"Será que meu pai tem algo grave?" Olhei para Regina, ela parecia aérea enquanto olhava pela janela do carro. "Minha mãe parecia tão desesperada no telefone."

"Quando se trata de saúde, algumas pessoas não sabem ser equilibradas." Sua voz estava apática, porém seus olhos estavam fixos, como se ela estivesse lembrando de algo.

"E você sabe?" Perguntei ansiosa, saber mais sobre essa incógnita de cabelos curtos deixava minhas mãos suadas.

"Desesperar adianta?" Me olhou, estava séria. Essa mulher sentada ao meu lado não tinha nada a ver com a mulher animada que conheci na casa de shows. Como se aquela fosse de humanas e essa de exatas. Regina olhou novamente para a janela ao seu lado, mão apoiando o queixo. "As vezes não importa o que você faça, algumas pessoas simplesmente não melhoram." Vi um brilho triste passar em seus olhos, seu queixo tremeu um pouco. Ela balançou a cabeça e fechou os olhos, quando os abriu novamente, eles estavam sem brilho encarando as imagens passando pela janela.

"Eu consigo entender minha mãe." Tentei não deixar a conversa morrer, talvez eu falando ela falasse também. "Meu pai parecia um Minion! Ele estava muito amarelo. Será algum bronzeador que ele passou? Existe o de cenoura, talvez exista algum de...

"Ele está com icterícia." Falou com uma mistura de frieza e raiva. "A esclerose estava âmbar, os lábios ressecados, não se passa bronzeador nesses lugares. Nem se bebesse bronzeador aumentaria tanto a bilurrubina desse jeito."

Olhei-a esquecendo completamente da direção. "Como você sabe essas coisas?!"

Vi como Regina ficou congelada na posição, seus olhos fixos no nada.
"Fiz um papel de médica na última série que trabalhei."

Meus olhos alternavam entre ela e a rua "Eu te procurei no google e depois no Youtube Regina, seu personagem mal aparecia, e mesmo sendo médica, tudo que você fazia lá era dar em cima de um enfermeiro." Notei como sua respiração estava agitada. Ela tirou a mão do queixo e me encarou.

"O que você quer dizer com isso? Que estou mentindo?" Me atacou.

"Não que está mentindo, mas sim omitindo." Tentei manter a calma, meu coração estava acelerado.

"Omitir é mentir Emma. Pare o carro que eu quero descer." Ordenou

"Não precisa ser infantil." Resmunguei.

"Não é isso!" Gritou, parecia um pouco desesperada.

Liguei o pisca alerta e encostei em frente a uma MacDonald. Regina tirou o cinto e abriu a porta com uma velocidade impressionante.

Fiquei sentada olhando ela entrando na loja, na incerteza se ela iria voltar ou não.

Puxei a porta que ela deixou aberta e liguei a trava, não estava afim de ser assaltada. New York, fazer o que?

Notei sua bolsa no banco, ela teria que voltar com certeza. Por alguns segundos minhas mãos coçaram para abrir e examinar seu conteúdo. Respirei fundo e liguei o rádio.

Os minutos passaram e ligações da minha mãe foram enviadas para a caixa postal.

Enquanto digitava uma mensagem para David sobre a não venda das ações de uma filial nossa, Regina bateu no vidro, destravei e ela entrou com uma casquinha de vanilha.

"O balconista me deu, não quero." Me ofereceu a casquinha e eu peguei sem entender nada, e enviei a mensagem. Notei que ela estava sem batom, e sua blusa estava levemente molhada, na hora achei que ela havia lavado a boca, e por consequência molhado a blusa. Seus olhos estavam levemente vermelhos.

Eu precisava ter certeza.

Peguei minha bolsa e retirei uma garrafa de água e ofereci a Regina que pegou de imediato, drenando todo o líquido. Sim, ela havia vomitado, eu não tinha mais nenhuma dúvida.

Olhei seu corpo, estava do mesmo jeito, ela não ganhou peso e nem perdeu. O que poderia ser, então?
Liguei o carro.

