Como Vivem Os Anjos
64 O Festim Dos Deuses
Notas iniciais
There is a house in New Orleans
They call The Rising Sun
And it's been the ruin of many other poor boys
And God, I know, I'm one.
“Há uma casa em Nova Orleans.
Eles a chamam de Casa do Sol Nascente
E tem sido a ruína de muitos pobres garotos
E, Deus, eu sei que eu sou um.”
(House Of The Rising Sun)
Que o Universo se abra e soltem as bruxas celestiais, para que as magias sejam derramadas interligando o céu e a terra. Perpetuando o amor, purificando os espíritos, iluminando as almas para flutuarem na leveza da dimensão sem o controle do tempo e o limite do espaço.
OoO
45 dias depois.
— Os Estados Unidos são mesmo inacreditáveis — exclamou Timothy Stotch. — Essa cidade não tem hospital ou corpo de bombeiros, só tem uma delegacia de polícia, meia dúzia de lojas, mais vacas que gente e a avenida principal parece um posto de gasolina, mas tem três Mc Donald’s.
Serviu o que deveriam ser os almoços de seu irmão menor, Vittorio Stotch, de seu primo, Theodor Stotch-Windsor, e do primo dele, Pamius Windsor. Uma coisa borrachuda e amarela escorregava para fora dos sanduíches, mas Tim não se importou. Seja lá o que fosse aquela coisa, não era queijo.
Theo era um garoto jovem. Tinha olhos verdes e cabelos loiros agora curtos. Fora muito difícil convencê-lo a cortá-los, mas no fim Tim conseguira.
Vitto tinha mãos pequenas se comparadas ao sanduíche. Theo precisou forrar seu colo com um guardanapo para que o líquido gorduroso não sujasse suas roupas. Ele havia passado por um delicado tratamento de catarata há pouco tempo, por isso os óculos escuros. Diferente de Theo, tinha cabelos longos que quase batiam em seus ombros, e originalmente eram escuros como petróleo, mas agora um triste tom cinza-escuro tomava conta como um fungo. Vitto tinha apenas onze anos, mas possuía marcas de idade no rosto magro demais.
Pamius era o mais alto de todos eles. Seus cabelos também eram longos, mas ondulados e da cor do chocolate. A pele era da cor do bronze e seu rosto era cheio de sardas alaranjadas. Havia uma faixa da mesma cor puxando seu cabelo para trás para afastá-lo do rosto, como uma tiara. Era o mais velho, mas era claro ali quem é que mandava e quem obedecia.
Estavam na varanda de um hotel pequeno de uma cidade no interior do Texas, quase na fronteira com a Louisiana. Já estiveram em muitos estados americanos. No último mês e meio, passaram por Nevada, Utah, Arizona, Novo México, Colorado, Wyoming, Nebraska, Kansas, Oklahoma, Missouri, Kentucky, Tennessee, Arkansas e agora Texas, nessa ordem. Tudo indicava que a Louisiana era o próximo.
— Estou cheio — disse Vitto. Ele nunca conseguia comer muito. — E cansado de ficar em hotéis baratos. Deveríamos voltar ao Colorado. Tem certeza de que não possuímos outra mansão abandonada nesse país?
— Só em Nova York — Tim respondeu. O chalé em Aspen fora um golpe de sorte. Não eram muitas as pessoas que podiam passear por condomínios de luxo e descobrir que eram donos de uma casa completamente equipada. De qualquer forma, nunca podiam ficar muito tempo no mesmo lugar.
Quando perguntado, essa era a história que Tim contava: Tim e Vitto eram irmãos e moravam em Utah com os pais quando ambos morreram num acidente. Paralelamente a isso, Theo morava com os pais na Louisiana quando ambos se divorciaram. Como o pai de Theo era irmão da mãe de Tim e Vitto, ele foi para Utah para cuidar dos sobrinhos. Há algumas poucas semanas, Theo e seu primo Pamius foram passar férias em Utah quando o pai teve que voltar à Louisiana para cuidar de algumas coisas referentes à mudança, deixando o filho e os sobrinhos sozinhos. Nesse meio tempo, a mãe de Theo morreu, e agora os quatro dirigiam-se à Louisiana para o enterro. Até uma semana atrás, quando estavam no Arkansas, o pai de Theo estava voltando para o Texas, mas agora que estavam no Texas, ele estava na Louisiana. O estado mudava de acordo com suas necessidades. Viajavam no trailer do pai de Theo.
Grande e tola mentira, mas é claro. Os quatro roubaram o trailer num estacionamento abandonado alguns estados atrás. Trocaram a placa, pintaram-no e redecoraram todo o seu interior após livrarem-se do último trailer que possuíam no Colorado. E, mesmo apresentando-se como Timothy, Vittorio, Theodor e Pamius, continuavam a ser Nicholas, Lorenzo, Lincoln e… bem, Pan ainda era Pan.
Se Nick achara o trajeto do GPS tortuoso na Califórnia, nem se comparava aos ziguezagues malucos que ele andava fazendo nos EUA. Chegavam a passar menos de uma hora num único estado antes de partir para outro, como se atravessassem a fronteira apenas para marcar presença. Nick tinha uma impressão forte de que estava seguindo um helicóptero. Ele era ativado por algumas horas até parar numa cidade interiorana de um estado qualquer, então era desligado sem aviso, obrigando os quatro garotos a se hospedarem na tal cidade por pelo menos um dia antes de colocarem o pé na estrada. Isso acontecia havia quarenta e cinco dias, desde que deixaram Las Vegas. Não haviam tido nenhuma informação sobre Ethan ou os Lancaster.
Era o aniversário de dois meses do início de sua pequena aventura. A polícia da Califórnia já descartara a possibilidade de Nicholas Hentz estar no país muitas semanas atrás. Estava sendo visto em uma dezena de lugares diferentes nos EUA. O caso fora passado para o FBI, mas eles próprios pareciam estar tendo dificuldades. Como era de se esperar, os Lancaster possuíam infiltrados nas mais altas esferas policialescas para confundirem e atrapalharem indiretamente as investigações. Nick sabia que desde que assim fosse o desejo dos Lancaster, ele nunca seria pego pela polícia.
Olhou para seu dedo do meio. O Anel da Matriarca sumira.
Há algumas semanas, quando todo o resto de seu dinheiro simplesmente evaporara, tomou uma decisão difícil que mataria qualquer historiador ou ourives do coração. Isso aconteceu no Kansas, na loja de penhores de uma cidadezinha pequena.
— Quanto me dá por esse brinco? — perguntou ao homem detrás do balcão estendendo seu brinco de ouro e safira. Ele olhou-o por um longo tempo antes de dizer:
— Dois mil dólares.
Era ridiculamente pouco. Os remédios de Lorenzo custavam os olhos da cara e ainda havia gasolina, alimentação e hospedagem, sem falar nas fantasias que tinha de fazer se quisesse sair a público para comprar essas coisas. Foi essa dificuldade que o levou a obrigar Lincoln a cortar seu cabelo longo. Ele só aceitara depois que Nick o beijara. Por quinze segundos. Usando a língua.
O desespero começava a tomá-lo quando olhou para seu dedo. Aquele anel absurdamente lindo, todo azul e prateado, adornado por uma pedra facetada gigante como a cabeça de uma boneca, que tantos suspiros e olhares de inveja já provocara. Feminino também, mas quem se importava?
— E quando a isso? — Estendeu-lhe o anel. Ele usara um mini microscópio para examinar o diamante. Nick podia sentir sua incredulidade crescendo enquanto o observava. O Diamante Hentz era transparente e perfeito. Como será que ele reagiria se visse aquela pedra do tamanho de uma maçã guardada num cofre num banco privado da Suíça?
— Cento e cinquenta mil dólares — ele disse. Nick sentiu vontade de tomar-lhe as joias de volta. Aquele diamante carregava um histórico de cento e vinte anos de idade. John Francis Hentz o achara na África do Sul em 1887 e com ele criara a Kruger-Vorheel Company em 1889. Por seu valor histórico, valia pelo menos quinze milhões de dólares. Mas é claro que o homem não poderia saber que aquele era o lendário Diamante Hentz.
— Posso conseguir mais se o vender a viciados de rua.
— Duzentos e vinte mil.
— Prefiro triturá-lo com um martelo e vender pedrinha por pedrinha.
— Trezentos mil.
— Meu corpo vale mais que isso.
— Trezentos e cinquenta mil, é minha última oferta.
Nick sorriu sarcasticamente.
As negociações duraram mais dez minutos. No fim, conseguiu espremer seiscentos e cinquenta mil dólares do homem dos penhores. Ele disse que no dia seguinte teria o dinheiro. Deu um ticket a Nick e disse que tinha seis meses para resgatar o diamante pelo mesmo preço que o vendeu, passado o tempo o homem o venderia.
Esperava realmente que tudo aquilo acabasse em seis meses no máximo. Precisava desesperadamente voltar a ser rico. Não fazia ideia de quanto esforço tinha-se que fazer para comer biscoitos genéricos no café-da-manhã após passar meses comendo pato e caviar com geleia de morango. Ah, e Ethan o estrangularia se soubesse que Nick havia penhorado as inestimáveis joias de uma família que foi construída encima delas. Logo depois teria um infarto e morreria também. Tão caridoso.
Mas tudo bem, não era hora para se preocupar com futilidades. Sustentavam-se com aquilo desde então. Os remédios de Lorenzo eram caros, mas valiam a pena se com eles seu irmãozinho não se dobraria de dor de hora em hora e conseguiria colocar alguma coisa no estômago. E mesmo assim… fora muito difícil para ele se acostumar à cadeira de rodas. Perder a habilidade de andar foi uma deficiência grave que deu início a um ciclo de outras perdas. Lorenzo raciocinava com mais lentidão, perdia a atenção com facilidade e esquecia-se de tudo. Parecia Nick com treze anos.
No entanto, lembrava-se com perfeição de Rowan Pyatt dizer-lhe no ano anterior que no Dia das Bruxas aqueles que descendiam de Atheneus fortaleciam-se inexplicavelmente. Estavam a cinco dias do 31 de outubro. Pessoalmente, Nick desejava que o GPS se movesse para a Louisiana nesse dia. Para Nova Orleans. A cidade mais mal-assombrada dos Estados Unidos.
Quanto ao incidente no motel, saíra uma pequena notícia num site de notícias californiano sobre um incêndio que destruíra um motel na cidade de Harmount, com uma única vítima, o dono. Ao que parece, ele tinha o costume de guardar galões de gasolina dentro do quarto e um deles, inexplicavelmente, entrou em combustão, iniciando uma reação em cadeia. Não havia mais explicações sobre aquilo. Nick sabia, no entanto, que quando descobrissem os ferimentos nos ossos do esterno do velho, provindos de quando enfiara a garrafa no peito dele, descobririam que ele havia sido assassinado e que o incêndio foi criminoso. O que seria dele? E quem se importava?
Mas esse não era o maior de seus problemas. Havia muitos outros. Primeiro, era difícil se lembrar de que não estavam mais na Califórnia, e sim nos EUA, e que ali ele não era maior de idade. Tiveram que fazer a reserva naquele hotel no nome de Pan, que graças a Deus tinha dezenove anos, mas Nick também precisava fazer com que ele lhe comprasse cigarros e fumá-los escondidos. Aí o problema era duplo. Estava fumando quase dois maços por semana. Esperava não morrer de câncer antes de Lorenzo.
Ah, e havia mais um problema, mas este estava sentado numa poltrona presidencial no topo do Palácio Real Hentz, sede da Anhert Corporation.
Os charutos cubanos de Ethan estavam acabando, como Melchior bem notou quando abriu a caixa para acender um. Por razão do destino, talvez, os dois garotos tinham o mesmo tamanho, por isso os ternos dele serviam-lhe perfeitamente, assim como serviram em Jules du Pont, mas Jules não precisava deles agora porque estava numa cama de hospital.
Animado com seus pulmões cheios de nicotina, Melchior levantou-se da poltrona presidencial do escritório de Ethan e foi olhar através de uma das janelas que iam até o chão a cidade de Middleland se estender lá em baixo. Seus pensamentos voltaram ao modo como se colocou na vice-presidência da Anhert e sua mente flutuou em lembranças…
Há um mês e meio, estava do lado de fora da casa de John Fauntleroy, confortavelmente escondido nos arbusto de seu enorme gramado. Havia acabado de deixar a mansão após concluir sua troca de substâncias no armário de remédios. Ninguém o havia visto.
Uma Mercedes apareceu no fim da rua e entrou na garagem silenciosamente. Melchior contou cinco minutos, levantou-se com a dignidade de um lorde, aproximou-se da porta de entrada e tocou a campainha. Uma das empregadas veio abrir-lhe. Mostrou-lhe seu melhor sorriso.
— Desculpe-me por aparecer assim, mas meu nome é Melon Chioren e eu preciso urgentemente falar com John Fauntleroy.
Ela o levou à sala de estar e pediu-lhe que esperasse. Melchior estranhou entrar novamente naquela casa sem necessidade de se esconder. Fauntleroy surgiu após poucos minutos. No momento em que fitou seus olhos por trás dos óculos de meia-lua, soube que ele sabia por que viera ali.
— Sr. Chioren — ele disse cordialmente. Era estranho que o tratasse por senhor. Melchior era cinquenta e cinco anos mais novo que ele. — Gostaria de discutir seus assuntos durante o jantar?
— Ora, por que não?
Foram à sala de jantar. O lugar era alto, suntuoso e bem decorado, talvez com uma certa austeridade exagerada, e havia uma corrente de ar que produzia um som sinistro quando se chocava contra a pedra. Um enorme armário branco com portas de vidro exibia a louça e a prataria; havia pinturas caras nas paredes. A mesa de jantar era comprida, de mogno escuro, lindamente montada para o jantar de apenas um homem, agora dois.
As talheres eram pesadas e de prata, os pratos eram brancos e tinham lindos ornamentos. A comida estava deliciosa. Italiana, pesada e regada com molho de tomate; um vinho tinto fora servido. O clima da sala era pesado, e Melchior só começou a falar após chegar à metade da taça.
— Acho que sabe por que estou aqui. — Não adiantava usar conversa fiada com Fauntleroy tanto quanto não adiantava usar com Ethan. Ele provavelmente sabia de tudo que Melchior já havia feito.
— Tem a ver com o fato de você querer revelar sua verdadeira hereditariedade? Jules du Pont me enviou um e-mail.
— Ethan já mencionou que fui eu quem contou isso a ele? Admito que eu não tinha certeza na hora. Eu havia descoberto há alguns meses um diário de minha finada avó Cistie Chioren em que ela relatava com paixão o ardente caso amoroso que teve com seu chefe, Samuel Hentz. Eu não achei mesmo que pudesse ser o Samuel Hentz, mas, bem, se não fosse, Cistie deve ter sido a melhor escritora de todos os tempos. Estavam lá, todos os fatos que cercaram a vida de Samuel durante todos os dez anos em que eles ficaram juntos. Ela tinha vinte e cinco anos e ele tinha quarenta, e quando terminaram ela tinha trinta e cinco e ele tinha cinquenta. Ele continuava sendo um grande magnata e ela continuava uma secretária.
