Notas iniciais
Um agradecimento especial a Geysa(Jane) e a Jessica Mills pelas dicas e observações. Vcs arrasam. Esse cap originalmente é maior, resolvi dividir para não ficar excessivamente grande. É simples, mas de coração

Estava deitada na cama refletindo sobre os acontecimentos daquela noite estranha. Regina ainda dormia sedada, sua cabeça repousando no meu tórax, enquanto sua respiração estava calma e ritimada. Sei que ela não sentia, mas mesmo assim eu acariciava seus cabelos. Toda vez que eu olhava seu rosto, especificamente as marcas que ela mesma fez, meu coração se apertava. Li muito a respeito de bipolaridade nesse último mês, é muito complexo e só me confundiu mais. As vezes me pergunto se ela sofreu com isso na infância. Crianças que possuem algo diferente precisam amadurecer mais cedo, se tornam adultos antes de serem criança... E se fecham antes de aprenderem como se abrir.

Olhei mais uma vez seu rosto. Todos temos as nossas cicatrizes.


Anna bateu na porta do meu quarto, puxei o edredom para cobrir os curativos que Zelena fez no meu braço e pedi que ela entrasse.

Entrou, colocou Sohara no berço ao lado da cama e sorriu ao ver Regina deitada ainda dormindo serena. Talvez ela tenha escutado os gritos e se preocupado.

"Vocês formam um casal lindo." sorriu

"Obrigada Anna. Você poderia chegar um pouco mais cedo amanhã?" Planejava algo especial com Regina

"Posso dormir aqui se a Sra quiser." Deu dois passos próximo a cama, olhando o rosto da morena nos meus braços, com certeza curiosa.

"Não precisa. Não quero incomodar." Regina remexeu nos meus braços e eu tirei o cabelo que caiu em seu rosto.

"Ah! Por favor Sra Emma. A Sra me fará um favor emprestando seu sofá. O namorado da minha irmã ronca demais e ele vai dormir lá hoje. As paredes até tremem." Levantei a sobrancelha, namorado?

"Você não gosta dele ne?"

Anna revirou os olhos como uma adolescente aborrecida "Ele não é bom o suficiente pra ela, mas ela ta sem ninguém, então aceita qualquer coisa."

"Nem tudo que preenche espaço é realmente necessário. As vezes é só desculpa pra não deixar vazio." Um brilho diferente passou pelos seus olhos.

"Eu tenho um amigo igual você..." Abaixou seu tom, como se estivesse receosa. "Que escolheu ser mulher." Eu quis dizer que ninguém opta, apenas se é, mas ela prosseguiu, não me deixando silêncio na fala. "Ele é lindo... Ela! Agora é ela. Ela é linda! Igual você! Você é linda, muito linda. Deve ter sido linda como homem também. Se já é tão linda assim... Desculpa, to falando demais, as vezes sou idiota. Espera, o que?"

Regina tem razão, Anna é engraçada. "Tudo bem. E não sou transexual como sua amiga. Eu não operei pra ficar assim, nasci desse jeito. Mas isso em nenhum momento diminui os preconceitos e repulsão, ou o quanto dói não ser aceita, assim como os trans, gays e tudo que não é padrão."

"I'm beautiful in my way 'Cause God makes no mistakes. I'm on the right track, baby. I was born this way"(Eu sou bonita do meu jeito porque Deus não comete erros. Estou no caminho certo Baby. Eu nasci desse jeito) Anna sussurrou a música e eu sorri. "É Lady Gaga."

"Sim eu sei."

"Sabe? Mas eu vi seus discos e cds, é tudo música de velho. Não que você seja velha, é muito nova, taaaao novinha, Nem parece ouvir aquelas músicas de vovó e... Vou me calar."

"Você é sempre tão animada assim? Não é atoa que trabalha com crianças." Anna colocou as duas mãos na frente do corpo e as entrelaçou, lá vem história.

"Desculpa. É que lá em Conectt morava só minha irmã, minha mãe e eu. Então ainda é novo pra mim ver tanta gente!" Ela estava eufórica, sua fala em alguns momentos deixava o sussurro e ganhava tom. "É sério, lá é um ovo."

Regina remexeu novamente sibilando meu nome e me descobriu um pouco, expondo meus braços. Anna se aproximou preocupada olhando os riscos com sangue seco que sobressaíam do curativo. "Foi sua esposa? Ela fez isso?"

Esposa, o nome tilintou em sua boca antes de chegar aos meus ouvidos, esparramando na cama em seguida, como um gato preguiçoso.

Eu tenho uma filha com Regina, dormimos na mesma cama, estamos comprando outra casa para ser nossa e até hoje eu não fiz o pedido. Como se isso fosse implícito no pacote eu não atinei aos detalhes. Seria esse o motivo de tanta insegurança que ela sentia? Afinal ainda nem oficializei o nosso relacionamento. Como pude ser tão burra? Claro que Regina estava insegura por isso, eu também estaria. Talvez ela estivesse sentindo que era apenas uma responsabilidade para mim. Anna ainda esperava uma resposta.

"Sim. Ela teve uma crise hoje."

