, você pretende assumir o bebê? — Sr. Cinneto perguntou, e Nick notou ali um levíssimo sarcasmo. — Quantos anos você tem mesmo?

— Pretendo. Vou fazer quinze anos mês que vem.

— Que gratificante — ele murmurou.

Mia mordeu novamente o lábio, irritada.

— Escute — disse Nick —, eu sei que nós fomos irresponsáveis e tudo mais, mas… Deus, ele é nosso filho. E o senhor não consegue nem imaginar o quanto eu o amo, e ele sequer está bem formado, ainda. Eu posso ter catorze anos e ser um pouco infantil, mas algumas pessoas continuam infantis em certos aspectos mesmo depois de adultas. — Como esperava, ele notou a indireta. — E ele é seu neto. Ou neta. De qualquer forma, nós vamos chamar a ele, ou ela, de Charlie. E… eu não tenho pais, nem avós, todos da minha família estão mortos, eu só tenho meus irmãos, então eu gostaria imensamente de que nós pudéssemos ter um bom relacionamento, porque eu quero que o meu filho tenha avós. Eu quero que ele tenha uma família que o ame. Uma família que não o ache indesejado.

— Porque, afinal de contas, ele é herdeiro de milhões de dólares. — Nick não precisaria nem ver quem falou isso para saber. Mia deu um tapa na cabeça de Leon, que permaneceu imóvel.

Eu não sei por que, mas ele me parece o tipo que mataria a irmã e o sobrinho para ficar com a herança. Bem, se depender de mim, Leon Cinneto não vai nunca ver sequer o brilho do meu ouro dourado.

— Porque, vocês sabem — Lorenzo sussurrou. — Ethan é bilionário.

Bem, já que não posso despertar o amor pela compaixão, por que não pela ganância? Lentamente, a carranca do Sr. Cinneto transformou-se numa neutra e então numa resignada. Estava claro que ele não via outra alternativa senão concordar com a gravidez cedo demais da filha. A Sra. Cinneto parecia um pouco mais relaxada após o discurso de Nick, e talvez, algum dia, sua resignação fosse substituída por felicidade. Talvez quando ela segurasse seu neto nos braços pela primeira vez.

— E quando será o casamento? — Leon murmurou, recebendo outro tapa da irmã.

Um pouco mais tarde, enquanto se despediam, Nick ouviu Mia falando com Ethan.

— Eu preciso da sua ajuda — ela sussurrou. Pensavam que ninguém podia ouvi-los.

— Para quê? — Ethan indagou. Nick a viu deslizando as duas mãos até a própria barriga.

— Eu sei que Nick tem as melhores intenções do mundo, mas eu não me engano. Ele é uma criança por dentro, e por mais que tente, eu sei que, uma hora, ele se cansará. Não de Charlie… mas do trabalho que ele dará. Eu preciso da sua ajuda porque você o criou desde pequeno e está criando Lorenzo também, e fazendo um trabalho maravilhoso. Eu preciso de você para criar o meu filho, o seu sobrinho. Porque ninguém saberia fazer isso melhor que você, Ethan.

— Você tem seus pais — ele argumentou.

— Meus pais são conservadores demais para que algum dia deixem de ver Charlie como um acidente. Aliás, eles têm dois filhos. Um deles engravidou com dezesseis anos e o outro é um delinquente. — Ela deu um riso triste. — E estou prestes a ser expulsa da escola. Isso só piora as coisas.

Nick viu o irmão mais velho abraçar a namorada carinhosamente. Ele deu-lhe um beijo na testa, olhando-a fixamente por vários segundos.

Ele a está hipnotizando.

— Eu vou. Você sabe que eu vou. — E Mia o agradeceu com outro abraço.

Quando voltaram para casa, tomaram cuidado de ir pela rua mais iluminada, bem pelo meio dela. Assim poderiam ver se alguém se aproximasse, fosse qual fosse a direção.

Nick só soltou o ar da respiração quando chegaram na mansão e trancaram as portas.

— Bom, pelo menos um jantar em que você foi deu certo — Nick falou a Ethan, vendo-o despir-se. — Eu ficaria mais nervoso se você segurasse minha mão para que eu me sentisse protegido, tipo como você fez com Oliver.

Ele dirigiu-lhe um olhar cansado.

— Cale a boca e vá tomar um banho.

— Prefiro tomar com você.

— Prefere transar comigo, você quer dizer.

— Sim.

— Estou cansado e cheio de comida francesa. Sem sexo hoje.

— Então me dê dinheiro, quero comprar uma coisa para Mia.

— O quê?

— Um anel.

Ethan já havia quase entrado no banheiro quando parou. Inconscientemente, ele tocou no anel de rubi e ouro branco que usava no dedo anelar da mão direita e no colar de ouro e diamante com as inscrições EN que usava no pescoço. Nick também tocou no seu, no que dizia NE.