— Não precisa me narrar fatos dos quais sei. Eu vivenciei tudo isso. Sou advogado da família Hentz há quase cinquenta anos. Fui advogado de Samuel a vida toda e meu pai, avô e bisavô foram de John Daniel e John Francis. Eu sei mais sobre os Hentz do que você jamais saberá. E também sei que convidar você a se juntar a essa família pode muito bem ser a pior ideia que já ouvi em toda a minha vida.
— Está exagerando. Mantive muito bem um segredo que poderia destruir Ethan. Acho que você sabe do que falo.
— Você manteve o segredo a princípio porque especulava o que poderia ganhar se denunciasse Ethan, mas então, quando finalmente se decidiu por denunciá-lo, percebeu que já havia se passado tanto tempo que seria acusado de encobrir um assassinato. Você deve ter se odiado por isso. Foi uma grande estupidez.
As mãos de Melchior apertaram-lhe joelhos por baixo da mesa. Vinha ficando cada vez mais difícil controlar seus impulsos de raiva.
— Está bem, vamos falar de outra coisa. O Caso Lafferty está encerrado e uma inocente foi presa por isso, não precisamos nos preocupar com mais nada. Creio ter sido bem generoso em deixar meu projeto com o Centro Médico Hentz mesmo após Ethan me expulsar do prédio.
— Pegue de volta. Se quiser, ligo para o centro e ordeno que interrompam o projeto imediatamente.
As unhas de suas mãos fincaram-se nas palmas. Conversar com John Fauntleroy era impossivelmente parecido com conversar com Ethan.
— Não quero isso. Iria prejudicar a Anhert e pararia uma coisa que vai salvar milhares de pessoas com câncer. Mas você falava sobre gerações e eu andei pensando que meu pai nasceu em 1970, enquanto Mary Alice nasceu em 1973. Tecnicamente, ele foi o primeiro filho de Samuel. Tecnicamente, ele é e sempre foi o herdeiro da família.
John Fauntleroy riu. Aquilo pareceu zomba.
— Samuel teve o primeiro filho com treze anos de idade. Ele sempre foi muito curioso à respeito do corpo humano. Ele nasceu e viveu durante décadas num tríplex em Nova York que Ethan ainda possui hoje em dia. Quando tinha treze anos, se apaixonou por uma de suas criadas e a engravidou sem que os dois soubessem bem o que haviam feito. John Daniel mandou a moça embora para evitar um escândalo na sociedade nova-iorquina e nunca mais se soube dela ou da criança. Depois, aos quinze anos, ele começou a ter um caso com um de seus criados. O rapaz também tinha quinze anos e era italiano. Isso foi em 1945. Todas as vezes que o rapaz sentia vontade de terminar o relacionamento, pois de Samuel nunca se podia esperar fidelidade, ele o ameaçava mandá-lo de volta à Itália, que na época estava arrasada pela derrota na Segunda Guerra Mundial. Era a pior coisa que se podia pensar. Ele manteve o caso até se cansar do rapaz e, por fim, realmente o mandou de volta à Itália. Não se iluda, Melchior. Sua família não é a única Hentz ilegítima do mundo. E também não será a única a ser arrasada.
Melchior levantou as sobrancelhas.
— Arrasada?
— É isso que acontecerá se você fizer alguma besteira.
— Está me ameaçando?
— Estou. — Ele tomou um gole do vinho calmamente. — Mas tudo porque eu sei que é o que Ethan faria, assim como faria a mãe, o avô, o bisavô e o trisavô dele.
— Não tenho medo dos Hentz. Eles não estão exatamente em posição de discutir. Ethan está sequestrado e provavelmente prestes a morrer, Nicholas é fraco demais para sobreviver por muito tempo, ainda mais com outro irmão morrendo de câncer, e a única coisa que segura a Anhert é um garoto de dezesseis anos. Ela está perdendo mais o valor a cada dia. Sem um Hentz, a empresa vai cair.
— Bem, Jules é parente de Ethan.
Ele tomou outro gole de vinho enquanto degustava tranquilamente a comida. Estava tão imperturbável que os dentes de Melchior começaram a tiritar. Teve que apertar os joelhos e baixar a cabeça para controlar a adrenalina. Por que sentia tanta vontade de gritar e agredir alguém?
— Eu sei disso. Não precisa…
— Ele não chega a ser um Hentz porque não é descendente de John Francis, mas os trisavós dele são na verdade tetravós de Ethan. Se houver qualquer problema, muito provavelmente alguém vai jogar essa informação na mídia. Ele pode ter dezesseis anos, mas tudo o que precisa fazer é assinar contratos.
— Sim, exatamente, é tudo o que ele faz! — Melchior bateu com o punho na mesa, os dentes tremiam. Não soube por que fez aquilo. — Ele não serve para nada, só para ser namorado de Ethan. Ele não comanda, ele não lidera, ele não é um presidente.
— Na verdade, ele é vice-presidente.
Respirou profundamente, tentando obrigar seu coração a bater mais devagar. Aquilo era ridículo.
— Então, é isso — concluiu. — Não vai confirmar os fatos quando eu for à mídia e disser que sou um Hentz.
— Não, não vou, e sei que não vai fazer isso. Se o fizer, Jules muito irritadamente irá chamar uma coletiva de imprensa para desmentir os fatos, dizer que é muita imoralidade que você comprometa a fidelidade de Samuel para com a esposa e que está dizendo isso apenas para se promover. Ele também pode relembrar a todos o quão insensível é você fazer isso quando Ethan está sequestrado, Nicholas e Lorenzo foragidos, Lorenzo com câncer… enfim, acho que você entendeu. Seria sua ruína. Compreendo você ser um parasita megalomaníaco, mas não é estúpido.
— Do que me chamou? Deus, Ethan corroeu sua cabeça como nunca.
Ele sorriu novamente.
— Melchior, durante cento e vinte e cinco anos minha família ajudou os Hentz a comandarem o mundo. Meu bisavô foi o primeiro advogado da Kruger-Vorheel. Durante cento e vinte e cinco anos, os mantivemos vivos e fora da cadeia. Não é você que vai mudar isso. Você nunca conseguirá superar nenhum membro do clã porque você é um bastardo ilegítimo. Devia aceitar sua posição e parar de querer derrubar quem está acima.
Melchior se levantou.
— Esse é o problema de quem se ergue muito alto. Quanto mais alto, maior a queda.
— Palavras vazias.
— Obrigado pelo jantar, eu sei onde é a saída. E se esperava que eu mandasse a Nicholas o um milhão de dólares que ele pediu, pode esquecer.
— Fique com o dinheiro, é puro trocado. Mandarei eu mesmo.
Deixou a sala de jantar e a mansão pisando forte. Imaginava modos violentos de matar John Fauntleroy quando lembrou que já criara um meio sutil onde ele não seria culpado de forma alguma, mas agora aquilo parecia pouco demais. Queria algo mais parecido com usar um lança-foguetes na casa dele. Se o velho tivesse cooperado em fazer de Melchior um Hentz legítimo para que seus planos pudessem continuar, teria dado um jeito de desfazer o envenenamento, mas não era o caso.
Bem, para o inferno com isso. Ele não fará falta para mim.
Naquela noite, Melchior hackeou o e-mail de John Fauntleroy e enviou a resposta à pergunta de Jules. Imitar a escrita do velho foi fácil. Ele não viveria o suficiente para desmentir aquilo, de qualquer forma.
Na manhã seguinte, John Fauntleroy foi encontrado morto na cama em sua mansão em Vanderbilt Hills. Após a necropsia, foi confirmado o envenenamento por insulina fora da validade, o que foi concluído como tendo sido um erro da fábrica.
É claro que ninguém pensou em ligar Melchior ao caso, já que, teoricamente, ele havia partido para Los Angeles um dia antes. Deveria ir a uma convenção de escritores, mas havia pego gripe estomacal e ficado no hotel. Um paparazzi havia fotografado sua sósia na varanda do hotel. Ninguém nem imaginava que era uma sósia. Se perguntassem às empregadas de Fauntleroy e elas dissessem que Melchior apareceu em casa, acabariam associando-as com demência e perda de capacidade mental. Eram todas muito velhas, uma era cega, nada demais.
Uma semana após sua morte, Jules du Pont finalmente se rendeu e confirmou a veracidade dos fatos quando Melchior foi à mídia para dizer que era descendente de Samuel Hentz. Foi um rebuliço muito grande dentro de sua família, mas não importava. Jules lhe informara que como era descendente de John Francis e maior de idade, seu nome havia sido automaticamente posto na linha de sucessão à empresa, só atrás de Nicholas Hentz, que obviamente se encontrava ausente.
Só havia mais uma coisa na frente de Melchior, uma coisa loura e irritante. Depois de Fauntleroy, começou a armar planos para se livrar dele. No entanto, não foi preciso porque, tragicamente, há algumas semanas atrás, Jules havia sofrido um acidente de carro. Enquanto passava por uma rodovia, um outro carro fechou-o em alta velocidade, os dois bateram e capotaram. Ele não havia morrido, mas estava muito bem internado no Middleland Hentz Hospital. Em coma.
Melchior não tivera nada a ver com aquilo, mas gostava de ver como um sinal dos céus de que estava destinado a ocupar o cargo que agora ocupava. Após a ausência de Jules, os valores da Anhert despencaram vertiginosamente. Negócios multimilionários foram quebrados, empresas pagaram milhões em multa para saírem de contratos, portas foram fechadas, executivos importantes do alto escalão da empresa se demitiram e milhares de trabalhadores normais foram mandados embora para evitar que os números ficassem no vermelho.
Em outras palavras, a Anhert Corporation estava prestes a fechar as portas.
Foi aí que Melchior recebeu uma ligação de Lauren Mayfair e Liam Stonem. A coisa era muito simples, dissera ela. Tudo o que eles precisavam era de seu nome, sua imagem e sua assinatura. Seria mais difícil gerir a empresa sem John Fauntleroy e com metade da equipe de diretores dos departamentos compostas por homens novos, mais jovens e mais inexperientes, mas eles dariam um jeito. Também era difícil ignorar o processo multimilionário que os parentes de Fauntleroy estavam promovendo contra a empresa, mas tudo bem. Ethan logo seria encontrado.
Isso foi há mais de três semanas. Melchior ainda estava no topo do Palácio Real Hentz, mas não por muito tempo. A empresa estava indo por água abaixo. Estavam tendo dificuldades até para cobrir todas as despesas que um prédio de noventa e cinco andares possui. A coisa mais irritante era que Ethan possuía uma fortuna de três bilhões de dólares que ninguém, além de Nicholas Hentz e Lorenzo Barcarolli — quando este último chegasse à idade legal, coisa que nunca aconteceria — podia tocar. No entanto, fuçando o testamento de Ethan sem que Lauren Mayfair soubesse, Melchior descobrira o destino do dinheiro. Sem filhos, sua fortuna iria para os parentes mais próximos que fossem descendentes de John Francis. A família Chioren.
Esse era o objetivo de Melchior. Falência da Anhert e fortuna de Ethan.
Sem um tostão, Nick Hentz estava com os dias contados. Jules não era descendente de John Francis e Lorenzo iria morrer — ele também não era descendente, mas estava incluso no testamento. Melchior era o parente mais próximo que ele tinha por ser primo de primeiro grau, e agora todo mundo sabia disso. No cargo da vice-presidência, tudo que precisava era uma confirmação real da morte de Ethan e de Nicholas para acabar com os Hentz de uma vez por todas e nunca ser pego por isso.
O plano perfeito. A vida era boa.
Só incomodava jamais ser capaz de fazer nada àqueles que sequestraram Ethan por eles serem poderosos demais. Por enquanto. No futuro, quando Melchior fosse um magnata multibilionário, o sobrenome Chioren valeria tanto quanto o Hentz e os Lancaster. Eles seriam a família, a religião, o clã. Chioren. Dominaria o mundo com sutileza e sussurros e ninguém nunca mais zombaria dele por ter o nome de uma fruta.
Não havia muito o que fazer agora. Só esperar Jules, Ethan e Nicholas morrerem e a Anhert entrar em falência. O tempo e os Lancaster se encarregariam disso. Eles não podiam se recusar a morrer pra sempre.
Admirou o Anel do Patriarca de Ethan em seu dedão. Aço negro coberto de diamantes azulíssimos com uma enorme pedra transparente de mais de cem anos de idade adornando-o. Belo, lendário e inestimável. Não encontrara o Anel da Matriarca em parte alguma — talvez estivesse no cofre escondido por trás do Rembrandt, aquele cujo código Melchior ainda precisaria decifrar. Esperava que Nicholas não estivesse com ele ou poderia fazer algo estúpido, tipo penhorá-lo por vinte vezes menos do que valia.
Desde aquela noite em Las Vegas, Honey não o olhava mais nos olhos.
Ethan era obrigado a vê-lo entrar com suas refeições três vezes por dia e as últimas notícias e não ouvir sua voz funcionar nenhuma vez. Quase sentia saudades de ouvir o ódio e toda aquela idolatria estúpida por Devon presentes nela. Honey não o tocava mais, não ousava pousar seus olhos em parte alguma de seu corpo e ficava estritamente o tempo necessário. Também diminuíra seu tempo de refeições de dez para sete minutos.
Não agira sozinho. Aquele idiota jamais poderia decidir coisa alguma. Recebera ordens.
Ethan não se lembrava muito bem da última noite em Las Vegas. Suas últimas lembranças — as coisas as quais lembrava bem — eram a hipnose que promoveu em Honey e em como conseguira se livrar das correntes. Então aproximava-se da porta do container e tudo se apagava. Acordara na cama, preso com correntes duplas, o caminhão rodando e Honey sem lhe dirigir o olhar. Fosse o que fosse, haviam descoberto sua habilidade que nem ele sabia que tinha e se preocupavam em jamais deixá-lo que a usasse.
O menino não reagira nem quando Ethan demonstrou saber seu nome.
De qualquer modo, essas preocupações diminuíram há um mês e meio, quando ele chegou numa manhã com seu café da manhã e um tablet contendo as últimas notícias. A primeira manchete que Ethan vira foi a morte de John Fauntleroy. Também foi a única manchete porque a partir daí ficara tão histérico que Honey foi obrigado a sedá-lo. Foi quando acordou que deixou-se chorar. John o ajudara a conquistar sua maioridade e a tomar a guarda de Nick quando todos estavam contra ele, o ajudara a comprar a agência de publicidade de Romney Lovegood e a fundar a Anhert. Seus antepassados advogaram por seus antepassados durante cento e vinte e cinco anos, mas agora a linhagem acabara. Os Fauntleroy haviam morrido para sempre.
Nos anos 90, quando Samuel Hentz ainda reinava e Mary Alice estava na Faculdade de Economia de Harvard, antes mesmo de conhecer Charles Lemnsack, John lecionava uma das matérias do curso de Direito. Foi assim que conheceu Charles e foi assim que incentivou o relacionamento dele com a filha de seu patrão. Eles se casaram em 1994 e Ethan nasceu um ano depois, com ambos ainda na faculdade. Ethan se perguntou como exatamente eles cuidaram de um bebê e de uma faculdade ao mesmo tempo. Talvez tivesse sido cuidado por alguma estranha.
Não importava mais. Todas aquelas pessoas estavam mortas.
