Colors
4 Capítulo 3- Collin
Collin.
No meu aniversário de doze anos tio Albert me levou pela primeira vez para caçar cervos fora de Oxford, enquanto Ally dava um sumiço com minha irmã gêmea Lysa pelos cantos da cidade, de certo em algum recital de música. — Era a única coisa que acalmava as duas, para a pequena bivitelina que dividiu o mesmo útero que eu porque a música a fazia sentir e querer expressar todo esse sentimento em sua dança, e à Alyssa pois o fracasso dos pianistas a lembravam de seus tempos de ouro, antes do acidente que tirou o seu maior dom.
Estávamos sós, apenas eu e o meu tio, ele era quase como um pai para mim, aparentemente para Albert caçar ajudava a pensar, ou pelo menos foi o que ele me disse uma vez quando eu o interroguei enquanto ele limpava o cano de sua espingarda, eu tinha apenas oito anos naquela época, mas era inesquecível sua feição, aqueles olhos azuis-oceano brilhavam.
Escutar um cervo agonizando após o abate era traumatizante, era algo como um grito por socorro que vinha da mais fraca corda vocal, me lembro bem dele me contando como era acabar com o sofrimento do animal empunhando a faca bem no pescoço, talvez aquela fosse cena mais marcante de toda a minha vida até hoje de manhã quando eu vi as marcas roxas na perna de Alyssa, ou até aqueles olhos me encararem na cantina.
Não era nada como em um documentário do National Geographic, mas o que eu estava sentindo naquele momento era exatamente a mesma coisa, eu sentia aquele grito de cervo ferido de certa forma entalado na minha garganta, principalmente depois dos 15 segundos que Nancy Mulligan me encarou hoje no intervalo. Aquele olhar de leoa faminta fazia com que todos os pelos do meu corpo se arrepiassem.
N Mulligan tem essa mania de me fazer uma criança amedrontada quando paralisa aqueles olhos verdes caramelados bem no meu semblante, como se ela conhecesse todos os meus segredos, ela era a garota mais estranhamente bonita que eu conhecia, com aqueles cabelos ruivos e suas pequenas manchas sobre a pele, mas o ódio que aqueles doces olhos carregavam conseguiam a transformar em uma pessoa consideravelmente feroz. E eu causava toda essa fúria estava certo disso, Nancy me odiava com todas as forças.
É extremamente difícil evitar um contato visual com quem não vai com a sua cara, aquela garota estava em todos os lugares, era como droga em festas americanas adolescentes. Aula de química, a escolha de parceiros é feita pela senhora Amélia Cravanahg a professora responsável pelas aulas. Adivinhem só, Nancy e eu somos parceiros, que ideia brilhante Amélia! Eu mal conseguia respirar quando aquela imensidão ruiva veio até a minha mesa, ela estava sorrindo? Ou era apenas mais um dos meus delírios.
—Aparentemente eu tirei a sorte grande de estar do lado do irmão da Alyssa Andderson.— Ela disse, distribuindo um pouco do seu estoque sarcástico para a turma, todos riram, afinal, era a Nancy Mulligan— Vamos apenas tentar nos dar bem, ok? — O que era aquilo? Uma trégua? Eu consegui apenas mexer a cabeça, porque você faz isso comigo N?
O falso bom humor da garota quase me fazia esquecer de quem ela era parente consanguínea, por mais que ela me odiasse, o rótulo de melhor garota do colégio a fazia ser gentil com as pessoas que era obrigada a conviver. Nancy era a irmã mais nova de Nash, o namorado de Alyssa, do tipo de caçula "minha garotinha", N Mulligan fazia de tudo para parecer que era a injustiçada nos olhos do irmão, por isso a armadura de boa menina com todos, com a exceção é claro de uma unica pessoa, aquela que sabia do seu segredo mais profundo. Collin Andderson, o espetacular irmão adotivo de sua cunhada, inteiramente e unicamente, eu.
Mas não havia nenhuma reclamação de N, ela era boa em tudo, nos esportes, seu comportamento falsificado de puritana perfeita, em tudo menos em química, eu queria poder tirar vantagem daquilo, pois sem me gabar mas já fazendo, eu era o Andderson do segundo ano, carregava o legado/fardo de ser "o" que tinha a mesma mente de Lilian e Alyssa.
—Ei, C? — Eu estava divagando nas falas da Sra. Cravanahg quando senti uma caneta cutucar o suéter do meu uniforme e consequentemente o meu braço, era a garota de olhar faminto. Como ela conseguia ter esses comportamentos? Uma hora ela estava mansa como um filhote e outro parecia que ia devorar o primeiro que aparecesse. Eu me virei encarando-a como se estivesse resolvendo uma incógnita.— Você pode me explicar isso mais tarde? — Nancy fez a pergunta com exatas mesmas palavras de Amy, o grande amor da minha vida, quando ia pra minha casa estudar com a Ally.
—É claro, Nancy.— Eu sorri, embora Nancy fosse irmã do maior cretino do mundo e me odiasse por odiar seu irmão. Ela estava mansa até demais então ser simpático com ela era apenas uma cortesia.
Por um momento eu fiquei surpreso com as palavras de N, havia esse peso dentro de mim que me forçava a lembrar daquele olhar de lobo solitário de Alyssa e de como a presença de Amy a fazia estar relaxada, falando a verdade aquela garota conseguia deixar todo mundo confortável apenas por sorrir. Eu era completamente apaixonado por aquela garota, e por aquele sorriso, "A" foi o primeiro grande amor da minha vida, não há dúvidas que ainda ela ainda ocupa esse cargo. Até o olhar das duas eram confundíveis, Nancy me assombrava por lembrar tanto a figura do meu primeiro amor.
