Notas iniciais
Sorry pela demora.

[…] oh, desejo.. certo, isto era algo, era amor e desejo, que ensinam uma pessoa a voar.

[…] isto é voar, isto, oh, amor, oh, desejo, oh, isto é algo impossível de ser negado, unindo, dando, produzindo um forte círculo: unir, dar... voar.

(A Coisa

— Stephen King)

A tragicomédia de quem não tem da própria existência as rédeas.

(From Hell Do Céu

— Black Alien)

OoO

Ele estava deitado numa cama fina e velha, mas absolutamente confortável, como se estivesse sob milhares de penas de pavão, coberto por amarras apertadas como algemas e macias como seda egípcia pura. O aposento era pequeno e apertado, vazio, embora ao mesmo tempo fosse grande como um estúdio e atulhado de móveis, antiguidades, raridades que ninguém mais sonhasse em achar. A luz irradiava através das janelas, embora não existisse nenhuma, através da fresta da porta, através do piso, do teto, das paredes, uma luz pura e viva, uma luz sólida e poderosa que acariciava seu corpo nu e exposto. Uma luz possessiva e obsessiva que estava ali, lá e cá, impossível de ser enganada e que fazia questão de deixar isso bem claro, como num aviso ambiguamente amigável e hostil: ninguém poderá pegá-lo aqui porque você é meu.

E o frio, meu Deus, o frio imenso e colossal, um frio tão profundo que era como se seus ossos estivessem vitrificados e qualquer movimento fosse quebrá-los, perfurando a pele, estourando vasos sanguíneos, rasgando a carne com uma facilidade terrífica. Um paredão de frio encontrava-se acima de sua cabeça, sólido como orvalho, mas invisível como o vento, pois apesar de não o vermos, sabemos que ele está lá. Ele não se lembrava de algum dia ter experimentado o calor, o alento de uma lareira, de uma chama tão próxima ao nosso rosto que queima à distância…

Então a viu parada na porta do quarto, gigantesca e maravilhosa, mas pequena também, e inofensiva, mas ameaçadora, linda e terrível. Branca como a neve nunca conseguiria ser, pura e irradiante como uma criança, sábia e antiga como uma anciã, ela se aproximou. Seus cabelos compridos e extremamente brancos brilhavam sob a luz que o quarto irradiava como fogo branco e luminoso, como a explosão de uma supernova. Ele percebeu que o frio vinha de seus olhos, azuis e glaciais, da cor de um milhão de gencianas juntas, enormes, maiores que tudo. Havia uma energia primitiva neles, uma energia tão poderosa que por vezes deixava escapar faíscas, como se seus olhos estivessem em chamas anis, e que se misturavam aos cabelos esvoaçantes.

Era dela que vinha o frio, mas dela também veio o calor, um calor maravilhoso, melhor que o de qualquer lareira, quente como brasa, tão quente que ele pensou que fosse derreter quando ela deitou-se em cima dele, que ele temeu derreter de verdade quando seus lábios tocaram seu rosto. A pele sem cor era gelada por fora, mas seu sangue era ardia. Ele a segurou pela cintura não como se quisesse empurrá-la, mas como um homem teoricamente deve segurar uma mulher, e então suas línguas se tocaram e se misturaram, quase unindo-se em uma só. Teve uma sensação parecida com a que alguém tem ao se aventurar tocar numa antiguidade rara, por saber que aquilo é muito frágil e especial e por isso temer quebrá-la, mas não suportar a curiosidade.

Ela era velha, impossivelmente velha, tão velha quanto todos eles, quanto tudo o que ele sabia existir ou podia sequer imaginar. Era magnífica também, e assombrosa, magnânima e cheia de misericórdia. Não sabia se devia temê-la ou amá-la. Talvez precisasse dela, mas quisesse ir embora.

Ela o estava beijando há tempo demais agora, tanto tempo que já precisava respirar, mas era impossível empurrá-la. A mulher branca era pesada e rígida como uma estátua maciça de mármore, as linhas curvas de seu corpo nu eram grosseiramente delicadas e perfeitas. Uma combinação estranha.

Estava sem ar, não conseguia mais respirar. Seus pulmões queimavam e se contraíram sob todo aquele peso, desesperados por oxigênio. O frio dela o estava invadindo, congelando o interior de seu corpo, tornando-o tão rígido quanto ela, outra estátua de mármore, condenado a ser para sempre belo e terrível. Ele gritou, berrou e se debateu… a escuridão o tomou.

Quando Ethan Lemnsack abriu os olhos e acordou de seus sonhos, sua boca já estava aberta sugando um ar pesado, gelado e metálico. Artificial, notou logo. Estava num quarto hospitalar em forma de retângulo branco-claro, cheio de luzes artificiais e equipamentos médicos de ponta. O lugar era pequeno, parecendo ter o tamanho essencial só para acoplar tudo o que precisava, e não para oferecer qualquer conforto. Havia dutos de ar protegidos por grades grossas e não havia janelas. Quando Ethan olhou melhor, percebeu que não havia porta alguma. Estava num container.

Havia tubos enfiados em seus pulsos, provendo-o de alguma coisa. Tentou se levantar da cama, mas notou que seus pulsos estavam presos. Havia correntes grossas de cerca de quinze centímetros cada prendendo cada pulso seu à cama. Havia mais duas prendendo os tornozelos.

— Que maravilha — murmurou roucamente. Sua garganta queimava, os olhos estavam inchados e a cabeça parecia pesar uma tonelada, além de ter uma boa e leve tontura quase fazendo-o vomitar. Não seria uma boa ideia. Forçadamente de costas, se vomitasse iria acabar se asfixiando.

Passados alguns minutos afundado em seu torpor, excitado demais para dormir e dopado demais para ficar acordado, sentiu uma presença perto de si. Estava tão drogado que não conseguira sequer ouvir a saída do container se abrindo?

— Aqui — sussurrou uma voz melodiosa e macia, quase como a de Melchior, mas curiosamente livre da crueldade implícita à dele. — Isso vai ajudá-lo com a tontura.

Sentiu alguém levantando seu braço, deixando-o reto e esticado, então uma picada forte de agulha. Não levou dois segundos para o coração de Ethan acelerar e todos os seus sentidos quase entrarem em colapso. Estava totalmente alerta agora, ciente de onde estava e do que estava acontecendo.

Havia mais uma coisa, além de estar num container. Estava num container que se mexia.

Agora prestava atenção à presença com a seringa de adrenalina já vazia numa das mãos e uma luva branca na outra. Ele tirou as luvas e Ethan viu que possuía mãos pequenas e delicadas, brancas sob a luz já branca do container, com unhas perfeitas como vidro. Aquelas mãos desataram todos os tubos ligados a seu braço com perfeição e eficiência.

Era um garoto, apenas. Da altura de Nick, parecia ser levemente mais velho que Lorenzo, tinha os cabelos volumosos, pretos e brilhantes cortados curtos no formato de um capacete e seus olhos eram castanhos. Cheio de adrenalina correndo nas veias, Ethan conseguia perceber detalhes ínfimos que não perceberia normalmente: o comprimento anormalmente longo de seus cílios escuros, o modo como a luz esbranquiçada refletia-se nos fios escuros do cabelo, o tom vermelho dos lábios grossos contrastando demais com o rosto muito pálido. A voz da verdade, ele parecia ser levemente anoréxico. O instinto maternal e o trauma de ver Nick passar por esse problema fez Ethan querer tomá-lo nos braços e niná-lo até que dormisse.

— Como você se sente? — ele perguntou com doçura, com uma voz deliciosa de se ouvir, suave como veludo. Parecia realmente uma versão boa de Melchior, e isso era uma coisa dificílima de existir, já que cada vez mais Ethan começava a pensar em Melchior como o mal encarnado.

— Bem — respondeu. — Com sede.

— Não se preocupe, você não vai desidratar. Eu cuidei disso. Mas aqui, beba.

Ele tirou uma jarra de água cristalina de dentro do frigobar e a despejou num copo de vidro, então colocou-o numa bandeja de prata sob um descanso de copo e adicionou um vaso pequeno de flores para tornar tudo mais agradável. Ethan imaginou quase divertido que se Nick tentasse levantar aquela bandeja da bancada e dar mais que alguns passos, derrubaria todo o conteúdo, propositalmente ou não.

— Aqui está. — Ele estendeu a bandeja serviçalmente. Não havia em seus olhos nenhum ar de superioridade. Ele nem parecia notar as amarras nos pulsos e tornozelos de Ethan, que estendeu a mão para o copo e então parou suspeitosamente. — Está bem, eu provo primeiro. — Ele pegou o copo e deu um gole. — Viu? Não há nada na água.

Não precisou realmente de nenhum outro impulso. Ethan bebeu aquilo sofregamente.

— Qual seu nome? — perguntou-lhe devolvendo o copo.

— Sem nomes, por favor. Não há necessidade deles. Também não sou permitido dizer seu nome.

— Pode me dizer onde estamos?

— Na estrada. Estamos nos Estados Unidos.

Ethan arregalou os olhos.

— Nos Estados Unidos?

— Sim. É um país encantador. Já esteve aqui?

Ele estava tentando seriamente puxar um assunto banal com Ethan preso àquela cama? Era impossível que o garoto não soubesse quem ele era ou o que estava acontecendo ali. Trabalhava para os Lancaster.

— Onde está Devon Lancaster?

— Creio que ele já está aqui, nos EUA.

Por que ele está aqui?

— Provavelmente escondendo-se de você. — Ele deu uma risadinha diplomática tão irritante que Ethan sentiu vontade de estrangulá-lo. Provavelmente sabia disso, por isso se mantinha distante da cama. — Você está dormindo apenas há algumas horas, mas perdeu muita coisa. Gostaria de ler as notícias?