Após a graduação na faculdade em 1997, os dois voltaram à Califórnia e Charles convidou John para começar uma agência de advocacia juntos em Middleland. Ele aceitou, deixou o cargo de professor e voltou à Califórnia, trabalhando paralelamente na agência e na Kruger-Vorheel. Sua especialidade era a família, mas ele era graduado em outras áreas. Mary Alice aceitou um cargo alto na administração da empresa, pacientemente esperando seu pai lunático morrer de exaustão.
Acabou que Samuel Hentz morreu, Mary Alice assumiu a presidência da Kruger-Vorheel com apenas vinte e sete anos e a desmantelou, tudo isso no ano 2000. Mesmo após a empresa ter acabado, manteve John como advogado da família Hentz, e depois que fundou a ONG Lemnsack Hentz World Donations, em 2001, contratou a Lemnsack & Fauntleroy através dela. Dois anos depois, em 2003, Charles finalmente decidiu deixar a agência para se dedicar inteiramente à ONG. Talvez o nascimento de Lorenzo naquele ano o tivesse incitado a isso. Foi aí que John promoveu Lauren Mayfair a sócia e chamou Liam Stonem, formando assim a Fauntleroy, Mayfair & Stonem.
O casal de ouro morreu, mas seus dois filhos ainda viviam, sozinhos e amedrontados. Ethan se perguntou se ele já suspeitara do caso amoroso que manteve com Nicholas. Seria possível? Estando tão ciente das loucuras amorosas de Samuel, talvez fosse. Ethan gostaria que seu avô ainda estivesse vivo. Poderia ensiná-lo muito. O que ele fez com aquele garoto italiano nos anos 40 foi particularmente cruel, mas ainda assim admirável, como julgara ao ler o caso no Livro Hentz.
Demorou para se recuperar da morte de John, demorou ainda mais ao saber que Melchior não podia ter culpa daquilo por estar em Los Angeles na hora — e havia uma foto num hotel que confirmava isso. No entanto, as coisas ficaram piores a partir daí.
A legitimação de Melchior como um Hentz foi simplesmente a coisa mais arrepiante e aterrorizante que Ethan já vira em toda a sua vida. Foi como uma grande nuvem de desespero e Sombras pairando sobre sua família, com raios, furacões e trovões ensurdecedores. Pela política da Anhert, aquilo significava que Melchior agora tinha direito à sucessão da empresa se Ethan morresse, coisa que poderia acontecer a qualquer momento.
Mas Jules ainda existia, graças a Deus.
Isto é, até o acidente de carro que ele sofrera e que o pôs em coma.
Como se não bastasse o fato de ver a pessoa que amava à beira da morte, fora obrigado a ver aquele maníaco psicótico de cabelos cinzentos e olhos violeta numa coletiva de imprensa falando que faria o possível como vice-presidente para reerguer a companhia. Aquilo era absurdamente ridículo. Melchior tinha dezesseis anos de idade e na maior parte do tempo comportava-se como um deus, mas naquela coletiva era o estereótipo perfeito de um nerd estúpido. Não punha confiança alguma na voz. Fazia aquilo de propósito para amedrontar os investidores.
Estava dando certo. A cada dia que se passava, a empresa perdia mais e mais dinheiro. A pior parte era que os outros empresários do mundo estiveram tão receosos que a Anhert pudesse ficar grande demais que agora que a viam descer ladeira abaixo, nada faziam para ajudá-la. Ethan perguntou-se onde estava Cornelius Goldenschild àquelas horas. Não devia ter tentado criar um banco pelas suas costas.
— Pergunto-me como Lorenzo está a essas horas — sussurrou para Honey, sabendo que ele não responderia. — Não saber se ele está vivo ou morto, tem ideia de como é isso? Ele deve estar passando por tanto estresse que isso está acelerando o crescimento do tumor. Devíamos estar na Itália, na villa da mãe dele, tranquilos e felizes. Ele devia ter passado os últimos meses da vida dele feliz, e não atrás de mim. Eu teria tirado férias e me dedicado apenas a ele e a Nick, assim Nick não teria um ataque histérico quando finalmente acontecesse. É assim que deveria ter sido. Vocês me privaram disso. Privaram-me de cuidar da minha família. E eu jamais vou perdoá-los por isso. Eu vou matar cada um de vocês. E você será o primeiro.
Houve um silêncio incômodo e pesado antes que Honey dissesse:
— Amanhã é Halloween. Hoje, pouco antes da meia-noite, voltarei e deixarei alimento para o dia inteiro. Vou conectar em você soro para que não desidrate. Essa sala será monitorada vinte e quatro horas por dia, e se tentar sair o faremos se arrepender. Volto no dia 1 de novembro, pela manhã.
Honey deixou o container. Ethan conseguia sentir a tensão deixada no ar. Ele estava apavorado, e por quê? Porque eles sabiam de seu poder.
— Ah, finalmente — sussurrou Nicholas Hentz. Sozinho no segundo trailer que roubara, fitava a tela do GPS. Uma pequena miniatura de carro movia-se através de solo americano em direção à Houston. Era óbvio que atravessaria a Louisiana. Nick esperava que parasse em Nova Orleans por pelo menos algumas horas. O Halloween seria no dia seguinte e queria estar lá.
Não apenas queria, sentia que precisava estar em Nova Orleans no dia seguinte. Rowan dizia que além de ninguém saber por que paranormais se sentem mais fortes no Dia das Bruxas, ninguém também sabia por que Nova Orleans atraía todos eles com tanta veemência. Mas todos sabiam que acontecia. Estranho pensar em como sua vida era um ano atrás. O Palácio Real Hentz não existia; eles moravam no apartamento da Rua Symphonia, localizado a apenas oitocentos metros da escola; Lorenzo era menos cínico; Nicholas era menos preocupado; Ethan era menos ocupado e tinha tempo para os irmãos. Eles não eram celebridades endinheiradas conhecidas pelo país inteiro. Eram adolescentes ordinários vivendo suas vidas ordinárias.
Ah, o Halloween também seria o aniversário do terremoto que arrasara metade da Califórnia, causara bilhões de dólares em prejuízos e matara milhares de pessoas. Mesmo ali, no Texas, algumas das cidades do interior tiveram estruturas danificadas por causa do tremor. Um ano depois, os países ainda se recuperavam.
Nick voltou correndo ao hotel.
— Façam as malas, rapazes. Vamos à Nova Orleans. Vou reservar um quarto de hotel em French Quarter e nós vamos passar todo o Halloween visitando casas assombradas e procurando pelo espírito de Marie Laveau. Ah, e perseguindo os Lancaster, é claro.
— Eu deveria ficar mais forte à medida que o Halloween se aproximasse — resmungou Lorenzo. — Mas não me sinto nem um pouco melhor.
— Dê um tempo às forças místicas que regem esse mundo. Quando passar da meia-noite, dou-lhe direito de reclamar.
Lorenzo não ficou acordado até meia-noite. O sinal do GPS sumiu pouco antes de atingir a fronteira de Nova Orleans, após fazer Nick ziguezaguear pelo Texas e pela Louisiana durante sete horas. Chegou em Houston às oito horas da noite e em Orleans às três da manhã do Halloween. Deixou o trailer durante algumas horas num estacionamento até que amanhecesse e pudessem reclamar o quarto de hotel.
Quando Lorenzo acordou, podia andar.
— Dio mio, me sinto fantástico! — Ele lentamente se levantou da cadeira de rodas. Suas pernas formigavam e a impressão de que iria cair a qualquer momento não ia embora, mas não importava porque pela primeira vez em semanas estava de pé. Sua cabeça não doía, a vista não estava turva e ele se lembrava do que havia almoçado no dia anterior. Respirou profundamente e alongou a coluna. Não doía, nem o peito nem a espinha.
— Sim, sua aparência também está fantástica — Nick resmungou. Havia adormecido no banco do motorista em má posição, devia estar dolorido. Não, espere um pouco. Ele definitivamente estava dolorido. E acabara de contar uma mentira. E Lorenzo sabia disso! Sabia que a base de suas costas e a parte de trás de seu pescoço doíam como o diabo!
Abraçou-o com vontade e encostou seus lábios nos dele.
— Eu já disse o quanto te amo? — perguntou com os olhos arregalados, olhando para o lugar onde devia estar seu rosto. — Eu te amo demais e… estamos em Nova Orleans? No Halloween? Quão maravilhoso pode ser isso? — Deu uma grande gargalhada. — Isso é fantástico! Eu nunca me senti tão bem! Você não disse que queria aproveitar a cidade? Bem, Nova Orleans tem um dos melhores dias das bruxas do mundo. Vamos, quero caçar o fantasma de Marie Laveau.
— Acalme-se… são oito horas da manhã. Eu não funciono bem de manhã. Dê-me a xícara de café.
Lorenzo sabia exatamente onde estava a cafeteira apenas seguindo seu calor. Sabia também que Pan acordava e Lincoln ainda estava em sono profundo. Ele sonhava com Nicholas, e o sonho era arrebatador e apaixonado.
— Pensei que não podia beber café ou ficava elétrico.
— Ficar elétrico é exatamente o que eu preciso agora. Tenho a impressão de que você está mais alto, inclusive.
— Não, você que é baixinho demais — comentou com um largo sorriso. Sabia que ele detestava que se mencionasse sua altura. — E quer saber de uma coisa? Estou morto de fome. Quero ovos, bacon, waffles com calda e sorvete, muffins e milk-shakes, todas aquelas coisas deliciosas servidas só no café da manhã que você não pode comer porque não consegue manter no estômago.
Nick ficou furioso, mas feliz por vê-lo saudável. Lorenzo sabia que ele diria sim antes mesmo que dissesse, por isso não parou para ouvir a resposta.
— Ótimo, obrigado. Vá acordar Pan e Lincoln, mas cuidado para Lincoln não beijá-lo, porque acho que ele quer. Estou com vontade de colocar a cabeça para fora da janela e gritar que o mundo é perfeito e todas as pessoas são lindas, mas eu não conseguiria controlar o sotaque italiano e isso estragaria nosso disfarce. O que devo fazer para acabar com esse êxtase?
— Eu soube que muitos garotos da sua idade se masturbam.
— Ah, mas eu e você já fizemos mais que isso. Gostaria de fazer de novo, inclusive?
— Eu vou acordar os meninos. Depois eu como você.
— Obrigado. Ah, eu te amo, Nick, eu te amo, eu te amo!
Nick reservara dois quartos no The Ritz-Carlton, em French Quarter. French Quarter era o bairro central de Nova Orleans. Inspirado nas arquiteturas coloniais francesa e espanhola, era a parte mais antiga e mais famosa da cidade, estendendo-se ao longo do Rio Mississipi. O Ritz-Carlton era um enorme prédio branco na esquina da Dauphine com a Canal Street. Os quartos eram lindos e os jardins esplêndidos, com móveis de ferro escuro e plantas por todo lado.
Lorenzo amou cada minuto que passaram andando pela cidade, como Nick bem percebeu. Pedira que Lincoln e Pan ficassem no hotel, pois não era inteligente que saíssem os quatro juntos. Puseram os disfarces e saíram os dois a pé pelas grandes e antigas ruas do French Quarter. Visitaram a Beauregard-Keyes House, o belíssimo The Cabildo, a Jackson Square, o Audubon Aquarium, o New Orleans Museum of Art; pararam para comprar no French Market e para comer na Napoleon House. Depois continuaram pelo Le Petit Theatre, o Jazz National Historical Park, o Old U.S. Mint, o Voodoo Museum e rodaram tranquilamente com o BusVision.
Uma maré de sorte parecia persegui-los aquele dia. Como se estivessem invisíveis, ninguém os notava a não ser quando era para cobrar entradas. Ninguém demorava os olhos nos dois, ou fazia-lhes perguntas ou estranhava suas presenças. Era algo que nem os Lancaster podiam comprar.
Lorenzo estava deslumbrado. Não podia ver as atrações, mas podia senti-las. Durante toda a manhã e início da tarde, falara que andar por Nova Orleans no Halloween era como estar por trás de um véu de água. Ninguém podia distinguir mais que uma silhueta desfocada do que você realmente era.
A Marie Laveau’s House of Voodoo era uma charmosa casinha de madeira escura de apenas um andar com uma pequena chaminé de tijolos expostos. Uma placa arredondada na porta da frente mostrava o nome do lugar. Era um local escuro, avermelhado e cheio de bugigangas adoráveis que Nick teve vontade de comprar aos baldes.
Foi lá que ele e Lorenzo encontraram Rowan Pyatt.
A princípio, não o reconheceu. O Rowan que Nick conhecera um ano atrás tinha treze anos, cabelos castanhos compridos e olhos azul-acinzentados. O de agora tinha catorze anos — está bem, a diferença não era tão grande —, cabelos mais curtos e mais espessos e perdera aquela afetação amedrontada que mantinha no olhar, coisa que provavelmente foi o que fez Ethan comê-lo antes de ir para Sacramento.
Ele não os reconheceu. Nick percebeu que Lorenzo o percebeu quando ele tocou seus dedos com suavidade. Apertou-os de volta para confirmar a presença de Rowan. Ele estava sozinho no outro canto do recinto, examinando máscaras tribais.
— Temos que sair daqui — sussurrou ao irmão. Encaminharam-se de volta a um pôr do sol que se aproximava. — Sentiu o espírito de Marie Laveau atravessar seu corpo?
— Senti algo estranho, mas acho que não era Marie Laveau. Sinto desde que acordei, mas acho que é a felicidade do mundo me atravessando, e espero que continue para sempre através da história até o fim dos tempos.
— Pare com isso. Você está me deprimindo.
— Tudo bem, mas vamos voltar ao hotel. Preciso ir para a cama com você antes que eu saia para pedir doc…
Lorenzo parou de falar. Sua boca escancarou-se. Seus olhos, cinzentos e maravilhosos, arregalaram-se, marejados, brilhantes, alertas e longes dali. Por um momento terrível, fitar seu rosto foi como fitar uma estátua de mármore. Ele piscou e tudo se acabou.
— Rowan… — sussurrou — pediu para que nós esperássemos.
— Parece-me algo que ele faria, paralisar um garotinho para mandar-lhe uma mensagem. Você poderia estar no meio da rua. Ele também provocaria um terremoto devastador que mataria milhares de pessoas e entraria no porão do bicho-papão para matá-lo com um punhal, mas nada disso vem ao caso.
— Não faça brincadeiras sobre o Mal — Lorenzo pediu muito quietamente. Sua voz estava rouca e sinistra. — Ele sempre existiu e sempre existirá até que a última criatura viva da Terra caia morta no chão. Ele é muito maior que você. — Aquela expressão assustadora se desvaneceu, ele sorriu e completou: — Quer dizer, qualquer coisa é maior que você.
— Quando é que seu câncer volta? Agora que penso bem, não teria sido uma ótima ideia se fizessem uma cirurgia para tirar o tumor de você hoje?
— Seria, não sei por que não pensamos nisso antes. Aposto que você pensou, mas queria que eu morresse.
— Exatamente. Para a minha sorte, você não vai viver até ano que vem.
Os dois riram com humor negro, e estavam felizes, felizes! Lorenzo não sentia dores, seus poderes estavam de volta, poderosos como nunca, e seu cinismo também. No dia anterior, jamais achariam que estariam no meio de uma cidade tão linda quanto Nova Orleans conversando tranquilamente, com Lorenzo de pé e Nick sem ter vontade de se matar. Era como se nunca tivessem deixado Middleland e começado aquela aventura louca. Os tempos não podiam ser melhores.
