Notas iniciais
Continuação do último postado

Acordei com um bate surdo, Regina não estava ao meu lado.
Sentei na cama e então a vi ajoelhada no chão esforçando para se levantar, não tendo muita força nos braços. A cena me cortou, ela havia caído devido ao efeito colateral do sedativo. Pulei da cama e fui ao seu encontro perto do berço.

"Sohara está resmungando" Me deu a mão tentando levantar. "Só queria ver se ela está bem." Sua voz estava fraca, seus braços tremiam pelo esforço.
Peguei sua mão e a coloquei em volta do meu pescoço, Regina me olhou surpresa quando a levantei e carreguei em meus braços.

Sentei-a na cama e me aproximei do berço. Sohara havia se descoberto, ainda chutava o ar com os dois pés, parecia estar se divertindo tentando pegar seus pequenos pezinhos.. Meu coração derreteu quando ela segurou meu dedo e sorriu para mim.
Olhei para Regina, ela estava de cabeça baixa, envergonhada, ainda do mesmo jeito que a deixei.
Notei como passou a mão no seu rosto e depois ficou fitando-as tristemente.

Enquanto me aproximava novamente da cama vi como seu tornozelo estava levemente inchado, uma coloração um pouco diferente. Então me lembrei das duas vezes em que ela caiu no chão, lembrei do quanto ela se debatia.

Ajoelhei-me aos seus pés e carinhosamente coloquei as mãos em seus joelhos. Então ela me olhou, havia lágrimas represadas ali. Peguei sua mão.

"Vamos ficar bem." Falei "Vai dar tudo certo." Acariciou minha mão com sua outra. "Acho melhor a gente ir ao médico olhar seu pé."

"Não é grave." Sua mão tocou meu rosto.

"Está doendo?" Tentei tocar, mas ela puxou o ar com força e desviou sua perna.

"Um pouco." Tentou sorrir. Com certeza não era pouco.

"Me fala o que tenho que fazer." Esfreguei uma mão na outra pronta para o trabalho.

"Não precisa se preocupar. Volte a dormir." O que?

"Você ta brincando comigo ne?" Aumentei um pouco minha voz, abandonando o sussurro. "Nunca que eu vou dormir e deixar você assim. Nunca!" Havia surpresa em seus olhos, mas que monstro ela acha que sou? "Ou você me fala o que tenho que fazer ou vou ligar pra sua irmã ou pro seu amigo..." Olhei o relógio na parede. "E são três e meia da madrugada."

Ela olhou para o teto e bufou, com certeza percebeu que eu estava falando sério, e ela sabe o quanto sou teimosa. Sei que ela não gosta de ser contrária, mas eu também não.

Visivelmente emburrada me mandou pegar compressa gelada, um tal de cloridrato de potássio e uma meia estranha. Peguei a meia, e gentilmente coloquei no seu pé, ela tinha umas fivelas de velcro bem barulhentas. Faltava o restante, gelo e remédio. Quando pensei em sair, Sohara resmungou, peguei minha garotinha no colo, selei os lábios de Regina e prometi que não ia demorar.

Fiz tudo o mais rápido que consegui.
Com gelo e remédio na direita e princesa na esquerda fui rumo ao quarto. Quando passei pela sala vi a teimosia em pessoa de pé próxima ao sofá onde Anna dormia.

"Por que ela ta vestindo sua roupa?" Regina usou seu tom mais grave, quase agressivo, e suas mãos na cintura a faziam ficar bem intimidadora enquanto olhava a menina que dormia de um jeito bem desengonçado no sofá.

Tenho que confessar que mesmo sem ter feito nada de errado eu gaguejei.

"Estou esperando Swan." Cruzou os braços no peito e se desequilibrou um pouco, já que estava apoiada em apenas um pé, no entanto, não perdeu a postura e elegância e muito menos seu olhar intimidador.