O garoto abriu um dos gabinetes do container e tirou um tablet pequeno. Após ligá-lo, estendeu-o a Ethan, que estendeu a mão até onde pode para pegá-lo. A manchete era dramática como um fim de relação.

ETHAN LEMNSACK É SEQUESTRADO.

— Bem, disso nós dois já sabemos — falou com irritação.

— Vá descendo e veja as outras notícias — ele falou com suavidade.

Ethan viu. E quanto mais via, mais desejava não ter visto. Nick havia fugido. Nick havia sequestrado Lorenzo. Nick agora era foragido da polícia. Nick havia sido visto em Castellobranco. Não, em Victorville. Não, em Barstow. Não, em Ridgecrest. Não, em Harmount. Nick estava acompanhado por uma criança. Não, por duas. Não, por três. Não, estava sozinho. Jules du Pont agora assumira interinamente a vice-presidência da Anhert Corporation. A coisa mais doída fora quando Ethan viu o valor das ações da empresa. Quer dizer, ainda possuía seus preciosos bilhões, mas toda aquela brincadeira custara-lhe algumas dezenas de milhões de dólares.

— Você sabia que baixa no preço das ações seria uma consequência óbvia a uma ausência súbita sua na presidência da empresa. — O garoto tirou o tablet de suas mãos. — Você é feito de diamante e sempre vai ser. Ninguém tem sua consistência e ninguém conseguirá riscá-lo. A não ser outro diamante, é claro.

— Vá ao inferno. Onde está meu irmão? Se fizerem algo com ele…

— Oh, mas isso vai depender dele.

Foi então que, pela primeira vez, Ethan viu algo diferente nos olhos do garoto, algo que pensou já ter visto em Melchior. Não era em sua voz que a maldade estava escondida… a voz era inocente. Era nos olhos. Exatamente o oposto de Melchior, mas essencialmente igual.

— Quer saber onde está seu irmão? — ele perguntou. — Eu digo, mas Devon Lancaster quer saber uma coisa. Ele quer saber onde está o DVD que nós te mandamos.

É claro. O DVD que o exibia estuprando Oliver, a coisa horrenda que Ethan assistira em seu escritório antes de seu apêndice se romper e Jules du Pont o obrigar a ir ao hospital.

— Eu não faço ideia — falou. E era verdade. Não tirara o DVD de seu computador após terminar de assisti-lo. Falara ao telefone, levantara-se, quebrara o celular e agonizara de dor… em seguida estava na ambulância, no hospital, na cirurgia e então… no céu. — Oh, Deus.

— O que é?

Uma imagem voltara sua cabeça. Era mais uma frame daquele pesadelo horrível que acabara de ter, aquele com a mulher gelada. Ethan pensava que sabia o que aquilo significava, mas preferia ignorar.

— Nada. Não sei onde o DVD está. Não sei o que aconteceu com ele. Provavelmente alguém da equipe de segurança que trabalha para você o roubou de volta quando eu estava no hospital… espere. O que você disse? Que vocês mandaram?

— Oh, sim. — Ele sorriu de modo simpático e sua voz continuava infantil e inocente, o que era irritante. — Nós observamos e estamos sempre presentes. A companhia é nossa, Ethan. A companhia que você contratou dois anos atrás para fazer o primeiro trabalho sujo e contratou novamente depois.

— Vocês que ligaram para mim. Por quê?

Ele deu de ombros. Ethan percebeu que o garoto não fazia a mínima ideia do que estava falando. Simplesmente repetia o que disseram a ele para repetir. Não sabia nada sobre a morte de Oliver nem a participação de Devon nisso, nem sobre os oito primeiros assassinatos e sobre o agendamento do de Devon. Aquelas palavras vieram diretamente da alta cúpula dos Lancaster. Imaginou se ele se importaria se contasse a verdade.

— Foi desse jeito que vocês souberam — sussurrou para si mesmo. — Foi assim que souberam o que eu pretendia. O que queriam, estavam entediados e queriam ver se eu seria um bom garoto?

Ele deu de ombros novamente. De fato, não fazia ideia do por que daquilo. Simplesmente seguia ordens e não as questionava. Era uma casca anteriormente oca, mas agora cheia de ideais estúpidos.

— O que você sabe sobre a Guerra das Rosas? — o garoto indagou.

Ethan deu de ombros. Sabia de tudo sobre essa guerra.

— Sei que foi entre York e Lancaster.

— Sim, é verdade. Só para deixar bem claro, os Lancaster da Califórnia não têm nada a ver com os da Guerra das Rosas, está bem? Estes viveram no século XV. Mas continuemos falando. York e Lancaster eram duas famílias nobres poderosas e rivais da Inglaterra, que na época, em 1455, era governada por um Lancaster. Vários fatores influenciaram para que os York quisessem disputar o trono inglês, como o fato de o rei estar com problemas mentais e os problemas vindos da derrota na Guerra dos Cem Anos.

— Você está começando a me entediar.

— Não seja grosseiro. O Duque de York se uniu a vários outros nobres ingleses e exigiu a renúncia do rei Lancaster, que organizou um exército para combatê-los. A guerra começou assim. O Duque de York morreu em 1485, na Batalha de Bosworth, e assim Henrique VII subiu ao trono. Henrique era descendente dos Lancaster.

— Mas era um Tudor de nascença. E casou-se com Isabel de York. Então os Tudor governaram por três gerações e acabaram-se quando Elizabeth I morreu em 1603 sem filhos. Aonde quer chegar?

— Um pouco mais para trás. Ele se casou com Isabel de York para unir as duas famílias e acabar com a guerra. Mas veja, uma coisa que ninguém sabe é que os York não eram nobres por ascendência. Eles se tornaram ricos, muito ricos, e começaram a comprar títulos de nobreza. Eles eram falsos nobres. E Henrique VII era um fraco por casar-se com uma falsa nobre. Essa é a diferença entre os Lancaster de quinhentos anos atrás e os de hoje. Os de hoje não são fracos e não vão perder. Vocês, Hentz, assim como os York, são falsos nobres. Não haverá trégua como houve naquela vez. Dessa vez, a vitória será esmagadora, completa e lendária.

O menino virou a cara e saiu do container pela porta muito bem camuflada. Ao ficar sozinho novamente, Ethan imergiu em seus pensamentos. A situação era muito mais perigosa do que pensava. Aquele menino não simplesmente trabalhava para os Lancaster.

Ele era um deles.

Os nós de seus dedos estavam brancos de tão forte que apertava a direção do trailer. Corria, é claro que corria, mas não tanto que pudesse chamar a atenção dos moradores adormecidos. Em cidades pequenas as notícias sempre corriam com rapidez e o incêndio de um dos únicos motéis da cidade com certeza atrairia muitas atenções. Tinham que atravessar a fronteira logo, era o único jeito de se livrarem daquele assassinato brutal.

Quando chegou na vizinhança, que era pobre assim como era a em que encontrara Lincoln em Middleland, notou logo a grande Land Rover estacionada em frente à casa cujo endereço fora indicado. Lorenzo estava do lado de fora do carro, encostado na parte traseira, segurando a coleira de Charlie, com Pan a seu lado, que olhava fixamente para Lincoln. Lincoln tinha o violino de Lorenzo nas mãos. Tocava-o. Ali, no meio da rua.

Nick estacionou o trailer pouco atrás da Land Rover e deixou-o. Ele tocava uma versão mais melodiosa e aguda de Gloomy Sunday. Era uma pena que aquele dia não fosse realmente um domingo, porque estava sombrio.

— O que diabos estão fazendo? — perguntou-lhes com irritação. — Deviam ter entrado na casa. Já deveríamos ter trocado de carro. Deveríamos estar partindo agora.

— Bem, não sou bom com pessoas. Sou bastante tímido — declarou Lincoln inocentemente parando de tocar. — E, se você não percebeu, um traficante muito perigoso está me perseguindo. Eu não poderia entrar aí, sabe. Lorenzo não pode fazer isso sozinho. E Pan é muito estúpido. E você tinha razão, Lore, essa é a melhor coisa que já toquei na vida. E onde, em nome de Deus, você achou esse trailer?

Lorenzo estendeu a mão para pegar o instrumento de volta.

— O que exatamente é um trailer? — ele indagou polidamente.

— Esta coisa que está parada bem atrás do seu irm… ah, esquece. Esqueci que você é cego. Bem, um trailer é…

Nick atirou as chaves do trailer para Lincoln, interrompendo-o.

— Transfira todas as malas para o trailer, inclusive a de dinheiro, e entrem nele. E não façam barulho. Também não o liguem. Ah, me dê a chave da Land Rover. E leve o GPS.

Em seguida puxou Pan pela mão em direção à propriedade. Não havia nada muito espetacular naquela casa. Era essencialmente igual a em que encontrara Lincoln, mas esperava não achar outra criança cínica abandonada ali dentro. Estava quase criando um orfanato.

Nick arrumou o cachecol, a touca e os óculos escuros. Seu rosto estava coberto. A porta foi atendida por um homem com uma cicatriz no rosto de aparência latina. Exalava um cheiro fortíssimo de cigarro.

— Olá — Nick disse num elegante sotaque britânico. — Soube que se alguém quer documentos falsos, é a você quem se deve procurar.

— Você quer?

— Não. Ele. — Deu um empurrãozinho em Pan, que estava atrás de si.

— Entrem.

Os dois entraram. O lugar estava mais organizado que a casa em Middleland, mas a área de trabalho era praticamente a mesma. Pan se pôs sentado no banco enquanto o homem tirava uma foto. Por algum motivo, Nick pensou que ele surtaria pela luz forte dos holofotes, mas isso não aconteceu.

— Qual vai ser o nome? — o homem indagou.

— Pamius Cargill — Nick respondeu. Pensou que não havia por que usarem um nome falso, mas mudou de ideia, considerando que precisaria inventar uma quarta biografia. — Não, melhor. Faça Pamius Avery.