Rowan aproximou-se. Olhou para Nick, depois para Lore, e sorriu.
— Que prazer revê-los — disse abraçando o maior e bagunçando os cabelos do menor. — Só queria que tivesse sido mais cedo.
— Como sabe que estamos aqui desde cedo?
— Hoje é Halloween, meus poderes estão obscenamente maiores. Eu percebi que chegaram aqui no momento em que cruzaram a fronteira dessa cidade. Há uma bolha circundando-a e concentrando toda a magia aqui.
— E por que você está aqui?
— Vários motivos. Durante esse ano, Nova Orleans foi a cidade-natal da maior quantidade de pré-adolescentes com poderes destrutivos em todas as cidades da América e Europa. A Chaulwen precisou intervir antes que alguém morresse. E essa é a cidade mais mal-assombrada do mundo no dia mais mal-assombrado. Eu não podia deixar de vir. Gillian me avisou que eu deveria. Acho que ela previu que vocês viriam também. Ela gosta muito de falar em enigmas, o que só complica minha vida.
— Entendo. Fico feliz em vê-lo novamente. Faz quanto tempo, um ano?
— Quase isso. Faz um ano desde que desci ao porão de Bathory.
— Bathory. Esse é o nome dela. Todas as vezes que tento me lembrar dos detalhes dos horrores que aconteceram eu fico com a cabeça doendo. Algumas coisas simplesmente me fogem da memória. Nomes, datas. O quadro geral é um grande borrão para mim. Não vejo nada.
— Eu também não — murmurou Lorenzo quietamente. — Mas deve ser porque sou cego.
— Gostariam de ir a uma cafeteria? — perguntou Rowan polidamente.
Numa atmosfera bucólica e abafada, Lorenzo se empanturrava de salgados e bolos e bebia milk-shake com voracidade sem dar a mínima em se manter elegante. Eram coisas como aquela que faziam todos lembrarem que ele tinha onze anos, apesar de na maioria do tempo parecer um ancião preso num corpo infantil. Uma boa sina, aquela de ser cego. Você aprende a ignorar detalhes fúteis e a se concentrar no que há por trás da pessoa. Quem é que veria Lorenzo daquele jeito e imaginaria tudo pelo que aquele menino passou e passava? Ele era uma fechadura e ninguém tinha a chave.
Rowan bebericava um cappuccino com chocolate servido numa linda xícara branca com detalhes azuis. As bordas eram de chocolate macio e escuro que se desfez quando ele começou a beber. O chocolate em pó que formava um desenho na superfície do líquido também sumira, uma pena. Nick mal tocou no copo d’água que pedira. Parecia repugnante. Ao invés disso, apreciava seu doce irmãozinho, sabendo que no dia seguinte ele estaria igual ou tão pior quanto no dia anterior, se é que fosse possível. Vê-lo na cadeira de rodas partira o coração todos, até mesmo o de Lincoln, que era feito de pedra. O tumor ainda estava lá, crescendo e inchando, pressionando seu cérebro contra o crânio e contra si mesmo, impedindo sinapses de aconteceram, a ponto de explodir a qualquer momento.
Como eram revoltantes, aquele amontoados de células defeituosas! E pensar que alguém tão poderoso pudesse estar tão doente.
Quando finalmente terminou com os doces, Lorenzo pareceu lembrar-se de quem era e de onde estava. Retomou sua pose principesca, limpou os lábios cuidadosamente com um guardanapo e espantou as migalhas das roupas, completamente alheio à sujeira na mesa, graças a Deus, porque arruinaria aquela dignidade. Postura correta, queixo para cima, pernas cruzadas, mãos entrelaçadas sobre o joelho de cima, aristocrático após sua pequena crise infantil de comilança. Nada mais que Lorenzo Barcarolli.
— Agora que estou satisfeito — declarou alto e solene, pronunciando as palavras de modo que seu sotaque italiano pudesse atravessar cada sílaba —, vou lavar as mãos no banheiro e me demorar o máximo possível para que vocês possam discutir sobre mim, como tanto sei que querem.
Ah, sim. Nada mais que Lorenzo Barcarolli.
Depois que ele foi, Nicholas Hentz agarrou a mão de Rowan Pyatt.
— Por favor, diga-me que há algo que eu possa fazer por ele. Ligue para Gillian e pergunte o que ela vê. Você disse que ela é uma das mais poderosas. Não lembro dos detalhes de Jhahantar, mas lembro disso.
E Rowan Pyatt apertou a de Nicholas Hentz de volta.
— Nicholas, por favor, pare de se torturar. Você sabe que Gillian não vê e nunca viu o futuro exato, e sim apenas o que pode acontecer. Não há registros na história de alguém que via o futuro com exatidão. Teoricamente, uma pessoa assim seria onisciente.
Nick não queria saber.
— Eu falo sério quando digo que eu farei qualquer coisa para que ele viva. Eu dou todo o dinheiro da família Hentz, dou toda a minha fama e beleza. Eu sacrificarei a minha vida ou a de outros. Com certeza isso deve valer alguma coisa, toda essa força de vontade. Quer que eu sacrifique crianças ou virgens num ritual satânico numa floresta à meia-noite? Considere feito. Quer dizer, bruxas existem, não é? E todas essas criaturas fantásticas que a gente vê nos contos de fadas? Elas existem ou um dia existiram, não é, Rowie? Elas têm poderes, não têm? Poderes curativos que invocavam com rituais para deuses. Tipo as fadas boas. Iguais a você.
— Agora você está zombando de mim.
— Demorou tanto para perceber isso?
— Se numa situação hipotética você não estivesse, eu responderia que não existem fadas com poderes mágicos curativos. Não existem e nunca existiram porque nunca houve provas. Nunca foi recolhido o cadáver de uma fada e não há relatos escritos de alguém que já viu uma. Rituais eram feitos aos montes centenas de anos atrás, mas também nada indica que davam algum resultado, de modo que a partir disso pode-se pensar que não existe nenhum Deus que vá ouvir suas preces ou Diabo com quem você possa fazer um pacto para retirar o câncer do corpo de Lorenzo.
— Tem certeza? Porque se ele quiser que eu mande o câncer para outra criança inocente, eu faço isso sem hesitar.
— Eu tenho certeza que faz, sua concepção de moral e ética não existe quando se trata de proteger sua família. Admito que admiro isso. Muitos membros do clã Atheneus fizeram coisas questionáveis ao longo dos milênios, muito piores do que o que Ethan fez com os assassinos de Oliver. No entanto, Nicholas, não há magia no mundo que vá ajudar uma alma tão impregnada de Sombras quanto a de Lorenzo.
— Então é verdade, o que ele pensa? Que talvez o contato com as Sombras ano passado tenha causado isso? Poderia ser uma última vingança de Jhahantar ou de Bathory?
— Jhahantar é uma criatura muito espiritualmente acima de nós para se preocupar com humanos singelos que não sejam… eu. Desculpe, soou arrogante, mas acho que você entende o que eu quis dizer. Ele não daria câncer a um garotinho porque preferiria matá-lo imediatamente de um jeito doloroso, mas ele não pode lutar contra força de vontade.
— Por quê?
— Ora, não importa. Algo a ver com o ritual que o trancafiou no solo. Tudo isso é muito velho e eu nunca tive a impressão de que você acreditava totalmente. Mas eu compreendo. Não é fácil viver o que vivemos há um ano e acreditar naqueles horrores. Você não tem a impressão de que muito do que aconteceu foi simplesmente inventado?
— Talvez, eu prefiro não pensar nisso. Pensar que nada daquilo existiu é mais fácil do que encarar os fatos, de que posso estar vivenciando tudo novamente. O que existe de verdade, Rowan?
— O que existe é apenas o que pode ser provado, o que podemos conquistar e influenciar. O mundo não feito apenas com o que se vê, isso é certo, mas o que não se vê não está lá dignamente esperando por você. Essa é uma verdade que todos temos que aceitar, mais cedo ou mais tarde. Eu sei que é pesada. Eu sei o que está passando.
— Sabe o que estou passando? — Aquilo o deixou irritado. — Como saberia? Como alguém possivelmente poderia saber?
— Está sendo egocêntrico demais. Esqueceu que meu pai adotivo morreu afogado ao me salvar? E que meus pais biológicos morreram a mando de Bathory simplesmente porque eu existia? A gente se culpa e se revolta, mas não há muito que possamos fazer a não ser passar pelos tempos difíceis com toda a garra que temos. Se houvesse algo que eu ou você pudéssemos fazer, algum ritual maligno que corromperia sua alma ou algo do tipo, nem que você tivesse que ir ao Inferno, se ele existisse, eu te contaria. Mas não há. Algumas coisas têm de acontecer.
— Tem de acontecer? Está dizendo que Lorenzo precisa morrer?
— Estou dizendo que, talvez, só talvez, ele precise passar pelo que está passando. Pode estar servindo de instrumento para alguma coisa.
— Você acabou de dizer que deuses não existem.
— Essa é a parte boa de se estudar a história da bruxaria de fontes tão confiáveis e sábias. Você nunca está certo e nunca está errado. Como num segundo uma verdade incontestável pode ser contestada, você tem que manter a mente aberta e jamais fechá-la com um cadeado. Basicamente, o que eu quero dizer é que não é porque deuses não existem que eles não existam. Quase nada acontece por acaso e não podemos julgar o destino antes que tudo esteja completo e irremediavelmente terminado. Às vezes, mesmo quando algo termina não significa que nada mais irá acontecer.
— Isso é totalmente contraditório.
Rowan sorriu.
— De novo, mantenha a mente aberta. Nicholas, ainda há muito o que ver. Sua jornada não terminou.
Seus olhos, seu malditos olhos que ele odiou ter quando Lorenzo não podia, ardiam como brasas porque Nick tentava segurar as lágrimas. Dor, o preço a se pagar para não demonstrá-la.
— Hoje é Halloween — sussurrou. Um pensamento veio-lhe à cabeça, um daqueles pensamentos inteligentes que nos fazem ter orgulho de nós mesmos. — Isso significa que Gillian está poderosa o suficiente para saber qual dos futuros que ela vê é o verdadeiro. Eu acho que é isso. — A expressão naquele rosto pálido e infantil de Rowan denunciou-o. Não adiantava que ele quisesse adotar uma postura culta e madura, o problema de se ter catorze anos é que não importa o tamanho do seu vocabulário, você ainda se esquece de coisas simples como encobrir suas expressões faciais. — Ela viu e contou para você — adivinhou. — Você sabe o que vai acontecer. Sabe o que vai acontecer amanhã, depois de amanhã e no dia depois desse. Sabe quando Lorenzo vai morrer, sabe até se vamos achar Ethan ou não. Sabe o destino de todo mundo e mesmo assim não quer contar porque você é uma bicha. Eu não devia ter deixado Ethan comer você.
Rowan pousou a mão sobre a sua, firme, inflexível, quase perverso.
— O conhecimento é uma maldição, Nicholas. Sei o que me foi contado, mas gostaria de não saber muito mais que você. Algumas verdades são para permanecerem em segredo até acontecerem. Usemos a lógica. Se eu lhe contar, você vai tentar fazer com que as coisas aconteçam muito mais rápido do que deveriam e isso vai quebrar toda a sequência de eventos que fariam a coisa acontecer. O futuro inteiro pode mudar se eu lhe disser uma vírgula do que Gillian me disse. O destino sabe o que faz. Não fique com raiva de mim, não sou eu quem o controla. Posso dizer o que já disse, que Lorenzo está servindo de ferramenta para algo, e isso é tudo. Mas já que fala nisso, você procura seu irmão, pode me dizer exatamente o que aconteceu? Quem está por trás disso tudo? Eu não sei mais que os noticiários, e tenho certeza de que você não sequestrou Lorenzo para ficar com a herança dele.
— Eles dizem isso? Por que todo mundo nesse planeta ignora o fato de eu ter quinhentos e quarenta milhões de dólares? Sei que é deselegante falar o patrimônio em voz alta, mas soa tão bem e já está na Forbes.
Rowan Pyatt deu de ombros.
— Eu tenho pelo menos o dobro disso e não estou. São as vantagens de ser o único herdeiro de uma família com dois mil anos de idade.
— Você não precisa ser tão egocêntrico. Já que perguntou, por que não me poupa de contar os detalhes picantes de minha pequena e secreta aventura e toca em mim? Você está sempre puxando as memórias das pessoas sem permissão, de qualquer jeito.
— Eu não faço mais isso. Não acho certo.
— Acho que não fui claro. Estou te dando permissão.
Ele balançou a cabeça. Terminara seu café.
— Meus poderes estão extremamente aumentados hoje, Nick. Eu sou como uma panela de pressão a ponto de explodir. Se eu tocar qualquer pessoa, não faço ideia do que poderá acontecer. Estou muito instável. Eu estava misturando minhas emoções com a das pessoas na Casa da Chaulwen aqui em Nova Orleans, por isso saí para um passeio e ocasionalmente encontrei você na casa de Marie Laveau. Se eu te tocar, posso fazer travessuras com as suas lembranças sem saber, posso puxar algumas por engano, posso empurrar as minhas para você. Já li um relato de duas pessoas que tinham os mesmos poderes que eu e que se tocaram num Halloween. Elas trocaram de corpos. Só puderam desfazer no Halloween seguinte, ou seja, ficaram com os corpos trocados por um ano.
— Eu sei qual o intervalo de tempo entre um Halloween e outro.
— É melhor que façamos do modo antigo. Vamos, use as palavras. Quem não gosta de ser um pouco antiquado de vez em quando?
Quase não respondeu à pergunta. Estava de cabeça baixa, deprimido demais para narrar suas aventuras. Não tinha feito algo parecido no relato que deixara no The Lancaster? Narrar tudo de novo parecia uma chateação inominável. No entanto, algumas coisas gostaria de esconder, como suas relações com Lincoln e Lorenzo, seus segredos com as finadas estações e aquela manhã terrível no motel em Harmount…
Olhou criticamente para o rosto de Rowan Pyatt. Os olhos eram enormes, azul-perolados, quase acinzentados, inocentes, mas quase chegando à altivez, e simplesmente lindos. O cabelo castanho, longe do louro, longe do moreno, simplesmente marrom nem claro nem escuro, e liso como seda. Antes comprido, costumava ser uma moldura para os olhos, mas agora que estava curto deixava-os com uma sensação de vazio, que misturada à inocência atribuía um perturbador sentimento de abandono a seu rosto. Continuava bonito. Ethan o teria levado à cama e tirado sua virgindade mais uma vez se tivesse chance, por isso Nick sabia que ainda era bonito. Rowan era a primeira e única esperança de uma luz no fim do túnel daquela perseguição lunática, mas ele próprio se fechara por motivos que Nick não compreendia totalmente ou não queria compreender porque estava com raiva e cansado demais. A ignorância sempre era uma saída mais fácil.
Em palavras sucintas, curtas e diretas, contou-lhe o que acontecera naquela madrugada terrível do dia 27 de agosto no Palácio Real Hentz, com Jules lhe acordando como no meio de um filme de terror barato em que adolescentes imbecis se hospedam num motel de beira de estrada durante uma tempestade. Do que veio depois, mencionou encontrar Lincoln na casa de um traficante, Pan em Lionville — não era necessário dizer que Pan foi o melhor amigo de infância de Oliver Castanelli, era? —, a noite em Las Vegas e o ziguezague pelos estados americanos. Texas ontem, Louisiana hoje. Costa leste numa vida, costa oeste na seguinte. Nortenhos e sulinos.
