Come back to me G!P
10 Capítulo 10
Notas iniciais
"Ela me procurou quando fui àquela casa de shows no dia que fui conhecer a banda, antes de você ir a primeira vez. Ela se jogou em cima de mim Emma. Ela sabia quem eu era."
. "Emma, depois de um mês ela me procurou de novo e pediu vaga na MDA e eu... Emma, me perdoa, mas eu..."
Não queria ouvir o resto. Sai de perto dele, ele ainda tentou segurar meu braço.
"Emma, só queria te proteger de uma decepção"
"Tarde demais."
Entrei na minha casa, o cheiro dela ainda estava em todo lugar, ainda estava em mim. Eu não conseguia sentir raiva da Regina, por mais que tentasse tudo que eu queria era ir até a casa dela e abraça-la. Quando fiquei tão idiota assim?
Me joguei no sofá, meu celular vibrou e o ignorei. Com certeza era David. Não consigo acreditar no que ele falou, mas também não consigo acreditar que ele mentiu. Não consigo acreditar que ela omitiu coisas.
Toda mentira contamina as demais verdades.
Mentira branca, que contamos para agradar;
Mentira de omissão, quando escondemos algo por medo ou prepotência;
Meio verdade, quando contamos parte de uma verdade e a floreamos com nossa imaginação.
A verdade é nua e crua, você chega e fala. "Atrasei porque acordei tarde." Até para perguntar com verdade é necessário coragem: "Você comeu ela?"
A mentira é enriquecida de detalhes e exige treino e palavras ensaiadas. Atrasei porque meu pneu furou na 5' avenue e um moreno inclusive me ajudou a trocar o pneu, estava um sol escaldante. Mentira atrai covardia e não perguntamos.
Auto mentira, é a verdade utópica que queremos acreditar. É a verdade que criei para mim.
Podia sentir meu coração pesado, batendo com força, minhas mãos suavam e tudo que eu queria era sumir. Não sabia em quem acreditar, me sentia traída, só queria sumir.
A dor, acrescida da paranoia, torna-se imbatível. Descobrir a traição é difícil, mas com versão esmiuçada dos detalhes atinge o nível extremo de tortura. Com o roteiro nas mãos, os olhos reprisam automaticamente o filme. Não tem como parar o projetor.
Enquanto não identificava cenários e personagens, restava a tênue possibilidade de seguir em frente e tentar de novo.
Peguei o celular e o desbloqueei vendo a foto no desktop, uma self minha com Regina e Neal no banheiro antes de um banho dele.
Todos encharcados, como em uma guerra de mangueira. Jamais tinha feito isso. E jamais farei sem ela. Regina me fazia bem, trazia meu lado criança a tona
"Você me faz mal" Lembrei de suas palavras duras para mim.
Entrei no álbum e tantas outras fotos estavam lá, foi apenas uma semana, mas foi a semana mais feliz da minha vida. Tantas fotos de Regina de várias formas diferentes, em todas ela sorria. Amo seu sorriso. Como algo que me faz tão feliz pode me destruir tanto?
Joguei o celular na parede e coloquei minha cabeça entre as mãos. Será que fui idiota o tempo todo? Queria saber chorar para lavar minha alma.
Levantei os olhos e encarei os restos mortais do meu celular, estava sendo dramática demais, aquele ser frágil resmungando sozinha no sofá não era eu. Levantei e ouvi a campainha.
Quando abri senti uma certa decepção. Decepção ao perceber que era Regina que eu queria encostrar ali, e não encontrei.
O porteiro estava parado em frente a porta me olhando curioso.
"Senhora Emma. Su mochila e su bolsa. Senhora esquecer em hall." Lovak falou com seu sotaque arrastado enquanto me estendia os objetos.
"Spaciva Lovak" Agradeci em russo, era tudo que sabia falar mesmo.
Joguei minha mochila em um canto e sentei com a bolsa de Regina no sofá.
Um estojo de sobra, dois batons, chiclete de menta e de melancia, aproveitei e comi um. Alguns papéis, escova de cabelo, base e pó, um livro, lixa, carregador de celular, mais papéis. Abri sua carteira. Havia apenas ID, uma foto de um casal de senhores, acredito que seja seus pais. Uma foto minha que não vi quando foi tirada. Uma foto de um homem jovem, bonito até, e uma foto de um cachorro marrom. 50 dólares trocado, licença para atuação, carta de motorista. Nada que me dissesse quem era ela.
Coloquei tudo de novo dentro da bolsa e me reeconstei no sofá.
Os papéis, não olhei os papéis. Retirei tudo e comecei a ler.
Algumas falas de seu personagem marcada com marca texto. Um ultrassom, o seu contrato com o teatro. Um exame de dependência química. Exame de sangue. Espera? Ultrassom?