Num piscar de olhos, Pan tornou-se Pamius Avery, filho de John Avery e Barbra Bouvier, nascido em Fresno, Califórnia, em 25 de julho de 1995. Não tinha carteira de motorista, mas tinha passaporte e certidão de nascimento, o que era mais que o suficiente. Tudo foi mais barato do que a de Nick e de Lorenzo, o que fez Nick pensar que Lincoln podia estar extorquindo-o no momento em que exigiu três mil dólares por seus documentos, mas então Nick lembrou que também ganhara carteira de motorista e que ele fizera o de duas pessoas. Às vezes sua própria burrice o assustava.

— Tem mais uma coisa — falou. — Quero trocar a placa de um carro. Um trailer, estacionado lá fora. Original de Middleland.

— Não acredito que você deixou a Land Rover lá — Lincoln resmungou pela milésima vez. Estavam de volta na estrada, abastecidos com comida, água, roupas e documentos falsos. Nick dirigia o mais rápido que ousava sem temer que o trailer fosse virar. Era muito mais difícil controlar aquela coisa do que pensava, principalmente porque a marcha não era automática, mas isso não era problema.

Lembrou-se com um sorriso de quando Victoria Goldenschild terminara de ensiná-lo a dirigir sua Ferrari na parte de trás da propriedade em que morava e então dissera que lhe ensinaria a dirigir um carro com marcha. Nick riu e disse que aquilo não era necessário, pois nunca iria dirigir um carro com marcha. Ela deu um soco tão forte em seu ombro que quase o deslocou. Depois fizeram sexo e alguns dias depois ela realmente o ensinou a dirigir um carro com marcha. Tinha apenas quinze anos na época.

— Eu precisava deixar — falou. — Aquele carro já havia sido identificado pela polícia. Era só questão de tempo até que fôssemos pegos. E do que está reclamando? Está num trailer.

— Eles vão levá-la a um lixão e transformá-la numa lata de sardinhas. Não gosto de ver carros bonitos sendo destruídos.

— Ethan também não gosta. Se sobrevivermos a tudo isso, ele vai me matar por destruir sua preciosa Land Rover.

— Onde você o encontrou, mesmo?

Nick não falou nada, embora o maldito Lorenzo decidisse falar por ele.

— Lembro de você ter dito que havia um trailer estacionado no estacionamento do motel.

Lincoln estava sentado no banco do motorista enquanto Pan e Lorenzo estavam sentados mais atrás, num sofá com uma mesa na frente, todos presos ao chão. Do outro lado, havia uma pequena cozinha com pia, fogão à gás e um frigobar. Mais ao fundo, ficava o closet, o quarto e o banheiro.

— Você roubou esse carro? — Lincoln indagou. — Acha que essa é uma ideia melhor do que manter a Land Rover? O dono irá dar queixa de roubo e eles vão identificá-la pela aparência.

— Não se preocupe — disse em voz alta. Então sussurrou para Lincoln: — Não existe mais ninguém que irá se incomodar em dar queixa.

Lincoln olhou-o fixamente com os olhos verdes antes de suspirar.

— Nicholas, veja bem. Você é uma pessoa extremamente instável emocionalmente e colapsa com facilidade à culpa porque não consegue separar as duas áreas mais sensíveis do seu ser, que são a emocional e a racional. Em suma, você é fraco, patético e miserável. Não acha que quando se deitar para dormir à noite e as memórias desse assassinato vierem à tona, não vai atrapalhar sua busca? Sabe, você podia ter pedido a mim para fazer isso. Eu não sinto culpa, nem remorso, nem nada. É para isso que eu existo.

— Não foi uma coisa que eu exatamente planejei.

— Eu compreendo. O que eu não compreendo é que meus terapeutas sempre me disseram que matar é errado e que eu devia compreender isso mecanicamente, mesmo que não entendesse por quê. Eu aceitei que matar é errado, mas então Lafferty morreu e as pessoas dizem que ele mereceu, então você matou alguém, mas eu não posso te achar um monstro por causa disso porque alguma coisa na sua cara me diz que você não fez isso apenas para pegar esse trailer. Como eu devo encarar a humanidade assim, Nicholas? Como vou saber como me portar se vocês são todos tão contraditórios?

Nick olhou para ele momentaneamente.

— É por isso que eu nunca te chamaria para fazer o trabalho sujo. Eu gosto de você e preciso protegê-lo porque você não tem ninguém mais. É para isso que eu existo.

Lincoln ficou um certo tempo analisando-o calado.

— O que fez com as roupas?

— Elas serão destruídas. Quando tudo isso acabar, é melhor que nunca revelemos à mídia os nossos nomes falsos porque eles estavam anotados no registro daquele motel.

— Está bem. Acho melhor você comprar algo parecido com um colchão inflável na próxima Walmart que encontrarmos. Só há uma cama por aqui.

Ele colocou os pés para cima e fechou os olhos. Nick se concentrou na estrada, mas descobriu-se nervoso demais para não temer perder o juízo a qualquer momento.

— Lorenzo — disse sem olhar pra trás. — Toque algo no violino.

Seu irmão assentiu e tirou o Stradivarius da caixa, encaixou-o na posição correta e começou a deslizar as cordas. Não demorou quinze segundos antes de ele errar uma nota. Nick pensou que jamais o vira errar uma nota sequer na vida. Tudo bem. Ele tinha onze anos.

Mas no minuto seguinte ele errou mais três vezes antes de finalmente errar tão bruscamente que o arco caiu de seus dedos. Ele deu um grito de frustração e atirou-o no sofá, depois levantou-se e seguiu até o final do trailer. Fechou a porta que o separava do quarto e trancou-se lá.

— É o câncer — sussurrou Lincoln. — Está agindo.

— Eu sei.

— Está lentamente perdendo os movimentos mais simples, como segurar o arco. Em breve ele mal conseguirá se manter em pé.

Eu sei. Cale a boca.

— Ele está sob muito estresse. Acha mesmo que conseguirá aguentar até o fim da viagem?

Nick não respondeu porque sabia que Lincoln sabia ler seus pensamentos. Lorenzo jamais sobreviveria até o fim daquela viagem se não andassem logo. Pensou na ideia de Ethan de tê-lo levado à Itália para que morresse na villa de sua mãe. Talvez Nick devesse ter feito isso ao invés de roubar um carro para ir atrás de seu irmão. Por que só pensava em coisas inteligentes quando era tarde demais? Era por isso que dependia de Ethan.

Quanto mais rodava, mais Nicholas percebia os estragos feitos pelo catastrófico terremoto de 2013. Nick estava no apartamento da Rua Symphonia quando Rowan Pyatt o começou. A primeira coisa que fez foi se agarrar à porta da varanda e implorar para não morrer, mas o prédio e as paredes sacudiam tanto que pensou seriamente que fosse tudo desabar. Quadros caíram, livros pularam para fora da estante, pratos e copos se estraçalharam. Se foi tão subitamente quanto chegou. Tão subitamente, na verdade, que Nick acreditou ter sido tudo imaginação e que estava perdendo o juízo. Então olhou para fora da varanda. A Rua Primeira estava em ruínas.

Mas foi apenas ela. Todo o resto de Middleland permaneceu miraculosamente intocado, como se nada houvesse acontecido. Quase parecia que o terremoto não quisera ferir aquela cidade mais do que já ferira. Apesar disso, várias centenas de cidades pequenas ao redor das grandes capitais foram afetadas e muitas foram completamente destruídas. O terremoto não gerou realmente nenhuma cidade-fantasma, uma vez que mesmo sob a mais profunda ruína algumas pessoas recusavam-se a deixarem suas casas. Nick conhecera algumas dessas cidades na pequena tour que fizera em junho quando todo o escândalo de Lafferty veio à tona, mas estava seguro demais dentro de um helicóptero, um jatinho ou uma limusine para perceber os estragos nas ruas.

Normalmente a rota normal seria a Rota 66, uma rodovia que atravessa quase todo o continente norte-americano, mas esta havia sido terrivelmente danificada no terremoto, motivo pelo qual Nick pegava as estradas secundárias e cheias de curvas e desvios. Por isso demorava tanto. A rodovia em que rodava com o trailer, uma linha curva no meio do deserto da Califórnia, havia sido reconstruída com esmero, mas em alguns pontos a topografia do terreno alterara-se de modo irrefutável. Houve um certo ponto onde uma colina elevou-se no meio dela, de modo que ela foi reconstruída ao redor dessa colina. Em outro, uma cratera devastadora abria-se como uma boca dentada pronta para devorar, profunda demais para ver o fundo. Também foi reconstruída ao redor dessa. Nick se perguntou por que Redford Bellafonte não mandou fechar aquela cratera quando teve tempo. Mas agora ele estava na prisão. E Amy também.

O GPS apitou. Lincoln o programou para fazer isso quando estivessem chegando na fronteira. Estavam agora o mais ao leste possível do Condado de Southeria, a poucos quilômetros do estado estadunidense de Nevada. Prestes a deixarem o país.

— Está na hora, pessoal — falou em voz alta. Dirigiu o trailer para fora da estrada e finalmente parou. Levantou-se do banco e ficou em pé.

Lincoln, que estava sonolento no sofá, levantou-se também e se espreguiçou, desamassando os cabelos loiros por trás da cabeça. Bocejou.

— Que acha de eu colocar minhas orelhas de coelho novamente?

Nick o ignorou. Pan estava sentado no chão do trailer e brincara com Charlie por tempo suficiente até o cachorro se cansar e se pôr para dormir. Lorenzo continuava lá atrás, mas abriu a porta com a dignidade serene e imperturbável de sempre e caminhou em linha reta até os outros meninos.

