Colors

3 Capítulo 2- Ally.


Alyssa
Caminhei até a garagem com dois vestidos no braço, obviamente um era para Lysa. Aquela garagem era grande e tinha um eco insuportavelmente alto quando o saltinho do coturno preto que eu usava tocava o chão, abri a porta do meu carro jogando os trajes no banco de trás, por cima de onde os livros do colégio estavam, a fechei com força suficiente para o eco aumentar, a porta estava amassada da vez em que Lys me pedira para aprender a dirigir, o episódio foi tão memorável que acabou deixando o amassado como recordação. E entrei ocasionalmente pelo lado do motorista. Ao dar a partida uma de minhas mãos tocava o volante enquanto a outra puxava a marcha enguiçada da relíquia de família empoeirada que papai havia deixado quando se mudou para a America com minha mãe e meu irmão mais velho.
O Instituto não era muito longe de casa, considerando que morávamos em uma parte mais isolada da cidade, e em poucos minutos eu já estava lá parada, esperando Lysa sair do ensaio. Naquele pequeno intervalo de tempo, eu não conseguia tirar Collin e as coisas que ele me disse da cabeça, desde quando aquela peste tinha se tornado tão cheio de si? Estava tão distraída com aquilo que todos os meus pensamentos giravam apenas na madrugada de hoje e no inicio da manhã.
Hoje talvez tenha sido a pior noite da minha vida, não preguei o olho. Um repentino ataque de ansiedade me pegou desprevenida pela madrugada, a incrível sensação de sentir a traqueia se fechando e o ar passando estreito pela fenda que ela formava era algo incrivelmente "agradável". Por sorte Tio Albert já estava acostumado com essas crises e sempre estava ali para me ajudar, chegava a ser tão singular o jeito em que aquelas mãos frias e ásperas seguravam as minhas até que minha respiração voltasse ao normal, depois de uns vinte exercícios de respiração diferentes, admirava a paciência de Albert comigo.
No final de quase uma ou duas horas no próprio inferno, tudo o que eu conseguia fazer era olhar o horário em meu celular, ainda eram somente quatro e meia e o tempo parecia congelado, o vento que soprava a vidraça da sacada daquele casarão antigo em que morávamos contribuía para a falta do sono todos os dias, o ruído daquele galho de carvalho que todas as noites batia na minha janela era consideravelmente assombroso. Não tanto quanto na minha infância onde eu passava a maioria das noites em claro pensando que a sombra e o barulho do galho eram algum tipo de monstro a verdade era que, sempre odiei ter aquele quarto, desde quando nos mudamos para esse velho local.
Em cada intervalo de cinco minutos— que sempre pareciam uma eternidade) tentava me virar de baixo do edredom verde água que me cobria até a minha cintura, procurando uma posição confortável para fechar os olhos e descansar. Mas toda vez em que eu fechava o olho, eu só conseguia ver Ethan, e sua aparência infantil que me vinha na memoria, provavelmente já tinha mudado muito— Obrigada puberdade?. Mas, ainda não consigo me esquecer do azul triste dos olhos daquele garoto que costumava a ser além de meu irmão de consideração, o meu melhor amigo.
Consegui pegar no sono, quase duas horas depois, não estava nem sequer ligando para o colégio. Tio Albert provavelmente já esperava isso, diferente de meus pais, eu sempre tive essa liberdade com o meu tio, por isso considerava ele o menos babaca dos homens da família. Albert sabia como era difícil para me controlar depois desses ataques e como odiava recorrer a tratamentos com medicamentos para esse tipo de coisa, e por isso quando aconteciam, deixava passar despercebido a minha falta no instituto. Eu não entendia muito bem o por que de não conseguir controlar meu corpo, simplesmente coisas como essas crises aconteciam, o cômico era que sempre aconteciam todas as noites depois de me encontrar com Nash, meu namorado. Mas havia uma coisa que me preocupava, uma coisa acima da minha ansiedade, a imagem do sonho que tive antes daquele ataque não desgrudava da minha cabeça.
Com toda certeza, aquele foi o sonho mais estranho que eu já tive em toda a minha vida.