— Eu já disse que você é uma pessoa maravilhosa? — perguntou Rowan. — Sempre soube disso. Desde que nos vimos pela primeira vez na livraria da minha mãe, quando você tinha piercings e cabelo vermelho, uma perna quebrada, um cachorro na mão e uma bola na outra, e estava desesperado fugindo de um lunático com dois rottweilers.
— Agora o lunático está atrás de mim com uma equipe de seguranças altamente treinados para matar a primeira coisa loura que virem. Por que é que todo mundo sempre tenta matar o pobre Nicholas Hentz?
— O pobre Nicholas Hentz é grandioso e magnífico.
— É, eu sei, mas auto-depreciação é um dos meus modos de chamar atenção, a despeito do meu narcisismo. Minha psicóloga Ellis que disse. Não sei se vou conseguir.
— Ei, eu não te salvei de cair daquele prédio quando você tentou se matar para ser morto por um psicopata. Tanto quanto sei, você vai salvar seu irmão e dar o troco nele.
— Por que age como se falasse com uma criança? Pode dizer a verdade. Eu vou matá-los. Mesmo se resgatar Ethan, eu vou ter que matá-los, porque se não matá-los, eles me matarão, e vice-e-versa. Isso é um duelo suicida. Ou Melinda e Devon morrem ou Ethan e Nicholas morrem. Todos nós temos consciência disso.
— Ainda estou tentando engolir a Governadora de Northeria estar envolvida nisso. Até cinco minutos atrás eu torcia para que ela se tornasse Primeira Ministra. A política da Califórnia está apodrecida. Você me surpreende cada vez mais, desde que li na internet que você havia fugido com Lorenzo.
— Por quê? Teve a impressão de que eu não conseguiria fazer o que quer que estivesse fazendo?
— Não seja bobo. Como já deixei subentendido, eu sempre soube que você estava destinado à grandeza.
— Não sou grande, eu tenho um metro e sessenta. Na minha idade, Ethan tinha um metro e sessenta e cinco. Isso me irrita. Por que não cresço mais? É claro que se crescesse minha aparência feminina-infantil seria arruinada e consequentemente minha vida sexual. Ah, Rowan, certamente há um Deus. Ele sabe o que faz.
— Ignorando seu sarcasmo, há diferentes tipos de grandeza. A sua é interior e invisível, aquecida pela sua alma pura, pelos seus valores e pelo amor que sente pela família. Jamais deixe que outros a diminuam com mediocridades, Nick. Você é um gigante num corpo minúsculo.
Rowan sorria. Olhar para aqueles olhos gentis era pedir para ficar despreocupado. Nick não se despreocupava há dois meses, já era tarde demais para voltar atrás. Nunca notara que ele tinha lábios tão grandes? A pele era tão lisa e livre de manchas e ele tinha o vocabulário de um universitário. Não era à toa que Ethan sentira atração por ele… não podia estar sentindo a mesma coisa. Se estivesse, estaria arruinado, pois Rowan e Lorenzo perceberiam no mesmo momento. Malditos supersensitivos no Halloween.
Lorenzo voltou à mesa elegantemente. Era como se nunca tivesse dilacerado salgados e doces, todos ao mesmo tempo, há apenas alguns minutos. Era como uma daquelas assustadoramente plásticas donas-de-casa americanas dos anos 50 cujos cabelos não se mexiam.
— Depois que as pessoas decidiram não aceitar que eu lavasse as mãos por cinco minutos, fui enxotado de lá. Gritei com eles em sotaque italiano. Sabe o que fizeram? Nada. Por que não somos reconhecidos, pelo amor de Deus? Mal estamos disfarçados. Sou bonito e talentoso demais para não ser reconhecido.
— Por hoje, não precisam se disfarçar — Rowan disse dramaticamente como anunciasse uma declaração papal. — Nada que aconteça nessa cidade sairá daqui. Todos que olharem para vocês pensarão estarem vendo pessoas totalmente diferentes. São coisinhas que paranormais podem fazer no dia mais mal-assombrado de todos. Como já disse, a Chaulwen tem uma sede em Nova Orleans, lá em First Street. Talvez se interesse em saber que eu mesmo escolhi esta casa porque era a mansão dos pais adotivos de John Francis quando ele foi largado aqui pelos pais biológicos.
— Não precisa me contar a história de minha família.
— Chamavam-se Henri e Dominique Hentz. Eles são os Hentz originais. John Francis só se chama assim por causa deles. Eram membros da alta-sociedade de Nova Orleans, o adotaram porque eram estéreis e não podiam ter filhos. Financiaram a ida dele à África do Sul. Pensei que gostaria de entrar naquela casa porque John Francis viveu dezoito anos lá. Já se perguntou porque ele decidiu se mudar para a Califórnia quando ficou rico? Ele poderia ter ficado aqui e você poderia viver nessa cidade amaldiçoada, num antigo casarão colonial francês. Não seria maravilhoso? Bom, o importante é que a organização vai promover uma festa de Halloween hoje às sete horas. Quase todos os convidados são paranormais e os que não são, são estudiosos do mundo todo, vocês podem ir se quiserem. Aquela casa vai estar coberta por um véu de ilusão até a meia-noite. Absolutamente ninguém os reconheceria nem se um estivesse com o cabelo loiro comprido e outro falando italiano fluente. De qualquer jeito, isso não importa. — Rowan Pyatt sorriu. — É uma festa à fantasia.
Lorenzo não perdeu tempo quando ele e o irmão voltaram ao confortável quarto no Ritz-Carlton. Sabiam que Lincoln e Pan estavam nos jardins com Charlie, foi por isso que o evitaram. Todas as sacolas que carregavam, aquelas cheias de bugigangas e souvenires de Nova Orleans foram atiradas descuidadamente cima da mesa onde repousava o aquário das tartarugas. Foi surpreendente para Nick, embora ainda um tanto sexy e agradável, que ele tivesse achado espaço em sua cabeça para aquela intimidade. Oras, afinal de contas, devia ser assustador estar em seu lugar! Fantasticamente bem após dois meses querendo morrer por causa da agonia interrompida apenas por remédios com tarjas pretas e nomes quilométricos e apavorantes que transformavam qualquer um num zumbi, simultaneamente sabendo que no dia seguinte estaria exatamente igual.
E, ironicamente, quem não iria querer os poderes de Lorenzo? Nick deveria se lembrar de colocá-lo para dormir antes da meia-noite. Para isso, nada de comer os doces que pegasse quando fosse pedir doçuras ou travessuras. Açúcar era um mal, um mal delicioso, mas decididamente um mal.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Bobagens de irmão mais velho. Agora, Nick era de Lorenzo, de corpo e alma, só que mais de corpo. Ele estava nu em cima da cama, emoldurado pelos lençóis de seda, pálido e belo como uma escultura de Michelangelo. Sua expressão era fascinante e sedutora.
— Venha — ofegou numa voz madura e pedinte.
Se Nick nunca atingira direito a puberdade, Lorenzo atingira cedo demais. Estava muito alto, mais alto com onze anos do que Nick com treze, suas curvas eram bem formadas e terrivelmente sensuais, com coxas grossas, quadris largos e cintura fina, pernas compridas e por algum motivo sem pelos. Nick depositou beijos ardentes no peito liso e muito branco. Desejava não desejar aquele pequeno louco, depois agradecia por desejá-lo quando os pares de lábios se uniam e carinhos eram trocados, palavras cheias de amor e tesão, frutos de um sentimento proibido de luxúria e incesto. Nick não se importava. Não era hora de se importar.
Ele sentou o irmão em seu colo, deixando-o acomodar seu membro entre suas nádegas. A glande tocava o ânus quente e pulsante. Nick queria penetrar, queria mais que tudo, morreria se não o fizesse, mas Lorenzo nunca o permitira antes e não foi diferente dessa vez quando fez pressão e afastou um pouco suas pernas.
— Não, Nick, isso não.
— Lore, por favor, hoje é decididamente seu Último Dia Bom. Amanhã tudo volta ao normal e eu não vou poder mais fazer amor com você. Veja, eu comprei camisinhas e lubrificantes. Não há problema em me deixar tirar sua virgindade. Eu perdi com onze anos, com uma prostituta que Ethan pagou. Fazer isso com alguém que você ama é mais digno, não acha?
— Nick, por favor, se quiser usar sua língua ou seus dedos, use-os, em qualquer parte do meu corpo, eu adoro isso, mas não insista em tirar minha virgindade. Eu preciso dela.
— Por quê? Para que precisa dela?
— Não sei, me contaram num sonho.
— Quem contou?
— Uma criatura chamada Elluryiel.
— Quem é Elluryiel?
— Não sei. Não quero falar sobre isso. Apenas deixe-me lamber cada centímetro de pele que você tem. Você foi feito para isso, Nick, oh, oh, assim, isso, desse jeito, isso, bem aí, oh, oh, isso é, isso é… perfeito, oh!
Nick depositou marcas vermelhas de chupões na pele imaculada do pescoço e das costas. Enquanto o irmão gemia enlouquecidamente, molhou um de seus dedos com a própria saliva e deslizou-o por entre suas nádegas. Quando ele menos esperou, empurrou-o inteiro. O calor era quase insuportável. Nick precisava penetrá-lo. Se ele se recusasse… então acabaria considerando a ideia de fazer amor com Lincoln. Sentia-se um mostro, mas o que é que um homem podia fazer?
— Coloca outro dedo — ele implorou.
— Eu posso colocar outra coisa, tenho certeza de que você vai gostar mais. — Segurou o membro de Lorenzo com uma das mãos e o estimulou. Queria vê-lo gozar, gozar e gozar.
— Não comece com isso… ah, assim, isso, com mais força, isso, me fode com mais força, não tenha piedade alguma, mais rápido, Nick, mais rápido, mais rápido, por favor, eu preciso disso, coloque outro dedo, e mais outro, mete mais forte, mete mais rápido, isso é tão bom, é tudo tão bom.
Nick não chegou a penetrá-lo, mas masturbou o próprio membro entre suas nádegas. Quando ejaculou, sua semente espirrou num jato, cobrindo da base até a metade das costas. Usou a língua para limpá-lo, enfiando-a principalmente naquela abertura que piscava. Como adorava aquilo. Adorava fazer com Ethan, quando ambos estavam entediados e com preguiça demais para fazer sexo. Quem fizesse o outro ejacular primeiro e mais forte, ganhava. Ethan quase sempre ganhava.
— É sua vez — disse ao menor.
Nick deixou-se levar. Lorenzo jogou-o na cama, segurou-lhe o membro duro entre os dedos e puxou-o para baixo levemente, depois levantou-o e para baixo mais uma vez, e assim por diante no movimento repetitivo mais conhecido da história da humanidade. Nicholas se contorcia e tentava não gemer, mas foi impossível quando ele colocou-o na boca. Era tão quente, quase tão quente quanto seu interior. Talvez tivesse algo a ver com o poder que recebera como dádiva no Halloween? Podia ser um exagero, mas por que não seria? Oh, quão prazeroso devia ser penetrar um paranormal no Halloween de Nova Orleans?
— Muito prazeroso — murmurou Lorenzo entre chupadas e lambidas. Ele nem devia ter percebido que lera um pensamento. Poderoso demais.
Ele usou a língua para descer, passando-a pelos testículos enquanto massageava o ânus de Nick com os dedos. Colocou um na boca, depois os dois, brincando com eles com a língua pequena e ágil. Tinha dois dedos enfiados no irmão quando finalmente os tirou, ajoelhou-se entre suas pernas e apontou sua glande para a abertura.
— Sei o que está pensando — disse o menor enquanto tateava o criado-mudo à procura do lubrificante. — Você não pode me penetrar, mas eu posso. Bem, eu tenho a impressão de que Elluryiel não considera isso virgindade. O que você acha?
— Eu acho que me sinto desconfortável em ter minha vida sexual regulada por algo que você sonhou que nem você sabe o que é.
Ele mordia sua batata da perna enquanto passava o líquido transparente e gelatinoso no próprio membro, grande o suficiente para conseguir penetrar decentemente. Foi subindo pela canela surpreendentemente definida, fruto de anos e anos de esportes que tornearam suas coxas e levantaram suas nádegas. Um corpo tão perfeito, sim, simplesmente.
Os dentes de Lorenzo fecharam-se no tornozelo de Nick, depois no calcanhar, e no momento seguinte sua língua deslizava pela sola do pé até o dedão, que mordeu com força, seguido dos dedos menores.
A penetração veio rápida, o vai-e-vem foi curto, excitante e meio desesperado, nada mais podia ser esperado de um menino púbere de onze anos. Quando Lorenzo gozou, coisa que levou uns trinta segundos, no máximo, seu corpo inteiro tremeu, os dentes brancos trincaram e sua expressão fechou-se numa coisa que podia ser confundida com dor se ele estivesse gritando, mas então os lábios abriram-se e ele deixou sair o ar que andara prendendo. Sorriu um sorriso adorável e cheio de prazer.
Jogou a cabeça para o ar e suspirou.
— Ainda estou sentindo o orgasmo — disse após se jogar na cama ao lado de Nick. Abraçou o corpo suado e pegajoso do irmão, adorando o cheiro e a sensação do suor contra sua pele também suada. — É para durar tanto?
Nick beijou-o com paixão.
— Só quando se faz com celebridades mundialmente famosas como eu.
— Quero transar mais uma vez antes de dormir, e como eu sei que você quer que eu durma antes da meia-noite, é melhor irmos para a festa logo. — Mesmo assim, ele não se mexeu. Continuou com o rosto enfiado no pescoço molhado. Não queria soltá-lo nunca, mas quem ia querer? Era Nicholas Hentz como veio ao mundo, afinal. — Queria que Ethan estivesse aqui.
— Vai começar com isso de novo?
— Não, não aqui, na cama… quer dizer, gostaria sim, aqui, na cama, nu e com o pau duro, pronto para foder nós dois, mas estou falando de uma maneira geral. Ele é meu irmão mais velho. Sinto saudades dele.
— É, eu também. Faz exatamente sessenta e seis dias que eu não o vejo ou falo com ele. Esse é o maior período de tempo que passo longe de Ethan em toda a minha vida e em toda a vida dele também. Isso nunca aconteceu antes. Às vezes… me pego esquecendo como é o rosto dele. Ainda bem que somos famosos, então preciso apenas jogar seu nome na internet.
— Às vezes me esqueço do cheiro dele, da sensação da pele dele contra a minha, de como ele beijava minha bochecha com carinho e me abraçava, e eu o beijava e abraçava de volta, desejando na verdade que ele estivesse trepando comigo de quatro.
— Quer parar com isso?
— Lincoln é apaixonado por você.
— O que uma coisa tem a ver com a outra? Não sinto atração por Lincoln.
— Ele é louro e bonito, sei disso, e parece-se com Spring, e você transou com Spring. Por que não experimenta?
— Porque para mim, ele é como um irmão.
Levou dois segundos para começarem a rir.