— Estamos a menos de quatro quilômetros da fronteira e eles falarão conosco, pedirão nossos documentos falsos, perguntarão o que faremos nos Estados Unidos. Encontrar nossa tia Katherine, que é mãe de Lincoln, para o aniversário de tia Betty, lembram-se? Em Vegas.

— Katherine não é mãe de Lincoln — disse Lincoln. — Katherine é mãe de Greyson Strauss-Avery. Lembrem-se dos sotaques.

— É isso aí. E, Pan… — Nick virou-se para ele e falou gentilmente: — Sorria sempre e não fale nada, mesmo que ele lhe pergunte algo. Será mais fácil assim. Isso é muito engraçado. Já estive em quase todos os países da Europa e na maior parte do leste asiático, mas moro a trezentos quilômetros dos Estados Unidos e nunca fui para lá.

— Aproveite as férias — disse Lincoln pretensiosamente.

Nick voltou ao banco do motorista. Lincoln sentou-se no de passageiros e colocou o cinto de segurança, então se inclinou e desligou o GPS. Os federais não precisavam saber para onde Ethan havia sido levado.

O posto se aproximou lentamente até que finalmente estavam dentro dele, bem por trás da grade de segurança que impedia a passagem livre dos carros. Nick abaixou o vidro e colocou a cabeça para fora, quase se esquecendo de que o trailer era tão alto que precisava olhar para baixo.

— Passaportes, de onde são? — perguntou o policial em baixo. Nick entregou-lhe todos os quatro passaportes dos quais dispunha. Lorenzo e Pan haviam se aproximado também. — Para onde vão?

— Somos de Fresno — falou Nick num elegante sotaque inglês. — Isto é, eu e meu irmão Elliott somos ingleses — Com um aceno de cabeça, indicou Lorenzo — e nosso primo Grey é californiano. — Indicou Lincoln. — Pan é primo de Lincoln. Não tem relação conosco.

— Vamos para Las Vegas — falou Lorenzo de um modo quase afetado no sotaque inglês, fitando o lado de fora como se pudesse realmente enxergar. Talvez fosse uma boa ideia.

O policial mediu Nick, que prendeu a respiração, e decidiu pedir a carteira de motorista.

— Então, o que os leva à Vegas?

— Minha mãe Katherine está lá para o aniversário da minha tia Betty — falou Lincoln animadamente, quase como se fosse um garoto normal de doze anos. — Oitenta e cinco anos de juventude. Demoramos para ir porque tínhamos provas na escola, mas agora já acabaram.

O policial pareceu satisfeito com aquilo. Olhou para Pan, então.

— E quanto a você? Fale sobre seus pais.

Nick realmente não soube se sentia vontade de rir de desespero ou de chorar de horror até que Lorenzo se inclinou para fora da janela e sussurrou algo sorrateiramente.

— É melhor não falar com ele desse modo, Pan é meio… digamos assim… lento. — Ele virou-se e perguntou amavelmente, quase condescendente: — Pan, já esteve em Las Vegas antes?

Pan piscou seus enormes olhos castanhos para Lorenzo, surpreso. Ele demorou cerca de cinco segundos para responder com inocência.

— Desculpe. Não falo espanhol.

Cinco minutos depois, Nicholas Hentz, Lorenzo Barcarolli, Lincoln Spring e Pamius Cargill estavam no território americano da Rota 66, no estado de Nevada, a caminho de Las Vegas.

Ele estava novamente por baixo da mulher de pedra, da mulher de pedra branca como a neve e brilhante como a Luz que ela mesmo irradiava, de olhos impossivelmente azuis e cabelos finos e resistentes como teias de aranha. Ela o sufocava até quase matá-lo, mas quando estava no limite de perder a consciência por falta de oxigênio ela encostava seus lábios e deixava que sua Luz entrasse nele, fortalecendo-o.

A sensação era maravilhosa. A vitalidade que sua Luz oferecia era como um sopro divino cheio de calor e amor. Era isso que ele sentia quando a mulher soprava, nada mais que isso; amor.

Era por isso que doía tanto quando a Luz era absorvida e em seu lugar ficava uma terrível e desoladora escuridão junto àquela sensação perturbadora de perda e vazio? Era com aquilo que a perda do poder supremo que sentia possuir ao engolir a Luz se parecia?

Isso o fez querê-la, mesmo que doesse, mesmo que depois se sentisse abominável com sua própria presença conspurcada. Quanto mais tempo passava e quanto mais Luz ela lhe dava, mais as queria e mais insuportável se tornava. Mais extenuado ficava. A cada vez era necessária mais Luz para que suportasse ficar vivo ao longo do processo e estava fazendo menos efeito, sabia disso, mas não se importava porque é assim que todos os vícios funcionam. Logo sua alma estaria tão corrompida que não poderia ser limpa.

Então, um dia, a Luz não veio. Agoniado, acorrentado por suas dores à cama e ardendo de febre naquele frio aberrante, implorou pela Luz com pensamentos, esperou que ela viesse até o Fim dos Tempos para lhe curar. A escuridão estava tomando seu corpo, negra e espessa como Sombras. Se demorasse mais, haveria Luz suficiente para expulsá-la? Ou as Sombras o corromperiam para sempre?

Quando ela finalmente veio, era pura e beata como sempre fora, junto a mulher de pedra branca e linda. Seus olhos estavam anis e ardentes como tochas daquela cor. Sentou-se na cama e libertou-o de suas amarras, puxou-o para seu peito e abraçou-o com carinho e ternura. Seu calor era tão grande que ele pensou que fosse derreter ali em seus braços. Bebeu a Luz quando esta veio em grandes jorros de energia, tão clara, tão… cegante.

— Ensina-me a voar — sussurrou extasiado, delirante, num frenesi de prazer que pensou não poder existir.

— Ensinar-te-ei — ela respondeu com sua voz que era como um hino, uma melodia. — Para sempre. — E se afundou em seus lábios.

E, novamente, estava sufocando, mas não era com o aperto da mulher, e sim com a própria Luz, que não estava sendo absorvida, estava o devorando por dentro. Sentiu a dor até dentro de seus ossos, pipocando como se estivesse atacando célula por célula, uma por uma. A Luz o estava possuindo por dentro, tomando posse dos espaços vazios. Ele berrou, sem acreditar que uma dor tamanha pudesse existir na face da Terra e pior, que pudesse estar dentro dele, dilacerando sua carne.

Caiu de joelhos no chão e olhou para as próprias mãos. Esperava ver sangue, pele caindo, unhas vermelhas se soltando, mas estava inteiro. A dor era interna, enraizada em sua alma. A mulher havia sumido e toda a pressão do mundo estava dentro de si. Era sua alma, sabia disso. Ela havia unido as duas almas em uma e ele não podia fazer nada para parar!

Acordou arfando, como sempre. Ethan andava tendo aquele tipo de pesadelo todas as vezes que tentava dormir desde o início sequestro. Era insuportável pensar que podia saber a origem dos misteriosos sonhos se se esforçasse um pouco, mas algo dentro de si não queria pensar naquilo. Parecia querer trazer de volta algo que há muito estava enterrado.

Estava tentando se soltar daquelas amarras já há algum tempo, mas não deu certo. Por mais que tentasse se soltar, as correntes não pareciam ceder e a cama era feita de ferro grosso e pesado. O barulho das máquinas que transmitiam seus sinais vitais o estava irritando ao ponto de ser meio enlouquecedor, principalmente se for considerado o último momento em que Ethan estivera ligado a elas.

— Eu acho que é melhor você parar de tentar se soltar — o garoto de cabelos escuros falou. — Você ainda está sensível da sua cirurgia. Não quer que nada se rompa dentro de você, quer? Seria uma chateação abominável para nós e não poderíamos garantir que pudéssemos te consertar.

Ele trazia uma bandeja de prata sobre os braços delicados, onde em cima havia um enorme prato de porcelana cara e um copo de cristal cheio de água, com um jarro de flores acompanhando. Quase nada daquilo era necessário. Ethan tinha uma leve impressão de que todo aquele exagero era para insultá-lo. Sentiu vontade de estrangular aquele menino até a morte.

Com um controle, modificou a posição da cama até que Ethan pudesse sentar-se recostado. Colocou a bandeja no apoiador da cama, bem em frente a ele, e apertou outro botão. As correntes aumentaram de tamanho automaticamente, alguns poucos centímetros.

— Anda tendo pesadelos? — ele indagou. — Temos medicamentos para isso, se quiser. Vai acordar péssimo, mas não sonhará mais.

Ethan ergueu a talher de prata pesada, observando seus detalhes ínfimos, quase invisíveis. Depois olhou para o prato, onde gravuras azul-escuras o tornavam lindo e especial. Adorava prataria antiga. Talvez quando trucidasse os Lancaster pudesse ficar com aquelas.

Acho que a criatura que pôs esses sonhos na minha cabeça não se deixaria parar por alguns remédios, pensou amargo olhando para a comida. Sinceramente não temia que o prato estivesse envenenado. Se Devon Lancaster quisesse matá-lo, não faria isso de um modo tão discreto. Ele provavelmente faria algo espetacular, como cortar-lhe a garganta na frente dos irmãos em Las Vegas durante uma apresentação de Céline Dion no Colosseum Stage do Caesars Palace.

— Quando vou vê-lo novamente? — perguntou ao menino, levando o garfo à boca. A comida parecia ter sido preparada por um chef francês. Era familiar. — Devon. Quando vou vê-lo novamente?

— Quando ele quiser.

Ele havia se sentado na cadeira para esperá-lo terminar numa postura cuja dignidade lembrava Ethan de Lorenzo. Queixo erguido, olhos levemente fechados, orgulhosos e quase arrogantes, mãos cruzadas sobre o colo. Deus, seu Lorenzo. Como o amava. Como o desejava. Como queria que não morresse. Odiar-se-ia se isso acontecesse enquanto ainda estivesse preso.