Estávamos na festa do terceiro ano, mas alguns calouros conseguiram entrar como intrusos, eu estava no bar sentada, ocasionalmente com um copo de Whisky na mão. Amy me arrastava para dançar, eu nunca tinha visto a morena tão frenética, talvez os seis copos de gin com tônica tenham tido feito um efeito mais rápido que o normal no corpo da minha melhor amiga. Estava tocando Lost Frequencies do Reality, era a nossa música, eu queria aquele momento e o queria congelado no tempo, fazia tanto tempo que eu não me divertia tanto como naquela noite, Amy tinha um sorriso lindo, embora já estivesse quase caída no chão de tão bêbada. Senti uma mão segurar com força o meu braço, estava tudo embaçado, por um momento eu pensei ter visto Ethan, mas com toda aquela força eu tinha certeza de quem era aquela pessoa que me levava para o terraço, Nash Mulligan. O pior namorado de todos, como era conhecido, mas embora com todos os comentários, eu não conseguia deixar de amar aquele canalha.
Nash estava alterado, podia sentir o cheiro forte de tequila na roupa dele quando chegamos ao terraço ele não falava coisa com coisa, as mãos dele percorriam o meu vestido, e mesmo que eu negasse elas continuavam, persistentes. Ele beijava meu pescoço com vigor, meus braços estavam contra seu tronco empurrando-o, nunca tinha o visto tão rude. Eu não estava nem um pouco a vontade com aquilo, escutei a porta do terraço bater e não contive um grito, na mesma hora o projeto de namorado virou a mão contra o meu rosto, me batendo tão forte quanto um dia ele já tinha me batido, meu rosto virou com a força daquele garoto e eu caí de lado no chão lajotado do terraço cortando a canela tão forte e profundo quando alguma vez havia cortado, focava minha visão pouco turva pelo álcool e atrapalhada pelos fios do meu cabelo em um vulto de olhos azuis que partia para cima do idiota do meu namorado, e depois disso não conseguia ver mais nada, estava tudo preto. Senti a presença de alguém próximo a mim e então.
—Nash Pare! — Acordei suando frio, segurando o pulso de alguém, quando o meu campo de visão finalmente estava focado, pude reconhecer meu irmão mais novo, ele me olhava assustado, como se não estivesse entendendo o que estava acontecendo o soltei me sentando a cama, suspirando pesado e ainda a suar frio. — Collin, me desculpe. E-eu não sabia que era você, o que está fazendo aqui?— Perguntei retomando um pouco de ar que me faltava.
— Alyssa, você está bem?— O garoto franziu a sobrancelha. Ele tinha uma cara enjoada quando a franzia, a mesma expressão de quando era uma criança. A verdade era que o meu irmão caçula nunca gostou de Nash, desde que ele descobriu que tínhamos começado o namoro. — Tio Albert me pediu para que te acordasse para buscar Lysa...— Com a voz baixa ele concluiu um pouco perdido, seus olhos desviavam um pouco para as paredes brancas do meu quarto, era o único que nunca fora pintado, ou sequer tinha algum papel de parede, por preferencia e escolha do Ethan, sua desculpa era que aquilo o "acalmava", embora fosse o meu quarto nunca conseguiram dizer não ao Ethan, afinal ele era o preferido.
— Está bem... — Falei sorrindo para este puxando a coberta para o lado e saindo da cama onde o garoto estava sentado. Nem sequer me lembrando dos hematomas da noite passada, que de primeira não pareciam tão sérios. Caminhei indo em direção ao guarda-roupa próximo a escrivaninha, mas antes de chegar, Collin segurou minha mão e me puxou de volta para a cama. Ele ficou sobre mim, segurando meus punhos com força enquanto seus joelhos tocavam meu quadril, pude sentir uma leve palpitação no meu peito enquanto aqueles olhos azuis me encaravam, o que ele estava pensando? Collin nunca tinha feito isso antes, era sempre calmo e discreto, ele parecia furioso. Foi naquele minuto que eu tomei conta, que o meu irmão mais novo já era quase um homem, meu coração batia como se estivesse prestes a explodir e eu ainda o via como no primeiro dia, aquele pivetinho de olhos claros que não desgrudava da irmã gêmea. — O que são esses roxos na sua perna Ally? — Sussurrou em meu ouvido como se tivesse a intenção de me provocar e aquilo me tirava do sério. — Nash quem fez isso, irmãzona? — Com a voz alta novamente ele me encarou sério até demais.