Olhei aquela imagem que parecia um borrão em cima de um borrão dentro de outro borrão. Colado a isso estava um laudo médico.
11 semanas de gravidez.
Senti minhas mãos congelarem literalmente.
Comecei a fazer as contas desde o primeiro dia que não usamos camisinha, mesmo que as chances de ser meu eram tão baixas.
Repirei fundo, podia ou não ser meu, afinal partiu de Regina a decisão de não usar preservativo, eu idiota aceitei. Ela disse que era precavida, porém não achei nenhum anticoncepcional nessa bolsa, nem camisinha.
Os números batiam mais ou menos, minhas mãos tremendo e minha confusão de sentimentos não me deixavam pensar direito.
Peguei o outro papel, o de dependência química. De acordo com aquelas palavras estranhas Regina tomava alguma medicação e parou por contra própria. Os números estavam bem distante das referências, não sei o que estava acontecendo, mas era ruim. Os nomes eram grandes e confusos, peguei meu notebook para jogar no Google, era a única forma de saber o que ela tem.
"Pinoquita" Ruby entrou na minha casa "David me ligou e falou que a Regina não pode te levar, então tô aqui."
"Ruby, eu..."
"Os médicos querem desperdiçar um pedaço de você e pra isso precisam de você lá. Vamos." Pegou minha mochila no chão e colocou nas costas.
"Achei que você fosse sair com seu ficante de dreads hoje."
"Terminamos, mas eu não choro pelo leite derramado, mas derrama cerveja pra você ver o escândalo que faço."
Sorri "Tudo bem." Levantei fechando o notebook "Mas vamos no meu carro."
"Você quem manda. Só espero que não cortem muito de você, do jeito que ando bebendo vou precisar de um pedaço do seu fígado também, e como você gosta de doar pra qualquer um, vou aproveitar."
Ruby foi a única pessoa que me acolheu quando fui expulsa de casa, a única que já me viu no fundo do poço e não acenou e foi embora como todos os outros. E a pessoa que mais odeia meu pai devido ao que ele fez a mim. E foi a única a bater o pé e não aceitar o transplante. E mesmo sendo contra, era ela quem estava me levando ao hospital.
Olhei mais uma vez os papéis no sofá, eles teriam que esperar até minha volta... Se eu voltar. Eram baixos, mas os riscos existiam. Qualquer cirurgia sempre tem risco.
"Pinoquita, ainda não tô acreditando que você vai doar pro desnecessário do seu pai." Disse enquanto dirigia. "Você é muito boa Emma, as pessoas se aproveitam de você assim."
"Mas isso é defeito delas, não meu."
***
Estava ansiosa, coração disparado enquanto esperava sentada em uma cadeira fria e dura. Regina prometeu que estaria segurando minha mão nesse momento. Mas tudo que eu via era Ruby mexendo no celular, médicos e enfermeiros andando para todos o lados como se eu não existisse ali.
E eu queria não existir.
Me sentia só. Como há anos não me sentia. Esfreguei uma mão na outra com a esperança idiota de Regina chegasse. Eu queria que ela chegasse. Era tudo que eu precisava.
"Hora da cirurgia." Uma enfermeira alegremente falsa me avisou, olhei para os lados, Regina não estava lá.
Tomei banho vestindo uma roupa descartável e deitei em uma maca, sendo levada a um lugar verde cheio de máquinas. Uma enfermeira gentil colocou uma máscara transparente em mim. Eu estava com medo.
"Conte até 10 de trás pra frente Emma." O cheiro do gás era metálico
"10"Meu coração estava disparado de medo. Como Regina sabia tanto sobre fígado e ficar parecido com Minion? Todos me observavam.
"9" Médico! Regina já foi médica, por isso ela sabe tanto. Por isso suspendeu a medicação que ela tomava, porque poderia fazer mal ao bebê. Ela conhecia todos os riscos. A enfermeira sibilou que tudo ficaria bem.
"8" Por isso foi fácil conseguir um papel de médica na série e difícil conseguir outros. Mas por que ela não exerce medicina mais?
"7" "...a mãe dela e da Regina queriam que elas fossem médicas, pena nenhuma obedeceu a mãe" Ele mentiu, na verdade Robin não mentiu, ele queria me contar, ficou até alguns segundos em silêncio, então mudou de assunto. Por que Regina desistiu da Medicina?
"As vezes não importa o que você faça, algumas pessoas simplesmente não melhoram."