— Onde estamos agora?

— Você já sabe. Estados Unidos.

Onde nos Estados Unidos?

— Você logo saberá.

— Será que a velha Melinda virá aqui em pessoa me falar isso?

— Mas que tolice. Por que ela faria isso? Ela está em Sacramento, que é o lugar da Governadora de Northeria.

— Ela não será mais a governadora depois que seu corpo estiver flutuando no meio do oceano junto com o de Devon. E quem sabe o seu também. Eu poderia fazer isso, sabe. Já fiz antes.

Ele permaneceu imperturbável.

— Qual seu nome?

— Se não terminar de comer em sete minutos, levarei o prato embora.

Ethan terminou de comer em menos de sete minutos, mas mesmo antes do tempo acabar, o garoto levantou-se para recolher a bandeja e ir embora.

— Você é adorável — sussurrou quando ele chegou perto. Queria saber que espécie de reação isso causaria e o resultado não poderia ser melhor. Ele se irritou. Era a primeira vez que demonstrava alguma emoção além daquela negatividade em seus olhos. — Como você bem deve saber, eles não têm piedade com seus inimigos, mas muito menos têm com seus amigos. É bastante possível que para me manter vivo, Devon mande você vir aqui e tirar todas as suas roupas, e o resto você já sabe. Se é tudo um jogo doentio, por que você ficaria de fora?

Ele não respondeu. Ethan não conseguiu ver seu rosto antes que ele fosse embora e fechasse a porta atrás de si. Perguntou-se se tudo aquilo havia sido proposital ou não. De repente, seu pensamento sobre ter sua garganta cortada não pareceu tão absurdo assim. Já estivera em Las Vegas antes, para fechar um negócio com um cliente, e se hospedara num hotel-cassino pertencente a uma rede dos Lancaster. Eles eram os únicos que serviam uma comida como aquela. Sendo aquele um caminhão industrial e tendo que ficar estacionado em algum parque industrial, Ethan chegou à conclusão de que sabia exatamente onde estava.

E foi bastante perto dele onde Nicholas Hentz estava antes de perder o sinal do GPS. O aparelho do caminhão havia sido removido e transferido para outro veículo estacionado no subterrâneo de um hotel-cassino da Las Vegas Boulevard chamado The Lancaster Resort & Casino, o segundo maior da região.

Quando foi visto que Nicholas Hentz finalmente atingiu os limites da cidade, uma ligação foi feita. Logo depois, o GPS foi desligado.

— Bem, e não é que estamos visitando Las Vegas? — Lincoln murmurou admirado à medida que a cidade emergia dezenas de quilômetros à frente. Nick olhava obsessivamente para o GPS. O ponto que seguia movia-se lentamente, como se estivesse chamando-o. Bem, se não o mataram em Lionville, uma cidade-fantasma, por que o matariam em Vegas? — Acho que a melhor coisa que essa cidade já fez foi abaixar a maioridade de vinte e um anos para dezoito e então para dezesseis. — Olhou para Nick. — Você não tem vício em jogo, tem?

— Não faço ideia — falou Nick, embora fosse uma mentira e Lorenzo soubesse disso. Alguns de seus melhores momentos do semestre passado foram nas ocasiões em que se reunia com três das quatro estações e uniam as três coisas mais pecaminosas que poderiam achar: bebida, cigarro e jogo. Aprender a jogar pôquer com Spring, Winter e Autumn e ultrapassara todas as suas cotas de bebida com eles. Foram tempos maravilhosos.

Também descobrira-se um viciado compulsivo em apostas. Se eles fossem tão ricos quanto Nick era e pudessem cobrir as apostas milionárias e imaginárias que fazia, já teria provavelmente perdido toda a sua herança. Ethan o proibira de jogar pôquer novamente e o deixara sem beber por semanas. Nick pensou que ele poderia ser viciado naquilo também.

— Você está mentindo — Lorenzo comunicou com um tom de voz bastante casual.

— Como você sabe? — o loiro indagou irritadamente. — Não tem mais nenhum poder. É tão ordinário quanto eu.

— Sou, mas ainda possuo o dom do cinismo. Eu chuto uma suposição e você me confirma. Espero que não esteja pensando em entrar num daqueles cassinos. Temos oitocentos mil dólares vivos dentro desse trailer e precisamos deles, ou será que quer pedir ajuda a Melchior?

— Melchior? — repetiu Lincoln. — Por que pediriam ajuda àquele lunático? Há outra coisa a qual não perguntei. Por que Ethan foi sequestrado?

Nenhum dos irmãos falou nada. Nick não pretendia contar a verdade sobre Oliver e os assassinatos premeditados a Lincoln, não porque não confiasse nele, mas porque simplesmente não sentia vontade. Sentia vontade era de perguntar desde quando Lincoln conhecia Melchior, mas isso iniciaria uma conversa onde ele poderia repetir a pergunta.

— Não preciso me incomodar em gastar todo o dinheiro aqui — decidiu falar calmamente. — Logo encontraremos Ethan e voltaremos a ser bilionários no conforto do nosso Palácio.

— Quanto dinheiro vocês tem? — Lincoln indagou. — Acho que é indelicado perguntar, mas algo me diz que membros da família Hentz não têm vergonha de dizer. Lorenzo?

— Eu só sei que começamos com um bilhão e cento e vinte milhões. Ethan e Nick tinham quinhentos e quarenta milhões cada e eu tinha quarenta milhões. É isso?

— Mais ou menos — Nick respondeu. — Ethan usou a parte dele para fundar a Anhert Corporation. Ele gastou trezentos e vinte e cinco milhões apenas no Palácio Real Hentz. Hoje, sua fortuna está entre três bilhões e cem milhões e três bilhões e cento e setenta milhões. Ninguém sabe exatamente, nem a Forbes e nem ele. Ele me disse que é impossível calcular com exatidão. Lorenzo, ele fez alguns investimentos com a sua herança e da última vez que vi, você tinha algo em torno de noventa milhões de dólares.

— A cada vez que vocês falam como se esse dinheiro não fosse nada, apenas números, eu sinto cada vez mais pena do meu irmão por ter se casado com Rony Weasley. E quanto a você? Quantos bilhões aqui e acolá?

Nick levou algum tempo para respondê-lo.

— Eu continuo com a mesma quantia.

— Como assim, a mesma quantia? — Lincoln repetiu descrente. — Ethan é um maldito investidor, ele nunca deixaria quinhentos e quarenta milhões intocados no banco. A não ser… — Ele pausou, sorriu e falou ironicamente: — Que você não tivesse deixado. É isso?

— É, é sim.

— Oh, meu Deus, espere, isso é muito delicioso. Deixe-me aproveitar. — Lincoln se empoleirou no banco do motorista. — Então quando ele quis fundar a preciosa empresa dele você não o permitiu que usasse sua parte da herança porque tinha medo de que a Anhert não desse certo e vocês perdessem todo o dinheiro? Você não confiava nele?

— Como pode não confiar nele? — Lorenzo indagou espantado.

Nick pisou no freio do trailer. Lore e Pan estavam bem protegidos pelo cinto de segurança, mas Lincoln voou para o para-brisas do veículo, como Nick esperava. Ele, infelizmente, não quebrou o pescoço.

— Se quer me matar — ele murmurou tontamente voltando a seu lugar —, eu posso te citar meios mais sutis.

— Escutem-me aqui, vocês dois. Eu confiava em Ethan. Nenhum dos dois tem direito de dizer que eu não confiava. Fui eu quem o convenceu a fundar a Anhert, isso quando ele tinha apenas dezessete anos e um sonho na cabeça de reconstruir a Kruger-Vorheel, quando morávamos num jardim feito de ouro e tínhamos medos de aves. Fui eu quem o convenceu, quem o apoiou em todos os momentos difíceis e quem esteve ao lado dele sempre que ele precisou. Fui eu quem o fiz comprar o Palácio ao dizer que ele precisava de uma sede imponente, eu até escolhi a decoração do maldito escritório. Ethan fez tudo isso com o dinheiro que ele tinha sem nunca tocar no meu porque eu gentilmente o pedi que não tocasse. É errado querer ter um porto-seguro? É errado não ter certeza de tudo? Não, não é errado. Deu certo, afinal de contas. Ele conseguiu tudo o que quis. Então quando me sentei em frente à sua escrivaninha e olhei em seus olhos pretos e pedi que ele investisse meu dinheiro na Anhert para que começasse a render lucros e ele me respondeu cinicamente que não, vocês devem entender quão traído eu me senti. Eu, que fui praticamente o cofundador da Anhert. Ele não me perdoou por um deslize porque ele é um filho da puta incapaz de perdoar!

Nick parou ao perceber que estava gritando e que se continuasse começaria a chorar histericamente. Normalmente seria uma coisa que faria, mas não podia ali, na frente dos meninos que contavam com ele para serem protegidos. Aquela situação fazia com que sentisse menos ódio de Ethan ao passar por tudo o que ele teve que passar para cuidar de Nick e Lore. É que… era difícil demais. O sofrimento. A humilhação. A mágoa ressentida.

— Eu sempre estive ao lado dele — sussurrou melodramaticamente. Os olhos começaram a ficar marejados. — E mesmo assim que me abandonou.

— Ele não te abandonou — Lorenzo disse. — Ele foi sequestrado.

Nick olhou para ele e depois para Lincoln. Quando seus olhos escuros pousaram nos verdes dele, fechou-os e se lembrou da primeira noite que teve com o irmão, quando tinham apenas treze e dezesseis anos e comemoravam a guarda de Nick que Ethan ganhara no tribunal. Sentiu um arrepio na nuca, uma leve pontada de dor, uma outra presença em suas memórias, como um terceiro a vigiar a ele e ao irmão fazendo amor apaixonadamente na sala do apartamento antigo. Quando Nick abriu os olhos, notou a compreensão iluminando-se no interior dos olhos sobrenaturais de Lincoln. A verdade, a verdade sórdida e incestuosa entre o verdadeiro relacionamento de Ethan e Nick finalmente abriu-se dentro de Lincoln Spring.