Anna acordou, cabelo despenteado e um leve filete de baba em sua boca. "Já é de manhã?" Perguntou mais bocejando que falando, olhos ainda fechados.

"Não querida. São quatro da manhã e você não deveria estar aqui, ou deveria?" Me olhou feroz, e eu olhei para Anna que estava com olhos arregalados de medo, como um filhote de gato em frente a um Pitt bull.

"Eu pedi que ela chegasse mais cedo já que está em meus planos algo apenas você e eu para o dia. Então entramos num acordo que seria melhor ela dormir aqui."
Regina ainda me analisava com olhos cerrados. Sohara chorou em meu colo, brandia seus pulsos por atenção.

Anna levantou e me estendeu os braços, pedindo por Sohara.
"Ela está com fome."

Vi Regina pegar uma mamadeira no encosto do sofá, não estava ali antes. Então entendi o motivo dela ter se levantado, ela conhecia os horários da filha e sabia que logo ela choraria por fome. Estava levando a mamadeira para a cozinha.

Minha vontade era dar um soco bem forte em minha cara estúpida! Durante esses quase três meses de existência de Sohara eu só levantei seis vezes à noite para alimentar ou trocá-la. E Regina, mesmo doente, mesmo depressiva e mesmo machucada mal podendo andar não descuida da filha.

Eu sou um monstro.
Não a nada que eu odeia mais que a mim.

Peguei a mamadeira vazia da mão de Regina, eu queria ir preparar, mas Anna pegou da minha mão e sussurrou que eu tinha que cuidar de outra pessoa. Agradeci a garota de cabelos despenteados e novamente peguei Regina no colo, voltando para nosso quarto.

"Eu quero tomar banho." Disse antes que chegássemos a cama. Eu sei que ela queria que eu a colocasse no chão para ela ir se banhar, mas não. Dei meia volta e entrei com ela no banheiro, enquanto me olhava curiosa.

"Também quero um banho. Então podemos dividir um, o que acha?"

Sorriu quando a coloquei no chão. Entreguei o remédio e enchi um copo com água. Enquanto ela tomava os comprimidos comecei a me despir.
Seus olhos estavam como o de um leão faminto admirando sua presa. E confesso que aquilo me excitou. Infelizmente eu não poderia fazer amor com ela naquele estado ainda tonta pelo sedativo, eu queria ela bem alerta.
No entando, de manhã o efeito já teria passado, sorri com meu pensamento.

Retirei minha camiseta a jogando para qualquer lugar. Regina notou o curativo no meu braço, infelizmente agora com marcas de sangue devido o esforço que fiz ao carregá-la.

"Fui eu quem fiz isso?" Seu olhar era preocupado, quase desesperado.

"Não tem problema." Tocou de leve as bordas do curativo, aproveitei a aproximação e a abracei. "Já passou. E eu não vou a lugar nenhum sem que você, Sohara e Neal não estejam." Ainda havia medo e preocupação em seus olhos.

"Desculpa Emma." Dor, sim. Muita dor em sua voz.

"Não tem problema. Eu só quero que você me ensine a cuidar de você. Não vou me afastar durante suas crises como fiz ontem. Quero cuidar de você Regina. Te proteger, mesmo que seja de você mesma." Dei um beijo casto em sua boca. "Nada do que a gente veste, pensa ou diz nos define mais que as nossas prioridades... E família é minha prioridade, isso quer dizer que você é minha prioridade, você me define... Sempre."

Uma lágrima solitária caiu do seu olho e ela me beijou, beijou-me sorrindo. "Obrigada por não desistir de mim."

"Nunca farei isso, desistir jamais!" Comecei devagar tirando sua roupa, atenta a oscilação de peso no seu pé enquanto a beijava.

"Só não me deixa ter medo." Sussurrou entre o beijo. "Não me deixa ter medo que eu não terei mais crises como aquela."

"Não deixarei. Era por isso que você me chamava?"