— Amanhã, quando eu não puder mais ir para a cama com você e você precisar muito disso, e nós dois sabemos que você vai precisar, acho que deveria fazer sexo com ele.
— Ele tem treze anos. Se eu fizer sexo com ele, ele vai acreditar que tem chance comigo, sendo que não tem. Eu vou estar apenas brincando com seu coração e sentimentos. É cruel. Lincoln é um bom garoto.
— Ele sempre puxa meu cabelo quando me leva para vomitar.
— Você sempre dá um jeito de vomitar do modo mais escandaloso possível.
— Sou um garotinho morrendo de câncer. E desde quando se importa tanto com as pessoas? Por falar nisso, vamos levar ele e Pan à festa, está bem? Do que vai se fantasiar? Eu sei que você é parecido com Lestat, mas eu já quero ser o vampiro. O que você vai ser?
Nick sorriu.
— O que mais Nicholas Hentz poderia ser?
Nicholas Hentz foi um leão.
Após sua conversa na cama, Nick e Lore encheram a espetacular banheira de mármore e tomaram um banho longo e sensual juntos, cheio de beijos, abraços e carícias em lugares íntimos. Quando terminaram, Nick enxotou Lorenzo do banheiro, pôs-se de frente ao espelho e apontou as luzes fortes para o objeto de maior apreciação naturalmente criado do mundo: seu rosto. Com uma faixa, afastou os fios curtos da testa para que não se sujassem. Com uma esponja, espalhou tinta dourada por todo o resto, cobrindo a testa, as bochechas, o nariz e o queixo, mas sem tocar na parte em volta dos olhos e da boca. Como a tinta já tinha praticamente a mesma tonalidade de sua pele, só a deixou com aparência oleosa.
Em volta dos olhos e acima das sobrancelhas, espalhou tinta amarela com a outra ponta da esponja, pintando uma pálpebra por vez. Pintou também as maçãs do rosto. Para criar profundidade e sombras no rosto, usou tinta marrom-ferrugem, aplicando-a nas laterais da testa, nas bochechas e no queixo. Usou a tinta branca para cobrir as partes ainda expostas da pele, como a parte superior dos lábios e a inferior do nariz.
Molhou um pincel para rosto em tinta preta e desenhou um V abaixo do nariz, estendendo-o até em volta das narinas. Pintou o lábio superior e criou linhas curvas de cada lado da boca, puxando-as para cima. Repetiu as linhas nos cantos dos olhos após contorná-los com preto, e também contornou a parte de baixo do lábio inferior. Para dar impressão de pelos, desenhou pequenas linhas em volta do perímetro amarelo com tinta preta e com a marrom desenhou linhas verticais na testa e sobre os olhos.
Finalmente, desenhou seis bigodes do sulco entre o nariz e a boca até as bochechas. Havia comprado uma peruca feminina de cabelos longos, louros e compridos e aumentara seu volume com toneladas de laquê para que ficasse parecida com uma juba. Era um mimo que se permitia. Ficava feliz que ninguém fosse fotografar aquilo. Seria embaraçoso.
Lorenzo não precisava de muita coisa para embranquecer a pele e ficar sinistro o suficiente para se tornar um vampiro. Seus lábios estavam escuros, assim como as pálpebras e o contorno dos olhos, delineados com lápis de olho. Os cílios estavam pesados de rímel. Usava uma camisa de botões branca com um colete cinza-escuro por cima e calças sociais pretas. Nick amarrara uma capa que comprara numa loja de fantasias em seu pescoço, uma que tinha uma grande gola e cujo interior era vinho e o exterior era preto. Ele também usava uma daquelas botas que iam até o joelho, uma dessas de couro com detalhes dourados, mas isso porque Nick já as tinha como parte de seus disfarces. Quase certeza de que era feminina. Certeza absoluta de que ele não dava a mínima.
Como toque final, puxou seus cabelos negros e lisos para trás com gel e fixou com laquê. Lorenzo finalmente parecia o que sempre parecera ser: um vampiro vindo do século XVIII.
Lincoln se recusara a usar fantasia. Na verdade, ele se recusara a ir à festa em First Street e a ter qualquer tipo de relação com qualquer coisa que tivesse a ver com essa pavorosa organização de estudiosos Chaulwen ou com aquele medonho Rowan Pyatt.
— Não precisa conversar sobre seus poderes com ninguém se não quiser — disse então Nick ao menino em particular, coisa que o fazia sentir-se importante. Pôs as mãos em seu ombro, olhou fundo em seus olhos verdes. Naquele Dia das Bruxas macabro, sua mente era um livro aberto. A mente de todo mundo era.
— Sim, você tem razão, estou captando pensamentos sem parar o dia todo e isso está me deixando louco, simplesmente louco. O pior é que comecei a ouvir alguma coisa saindo da mente de Pan, que até então era vazia e infantil. Eles crescem tão rápido. Isso me assusta.
— Pode ser uma festa de Halloween, mas haverá estudiosos europeus de duzentos anos de idade lá que podem te ajudar a controlar seus poderes. Podem te ensinar a inibi-los quando quiser, assim nunca mais precisará ouvir pensamentos que não quiser ouvir. Não parece ser maravilhoso?
— Ser um rato de laboratório? Claro.
— Eu sei que está com medo. É assustador. Fico feliz de não ter poderes, na verdade. Mas Lorenzo os tem e eu convivo com isso há um ano, desde que as Sombras deixaram Middleland…
— Ah, pare com isso! Pare de falar de Sombras e criaturas milenares vivendo no subsolo! Você não vê que tudo isso é loucura? Você deve ter sonhado com tudo isso enquanto estava em coma após ter tentado se matar! Por que você simplesmente não morreu? Se tivesse morrido, Spring nunca teria saído de casa e meus pais nunca teriam me abandonado.
Lincoln virou a cabeça loura e Nick não pode mais ver seu rosto, mas ele levou as mãos a ele, denunciando o próprio choro. Era impossível não perceber o tremor dos ombros, os joelhos levemente dobrados. Um garoto de treze anos chorando escondido. Nada mais comum que aquilo. Então por que, para Nick, era de partir o coração?
Abraçou-o por trás, então ele se virou e abraçou-o pela frente. Ficaram os dois garotos assim, em silêncio a não ser pelo barulho ocasional de um soluço de Lincoln. Verdade incômoda com a qual poucos sabem lidar: sentir falta de um lar abusivo é normal, até abusadores podem ser legais de vez em quando e no caso a gente considera muito mais, mas desde quando normalidade indica o certo? Spring fizera o certo ao sair de casa e se casar com Summer? Lincoln fizera o certo ao provocar sua expulsão porque inconscientemente não suportava mais viver lá? Até Nick sentia falta da casa que morava quando os pais eram vivos e ausentes, negligência que ele considerava como abuso.
— Não me obrigue a ir — Lincoln pediu, sincero como um garotinho. Onde estavam o cinismo e o sarcasmo, suas ferramentas de proteção? Seus olhos haviam se metamorfoseado em piscinas naturais, claras como um mar de verão. Quantos felizardos teriam a sorte de ver Lincoln Spring chorar? Era um daqueles momentos para ser fotografado. Macabro.
— Está bem, pode ficar — cedeu, depois beijou-o. Não soube por que fez aquilo, nem se era certo após tantas relações com Lorenzo, mas não se importava muito e Lincoln tampouco, pois aprofundou o beijo e puxou-o para si. Tentou enfiar a língua em sua boca, como bem queria, mas Nick gentilmente separou-se. Já recusara declarações de amor tantas vezes de garotas e fãs, por que não conseguia agora com a mesma facilidade? — Cuide de Pan, então. Vou tentar trazer toneladas de doces para vocês, o suficiente para abrir um buraco em seus estômagos. Acho que posso me passar por doze anos e pedir doçuras ou travessuras também.
Ele sorriu, o menor, e foi lindo. Era um daqueles raros momentos em que agia de acordo com sua idade, um garoto frágil e emocional cheio de hormônios que não sabia controlar. Ficava mais bonito de cabelo curto ou longo? Por que Nick se importava? Seria porque ficara ligeiramente com ciúmes quando vira aquela garota da idade de Lincoln dando em cima dele no saguão do hotel? Ou por que ele retribuíra? Pele bronzeada, olhos e cabelos claros, óculos de sol pendurados na gola da camisa e um sorriso encantador como um autêntico mauricinho. Não tinham tempo para isso. Vamos, Lincoln, temos que achar nossos quartos, diga adeus à sua amiga. Preste atenção que é adeus, e não tchau.
— Eu te amo, está bem? — confidenciou a ele, embora não fosse segredo nem mesmo para Pan. — Lembre-se disso.
— Como esquecer? O grande Nicholas Hentz me ama, mas não me deixa chamá-lo de Nick. Você é muito condizente.
Ah, aí estavam o cinismo e o sarcasmo.
Estavam em First Street, no Garden District. A casa era magnífica.
Era uma daquelas velhas casas coloniais que tanto se vê em Nova Orleans, principalmente em First Street, com colunas brancas na frente sustentando as varandas e telhas escuras e desmanteladas, janelas quadradas e pequenas como olhos miúdos e aguados e venezianas da cor das telhas, decadência misturada com charme, antiguidade confundindo-se com velharia. Uma daquelas casas que pareciam ter elas próprias almas humanas, que pensavam, viam e julgavam. Hentz foram donos daquela casa antes que soubessem que eram Hentz, mas suas marcas estavam impressas em cada um dos arbustos do jardim.
E, é claro, os que podiam ver Sombras estavam quase cegos.
— Estão por toda parte — comentou Lorenzo enquanto se aproximavam a pé. Estavam no meio de uma rua cheia de gente ao invés de carros. Adultos, crianças, velhos, alguns fantasiados e outros não, todos em volta daquela bela casa para vê-la mais de perto, como se fosse uma ruína antiga. Os que eram convidados passavam pelos portões, mas os outros mal se aproximavam. — São espessas, densas, quase sufocantes. São muito piores que Sombras normais. Parecem… ser inteligentes. Ter vida. Sombras nunca foram assim, elas nunca foram vivas.
— Vamos entrar e ver o que acontece.
Matinhos explodiam nas rachaduras da calçada. Um pesado carvalho cheio de braços guardava os portões, suas fortes raízes só dificultando o trabalho do asfalto em se manter inteiro. Não se podia lutar contra uma árvore daquelas.
A cerca era baixa, de ferro negro e estava coberta de heras, como cercas naturais. Os portões estavam abertos. Crianças de cabelos brancos, azuis e verdes brincavam nos jardins, onde a grama era grossa como mato e de uma cor tão escura que parecia lama. Pulavam em cima de pedregulhos e gritavam nomes fantásticos para si mesmas, inebriadas por suas imaginações. Quando um menino disse ser o Senhor dos Trovões, um trovão ressoou no céu, que estava livre de nuvens.
Uma coincidência, pelo amor de Deus, só uma coincidência.
Adultos fantasiados discretamente bebiam Martines e champanhe em taças apropriadas enquanto conversavam. Muitos deles faziam coisas fantásticas, como reconstruir uma taça de vidro que acabavam de derrubar no chão com um estalar de dedos ou fazê-las levitar até dentro de casa. Ninguém do lado de fora parecia perceber isso.
— As Sombras sumiram — disse Lorenzo ao passar pelos portões. Seus olhos cinzentos e lindos brilhavam como cometas. — Esse lugar é encantado. É tudo tão maravilhosamente lindo. Eu quase posso ver.
Truque ianque de ilusionismo.
As famosas colunas eram dóricas, poderosas e brancas como na antiga Grécia, mas desgastadas pelo tempo. Quase todo o exterior da casa era branco, exceto pelas portas, janelas e venezianas, que tinham tom verde-escuro, e a cerca e o piso da casa, levemente acinzentados. Cadeiras brancas de balanço, lindas e preciosas, todas de bom gosto, serviam a velhas senhoras em roupas elegantes e de pérolas no pescoço que bebericavam chá ou um bom uísque, fofocando sobre as mazelas da vida. Bruxas. Bruxas velhas até os ossos. Nick sentiu-se subitamente despido de privacidade. Podiam ter ouvido o que pensara? Num lugar como aqueles, você se torna um livro aberto, quer queira, quer não.
O interior estava agradável. Pessoas, muitas pessoas, todas fantasiadas, homens e mulheres jovens e velhos que jamais o reconheceriam porque alguma coisa impedia isso. De certo os mais novos ali conheciam Nicholas Hentz. Será que a falta de suas longas madeixas louras podia fazer tanta diferença? Como queria deixá-las crescer em seu resplendor dourado.
Oh, mas estava fantasiado de leão. Como pudera se esquecer?
Rowan Pyatt estava perto das escadas de mármore com corrimãos de madeira escura. Usava roupas pretas e um charmoso chapéu pontudo que devia ter sido moda nos anos 90 do século XVII.
— Boa noite, Harry Potter — cantarolou ao se aproximar dele, taciturno como um leão de verdade. O hall imenso o esmagava. Devia ter pelo menos duzentas pessoas naquela casa. — O objetivo da festa era vir fantasiado.
— Fale mais sobre isso, leão dourado.
Nick deu um rugido baixo.
— Estou sendo hipócrita, eu sei, mas Lorenzo é um vampiro, ele também trapaceou. Veja… ei, onde ele está? Ah, ele sabe se cuidar. Eu poderia mandá-lo a um internato na Suíça e ele voltaria em quarenta e oito horas sozinho. Sua adolescência vai ser um inferno. Então, são todos bruxos?
— Quase todos, sim. São todos parentes distantes de Lorenzo.
— Oh, meu Deus, é verdade. E se ele quiser ser adotado por um deles?
— Duvido que isso aconteça. Então, como se sente na primeira casa de John Francis Hentz? Ela estava caindo aos pedaços quando a Chaulwen a adquiriu. Algumas crianças costumavam vir aqui e quebrar os vidros restantes com paus e pedras, uma brincadeira delas. Quando as obras para revitalizar a mansão começaram, elas continuaram a vir aqui, então uma ilusionista talentosa que é membro da organização tomou conta disso.
— Ela criou fantasmas?
— Não há nada que assuste mais as pessoas que fantasmas. Nunca ninguém mais veio aqui, e então pudemos reformar. As madeiras apodrecidas foram trocadas, toda a fiação e encanamento evaporaram e foram substituídos, os antigos móveis foram restaurados e os danificados demais vendidos como antiguidades ou guardados. Todos os cômodos foram reformados, os papeis de parede trocados por outros idênticos e a madeira corroída por cupins trocada. A piscina havia se transformado num pântano de lodo, mas agora está limpa, cheia e fumegante. A biblioteca guardava tesouros inestimáveis que agora estão sendo cuidadosamente examinados num dos laboratórios europeus da Chaulwen. Gostou dos lustres da Tiffany’s? Todos de edição limitada do início do século XX. Foi um milagre conseguir outros iguais. O que você vê nessa casa não é diferente do que John Francis via.
— Isso é bom? Quer dizer, ele abandonou tudo isso para ir caçar diamantes na África do Sul. Por quê?
— Creio que quisesse sua própria fortuna.
— O que aconteceu com os Hentz de Nova Orleans?