A última coisa da qual se lembrou foi do dia no hospital quando Ethan o comunicou do fim de seu relacionamento. O dia mais triste da vida de Nicholas Hentz. Pior do que a morte de seus pais, da morte de Mia, da morte de Carmen, que Deus o perdoasse…

Os olhos de Lincoln estavam arregalados. Seus lábios quase formaram as palavras que Nick sabia terem se incrustado em sua mente, mas foram interrompidas por seu dedo indicador delicado. O loiro sorria.

— É um segredo — sussurrou, tão baixo que Lorenzo não poderia ouvir. — Sempre foi e sempre será.

O telefone de Nick tocou dentro de sua calça. Ao ver o aparelho, esperando ser Jules du Pont e vendo ser número desconhecido, seu coração deu um pulo dentro da caixa torácica. Quem poderia estar ligando? E seria inteligente atender? Poderiam localizá-lo em minutos com aquela coisa. Não sabia por que ainda não havia se livrado do aparelho.

Decidiu atender. Não faria tão mal assim, faria? Aproveitou e colocou no viva voz.

Fico feliz que esteja vivo, Sr. Hentz.

Não reconheceu a voz. Olhou para Lincoln e para Lorenzo, mas nenhum dos dois pareceu reconhecer também.

— Quem está falando?

Digamos que você tem muito interesse em mim, mesmo que não saiba disso. Gostaria de ter seu irmão de volta?

O corpo de Nick ficou gelado. Respirou fundo e deixou que aquele terrível arrepio se dissipasse antes de responder, forçando a própria voz para que ficasse menos infantil e estridente.

— Seria de todo agradável.

A pessoa do outro lado deu uma risadinha casual.

Apesar de minha ansiedade em encontrá-lo, creio ser indelicado forçá-lo a ter um encontro assim que chegasse à cidade. Deve estar exausto. Daremos duas semanas para você se assentar, de modo que nosso encontro só ocorrerá no dia 11 de setembro, às onze horas da noite. Preste atenção. Quero que vá ao terceiro piso do The Lancaster Casino & Resort, na Las Vegas Boulevard, e procure a mesa de pôquer número seis. Haverá uma cadeira reservada para você no nome de Dylan Strauss, como, pelo visto, você prefere ser chamado agora. Seria inteligente ir disfarçado. Você causaria um alvoroço se fosse visto num grande cassino americano.

Nick mordeu o lábio inferior, cheio de raiva.

— Por que eu faria isso?

Como disse, se quiser seu irmão de volta, vá.

— Como vou saber que não é uma emboscada?

Tanto você quanto eu estaremos de mãos atadas, Sr. Hentz. Você tem acusações óbvias contra nós e nós temos acusações óbvias contra seu irmão, e a polícia e a mídia da Califórnia inteira têm acusações óbvias contra você. Se quiser ser lembrado delas, basta ligar no noticiário. Você sabe o que fazer. Não chame a polícia e vá sozinho ou o faremos se arrepender. Você tem passe livre para circular pela cidade o quanto quiser que não o faremos mal, mas tome cuidado para não ser descoberto. Há um quarto reservado no nome de seu alter ego no The Lancaster para você e seu irmão Elliott. Aja inteligentemente, Sr. Hentz.

A ligação foi interrompida. Nick olhou para Lorenzo.

— Ele estava falando a verdade?

O menino olhou para ele melancolicamente.

— Agora há pouco você me disse que sou tão ordinário quanto você. Não faço ideia se ele falou a verdade. Mas prestei a atenção na conversa e cheguei à conclusão de que era Devon Lancaster. Se fosse uma emboscada, por que ele marcaria um encontro para daqui a duas semanas?

— Porque ele quer nos enlouquecer com a demora — murmurou. Olhou para a tela do GPS e percebeu que o ponto estava marcando o The Lancaster quando simplesmente sumiu. Sorriu. — Acabei de perceber uma coisa. Dia 9 de setembro é quando estreia o último episódio de Lympharia, o que significa que meu rosto ficará fresco na mente de todos os habitantes do planeta. — Suspirou.

— O dia do encontro é meu aniversário — comentou Lincoln casualmente. Nick e Lore fitaram-no fixamente.

— Seu aniversário é 11 de setembro? — Lore indagou. — Você nasceu em 11 de setembro de 2001? Foi você quem atacou as Torres Gêmeas?

— Isso mesmo — ele confirmou.

— Vamos ao The Lancaster — declarou Nick interrompendo os dois. Por algum motivo estranho, a ideia de uma amizade crescente entre seu irmão menor e aquele garoto esquisito chamado Lincoln o incomodava. — Não há mais nada que possamos fazer. Eles estão no controle da situação.

— Não exatamente — retorquiu Lincoln. — Ele pensa que você está sozinho com Lorenzo. Ele não sabe que eu e Pan existimos.

— E daí?

— E daí que podemos usar isso. Ouça o que faremos…

Jules du Pont se perguntou se Nicholas algum dia chegaria a se incomodar com o fato de estar praticamente morando nos últimos três andares do Palácio Real Hentz.

Após um longo e incômodo dia de trabalho, era gratificante entrar no espaçoso e bem-decorado quarto de Ethan no nonagésimo quinto andar, afundar naquela enorme banheira em que os dois haviam feito sexo horas antes do sequestro e depois se jogar na gigantesca cama impregnada com seu cheiro. Como sentia falta dele. Namoravam há apenas algumas horas antes de tudo, mas se conheciam há meses.

Naquela noite do dia 28 de agosto, dois dias depois do início do inferno, Jules estava despido naquela cama, acariciado por todos os lados pelos lençóis de lã de vinte mil dólares. Abraçou um travesseiro e inspirou fundo. Sentia vontade de infringir sua própria regra e ligar para Nicholas para saber como as coisas iam, mas não queria arriscar. Não tinha nenhuma garantia de que os telefones não estivessem sendo gravados e se a polícia descobrisse que sabia o paradeiro de Nicholas — mesmo que de forma bastante precária — acabaria se dando tão mal com ele. Ambos seriam presos, Lorenzo seria mandado à Itália. Só Deus sabia o que aconteceria a Ethan.

Era bastante ambíguo que não quisesse que a polícia o achasse. Se isso acontecesse e os Lancaster fossem culpados, eles revelariam ao mundo os crimes de Ethan do passado e ele seria preso também. Jules perguntou-se o que exatamente fizera para se meter no meio daquela loucura de famílias ricas e poderosas. Não sabia, mas amava aquilo ao mesmo tempo que odiava. Queria Ethan ali com ele, mas sabia que, mesmo se ele voltasse, nunca mais voltaria a achar que ele um dia estaria seguro.

Talvez devesse ler o Livro Hentz e descobrir o que ele pensava, se é que escrevera alguma coisa ali. Ethan talvez não o perdoasse por aquela traição, mas ele precisaria saber? Jules sentiu-se horrível por esse pensamento. Em que estava se tornando? Não, não leria o Livro Hentz. Mas, Deus, como queria. E se perguntasse a Nicholas se ele deixaria?

Eu devo estar perdendo o juízo, pensou na escuridão do quarto.

Seu celular tocou, mas então percebeu que não era o seu. Era o de Ethan. Esticou-se através da cama e pegou o aparelho. Com os dedos trêmulos, atendeu-o.

Olá, Jules du Pont? — perguntou uma voz sedosa, condescendente, amável e estranhamente familiar.

— Sim — murmurou de volta. — Quem fala?

Ah, aqui é Melchior. Sabe, o escritor. Eu escrevi a peça que você estrelou semestre passado. Disse-lhe que era uma melhor Thelise que qualquer garota poderia um dia ser.

— Ah, sim. — O peso do nome caiu em seus ombros em poucos segundos. Ele sabia do sequestro e sabia da partida de Nicholas, e foi a ele que Nicholas confiou um milhão de dólares. Também disse a Jules para jamais confiar nele, nem por um segundo. — O que você quer? E como tem esse número?

Eu e Ethan éramos amigos antes da nossa pequena… desavença. — Ele deu uma risadinha amaneirada. — Gostaria de me encontrar com você.

Jules olhou para o próprio relógio. Um Rolex, presente de Ethan.

— É quase uma hora da manhã.

Eu pensei que uma hora mais casual atrairia muita atenção e tanto eu quanto você estamos terrivelmente ocupados. Podemos nos encontrar no Café Rothfowl, aquele perto da Lagoa Henri? Ninguém nos reconhecerá lá.

Jules teve uma impressão súbita de que deveria declinar o convite, mas o que diabos Melchior poderia fazer? Ele era um garoto de dezesseis anos e Jules… era um garoto de dezesseis anos também, é claro, mas que no momento comandava uma enorme corporação. Não havia ninguém no mundo, porém, que acharia aquele encontro uma boa ideia.

— Eu estarei lá em trinta minutos — respondeu e então desligou. Não podia acreditar no que acabara de fazer.

De qualquer forma, saiu da cama e se vestiu. Olhou-se no espelho do banheiro de Ethan. Seus olhos acinzentados e oblíquos tinham olheiras por baixo deles e o cabelo estava ressecado. Amarrou-o num rabo de cavalo e procurou os óculos de Ethan que Devon Lancaster havia deixado ali. Não conseguia enxergar através das lentes, mas nada o impedia de jogar a vista por cima delas. De óculos postos, estava irreconhecível.

Decidiu não chamar o motorista por ser muito tarde e querer manter o encontro em segredo, mesmo sem saber por quê. Escolheu a Mercedes porque era o carro mais sutil que Ethan tinha, por incrível que pareça.