"Não fuja da minha pergunta, como você sabe sobre esses negócio de médico." A casquinha estava realmente deliciosa.

"Moro com dois enfermeiros."

Nisso ela tinha razão. Pensei em outra pergunta, e o vômito? Porém antes das palavras serem formadas ela cruzou os braços e me encarou.

"Mais alguma pergunta Swan? Ou seu interrogatório vai exigir uma mesa e luz diretamente sobre mim?" Seu tom era raivoso, seu olhar gélido. Acho que eu a ofendi.

"Não. Por enquanto não." Não esperava que minha voz soasse tão fria e vi um brilho de medo passar rápido por seus olhos, mas foi bem rápido, pois em seguida uma máscara de indiferença cobriu seu rosto.

Não importa o quanto eu tente desvenda-la, a cada passo que dou sei menos, entendo menos. É como se eu tivesse entrando numa mata fechada, e o pior, não marquei meu caminho de volta.

Meu celular vibrou, estava em cima da minha coxa, Regina o pegou.

"É mensagem." disse

"Leia pra mim. A senha é 1512" Notei que ela me olhou surpresa, dei de ombros e continuei a degustar minha casquinha, a outra mão no volante.
Desbloqueou a tela e sorriu, com certeza pela foto do Neal ali.

"É uma mensagem de David. Ele fala: Emma, tem certeza que não quer vender suas ações da MDA? Vou vender as minhas. O que te fez mudar de ideia?" Regina me olhou, parecia ansiosa pela resposta.

"Responde pra ele que..." Parei em um sinal. "Conheci alguém que me fez mudar de ideia." pisquei e vi ela soltar o ar devagar, dedos voando no teclado.

Pensei um pouco. "Qual a senha do seu celular?"

Sem tirar os olhos do teclado ela respondeu "0000" Notei como ela sorria, por que ela estava feliz?

***

"Emma, por favor. Você é a única compatível com seu pai. Você tem que fazer esse doação! É sua obrigação! Você não pode pedir nada em troca!" Minha mãe estava histérica, olhos de cachoeira enquanto esfregava uma mão na outra.

Olhei para Neal que dormia tranquilo no colo da Regina, ela parecia distraída, cansada. Seu queixo repousando na cabeça do meu irmão. Seus braços em volta dele e seu olhar perdido. Queria sentar ao lado dela naquele banco, me abstercer de tantos problemas.

Ela cuidou de mim na noite anterior, saiu cedo e à noite se apresentou no teatro. Depois foi para minha casa, fizemos sexo e agora ela está aqui, me ajudando, cuidando da minha família. Não, nós fizemos amor, e agora ela está aqui, cuidando da minha família e de mim.

Ela sempre está cuidando de alguma coisa. E eu sempre estou fugindo disso.

Respirei fundo e fui em direção ao quarto 223.

Abri a porta e senti um cheiro estranho de amônia. Vi uma cama solitária com um magro colchão em cima. Depois uma cama com um magro senhor que tossia intensivamente e então, ao lado, uma cortina fechada com uma enorme máquina que lembrava as fitas cassetes de antigamente.

Hemodiálise, lembro que o médico falou algo sobre isso. Aquela máquina poderia ser para isso.

O barulho alto de engrenagem era bem incômodo. Aproximei-me e puxei a cortina, olhos raivosos me encaravam.

***

"Você tem ideia de como é ser zuado pelos amigos? Oh! linda filha você tem Leopoldo." Imitou com voz irônica. "Só não te chamo de sogrão porque não gosto de sinuca." Me olhou magoado, estava reclamando a mais de 10 minutos. "Deixei de frequentar muitos lugares por sua causa Elijah, pela vergonha que você me faz passar."

"E eu deixei de frequentar a minha casa por sua causa, pelo ego enorme que você insiste em ter." Por alguns minutos, todo o barulho do quarto estava resumido aos sons metálicos e digitais dos aparelhos ao nosso redor.

"Você era meu orgulho, meu motivo de sorrir." Leopoldo disse amargo. "Me tornei presidente da Gold S/A pra deixar um legado a você, abrir caminho pro seu sucesso, e você me virou as costas, assim como está fazendo agora."