"6" Quem ela perdeu? Com certeza alguém especial. Não me importava, só queria ela segurando minha mão. Please Regina, come back to me, I need y... (Por favor Regina, volta pra mim, eu preciso de v)
***
Bati na porta do 108, uma mulher ruiva abriu e me olhou preocupada. Fiquei apenas 1 dia no hospital após a cirurgia, acho que eu não estava tão ruim assim para ela me olhar daquele jeito.
"Você deveria ta em repouso Swan." falou olhando ao redor, talvez a procura de algum acompanhante e não fiquei surpresa que ela me conhece.
"Cadê Regina?" Perguntei segurando minha pasta de alta do hospital e uma mochila. Não quis esperar ninguém me buscar, precisava ver ela.
"Swan, quem veio com você? Você não deveria nem estar em pé." Cruzou os braços e ficou em frente a porta, me impossibilitando de ver qualquer coisa.
"Estão me esperando lá embaixo." Assim que eu achar um táxi ele irá me esperar mesmo, não menti. "Preciso ver ela, por favor."
"Ela fez alguma coisa a você?" sua voz ficou fria
"Eu não sei. Só preciso ver ela, eu... Eu sei sobre a gravidez."
Sua feição ficou dura.
"Então você sabe o quanto essa criança é perigosa pra ela?"
"Que?"
"Amor, quem é." Robin apareceu atrás da ruiva. "Você? Regina não está, por favor volte outra hora."
"Não estou com pressa, posso esperar." Cruzei os braços e o encarei, algo me diz que ele sente algo além de amor de cunhado.
A ruiva deu de ombros "Deixa ela entrar, talvez assim Regina para de chorar tanto, tá irritante."
Então a ruiva passou pela porta. Robin ainda me encarava.
"Você não deveria estar em pé, você mal consegue se equilibrar vai pra casa. Ou você veio machucar Regina de novo?" Ele me perguntou diante da porta, braços cruzados e testa franzida.
"Jamais faria isso."
"Eu vi a marca no braço dela, você a machucou." Sua voz era afiada. David deve tê-la marcado aquele dia na minha casa.
"Não fui eu." Meu coração acelerou. "Jamais faria algum mal a ela."
"Tudo que você faz a ela é mal, não percebe isso? Ela estava com você, se não foi você, quer dizer que você foi negligente a ponto de deixar alguém apertar o braço dela daquele jeito." apontou um dedo para mim. "Afasta dela que será o melhor pra todos."
"Pra que?" Perguntei exaltada "Pra você dar em cima dela? Não está satisfeita só com uma não?" Minha respiração estava rápida e fraca, como se o ar não fosse suficiente.
"Olha aqui pirralha!" Se aproximou mais, seu corpo era grande e forte, me deu medo. "Você não vai fazer mal a ela entendeu?!" Mais um passo em minha direção "Eu não vou permitir. E não quero que você se aproxime mais dela."
Levantei meu queixo e dei um passo a frente, nossos rostos próximos o bastante para eu sentir o cheiro de pinho de sua roupa.
"Não me importa o que você quer!" Enfrentei "Eu vou ver ela e sei que ela está aí dentro porque tô ouvindo a voz dela. Se você não me deixar vê-la vou conseguir uma ordem judicial, afinal pode ser meu filho que ela carrega."
Ele me olhou confuso, com certeza não sabia esse detalhe peculiar da minha anatomia. Aproveitei o momento e o empurrei, uma tontura me tomou os movimentos e escureceu minha vista, um som de um apito alto em meus ouvidos e meu corpo ficou pesado e fraco. Vi Regina sentada no sofá conversando com a ruiva, sorrindo enquanto alisava sua barriga, ainda quase imperceptivel. Ela parecia mais magra. E foi a última coisa que vi antes de tudo ficar preto
***
"Como você não tem ativan aqui Zelena?" Ouvi a voz de Regina, mas parecia tão longe.
"Tenho adrenalina." Acho que era Robin falando, queria levantar e discutir com ele, mas nem conseguia abrir meus olhos. "Só que isso pode aumentar a hemorragia."
Senti uma picada e de repente meu coração acelerou. Que sensação horrível.
"Administrei 2mg, temos poucos minutos." A voz de Regina de novo, como senti falta dessa voz. "Saturação em 58. Quanto tempo até a ambulância chegar?"
Sua voz agora já não estava mais tão longe. E que diabos era saturação?
"Emma, você vai ficar bem." Acho que ela estava acariciando meu cabelo. "Saturação em 56. Cadê eles?" Notei sua voz instável, ela parecia estar segurando o choro.
"Calma Regina." A voz da ruiva estava ficando longe novamente.
"Como Zelena?!" Regina gritou. "Eu não posso perde-la. Tudo de novo não. Não vou suportar." Ela estava chorando, queria abraça-la e dizer que ficaria tudo bem.