Anna me olhava, não identifiquei seu olhar, mas sentia que ela queria me dizer algo.

"Diga. Não se sinta acuada menina, pode dizer." Falei terna

"Sra Emma, a sra Mills tem chorado bastante. Ela chora muito quando a sra não está e as vezes conversa com Sohara, falando que tem medo que a senhora abandone as duas."

Sabe quando você topa o dedo mindinho do pé na quina de algum móvel e fica alguns segundos sem conseguir pensar absolutamente nada, apenas sentindo a dor... Me senti dessa forma a cada palavra que saia da boca da garota a minha frente. Olhei para Regina que ainda dormia sedada. Ela sempre teve essa mania de guardar as coisas para ela.

"Obrigada Anna."

"Disponha senhora." Cruzou as mãos na frente do corpo, dessa vez pensativa.

"Já falei que pode me chamar de Emma."

"Melhor não." Vi o medo tilintar em seus olhos. "A senhora Mills é um pouco brava." Não fiquei surpresa. "Ela nunca me tratou mal, pelo contrário, sempre foi gentil comigo, mas sei que ela é muito ciumenta."

"Bastante. E é recíproco viu." Sorri, Anna me acompanhou no sorriso. Decidi aproveitar essa menina que parece ter dificuldades em filtrar as palavras. "Regina também não gosta da sua irmã ne?"

"Ohhhh, com certeza não!" Balançou a cabeça como se lembrasse de algo.

"Me conta." Vi um brilho de entusiasmo no seu sorriso, realmente essa garota ama falar.

"Mas você não tava aqui e não viu. Regina fez mil perguntas a Elsa. Quem é interrogatório do FBI perto da sua esposa? Faltou só a luz e o quarto escuro, até eu fiquei com medo dos sorrisos que ela dava. Mas se a Sra tem um estúdio em casa, porque não fica aqui?"

Porque sou uma idiota "Às vezes tenho que ir em reuniões chatas ou assinar contratos."

"Não é pra isso que servem os sócios? Seus amigos estão todos os dias aqui. Eles não podem fazer isso?"

Senti como se alguém me jogasse um balde de água com gelo. Me tornei meu pai, negligenciando minha família e pegando todas as responsabilidades do trabalho para mim.

"Vou dormir no sofá. Qualquer coisa me chame." Anna avisou

Apontei o local onde ela poderia pegar a roupa de cama e pedi que ela usasse uma das minhas roupas para dormir.

Após alguns minutos silenciosos eu ainda podia escutar a barulheira na minha mente.

As pessoas são livres desde o nascimento, o que as aprisiona são suas próprias escolhas. Durante anos decidi não escolher, não percebendo que isso também é uma escolha... É escolher deixar a vida nos levar. Me acostumei assim.

Acostumei com o vazio e com as noites sozinhas. Acostumei a ver a arte como dinheiro ao invés de aprecia-la. Não tenho apreciado muita coisa. Acostumei a ver meus amigos começando e terminando relacionamentos, nunca entendendo o porquê daquela insistência.
Acostumei a ir trabalhar cedo e voltar tarde, sem perceber que as horas gastas não são extornadas. Acostumei a não ter um lar para retornar, apenas um canto onde eu me refugiada. Acostumei a ser solitária. Acostumamos muito fácil.

Sem perceber eu estava deixando a vida escolher por mim novamente, estava me afastando da pessoa que me mudou, e única capaz de completar minha felicidade. A mulher que me deu o maior e melhor presente que alguém poderia me dar, nossa princesa. E a mulher que eu sei que cuidaria do Neal na minha falta.

Respirei fundo e olhei essa mulher ao meu lado, eu ainda não sabia muito dela. Desconheço a história do seu primeiro amor, como foi a relação com seu pai na infância e o porquê ela nunca fala da mãe. Ou coisas mais simples como: seu café da manhã preferido, o porquê da cicatriz acima do lábio, o porquê ter me escolhido e o mais importante... Por que ela ainda não me abandonou como tantos já fizeram antes.

Eu queria acordar Regina e aproveitar cada momento com ela, mas sabia que o sedativo não permitiria compartilhar meus planos por agora, teria que esperar.

Me peguei sorrindo ao imaginar nossos passeios e viagens, perdi tempo demais fugindo de tudo, principalmente fugindo da felicidade. Temos essa mania, fugir da felicidade por medo da dor, sendo que a dor vem de qualquer jeito.

Agora pergunto: Por que fugir da felicidade apenas por saber que um dia vai sofrer?

É como não querer respirar porque sabe que um dia vai morrer.

Muitas pessoas estão deixando de viver seus sonhos porque estão ocupadas demais vivendo seus medos.

Beijei minha esposa, eu não quero mais ter medo.

Notas finais
Não sei se consegui ser clara o bastante, mas nesse Cap eu quis falar sobre o quanto as pessoas se afastam das outras, ou até mesmo dos sonhos, por puro e simples medo. Como falei em outra fic minha: O medo é feito para alertar, e não para te controlar. E se o seu medo é devido a alguma mágoa, por favor, não se torne aquilo que te feriu.