O trajeto à Lagoa Henri durou exatamente trinta minutos. O Café Rothfowl era uma construção de um andar, bonita e simpática, na orla da lagoa. Meio vazio e com movimento fraco, tinha uma decoração moderna e de bom gosto, parecida com a do quarto de Ethan. Jules entrou e sentou-se na última mesa, virado para a porta. Quando a garçonete veio, pediu um café expresso.

Melchior surgiu pouco tempo depois. Trajava um lindo sobretudo azul-escuro por cima de uma camisa branca e calças jeans. Jules achou estranho o fato de ele não ter tirado o sobretudo para sentar-se, mas não se importou. Melchior era o garoto mais bonito que Jules já vira na vida. Sob a luz fraca da cafeteria, seus cabelos estavam cinzentos e brilhantes como uma mistura estranha entre fuligem e diamante. Os olhos eram duas ametistas ardentes incrustadas no rosto, perfeitas, polidas e brilhantes. Quando ele sorria — e sorriu quando viu Jules sentado na última mesa —, ficavam mais claros, quase cor-de-rosa. Extraordinário.

Ele sentou-se na cadeira da frente e pediu um cappuccino à garçonete, em seguida cruzou as duas mãos sobre a mesa e olhou para Jules. Seu olhar foi penetrante e deveras assustador, mas apenas porque ele parecia querer soltar algo dentro de si e não conseguia. Nicholas alertara Jules para não confiar nele, mas os boatos sobre Melchior eram monstruosamente diversificados. Era impossível ter uma impressão correta sobre ele baseando-se em apenas algumas poucas opiniões de terceiros.

— Como vai? — ele indagou melodicamente. — Perdão por tê-lo tirado da cama a essa hora. Era necessário.

— Você disse que precisava conversar.

— Sim, preciso, mas antes disso, por favor, me responda uma coisa. — Ele se debruçou sobre a mesa e sussurrou: — Nicholas chegou a comunicar-se com você após sua partida?

— Uma vez. Não posso dizer onde ele estava, mas ele está bem.

— Ótimo. Creio que está gastando dinheiro com juízo, já que ele ainda não pediu um centavo do milhão de dólares que me transferiu há dois dias. Espero que não me peça. Eu realmente tenho esperança de que ele encontre Ethan Lemnsack.

O vislumbre de sinceridade que Jules teve ao ouvi-lo dizer isso foi o primeiro de toda a conversa.

— Por quê? Vocês não eram mais amigos.

— É… não éramos. Mas já fomos amigos. — Seus olhos tornaram-se meigos e sua voz também: — Mais que amigos, inclusive.

Jules remexeu-se desconfortável e irritado na cadeira. Os ciúmes irradiados eram terríveis, a ideia de Melchior e Ethan despidos na cama, este último fazendo com o primeiro tudo aquilo que fizera com Jules, levando-o à loucura e ao êxtase. Que ideia horrorosa.

— Eu e Ethan estávamos namorando quando ele foi sequestrado — sussurrou de repente. Arrependeu-se logo depois.

Melchior sorriu com afetuosidade.

— Eu sei.

Jules olhou-o descrente.

— Como você sabe?

— Do mesmo modo que eu soube daquela página do seu diário.

Ficou estático. Havia esquecido aquilo.

— Jules, eu sei de tudo o que aconteceu e tudo o que acontecerá. Você nunca será capaz de esconder qualquer coisa de mim. Assim como os Lancaster, eu observo e estou sempre presente.

Os cafés chegaram. Jules ainda fitava seus olhos violeta enigmáticos e sinistros atônito. Não havia nenhuma forma de ele saber sobre o envolvimento dos Lancaster no assassinato de Oliver Castanelli porque nem Ethan sabia disso até ser sequestrado. Como diabos ele podia saber?

E como diabos ele poderia saber sobre Ethan e Jules estarem juntos?

Melchior bebeu seu café pacientemente, saboreando cada gota.

— Eu adoro café a esta hora da noite. Lembra-me da minha pré-adolescência. Enquanto os outros garotos estavam jogando conversa fora, fumando maconha e aprendendo a se masturbar, eu passava as noites em claro bebendo café na frente do computador, escrevendo um épico de sete livros e me tornando milionário por conta própria aos doze anos de idade.

Jules não podia negar que admirava Melchior intensamente por causa disso. Um laboratório do Centro Médico Hentz estava financiando um projeto dele contra o câncer de pâncreas. Ele poderia ser o próximo ganhador do Nobel da Medicina, se Deus quisesse.

— Você já leu meus livros?

— Pare de enrolar.

— Tem razão, eu sinto muito. Vamos voltar ao assunto. Ethan e eu nos conhecemos quando ele se mudou para Jardim de Ouro no início do ano passado. Você deve se lembrar do acidente com a aeronave no Natal de 2012 que destruiu o telhado do prédio deles.

— Sim. Isso os forçou a se mudarem.

— Para tudo há motivo no mundo. Ethan foi para o condomínio por insistência de Nicholas, já que ele odiava condomínios. Nos conhecemos verdadeiramente depois de meu tio Lance ser assassinado por Rhanys Olrwen.

— Eu não sabia que um parente seu havia sido vítima. Sinto muito.

Melchior deu um sorriso condescendente.

— Não precisa sentir. Lance era um homem perverso e mereceu morrer esfaqueado no fundo de um rio. — Ele deu outro gole do café enquanto Jules se recuperava do choque do que ouvira. — Minha irmã mais nova, Julie, também foi assassinada. Você deveria sentir pena dela. Ethan sentiu, ele me consolou quando ela morreu. Íamos à escola juntos com nossos irmãos e primos no mesmo táxi, conversávamos no intervalo, almoçávamos juntos enquanto ele me interrogava sobre ser o Senhor do Mundo M e voltávamos para casa juntos. Éramos amigos, pelo amor de Deus.

— Por que vocês romperam?

Melchior fixou o olhar nele penetrantemente. Ocorreu a Jules que ele poderia não saber que Jules não sabia do motivo. Era daquele jeito que as pessoas inteligentes disfarçavam sua ignorância e… santo Deus, Ethan fazia exatamente a mesma coisa quando falava com outro homem de negócios.

— Por causa do seu pai — ele sussurrou.

O loiro imaginou que todo o Café estivesse girando em torno dos olhos violeta de Melchior, absurdamente bonitos e intensos, e de seus lábios compridos e vermelhos. Por que diabos ele tinha cabelos cinzentos?

— Do que está falando? — perguntou.

E Melchior respondeu:

— Foi naquela terrível noite no início de fevereiro. Estávamos eu, Ethan, Gabriel Melnick, Lorenzo e Amy Bellafonte na arquibancada do ginásio da Escola St. Nicholas esperando que a Casa Vermelha competisse contra a Casa Verde quando Nicholas chegou até nós. Ele chorava, tremia e soluçava. Aos trancos, contou a Ethan a verdade sobre o que acontecera a ele aos nove anos de idade e como tinha reconhecido Lafferty Winter na igreja. Ethan ficou terrível. Nunca o havia reconhecido daquela maneira. Acho que ele queria fazer algo, mas Nicholas implorou que fôssemos embora. Combinamos de nos encontrar em frente ao ginásio enquanto ele ia ao vestiário pegar suas coisas, mas no meio do caminho Ethan mudou de ideia e decidiu segui-lo até o vestiário. Não queria deixá-lo sozinho. Nicholas já tentou cometer suicídio, você sabia disso? Olhe os pulsos dele, sob suas tatuagens, e você verá os cortes que ele próprio fez há mais ou menos um ano atrás.

— O que houve no vestiário? — Jules sentia um arrepio apavorante subindo sua espinha até a nuca.

— Ethan foi na frente de todos nós. Quando eu, Lorenzo, Gabriel e Amy chegamos lá… Nicholas chorava, Ethan tinha um taco de basebol nas mãos e Lafferty estava deitado no chão… morto.

Não — Jules sussurrou desviando o olhar. Estava praticamente cego por trás das lentes grossas dos óculos de Ethan.

— Ethan matou seu pai — ele continuou sem misericórdia. — Foi ele o tempo inteiro. Lafferty havia ido ao vestiário e havia atacado Nicholas, dava para ver pelas marcas de chupão que ele tinha no pescoço, então Ethan chegou e os encontrou assim. Fez o que tinha de fazer. Queria se entregar, até. Todos ficamos em silêncio após ele ter disso isso, mas então Amy, ou devo dizer Arianne Bailey, disse que ele não faria aquilo e nos fez arrastar o corpo de Lafferty até sua cova. Creio que o resto você já sabe.

Jules estava chorando silenciosamente. Não pelo pai morto, mas pela mentira que aqueles seis tinham contado e disseminado ao mundo.

— Não se irrite muito conosco. — Melchior sussurrou isso quase que com humildade. — Estávamos completamente abalados. Fizemos um pacto de silêncio. Quando as provas surgiram e veio o julgamento, Arianne confessou em lugar de Ethan porque ela sabia que não demoraria muito para que fosse presa pelos crimes que cometeu enquanto prostituta.

— Por que está me contando isso? — indagou meio irritado, meio frustrado, com raiva e impaciência.

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Melchior não respondeu.

— Se fosse Nicholas aqui a lhe contar isso e vê-lo chorar, o que acha que ele faria?

Instantaneamente, Jules pegou um guardanapo e limpou o rosto, lembrando-se da voz estridentemente rouca de Nicholas.

Eu sou um Hentz. Você não é nada. Não tem direito de escolha aqui. Se quiser se envolver e me ajudar a salvar meu irmão, terá que fazer do jeito que eu disser. Se não quiser, vá para casa e fique lá até que tudo se resolva.

— Ele provavelmente me daria um tapa na cara.