Colocou a cabeça em meu ombro e nossos corpos nus se tocaram. "Tenho medo de te perder Emma." Me abraçou forte. "Já perdi demais."

Acariciou minha pele com a sua. "Minha mãe, um irmão, Daniel, e um filho. Já perdi demais."

Como eu havia imaginado, ela já viu a morte muitas vezes. E a morte marca os sobreviventes. A cada novo encontro, os transforma e jamais volta a ser o que era. Agora posso entender o medo da gravidez, não era apenas pelos remédios, era sobre a perda e sobre medo.

"Me conta." Acariciei seus cabelos. "Compartilha comigo sua dor Regina, dividindo ela fica mais leve."

Ouvi ela fungar e levar a mão no rosto. Agora não estávamos apenas nuas de corpo, mas de alma. Abracei-a com cuidado enquanto esticava o braço para abrir a torneira e encher a banheira. Enquanto esperávamos, sentei na borda e a coloquei em meu colo, retirando a meia barulhenta e voltando ao nosso abraço.

"Por favor Regina." implorei.

Respirou fundo e pegou alguns potes de sais, jogando seu conteúdo na banheira. "Minha mãe tinha câncer, por isso quis tanto que Zelena e eu fossemos médicas. Ela tinha a esperança que alguém um dia iria achar a cura, não pra ela, claro. Mas queria que ao menos uma parte dela fizesse a diferença nesse processo, no caso as filhas" Colocou os potes de novo no lugar e ficou olhando a banheira encher.
"Quando ela faleceu eu tinha quatro anos." Seu olhar estava perdido, e eu a abracei. "Não me lembro dela, mas lembro do seu cheiro amadeirado misturado com o aroma de rosa vermelha que não sei porque ela sempre carregava de um canto pro outro, era bom." Me abraçou mais forte.

"Não fique triste, onde ela estiver está orgulhosa de você com certeza. Você correu atrás do seu sonho."

"Quando criança meu sonho era ser igual a Peggy Lee. A atriz e cantora, sabe?" Assenti, seus olhos brilhavam com a menção a Lee. "Quantas vezes sonhei interpretar a canção Fever. Eu tinha até uma meia calça que roubei da minha irmã, como era grande eu cortei."

"E Zelena descobriu?" Perguntei fechando a água e nos levantando para entrar na banheira.

"Ficou furiosa. Na época ainda não sabíamos que eu era bipolar, então minha irmã, assim todo mundo, achavam que eu era uma louca impulsiva. A esquisita da família. Mas meu irmão sempre me protegia, ele sempre me via diferente de todos." Entrou na água, fiquei atrás dela e a abracei, agora eu iria protegê-la... Para sempre.

"Seu Irmão era o mais velho?" Joguei delicadamente um pouco de água nos seus ombros.

"Sim. E eu sou a caçula. Meu irmão que ajudava meu pai na fábrica, eles até construíram um balanço para Zelena e eu” Sorriu. “E sozinho, meu irmão abriu mais o lago e o deixou mais fundo." Seu olhar era de saudade e me lembrei do lago e do balanço quando visitei a fazenda Mills. "Acredita que ele teve esse trabalho todo só pra me ensinar jogar pedras no lago e elas quicarem?" Acariciou meu braço. "Nunca consegui fazer elas quicarem... Sempre afundavam."

Beijei seu pescoço e a abracei forte. "Como ele era?"

"Muito bonito. O orgulho do meu pai. Ele era alto, forte e usava um topete esquisito.” Sorriu “Ele dizia que topetes era como um bom rock, nunca saia de moda. E eu adorava quando ele penteava seu topete, ele sempre fazia brincadeiras na frente do espelho para me fazer rir."

"Um Johny Bravo" Brinquei fazendo referência ao desenho e ela riu. "E pelo que percebo, você é o orgulho do seu pai. Não há um dia que ele não ligue para saber de você e fica horas te elogiando."