— Para quê? — ele indagou desnecessariamente. Nick não se deu ao trabalho de responder. — Bem, noivados longos estão na moda ultimamente. Acho que não faz mal esperar uns três anos.

— Obrigado. Uns dez mil está bom. — Ethan deu uma gargalhada.

— Você é muito bobo de achar que vou te dar dez mil dólares para gastar em dois anéis de noivado. Três mil está ótimo e olhe lá.

— Sabe o tamanho da pedra de um diamante de mil e quinhentos dólares?

— Mais ou menos o tamanho que Charlie está agora no útero de Mia. Vá dormir.

— Mas…

— Boa noite, meu leãozinho.

Nick deixou o quarto de Ethan emburrado. Esperava pedir o dinheiro apenas depois de fazer sexo com ele, mas deveria ter percebido que ele dificilmente quereria transar àquela noite. Havia se lembrado demais de Oliver para sentir tesão.

Aquela criatura de olhos azuis e cabelos platinados estava incrustrada na mente de seu irmão por toda eternidade, controlando todos os seus movimentos.

Em seu quarto, olhou para o teto e ergueu os braços.

— Foi você que fez os pais de Mia servirem caldo verde à francesa de entrada para Ethan se lembrar de você e não me dar dinheiro? — indagou ao nada. Não sabia bem se realmente esperava uma resposta. — Por que, em nome de Deus, vocês comeram isso no Jagger’s Voice?

Estava tentado a perguntar a Ethan qual fora o prato principal, mas deixara isso pra lá. Ele já dera o dinheiro, agora era deixar de ser ingrato e tentar barganhar com o joalheiro.

No dia seguinte, Nick percebeu que sentiu vergonha de barganhar. Não sabia se era porque todo mundo naquela joalheria havia nascido em berço de ouro e aprendido a se portar assim ou porque se sentia um mendigo num restaurante francês. Bem, ele havia nascido em berço de ouro, mas sempre se comportara como classe média.

No fim, saiu da joalheria com dois anéis cujos diamantes deviam ser menores do que Charlie estava naquele momento. Mas não importava. Quando ele estivesse com aproximadamente três anos, os trocaria por pedras do tamanho da cabeça de uma boneca.

Combinara de se encontrar com Mia na praça IV do Jardim. Descobrira recentemente que cada praça do condomínio era marcada com um número romano. A praça I era a maior, a que tinha o parque em que Melchior levava os irmãos. A praça IV era a menor, no canto mais afastado, perto do campo de futebol, na verdade.

Enquanto Nick pegava o caminho, via que o trajeto estava vazio. Ainda bem, estava tão tarde que as corujas já deviam ter ido dormir.

A praça IV tinha apenas alguns bancos e uma árvore, um enorme e velhíssimo carvalho em seus últimos anos de vida, além de vários arbustos desflorados fazendo desenhos ornamentais bem-feitos.

O tempo tem estado tão frio que eu nem me dei conta de que estamos no meio da primavera. As flores ainda nem começaram a crescer. A natureza está louca, assim como as pessoas.

A praça estava vazia, Mia ainda não devia ter chegado.

E no momento em que Nicholas Hentz pisou no cimento, pensou em como ele estava desgastado. Olhe só, o líquido vermelho perdia-se todo em suas rachaduras.

— Nick! — Ethan surgiu de algum lugar. — Eu não disse para você me esperar? Não quero que ande por essas ruas soz…

Nick não estava ouvindo, estava de joelhos, chorando lágrimas de sangue que não rolavam por seu rosto, porque não existiam. Chorava por dentro, e doía mais do que se dilacerassem sua carne com lâminas. Mas sorria, sorria porque estava no meio de um sonho de primavera: nos arbustos, as flores finalmente desabrochavam, sorrindo para os raios de luz.

— Nicholas. — A voz de Ethan era um sussurro de outro mundo. — Nick, Nick, por favor, não olhe…

Refletindo nos olhos pretos de Ethan e Nicholas Lemnsack Hentz, Mia Cinneto estendia-se caída no cimento, morta.

Notas finais
Triste, não é? :3
Bem, Nick tem 14 anos, óbvio que ele não poderia ter um filho tão cedo. :D Espero que me perdoem. ♥
Esse capítulo deu um trabalho dos diabos para ser escrito, especialmente na parte do jantar. Pelo menos, agora eu já posso jantar à francesa. :DDD
Ah, a temporada está acabando. Depois desse capítulo, há apenas mais dois e o epílogo, que será postado dia 31 de dezembro.
Até lá. :3
PS: se Charlie tivesse nascido, ele seria moreno, não loiro.