"Não virei as costas, você saiu de casa e prometeu que me apoiaria, meses depois voltou e disse que eu teria que tomar hormônios porque não queria uma aberração em casa." Respirei fundo. "Ruby e a família dela me aceitaram, e juntos criamos a produtora Swan, NÓS trilhamos nosso sucesso, e não foi fácil." Me aproximei mais da cama.
"E não pai, não estou te virando as costas agora. Você quer algo de mim e eu quero algo de você, simples assim." Cruzei os braços e o encarei.

"Eu não vou te entregar a tutela do meu filho."

"E eu não vou te entregar um pedaço do meu fígado."

Sai do quarto fechando a porta e encostei nela. Passei as mãos nos olhos e depois no cabelo, realmente não sabia o que fazer.

"Te trouxe uma coxinha e um suco de laranja. Desculpa, só isso que encontrei nesse lugar." Regina me estendeu um embrulho pardo e um copo de descartável. Notei que o embrulho estava quente, refletindo a temperatura de seu conteúdo. Com certeza alguém está assustado ou chorando até agora.

Sorri agradecida.

"Emma, se não quiser não precisa fazer o transplante. É seu corpo, sua decisão e também é arriscado pra você. Toda cirurgia tem riscos." Bebeu do seu próprio suco.

"Ele é diabético, isso já faz ele cair alguns degraus da preferência." Falei indo em direção a algumas cadeiras, explorando meu lanche.

"Nesse caso, muitos degraus. Mas isso não te obriga a nada." Olhei para ela quando sentou ao meu lado, havia apenas o suco em sua mão. Assim como eu ela jantou apenas uma salada, gastamos energia na minha cama, e depois ela esvaziou seu estômago. Como ela não está com fome? Eu ataquei uma casquinha de baunilha e agora estou atacando uma coxinha.

Limpei a boca e bebi do meu suco, o olhar de Regina ainda sobre mim. "Você acha melhor eu não doar?" Perguntei.

"Acho melhor você refletir muito antes de fazer alguma coisa." Se aproximou e limpou algumas migalhas da minha blusa. "Você tem um bom coração Emma, não deixe as pessoas aproveitarem mais de você."

"Sei o quanto ele foi cruel comigo, mas se eu não fizer algo rápido ele pode morrer." falei

"Se você fizer algo sem ser racional você pode morrer!" Alterou sua voz, estava ficando nervosa

"É mais fácil morrer do que ver alguém morrer."

Ela me olhou, não consegui decifrar seu olhar. A morte realmente a incomodava muito.

Alguém que fica tão incomodada com a morte assim, ou nunca teve experiência, ou já teve experiência demais.

"Regina" Toquei sua mão. "Você está cansada, cuidou de mim ontem, trabalhou hoje e agora está aqui comigo. Acho melhor você ir pra minha casa descansar."

"Sua?" Me olhou divertido.

"Sim." Retirei do bolso a chave do meu carro e casa e a entreguei. Acho que nunca confiei em alguém tanto assim. Ela sorriu, um sorriso que não consegui decifrar.

"Posso levar o Neal? Hospital não é um bom lugar pra crianças." Assenti com a cabeça. "Você vai ficar bem Emma?"

De novo assenti e então ela levantou, parou alguns instantes e sentou de novo.

"Você quer que eu vá pra sua casa pra você me vigiar?" Olhos cerrados me olhando

"Proteger, não é o mesmo que vigiar."

Selou meus lábios, e sim, era para saber onde ela estava. "Não precisa me vigiar, não ofereço perigo."

Levantou e retirou meu celular da sua bolsa me entregando. Franzi minha testa olhando para o aparelho em minha mão, eu nem lembrava que estava com ela.

Notas finais
Quero agradecer a Swanqueen4ever pela linda recomendação e pela confiança na fic. Quero também agradecer a Amanda pela motivação e pelas ameaças. E claro, não poderia esquecer de agradecer a Geysa e a Universal Swan por me fazerem rir e me animarem sempre.