"Meu pai, meu irmão e eu éramos muito agarrados." Seu olhar ficou triste enquanto ela olhava a espuma na banheira.
Apenas abracei, sei que ela estava revivendo cenas tristes, só queria mostrar que eu estava ali por ela.

"Meu irmão não era perfeito. Às vezes era arrogante e vaidoso demais. Eu sabia que eu era a única que ele tratava como porcelana, ele me chamava de princesinha." Nesse momento entendi porque ela quase chorou em todas as vezes que chamei nossa filha assim. Talvez projete seu irmão em mim nesses momentos e tenha medo de me perder da mesma forma.

"Certa noite ele foi me buscar na aula de teatro..." Apertou meu braço. "E ele estava muito nervoso e um pouco bêbado.” Agora entendi o desespero dela e a insistência para me levar em casa no dia em que eu estava bêbada e a abordei na boate.
“A garota que ele gostava o rejeitou."
Se encolheu. "Então ele estava dirigindo muito rápido e não conseguiu controlar o carro em uma curva cega."

A abracei forte, estava chorando. "Tentei fazer tudo que eu sabia Emma, mas era tanto sangue... E eu também estava machucada." Colocou mão no rosto tentando se esconder. Então entendi da onde veio sua cicatriz na boca e algumas pequenas espalhadas pelo corpo. Segurei uma de suas mãos e beijei a palma. "Então... Então alguém me segurou pelos braços falando que não adiantava mais. Que ele já estava morto. Nesse dia eu conheci o Robin, e decidi fazer medicina como minha mãe queria.” Fungou “E desde aquele dia minha irmã ficou mais próxima... Ela se sentia um pouco culpada.”

Novamente me lembrei da hesitação do Robin ao falar sobre a carreira de Regina. Ele estava lá quando tudo começou, ele sempre foi um bom amigo. Se é apaixonado ou não por ela, nunca mudou o fato que ele sempre esteve lá.

Ela ainda chorava, por mais que eu quisesse saber sobre Daniel e o filho perdido. Ela já tinha passado muitas emoções. Não era o momento.

"Eu só queria ser feliz Emma."

Tudo que eu pude fazer naquele momento foi abraçá-la
Não importa o quanto você ame uma pessoa... Não é possível retirar a dor dela, mas é possível estar ali na hora em que ela estiver sentindo... E isso já basta.

Quando estamos tristes, por mais que falarmos que preferimos a solidão... Com certeza tudo que queremos é alguém que amamos para nos confortar. Assim como machucamos o joelho na infância, mesmo que o orgulho não nos permita chorar na frente dos outros, tudo que queremos é a nossa mãe com seu jeito carinho dizendo que tudo ficará bem, que vai passar.

Sei que faz anos que Regina perdeu as pessoas que amava, que desde então ela estava sozinha, e talvez até desesperada. Mas agora não será mais assim.
O abandono é uma das piores dores que alguém pode sofrer, seja ele voluntário ou involuntário, como no caso da morte... Porém...
Saber que há alguém que faria tudo apenas para ver um sorriso fino nos seus lábios... É como um balsamo.

Todos queremos alguém que se preocupa com nossos sonhos, nossas loucuras, que nos escute e principalmente, que jamais negligencie nossas dores.

Muitas olham com desdém as lágrimas dos outros.

“Ah! Tá chorando por que? Ele não prestava mesmo?”
“Você ainda nem sabe o que é amor pra sofrer assim.”
“Isso passa.”
“Chorar não resolve nada.”
“Tá perdendo seu tempo atoa sofrendo igual idiota assim.”

Como podemos julgar a intensidade da dor de uma pessoa se não foi a gente que se machucou?
A dor é relativa e complexa, cada um a sente de um jeito. E independente dos motivos, temos que estar lá para apoiar, porque mesmo com toda a modernidade e ...

Apesar dos efeitos colaterais, o amor ainda é o melhor remédio

Notas finais
Falta a última parte desse cap