— Henri e Dominique morreram juntos nessa casa há exatamente cento e um anos, com poucas semanas de diferença, e ambos já eram muito velhos. A casa foi posta à venda por seus parentes, tendo sido comprada primeiramente em 1916 por um cirurgião e sua esposa. Eles foram… bem, eles foram assassinados nessa casa junto com seus quatro filhos. O assassino nunca foi pego. Depois deles, uma sucessão de compradores encontrou destinos igualmente infelizes nessa mesma casa.
— É assombrada? Você comprou uma casa assombrada?
— Havia de fato alguns espíritos aqui quando eu primeiramente entrei, mas todas as casas antigas têm, sem exceção. Igrejas, castelos, mansões coloniais, espíritos habitam as paredes desses lugares sem nunca interferirem em nada. Os que estavam aqui eram inofensivos antes de serem expulsos e nunca houve provas de atividade paranormal destrutiva antes. Por que não acreditar que todas as mortes foram acidentais?
— Fale mais sobre elas.
— Depois do cirurgião, a casa foi adquirida por pessoas que foram à falência e perderam tudo, perderam membros da família em acidentes horríveis e tiveram elas próprias seus acidentes horríveis. Em 1959, um incêndio destruiu a parte da casa que servia de moradia para os empregados, matando todos eles no processo, e a partir daí ela não conseguiu mais ser vendida. Ficou às moscas até que a Chaulwen a adquiriu.
— Os Hentz nunca procuraram por essa casa? Por que John Francis não a comprou de volta? Não compreendo isso. Eles tinham o costume de acumular propriedades simbólicas para a família. Achavam que, no futuro, a uniria ainda mais. E se a onda de azar afetar membros da Chaulwen?
— Duvido que isso aconteça.
— Por quê?
— Porque algo me trouxe aqui, Nicholas. Algo me arrastou a Nova Orleans no início desse ano, exatamente para esse ponto de First Street e me mostrou uma casa caindo aos pedaços, extremamente velha e implorando por uma boa reforma. Algo me obrigou a querer esta casa e a conveniência me fez transformá-la na sede da Chaulwen de Nova Orleans. Talvez não seja esse o destino dela, mas é o que farei enquanto não o descubro.
— Você realmente é uma fada boa.
— Fique quieto. Eu tive que forçar a Chaulwen a dar essa festa, sabe. Eles não queriam todos esses bruxos juntos nessa casa amaldiçoada, nessa cidade vampiresca, nesse dia mal-assombrado. Não sabiam o que poderia acontecer com tanto poder unido no mesmo lugar. Estamos bem. Até agora já passaram mais de mil descendentes nessa casa e o mundo não explodiu. Eu tinha razão. Ser o único descendente direto de Atheneus te dá alguns direitos, como por exemplo manipular autoritariamente todas as ações, princípios e regras de uma organização bimilenar mais restrita que a Igreja Católica sem que ninguém ouse falar sobre isso.
— Não há ninguém por aqui que possa curar Lorenzo?
— Nicholas, pare com isso.
— Está bem, não vou insistir. Também não vou sair por aí perguntando quem tem poderes curativos e quem não tem, acho que vai ofender as pessoas, por isso só vou perguntar uma coisa uma vez e para você. Tem certeza absoluta de que não há nenhum projeto de curandeiro zanzando em Nova Orleans? Porque se houver e você estiver mentindo para mim e negando a Lorenzo qualquer possibilidade de viver só para satisfazer a um Deus em que você não acredita…
Rowan sorriu e levantou aquela mão suave de veludo, interrompendo-o e tranquilizando-o.
— Não se preocupe com mentiras, Nick. Falarei do modo mais cru que consigo: não há nenhum ser humano nesta casa, nesta cidade ou no mundo inteiro que possa salvar a vida de Lorenzo. Retirar o câncer, talvez. Mas o destino dele já está escrito nas estrelas há muito tempo.
— Não precisa vir com essa história de novo. Vou deixar você voltar a seus convidados e sair por aí, conversar com algumas pessoas sobre poderes mágicos. Quando me perguntarem qual o meu, direi que é ser excepcionalmente belo. Também vou explorar a casa de John Francis do sótão às fundações, espero que não se importe.
— Claro que não. Sua história está escrita nessa casa. Fique à vontade. Aqui, pegue essa chave. — Ele tirou das roupas escuras uma bela chave dourada e comprida, uma do tipo que não parecia ser fabricada já há muito tempo. — É a chave-mestra, abre todas as portas.
— Obrigado, Rowan Pyatt. Quase te perdoo por ter entregado a virgindade ao meu irmão.
Nicholas sentia-se entrando na boca de uma fera. Quanto mais adentrava a casa, mais escuras as paredes se tornavam, como se estivessem se distanciando da luz do sol. Um esôfago, na verdade. Estava dentro de um esôfago. Além do grande hall, havia no térreo duas salas de estar e um grande salão de baile dividido, cozinha, sala de jantar, quarto dos empregados e três banheiros sociais. E que grande mistura era aquela de papeis de parede do fim do século XIX com lâmpadas elétricas. Até os azulejos antigos e belos, limpos como espelhos, refletiam os interruptores.
A decoração de Halloween era discreta, mas onipresente. Insetos e aracnídeos repulsivos caíam do teto de repente, reais como se o fossem, e esqueletos eram pendurados por trás de portas que teoricamente não deveriam ser abertas, como a da despensa da cozinha. Que crueldade, Rowan, seu grande gênio. Nick fazia esforço para acreditar que as caveiras eram de mentira, embora parecessem osso de verdade. Examinava uma atentamente quando uma daquelas crianças pavorosas de cabelos coloridos aproximou-se dele, olhou para o objeto e depois de volta para Nick.
— Ela diz boa sorte. — E fugiu correndo, como de praxe. Nick decidiu parar de olhar as caveiras.
No lado de fora, no quintal da casa, rodeado pela cerca de, uma piscina em formato tradicional, retangular, margeada por azulejos verde-escuros que davam à água uma impressão lodosa. Bastante nojento, sim, mas não foi o suficiente para afastar as crianças de lá. Era bom que Lorenzo ficasse longe dali. Adorava piscinas, mas Nick não queria que destruísse sua maquiagem e seu cabelo. Um vapor brando flutuava da água aquecida.
Havia uma névoa clara movimentando-se ritmicamente pelo terreno ou era impressão sua? Aquilo era bem impossível, talvez, mas coisas impossíveis estavam acontecendo naquela casa o tempo todo. Precisava-se tomar cuidado para não perder o juízo.
Puxou delicadamente uma adolescente fantasiada de enfermeira pelo braço e perguntou-lhe com ar inocentemente cúmplice:
— Você vê essa névoa também ou eu estou enlouquecendo?
Ela sorriu-lhe com dentes brancos.
— Você gostou? Eu mesma fiz.
Como bem pensara, truque ianque de ilusionismo.
Havia dois caminhos deixando a varanda da casa, trilhas de cimento barato cercadas por pedregulhos pequenos, com mato explodindo dentre eles. Um levava à piscina e à casa de hóspedes e o outro a um belo caramanchão de madeira clara também coberta por heras, e essas tão apertadas que era como se o sufocassem. Adolescentes beijavam-se nos sofás de couro branco com cervejas nas mãos, felizes e sem preocupações. Será que todos conheciam a fundo a história de Atheneus? Algo de superficial, sim, é claro, mas e quanto à história de Rowan, Bathory e Jhahantar? Será que sabiam o quanto estiveram prestes a morrer no ano anterior, quando Rowan salvara a vida de todos arriscando a própria? Ah, provavelmente não. A arrogância adolescente os impediria de entender.
Gabriel matara Bathory. O pensamento veio de repente. Sim, Gabriel fizera isso! Ninguém mais teria conseguido eliminar a velha perversa e forte como um touro. Apenas alguém com um destrutivo poder de morte, um poder felizmente queimado durante sua infância que só funcionava uma vez por ano. Sim, naquele mesmo dia… Rowan devia ter entrado em contato com ele, onde quer que estivesse na Inglaterra. Um internato antigo, era tudo o que sabia. Fique no quarto tanto quanto puder, fale com poucas pessoas, assista a filmes e ouça música. Relaxe. Não se irrite com ninguém. E pelo amor de Deus, não imagine ninguém morrendo de repente…
Será que Bathory estava no inferno? Rowan dissera que o inferno não existia, então o que acontecia às almas quando as pessoas morriam? Algumas ficavam na Terra, é claro, Oliver tinha deixado isso claro, mas e as que não ficavam? Simplesmente evaporavam? Por que não perguntara isso a Rowan? Ah, ele provavelmente viria com um discurso filosófico e interminável retirado de seus miseráveis livros europeus vindos diretamente da Era Elisabetana.
Voltou para dentro de casa, roubou doces de crianças e meteu-os na boca. Devia ir pedir doçuras ou travessuras logo se quisesse ter tempo de conseguir doces o suficiente para alimentar Lincoln e Pan. Será que Pan já fizera aquilo? Será que o pobre Lincoln já fizera? Ele ainda tinha idade, sim, tinha, podia passar-se por doze anos. Que vida infeliz que levara. Odiado pelo irmão, desprezado pela sociedade, abandonado pelos pais. Oh, vida.
As escadas lhe chamavam. Sim, as escadas.
Lá em cima, quartos, muitos quartos, pelo menos sete deles, todos suítes, mas só um principal. Os tecidos eram antigos, de uns tipos cujas estampas eram cheias de flores em tons anacrônicos e que poderiam ter sido tricotados por sua bisavó. No entanto, por algum motivo achou-os belos nas camas de dossel. Olhou-se num dos espelhos com moldura de ferro. Irreconhecível, mas não era pela fantasia. Algo em sua expressão mudara. O Nick que olhava seu reflexo naquela casa em Nova Orleans não era o mesmo Nick que fizera a mesma coisa há sessenta e seis dias, antes de deixar o Palácio Real Hentz. Algum dia voltaria a vê-lo? Algum dia voltaria a ver o irmão, a beijá-lo e praticar seu incesto pecaminoso que tanto amava?
Virou-se para sair do quarto principal. Havia alguém na porta, um rapaz, mas ele não fitava Nick. Cantava uma melodia.
Os homens azuis dançam na clareira.
Sob a lua nova, sob a azul cegueira.
Deu-lhe as costas e foi embora.
Nick voltou a encontrá-lo no quarto seguinte, e no seguinte e no depois desse. Na biblioteca principal e na menor também, e no escritório e na sala de música, onde um belíssimo piano se encontrava. Foi lá que reencontrou Lorenzo, que tocava freneticamente para alguns ouvintes extasiados. Pelo amor de Deus, não use sua voz ou não haverá magia no mundo que o disfarce. Não falou aquilo em voz alta, mas Lorenzo entendeu e piscou para ele.
O rapaz, aquele mesmo rapaz, olhou para Lorenzo extasiado, depois para Nick, embora novamente não parecesse estar olhando para ele. Vestia roupas muito antigas, como um lorde inglês do século XVII. Era uma festa à fantasia, não era? Continuava cantando a melodia.
Dançantes, em volta do escuro.
Descarnados, em volta do impuro.
Então deu meia-volta e foi embora.
Nick visitou o sótão da casa. Um cômodo triangular de madeira empoeirado e com teias de aranhas sem aranhas, graças a Deus. Móveis velhos demais para serem restaurados e dezenas de caixas se amontoavam ali. Ficariam ali para sempre, não ficariam? Deus sabia que sim.
O rapaz estava ali, enfiado até a cintura numa daquelas caixas. Olhou para Nicholas daquele jeito sinistro e continuou:
Uma alma, dualidade.
O Verbo se fez carne.
— Essa parte nem rimou. O que está fazendo? — Aquilo era invasão de privacidade. Nick sabia que coisas pessoais dos Hentz de Nova Orleans estavam guardadas ali, talvez até alguns arquivos importantes da Chaulwen.
— Procurando — ele respondeu. Possuía uma voz muito mais grave do que sua aparência indicava. Ele não devia ser mais velho que Ethan, tinha longos e bem-cuidados cabelos louro-escuros e olhos que Nick julgava serem castanhos, mas não o fitara o suficiente para identificar. — Ah, achei. Aqui, Nick, olhe isso.
— Meu nome é Nichol… — Sua estupefação o interrompeu. Ele o reconhecera? Era isso mesmo, ele o reconhecera? Como? Havia maquiagem e mágica cobrindo sua cara. — Como sabe quem eu sou?
— Ora, como poderia não saber? Eu o vi nascer. E já que ficou revoltado ao saber que seus antepassados deixaram essa casa, bem, eu queria dizer que eles não deixaram exatamente. John Francis, John Daniel e Samuel vieram aqui. Olhe. — Ele mostrou o que tirara da caixa e agora sustentava nos braços: porta-retratos de três gerações diferentes. O primeiro era redondo, em formato de medalhão, do tipo que se vê nas casas dos avós com fotos em sépia; o segundo era retangular e em cores pasteis, feito de madeira; o terceiro era cinzento e metálico como as pessoas jovens.
O primeiro mostrava um belo e orgulhoso homem no auge de seus quarenta anos sentado numa bela cadeira. Vestia um terno antiquado e sorria, o que era incomum para fotos de época. Ao seu lado, em pé, outro homem de aspecto severo vestia o mesmo terno e segurava a mão de um adorável menininho de cinco ou seis anos. Os três eram louros e tinham olhos escuros. A foto era datada de 1936. Aquilo foi um ano antes de John Francis morrer, ou seja, estava com sessenta e nove anos. O homem sério era o John Daniel de vinte e sete anos e o garotinho era o Samuel de seis.
— Fantástico — murmurou. Existiam poucas fotos dos homens Hentz juntos que não tivessem nada a ver com a Kruger-Vorheel. Fotos em família, sim, inocentes e felizes. Apenas avô, pai e filho.
O próximo retrato já era colorido. O homem severo do primeiro estava agora sentado e envelhecido, com pele em demasiado no rosto, grandes bolsas debaixo dos olhos e uma grossa bengala nas mãos. Estava calvo já há muito tempo, pois não se via mais que alguns fios finos na cabeça. Não sorria. Ao seu lado, jovial e extremamente belo, sorria um homem louro de meia-idade que aparentava quinze anos menos. Segurava a mão de uma linda garotinha loura. A foto estava datada de 1978, um ano antes de John Daniel morrer. Samuel já tinha quarenta e oito anos, mas mal aparentava trinta e cinco. Mary Alice tinha cinco anos de idade e seus olhos escuros de leoa eram astutos embora inocentes.
— Essa é mais feliz. — Sim, de fato era. Samuel e Mary Alice foram criaturas excepcionais, ambos a frente de seu tempo. Samuel de forma alguma ficara decepcionado por ter uma filha mulher sabendo que ela teria que um dia controlar a empresa. Pelo contrário, ensinou-lhe tudo o que sabia. É claro que Mary Alice jamais deixou que tomasse conhecimento de seus planos diabólicos de acabar com a Kruger-Vorheel. Samuel provavelmente a teria matado. Isso não era um pensamento fútil. Ele realmente a teria matado.