— Não enche Collin. Eu trombei com a mesa ontem. — Ele me soltou, sabia que eu tinha arranjado uma desculpa qualquer, sentou de qualquer jeito na cama enquanto reclamava passando a mão nos cabelos castanhos. O mais novo parecia irritado ao ver minha perna com alguns roxinhos.
— Ele não presta, você merece coisa melhor Ally. — ele comentou enquanto eu saia do quarto segurando um dos punhos tentando não olhar para o meu irmão mais novo, bati a porta branca com força caminhando pelo corredor com passos tão rápidos que era incrivelmente inacreditável que ainda não tinha tropeçado em meus próprios pés.
Eu não processava mais nada depois de tudo aquilo, uma noite mal dormida, Nash e suas agressões, Collin um adulto? E a imagem de Ethan me assombrando.
As folhas que caíam das arvores do estacionamento, amareladas pela estação do ano, estavam enfileiradas desengonçadamente, secas e estraláveis, convidando as crianças da pequena cidade a fazer um monte com elas e se divertirem. Papai e Mamãe geralmente nos traziam aqui nesta época do ano, era realmente nostálgico encarar aquela paisagem, em alguns momentos até via nós quatro correndo neste mesmo estacionamento. Me peguei pensativa por muito tempo, finalmente desfocando minha mente de Collin, do outono, Nash, a minha infância e ... Ethan. O mesmo tempo que não passava na madrugada de hoje, acabou por se passar muito rápido e quando me dei conta uma hora tinha se passado e Lysa não tinha sequer dado um vestígio de noticia. Saí do carro com o coração de uma mãe, preocupada, correndo para a entrada principal do prédio antigo, a porta rangiu bruscamente quando a abri apenas de um de seus lados, Elyza Ruby Andderson estava encrencada se eu a achasse, era um corredor largo até a sala de ensaio, e depois mais duas escadas íngremes, eu detestava aquelas escadas. No final do corredor, um garoto loiro, Richard Heartlinne o instrutor e a pequena encrenqueira, caminhei sigilosamente como um leão prestes a dar o bote em um antílope, Elyza estava completamente com problemas quando eu colocasse minhas mãos em seus cabelos loiros, ela sorria radiante para o garoto, que parecia ser estrangeiro pelo sotaque. Consegui escutar grande parte da conversa, até ser encarada por Heartline, que expandia um sorriso nostálgico em meio aquelas bochechas caídas da velhice, como se ainda sentisse falta de mim como a pianista do instituto, devolvi o sorriso com um aceno e um breve risco de simpatia em meio aos labios, não o via desde o dia em que tive alta do hospital, como tinha envelhecido. Chamei Lysa incontáveis vezes, mas ela estava tão presa a conversa que se parecia comigo quando me deixava escutar as historias da senhorita Broke a professora de literatura do ano passado, com aquele sotaque americano totalmente cômico. Na tentativa de tomar a atenção da minha irmã, acabei chamando a atenção do garoto com quem ela conversava, Thomas, nós já nos conhecíamos, mas como estava diferente, o Heartline estava tão crescido, aquele sorriso que vinha em minha direção me puxando para um abraço forte era o mesmo que fazia meu coração pulsar cada vez mais forte. Thomas era o irmão mais novo do meu melhor amigo depois do furação Ethan, eu o conheci no hospital logo depois do acidente que me fez perder por muito tempo parte da minha memória e finalmente, depois de anos, nós estávamos frente a frente novamente.
De início, não queria me soltar daquele abraço, mas estava furiosa o suficiente com a caçula para me prender, soltei-me do abraço de uma maneira um tanto brusca, encarando-o com uma saudade sincera, não havia palavras para aquele momento. Lysa caminhou como se estivesse irritada com tudo aquilo, como quando sentia ciúmes de Collin, corri até ela deixando ambos Heartlinne sem dizer nem uma palavra, a princesinha precisava de alguma explicação, e nós bom... Estávamos atrasadas.