A aula tomava seu rumo cotidiano, mas minha mente desviava para esta manhã quando Ally sem querer esqueceu de esconder seus hematomas, a minha impressão era que ela não havia caído da escada, aquelas manchas roxeadas estavam metricamente posicionadas para minha teoria, Nash com certeza era o culpado por aqueles machucados tão feios, e aquilo me deixava tão irritado que eu era capaz de matá-lo na mesma hora que meus olhos encontrassem com os deles. Eu estava tão concentrado na minha irmã que não percebi a outra Mulligan me observando com o canto dos olhos, ela certamente queria alguma coisa.
Quando tocou o sinal para sairmos um congestionamento me fez querer enrolar mais um pouco na minha cadeira, eu detestava os horários de troca de sala, eram sempre cheios de gente caminhando de um lugar para o outro, Nancy parecia estar de acordo com a questão das trocas, ela também era sempre uma das últimas a saírem da sala.
— Você pode me explicar hoje a noite? A temporada de provas está para chegar, e eu preciso dessa nota pra passar. — Nancy só não tinha o sorriso de Amy para ser uma atualização mais popular e ruiva do amor da minha vida, eu concordei em ajudá-la desde que ela fosse na minha casa, havia ainda uma sensação de que eu estava esquecendo algo muito importante.
Segui para minha casa como sempre em uma bicicleta velha que eu tinha achado perdida na garagem, Liza tinha me dito que fora a última coisa que papai deixou antes de mudar-se para América. O caminho era longo o suficiente para eu escutar o álbum todo da minha banda favorita no spotify enquanto pedalava atropelando as folhas secas que caiam das árvores. Neste dia, haviam crianças brincando em um monte de folhas, gritando e rindo, eu não sabia o que me irritava mais naquela cena, a felicidade da inocência delas, ou o sentimento nostálgico que batia no meu peito quase me fazendo sufocar. Lembrei-me da época em que Ethan costumava a me trazer aqui antes de mudar-se para a América, foi naquele mesmo dia em que quase perdemos a Ally, a imagem daquele desgraçado sorrindo me assombra todas as noites, ele tinha me deixado sozinho.
Quando voltei a realidade depois de desenhar mentalmente as expressões de Ethan no dia em que ele havia me contado que iria embora eu já estava sentado em um banco no meio daquela praça, observando a trajetória de planar de uma folha enquanto caía.
— "Conto com você, eu não vou mais estar aqui para proteger Ally e Liza" — Murmurei amassando aquela mesma folha antes de que esta caísse no chão.— Se você soubesse o quanto eu falhei em protegê-la... — Naquele momento eu podia sentir todas as minhas forças rezando para que não chorasse. Ethan com certeza saberia o que fazer com Nash em uma situação dessas, ele não era fraco como eu. Alyssa está a salvo agora que ele esta voltando a cidade. — Droga!— Me levantei as pressas, o compasso cardíaco descontrolado, o equilíbrio quase falho sobre as duas rodas daquela velha bicicleta.
Tentava controlar a respiração e me manter enquanto pedalava o mais rápido que podia, passando por aquelas esquinas londrinas me senti como se estivesse flutuando, apenas eu e minha ansiedade solene. No meio destas, algo me chamou atenção, os cabelos negros de uma garota que estava sendo carregada em uma maca para dentro de uma ambulância, não eram desconhecidos; eu via aquela cena em câmera lenta, um dos paramédicos subindo em cima daquela pobre garota, pressionando o tronco contínuas vezes, reanimando seu coração. O sentimento de grito abafado brotou como uma erva daninha no meu peito, acordei com um grito conhecido, era Lisa; com a face traumatizada.
Caí ao ouvir sua voz, haviam algumas escoriações mas não liguei a adrenalina fez a sensação indolor no momento, a minha gêmea chorava enquanto aos berros tentava explicar em palavras, no entanto, eu não conseguia ouvi-la. O sentimento de raiva proliferou quando escutei o nome da minha profilaxia mental, despertador da minha insanidade, vi a face do desgraçado logo atrás parado por alguns oficiais, Nash Mulligan era um indivíduo morto independentemente do que havia feito daquela vez, era Ally naquela maca eu não tinha duvidas. Lisa entrou dentro do veículo que direcionava-se ao hospital mais próximo, ficar encarregado de avisar os outros talvez teria sido a pior ideia; por um momento pensei em tirar algumas satisfações com o namorado de minha irmã, mas haviam outros por perto que acabariam com a diversão. Entrei no carro de Alyssa, segurando a vontade de não chorar, dirigindo-me ao local onde provavelmente Ethan e Albert estavam ao nosso aguardo.
Ao chegar, o borrão carmesim aguardava a porta do casarão, completamente esqueci de Nancy naquele momento, saí sedento, caminhando da rua onde havia parado o carro atravessando o jardim, a figura de Ethan atendia a porta naquele momento logo atrás tio Albert, estava chegando tão perto mas ainda tropeçava em meus pés. Caí novamente, sonoramente suficiente para chamar a atenção de todos, me levantei ainda indolor agora com as lágrimas rolando por meu rosto, a preocupação fazia meu peito arder de ódio e ansiedade a visão focal estava no azul dos olhos do que havia deixado toda a responsabilidade para mim.
— Eu sinto muito, eu... eu não pude protegê-la! E agora ela... Alyssa... Ela está machucada!
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