A foto do último porta-retratos, o moderno, era colorida e em alta-definição. Sentado, um homem de idade, ainda jovial, com um grande sorriso e boa aparência. Bengala escura e uma grande cabeleira loura em sua cabeça. Nada novo. Samuel nunca ficara grisalho como o avô ou careca como o pai. Sempre fora bonito. Recusara-se a entregar-se à velhice. Ao seu lado, uma mulher adulta e linda, de cabelos loiros parcialmente cacheados, usando as joias Hentz. Também sorria. E em suas mãos… Santo Deus, era abismal. Cada uma das mãos segurava a mão de um garotinho. O primeiro deles era moreno, o primeiro moreno da família, adorável e lindo. O segundo era ainda mais novo, mal se sustentando em pé, e tinha cabelos de um louro que Nick sempre reconheceria. A foto estava datada de 2000, ano em que Samuel morreu. Mary Alice tinha vinte e sete anos, Ethan tinha quatro e Nick tinha dois.
Em toda sua vida, Nick nunca vira nenhuma foto sua com o avô. Para ele, os homens antes da mãe eram uma classe totalmente diferente de Hentz, Hentz anciões, Hentz mortos, separados dos Hentz jovens por uma grande barreira invisível de tempo. Dividiam apenas o sobrenome, a cor dos olhos e a empresa. Mas não, não era assim. Samuel havia tirado fotos com os netos, talvez os segurado no colo também? Será que fora ao hospital após sua filha dar à luz, pegou Ethan nos braços e olhou fundo em seus olhos procurando ali algum resquício da megalomania Hentz e achou? Se o tivesse feito, teria achado. Era bem possível que tivesse após saber que os cabelos de Ethan eram escuros. Nick não tivera cabelo ao nascer, mas de repente sentiu-se inspecionado.
Podia Samuel ter planejado ver os netos crescerem? Talvez comprado-lhes a primeira bicicleta, o primeiro carro e pagado-lhes a faculdade? Via Ethan um dia como o Presidente da Kruger-Vorheel sem saber que tão jovem herdaria tamanha fortuna e criaria uma empresa que no futuro seria ainda maior? Não que a Anhert fosse maior que a Kruger-Vorheel, claro que não, ainda levariam anos, mas Samuel era multibilionário antes que Mary Alice torrasse a fortuna Hentz em doações e homens assim sempre têm uma medida desmesurada para a grandeza.
Nick parou de matutar sobre os segredos da família. Estava num sótão em Nova Orleans. Ethan sequestrado, Lorenzo para morrer, um rapaz estranho a seu lado. Mas hoje não. No Dia das Bruxas, absolutamente não.
Olhou para o rapaz, que o observava atentamente. Sim, olhos castanhos, assim como o cabelo. Belo rosto, comprido e aristocrático. Se empunhasse o devido sotaque, poderia ter facilmente se adequado à Era Elisabetana como um jovem nobre. Não podia ter mais de dezenove anos. O que fazia ali? Como soubera dos retratos?
— Eu vi esses retratos serem tirados — ele respondeu. Nick levantou uma sobrancelha. — Também vi Samuel Hentz vir a esta casa antes de morrer e colocá-los aqui, queria se livrar deles porque sabia que morreria logo e estava assustado e cansado. Eu tirei o último, na verdade. Lembro-me de você com dois anos e Ethan com quatro. Não mudaram nada.
— Está bem, vou fingir que acredito em tudo o que você diz porque essa casa está recebendo uma convenção de lunáticos hoje. Pode sair do sótão?
— Eu não quero sair do sótão. Quero que me conte do sonho que teve com Oliver. Você sabe, o da dança dos leões.
Nick recuou horrorizado. Ninguém podia ler-lhe os pensamentos tão profundamente sem sua permissão, nem mesmo no Halloween, e esses estavam trancados num baú secreto nos confins de sua mente. O sonho da dança dos leões… sim, que sonho pavoroso. Irritante pensar que não fora ele quem o tivera, fora Oliver, que contara a ele num sonho. Falso, tudo falso.
— Não é falso, é real, Oliver estava em sua mente transmitindo-lhe aquelas palavras em tempo real, você sabe disso e eu também. Não foi um sonho, seu tolo. Ande, conte-me, não há muito tempo. A hora das bruxas se aproxima, e quando isso acontecer o Halloween vai acabar.
— Vá ao inferno.
Deu-lhe as costas. Desceu a escada do sótão o mais rápido que ousava e saiu correndo pelos longos corredores. Voltou à sala de música, uma sala arredondada com redomas de vidro onde podia-se ver o céu estrelado. Lorenzo não estava lá. Onde diabos ele podia estar?
O rapaz estava na porta da sala.
— Eu sei onde ele está.
Nick ignorou-o. Fez menção de sair pela porta, mas ele pôs a mão em seu peito para impedi-lo. Era surpreendentemente pesada e dura, como se houvesse mármore por baixo da pele. Impossível movê-la. Pela segunda vez, recuou horrorizado.
— Desculpe-me por isso, sei que dá uma sensação ruim tocar alguém que parece humano e sentir que não é, mas eu nunca tive talento excepcional em imitar a carne. Preciso que me fale da dança dos leões. Por favor, Nicholas. É importante, pode salvar muitas vidas.
O coração de Nick batia rápido, sua vista dava voltas. O que aquela criatura queria dele, exatamente? Possuía um rosto tão admirável e aparentemente gentil, mas também não conhecia nenhum recurso de socialização humana. Seria um alienígena ou um ser de outra era que passara todo aquele tempo dormindo?
— Oliver me contou que sonhou com um baile de leões — começou em voz baixa. Tinha a impressão de que poderia apenas mover os lábios e mesmo assim ele entenderia. — Um salão de baile enorme de pedra clara. Rosa-claro, foi isso que ele disse. Pessoas dançavam, mas não eram pessoas, eram leões humanoides vestidos de gala. E… uma grande orquestra, isso, e um trono de ouro no centro. Havia dois pares de leões grandes, cada um com um macho e uma fêmea, mas em um par os dois eram negros e no outro ambos eram dourados. Sim, um casal negro e um casal dourado. Outro par era formado por uma leoa dourada e um gato verde-acinzentado, e esse gato usava uma coroa. Outro par tinha outra leoa, mas essa branca como a neve e como a luz, e dançava com uma grande pantera cinza-violeta de olhos violeta.
O rapaz ouvia tudo atentamente.
— No trono de ouro… havia um leão negro morto, e a seus pés um leão dourado à beira da morte. O leão negro usava uma coroa que pendia de sua cabeça e que estava prestes a rolar, e todos os outros leões a queriam para si. Ele também tinha um cetro com um grande diamante, também prestes a rolar. A orquestra tocava marcha fúnebre. Sim, marcha fúnebre.
— Os convidados, fale-me dos convidados.
Nick não se lembrava de ter mencionado convidados.
— Dois falcões alaranjados de olhos verdes, um idêntico ao outro. Queriam escolher um leão, mas nunca se decidiam. Havia outros falcões, mas não eram importantes. Três gatos verde-acinzentados, dois usando coroas. Isso mesmo, eu me lembro. Gatinhos minúsculos de pelos brancos e olhos azuis. E… ah, ele mencionou quadros nas paredes com homens e mulheres.
— Mais alguma coisa? — Não era uma pergunta, era uma incitação.
— Ele disse que eu sou o leão dourado.
— Qual?
— O agonizante, aos pés do negro.
— E o leão negro…
— Sim, o leão negro é Ethan, isso é bem óbvio. — Levantou os olhos marejados. Por que tinha que ficar emocional logo com pessoas por perto? Por isso que todos achavam que fracassaria na missão de salvar Ethan? Não podia culpá-los. — O que foi aquilo, uma profecia, ou algo assim? Indica que Ethan vai morrer? É isso que significa?
— Todos vamos morrer, isso é fato. E quanto a Elluryiel?
Não era nome da criatura com a qual Lorenzo sonhou?
— Quem é Elluryiel? — perguntou cuidadosamente.
— Ora, você sabe, o espírito da floresta que salvou a vida de Oliver.
— Eu… eu não sabia que o nome dela era Elluryiel. Lorenzo sonhou com ela. Ela lhe disse algumas coisas.
— Sim, ela falou da virgindade. — O rapaz falou isso como se estivesse mencionando como o tempo estava úmido. Nicholas ficou de repente embaraçado demais para ficar ali, na sala de música, conversando sobre seus sonhos com uma criatura que parecia ser humana, mas que decididamente não era. Pan era mais humano que ele. E como ele saberia disso? — Nicholas, você sabe o que é a Luz?
— Por que não me conta?
— A Luz é o exato oposto das Sombras, ou talvez não o exato oposto, mas de fato um oponente. A representação física das Sombras é dada por uma névoa densa, pesada e roxo-escura que sufoca, enerva e entristece seres humanos. A Luz, por sua vez, é uma película fina e quebradiça, parecida com um véu muito frágil, mas é tão forte quanto as Sombras. No entanto, é extremamente difícil invocá-la. Sombras brotam facilmente como fungos onde quer que haja desgraça, mas nem por isso a Luz fará o mesmo onde não há. Por motivos desconhecidos, paranormais têm mais facilidade de atrair Sombras que Luz. Apenas aqueles que atinge um alto nível de purificação espiritual adquirem a habilidade de atrair Luz, mas sempre de forma limitada. É impossível obrigá-la a aparecer, muito menos manipulá-la. A maioria dos que veem as Sombras nem sequer pode vê-la, alguns não sabem que existem. Quando aparece, traz felicidade e boa sorte consigo. Alguns paranormais que veem espíritos às vezes veem silhuetas azuis brilhantes em volta deles. É Luz. O punhal que Rowan Pyatt usou para ferir Jhahantar era feito de Luz, foi dado a ele por um grupo de espíritos bons.
— Por que está me contando isso?
O rapaz olhava em direção a Nicholas, mas de novo parecia estar olhando para algo através dele.
— Porque a Luz está em você. Em você e em Lorenzo, que não consegue sentir sua presença. Ela os segue sem parar já há algum tempo. Quando você se comunicou mentalmente com Lorenzo aqui nessa sala, a Luz que cobre sua silhueta uniu-se com a que cobre a silhueta dele. É a Luz que impede que os outros os reconheçam. Elluryiel era pura Luz, e Oliver também. Venho ao longo dos anos tentando entender por quê, mas depois de vasculhar suas memórias e ouvir o relato dele sobre o sequestro na floresta, finalmente consegui. Você conseguiu também?
As palavras estavam em sua boca, loucas para sair. Ele queria dizê-las, mas ao mesmo tempo não, pois seria o mesmo que manchar a história de Oliver. Ollie, o pequeno grande Ollie. Imaculado e puro em seus pecados. Mas o rapaz o esperava. Sabia o que ele diria, mas precisava ouvir.
— É porque quando Oliver estava prestes a morrer naquela cabana na Floresta das Sombras, um mês após ter se perdido e sido resgado por Elluryiel, ela abandonou sua forma física e sua alma uniu-se a dele.
— Sim, exatamente! As duas almas se tornaram uma só, presas no corpo criança de Oliver. E quando isso aconteceu, os cabelos dele tornaram-se prata e os olhos estrelas. É por isso que ele conseguiu sobreviver a oito estupros e um corte na garganta. Elluryiel o deixou tão forte que ele conseguiu sobreviver em condições inumanamente precárias.
— Isso me magoa, pare de falar de Oliver — murmurou fatigadamente. Sentia tanta falta dele, estranhamente. Os dois nunca se deram bem enquanto ele era vivo e namorado de Ethan. — O que aconteceu depois que ele morreu?
— Quando sua alma deixou o corpo, Elluryiel desprendeu-se dele pela primeira vez em sete anos. Talvez tenha sido isso que tenha incitado Oliver a ficar na Terra, mas nunca se sabe. Ela deve ter voltado a sua floresta amaldiçoada. Sim, é exatamente isso. A Luz seguiu Oliver durante sete anos e se foi. E agora segue você e Lorenzo, mas ainda não entendo por quê.
— E quanto à dança dos leões?
— Uma bobagem. Um sonho delirante. — O rapaz não achava realmente aquilo, como podia-se perceber em seu irritante sorriso sarcástico, mas também não parecia querer estender a conversa sobre. Simplesmente usara Nick para colher as informações que precisara e agora o descartava. Deu-lhe as costas e tratou de caminhar para longe. Ora, mas que petulância.
— Espere! Quem é você? O que é você? Qual seu nome?
— Perguntas demais — ele respondeu sem olhar para trás, andando como se estivesse fugindo. — Todas fúteis demais. Obrigado, Nick Hentz.
Ele entrou num armário de roupas e trancou a porta por trás de si. Nick imediatamente tirou a chave-mestre do bolso e enfiou-a na fechadura. Precisou de um pouco de tranco, como é típico destes tipos de chaves, mas quando abriu deparou-se com um armário vazio. Havia um esqueleto de brinquedo pendurado por trás da porta.
O rapaz se fora.
Quando a hora das bruxas badalou em Nova Orleans, Nicholas Hentz soube que o Halloween acabara.
E quando o véu de ilusão se dissipou, a casa estava quase que completamente vazia, carregando apenas alguns adultos bêbados que esperavam táxis. De repente, Nick viu Nova Orleans como realmente era: uma cidade antiga e decadente arrasada pelo furacão Katrina em 2005, alagada até os tetos das casas. Uma cidade quente e úmida cujo ar parado proporcionava uma sensação gostosa a quem entrava. Uma linda, bela, antiga e musical cidade onde ele queria morar mais que tudo.
Antes de deixar a festa e depois de checar o armário de roupas mais uma vez à procura de rapazes de cabelos longos, foi até Rowan Pyatt.
— Quero esta casa — declarou. — Era dos Hentz e tem que voltar aos Hentz. Um dia, pretendo morar aqui. Para o inferno com Middleland, Hollywood e as cidades sempre quentes e cheias de prédios estéreis da Califórnia. As casas daqui têm personalidade. Essa cidade tem vida. Diga-me seu preço, ou o preço da Chaulwen, e eu faço um cheque. Prometa descontar só quando eu voltar ao meu trono dourado, aliás.
E Rowan Pyatt sorriu e deu de ombros.
— Acho que eu finalmente descobri por que quis comprar esta casa e reformá-la. Não para transformá-la em mais uma sede americana da Chaulwen, mas para entregá-la a você, pois é para você que estava destinada. É um presente. Viu como o destino sabe o que faz? É por isso que ele é meu deus. Nunca me decepcionou e não vai me decepcionar nunca. Não vou cobrá-lo um centavo, meu querido leão dourado. A casa é sua.
— Oh, Rowie.
Deu-lhe um selinho carinhoso. Um beijo adolescente, cálido e tímido, do tipo dos que Rowan deveria dar, ao invés de usar a língua e o corpo como fizera com Ethan. Também fez isso porque queria provar de novo os lábios do irmão, e estes estavam impregnados lá há muito tempo.
Horas mais tarde, após doçuras ou travessuras, muito mais doçuras que travessuras, felizmente, Nicholas Hentz olhava para a cidade pela janela do Ritz-Carlton. Um dia moraria em Nova Orleans. Estava decidido. Um dia.
Mas, no momento, era hora de pensar em outra coisa. A luzinha do GPS indicava um certo automóvel que movia-se para o Mississipi.
— É, já estava na hora — murmurou para si mesmo. Chamaria Lincoln e Pan no quarto ao lado. Lorenzo dormia, por isso o transportaria para o trailer sem acordá-lo. O bom de se ter um irmão pequeno é que você acaba aprendendo esses pequenos truques. — Está bem, rapazes, o festim acabou. É hora de pular nas nossas vassouras e voar daqui.
Fale com o autor