"Saturação de novo em 54 e caindo." A voz de Robin estava muito mais longe que antes. "E a hemorragia está piorando, ela não vai resistir."
"Pegue seu carro, vamos leva-la" Senti Regina se aproximar mais. "Não morra! Eu te amo Emma." Foi a última coisa que ouvi Regina dizer.
***
"Ei, abra os olhos, sei que você está acordada." Ruby, era a voz de Ruby. "Emma, se você não abrir esses olhos agora eu juro que te sufoco com o travesseiro." disse contendo um grito de raiva.
"Calma." Sussurrei dentro de uma máscara que empurrava ar dentro de mim. Abri os olhos devagar, muita luz, mas percebi que estava em um hospital.
"Calma? Emma, só não grito porque eles vão me expulsar daqui." Ruby estava muito nervosa, seus olhos inchados, ela havia chorado muito. "Emma, eu fiquei louca quando não te achei no hospital e depois uma tal de Zelena me ligou falando que você estava na sala de operação..."
Começou a chorar. "Hemorragia interna Emma! Se não tivessem te trazido logo você ia morrer!" Tentou enxugar as lágrimas com a manga de sua camisa. "Se não tivessem te aberto dentro de um carro eu estaria jogando flores em cima do seu caixão agora sua irresponsável!" gritou, tentei pegar em sua mão, mas ela me olhou furiosa.
"Fiquei oito horas rezando pra da tudo certo durante a operação ridícula que você fez pelo seu pai. Agora tive que ficar 12 horas sem saber se ia ver você de novo ou não. Emma! Pára porra!" Gritou "Há pessoas que se preocupam com você, que te amam porra!"
Respirou fundo. "Regina ficou 12 horas andando de um lado pro outro desesperada e com a roupa cheia de sangue. Sangue seu!" Me apontou o dedo, jamais vi Ruby tão nervosa assim. "Neal e sua mãe não conseguiam parar de chorar, e tive que limpar várias vezes as lágrimas do David, Mary e Killian enquanto as minhas não paravam de cair! Se você sonhar fazer uma loucura dessa de novo, eu vou te matar antes de você ter duas paradas cardíaca de novo." Sentou na cadeira ao meu lado colocado as duas mãos no rosto e chorou, os vários tubos em mim não me permitiam ir lá e abraça-la.
Zelena me avisou, eu não deveria nem estar em pé, mas teimosa andei, subi escadas e empurrei um homem bem mais forte que eu. Talvez esse último ato tenha quebrado alguma coisa dentro de mim.
"Me perdoa Ruby." falei puxando a máscara, Ruby me olhou e levantou, saindo do quarto. Só então notei que estava na UTI.
Enquanto tentava tirar a máscara que ficava empurrando um ar morno na minha boca, Regina entrou.
"Não tira, você está tendo apneia pós operatória. Enquanto dorme você pára de respirar. É temporário." Sentou ao meu lado
"Obrigada doutora." Falei sarcástica tirando a máscara.
"Me formei, mas não fiz a prova do Conselho. Não sou médica, nunca quis ser." Estava usando uma roupa descartável de enfermeira, muito maior que ela.
Acariciei sua mão e ela ficou surpresa "Não importa. Você é atriz, esse que é seu sonho não é?"
Balançou a cabeça em positivo, duas lágrimas rolaram no seu rosto.
"Sei que você não conseguiu salvar alguém especial pra você, mas ei! Você me salvou! Sou especial não é? Fala que sim! Fala que sim!" Ela sorriu e senti meu coração aquecer, estar assim diante dela mudava completamente minha perspectiva de vida.
"Quantos anos você tem? Cinco?"
"Seis. Eu tenho seis."
Notei um tremor em sua mão. "Por que você ta com a mão tremendo?"
Ela recolheu a mão e as esfregou.
"Abstinência. Ainda estou na fase de desintoxição."
"Você parou de tomar seu remédio por causa do bebê?"
Me olhou apreensiva. E após alguns segundos balançou a cabeça em positivo. Uma dor forte começou em minha barriga e por reflexo coloquei as mãos. Regina levantou o lençol e colocou sua mão sobre as minhas, com a outra apertou um botão perto da minha cama. Ter sua mão sobre a minha fazia todos meus medos sumirem.
Uma enfermeira entrou no quarto e injetou algo alaranjado em uma mangueira ligada em mim.
Regina se aproximou do meu rosto e beijou meus lábios, recolocando a máscara chata.
"Você vai ouvir coisas horríveis sobre mim, mas tenha certeza que eu te amo Emma."
Queria responder "Eu também te amo." Mas o sono me dominou, toda a dor que eu estava sentindo sumiu. Acho que me deram a tão famosa morfina, quero levar um pouco disso para casa, é realmente bom. Sinto paz.
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