— Exato, porque os Hentz não suportam fraqueza. Nicholas fraquejou uma vez e quase morreu por suicídio, Ethan fraquejou outra e literalmente morreu, embora por algum motivo tenha voltado à vida, Lorenzo está fraquejando e vai morrer por câncer, mas algo me diz que ele vai sair dessa. Você não pode chorar por causa de todas as revelações chocantes que ouvir. Há mais segredos sobre essa família dourada do que você imagina, alguns os quais você nunca irá saber, mas se fraquejar por causa de um sequer, eles te expulsarão da família Hentz. Nenhum de nós seis fraquejou e saímos muito bem dessa. Inclusive Amy, afinal. Estar numa clínica psiquiátrica é melhor que estar numa prisão. Você quer algo para comer? Meu café acabou.

Jules olhou para a própria xícara ainda cheia. O café já devia estar frio. Deu de ombros e Melchior chamou a garçonete, fez o pedido e voltou-se para o loiro entristecido a sua frente.

— Aposto que você se sente parte dessa família — comentou.

Melchior deu uma risadinha sarcástica.

— Eu sou parte dessa família. Sou neto de Samuel Hentz. Ele teve um caso com minha avó casada e os dois filhos dela são filhos dele também. Ethan é meu primo de primeiro grau. Todos os meus seis irmãos e dois primos são descendentes dos Hentz.

Jules não sabia se sentia mais frustração ou surpresa por saber daquilo.

— Eu sou primo de sétimo grau dele.

— É. Eu sei que é. E Owl era primo de quinto grau dele. Vê? Até um assassino assassinado é mais próximo dele do que você é. E Owl era autista. Pobre coruja. Não mereceu o fim que teve. Mas descobri há algum tempo que ele conheceu Oliver. Não me admira.

Franziu as sobrancelhas. Novamente aquele Oliver.

— Quem exatamente era Oliver?

— Oliver era… Deus, como posso dizer? — Melchior tirou o celular do bolso e começou a mexer agilmente. Mostrou a Jules a tela, onde se projetava dois garotos numa praça municipal. Ambos eram muito novos, mas um era mais velho que o outro. O mais novo, que parecia ter em torno de oito anos, tinha cabelos cinzentos e olhos violáceos como um fim de tarde e o outro, mais velho, em torno de dez anos, tinha cabelos extremamente prateados e olhos imensamente azuis. — Oliver era… tudo.

— Esse é… você e ele? Mas pensei que ele fosse namorado de Ethan.

— Ele era, mas antes disso ele foi meu amigo quando eu morava numa cidade chamada Passodepedra. Fui eu quem denunciou o tio-avô dele como um molestador. Oh, espere, não se dê tempo de ficar chocado. Eu descobri muito recentemente que ele e Owl estiveram uma vez hospedados no mesmo hotel de uma cidade de Northeria chamada Piazzavuota. Isso foi há uns… dez anos? Acho que sim. Se quiser manter seu juízo intacto, evite calcular as datas de quaisquer coisas que se relacionem a Oliver. De qualquer forma, eu realmente acho que Owl foi estuprado pelo tio-avô de Oliver e por isso se tornou o que era quando decidiu esfaquear os moradores de Jardim de Ouro.

— Eu não… isso é muito…

— Eu sei, complicado, mas você não é burro. Depois Oliver foi para Castellobranco, onde conheceu Ethan e morreu. O resto você já sabe, creio eu. Ethan matou os oito homens que violentaram e assassinaram Oliver Castanelli, mas não soube que um nono existia porque esse nono, por acaso, é um Lancaster, a mesma família dona da companhia de assassinos que Ethan usou. Um mundo realmente pequeno, esse. Quem poderia dizer que isso poderia acontecer. Uma coisa é certa, no entanto. Se eles quisessem matar Ethan, já teriam feito isso.

— Ethan pode estar morto agora e nós não saberemos.

— Sim, pode, mas nós dois sabemos que ele não está. Ethan é um Hentz e ele não vai morrer assassinado de forma tão simplória. Ele tem que morrer de forma natural aos setenta anos, como seus antepassados.

— Ele simplesmente não tem que morrer.

— Sim, é isso mesmo. Otimismo sempre.

Melchior parecia estar zombando dele.

A comida veio e os dois, silenciosamente, começaram a degustar seus pratos. Jules perguntou-lhe após engolir uma batata-frita:

— Você deve me achar tolo e estúpido, não é?

— Não, acho Nicholas tolo e estúpido. Você é… bem, não sei ainda como descrevê-lo, mas Ethan não o namoraria se não fosse capaz de suportar situações como essa. Ele não costuma se apaixonar por idiotas. A exceção do meu primo Robb, é claro, que Deus o tenha. A quantidade de vezes que ele e Ethan fizeram sexo foi maior que a quantidade de palavras trocadas entre os dois, mas esse foi um caso excepcional. De qualquer jeito, não, ele não costuma se apaixonar por idiotas.

— Diz isso porque ele se apaixonou por você?

Melchior sorriu.

— Viu? Você não é idiota.

Quando pagaram a conta e saíram da cafeteria, Jules virou-se novamente para Melchior e perguntou-lhe com um toque bastante leve de autoridade, aquele que Ethan usava para falar com quase todo mundo.

— Por que você me chamou aqui e falou tudo isso?

— Para prepará-lo, Jules du Pont, para o que está por vir. Tempestades violentas se aproximam dessa cidade e você vai precisar contê-las. Você está no topo da Anhert Corporation. E tem mais uma coisa. Eu realmente gostaria de falar com John Fauntleroy. Eu quero revelar ao mundo meu parentesco com os Hentz.

— Por quê?

— Sinceramente falando? Com toda essa mídia que os Hentz estão recebendo, isso alavancaria as vendas dos meus livros e me tornaria duas vezes mais famoso do que já sou. Minha vaidade é quase tão grande quanto a de Nicholas. Eu preciso de pessoas a minha volta idolatrando tudo o que eu faço, embora no meu caso seja mais difícil que no de Nicholas, visto que eu não sou tão charmoso quanto ele e muito menos sinto atração pelo sexo feminino. Sinceramente falando.

— Você é… carismático. E honesto.

Melchior deu-lhe um glorioso e adorável sorriso de agradecimento. Pegou a mão de Jules e a apertou.

— Eu agradeço. Eu costumo ser terrível com aqueles que não gosto, mas não é o caso. Gosto de você, Jules.

Ele se virou e preparou-se para ir embora, mas antes de se afastar, Jules exclamou:

— Você ainda não me disse o que fez você e Ethan romperem.

Melchior se virou com graciosidade, seus cabelos cinzentos se alinhando perfeitamente no topo da cabeça. Os olhos violeta ardiam.

— Ethan e eu nos separamos porque um ficou no caminho do outro, e quando se trata de criaturas tão irascíveis e audaciosas quanto nós, essa é uma diferente irreconciliável. É uma pena. Sinto falta dele. Sinto falta de quando minha presença não era execrada no Palácio Real Hentz. Eu gostaria de ver como está minha pesquisa contra o câncer, mas por causa disso eu realmente não posso.

Ele virou-se novamente e pôs-se a caminhar, mas Jules disse:

— Espere. Eu… eu posso permitir que você ande novamente pelo Palácio. Pela sua pesquisa. Quanto a você revelar que é parte Hentz… bem, peço que espere. Tenho que conversar com John Fauntleroy antes. Ele é o advogado da família e eu não pertenço exatamente a ela para tomar uma decisão como essa.

Melchior deu outro de seus glamorosos sorrisos e abraçou Jules fraternalmente. A sensação era boa. Ele transmitia uma energia positiva.

— Você é uma boa pessoa, Jules. Ethan fez uma boa escolha. Vamos rezar para que ele volte. Boa noite, meu querido.

— Boa noite, Melchior.

Já dentro do táxi e a caminho de Jardim de Ouro, Melchior experimentou as sensações da vitória. Manipular um ser humano com o dom da palavra era a habilidade da qual mais se orgulhava de ter. Sem tramoias e conspirações, sem subornos, ameaças ou assassinatos… apenas o doce som das palavras habilmente saindo de sua boca.

Vou ter que me acostumar a ser chamado de Melon Chioren-Hentz, pensou sedutoramente para si mesmo. A primeira parte de seu plano estava quase completa, mas concluí-la seria difícil. John Fauntleroy não era um homem burro e sabia o que Melchior era. Ele jamais aceitaria que Melchior fizesse parte da família Hentz e se fosse a público e revelasse o parentesco de sangue, todos eles negariam e ficaria por isso mesmo. Jules também não aceitaria se Fauntleroy não aceitasse e se Melchior insistisse, começaria a ter suspeitas.

Mas não era um problema tão grande assim, era? John Fauntleroy era um homem velho e, afinal… homens velhos morriam o tempo todo.

Notas finais
"Se quiser manter seu juízo intacto, evite calcular as datas de quaisquer coisas que se relacionem a Oliver." Essa é tanto pra mim quanto pra vocês. :33 q Esse capítulo demorou para sair porque eu tive dificuldades imensas com o capítulo seguinte a esse, sobre o melhor modo de narrá-lo. Quando eu postá-lo, vocês entenderão sobre o que eu to falando. Uma coisa, pessoal: os sonhos de Ethan não são (só) para encher linguiça. Eles são importantes e significam alguma coisa. E Melchior ataca de novo. Eu realmente não planejava essa futura morte de John Fauntleroy, pra mim ele ia viver pra sempre. qq Mas Melchior surgiu e me manipulou para mudar de ideia e assassiná-lo (?). É assustador. Aliás, hoje, 18 de junho, é meu aniversário. :D Pela primeira vez na minha vida, eu vou escrever conteúdo +18 tendo realmente mais de 18 anos. qq E olha que eu comecei aos 11. :3 Bjss e escrevam comentários. :3